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terça-feira, junho 23, 2015

A Crise de Fernando Pessoa exactamente há 100 anos atrás

Pois é, exactamente há 100 anos atrás Fernando Pessoa estava à rasquinha de dinheiro, coitado!...
No dia 23 de Junho de 1915, ele escreveu a seguinte carta a Armando Côrtes-Rodrigues (1):

Lisboa, 23 de Junho de 1915.
               Meu caro Côrtes-Rodrigues:
É uma circunstância violenta e aflitiva. V. pode emprestar-me cinco mil réis até ao dia 1
Armando Côrtes-Rodrigues
do mês que vem (1 de Julho)? É aflitivíssimo
[sim, é isso mesmo: aflitivíssimo] o caso, creia. E o pagamento é pronto e certo no referido dia 1, se não for antes, o que pode acontecer, mas não prometo.
Se v. me pudesse fazer isto! Valia-me numa conjuntura em que não tenho ninguém para quem me vire. Era questão de uns dias; nem eu — desde o que v. já me explicou sobre a sua situação — lhe faria partida alguma, ou seria capaz de lhe dizer que lhe pagava em determinado dia, se me fosse impossível fazê-lo. Se v. puder, não deixe de me fazer isto!
Não estarei no escritório amanhã senão tarde. Mas, vindo v. cá e deixando-me em envelope a quantia, ser-me-á entregue fielmente quando eu chegue.
Não me julgue indelicado por lhe pedir, ainda por cima, que venha aqui ao escritório e, mais, dizendo-lhe que talvez eu não esteja. É que tenho coisas inadiáveis de que tratar e não poderia marcar horas e lugar mais conveniente onde encontrá-lo. Desculpe.
Veja se me pode fazer isto, sim? É só por estes 5 ou 6 dias. Decerto que poderá ser.
Seu mt.º am.º e grato
               F. Pessôa
Há registo que no dia 26 ele voltou a escrever ao amigo. Assim:
Noite de 26-6-1915.
               Irmão em pseudo:
Saberás que hoje, pelas 6 horas da tarde, inesperadamente, tudo se resolveu.
Eu nada já esperava, como sabias, e eis que de repente uma porta se abriu nas ocorrências, mesmo defronte do meu Desejo.
Um astro benéfico talvez transitando um ponto vital do horóscopo? Verei se assim foi. Saúdo-te.
                Fernando Pessôa
Segundo a nossa fonte, esta segunda carta alude «certamente, à resolução do problema de dinheiro que motivara a carta de 23 do mesmo mês.»
A fonte é o volume "Correspondência, 1905-1922", edição de Manuela Parreira da Silva, da Asírio & Alvim, 1999, p. 165-6.

Pronto, a crise financeira de Fernando Pessoa, ao contrário da nossa, foi de pouca dura; só que ele teve muitas crises assim...

(1) Noutra carta, de 24 de Fevereiro de 1913, a Álvaro Pinto,  Pessoa chama a atenção ao seu correspondente, que é Côrtes, não é Cortês.

domingo, outubro 27, 2013

Pensar a Europa - mudou a hora!

Durante a noite que passou, a Europa mudou a hora.
Depois chegou a manhã. Durante a manhã, logo que ela começou, eu liguei o computador e fui à Internet. Abri a página do Diário de Notícias. "Se a Europa não conseguir repensar-se, é o seu fim" é o título que me chama imediatamente a atenção; a frase é do professor António Sampaio da Nóvoa. Ligo a televisão enquanto me sento à mesa a tomar o pequeno-almoço. Sintonizada na TVI24, a caixa que mudou o mundo traz-me um debate promovido pela Fundação Francisco Manuel dos Santos - estão a pensar a Europa! Dum lado, fala-se de Política e dos partidos; do outro, fala-se de matrizes culturais e sobretudo religiosas.
O pensamento automático traz-me a imediata conclusão: Anda toda a gente a pensar a Europa! A seguir, ri-me... E sem me engasgar!
http://www.guiageo-europa.com/mapas/globo.htm
A seguir ao pensamento automático, pensei outras coisas, como acontece sempre fazermos a seguir aos pensamentos automáticos. E a maneira como comecei este texto mostra logo o caminho que eu tomei a pensar:

