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terça-feira, dezembro 25, 2012

O Pai Natal usa brincos!

Ontem à noite, na Consoada, entre outras histórias, contou-se esta, que se pode, com toda a propriedade, juntar-se aos argumentos que discutem se se deve, ou não, manter as crianças na ilusão da existência do Pai Natal.
Contou a minha comadre que uma das filhas, em pequenina, vivia intensamente a Noite de Natal, os Presentes e, claro, acima de tudo, o Pai Natal.
http://4.bp.blogspot.com/-VswD1QohWCg/UJw9nJbFMoI/
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Num determinado ano, calhou à minha comadre a vez de aconchegar a chegada do Pai Natal, vestindo-se a rigor para esse efeito. Por isso, quando o Pai Natal dessa Noite de Natal chegou lá a casa, a mãe não estava ao pé da filha, que teve de o ficar a ver o hipnotizante senhor de barbas brancas, desamparada da segurança materna, de olhos espantados, fascinados, medrosos!... Assim que a menina, excitadíssima, voltou a ter a mãe por perto, foi contar-lhe tudo o que viu, tudo o que aconteceu, naquele breve momento da presença do Pai Natal.
A menina atropelava, com toda a pressa, pormenores da figura do Pai Natal, do que ele disse, do que ele fez. A determinada altura, na descrição do Velho de Barbas Brancas, a pequenita olhou a mãe, de um e do outro lado da face, e sem interromper o caudal do seu relato,  disse, olhando-a agora nos olhos: "... ele, mãe, tinha uns brincos iguais a esses que tu tens agora..." Depois, continuou a debitar pormenores, enquanto a mãe tentava recuperar, sem se dar por descoberta, do abalo que o delicioso pormenor do discurso da filha lhe causara.
Que coisa bonita!... Esta menina, certamente muito inteligente, arranjou uma maneira de proteger a fantasia excitante, saborosa, que ela gosta de experimentar - e que a mãe também gosta de viver! E, implicitamente, muito diplomaticamente, diz a si própria - e diz à mãe! - que a sua perceção da realidade é correta, se mantém íntegra e que, por sua livre decisão, opta por se deixar levar na "mentira" dos pais e avós porque lhe sabe muito bem a história e a fantasia, sobretudo naquela ambiência familiar em que todos se acarinham e aconchegam uns aos outros.
Por isso, e sem querer esgotar - ou sequer, discutir - o assunto, enquanto psicólogo, aconselharei a que, diga-se o que se diga sobre o Menino Jesus e o Pai Natal, ou diga-se o que se disser para os negar na celebração do Natal, o mais grave ou condenável é ofender a inteligência e o bom juízo percetivo das crianças. Negar rigidamente o que a criança consegue ver ou percecionar é deturpar-lhe a capacidade de observar e entender a realidade que a envolve; e fazer opções, de acordo com as suas motivações e valores. Se a criança quer brincar ao "frisson" da Noite do Pai Natal, porque não deixá-la?... Este tipo de fantasias não afastam as crianças para muitos fantásticos e irreais; pelo contrário, podem ser bons instrumentos para a ajudarem a envolver-se mais ativamente na sua cultura de pertença e a ser mais tolerante com culturas diferentes da sua.

O NATAL NA PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL

O PRIMEIRO NATAL NA PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL.
Agradeço ao meu amigo Luís Bettencout Moniz
a partilha desta  fotografia espantosa
Agradeço à minha colega Sofia Barros
a partilha desta fotografia
A primeira guerra mundial começou a 28 de julho, com a declaração de guerra do Império Austro-húngaro à Sérvia. Por isso, o Natal de 1914 veio já com a guerra a fazer-se. Contudo, aconteceu esta coisa espantosa: ao longo da frente ocidental, na Véspera de Natal, soldados de ambos os lados trocaram entre si cânticos de Natal. Na manhã do dia 25, contrariando ordens do comando, soldados alemães saíram para fora das trincheiras e aproximaram-se das tropas aliadas adversárias, entoando o "Merry Christmas" em inglês. Soldados ingleses saíram também das suas posições, e trocaram-se saudações, abraços e cigarros. Este extraordinário acontecimento, que mostra a força da celebração natalícia e a força da do jeito humano que nos põe a reconhecer os outros como iguais a nós próprios ficou guardado na história das guerras como "A trégua do Natal". Ao que parece, as versões oficiais das Histórias da Primeira Guerra Mundial tentaram manter escondido, ignorado, este episódio extraordinário de humanidade, mas, felizmente, sem sucesso.


