Mostrar mensagens com a etiqueta #família. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta #família. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, dezembro 31, 2025

#TOLERÂNCIA367 - ACABOU O DIÁRIO DA TOLERÂNCIA. E AGORA?

 #TOLERÂNCIA367 - ACABOU O DIÁRIO DA TOLERÂNCIA. E AGORA?

Agora é aquela parte de passar da palavra, pensada e escrita, à acção.

Para já, sinto com uma clarividência que muito me agrada que algumas das minhas predisposições comportamentais, da minhas atitudes, se questionaram e se reajustaram em resultado do que fui descobrindo, do que fui conhecendo, do que fui modificando, do que se tornaram novas ou revistas opiniões e opções pessoais.

Mesmo que se tenha tornado banal dizer-se que procuramos o que queremos encontrar, o que nos dá razão, penso que consegui ser suficientemente honesto comigo mesmo para aceitar pôr-me à prova, pôr em questão os meus pontos de vista, as minhas perspectivas. Enquanto psicólogo, sei do que que que a casa gasta, tenho bem consciência do que digo às pessoas que procuram a nossa competência profissional, a nossa 'expertise'.

Tenho clara consciência de que foram essencialmente os meus amigos franceses, o Jean-Pierre Démange à cabeça, que me desafiaram para mostrar que a Tolerância vale a pena, seja enquanto valor,

seja enquanto atitude ou disposição pré-comportamental capaz de aproximar as pessoas e os grupos do diálogo, da negociação, da cedência e do entendimento, resistindo à impulsividade do confronto e do conflito agressivo, confronto e conflito que são, em última instância, nas actuais circunstâncias da vida dos grupos (dentro dos grupos e entre os grupos), sempre favoráveis a quem tem o poder do dinheiro, o poder das armas e o controlo da Comunicação Social e das Redes Sociais. A desconfiança visceral, ou melhor, a rejeição radical que o Jean-Pierre e os outros logo mostraram em relação à Tolerância por a considerarem um comportamento farisaico de quem tem o poder político e económico, por quem está na mó de cima e não quer abrir mão dos seus privilégios, foram, repito, desafio para eu escavar mais fundo, ir ao âmago, ao tutano do que alimenta a Tolerância (que nem sempre é boa, às vezes é má) e a Intolerância (que nem sempre é má, às vezes é boa).

Também devo um agradecimento especial à Zorka Domić, pelas achegas e pelo alento que sempre procurou dar ao que fui escrevendo e fazendo.

São 367 entradas (365 mais 2), 365 registos escritos de caminhadas diárias. Passadas a papel, cada uma ocupa, no mínimo, uma página; muitas delas, 2 ou 3 páginas. Juntando, em anexo, os 'rationales' das actividades, dos jogos e de alguns desenvolvimentos e esclarecimentos, a que tamanho impresso isto chegará o relato da viagem pela Tolerância...

Sei que muitos aperfeiçoamentos e revisões vou ainda produzir. E desejo muito ter críticas, correcções sugestões, achegas; e pedidos. Com todos eles eu ganharei, com todos eles a Educação e a Pedagogia da Tolerância ganharão. Para já, estou muito, mas mesmo muito contente com o que fiz, não fazia ideia que chegasse onde cheguei. Acho que o segredo foi não ter expectativas demasiadamente ambiciosas, ter sido humilde e não ter querido provar nada que antecipadamente escondesse como fito último — esta atitude de base permitiu-me manter a mente aberta, disponível e, pois claro, tolerante.

#tolerância#tolerance#Tolerancia#tolérance#tolleranza#toleranz#tolerantie#宽容#寛容#관용#सहिष्णुता , #סובלנות#हष्णत#Ανοχή#Hoşgörü#tolerans#toleranță#толерантность#التس 

terça-feira, dezembro 23, 2025

#TOLERÂNCIA359 - A TOLERÂNCIA NUM DIA ESPECIALMENTE EXIGENTE

 #TOLERÂNCIA359 - A TOLERÂNCIA NUM DIA ESPECIALMENTE EXIGENTE

Que dia o de hoje!... "Que a tua mão esquerda não saiba o que faz a tua mão direita" é um ensinamento bíblico de Jesus (Mateus 6:3-4). Como tantas vezes tenho dito, não sou crente em Deus, mas a influência da educação, directa e indirecta que recebi, está cá. Bronfenbrenner falaria em microssistema, mesossistema e macrossistema.

Estou carregadíssimo, hoje, de razões para dizer bem de mim e da min ha relação com o Mundo. Não é fácil, por exemplo, pôr em palavras os sentimentos que se cruzam dentro de nós quando tomamosconsciência de que, embora a grande distância, durante horas e horas se foi capaz de gerir a tensão, a espada por cima da cabeça de alguém, e tudo acabar em paz: conseguimos que uma vida voluntariamente determinada a terminar fora de tempo não o fizesse. E esta tensão difícil misturada com mais uma mão cheia de outras. Há dias assim.

Fico com a curiosidade de ler este escrito daqui a um ano: é que penso que, se não fosse a aprendizagem da tolerância a que a mim próprio me dediquei ao longo deste ano, muito dificilmente suportaria com o sereno estado de espírito quer sempre encontrei em mim as coisas que fiz hoje — com familiares, com amigos, com pacientes.

É verdade, estou absolutamente convicto de que vale a pena a aprendizagem da tolerância. Para que tal aconteça, temos mesmo que nos dedicar a ela, dia-a-dia. Hoje sei que vale a pena; e que se consegue.

