Mostrar mensagens com a etiqueta #EugéniodeAndrade. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta #EugéniodeAndrade. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, novembro 24, 2025

#TOLERÂNCIA330 - O MUNDO OCIDENTAL É TOLERANTE?

 #TOLERÂNCIA330 - O MUNDO OCIDENTAL É TOLERANTE?

Foi a notável psicanalista, minha amiga, Zorka Domić, que partilhou comigo, hoje, este texto no Facebook, com esta simples mensagem: «La tolerancia? pour Fernando Pinto Abrazo»

«Perguntei-me se não estaremos, nós ocidentais, a criar grandes ilusões sobre nós próprios.

Imaginamo-nos hoje como uma civilização muito tolerante. Acolhemos todas as formas do passado, as «outras» formas culturais, estranhas a nós; acolhemos também todos os desvios que são da ordem do comportamento, da linguagem, da sexualidade, etc. Eu pergunto-me se isso não será uma ilusão. Por outras palavras, para se poder conhecer a loucura, foi preciso excluí-la. Para conhecer as outras culturas, não ocidentais, foi sem dúvida preciso não só excluí-las, não só desprezá-las, mas explorá-las, conquistá-las e, de certa forma, através da violência, silenciá-las. Silenciámos a loucura e conhecemo-la. Silenciámos as culturas estrangeiras e conhecemo-las. […] A universalidade do nosso saber ocidental foi adquirida ao preço de exclusões […] ao preço de uma espécie de crueldade para com toda a realidade.»

As palavras são de Michel Foucault, citado por Andrea Teti durante o Colóquio: "A Palestina e a Europa, peso do passado e dinâmicas contemporâneas", que se realizou no dia 14 deste mês, no Collège de France, em Paris. (Fui pesquisar, e o Gemini disse-me que estas palavras específicas não foram retiradas directamente de um livro escrito por Michel Foucault, mas sim de uma entrevista televisionada, num programa literário francês: Lectures pour tous (Leituras para todos), em 27 de Junho de 1961, sendo entrevistador Pierre Dumayet.

Estas palavras de Foucault, na minha opinião, ilustram magnificamente, claramente, a profunda resistência que pessoas de grande saber histórico, cultural e político — tenho o privilégio de conhecer algumas, sobretudo de língua, cultura e cidadania francesas — mantêm em relação ao valor da Tolerância. Foucault defende que aquilo que o Ocidente vê como abertura, tolerância e universalidade é, na verdade, resultado de silenciamentos opressivos, abafantes, dominadores, e a autocompreensão do Ocidente como civilizado e tolerante oculta os mecanismos de poder que sustentam a arrogância da dominação.

Penso que vivemos actualmente, outra vez, em grandes ilusões de grandes liberdades, em que grandes juras de tolerância mascaram grandes atitudes de intolerância. Muitos mais do se poderia pensar têm telhados de vidro, tanto à direita como à esquerda do espectro político e ideológico.

Mais uma vez, é minha convicção que é a Educação que pode, com sábia pedagogia, enfrentar estereótipos e preconceitos que afastam os indivíduos e os grupos do diálogo, do entendimento, da negociação, da cedência, da compreensão e da aceitação. Como? Repito: com acções, com actividades, com realizações concretas, bem mais do que com infindáveis discursos e confrontos verbais, num campo em que as palavras, ao jeito do amoroso Eugénio de Andrade, já estão gastas. Já fomos tomando contacto, nesta viagem, com muitas propostas de actividades. Volte-se a elas as vezes que forem necessárias; e o limite da criatividade e do entusiasmo para inventar outras é o céu.

#tolerância#tolerance#Tolerancia#tolérance#tolleranza#toleranz#tolerantie#宽容#寛容#관용#सहिष्णुता , #סובלנות#हष्णत#Ανοχή#Hoşgörü#tolerans#toleranță#толерантность#التس 

quarta-feira, junho 18, 2025

#TOLERÂNCIA171 - AS PALAVRAS ESTÃO GASTAS?

 #TOLERÂNCIA171 - AS PALAVRAS ESTÃO GASTAS?

O verso é de Eugénio de Andrade. O verso desafia-nos. É, no nosso caso, o desafio de passar das palavras às acções.

