#TOLERÂNCIA348 - FUI TOLERANTE OU FUI COVARDE?
Fui ao Vasco da Gama às compras da semana, como tantas vezes vou. Só que costumo ir ao sábado, e com calma, mas desta vez fui à sexta e com pressa, é que esperava-me um compromisso familiar.
Na grande nave da estação do metropolitano, logo depois de subir as escadas que lhe dão acesso, fixei os olhos num homem, que eu via de costas, um pouco à minha frente. Um homenzarrão! Sim, lá para os 2 metros de altura. Um pouco mais atrás dele, também de costas para mim, caminhava uma senhora vestida de preto, com um véu também preto, que empurrava um carrinho de bebé.
Primeiro pareceu-me que não tinham ligação um ao outro, que o homem ia por ali completamente indiferente à mulher. Depois ouvi-a a falar, sem perceber nada do que ela dizia, mas o homem percebeu, já que se virou para trás e falou à senhora que, entretanto, parara. Como a senhora não avançou, o homem recuou, chegou-se à senhora. Falavam e reparei que ele mudou para uma cara que primeiro foi de falta de paciência e depois de zangado.
Pelo movimento da senhora, que se deslocou ligeiramente para a esquerda, percebi que ela queria subir para o nível da avenida que liga a estação ao centro comercial pelas escadas rolantes. E chegou-se à pequena plataforma que inicia todas as escadas rolantes. Chegou-se e parou à espera do homem. O homem, de ar contrafeito, chegou-se à senhora pelo seu lado esquerdo. Nesta altura eu já via os dois pela frente, e parei mesmo a ver o que iria acontecer.
O senho continuava de ar zangado e parecia falar rispidamente para a senhora. Quando se calou avançou para os degraus da escada rolante e deixou-se ir sem mais olhar para trás. A senhora nem o seguiu com o olhar. Claramente a preocupação tornou-se em ver como poria o carrinho de bebé — com o bebé dentro, obviamente — a subir os degraus, e o homem parecia estar perfeitamente desligado da
senhora, do carrinho e do bebé.Talvez porque estivesse, pareceu-me, longe das escadas rolantes, não tive o impulso de ir ajudar a senhora. A senhora lá se amanhou como pôde. Os degraus levaram-na, ela ia tensa e contraída; o homem, aparentemente descontraído, chegou ao topo das escadas, pôs-se a andar, deixei de o ver. Enquanto o vi, nunca ele se virou para trás.
Fui à minha vida. Dei-me conta de que ia irritado comigo mesmo. No mínimo, eu deveria ter subido as escadas atrás da senhora, discreto, como quem estava ali absolutamente indiferente a quem estava ou não estava nas mesmas escadas. Deveria, mas não fui.
Aquele homem, que não tinha chegado, de certeza, aos 40 anos, tinha envergadura física para levar ao colo a sen hora, o carrinho e o bebé. A tez de ambos sugeria — é com grande dose de ironia que aqui uso este jeito de observação hoje em tia tão frequentemente usado nos diagnósticos clínicos do corpo e da mente (e ainda hesitei em escrever, em alternativa, que era compatível com) — origem norte-africana ou arábica, a língua quase que garanto que era mesmo o árabe.
Não seria a primeira, nem a segunda, ou mesmo a terceira vez que eu ajudaria uma mãe com um carrinho de bebé a subir ou a descer as escadas do metropolitano, já lhes perdi a conta. Esta vez em que não ajudei, repito, deixou-me irritado.
Fui tolerante? E que tipo de tolerante fui, positivo ou negativo? Não deveria ter sido intolerante? Irritou-me o comportamento do homem, tive pena da senhora, afligi-me com o bebé. Mas o bebé ia protegido pela mãe, a mãe é que ia desamparada, quem é que a protegeria? Ou quem é que a protege? Ou protegerá?
O pensamento saltou-me para a Islândia e a consciência deste salto talvez justifique a inibição do impulso para ir ajudar a senhora. Um dia disseram-me, foi um jovem que vive lá, que se um homem se chega ao pé duma senhora a oferecer-se para ajudar a levar pesados sacos de compras arrisca-se a levar uma valente descasca, quem é ele para julgar que uma senhora não é capaz de carregar assim com pesos, machismo nunca mais!
Há ainda muito, mas mesmo muito, para fazer no campo da Tolerância e da Intolerância humana, pessoal, social, cultural... e ideológica. Seja, mas ainda não me desculpei da hesitação e da inibição. Não, não foi o medo de ser insultado fosse pelo homem ou pela senhora, ou mesmo dum confronto físico (o que já fiz, carregado de cabelos brancos, no Jardim Arco do Cego, é prova de que não estava com medo de levar porrada), isso sim, são atavios estereotipados e preconceituados que ainda carrego automaticamente, e hei-de carregar sempre. Que ninguém tire o cavalinho da chuva, todos temos telhados de vidro.
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