#tolerância#tolerance#Tolerancia#tolérance#tolleranza#toleranz#tolerantie#宽容#寛容#관용#सहिष्णुता , #סובלנות#हष्णत#Ανοχή#Hoşgörü#tolerans#toleranță#толерантность#التس 


segunda-feira, dezembro 22, 2025

#TOLERÂNCIA358 - TOLERÂNCIA E NATAL

 #TOLERÂNCIA358 - TOLERÂNCIA E NATAL

Hoje aproveitei — inesperadamente, tive uma folga de tempo — para, digamos, brincar um pouco: cheguei-me aos 'chatbots' e perguntei-lhes o que encontravam eles por aí que relacionasse Tolerância com Natal.

Perguntei ao Gemini, ao AskGPT, ao ChatGPT, ao Perplexity.AI e ao DeepSeek. Por esta ordem. Os que, aparentemente, menos se esforçaram foram o AskGPT e o ChatGPT, pelo menos tendo em conta o tamanho do texto e também, é verdade, o conteúdo. O DeepSeek foi o que mais escreveu, a seguir foi o Perplexity.Ai. A melhor resposta, a que mais me agradou, a que mais nos faz pensar, foi a do Gemini. Vou escrevê-la a seguir, integralmente. O pedido era este: "Quero saber se agora na época de Natal, no mundo inteiro, há mais notícias a falarem da tolerância do que no resto do ano. Responde em português de Portugal."

«A resposta curta é: provavelmente não. Na verdade, se analisarmos as notícias em Portugal, a palavra "tolerância" aparece muito mais nesta época, mas não com o sentido moral que estás à espera.

»Aqui está o que realmente acontece nas notícias durante o Natal, distinguindo a realidade dos factos da nossa percepção emocional:

  1. O "Falso Positivo" Português: "Tolerância de Ponto"
    Em Portugal, há um pico enorme de notícias com a palavra "tolerância" em Dezembro, mas refere-se quase exclusivamente à "tolerância de ponto" (a dispensa de trabalho para a função pública).

»Se pesquisares agora por "tolerância" nos jornais portugueses, a vasta maioria dos resultados será sobre os despachos do Governo para os dias 24, 26 ou 31 de dezembro, e não sobre aceitação ou respeito pelo próximo.

  1. A Palavra Real [no sentido de acção concreta], do Natal é "Solidariedade" (não Tolerância)
    Os 'media' e os discursos oficiais (do Papa, do Presidente da República, etc.) mudam de facto o tom, mas a palavra-chave não costuma ser "tolerância". As palavras que estatisticamente
    dominam a época são:

»Solidariedade: Campanhas de recolha de alimentos, apoio aos sem-abrigo e donativos.
Paz/Reconciliação: Especialmente em mensagens religiosas (como a 'Urbi et Orbi' do Papa) ou sobre conflitos internacionais (Gaza, Ucrânia).
Consumo/Preços: Este ano, em particular, muitas notícias focam-se na inflação, no preço do bacalhau e nas compras.

  1. Quando é que se fala mais de Tolerância?
    Curiosamente, é provável que haja mais notícias sobre "tolerância" (no sentido moral) em novembro do que no Natal.

»Isto acontece porque o Dia Internacional da Tolerância celebra-se a 16 de Novembro. Nessa data, há uma concentração real de artigos, 'workshops' e discursos focados especificamente nesse tema, algo que no Natal se dilui em mensagens mais genéricas de "amor ao próximo".

»Resumo da Análise
Embora tenhamos a sensação de que o mundo fica mais "tolerante" no Natal, as notícias não reflectem necessariamente isso. O jornalismo tende a focar-se no caos das viagens, no consumo e, no caso português, na burocracia das folgas. A "tolerância" é um tema de fundo, mas raramente é a manchete principal.»

Gostei do que li. Alarga-nos o pensamento sobre as coisas, não é?

#tolerância#tolerance#Tolerancia#tolérance#tolleranza#toleranz#tolerantie#宽容#寛容#관용#सहिष्णुता , #סובלנות#हष्णत#Ανοχή#Hoşgörü#tolerans#toleranță#толерантность#التس 

quinta-feira, dezembro 18, 2025

#TOLERÂNCIA354 - NEM SEMPRE É FÁCIL SER UM PAI PRESENTE!

 #TOLERÂNCIA354 - NEM SEMPRE É FÁCIL SER UM PAI PRESENTE!

QUANDO AS INSTITUIÇÕES DA PRIMEIRA INFÂNCIA SÃO UM OBSTÁCULO PARA OS PAIS

O texto tem por autor Kevin Hirdjee (Psicanalista clínico e psicólogo, exerce na maternidade e no Centro de Estudo e Conservação de Óvulos e de Esperma Humano (Cecos), e publicou “O que é um Pai?” (Fayard, 2024)), e foi publicado nas 'Sciences Humaines' no dia 8 de dezembro de 2025. Será mais um texto-gatilho para os grupos de discussão que na geografia da Tolerância encontrem fermento.

Nem sempre é fácil ser um pai presente! Por um lado, espera-se que eles estejam presentes em todas as circunstâncias, por outro, desconfia-se que são menos competentes do que as mães. Uma injunção

paradoxal contra a qual eles têm de lutar... desde a maternidade!

O texto tem por autor Kevin Hirdjee (Psicanalista clínico e psicólogo, exerce na maternidade e no Centro de Estudo e Conservação de Óvulos e de Esperma Humano (Cecos), e publicou “O que é um Pai?” (Fayard, 2024)), e foi publicado nas Sciences Humaines no dia 8 de dezembro de 2025.