Este acontecimento é recordado numa das mais recentes edições da Times, que junta mais 9 ocorrências invulgares da época natalícia.
http://www.time.com/time/specials/packages/article/0,28804,1868506_1868508_1868515,00.html

sábado, dezembro 31, 2011

Ainda a entrada em 2012 - A SIMPLICIDADE DA AMIZADE


Minha querida Sandra,
Está por fazer o estudo sociológico que mostre quantas vezes os desejos intensamente formulados à entrada de cada novo ano se transformaram em realizações concretas que mudaram ou marcaram a vida das pessoas no sentido antecipado nesses votos. Queres que eu te diga qual é a minha ideia? Nunca! É isso, nunca!
Por isso, e se tomasse para mim o sentir, muito cético, muito descrente, de um dos personagens escritores de Fernando Pessoa, eu diria que a passagem de ano não é nada mais do que um divertimento. Um divertimento que, tal qual como o Natal, está fortemente marcado por seduções para gastarmos dinheiro.
As diferenças com o Natal são basicamente duas: a primeira é que, enquanto no Natal somos levados a gastar dinheiro com os outros, na Passagem de Ano, gastamos o dinheiro connosco próprios. A outra diferença é que o Natal pede recolhimento em família e o Ano Novo pede expansão para a “molhada”.
Pela minha parte, sou um fervoroso defensor da festa do Natal. Sabes que mais, neste ano, o ano em que a “Crise”, a crise que económica (e política… e moral…) nos tocou como há muitos anos não acontecia – provavelmente, desde que me dou conta de estar vivo, a crise mais injusta de todas -, as prendas que pus nos sapatinhos dos meus familiares e amigos nunca custaram tão pouco dinheiro, coisa curiosa!, se há coisa que poderá perdurar por muitas gerações futuras da nossa família são precisamente essas prendas!
Quanto à festa de Ano Novo, é verdade, quando tinha a tua idade, e durante alguns anos depois, entusiasmei-me e aprumei-me para as festas de Passagem de Ano. E diverti-me muito com elas, claro!
Por isso, Sandra, te digo: diverte-te! Entusiasma-te com o momento de cair o Ano Velho e entrar triunfalmente o Ano Novo! Mas não ponhas na ilusão dos votos que agora formulas uma intensidade que depois se arrisque a trazer (não será mais correto dizer: renovar?) desapontamentos da mesma medida.
Se a algum de nós os dois cabe pegar no papel do Velho do Restelo, naturalmente é a mim, não a ti. Aqui estou, por isso, a cumprir-me.
Pela consideração e carinho que tu me mereces; pela ilusão genuína e sincera que é natural que tenhas da vida; e porque muito repeti a curta troca de palavras que o meu Mestre João dos Santos tantas vezes repetiu aos seus alunos, em que ele se interrogava se um projeto em que punha muita ambição não seria uma utopia, e a sua amiga Violante lhe respondeu: “Utopia?... Pois que seja, se é uma utopia, é precisamente por aí que é o caminho!...”; portanto, querida Sandra, por isto tudo, vou alinhar contigo e vou sinceramente formular dois votos para 2012.
O primeiro, vou deduzi-lo de um conto tradicional africano.
Diz assim o conto, que tem o título “A simplicidade da amizade”:
“Dois amigos viviam em duas aldeias distantes uma da outra. Uma noite veio uma grande tempestade e não havia luar. Mas um dos amigos levantou-se e sentiu vontade de ir visitar o outro. Pôs-se a caminho, embora tivesse medo que um raio lhe caísse em cima ou o fantasma da noite o viesse comer. Não parou enquanto não chegou junto da cabana do amigo. Estava todo molhado, como se tivesse caído a um rio, mas levou para a cabana lenha seca e enxuta. Entrou e acendeu uma fogueira. Depois começou a cozer arroz para oferecer ao amigo, que entretanto tinha acordado.
O amigo, ao vê-lo junto da fogueira, perguntou-lhe:
- Porque é que vieste de noite, com este temporal?
- Porque senti desejo de estar junto de ti. Será que o temporal te pediu licença para vir?"
Ora, o primeiro desejo que formulo para 2012 é precisamente este: que tenhamos – e sejamo-lo nós também – amigos que se cheguem a nós, mesmo durante a tempestade.
Quanto ao segundo desejo, faço-o a partir da notícia que ouvi hoje de manhã no telejornal. Já ontem à noite a tinha ouvido também. Faço votos que em 2012 nasçam mais bebés que em 2011, que foi, desde que há registos sistemáticos, um dos dois anos com mais baixo número de nascimentos.
Mil beijinhos, Sandra! Tenho a certeza de que nos encontraremos, não obstante as tempestades!
(Esta carta segue praticamente sem ser revista, eventualmente ainda a corrigirei num ou outro ponto, é preciso é que não perca oportunidade. Tenho de ir para a cozinha tratar de fazer uns miminhos para esta noite… é menos por ser a passagem de ano, é mais porque o meu sobrinho açoriano mais velho nasceu precisamente na noite de passagem de ano, ainda cheirava a fogo de artifício. Que renovação maior se pode querer quando se passa de um ano para o outro?)