  1. É fácil tomarmos o todo pelas partes - basta até uma ou duas partes, mesmo ficando muitas por levar em conta.
  2. É fácil forçar o pensamento das pessoas - na verdade, a hora não muda só na Europa; mas deu-me jeito agora acentuar que isso aconteceu agora na Europa.
  3. Sinto que me fez muito bem ter lido há algum tempo um quase velho livro sobre a História da Europa. Um livro sem fotografias, sem imagens, só com palavras, com textos. O livro foi escrito por um autor italiano, senhor que, evidentemente, teria os seus todos e as suas partes (Ui! Como a língua portuguesa está sempre por aí pronta a ser traiçoeira...). Não me lembro agora do nome dele, emprestei o livro, talvez mais logo, ainda hoje, consiga trazer para a qui a identificação clara do autor; e também do livro.
  4. Com a leitura do livro fiquei com uma ideia sobre a Europa, a sua História, as suas dinâmicas e lutas intestinas  que me fazem ver com um grau de clareza que muito me satisfaz tudo o que vejo acontecer por essa Europa fora; e pelo Mundo fora com a Europa metida no barulho desse Mundo.
  5. Os europeus em que tantas reflexivas e doutas cabeças pensam são pessoas - pessoas cheias de violência irracional, de ódios aprendidos, de rivalidades acumuladas, de ânsias de domínio; mas também de espantosas capacidades de inventar e descobrir (Piaget é um notável europeu), de criar laços de fraternidade e de amar profundamente.
  6. Apetece-me trazer a ajuda de um gigante da Língua Portuguesa, com quem partilho o nome próprio. Cantou ele, a fechar enfaticamente o poema: "Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez. Senhor, falta cumprir-se Portugal!"
  7. Pois bem, apetece-me dizer: "Cumpriu-se o desenvolvimento, e a Europa se fez e desfez. Senhores, falta pensar a sério nas pessoas."
  8. A Europa tem estruturas políticas (nacionais e interpaíses), sistemas de organização social, desenvolvimento material e conhecimento (científico e filosófico) bastantes; falta olhar honestamente as pessoas que compõem os povos, olhar com o necessário respeito às suas necessidades, anseios e caraterísticas pessoais, da irracionalidade ao amor de que falei lá atrás. Mais nada.
  9. Pois é, para mim só falta mesmo pensar a sério nas pessoas. Penso que é isso que agora tantos movimentos cívicos de cidadãos independentes procuram reclamar. Vamos a isso! E os políticos de profissão ou carreira que não caminharem nestes caminhos ou o percorram perversamente (os velhos lobos disfarçados de cordeiros não vão deixar de existir, seguramente) não deixarão de contar com a indispensável e muito humana tolerância e certamente poderão contar com o seu lugar na Europa: deixar-lhes-emos os lugares lá bem atrás da fila.

quarta-feira, março 27, 2013

Assim é a vida, mas eu não concordo.

O padre José Fernando, no hospital do Fundão,
no dia 20 de fevereiro de 2011, a partilhar memórias
com um velho companheiro de seminário;
essas memórias estariam também à disposição
de toda a gente, no livro que publicou pouco depois.
«"Assim é a vida, mas eu não concordo." Foi esta a frase e eu só queria, ao relembrá-la a glória de a poder ter inventado.»
Quem um dia assim escreveu foi Fernando Pessoa, que a ouviu "a um homem que não sei quem é". Diz ele um pouco mais à frente que "É a história inteira da humanidade nas suas relações com a Natureza.". 
O padre José Fernando tinha esta rebeldia. Acompanhei-o muitas vezes às dececionantes consultas de oncologia que sempre, sempre, sempre, o avisavam que ele não tivesse ilusões - ele era um homem com uma doença em evolução. Mas o padre José Fernando não concordava que a sua vida fosse assim - porfiava perante a descrença médica, quase arrancava para si os tratamentos que era preciso ousar. Um dia, os exames mostraram que os assassinos nódulos estavam a dar de si. A voz que teimava em avisá-lo que não se deixasse levar por ilusões sorriu pela primeira vez e perversamente reclamou o triunfo para si: "Estamos a ganhar esta guerra, senhor padre!..." Desta vez foi o padre José Fernando que olhou os olhos da difícil voz e respondeu tranquilamente: "Eu sei onde vou chegar, mas, até lá temos de ver o que se consegue fazer ainda."
No mesmo escrito em que Fernando Pessoa escreveu a notável frase, ele regista uma outra, que relembra de ter ouvido a "outra mulher a um portal de casa por onde passei: «Ora ele morreu lá disso. Ele morreu, mas foi de ter que morrer!"»
Sim, o padre José Fernando sempre soube muito lucidamente que assim é a vida, mas ele não concordava. E nesta rebeldia contra o destino que nos leva a saúde e a vida, ele deu-nos sempre o exemplo do inconformismo que as coisas difíceis da vida precisam. A felicidade não existe na aceitação, mesmo que serena, do que nos está destinado; a felicidade faz-se na sabedoria ousada com que lidamos com o que nos está destinado em sorte, a bem da nossa paz e bem-estar; e a bem da paz e bem-estar dos que estão à nossa volta.
Abraço rijo, amigo-irmão!

