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domingo, dezembro 30, 2012

Mensagem de Ano Novo 2013 (no fundo, dá para qualquer ano...)


Bem, depois desta receita, o que fica, realmente, de importante para dizer?...

RECEITA DE ANO NOVO, de Carlos Drummond de Andrade

Para você ganhar belíssimo Ano Novo 
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz, 
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido 
(mal vivido talvez ou sem sentido) 
para você ganhar um ano 
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras, 
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser; 
novo 
até no coração das coisas menos percebidas 
(a começar pelo seu interior) 
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota, 
mas com ele se come, se passeia, 
se ama, se compreende, se trabalha, 
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita, 
não precisa expedir nem receber mensagens 
(planta recebe mensagens? 
passa telegramas?) 

Não precisa 
fazer lista de boas intenções 
para arquivá-las na gaveta. 
Não precisa chorar arrependido 
pelas besteiras consumadas 
nem parvamente acreditar 
que por decreto de esperança 
a partir de janeiro as coisas mudem 
e seja tudo claridade, recompensa, 
justiça entre os homens e as nações, 
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal, 
direitos respeitados, começando 
pelo direito augusto de viver. 

Para ganhar um Ano Novo 
que mereça este nome, 
você, meu caro, tem de merecê-lo, 
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil, 
mas tente, experimente, consciente. 
É dentro de você que o Ano Novo 
cochila e espera desde sempre.

sábado, dezembro 31, 2011

Ainda a entrada em 2012 - A SIMPLICIDADE DA AMIZADE


Minha querida Sandra,
Está por fazer o estudo sociológico que mostre quantas vezes os desejos intensamente formulados à entrada de cada novo ano se transformaram em realizações concretas que mudaram ou marcaram a vida das pessoas no sentido antecipado nesses votos. Queres que eu te diga qual é a minha ideia? Nunca! É isso, nunca!
Por isso, e se tomasse para mim o sentir, muito cético, muito descrente, de um dos personagens escritores de Fernando Pessoa, eu diria que a passagem de ano não é nada mais do que um divertimento. Um divertimento que, tal qual como o Natal, está fortemente marcado por seduções para gastarmos dinheiro.
As diferenças com o Natal são basicamente duas: a primeira é que, enquanto no Natal somos levados a gastar dinheiro com os outros, na Passagem de Ano, gastamos o dinheiro connosco próprios. A outra diferença é que o Natal pede recolhimento em família e o Ano Novo pede expansão para a “molhada”.
Pela minha parte, sou um fervoroso defensor da festa do Natal. Sabes que mais, neste ano, o ano em que a “Crise”, a crise que económica (e política… e moral…) nos tocou como há muitos anos não acontecia – provavelmente, desde que me dou conta de estar vivo, a crise mais injusta de todas -, as prendas que pus nos sapatinhos dos meus familiares e amigos nunca custaram tão pouco dinheiro, coisa curiosa!, se há coisa que poderá perdurar por muitas gerações futuras da nossa família são precisamente essas prendas!
Quanto à festa de Ano Novo, é verdade, quando tinha a tua idade, e durante alguns anos depois, entusiasmei-me e aprumei-me para as festas de Passagem de Ano. E diverti-me muito com elas, claro!
Por isso, Sandra, te digo: diverte-te! Entusiasma-te com o momento de cair o Ano Velho e entrar triunfalmente o Ano Novo! Mas não ponhas na ilusão dos votos que agora formulas uma intensidade que depois se arrisque a trazer (não será mais correto dizer: renovar?) desapontamentos da mesma medida.
Se a algum de nós os dois cabe pegar no papel do Velho do Restelo, naturalmente é a mim, não a ti. Aqui estou, por isso, a cumprir-me.
Pela consideração e carinho que tu me mereces; pela ilusão genuína e sincera que é natural que tenhas da vida; e porque muito repeti a curta troca de palavras que o meu Mestre João dos Santos tantas vezes repetiu aos seus alunos, em que ele se interrogava se um projeto em que punha muita ambição não seria uma utopia, e a sua amiga Violante lhe respondeu: “Utopia?... Pois que seja, se é uma utopia, é precisamente por aí que é o caminho!...”; portanto, querida Sandra, por isto tudo, vou alinhar contigo e vou sinceramente formular dois votos para 2012.
O primeiro, vou deduzi-lo de um conto tradicional africano.
Diz assim o conto, que tem o título “A simplicidade da amizade”:
“Dois amigos viviam em duas aldeias distantes uma da outra. Uma noite veio uma grande tempestade e não havia luar. Mas um dos amigos levantou-se e sentiu vontade de ir visitar o outro. Pôs-se a caminho, embora tivesse medo que um raio lhe caísse em cima ou o fantasma da noite o viesse comer. Não parou enquanto não chegou junto da cabana do amigo. Estava todo molhado, como se tivesse caído a um rio, mas levou para a cabana lenha seca e enxuta. Entrou e acendeu uma fogueira. Depois começou a cozer arroz para oferecer ao amigo, que entretanto tinha acordado.
O amigo, ao vê-lo junto da fogueira, perguntou-lhe:
- Porque é que vieste de noite, com este temporal?
- Porque senti desejo de estar junto de ti. Será que o temporal te pediu licença para vir?"
Ora, o primeiro desejo que formulo para 2012 é precisamente este: que tenhamos – e sejamo-lo nós também – amigos que se cheguem a nós, mesmo durante a tempestade.
Quanto ao segundo desejo, faço-o a partir da notícia que ouvi hoje de manhã no telejornal. Já ontem à noite a tinha ouvido também. Faço votos que em 2012 nasçam mais bebés que em 2011, que foi, desde que há registos sistemáticos, um dos dois anos com mais baixo número de nascimentos.
Mil beijinhos, Sandra! Tenho a certeza de que nos encontraremos, não obstante as tempestades!
(Esta carta segue praticamente sem ser revista, eventualmente ainda a corrigirei num ou outro ponto, é preciso é que não perca oportunidade. Tenho de ir para a cozinha tratar de fazer uns miminhos para esta noite… é menos por ser a passagem de ano, é mais porque o meu sobrinho açoriano mais velho nasceu precisamente na noite de passagem de ano, ainda cheirava a fogo de artifício. Que renovação maior se pode querer quando se passa de um ano para o outro?)

