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terça-feira, agosto 12, 2025

#TOLERÂNCIA226 - À PROCURA DAS RAÍZES DA INTOLERÂNCIA

 #TOLERÂNCIA226 - À PROCURA DAS RAÍZES DA INTOLERÂNCIA

Norman G. Finkelstein (nasceu em 1953) é filho de sobreviventes do gueto de Varsóvia e dos campos de concentração nazis. Considerado 'Persona non grata' em Israel desde 2008, foi também demitido da Universidade DePaul por pressões de lobbies judaicos. É historiador.

São muitos os jornalistas que o procuram para entrevistas, e o que reproduzo a seguir pode ser encontrado, evidentemente, com pequenas variantes, em outras entrevistas: «Netanyahu é um representante fiel da sociedade israelita. Não é que ele seja uma excrescência — essa palavra requintada para uma espécie de crescimento artificial. Ele não é uma excrescência. O facto é que ele é

o primeiro-ministro há mais tempo no cargo em Israel, e há uma razão muito boa para isso: é porque ele é insuportável, presunçoso, um supremacista judeu — e isso reflecte 95% da sociedade israelita.»(1)

As quase derradeiras imagens do monumental trabalho SHOAH, de Claude Lanzmann (de 1985, 544 impressionantes minutos!!!) vieram-me à cabeça... Fui ao Velho Testamento (em coisas que partilha com a Torá dos judeus), que já foi invocado por Netanyahu. Lá encontramos escrito no Livro do Êxodo (7:1-6): «Quando o Senhor teu Deus te introduzir na terra que vais tomar posse e tiver expulsado diante de ti muitas nações: os hititas, os girgaseus, os amorreus, os perizeus, os heveus, os cananeus e os jebuseus, sete nações mais numerosas e mais poderosas do que tu, quando o Senhor teu Deus as tiver entregue nas tuas mãos e as tiveres derrotado, votá-las-ás ao extermínio; não farás com elas aliança nem lhes mostrarás misericórdia. Não te aparentarás com elas, não darás as tuas filhas aos seus filhos nem tomarás as suas filhas para os teus filhos, pois eles desviariam os teus filhos de Me seguirem, para os fazerem servir a deuses estranhos, e a ira do Senhor se acenderia contra vós e depressa vos destruiria. Mas assim procedereis com eles: derrubareis os seus altares, quebrareis as suas estelas, cortareis os seus postes sagrados e queimareis no fogo os seus ídolos. Porque tu és um povo consagrado ao Senhor teu Deus; o Senhor teu Deus te escolheu para seres o seu povo próprio, entre todos os povos que há sobre a terra.»

A terra de «que vais tomar posse» é tradicionalmente a região de Canaã, que, na Antiguidade, correspondia aproximadamente à área onde hoje se situam o Estado de Israel, os Territórios Palestinos (Cisjordânia e Faixa de Gaza), parte do Líbano, o oeste da Jordânia e o sul da Síria. Era considerada a "terra prometida" por Deus aos descendentes de Abraão, um local de grande fertilidade.

Tomado à letra, o radicalismo de Iaweh é total, é absolutamente intolerante: aos que O adoram exige submissão total; aos outros, o castigo é implacável.

Norman G. Finkelstein e outros (por exemplo, velhos prisioneiros dos campos de concentração nazis) opõem-se a este tipo de radicalismo. Radicalismo que vale por si mesmo e que serve outros interesses e propósitos — políticos, económicos, militares, etc.

Estes valores (eu tive a tentação de chamar-lhes "valores") estão em total oposição aos valores democráticos e aos do entendimento respeitoso e justo entre os Povos e as Nações de que a ONU tenta ser o garante desde a sua criação após a 2.ª Grande Guerra.

Como se combate tão ignominiosa intolerância? Mais importante, na minha viagem peregrina, é perguntar: como se aprende a combater tão ignominiosa intolerância? A pergunta vale tanto para os cidadãos de todo o mundo como para os 95% da sociedade israelita de que fala Norman G. Finkelstein.