Os pais vivem hoje sob o olhar de normas que não existiam antes. Normas que se revelam contraditórias: pede-se aos pais que sejam presentes, ternos, envolvidos, empenhados... mas, ao mesmo tempo, estes deparam-se com uma série de obstáculos insidiosos, pouco visíveis, mas muito poderosos, que tornam a sua tarefa difícil.

PROFISSIONAIS DE SAÚDE QUE EXCLUEM OS PAIS

Um local condensa estes paradoxos: a maternidade. Em “Da Nascença e dos Pais” (Les Éditions du remue-ménage, 2016), a historiadora quebequense Andrée Rivard traça a história longa e caótica da entrada dos pais nas salas de parto. Ela mostra como esta presença foi conquistada a pulso e permanece, ainda hoje, marcada por uma forte ambiguidade institucional.

Por detrás das proclamações igualitárias, as maternidades permanecem bastiões duma concepção tradicional da diferença entre os sexos: os pais são mais tolerados do que acolhidos. Basta interrogá-los: quantos se sentiram a mais, deslocados ou mal julgados por terem querido passar a primeira noite ao lado da sua companheira? Quantos não encontraram nem cama, nem refeição, nem espaço pensado para a sua presença?

Um estudo etnográfico conduzido por Gérôme Truc (“La paternité en Maternité. Une étude par observation”, Ethnologie française, vol. 36, 2006/2) numa maternidade parisiense traça um panorama preocupante. O autor revela a forma como a própria organização dos espaços e dos horários mantém indiretamente os homens à margem da criança, como se fossem considerados menos "competentes" do que as mulheres.

Este estado de coisas é tanto mais perturbador quanto assenta numa crença errónea: a de um instinto materno "inato", em virtude do qual as mães não teriam de "aprender" a cuidar de uma criança, mas apenas de "reactivar" nelas uma competência latente. Inversamente, os pais, logo à partida julgados menos competentes, não mereceriam uma atenção igual por parte dos profissionais de saúde. Gérôme Truc conclui que as maternidades funcionam segundo um regime "matrifocal", em que a mãe ocupa uma posição central em detrimento ou na ausência do pai.

UM DÉFICE DE INFORMAÇÃO

Estes entraves à integração dos pais aparecem também nas instituições da primeira infância. Os estudos sobre as visitas domiciliárias após o nascimento ensinam-nos, por exemplo, que as parteiras (Marleen Baker et al., “Entre la sage-femme et le père, des espaces coconstruits : étude exploratoire”, Enfances, Familles, Générations, n° 11, 2009) podem negligenciar os sinais da depressão pós-natal dos pais.

Outra investigação realizada em creches e escolas (France Frascarolo-Moutino et al., “La fonction de garde-barrière (le ‘gatekeeping’) des professionnels envers les pères : une puissante influence sur le développement de l’enfant et sur la famille”, Devenir, vol. 29, 2017) invoca a noção de ‘gatekeeping’ para descrever a tendência de algumas cuidadoras para restringir o acesso do pai à criança. As informações transmitidas aos pais durante as reuniões de final do dia nas creches são parciais, decisões terapêuticas são tomadas sem eles, e a sua competência é frequentemente presumida inferior à das mães. A hiperfeminização dos estabelecimentos e as crenças pessoais das profissionais sobre a repartição dos papéis de género criam fenómenos de entre-si feminino que dão aos homens a impressão de que não têm lugar nestes dispositivos.

HOMENS FACE A UMA INJUNÇÃO PARADOXAL

Vê-se bem que os obstáculos à implicação dos pais não são apenas fruto da má vontade dos principais interessados. Quando os homens se empenham junto dos seus filhos, deparam-se com contrafogos poderosos. As maternidades e as instituições da primeira infância fazem viver a alguns homens uma injunção paradoxal. Por um lado, espera-se que eles estejam presentes, e a sua ausência ou negligência são severamente criticadas.

Por outro, faz-se-lhes sentir através de sinais indiretos que não estão no seu lugar. Pior, recusa-se-lhes a aprendizagem dos saberes-fazer parentais que se concede às mães, como se só existisse uma única maneira legítima de cuidar de uma criança: a das mulheres.

#tolerância#tolerance#Tolerancia#tolérance#tolleranza#toleranz#tolerantie#宽容#寛容#관용#सहिष्णुता , #סובלנות#हष्णत#Ανοχή#Hoşgörü#tolerans#toleranță#толерантность#التس 

quarta-feira, dezembro 17, 2025

#TOLERÂNCIA353 - PODE-SE TOLERAR ISTO? NÃO, NÃO E NÃO!

 #TOLERÂNCIA353 - PODE-SE TOLERAR ISTO? NÃO, NÃO E NÃO!

Fiz questão de ouvir toda a intervenção(1) do sr. Ministro da Educação, Fernando Alexandre, a intervenção que provocou grandes reacções, polémica e oposições. Sim, o sr. Ministro pôs-se a jeito, não foi claro, acho legítimos os protestos de desrespeito e discriminação social e cultural dos estudantes universitários de condição económica mais baixa.

A meio do discurso, o sr. Ministro diz de maneira muito enfática que é defensor da escola pública. Mas o melhor estava mesmo guardado para o fim. E desse fim, tanto quanto me parece, nenhum partido político e nenhum órgão de comunicação social fez eco!

Vou transcrever:

«Vamos implementar e depende do governo aquilo que vai acontecer às residências, depende das universidades e dos politécnicos de todos, não é só de reitores e dos Presidentes. E também muito dos

estudantes, porque aquilo que eu estou a dizer sobre o meu cepticismo em relação à capacidade com este modelo de gestão universitária de transformar verdadeiramente aquelas residências em espaço de bem-estar. Pode ser que eu me engane, porque se há alguma coisa em que eu acredito é de facto nos jovens e nos estudantes e as sessões académicas têm aqui uma oportunidade para mais uma vez mostrarem que têm que ter, têm que ser exigentes. Eu já vos disse, eu gostava de vos ouvir falar mais sobre a ação social, porque é a acção social que faz a diferença, a acção social.»