quarta-feira, dezembro 21, 2011

Natal 2011 - Confissão de um alquimista


O meu menino jesus deste ano.
No que diz respeito ao Natal, há muito que tenho o espírito e o entusiasmo de um alquimista. Se bem me conheço,  tenho e sempre continuarei a ter esse espírito e esse entusiasmo. Pegar em reagentes que, em si, praticamente são nada e fazê-los, misturando-os, transformarem-se em ouro, não, isso não me interessa. É verdade, isso não me interessa, ou melhor, sou suficientemente sábio para me reduzir ao pouco que valho e, assim, só me resta admitir para mim próprio que não conseguirei nunca fazer o que tantos, muito melhores do que eu, têm tentado, há milhares de anos, repetidamente, obter, sem sucesso.
Vou fazer-vos uma confissão: a minha alquimia, o meu grande desejo, é juntar o Menino Jesus e o Pai Natal num só. Pronto,  já disse!... Está dito!
De há 2 ou 3 anos a esta parte, o Pai Natal não tem parado de escrever aos meus alunos, até já das Maldivas, nas férias de Verão deste ano, ele escreveu! Sim senhor, o Pai Natal escreveu aos meus alunos, ali está bem marcado nos postais, o carimbo de correio das Maldivas, carimbo verdadeira, sem enganar ninguém! E assinadinho à mão: P-a-i-N-a-t-a-l! Há dias, recebemos mais um postal, este agora – só podia ser! -  da Finlândia! Escrevi-lhe, logo de seguida, para Rovaniemi, um email a agradecer e ele já me respondeu a dizer que esperasse, que não era tudo! Que a caminho vinha outro postal dele, escrito em finlandês, imagine-se. Postal escrito sem medo que a gente não o percebesse! O Pai Natal sabe que a gente usa a Internet e sabe que conhecemos e usamos o tradutor do Google. Esta ferramenta da Net dá mesmo jeito!
Todos os anos – e este ano não foi exceção, até para os meus alunos do 12.º ano -, o Pai Natal, de cada vez que eu leio, ou faço ler, as suas cartas nas aulas, fica sujeito ao desdém de quem, de cara desconfiada e boca torcida para o lado, os dentes exibidos em insolência quase agressiva, arranha as venenosas palavras: “Isso é tudo treta!... Foi o “stôr” que escrever a carta, o Pai Natal não existe!...” O Pai Natal está habituado a estas saídas da malta jovem. Ouve e sorri, cheio de carinho e tolerância.
Seguem-se sempre, depois, confrontos de argumentos, em que o desafio a que me proponho é convencer sem nunca fugir à verdadeira verdade. São bem mais as vezes que consigo que as que não consigo.
Senhores, já viram bem o rosto da mais cética das criança ou do mais cético dos  jovens quando sinceramente põem na sua consciência, levada por emoções que irrompem a partir do espanto genuíno, a ideia de que o Pai Natal possa existir? Que lindos ficam! Vale ou não vale a pena despertar emoções, ou dúvidas, assim?
Há muitos anos, numa história que já contei, o Nelson, num Natal que tudo lhe dizia que iria ser triste como tinham sido todos os outros Natais da sua vida, acreditou que o Pai Natal existia. E isso mudou o Natal daquele ano! Porque teve mais prendas?... Porque viu o Pai Natal?... Não, simplesmente porque acreditou. Talvez ainda hoje ele diga que foi o melhor Natal da sua vida.
Senhores, já se deram bem conta da experiência emocional que é acreditar que pode existir uma pessoa bondosa, amiga, gordinho, anafadinho de coisas lindas e encantadoras para toda a gente, como é a pessoa do Pai Natal? Como passamos nós a olhar as pessoas à nossa volta quando começamos a acreditar como o Nelson acreditou?... Todos nos parecem bons e com todos nos apetece estar. E queremos que se sintam tão alegres quanto nós próprios. O Pai Natal só desperta sentimentos bons e positivos!
Sim, que bom é sentir que o Pai Natal existe, que ele vai vir a nossa casa; que bom é pensar que, quem sabe?, um dia vamos vê-lo!... Não veio este ano?, não faz mal, se calhar não pode, ele tem de andar por tantos lados… se calhar, até veio, eu é que não consegui vê-lo… E, com o tempo, descobre-se outra coisa: que cada um de nós pode brincar ao Pai Natal, descobre-se que cada um de nós pode fingir que é o Pai Natal. Descobre-se que cada um de nós pode chegar-se a uma criança e fazer acontecer nela aquele momento – tão saboroso! - em que as crianças tomam contacto com aquele senhor tão bondoso, tão amigo das crianças e de todas as pessoas. Que bom é sentirmos estar em contacto com pessoas boas! Que bom é fazermos uma criança sentir-se interiormente tão bem! Não é bom termos todos uma experiência emocional assim?
