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domingo, abril 28, 2013

Qual é a medida do infinito?

No mesmo documentário que nos mostra um magnífico ritual de passagem, vivido na experiência direta entre o pai e o filho (http://fernandonaescola.blogspot.pt/2013/04/no-principio-e-vida.html); ainda no cimo da majestosa duna a que o mais velho alcandorou o rapaz que começava a descobrir o mundo, este, sem olhar o progenitor, mas enchendo-se da imensidão do que a sua vista alcançava, quis fazer-lhe uma pergunta, confiante na resposta que viesse a ouvir. Naquele momento de adolescer, seguramente o jovem sentiria ter ao seu lado o homem mais sábio que alguma vez conhecera, que tanto já lhe ensinara e muito teria ainda para lhe ensinar:
http://lianautinguassu.blogspot.pt/2013/01/assim-sinto.html
- Pai, como é o mar?...
O pai não demorou na humilde resposta:
- Nunca o vi, Rabdoulah...
E depois de uma breve pausa continuou:
- Dizem que é como o Ténéré, mas de cor azul.
Provavelmente neste instante o rapaz, a fazer-se homem e a conhecer o mundo, tomou para si a medida do infinito, do que é grande, grande para além do que o seu pensamento nascente conseguia conceber. Conhecemos a partir do que experimentamos; se noutros Rabdoulah's, de outras partes do mundo, a experiência sensível é a do mar, em Rabdoulah a experiência é a do deserto a ir para além do horizonte que a sua vista alcança. Seja deserto, seja mar, a vivência afetiva e a vivência cognitiva são as mesmas; são as vivências das crianças a crescerem. Que os homens, os mais velhos, saibam sempre fazer assim: dizer com afeto e dizer com inteligência o que aqueles de quem cuidam querem saber, enfrentando todos os desconhecidos com verdade e segurança.

quinta-feira, agosto 16, 2012

Parabéns a António Nobre, à beira do mar

http://www.gutenberg.org/files/27535/27535-h/27535-h.htm
Hoje seria o dia de aniversário de António Nobre.
Fernando Pessoa, a fazer fé nas suas notas autobiográficas, leu o "Só" aos 18 anos de idade. Num dia leu metade e no dia a seguir acabou.
Num texto que é publicado pela primeira vez em 1915 (tem, portanto, 26 ou 27 anos de idade), Pessoa diz que "De António Nobre partem todas as palavras com sentido lusitano que de então para cá têm sido pronunciadas. (...) ele foi o primeiro a pôr em europeu este sentimento português das almas e das coisas, que tem pena de que umas não sejam corpos, para lhes poder fazer festas, e de que outras não sejam gente, para poder falar com elas. (...) Quando ele nasceu, nascemos todos nós." (http://arquivopessoa.net/textos/3119)
Filho da brisa que soprava do mar, fascinado pela lonjura prateada do horizonte que o poente lhe trazia, António Nobre, várias vezes cantou o mar, prendeu-se por ele, pelas suas fainas, e pela sua história:


Quisera ser um grande marinheiro, 
Um novo astro entre os milhões de sóis! 
Ser de Albuquerque um filho aventureiro, 
Pertencer à família dos Heróis! 
«Quisera ser um grande marinheiro», Leça, 1887


Um dia, ainda em 1887, António Nobre escreve assim a um amigo:


«Tens o mar, que é o melhor conselheiro depois de nossos Pais.»
«Ouve uma coisa que te digo: nunca te decidas sobre uma questão qualquer 
sem primeiro teres meditado nela à beira daquelas negras águas. Verás como 
aquele eterno runrum das ondas que se transformam a pouco e pouco numa voz 
deliciosa e amiga capaz de deitar a um canto a voz da Patti (…).» 