Aqui vou dobrar o eco: «É a acção social que faz a diferença.»

Continua o sr. Ministro da Educação: «Nós em Portugal discutimos muitas vezes temas que não interessam nada, que são completamente laterais. E aquilo que faz a diferença, aquilo que conta para o acesso ao ensino superior é a acção social. O resto... Vejam aquela discussão que o Professor Nicolas Bar apresentou aqui é uma discussão que nós nem queremos ter em Portugal. Não vale a pena... não vale a pena...»

E com o que o sr. Ministro da Educação vai dizer a seguir, eu pergunto se pode haver alguma tolerância para o estado de coisas que ele diz. Não, não pode haver qualquer tolerância! Nenhuma! Vai alguém pegar nestas palavras, desafiá-las e resolver a profundamente injusta situação? Qual partido? Qual organização de estudantes? Qual movimento cívico? Mas estas palavras, as verdadeiramente importantes, foram abafadas, quem sabe, intencionalmente pelas outras, as da polémica das residências de estudantes.

Oiça-se bem o sr. Ministro da Educação:

«Nós não conseguimos sequer falar de propinas com a desigualdade que temos em Portugal, com a desigualdade que nós temos no nosso sistema de ensino superior, em que as famílias que não colocam os filhos no ensino superior andam a pagar as propinas, andam a pagar os estudos dos das famílias mais ricas. É isto que nós temos em Portugal! Nós somos um país profundamente desigual, porque nós somos extremamente insensíveis à desigualdade! Não tenham dúvidas sobre isso. Obrigado!»

Apetece-me escrever este parágrafo mais 1000 vezes: «As famílias que não colocam os filhos no ensino superior andam a pagar as propinas, andam a pagar os estudos dos das famílias mais ricas. Nós somos extremamente insensíveis à desigualdade!»

(1) https://cnnportugal.iol.pt/fernando-alexandre/estratos-sociais/isto-foi-o-que-o-ministro-da-educacao-disse-na-integra-sobre-os-estudantes-dos-meios-socioeconomicos-mais-desfavorecidos-e-as-residencias-degradadas/20251217/694273ecd34e2bd5c6d531b9

#tolerância#tolerance#Tolerancia#tolérance#tolleranza#toleranz#tolerantie#宽容#寛容#관용#सहिष्णुता , #סובלנות#हष्णत#Ανοχή#Hoşgörü#tolerans#toleranță#толерантность#التس 

sábado, dezembro 13, 2025

#TOLERÂNCIA349 - APRENDER A TOLERÂNCIA POR ANALOGIA

 #TOLERÂNCIA349 - APRENDER A TOLERÂNCIA POR ANALOGIA

As analogias dão-nos interessantes e úteis formas de aprendizagem, nem que seja pelo que sugerem. No caso da estação de hoje, este excerto deixa-nos no ar a pergunta: «Então, se precocemente também habituarmos o organismo à tolerância, a tolerância mostra-se adquirida na adolescência e na vida adulta?» A analogia é tentadora. Como diz a entrevistada, a "extrapolação" é tentadora.

Vamos ao caso, que aparece numa entrevista da edição desta semana da revista Sábado. A nutricionista Inês Pádua, que trabalha sobretudo com crianças, integra um grupo europeu que estuda a relação entre os ultraprocessados e o aumento de casos de reacções imunitárias graves a alimentos. A entrevista é conduzida por Lucília Galha.

Pergunta: Na introdução alimentar houve mudanças nos alimentos tradicionalmente considerados alergénios. Porquê?

Resposta: Aquilo que se fez durante muitos anos foi atrasar a introdução de alimentos que se

consideravam potencialmente alergénicos. A ideia era: vamos deixar que a criança cresça, fique com o sistema imunitário mais robusto, e depois então apresentamos-lhe estes alimentos para ela estar mais preparada para os tolerar. Acontece que se percebeu que era precisamente o contrário.

Pergunta: Como é que se percebeu isso?

Resposta: Foi há cerca de 10 anos, no Reino Unido, com o amendoim. Foi feito um estudo em que deram amendoim a crianças precocemente e perceberam que elas tiveram uma prevalência menor de alergia àquele alimento. Inclusivamente há dados recentes, de 2024, que mostram que as crianças que entraram
neste estudo, hoje são adolescentes e mantêm a tolerância ao amendoim. Portanto, isto teve efeito a
curto, médio e longo prazo. Depois houve um outro estudo feito com ovo, que teve resultados semelhantes, e daí extrapolou-se para outros alergénios mais comuns.

Pergunta: Quais são, então, atualmente as recomendações?

Resposta: Neste momento, a recomendação que temos é que qualquer alimento, excluindo o sal, o açúcar, o mel, a bebida de arroz, chás e infusões, pode estar na introdução alimentar assim que ela começa - a recomendação geral são os 6 meses, ou nunca antes do quinto mês - e que os alergénios alimentares devem estar todos introduzidos, os principais, até aos 11 meses do bebé.

Pergunta: Há uma janela temporal?

Resposta: Sim, e temos dados dos últimos cinco anos que mostram que, além da introdução precoce, o principal factor protector para evitar uma alergia alimentar é a diversidade. Ou seja, quanto mais alimentos a criança conhecer até fazer 1 ano, melhor.