Se o Pai Natal nos traz a experiência emocional da bondade abastada, o Menino Jesus traz-nos o outro lado do tempo do Natal. O lado do amor da família, o lado do aconchego do lar, mesmo no casebre mais pobre de todos. A paternidade biológica do Menino Jesus põe-nos perante problemas de compreensão que pedem asas ou rasgos de pensamento que vão – também, como no caso do Pai Natal – bem para além do que a nossa condição racional nos deixa chegar. Deparamo-nos outra vez com a capacidade de acreditar. De acreditar e de sentir. E, outra vez, não é bom sentir? Não é bom acreditar? Qual de nós não sente o coração cheio de ternura e compaixão quando pensa no e sente o Menino Jesus?
Os tempos que vivemos estão a tirar-nos o saco das prendas do Pai Natal. Balançamos entre as duas alternativas: olhar tragicamente para a vida à nossa volta e para o que nos dizem dos anos que aí vêm; ou fazer, outra vez, a experiência renovadamente reconfortante das Boas Festas e do aconchego natalício.
No seu tempo, em 1883, e ao seu jeito, Eça de Queiroz, na véspera de Natal, escrevia a Jaime Batalha Reis e dava conta ao seu amigo da ambivalência que lhe ia na alma entre trabalhar e a si próprio se “dar feriado de Natal”. Logo a seguir afirmava o desapontamento da resolução. E prometia ao seu amigo que, assim que pudesse, se chegaria a ele para lhe dar um abraço.
Noutras culturas, as que não contêm a matriz da mensagem cristã, o Natal não existe, a ambivalência não acontece. Certamente nessas culturas, as pessoas, geração após geração, encontraram outras formas de sentir a existência de gente genuinamente boa e também de sentir a possibilidade da abastança partilhada; de sentir o prazer da teia de laços afetivos entre gente que se conhece e ama, mesmo quando tudo à nossa volta nega a experiência da abastança. Estas crenças têm diretamente a ver com necessidades humanas básicas, por isso aparecem em todas as culturas, mesmo que com formas diferentes.
Que é, na verdade, o Natal sem a crença sincera no Menino Jesus e no Pai Natal? Que experiência de laços afetivos, que sabor é que o Natal do 25 de Dezembro tem, na nossa cultura de origem, se pusermos o Menino Jesus e o Pai Natal fora das nossas casas, dos nossos lares, do borralho que sempre fez parte das nossas tradições familiares?
Pensando bem, depois disto tudo, interrogo-me se devo mesmo continuara a tentar o dois em um, quer dizer, juntar o Pai Natal e o Menino Jesus, ou se será melhor que a gente continue a tê-los separados. Às tantas…
Muito bem, enquanto o pau vai e vem folgam as costas, não é verdade? É sim senhor. Se as coisas correrem bem, vai acontecer-me o mesmo que aos alquimistas do ouro. A crença que atingirei, mesmo que apenas no fim dos tempos, o meu desiderato (juntar, num só, o Pai Natal e o Menino Jesus), alimenta em mim, tal como em todos os alquimistas, a experiência afetiva do entusiasmo e o sabor gostoso que essa experiência nos deixa e que, depois, espalhamos na nossa relação com os outros. E, mesmo que a alquimia me traga só isso, sem nunca vir a trazer o tal “dois em um”, vale bem a pena!
Vá, não posso deixar os reagentes ali entregues, inertes, a eles próprios. Perderiam a competência para reagir. Deixem-me voltar para o laboratório secreto da minha alquimia. Um dia vou conseguir! Tenho a certeza! Se alguém quiser ajudar, força! Apareça!
Se acreditarem, como eu acredito, que pode haver algures, no mundo, um homem muito bondoso (ele às vezes disfarça as barbas brancas, ou a roupa vermelha), que deseja convictamente levar à satisfação dos sonhos de criança; se acreditarem, como eu acredito, que há um menino de família humilde (fale ou não a nossa língua) que quer ver todas as famílias aconchegadas na alegria de partilharem a carinhosa mesa da Consoada…
pois então, apareçam, que eu vou mostrar-vos todas as fórmulas que já tentei; talvez assim juntos consigamos chegar à fórmula definitivamente boa.
Votos de um Santo Natal, cheio de Sonhos que renovem em todos nós o prazer de estarmos juntos e caminharmos confiantes e entusiasmados ao encontro do Futuro!