quarta-feira, fevereiro 06, 2013

XVII Colóquio Juvenil de Artes na E.S.E.Q.


PALAVRAS DE CIRCUNSTÂNCIA,
na qualidade de presidente do Agrupamento de Escolas Eça de Queirós:

A Arte, tal como a generalidade das produções e das formas de expressão humanas, é filha do seu tempo, seja na maneira como capta o presente, na maneira como recupera o passado ou antecipa o futuro.
Na verdade, por exemplo, seria impossível que Leonardo da Vinci inventasse um Eça de Queirós como o que temos junto ao quiosque do Cartão Escolar, ali todo composto de latas de coca-cola, vazias e despejadas para o lixo, e outras que tais, de outras marcas de refrigerantes. Não é que não houvesse Coca-cola e latas de Coca-cola no tempo de Leonardo da Vinci – bastaria que a Coca-cola decidisse que, sim senhor, que já havia, para, algures no mundo, um qualquer criativo da poderosa Publicidade atual, servindo-se de tantos e sofisticados aparelhos de transformação e composição das imagens que hoje existem, colocasse uma bem tradicional lata de coca-cola nas mãos desse artista e génio do Renascimento, com arrepiante verosimilhança à época, que até nós, sabedores da mentira, ficaríamos na dúvida se seria mesmo verdade ou não.
A única coisa que impede tal ousadia desse poderoso criativo do Marketing e dos Negócios é a gente conhecer a data de nascimento de Eça de Queirós. A data de nascimento do nosso Patrono é que a gente não consegue contornar. Pôr a lata de Coca-cola nas mãos de Leonardo da Vinci, isso é tarefa bem fácil para os poderosos construtores atuais de imagens vivas, não lhes custaria mesmo nada fazê-lo.
Seria essa composição adúltera – a figura de Leonardo da Vinci com uma lata de coca-cola nas mãos - considerada Arte?
Eu tenho uma resposta que me satisfaz, mas não a revelo aqui. A denunciar-me um pouco no que penso sobre este assunto, trago-vos um pequeno trecho de Fernando Pessoa – que alguns certamente conhecerão -, precisamente sobre a Arte. Escreve ele assim:
"Para que a arte possa ser arte, não se lhe exige uma sinceridade absoluta, mas algum tipo de sinceridade. Um homem pode escrever um bom soneto de amor sob duas condições - porque está consumido pelo amor, ou porque está consumido pela arte. Tem de ser sincero no amor ou na arte; não pode ser ilustre em nenhum deles, ou seja no que for, de outro modo. Pode arder por dentro, sem pensar no soneto que está a escrever; pode arder por fora, sem pensar no amor que está a imaginar. Mas tem de estar a arder algures. De contrário, não conseguirá transcender a sua inferioridade humana.” Fernando Pessoa, in 'Heróstato e a busca da imortalidade'. 
Mas, pronto, agora é certamente tempo de outras coisas. Agora é tempo de celebração e partilha.
Também eu sinto uma alegria muito grande pela realização deste colóquio na Escola sede do nosso Agrupamento, e estou disponível para toda a colaboração que estiver ao meu alcance.
Sei, com satisfação e orgulho, da capacidade dos alunos, dos professores e dos funcionários da  Escola envolvidos neste promissor evento para receber com cordialidade e respeito todos os nossos visitantes. A todos esses alunos, professores e funcionários apresento os meus mais vivos votos de parabéns por tudo o que já fizeram e por aquilo que ainda virá a acontecer nestes 3 dias do Colóquio.
Quanto a vós, caros visitantes, da nossa Escola, sejam todos bem-vindos à Eça de Queirós!...
Obrigado pela vossa presença!...
Que toquem as trombetas e que a festa comece!...
P.S. - E que comece com um abraço de parabéns a um jovem que muito porfiou para que este Colóquio acontecesse e possa tornar-se um êxito, o Fábio Fernandes.