Eis a tentação da extrapolação: se se consegue educar a tolerância fisiológica muito precocemente, será que se consegue educar também a tolerância psicológica? Depois vem a pergunta, dupla, desafiadora, para a Educação: se a resposta é sim, então, quando é que deve começar? E como é que se faz?

Não é fácil responder às duas perguntas duma maneira que seja útil para para os pais, até porque os pais, especialmente os das crianças mais pequenas, já têm um outro desafio educativo pela frente: tem a ver com o que se costuma dizer "fazer ou não fazer todas as vontadinhas ao bebé ou à criança pequena", disciplinar-lhes hábitos (de sono, amamentação, refeições) ou não, isso sim, deixar que os bebés e as crianças se desenvolvam de acordo com as suas motivações e características de personalidade naturais.

Repare-se como pode estar em causa um, digamos, confronto entre a educação duma tolerância positiva e a lassidão perante uma tolerância negativa: é o espectro dos meninos mimados, que só fazem o que querem e quando querem, só comem o que querem e quando querem... E depois, em que vão eles tornar-se quando forem mais crescidos? Há já um conjunto relativamente vasto de literatura sobre estas questões, e pode-se sempre recorrer aos pedagogos clássicos, da estirpe, por exemplo, de Maria Montessori.

Sou adepto dos grupos de discussão, seja de pais, de educadores, de professores; mistos ou não. E onde falta informação exacta e comprovada, que se chegue à opinião o mais informada e esclarecida possível, para cada um ter ideia do que está em causa e de quais são os graus de liberdade na acção do educador, seja mãe, pai ou educador profissional.

#tolerância#tolerance#Tolerancia#tolérance#tolleranza#toleranz#tolerantie#宽容#寛容#관용#सहिष्णुता , #סובלנות#हष्णत#Ανοχή#Hoşgörü#tolerans#toleranță#толерантность#التس 

quinta-feira, dezembro 04, 2025

#TOLERÂNCIA340 - TOLERAR OU NÃO TOLERAR, EIS A QUESTÃO

 #TOLERÂNCIA340 - TOLERAR OU NÃO TOLERAR, EIS A QUESTÃO

As tradicionais revistas semanais das quintas-feiras, a Sábado e a Visão, falam ambas, na edição desta semana de Tolerância e Educação.

Na Sábado, num artigo de opinião, o escritor Gonçalo M. Tavares termina o texto que tem como título "A produção em massa de cabeças poderes" com o seguinte parágrafo: «Mas parece-me que, mais do que pensar num qualquer ataque cognitivo da China, devia pensar-se, sim, nos pais destas crianças, nos pais pouco atentos — porque felizmente há muitos que não entram nesta categoria. E talvez sejam, sim, os pais involuntariamente, e muitas vezes porque trabalham como doidos, demasiadas horas, que estão a fazer uma guerra cognitiva, e paradoxalmente, aqueles que mais amam, os filhos. Tolerando que eles passem horas diante de ecrãs apodrecendo o cérebro desde pequenino. Tudo é guerra, dizem alguns e talvez a guerra mais importante esteja a desenrolar-se nas cabeças das crianças.»

Gonçalo M. Tavares está a dizer que a educação dos pais está a falhar porque está a alimentar a tolerância negativa.

Na Visão, também num artigo de opinião, o advogado Ricardo Sardo expõe o seu pensamento acerca do que leu no dossier que a Visão apresentou na edição de 13 de novembro, "um dossier com algumas estatísticas dos crimes praticados em Portugal, as quais traduzem um fiel retrato do contexto criminológico e de violência do País. Em resumo, podemos concluir que, no total, os números
se têm mantido mais ou menos inalterados (apesar do aumento da população), não obstante certos tipos específicos de crime terem aumentado."

Escreve Ricardo Sardo que «Os jovens (mas também os adultos) vivem cada vez mais agarrados aos telemóveis e tablets, o que os leva a consumir jogos e vídeos em doses diárias. O problema é que cada vez mais encontramos vídeos onde se promove a intolerância, o ódio e a discriminação.» Mais lá para diante escreve: «Não espanta, pois, que os números não desçam (ao contrário de outros) nestes tipos de crime. Os psicólogos já estabeleceram a ligação entre redes sociais (e telemóveis) e a agressividade e até a violência, mas também a redução das capacidades cognitivas e de raciocínio. A pergunta que todos devemos fazer é se estamos a criar e a educar agressores e jovens sem tolerância, respeito e controlo emocional.»

Deste segundo artigo de opinião podemos concluir que os pais estão a falhar na educação da tolerância positiva.

Parece-me que a causa, a raiz, de ambos os males — aumento da tolerância negativa e diminuição da tolerância positiva — é a mesma: a ausência, a falta de presença dos pais junto dos filhos, os filhos entregues a si próprios, aos ecrãs, aos telemóveis, a tudo o que neles aparece. E, aparentemente, o que neles aparece é sinal de liberdade de expressão pessoal e de cada vez mais democrática disseminação do poder de autoria de conteúdos (conteúdos informativos e "informativos).

São os pais que não querem estar com os filhos, ou são os pais que não podem estar com os filhos por causa da complexidade da organização da vida social, dos empregos, dos horários de trabalho; por causa das exigências laborais que espremem quanto podem, na clássica designação, a força de trabalho?

Está prevista, como há muito tempo não se via, uma greve geral, marcada por ambas as centrais sindicais do País, tal é o conjunto de medidas legislativas que o actual governo pretende acrescentar às relações laborais, precarizando, precarizando, precarizando. Parece que as centrais sindicais estão a dizer que não toleram mais.