Todos nó somos produto das nossas circunstâncias, como falava Gasset das influências à volta das quais crescemos e nos fazemos. Também eu tenho fascínio pelo mar, também eu tenho memórias ainda vivas do seu cheiro intenso, húmido, na respiração da minha infância.
O que, todavia, me pergunto agora é qual é o mar do transmontano, do beirão ou do alentejano do interior? O mesmo conselho profundo, telúrico, a seguir ao dos Pais, estes buscarão também. A que "mar" vão eles buscá-lo?...
Muito bem, António, vinha eu apenas dar-te um abraço de parabéns e pus-me a divagar por estas coisas. Sabes que tenho um carinho especial por ti, sabes que, para mim, o Manoel e a Coimbra da tua carta é o Manuel e a Coimbra do meu pai.
Vá, um abraço de parabéns, António! Seguramente muitas mais vezes te procurarei em muitos mais aniversários - os teus, os meus, os do Manuel; e os do Mar.

sábado, março 06, 2010

Parabéns, João Henrique!

O João Henrique, meu afilhado, fez anos no dia 1 de Março. 17 anos.
Quando ele tinha 7 anos, eu estava na Horta, de propósito para lhe cantar os parabéns. Calhou, num momento, ele estar comigo no carro da mãe, de pé, no banco de trás, com os braços apoiados no meu banco. Eu conduzia lentamente, descendo do hospital para as Angústias, com uma panorâmica magnífica, muito nítida, sobre o mar. Essa visão impôs-se a ambos e proporcionou um diálogo que reproduzi de memória assim que cheguei a casa.
- Ó ti Jóge, o mar é grande, não é?... perguntou-me, lá do banco de trás do carro, a olhar o mar em frente e com o Pico a aparecer do lado esquerdo, o João Henrique, de 7 anos de idade, neto do Peter.
- É, João, é grande e às vezes é mesmo muito grande...
- O mar nos Açores é grande, ti Jóge?
- OLha para ali, João, a gente olha lá para o fundo, vê sempre o mar e depois lá no fundo a gente não vê mais mas o mar continua ainda mais, parece que nunca mais acaba. Mas, se tu olhares ali para o Pico, o mar fica pequenino e se tu um dia quiseres e o mar estiver mansinho, tu podes ir o mar todo até ao Pico, a nadar.
- Ti Jóge, o mar tem um nome?
- Tem, tem muitos nomes, é que há muitos mares. E quando os mares ficam muito grandes já não se chamam mar, chamam-se oceanos.
O João Henrique olhou lá para o fundo, para onde eu dissera que o mar continuava e perguntou:
- O mar dos Açores é um oceano?
- O mar dos Açores ali para o fundo já se chama oceano Atlântico. Ali em baixo, tu sabes, chama-se Praia de Porto Pim, daquele lado ali, quando vamos para o Pico, chama-se Canal, onde tu estiveste ontem com o teu irmão e os vossos amigos chama-se Praia do Almoxarife...
- Quantos oceanos há no mundo? interrompeu-me o João.
- Um dia, na escola, a tua professora vai mostrar-te num mapa grande o oceano Atlântico, o oceano Pacífico, o oceano Índico, o oceano Glacial Ártico e o oceano Glacial Antártico.
- Este aqui dos Açores é o mais grande ou não, Ti Jóge?
- É quase o mais grande. O mais grande de todos é o oceano Pacífico.
- O oceano dos Açores não é o mais grande, Ti Jóge?... A voz e o rosto do João Henrique traziam, nem era bem um desapontamento, era mesmo uma aflição.
- Não, não é... mas já viste bem as coisas bonitas que o mar dos Açores tem? As baleias, os golfinhos, a doca onde tu, o teu pai e os teus irmãos tomam banho, os peixes que a gente pesca com o Chefe Jaime, não é João?...
- Ó To Jóge, tu sabes tanta coisa!...
A voz e o rosto do meu afilhado recuperavam já o ar ruminativo e espantado que as crianças tomam quando pensam intensamente. E parece que, quanto ao mar, por agora bastava. Agora era eu, o sábio daquele momento, o objecto da sua curiosidade:
- Ó Ti Jóge, quem é que sabe mais, és tu ou é o avô?...

Horta, Agosto de 2000

domingo, novembro 01, 2009

O fundo da linha: SALVAR O MAR

A Língua Portuguesa, através do Brasil, já está na linha da frente desta luta. É hora de nós também entrarmos em acção!