quinta-feira, agosto 16, 2012

Parabéns a António Nobre, à beira do mar

http://www.gutenberg.org/files/27535/27535-h/27535-h.htm
Hoje seria o dia de aniversário de António Nobre.
Fernando Pessoa, a fazer fé nas suas notas autobiográficas, leu o "Só" aos 18 anos de idade. Num dia leu metade e no dia a seguir acabou.
Num texto que é publicado pela primeira vez em 1915 (tem, portanto, 26 ou 27 anos de idade), Pessoa diz que "De António Nobre partem todas as palavras com sentido lusitano que de então para cá têm sido pronunciadas. (...) ele foi o primeiro a pôr em europeu este sentimento português das almas e das coisas, que tem pena de que umas não sejam corpos, para lhes poder fazer festas, e de que outras não sejam gente, para poder falar com elas. (...) Quando ele nasceu, nascemos todos nós." (http://arquivopessoa.net/textos/3119)
Filho da brisa que soprava do mar, fascinado pela lonjura prateada do horizonte que o poente lhe trazia, António Nobre, várias vezes cantou o mar, prendeu-se por ele, pelas suas fainas, e pela sua história:


Quisera ser um grande marinheiro, 
Um novo astro entre os milhões de sóis! 
Ser de Albuquerque um filho aventureiro, 
Pertencer à família dos Heróis! 
«Quisera ser um grande marinheiro», Leça, 1887


Um dia, ainda em 1887, António Nobre escreve assim a um amigo:


«Tens o mar, que é o melhor conselheiro depois de nossos Pais.»
«Ouve uma coisa que te digo: nunca te decidas sobre uma questão qualquer 
sem primeiro teres meditado nela à beira daquelas negras águas. Verás como 
aquele eterno runrum das ondas que se transformam a pouco e pouco numa voz 
deliciosa e amiga capaz de deitar a um canto a voz da Patti (…).» 

Todos nó somos produto das nossas circunstâncias, como falava Gasset das influências à volta das quais crescemos e nos fazemos. Também eu tenho fascínio pelo mar, também eu tenho memórias ainda vivas do seu cheiro intenso, húmido, na respiração da minha infância.
O que, todavia, me pergunto agora é qual é o mar do transmontano, do beirão ou do alentejano do interior? O mesmo conselho profundo, telúrico, a seguir ao dos Pais, estes buscarão também. A que "mar" vão eles buscá-lo?...
Muito bem, António, vinha eu apenas dar-te um abraço de parabéns e pus-me a divagar por estas coisas. Sabes que tenho um carinho especial por ti, sabes que, para mim, o Manoel e a Coimbra da tua carta é o Manuel e a Coimbra do meu pai.
Vá, um abraço de parabéns, António! Seguramente muitas mais vezes te procurarei em muitos mais aniversários - os teus, os meus, os do Manuel; e os do Mar.

segunda-feira, agosto 13, 2012

De volta a Zanzibar, pela escrita de Fernando Pessoa

No próximo domingo faz 5 anos que parti, com um grupo de amigos, ao encontro das neves do Kilimanjaro e da cultura de Zanzibar.
Agora que já não tenho tanta quantidade de atenção dedicada aos Jogos Olímpicos, lembro-me de outras coisas. Nesta altura, é natural que esta aventura em África, que tão importante foi para mim, tome a frente de tudo. Num livro que remexi por acaso encontrei este poema de Álvaro de Campos (Fernando Pessoa passou por Zanzibar). Penso que nunca o tinha lido antes. A primeira estrofe do poema é mesmo aquilo que a gente gosta de encontrar nos poetas. Só não subscrevo o último verso: eu agora já quero pouco, não sofro - nunca sofri - com a ansiosa avidez do desejo partir, descobrir e encontrar. Aliás, é essa a minha diferença em relação a Pessoa em todo o poema: eu saboreio o prazer e a consciência do apaziguamento; e estou muito contente de ter nascido. Mudarei outra vez, alguma vez?...

Tenho um destino guardado, um só, lá chegarei sem pressas. A não ser que uma surpresa, uma coisa inesperada, o impeça. E então?...