#tolerância#tolerance#Tolerancia#tolérance#tolleranza#toleranz#tolerantie#宽容#寛容#관용#सहिष्णुता , #סובלנות#हष्णत#Ανοχή#Hoşgörü#tolerans#toleranță#толерантность#التس

sexta-feira, outubro 31, 2025

#TOLERÂNCIA306 - O LUGAR DA TOLERÂNCIA NO PALCO DAS ATITUDES E COMPORTAMENTOS

 #TOLERÂNCIA306 - O LUGAR DA TOLERÂNCIA NO PALCO DAS ATITUDES E COMPORTAMENTOS

Na transcrição que a seguir trago, Miguel Torga, no fundo, advoga em causa própria. Um autor alentejano advogaria as virtudes e as fraquezas dos alentejanos doutra maneira; outro, ribatejano, doutra ainda a propósito dos ribatejanos; e o mesmo fariam outros portugueses do continente ou das ilhas. E não precisamos de sair do pequeno Portugal, nele incluindo os madeirenses, os micaelenses, ou faialenses e os restantes naturais de outras ilhas.

A minha intenção com esta transcrição é chamar a atenção para que a Tolerância e a a atitude tolerante tem também condicionalismos e sustentação que vêm da experiência cultural, a qual, por sua vez, é marcada pela geografia particular e pelo desenvolvimento histórico, político e económico do grupo humano em causa. Neste texto, parece que Miguel Torga diz que os transmontanos são pouco dados à Tolerância, são pouco tolerantes com a Tolerância. Será que é mesmo assim?

Mais do que dizer já "Sim" ou "Não", o que importará à Reflexão e à Educação é a leitura colectiva e a discussão, a tentar-se que nasça a luz. E nasça a luz não tanto da opção pelo "Sim" ou pelo "Não", mas a luz que leva ao aprofundamento das características humanas e dos matizes das diferenças entre grupos culturais, em que se deseja que cada um se sinta bem na sua pele histórica e cultural, senhores de uma identidade gregária que congrega e promove o bem-estar pessoal e comunitário.

«Cruelmente, sem dó nem piedade, levamos dia a dia ao pelourinho os aleijões físicos e morais de cada um. E é um rol infindável de alcunhas por toda a província, sentenças sem qualquer apelo. As deformidades de dentro e de fora recebem o mesmo castigo do cautério inexorável. 'Pé-Tolo', é o sujeito que teve uma paralisia infantil; 'Sobe-e-Desce', o desgraçado manco que anda no chão como um barco nas ondas; 'Pernas de Centeio', o escanifrado com tíbias de gafanhoto. Mas há também o 'Mija-Lérias', o 'Florista' e o 'Padre-Nossos', que são estigmas de misérias mais profundas e doutra natureza: paleio vão, trato social postiço, falsa religiosidade. A espontânea e piedosa compaixão que tais infelicidades despertam não evita o ferrete judicativo. Olhamos os abismos de frente. Magro, o seio que nos

alimentou é uma branca lição de realismo. Por isso, mesmo com lágrimas nos olhos, superem-se as limitações, ultrapasse-se a pró-pria dor. A criatura é uma fome que nem todo o pão do mundo satisfaria. Busque-se, pois, outro alimento. Faça-se na deseroização do transitório a exaltação do definitivo.

»A mãe não manda ser um Narciso de virtudes secretas ou de falências toleradas. Ordena vitórias na colaboração, façanhas no meio da praça, no coração das feiras, na sala das assembleias, no cerne dos continentes, nas profundas dos infernos. E cheguem onde chegarem, os filhos cumprem religiosamente este mandato solene que exige o todo pelo todo, a abnegação mais desmedida e a mais teimosa irredutibilidade. Por toda a parte, nas grandes empresas do ideal, está o transmontano, ou à cabeça do rol ou no cortejo discreto mas actuante dos comparsas. É um quixotismo social irreprimível, um zelo pátrio vigilante, um impulso perpétuo para as obras de humanitarismo. Um apostolado que irrompe dum ímpeto pessoal que se expande, misto de fatalidade, orgulho e dever.

»Fiel às suas remotas regalias municipais, conquistadas a ferro e fogo, o transmontano mantém erguida não só a Domus de Bragança, símbolo palpável dessa liberdade de que não abdica, mas também o sentimento agudo duma colaboração fraterna com o semelhante, que aprendeu no comunitarismo do pastoreio, das fainas agrícolas, da transumância das rogas, no desenrolar de toda a vida quotidiana da sua aldeia. Que significa esta casa, e que significamos todos nós aqui, senão a irresistível entrega ao imperativo sagrado de preservação da personalidade, na dádiva constante do melhor que ela tem?»

Este excerto faz parte da conferência "Trás-os-Montes no Brasil", realizada no Centro Transmontano de São Paulo, em 14 de Agosto de 1954, e repetida no Centro Transmontano do Rio de Janeiro, a 16 do mesmo mês. É um dos textos do livro "Traço de União" (2.ª edição revista, de 1969, edição do autor). A releitura vem na sequência de alguns dias da semana passada, em que estive no Douro Vinhateiro, e foi pelo anfitrião, o amigo Barros de Carvalho, aos outros elementos do grupo desses dias.

#tolerância#tolerance#Tolerancia#tolérance#tolleranza#toleranz#tolerantie#宽容#寛容#관용#सहिष्णुता , #סובלנות#हष्णत#Ανοχή#Hoşgörü#tolerans#toleranță#толерантность#التس 

domingo, agosto 24, 2025

#TOLERÂNCIA238 - SOBRE A TOLERÂNCIA NA FAMÍLIA

#TOLERÂNCIA238 - SOBRE A TOLERÂNCIA NA FAMÍLIA

Não é o segredo do caminho para o Santo Graal, mas não é uma sugestão de se deitar fora, não senhor.