quinta-feira, dezembro 16, 2010

O Natal não é ornamento: é fermento

Com este poema abro a época do Natal neste blogue, esperando que muitos mais outros se juntem.
Conheci-o pelas mãos do Acúrcio, irmão de tantos sonhos, entusiasmos e realizações, partilhados nessa enorme e mágica fornalha que é o espaço da escola Eça de Queirós.
O primeiro verso, sozinho, é já um poema, já não seria preciso ler mais nada.
Obrigado, mano!

O Natal não é ornamento: é fermento
É um impulso divino que irrompe pelo interior da história
Uma expectativa de semente lançada
Um alvoroço que nos acorda
para a dicção surpreendente que Deus faz
da nossa humanidade

O Natal não é ornamento: é fermento
Dentro de nós recria, amplia, expande

O Natal não se confunde com o tráfico sonolento dos símbolos
nem se deixa aprisionar ao consumismo sonoro de ocasião
A simplicidade que nos propõe
não é o simplismo ágil das frases-feitas
Os gestos que melhor o desenham
não são os da coreografia previsível das convenções

O Natal não é ornamento: é movimento
Teremos sempre de caminhar para o encontrar!
Entre a noite e o dia
Entre a tarefa e o dom
Entre o nosso conhecimento e o nosso desejo
Entre a palavra e o silêncio que buscamos
Uma estrela nos guiará

                                 José Tolentino Mendonça

domingo, dezembro 05, 2010

Um pré-conto de Natal

Hoje, de manhã, quando entrei no supermercado com uma lista grande de legumes para comprar (já se me acabaram praticamente todos cá em casa) quase esbarrei com um expositor temporário de cartões de Natal. Todos da Unicef. Nas duas prateleiras mais perto do chão tinha bonequinhos de peluche e carrinhos (o jipe azul, com a cruz branca, da Unicef).
Já depois de me ter decidido a quantidade de cartões a comprar, e depois de ter optado pelos pacotes de seis em vez das caixas de dez (afinal, mais caras); quando estava a escolher os desenhos, uma senhora chegou-se ao expositor e pegou logo num dos bonequinhos. "Olha, e se for isto?..." Sem olhar, percebi, pela resposta, que estava a falar com a filha. "Eu acho que os meninos não vão gostar disso..." Eu continuava a escolher os desenhos dos meus cartões. O que ouvi a seguir fez-me decidir não olhar mesmo para o meu lado direito: "Azar o deles..." foi a reação da mãe. A frase saiu-lhe da boca com rudeza explosiva! Fez-se um breve silêncio, a filha estaria a pensar no que a mãe tinha acabado de dizer. Depois percebi que estariam a fazer uma compra para um qualquer projeto de ajuda a crianças institucionalizadas, fazê-las felizes numa festa de Natal. Pouco depois, a menina repetiu: "Eu acho que os meninos não vão gostar desses bonecos..." Desta vez a mãe já não respondeu nada. Acabou por se voltar para a filha e perguntou-lhe: "Qual dos bonecos é que gostas mais?" Veio-me à cabeça que o que a senhora agora tentava fazer era comprar a cumplicidade da filha, os meninos não gostariam, certamente, mas sempre poderia vir a dizer que tinha sido a filha a escolher, e, assim escudada na ingenuidade pura e oblativa das crianças, a perversidade da escolha - da sua escolha, escolha de mãe - ficaria "genialmente" disfarçada. A menina continuou a ser muito mais lúcida, honesta e companheira do que a mãe: "Eu gosto mais deste, mas já te disse mãe, os meninos não vão gostar..."
A mãe baixou-se, esticou o braço mais duas ou três vezes, a pegar em bonecos, e finalmente escolheu um: "Vai este..." E foram embora.
Não cheguei a ver se acabou por levar o que a filha tinha dito que tinha gostado mais ou não, fixei-me só nas vozes e não pude deixar de ver, pela visão periférica, os gestos e as movimentações dos corpos.
Só depois de se afastarem é que olhei os bonecos. Pelo seu preço, pareceu-me que seria uma prenda convidativa; e pensei que os bonecos não seriam assim tão desagradáveis para as crianças, fossem elas quais fossem, a quem as meninas se referia.
Mas não era isso que era o cerne da questão, eu sabia-o bem. O cerne estava naquele "azar", pelo que ele denunciava dos verdadeiros sentimentos da mãe; e pelos efeitos que comportamentos assim têm na progressiva (des)educação das crianças e na sua formação moral, social e solidária.
Neste episódio - significativo episódio - quem foi sincera, tolerante e dialogante, foi a criança! Que virá a acontecer a estes valores ao longo do seu desenvolvimento pessoal?...