Álvaro de Campos

PASSAGEM DAS HORAS [b]
http://arquivopessoa.net/textos/827

PASSAGEM DAS HORAS
Trago dentro do meu coração,
Como num cofre que se não pode fechar de cheio,
Todos os lugares onde estive,
Todos os portos a que cheguei,
Todas as paisagens que vi através de janelas ou vigias,
Ou de tombadilhos, sonhando,
E tudo isso, que é tanto, é pouco para o que eu quero.
A entrada de Singapura, manhã subindo, cor verde,
O coral das Maldivas em passagem cálida,
Macau à uma hora da noite... Acordo de repente...
Yat-lô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô... Ghi — ...
E aquilo soa-me do fundo de uma outra realidade...
A estatura norte-africana quase de Zanzibar ao sol...
Dar-es-Salaam (a saída é difícil)...
Majunga, Nossi-Bé, verduras de Madagáscar...
Tempestades em torno ao Guardafui...
E o Cabo da Boa Esperança nítido ao sol da madrugada...
E a Cidade do Cabo com a Montanha da Mesa ao fundo...
Viajei por mais terras do que aquelas em que toquei...
Vi mais paisagens do que aquelas em que pus os olhos...
Experimentei mais sensações do que todas as sensações que senti,
Porque, por mais que sentisse, sempre me faltou que sentir
E a vida sempre me doeu, sempre foi pouco, e eu infeliz.
A certos momentos do dia recordo tudo isto e apavoro-me,
Penso em que é que me ficará desta vida aos bocados, deste auge,
Desta estrada às curvas, deste automóvel à beira da estrada, deste aviso,
Desta turbulência tranquila de sensações desencontradas,
Desta transfusão, desta insubsistência, desta convergência iriada,
Deste desassossego no fundo de todos os cálices,
Desta angústia no fundo de todos os prazeres,
Desta saciedade antecipada na asa de todas as chávenas,
Deste jogo de cartas fastiento entre o Cabo da Boa Esperança e as Canárias.
Não sei se a vida é pouco ou de mais para mim.
Não sei se sinto de mais ou de menos, não sei
Se me falta escrúpulo espiritual, ponto-de-apoio na inteligência,
Consanguinidade com o mistério das coisas, choque
Aos contactos, sangue sob golpes, estremeção aos ruídos,
Ou se há outra significação para isto mais cómoda e feliz.
Seja o que for, era melhor não ter nascido,
Porque, de tão interessante que é a todos os momentos,
A vida chega a doer, a enjoar, a cortar, a roçar, a ranger,
A dar vontade de dar gritos, de dar pulos, de ficar no chão, de sair
Para fora de todas as casas, de todas as lógicas e de todas as sacadas,
E ir ser selvagem para a morte entre árvores e esquecimentos
Entre tombos, e perigos e ausência de amanhãs,
E tudo isto devia ser qualquer outra coisa mais parecida com o que eu penso,
Com o que eu penso ou sinto, que eu nem sei qual é, ó vida.
Cruzo os braços sobre a mesa, ponho a cabeça sobre os braços,
E preciso querer chorar, mas não sei ir buscar as lágrimas...
Por mais que me esforce por ter uma grande pena de mim, não choro,
Tenho a alma rachada sob o indicador curvo que lhe toca...
Que há-de ser de mim? Que há-de ser de mim?
Correram o bobo a chicote do palácio, sem razão,
Fizeram o mendigo levantar-se do degrau onde caíra.
Bateram na criança abandonada e tiraram-lhe o pão das mãos.
Oh mágoa imensa do mundo, o que falta é agir...
Tão decadente, tão decadente, tão decadente...
Só estou bem quando ouço música, e nem então.
Jardins do século dezoito antes de 89,