«A surdez das velhas gerações é subvalorizada mas é ela que permite um certo ideal de tolerância no interior das famílias: ouvir irrelevâncias ou excentricidades e achar que não merecem indignação

senão quando põem em causa o bem-estar geral.»

Este parágrafo faz parte dum texto crónica do suplemento da edição de hoje do Correio da Manhã. O autor é o "advogado reformado" (é assim que ele se apresenta) Sousa Homem, na página "Crónica - Em Certos aspectos", e o título do texto é "Sobre a harmonia familiar".

O texto é pequeno, é de fácil leitura, tem uma pontinha de homilia dominical. Transcrevo-o integralmente:

«Pelos padrões de hoje, o velho doutor Homem, meu pai, seria considerado obsoleto, um pai frio e distante. Sempre julguei que a distância era uma das suas interessantes virtudes, que os filhos aproveitaram com egoísmo e malandrice, evitando-nos constrangimentos e concedendo-nos mais liberdade.

»Hoje em dia apela-se "ao diálogo"; na minha ignorância sobre estas coisas, sempre pensei que faltava um pouco de ordem, almoços de domingo e alguma surdez. A ordem é uma espécie de entendimento tácito acerca de quem é mais velho; os almoços de domingo podem, com vantagem, ser substituídos por outro ritual e noutro dia da semana, mas significam exactamente isso — um ritual em que os membros da tribo se encontram e repetem as trivialidades da semana passada e que, com o tempo, serão já do mês passado; a surdez das velhas gerações é subvalorizada mas é ela que permite um certo ideal de tolerância no interior das famílias: ouvir irrelevâncias ou excentricidades e achar que não merecem indignação senão quando põem em causa o bem-estar geral.

»No fundo, os defeitos e as virtudes são exemplos que não se diluem com a conversação ou o "diálogo". Nos almoços de domingo falávamos de quê? Certamente, das dificuldades da existência e dos seus mistérios, uma variação sobre a maledicência familiar, a troca de informações sobre os desaires mais recentes ou a evolução do estado do mundo isto dava-nos uma certa leveza, regularmente interrompida por temas mais ou menos concretos, intendências, deveres e agenda.

»Isto não era o segredo para uma educação perfeita (eu sou o resultado provável dos seus erros), mas vivíamos num mundo onde ainda não tinham nascido o ié-ié, a psicanálise, a invenção da "juventude" e da pedagogia, ou as mensagens por telemóvel. Havia, claro, "os profundos abismos da alma", que vinham na literatura. Mas isso é uma coisa; outra coisa, inteiramente diferente, é admitir que essa alma ainda vale alguma coisa discutindo-a em Agosto. Eram temas do crepúsculo.»

Tem muito que se lhe diga, a aparentemente ingénua ironia que sustenta a evocação dum tempo em que «vivíamos num mundo onde ainda não tinham nascido o ié-ié, a psicanálise, a invenção da "juventude" e da pedagogia, ou as mensagens por telemóvel.» Não me parece que seja necessário ou relevante discutir imediatamente as opiniões e os estereótipos que a afirmação contém.

Não faltam na cultura popular sábios conselhos, ditados e provérbios acerca de ouvir (preferencialmente, muito), falar (preferencialmente, pouco) e ficar em silêncio.

Vou guardar o texto domingueiro de Sousa Homem. Acho-o capaz de alimentar uma boa hora de conversa em família ou sobre as famílias. Sobre a tolerância duns aos outros em família. Compreender as idiossincrasias de cada geração familiar aumenta a tolerância, é a tal ligação entre a Tolerância e a Compreensão.

#tolerância#tolerance#Tolerancia#tolérance#tolleranza#toleranz#tolerantie#宽容#寛容#관용#सहिष्णुता , #סובלנות#हष्णत#Ανοχή#Hoşgörü#tolerans#toleranță#толерантность#التس 

segunda-feira, agosto 11, 2025

#TOLERÂNCIA225 - FRANZ KAFKA E A TOLERÂNCIA

 #TOLERÂNCIA225 - FRANZ KAFKA E A TOLERÂNCIA

Ontem "tropecei" na edição «conforme a edição crítica» de "Todos os Contos" de Franz Kafka, editada e reeditada em português (pela Livros do Brasil) em 2023. Hoje folheei-a, e fui depois à Net tentar saber mais alguma coisa acerca da edição do livro.

Avançando quase sem cuidar do caminho, enredei-me em edições em português, alemão, inglês e francês. Tentei chegar a escritos originais (alemão) e compará-los com traduções nas outras três línguas. O Google quase sempre resvalou para a "Carta ao Pai", que Kafka escreveu em Novembro de 1919, já depois de feitos os 36 anos. Quanto às traduções que comparei, pois, lá me veio à cabeça o clássico "Traduzir é trair". Mas, que fico claro: bendigo o precioso trabalho dos tradutores competentes e cultos!

Começava assim a carta:

«Querido Pai,
Perguntaste-me há pouco tempo porque é que eu continuo a ter medo de ti. Como de costume, não fui capaz de te dar qualquer resposta, em parte por causa desse mesmo medo, em parte porque, se quisesse explicar as razões, haveria demasiados detalhes relevantes para conseguir articulá-los de forma coerente ao falar. E, mesmo tentando responder-te aqui por escrito, ficará sempre muito incompleto, porque, mesmo na escrita, o medo e as suas consequências continuam a interferir quando estou perante ti, e porque a extensão do material vai muito além da minha memória e compreensão.»