sexta-feira, dezembro 25, 2009

2009, o meu conto de Natal

25 de Dezembro. Vêm duas senhoras ao quarto para lavar a minha mãe e arranjarem-lhe a cama. Aproveito para ir tomar um café. Talvez o bar da entrada do hospital esteja aberto. Mas é Natal… talvez não esteja…
Sim, estava aberto. O lugar que parecia naturalmente destinado a mim era ali, naquele espaço de balcão entre dois sujeitos, qualquer um deles mais alto do que eu. O da minha esquerda, nitidamente mais velho. O da minha direita, nitidamente mais novo. Ambos vestiam aparentando ser pessoas “remediadas”, como ainda há bem pouco se costumava dizer.
O homem mais novo, o da minha direita, queria pão, perguntou à senhora do lado de lá do balcão se tinha pão. Sim, tinha, mas não era de hoje. O senhor hesitou, se não era de hoje… Parecia que vinha buscar pão para o almoço do dia de Natal, para a mulher e os filhos, queria uns sete ou dez, mas assim, de ontem…
O homem mais velho, à minha esquerda, disse que o pão de véspera era pão bom. O outro concordou, sim, o pão do dia anterior às vezes até sabia melhor que o do dia. Parecia que queria matar dois coelhos de uma só cajadada: ser simpático para com o outro senhor e convencer-se a si próprio de que o pão da véspera era bom.
Sim, ia levar o pão. Se a senhora tivesse, olhe, ele até levava doze. Ai tinha?... Então eram mesmo doze.
Enquanto a senhora foi lá dentro ensacar o pão e eu bebia o meu café, o sujeito da minha esquerda, como que para ocupar o vazio de silêncio que parecia querer cair ali no meio de nós os três, lembrou que no tempo dele – e eu imaginei-o nesta altura a pensar nos seus netos – o pão era de mais dias, era mesmo de muitos mais dias, até o pão com bolor se comia todo.
Aquecia-se água, deixava-se ferver um pouco o pão nessa água e o bolor “ia-se todo naquela água”. Depois arrefecia e comia-se. Por isso achava engraçado que hoje em dia as pessoas achassem que o pão da véspera já não prestava.
O sujeito à minha direita quedou-se a pensar. E eu quedei-me a vê-lo pensar. Voltei-me para o “meu avô” e ele agora olhava para lá da parede em frente dele, perdido no longínquo mar das memórias... Até que desabafou: “Dizem que é ó tempo volta p’ra trás, não é?... Ainda bem que não…”
O “meu pai” pegou no saco com as doze carcaças, perguntou quanto devia e pagou.
Eu tinha decidido demorar o meu café para não perder bocadinho que fosse daquele diálogo. Pela minha visão periférica, apercebia-me dos movimentos de cabeça de um e de outro, ora a olharem-se um ao outro, ora a olharem em frente, só com a parede do fundo à frente deles.
Mas agora que o sujeito do pão se ia embora olhei-o directamente. Por cima do meu olhar, sem que do meu olhar se apercebesse, ele olhou o “avô” seu interlocutor, fez-lhe um aceno e desejou-lhe boas-festas. O outro esboçou vagamente um sorriso e voltou a envolver-se com as suas memórias, as memórias do que foram duros natais, natais de tantos dias, dos tais tantos dias do ano que, assim, com o pão bolorento, nos demonstram que, afinal, o natal não é sempre que um homem quiser.