A evolução histórica do Velho para o Novo Testamento pode ser uma fonte de inspiração, tanto para crentes como para não-crentes. Os exemplos históricos e culturais dos credos religiosos não-monoteístas são também de muito útil inspiração.

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(1) https://www.instagram.com/reel/DHJM_01C4Mq/

segunda-feira, julho 07, 2025

#TOLERÂNCIA190 - PALESTINIANOS E JUDEUS

#TOLERÂNCIA190 - PALESTINIANOS E JUDEUS

Por vezes, quando caminhamos por lugares desconhecidos e inóspitos, e não planeados, corremos riscos como o jovem Christopher McCandless, que se aventurou pela Natureza Selvagem e nela morreu. Ele deparou-se com uma travessia turbulenta, difícil, tentou evitá-la ou contorná-la, mas sempre sem sucesso. Parou, bloqueou, morreu. Tratou-se duma vivência verdadeira, trágica, que foi ficcionada no belíssimo filme "Into the Wild".

É, há coisas, há lugares, que são especialmente difíceis, traiçoeiros, podemos tentar evitá-los ou contorná-los, mas não podemos bloquear, não podemos parar, um dia temos de os enfrentar.

Aqui e ali, nas redes sociais (essencialmente o Facebook), tenho visto que pessoas por quem tenho consideração positiva (e que, de maneira nenhuma, podem ser qualificadas de pouco cultas e sem acesso

a boa informação) a aproveitarem as mais pequeninas oportunidades para justificarem os ataques ordenados por Netanyahu à Faixa de Gaza e ao Povo Palestiniano, ataques que prolongam o que a Comunidade Internacional (incluindo as maiores instituições internacionais formais, tanto na Política - as Nações Unidas, como no Direito - o Tribunal Penal Internacional, que emitiu, em Novembro de 2024, mandados de prisão contra o primeiro-ministro de Israel, Bejamin Netanyahu, e o ex-ministro da defesa de Israel, Yoav Gallant, além do comandante militar do Hamas, Mohammed Deif) há muito vem condenando.

Chego a ver tais pessoas a espalharem desinformação, sim, espalharem "informação" que depois é verificada oficialmente como sendo falsa. Alguns, eventualmente, encontrarão saída airosa na bíblica afirmação de que "Quem nunca pecou que atire a primeira pedra". Regozijar-me-ei se assim o fizerem.

Judeus, palestinianos, anti-semitismo, são lugares de entendimentos e diálogos especialmente difíceis. Sinto a pressão para voltar aos escritos de Hannah Arendt; e a percorrer outros autores para além dela.

Numa primeira pesquisa, exploratória, na Internet, procurei textos e fiz duas perguntas a 5 'chatbots' diferentes, as mesmas duas perguntas, a ver o que os modernos oráculos me diziam de igual e de diferente. As respostas foram todas muito parecidas, numa delas, o 'chatbot' (neste caso, o Gemini) escreveu: «Para Arendt, o problema não era a existência de uma identidade judaica forte, mas sim quando essa identidade se traduzia em uma forma de nacionalismo tribal ou exclusivista que impedia a coexistência e o reconhecimento de outros povos. Ela via com preocupação a ideia de um estado-nação puramente judaico em detrimento de uma solução binacional na Palestina, onde árabes e judeus pudessem coexistir em igualdade. Arendt temia que a busca por um Estado judeu "a qualquer custo" levasse à desconsideração dos direitos e da existência dos palestinianos.» Hannah Arendt morreu há 50 anos. Que estamos nós agora a ver acontecer?

Fui depois folhear "As Origens do Totalitarismo". No prefácio à primeira parte, com o título "O Anti-semitismo", Hannah Arendt escreve:

«Os historiadores judeus afirmavam ter sido o o judaísmo sempre superior às outras religiões pelo simples facto de crer na igualdade e tolerância humanas. Essa teoria perniciosa, aliada à convicção de que os judeus constituíram sempre objecto passivo e sofredor das perseguições cristãs, na verdade prolongava e modernizava o velho mito do povo eleito; assim, só podia levar a novas e frequentemente complicadas práticas de segregação destinadas a manter a antiga dicotomia — numa daquelas ironias que parecem reservadas aos que, por quaisquer motivos, buscam enfeitar e manipular os factos políticos e os anais históricos.»