Dizem-me as fontes que a carta nunca chegou ao pai, Hermann Kafka... E que o próprio Kafka não terá tido intenção de a publicar. Publicou-a, já depois de Kafka morrer, o seu amigo Max Brod, a quem

Franz Kafka, aos 5 anos
Kafka chegou a deixar escrito o pedido para, caso ele, Kafka, morresse, «os diários, manuscritos, cartas, dele ou de outros, desenhos, etc., e que estivessem na estante de livros, no guarda-fatos (sic), na secretária, em casa, no escritório ou em qualquer outro sítio, fossem destruídos na íntegra sem serem lidos, tal como todos os escritos ou desenhos que ele — Max Brod — ou outras pessoas tivessem em seu poder.», coisa que o amigo, de todo, não fez.

O primeiro parágrafo da carta de Kafka ao pai é um excelente exemplo do que tantas vezes recomendo a pessoas ansiosas, tomadas por medos e bloqueadas nos seus pensamentos: que escrevam. Mesmo que não saibam bem o quê, mesmo que custe, é uma boa maneira de avançar numa conversa difícil com alguém, tantas vezes consigo próprio, não apenas com algum Outro.

Na edição mais completa dos Contos a que consegui acesso (uma edição inglesa de 1971-1983, logo, ainda longe da edição crítica de "Todos os Contos" de 1996), a palavra Tolerância (ou variantes da família da palavra) surge 14 vezes. Tomo nota para um dia as explorar com atenção.

Na "Carta ao Pai", Kafka fala da Tolerância 3 vezes.

A primeira tem a ver com a irmã mais nova, de quem ele, ao que parece, gostava muito, até porque a considerava forte, ao contrário de si próprio, que se via como fraco: «E não terias tu certamente tido a autoridade para fazer algo de muito bom com esta empresa (assumindo que te terias conseguido obrigar a fazê-lo) oferecendo encorajamento e conselhos e vigiando-a, talvez até apenas tolerando-a?» Parece que Kafka, aqui, sugere que mesmo a mera tolerância, a aceitação passiva dos seus caminhos [Repito, está a referir-se à irmã. Bem, no fundo, à irmã e a ele próprio, digo eu], teria sido suficiente para fazer uma diferença positiva, em contraste com a sua aparente desaprovação. A frase sugere a falta de apoio do pai, mesmo a nível mínimo.

A segunda mostra como a Tolerância não chega, pode mesmo ser enganadora: «Por exemplo, a minha escolha de profissão. Certamente que me deste total liberdade nesse aspecto, à tua maneira magnânima e, a este respeito, até tolerante. Embora, ao fazê-lo, estivesses também a seguir a forma como a classe média judaica geralmente trata os seus filhos, que era o padrão que tinhas — ou, pelo menos, estavas a seguir os seus juízos de valor. Em última análise, isso também foi afectado por um dos teus equívocos em relação à minha personalidade.» Quer dizer, a "Tolerância" do pai não vinha de uma compreensão profunda ou aceitação das suas escolhas, mas sim de uma adesão a um padrão social estabelecido.

Finalmente, a terceira será a mais contundente de todas: Kafka ousa pôr-se no lugar do pai, e fá-lo de forma bastante desafiante: «De qualquer modo, devo dizer que acharia um filho [como ele, Franz] tão calado, embotado, seco e obcecado [com o seu mundo de livros e escrita] bastante intolerável e, se mais nada fosse possível, quase de certeza fugiria dele, emigraria, tal como tu nunca tiveste a intenção de fazer até eu tencionar casar.» Kafka admite que a sua personalidade, tal como ele a percebe de si para si próprio, seria insuportável para alguém como o pai. Ele admite a sua própria dificuldade de ser amado ou aceite pelo pai, mas fá-lo de uma forma que também critica o pai pela sua intolerância. Ou seja, pai incapaz de ser tolerante coma filha e com o filho.

Pois é, entre ontem e hoje, sem que me desse conta dos passos com que lá cheguei, a certa altura vejo-me embrulhado num, deixem-me brincar, num autêntico "processos kafkiano" entre leituras, traduções e edições de Kafka. Porquê? Porque quis espreitar-lhes a Tolerância nos interstícios.

Tenha-me ou não saído bem deste labirinto, fico a pensar na maneira como a Tolerância e a Intolerância é vivida explicitamente ou surdamente na relação entre pais e filhos... Na maneira como os desejos dos pais, por mais meritórios que sejam, os tornam a eles, os pais, em educadores intolerantes, que se tornam incapazes de ver as idiossincrasias, as motivações, as individualidades e as personalidades dos filhos.

O desafio para a Educação: identificar, tão cedo quanto possível, os sinais de intolerância (sobretudo a mascarada, a sub-reptícia, velada e inconsciente) dos pais em relação aos filhos; e como evitá-la e preveni-la; e como modificá-la. Estou, naturalmente, a falar da intolerância que abafa, cerceia, o pleno desenvolvimento pessoal, saudável, das crianças e dos jovens.

#tolerância#tolerance#Tolerancia#tolérance#tolleranza#toleranz#tolerantie#宽容#寛容#관용#सहिष्णुता , #סובלנות#हष्णत#Ανοχή#Hoşgörü#tolerans#toleranță#толерантность#التس

sábado, março 25, 2023

Educação - Frases Inspiradoras: Deus e os Homens

 «Não é importante se as pessoas acreditam ou não em Deus; o que conta é como tratam os outros homens.», era o que Hans Rosling ouvia, em criança, aos seus pais. Quase seguramente, na década de 50 do séc. XX, na Suécia.

(Hans Rosling, "Como Aprendi a Compreender o Mundo", p. 21. Temas e Debates, Lisboa, 2021)