onde estais vós, que eu quero chorar de qualquer maneira?
Como um bálsamo que não consola senão pela ideia de que é um bálsamo,
A tarde de hoje e de todos os dias pouco a pouco, monótona, cai.
Acenderam as luzes, cai a noite, a vida substitui-se.
Seja de que maneira for, é preciso continuar a viver.
Arde-me a alma como se fosse uma mão, fisicamente.
Estou no caminho de todos e esbarram comigo.
Minha quinta na província,
Haver menos que um comboio, uma diligência e a decisão de partir entre mim e ti.
Assim fico, fico... Eu sou o que sempre quer partir,
E fica sempre, fica sempre, fica sempre,
Até à morte fica, mesmo que parta, fica, fica, fica...
Torna-me humano, ó noite, torna-me fraterno e solícito.
Só humanitariamente é que se pode viver.
Só amando os homens, as acções, a banalidade dos trabalhos,
Só assim — ai de mim! —, só assim se pode viver
Só assim, ó noite, e eu nunca poderei ser assim!
Vi todas as coisas, e maravilhei-me de tudo,
Mas tudo ou sobrou ou foi pouco — não sei qual — e eu sofri.
Vivi todas as emoções, todos os pensamentos, todos os gestos,
E fiquei tão triste como se tivesse querido vivê-los e não conseguisse
Amei e odiei como toda a gente,
Mas para toda a gente isso foi normal e instintivo,
E para mim foi sempre a excepção, o choque, a válvula, o espasmo.
Vem, ó noite, e apaga-me, vem e afoga-me em ti.
Ó carinhosa do Além, senhora do luto infinito,
Mágoa externa da Terra, choro silencioso do Mundo.
Mãe suave e antiga das emoções sem gesto,
Irmã mais velha, virgem e triste, das ideias sem nexo,
Noiva esperando sempre os nossos propósitos incompletos,
A direcção constantemente abandonada do nosso destino,
A nossa incerteza pagã sem alegria,
A nossa fraqueza cristã sem fé,
O nosso budismo inerte, sem amor pelas coisas nem êxtases,
A nossa febre, a nossa palidez, a nossa impaciência de fracos,
A nossa vida, ó mãe, a nossa perdida vida...
Não sei sentir, não sei ser humano, conviver
De dentro da alma triste com os homens meus irmãos na terra.
Não sei ser útil mesmo sentindo, ser prático, ser quotidiano, nítido,
Ter um lugar na vida, ter um destino entre os homens,
Ter uma obra, uma força, uma vontade, uma horta,
Uma razão para descansar, uma necessidade de me distrair,
Uma coisa vinda directamente da natureza para mim.
Por isso se para mim materna, ó noite tranquila...
Tu, que tiras o mundo ao mundo, tu que és a paz,
Tu que não existes, que és só a ausência da luz,
Tu que não és uma coisa, um lugar, uma essência, uma vida,
Penélope da teia, amanhã desfeita, da tua escuridão,
Circe irreal dos febris, dos angustiados sem causa,
Vem para mim, ó noite, estende para mim as mãos,
E sê frescor e alívio, ó noite, sobre a minha fronte...
Tu, cuja vinda é tão suave que parece um afastamento,
Cujo fluxo e refluxo de treva, quando a lua bafeja,
Tem ondas de carinho morto, frio de mares de sonho,
Brisas de paisagens supostas para a nossa angústia excessiva...
Tu, palidamente, tu, flébil, tu, liquidamente,
Aroma de morte entre flores, hálito de febre sobre margens,
Tu, rainha, tu castelã, tu, dona pálida, vem...
22-5-1916
Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. 
 - 26c.
1ª versão: Poesias de Álvaro de Campos. Fernando Pessoa. (Nota editorial e notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1944.