Enumerando uma série de eventos históricos, em que, «as catástrofes eram entendidas, dentro da tradição judaica, em termos de martirologia», a filósofa vem concluir que «Esta sequência de eventos conduzir à ilusão que desde então afecta tanto os historiadores judeus como os não judeus, já que ambas as partes dão mais ênfase ao facto de "os cristãos se dissociarem dos judeus do que do inverso"(1) [...] a própria sobrevivência do povo judeu como entidade identificável dependia dessa separação que era voluntária, e não, como se costumava supor, resultante da hostilidade dos cristãos e não judeus em geral.»

Se estivéssemos a falar de tricas entre vizinhas, coisas de lana-caprina, diríamos, a propósito do sentimento de superioridade do judaísmo que presunção e água benta cada um toma a que quer, mas, infelizmente, o que está em causa são questões comprovadamente de muitas vidas perdidas, que, historicamente, por duas vezes se associou ao genocídio: durante a 2.ª Guerra Mundial, na Europa (essencialmente na Alemanha); e agora, na Faixa de Gaza. Na 2.º Grande Guerra, as vítimas foram os judeus; agora as vítimas são os palestinianos.

Que pode a Pedagogia da Tolerância neste caso, em que históricos vieses, mal-entendidos, estereótipos e preconceitos, e muita distorção da informação minam a compreensão clara e lúcida dos acontecimentos e das relações entre as pessoas e os grupos humanos?

Depende. Depende da idade. Sendo o grupo-alvo formado por crianças, basicamente actividades ligadas ao entretenimento e à cooperação, em que se solicite muita conversa, muito olhar directo, em que o único resultado possível é o sucesso na tarefa. Sendo jovens já a pensarem que são grandes ou sendo adultos, o método Jean Monnet tem grande potencial de sucesso.

Certo, um dia trarei para aqui uma ficha sobre o método Jean Monnet.

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(1) Aqui Hannah Arend cita Jacob Katz, a obra é "Exclusiveness and Tolerance, Jewish-Gentile Relations in Medieval and Modern Times", de 1962.

domingo, junho 29, 2025

#TOLERÂNCIA182 - (DES)INFORMAÇÃO, ISRAEL E IRÃO

 #TOLERÂNCIA182 - (DES)INFORMAÇÃO, ISRAEL E IRÃO

Estou a preparar uma comunicação para o III Encontro Internacional de Solidariedade Intergeracional - Educação e Saúde Valores de Transmissão Intergeracional, que vai decorrerem 3 locais diferentes: em Odivelas (10 de Julho), Amora (10 e 11 de Julho) e Mação (11 e 12 de Julho).

Vou ocupar alguns minutos a falar da importância da Informação no combate e na desmontagem dos estereótipos e preconceitos negativos; e como tal pode promover a Tolerância entre as pessoas e nos grupos humanos.

Num breve intervalo, passo os olhos por algumas notícias dos jornais. Um deles tem um artigo que calha bem com o que estou a preparar.

O suplemento da edição de hoje do jornal diário "Público" traz um extenso e interessante artigo à volta das relações entre o Irão e Israel. Trago para aqui 2 ou 3 coisas que, do lado da informação, ajudam a combater a desinformação que grassa na Comunicação Social, sendo alguma por ignorância dos autores e muita deliberadamente incentivada por promotores interesseiros (sobretudo vindos do campo dos políticos carregados de ambições pessoais mesquinhas).

O primeiro trecho, sobre os mais novos que pensam que o Irão e Israel sempre se deram mal.