A chegada do ano 2012

Em jeito de diálogo entre mim e a minha querida aluna Sandra Vozone, no Facebook, a escrever na água, no seu sentido quase mais literal.

SANDRA VOZONE:

Boas entradas minha gente! Espero que todos aqueles que estiverem aqui marcados entrem em 2012 com o pé direito e que ao longo do novo ano tenham tudo aquilo que desejam, até mesmo dinheiro que sei que vai ser difícil. Como não tenho tempo para agradecer um a um por fazerem parte da minha vida, agradeço em conjunto... OBRIGADA ao todos por me aturarem durante este ano nada fácil para mim. Obrigada aos amigos de longa data, obrigada ao novos amigos, obrigada também aos que deixaram de ser, todos contribuíram para o meu crescimento contínuo! Obrigada aos professores mencionados! Obrigada pelos sorrisos, pelos momentos, por tudo! :D ♥
Peço desculpa se falta alguém mas não tenho boa memória!


FERNANDO PINTO
Ôi, @Sandra Vozone! Que volta é que a gente há de dar a isto?... Provavelmente, com a mesma sinceridade que nos desejas tudo de bom para 2012, desejaste também para 2011... Os votos para o ano novo são - quantas vezes? - votos de ilusão. Quantas vezes são verdadeiramente votos de confiança? Ainda por cima, para azar nosso, a passagem de ano é puramente arbitrária, nem sequer está ligada a nenhum momento de renovação natural ou biológica. Por mim, alinharia numa festa de renovação de confiança numa data entre o Entrudo e a Páscoa. E nem estou a ser nada criativo com isso! Basta olhar para a história dos homens e dos seus rituais.
É por isso que, muito sinceramente, minha querida Sandra, aceita o que a seguir escrevo como uma contribuição pessoal ao voto que formulas. Acabei de receber um email que traz uma citação de um(a) autor(a), Stacia Tauscher [ainda não sei bem quem é este(a) autor(a)]r, que diz assim: "We worry about what a child will become tomorrow, yet we forget that he is someone today". No fundo, é como dizer: não nos comprometamos demasiadamente com as ilusões do futuro; isso sim, apreciemos e consolidemos as relações do presente. Assim, verdadeiramente, estaremos a construir o futuro.
Grande beijinho, Sandra, espero ver-te em breve. Estou a contar contigo para a minha Bolsa de Voluntários, que já está em marcha na nossa escola. ♥

SANDRA VOZONE

Professor Fernando Pinto, sempre tão sábio nas suas palavras. Não posso deixar de concordar com o que diz, claro, é tudo verdade mas eu sou (e não confesso com o maior orgulho) daquelas pessoas em que os votos de ilusão, como diz, lhe parece o melhor e mais sincero para dizer nestas alturas. Quanto à Bolsa de Voluntários, assim espero fazer parte desse seu projecto que deve ser muito enriquecedor a todos os níveis. ♥
Sempre tão perfeccionista professor! (:


FERNANDO PINTO
‎Sandra Vozone, quando criei o blogue que acompanhou a nossa viagem a Estrasburgo, o lema que juntei foi este: "Para ser grande, sê inteiro: nada / Teu exagera ou exclui. / Sê todo em cada coisa. / Põe quanto és / No mínimo que fazes. / Assim em cada lago a lua toda / Brilha, porque alta vive." (Odes de Ricardo Reis. Fernando Pessoa). Como poderia eu fazer de outro modo, sem correr o risco de tornar ocas as palavras que escrevo? Não sei se sou perfecionista; isso sim, tento acrescentar algo que valha a pena, mas certamente nem sempre o consigo.