sexta-feira, julho 01, 2011

Pedacinho a ti, pedacinho a mim

"Grande é a poesia, a bondade e as danças...
Mas o melhor do mundo são as crianças, (...)"
(Fernando Pessoa)
É... é verdade. Não obstante tudo, as crianças continuam a nascer ávidas de sorrir, de tomarem-nos para elas, de nos amarem e de nos acarinharem.
Como hoje, aquela bebé, que não me conhecia de lado nenhum, que, logo que me viu de mão estendida para ela, me deu o seu pão, se sorriu a ver-me comê-lo e que, mal teve mais pão na mão, o continuou a repartir, pedacinho a ti, pedacinho a mim...
Foi mesmo um pedacinho de vida giro, no intervalo de discussões valentes sobre as coisas da escola...
Será isto lamechice de sexta-feira cansada?... Seja. Soube-me bem; à bebé, parece-me que também. Seguramente também a quem estava ali à volta, e não eram tão poucos quanto isso!..
Heal The World
Michael Jackson
Composição: Michael Jackson
There's a place in your heart
And I know that it is love
And this place could be
Much brighter than tomorrow
And if you really try
You'll find there's no need to cry
In this place you'll feel
There's no hurt or sorrow
There are ways to get there
If you care enough for the living
Make a little space
Make a better place
Heal the world
Make it a better place
For you and for me
And the entire human race
There are people dying
If you care enough for the living
Make it a better place
For you and for me
If you want to know why
There's love that cannot lie
Love is strong
It only cares of joyful giving
If we try we shall see
In this bliss we can't feel fear or dread
We stop existing and start living
Then it feels that always loves enough
For us growing
So make a better world
Make a better world
Heal the world
Make it a better place
For you and for me
And the entire human race
There are people dying
If you care enough for the living
Make a better place
For you and for me
And the dream we were conceived in
Will reveal a joyful face
And the world we once believed in
Will shine again in grace
Then why do we keep strangling life
Wound this earth, crucify its soul
Though it's plain to see this world is heavenly
Be god's glow
We could fly so high
Let our spirits never die
In my heart I feel
You are all my brothers
Create a world with no fear
Together we'll cry happy tears
See the nations turn their swords
Into plowshares
We could really get there
If you cared enough for the living
Make a little space
To make a better place
Heal the world
Make it a better place
For you and for me
And the entire human race
There are people dying
If you care enough for the living
Make a better place
For you and for me [3x]
There are people dying
If you care enough for the living
Make a better place
For you and for me [2x]
You and for me (Make a better place) [3x]
You and for me (Heal the world we live in)
You and for me (Save it for our children) [4x]

sábado, maio 15, 2010

Fernando Pessoa e a mãe

Fernando Pessoa terá escrito a primeira quadra à sua mãe.
Terá, porque não é seguro que o tivesse sido. Provavelmente esta certeza é a mesma que põe as mães a dizerem que a primeira palavra que os seus bebés disseram, quando começaram a falar, foi "mamã".
Seguro apenas é que terá dedicado "à minha mamã" os seguintes versos:

Eis-me aqui em Portugal
Nas terras onde eu nasci
Por muito que goste delas
Ainda gosto mais de ti

Há uma diferença grande entre dizer "ainda gosto mais de ti" e "de quem (do que) eu gosto mais é de ti." A forma escolhida por Pessoa é muito mais interessante do ponto de vista da expressão das emoções. Na forma por ele escolhida, o acento tónico é posto na emoção em si, Pessoa toma consciência da intensidade da emoção que experimenta; na outra forma, o acento tónico ficaria mais centrado na perceção afectiva do objecto sobre o qual recaía a emoção. Pessoa não quis simplesmente louvar a mãe, quis mesmo transmitir-lhe o que tinha consciência que sentia por ela dentro dele.
A mãe terá gostado da carinhosa declaração do filho, com sete anos de idade, mas não terá deixado de lhe observar que em vez de "ti" deveria ser "si", é que não se devia tratar a mãe por tu!...
Espero que a mãe tenha feito esta censura com muita brandura e sem se esquecer de o aconchegar com um miminho.

sexta-feira, abril 24, 2009

Escrevi assim hoje noutro blogue, o Pato Bravo (http://www.patobravo.com/), como comentário a um apontamento lá escrito sobre o José Geadas:

Há coisas muito engraçadas na participação deste miúdo!…
Parece trazer nele a experiência que lhe vem do chão, que sente a certeza do seu valor, mas tem sobre ele o obstáculo de que a sua condição natal o põe logo derrotado perante outros (não interessa se mais, igual ou menos capazes) certamente mais poderosos… São gerações e gerações de vidas duras e muito exploradas…
A espontaneidade do sotaque e da resposta rápida e oportuna a assumir e a defender o seu - o nosso!… - Benfica, a denunciar a integridade pessoal e o pensamento vivo…
O brilho dos olhos, olhando olhos nos olhos; e a expressão tristemente feita de empatia e carinho, com que agradeceu, não aos de Rio de Moinhos, concelho de Borba, mas sim aos de Rio de Moinhos e aos do concelho de Borba… Era o olhar, a firmeza e o afecto de quem sabia o que estava a dizer…
A explosão e a expressividade do salto e do abraço ao colega de concurso, assim que ouviu o Luís Goucha dizer o seu nome… muito claros da alegria sincera e saudável do feito que tinha conseguido alcançar…
Não quero ser tomado pelo virus da “concursite”, a ver quem fica em primeiro, mas o rapaz parece-me um daqueles atletas que os comentadores desportivos gostam de dizer que “correm de trás para a frente”. E assim, quem sabe?, se pelos seus próprios méritos ele não chegará onde ele próprio já considerou impossível chegar.
Hoje, na escola, quis brindar os meus alunos com um poema que celebrasse o 25 de Abril…
Entretanto, enquanto procurava esse poema, encontrei este outro, que achei à medida do Zé Geadas, que me faz lembrar o homem-criança que sonha na “Pedra Filosofal”. Gosto mesmo muito de ouvir o Zé cantar.
O poema. É de Fernando Pessoa (Ricardo Reis), escrito para ele:

Ode
Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.