Atrás de mim, a minha mãe agora dorme. Já há algum tempo, no ecrã que mostra a informação que os fios que caem sobre ela recolhem, os números que se actualizam constantemente mantêm-se na cor verde e não apitam mais no amarelo, nem no vermelho. As apitadelas dos números vermelhos punham enfermeiros e enfermeiras a entrarem no quarto correndo. Os gráficos sinusoidais são menos claros para mim, mas parecem-me agora, sem dúvida, mais harmoniosos entre si.
Não sei se alguma vez ela comeu pão com bolor fervido, ainda um dia lho perguntarei. Mas lembro-me, por exemplo, das histórias da sardinha - uma só - repartida com um dos irmãos. E outras histórias.
Como escreve David Mourão-Ferreira, um dia haverá um primeiro Natal que será feito para sempre sem ela.
Consola-me a inquebrantável certeza que, se a lei natural da saúde e das gerações o permitir, até que esse venha, nenhum ela passará sem a presença aconchegadora de um dos filhos. Se calhar, colhe o que semeou. O que pôde semear.
Fernando Pinto, Horta (Faial) 25 de Dezembro de 2009

quarta-feira, dezembro 23, 2009

Olá Miguel! Um grande abraço!

Voltei ao café do aeroporto onde conheci, por acaso, o Miguel Guerreiro.
Na fila estavam três pessoas à minha frente. Olhei para trás, o Miguel e a mãe não estavam ali. Aliás, não estava ninguém atrás de mim.
Voltei-me outra vez para a frente. A moça que estava a receber os pré-pagamentos, três vezes eu a vi receber dinheiro e entregar trocos e talões; duas vezes a vi saudar os clientes com brevíssimos bons-dias. Nunca a vi olhar qualquer um dos passageiros.
Eu estava bem-disposto. Vinham-me à memória as lembranças daquele dia com o Miguel, os seus pais e o João Marrana. E da manhã seguinte, inesperadamente outra vez ao pé deles, no hotel na Terceira.
Quando chegou a minha vez de fazer o pedido, já de porta-moedas na mão disse para a menina: "Bom dia e bom Natal". A menina interrompeu o gesto automático que iniciava com o indicador da mão direita apontado ao teclado da máquina registadora, olhou para mim, fixou-me, sorriu, devolveu-me os bons-dias e retribuiu-me os votos.
Depois de me dar o café que pedi, tal como pedi no dia do Miguel, voltou a olhar-me, voltou a sorrir-me e desejou-me boa viagem.
- Vês, Miguel, como é fácil fazer bem às pessoas? Um grande abraço! Falamos um dia destes.

quarta-feira, dezembro 16, 2009

A cadeia fez-se: o Natal da Eduarda

Foto: mdlr o4o4 - ramagem de abeto (Abies spp.)

NATAL À BEIRA DO RIO
É o braço do abeto a bater na vidraça!
É o ponteiro pequeno a caminho da meta!
Cala-te, vento velho! É o Natal que passa,
a trazer-me da água a infância ressurrecta.

Da casa onde nasci via-se perto o rio.
Tão novos os meus Pais, tão novos no passado!
E o Menino nascia a bordo de um navio
que ficava, no cais, à noite iluminado...
.
Ó noite de Natal, que travo a maresia!
Depois fui não sei quem que se perdeu na terra.
E quanto mais na terra a terra me envolvia
mais da terra fazia o norte de quem erra.
.
Vem tu, Poesia, vem, agora conduzir-me
à beira desse cais onde Jesus nascia...
Serei dos que afinal, errando em terra firme,
precisam de Jesus, de Mar, ou de Poesia!
.
David Mourão-Ferreira, Cancioneiro de Natal (1971)

terça-feira, dezembro 15, 2009

NATAL DE QUEM? pergunta a Manuela

A minha colega e amiga Manuela mandou-me o seguinte poema, dizendo, no fim do seu e-mail:

"O meu mais belo poema de Natal.