Existe uma Comissão Europeia contra o Racismo e a Intolerância (ECRI). É o «órgão de monitorização composto por 47 peritos independentes, especializado no combate ao racismo, discriminação racial, xenofobia, antissemitismo e intolerância. Desenvolve atividades de observação destes fenómenos e de cooperação com Estados e outras entidades, elaborando relatórios e recomendações.

»A sua criação foi decidida na primeira Cimeira de Chefes de Estado e de Governo do CoE (Viena, 1993) e o estatuto aprovado pela resolução Res(2002)8 do Comité de Ministros, de 13 de junho de 2002.»(1)

E no entanto a intolerância cresce.

Vamos ao conhecimento da ECRI:

1) O texto de apresentação oficial da ECRI tem 6 páginas. A palavra "intolerância" aparece 17 vezes, e a palavra "tolerância" não aparece vez nenhuma.

2) Dessas 17 vezes, a palavra "intolerância" aparece 15 vezes ligada à palavra "racismo" («racismo e intolerância») e duas vezes à palavra "discriminação" («racismo, discriminação e intolerância»).

3) No relatório da ECRI referente a Portugal (escrito em inglês), adoptado em 18 de Março de 2025, e publicado precisamente hoje (18JUN25), com a extensão de 42 páginas(2) a palavra "tolerância" aparece 2 vezes (na expressão "tolerância zero").

4) Neste relatório de Portugal, a palavra "intolerância" aparece 32 vezes, das quais 21, mais uma vez ligada ao racismo («racismo e intolerância»).

Procuro alguma precisão conceptual ou clarificação operativa (Haverá quem me pergunte: mas o racismo e a intolerância necessitam de precisão ou clarificação operativa? Imediatamente eu respondo que sim, mas não quero fazer agora atalhar por este desvio), não encontro nada. São exortações, as tais recomendações a que se propõe a ECRI.

Vem-me à cabeça o clássico diálogo do Hamlet de Shakespeare:
Lorde Polónio: «O que ledes, meu senhor?»
Hamlet: «Palavras, palavras, palavras.»
Lorde Polónio: «O que é que se passa, meu senhor?»
Hamlet: «Entre quem?»
Senhor Polónio: «Quero dizer, o assunto que lestes, meu senhor.»

É frustrante ler as palavras tantas vezes repetidas, tantas vezes exortadas. Para passar da intenção à acção é preciso ir bem mais além.

O testemunho do Sheik David Munir, há 2 ou 3 dias, num canal televisivo(3) obriga-nos a pensar. Disse ele que tem necessidade de recomendar a imigrantes muçulmanos que, se estão em Portugal, devem fazer o Sermão nas mesquitas, nas orações de sexta-feira, em português porque tais imigrantes são renitentes em fazê-lo. Também disse que há imigrantes muçulmanos que não se querem integrar, não querem aprender a língua [portuguesa]; e que não concorda que um muçulmano que vem doutro país queira impor no país que o acolhe as práticas culturais do seu país de origem.

Estão a ver porque é preciso ir mais além do que a simples exortação ou recomendação da luta contra o racismo e a intolerância; e também da tolerância zero? Há um lado e há o outro lado. Ambos pedem acção pedagógica. As exortações serão as mesmas, mas quanto às estratégias de acção, são também as mesmas? Não temos aqui um desafio que pede para ser olhado de frente, tentando vencer estereótipos e preconceitos sociais, perspectivas maniqueístas e ideários políticos simplistas e grosseiros?

#tolerância#tolerance#Tolerancia#tolérance#tolleranza#toleranz#tolerantie#宽容#寛容#관용#सहिष्णुता , #סובלנות#हष्णत#Ανοχή#Hoşgörü#tolerans#toleranță#толерантность#التس 

(1) Página oficial da ECRI: https://www.coe.int/en/web/european-commission-against-racism-and-intolerance/
(2) https://rm.coe.int/sixth-report-on-portugal/1680b6668d
(3) https://cnnportugal.iol.pt/videos/ha-imigrantes-que-nao-querem-aprender-a-lingua-costumo-dizer-nas-mesquitas-estamos-em-portugal-o-sermao-tem-de-ser-em-portugues/684f3fd50cf20ac1d5f3309c