Zé, força!…
Viva o Benfica!… (Desculpem os outros o facciosismo…)
Viva o 25 de Abril! 25 de Abril, sempre!

quinta-feira, abril 23, 2009

If "I could carve my poems in wood", Fernando Pessoa

Este é o poema de Fernando Pessoa, apresentado no apontamento imediatamente anterior deste blogue. O poema foi originalmente escrito em inglês, numa colectânea chamada "The Mad Fiddler" (O Rabequista Mágico).
Retirei-o do volume I da "Poesia Inglesa", da Assírio & Alvim, de Março de 2000.

If I could carve poems in wood,
By children they would be understood, 

So near to the sense things have in God
Are both my poems and children’s thought. 

For a child knows that logic and meaning
Are only nothing nothing screening, 

And a child is only divinely aware
That all things are toys and all things are fair. 

That a thimble, a stone and a cotton-reel
Are things we can quite divinely feel, 

And that, if we make men out of those things,
They are really men, not imaginings. 

I would therefore I could take my verse
Out of mere ideas and better it worse 

To visible carving or drawing or what
My verses could be resembling that. 

Then would I be the children’s poet.
And, though perhaps I might never know it 

With the outer sense that makes life sadder,
In every innocent face made gladder 

God would be giving my soul the sense,
Lost back of knowledge, of recompense – 

The sense of children more children still
When, acting my poems at their glad will, 

They, playing with toys, with legs incurled,
Lightly err the visible world.

Fernando Pessoa, as emoções e as representações das crianças

Este apontamento é dedicado
ao José Geadas e ao João Lotra, do concurso "Uma Canção para Ti" da TVI,
quer dizer, é dedicado às crianças que eu imagino que eles são,
e dedicado também a todas as crianças que são
- repito - como imagino que eles os dois são.

Quando estava a preparar uma aula sobre a expressão das emoções e a pedagogia das emoções
nas crianças pequenas,
encontrei um poema de Fernando Pessoa, que me imaginei logo a usar
num hipotético nível avançado de formação para professores,
precisamente sobre a pedagogia das emoções.

O poema de Fernando Pessoa não tem título,
ao contrário da maioria dos poemas que estão publicados nos "Poemas Ingleses".
Tentei dar-lhe um título, 
mas todos me pareceram insuficientes e insatisfatórios.
Lembrei-me, então, de reescrever o início de um (pretencioso) poema,
que escrevi há anos,
e usar esses versos como título.

Aqui vão, então, em grata e cordial saudação ao José Geadas e ao João Lotra:
Para que as palavras falem de ti,
A todos digam o que senti,
É preciso escrevê-las
Alegres e travessas,
Às direitas e às avessas,
E brincar depois com elas.

Então, agora, depois deste "título", o poema de Fernando Pessoa:

Se eu pudesse em madeira meus versos fazer,
Os meninos os podiam então entender,

Tão rente ao sentido que tudo em Deus tem
Estão meus poemas e as crianças também.

Que um menino sabe que senso e razão
Só encobrem nada e o nada são,

E a criança possui, divina, a clareza
De que tudo é brinquedo e tudo é beleza.

Que um dedal, uma pedra, carrinho de linhas,
São coisas que podem sentir-se divinas,

E que, se destas coisas os homens moldados,
Homens são de certo, não imaginados.

Por isso eu queria meus versos tirar
De simples ideias e as representar

Em gravuras, formas, desenhos p'ra ver,
Coisas que meus versos pudessem parecer.

Poeta das crianças então viria a ser.
Embora talvez não o chegasse a saber

Com o senso exterior que faz triste a vida,
Em rostos inocentes alegre sentida

Deus daria à alma o senso perdido
Do saber de outrora, de prémio merecido -

O sentir das crianças, mais ainda, ao ver
Representar meus versos de livre querer,

De pernas cruzadas, brinquedos brincando,
No mundo visível levemente errando.