Vamos transmitir aos mais novos o que celebra o Natal, ainda estamos a tempo!!!"

Obrigado, Manuela! Vamos a isso!

NATAL DE QUEM?

Mulheres atarefadas

Tratam do bacalhau,

Do peru, das rabanadas.

- Não esqueças o colorau,

O azeite e o bolo-rei!

- Está bem, eu sei!

- E as garrafas de vinho?

- Já vão a caminho!

- Oh mãe, estou pr'a ver

Que prendas vou ter.

Que prendas terei?

- Não sei, não sei...

Num qualquer lado,

Esquecido, abandonado,

O Deus-Menino

Murmura baixinho:

- Então e Eu,

Toda a gente Me esqueceu?

Senta-se a família

À volta da mesa.

Não há sinal da cruz,

Nem oração ou reza.

Tilintam copos e talheres.

Crianças, homens e mulheres

Em eufórico ambiente.

Lá fora tão frio,

Cá dentro tão quente!

Algures esquecido,

Ouve-se Jesus dorido:

- Então e Eu,

Toda a gente Me esqueceu?

Rasgam-se embrulhos,

Admiram-se as prendas,

Aumentam os barulhos

Com mais oferendas.

Amontoam-se sacos e papeis

Sem regras nem leis.

E Cristo Menino

A fazer beicinho:

- Então e Eu,

Toda a gente Me esqueceu?

O sono está a chegar.

Tantos restos por mesa e chão!

Cada um vai transportar

Bem-estar no coração.

A noite vai terminar

E o Menino, quase a chorar:

- Então e Eu,

Toda a gente Me esqueceu?

Foi a festa do Meu Natal

E, do princípio ao fim,

Quem se lembrou de Mim?

Não tive tecto nem afecto!

Em tudo, tudo, eu medito

E pergunto no fechar da luz:

- Foi este o Natal de Jesus?!!!

(João Coelho dos Santos

in Lágrima do Mar - 1996)


quarta-feira, dezembro 09, 2009

Mensagem de Natal 2009

Há pouco fui chamado a resolver um problema delicado. A pessoa com quem falei estava tensa, grave, muito preocupada. Quando a conversa acabou, estava já tranquila. Olhou-me, estendeu-me a mão, sorriu-me e desejou-me um bom Natal.
Nesse momento tomei consciência de que a festa grande desta época do ano acabava de voltar.
- O que é o Natal?... é a pergunta que vai e volta, todos os anos, mais ou menos por esta altura. E todas as vezes a gente tenta dar uma resposta nova, diferente.
- O Natal é sentirmo-nos em casa, à volta de memórias, do convívio e de sonhos, pensei eu.
Nos mais pequenos há mais sonhos do que memórias, nos mais velhos há mais memórias do que sonhos. O convívio de todos é o convívio possível, em que se fazem votos para que o possível seja igual ao desejo. O desejo é sempre cheio de paixão e de amor.
Tantas vezes que os sonhos dos mais pequenos são a alegria dos mais velhos e as memórias dos mais velhos fazem as delícias dos mais pequenos!...
Não sou nada original a dizer que escrevi esta (pretensiosa) mensagem de Natal “aos ombros de dois gigantes”: Fernando Pessoa e Eugénio de Andrade.
Fernando Pessoa escreveu “A minha pátria é a minha língua”.
Eugénio de Andrade, por seu lado, escreveu o poema que a seguir transcrevo:
O sal da língua
Escuta, escuta: tenho ainda
uma coisa a dizer.
Não é importante, eu sei, não vai
salvar o mundo, não mudará
a vida de ninguém - mas quem
é hoje capaz de salvar o mundo
ou apenas mudar o sentido
da vida de alguém?
Escuta-me, não te demoro.
É coisa pouca, como a chuvinha
que vem vindo devagar.
São três, quatro palavras, pouco
mais. Palavras que te quero confiar,
para que não se extinga o seu lume,
o seu lume breve.
Palavras que muito amei,
que talvez ame ainda.
Elas são a casa, o sal da língua.
Nas palavras cabem os sonhos, cabem as memórias e cabe o convívio. Cabem o entendimento e a tolerância.
E os votos de Feliz Natal!
Até p’ró ano!
Um xi-coração grande, grande, grande, do
Fernando Pinto