Os mais jovens não podem ter outra ideia que não seja olhar o Estado hebraico e o Irão persa como inimigos eternos. Mas não é verdade. É uma longa história, em parte tragédia e em parte farsa. Persas e judeus têm civilizações que se cruzam há muitos séculos. Basta ler a Bíblia ou pensar na festa judaica do Purim. E nada garante que a actual "mortal inimizade" entre eles não seja uma fase passageira no longo curso da História. Depois da Revolução Islâmica de 1979, que aboliu a ditadura laica do Xá

Reza Pahlavi, o ayatollah Ruhollah Khomeini decretou a ilegitimidade da existência de Israel em terra árabe e anunciou como meta a sua futura destruição. Nessa altura, a América era o "Grande Satā" e Israel o "Pequeno Satā". Antes disso, o Irão do Xá fora o aliado preferencial de Israel. Persas e judeus tinham um adversário comum: o nacionalismo árabe, de que o egípcio Gamal Abdel Nassser foi o grande símbolo. Por isso, Telavive e Teerão continuaram a fazer bons negócios, embora geralmente de forma encoberta.

O segundo trecho tem a ver com um testemunho na primeira pessoa, uma israelita especial, que luta pela boa informação e o entendimento:

Orly Noy é uma cidadā israelita, ou melhor, irano-israelita. Nunca se pode perder a nacionalidade iraniana. Mas, neste caso, ela ama a dupla nacionalidade. Emigrou do Irão aos nove anos. Gosta do hebraico, mas o farsi é a sua "língua materna". Acaba de publicar em Israel uma longa antologia de poesia farsi, em edição bilingue. Orly não é só uma irano-israelita. É uma activista, presidente do B'Tselem, Centro Israelita de Informação para os Direitos Humanos nos Territórios Ocupados. Comunica intensamente com amigos no Irão e na diáspora. É uma mulher zangada. "Partilhamos um espaço de uma das mais antigas e ricas civilizações. Mas não se ouve falar de mais nada a não ser de ayatollahs e programas nucleares. E nós precisamos de aprender a conhecer o Irão. Deprime-me a ignorância da sociedade israelita no que diz respeito à cultura iraniana. Tem uma das mais ricas poesias e um fabuloso cinema internacionalmente reconhecido."

O terceiro trecho é sobre a razão tolerante, os erros de percepção e a desagregação por causa do poder da geopolítica da região.

"O Irão era um enclave no coração do mundo dominado por países próximos dos soviéticos", escreve o semanário Le Point. "O xiismo aparecia então como a forma mais culta do islão político. Para o dizer de
uma forma mais simplista, era a forma mais aberta e tolerante, a mais parecida com a ideia que a Europa e os Estados Unidos faziam de uma religião secularizada. Em suma, o Irão era o ideal." Mas a ocidentalização do Irão encerrava também um "erro de percepção", pois reflectia sobretudo as elites e esquecia que o Irão era também uma sociedade pobre e muito conservadora, o que beneficiou o acesso ao poder de Khomeini e o êxito do seu populismo agressivo. A solidariedade israelita com o novo regime manifesta-se logo em 1980, quando o Iraque de Saddam Hussein invade o Irão, apostando na sua desagregação política. Em resposta, Menahem Begin, primeiro-ministro israelita, líder do Likud e da direita nacionalista, decide um apoio secreto aos ayatollah, pois a prioridade é enfraquecer o mais forte Exército árabe, o de Saddam.

O autor da notícia é Jorge Almeida Fernandes. Ele diz dele próprio: «Não escolhi ser jornalista, o jornalismo recrutou-me. Aos 20 anos, fui director de o Quadrante, da Associação de Estudantes de Direito, logo proibido pela Censura. Fui redactor de O Tempo e O Modo (1964-65 e 1969) e, passageiramente, da Seara Nova. Comecei o jornalismo profissional em 1969, na Vida Mundial, semanário de assuntos internacionais.» Quer dizer, quando rebentou a Revolução Islâmica de 1979, ele tinha já 10 anos de jornalismo profissional de assuntos internacionais. Parece ser fonte credível, e o que escreve não dependerá apenas do que outros jornalistas mais novos dependem absolutamente: as leituras retrospectivas ou retroactivas. (Pois, não sei se isto é verdade, se é legítimo eu pensar assim, se não é apenas o meu desejo de estar a ser bem informado)

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