Mostrar mensagens com a etiqueta #MiguelTorga. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta #MiguelTorga. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, novembro 03, 2025

#TOLERÂNCIA309 - A TOLERÂNCIA NUNCA ESTÁ GARANTIDA

 #TOLERÂNCIA309 - A TOLERÂNCIA NUNCA ESTÁ GARANTIDA

Em 1955, Miguel Torga publica "Traço de União", livro que reúne ensaios de temática luso-brasileira, essencialmente composto por conferências feitas no Brasil em 1954. As conferências estão apresentadas por ordem cronológica.

O segundo texto do livro é de homenagem ao escritor brasileiro José Lins do Rego, em Coimbra, em 21 de Junho de 1951. O excerto que vou transcrever para aqui é parte logo do primeiro texto, "Brasil", que não tem data. Parece ser um texto de introdução, escrito no lado europeu do Atlântico; e admito perfeitamente que tenha sido escrito em 1955.

«E é justamente desse nivelamento de valores, dessa aceitação por dentro daquilo que se aceitou por fora, que é necessário partir ao desembarcar no Brasil. Estamos a pisar, cheios de responsabilidades, uma terra de policromias humanas onde os próprios já não dão por isso. Terra de encontro de raças, que permitiu a mística e maravilhosa comunhão de sangues que o mundo conhece e admira. Milagre moderno que ninguém pode contemplar sem um assomo de orgulho. E não só porque ele exalta e dignifica a espécie, mas também porque resultou daí toda uma maneira original de olhar e sentir as coisas, amável e tolerante, confiada e solidária, que resolve numa síntese de esperança as mais

desanimadoras contradições. Há um calor inédito nos actos e nas relações, uma cordialidade profunda, que vem dessa combustão íntima de lenhas variadas, desde a cepa lusa ao imbondeiro negro, do pau de cânfora asiático ao ipé indígena. E temos o colorido, a multiplicidade, a graça e a originalidade dum povo inteiro que inventa diariamente novos ritmos na alegria de viver. Alegria que é o sinal mais visível da expressão moça e promissora do Brasil. Uma alegria sã, inocente, criadora, que dura de manhã à noite, adormece, e se levanta sem remorsos no dia seguinte.»

Não sei se Torga estava ainda no Brasil quando o Presidente Getúlio Vargas se suicidou (a última conferência foi a 19 de Agosto e o Presidente Getúlio Vargas suicidou-se em 24), e não tenho agora aceso ao volume do Diário que cobre os anos de, pelo menos, 1954 e 1955; e a Ditadura Militar de 1964 ainda está longe.

Não estou, portanto, capaz de equacionar o que Torga terá mudado na ideia d'«a maneira original de olhar e sentir as coisas, amável e tolerante, confiada e solidária, que resolve numa síntese de esperança as mais desanimadoras contradições.» que ele atribuía ao Brasil e ao Povo Brasileiro. Desconfio que, se fosse agora, Torga ficaria decepcionado com o rumo que as coisas tomaram no Brasil.

Da Ditadura Militar (1964-1985) ao radicalismo político de extrema-direita de Bolsonaro (aliado ao fanatismo religioso de seitas que abundam no Brasil dos dias de hoje), tudo nos deixa, e deixaria a Torga, a ideia de que a Tolerância foi chão que deu uvas e que é cepa que precisa de ser de novo cuidada e fortalecida, até porque chega a parecer estar mesmo em coma.

No fundo, vale também para a Tolerância o que se costuma dizer da Democracia: é que nunca está definitivamente adquirida e necessita de dedicação e trabalho constantes. Estás a ver, Educação, não durmas à sombra da bananeira! Não te deixes enganar pelos sucessos anteriores alcançados!

#tolerância#tolerance#Tolerancia#tolérance#tolleranza#toleranz#tolerantie#宽容#寛容#관용#सहिष्णुता , #סובלנות#हष्णत#Ανοχή#Hoşgörü#tolerans#toleranță#толерантность#التس

sexta-feira, outubro 31, 2025

#TOLERÂNCIA306 - O LUGAR DA TOLERÂNCIA NO PALCO DAS ATITUDES E COMPORTAMENTOS

 #TOLERÂNCIA306 - O LUGAR DA TOLERÂNCIA NO PALCO DAS ATITUDES E COMPORTAMENTOS

Na transcrição que a seguir trago, Miguel Torga, no fundo, advoga em causa própria. Um autor alentejano advogaria as virtudes e as fraquezas dos alentejanos doutra maneira; outro, ribatejano, doutra ainda a propósito dos ribatejanos; e o mesmo fariam outros portugueses do continente ou das ilhas. E não precisamos de sair do pequeno Portugal, nele incluindo os madeirenses, os micaelenses, ou faialenses e os restantes naturais de outras ilhas.

A minha intenção com esta transcrição é chamar a atenção para que a Tolerância e a a atitude tolerante tem também condicionalismos e sustentação que vêm da experiência cultural, a qual, por sua vez, é marcada pela geografia particular e pelo desenvolvimento histórico, político e económico do grupo humano em causa. Neste texto, parece que Miguel Torga diz que os transmontanos são pouco dados à Tolerância, são pouco tolerantes com a Tolerância. Será que é mesmo assim?

Mais do que dizer já "Sim" ou "Não", o que importará à Reflexão e à Educação é a leitura colectiva e a discussão, a tentar-se que nasça a luz. E nasça a luz não tanto da opção pelo "Sim" ou pelo "Não", mas a luz que leva ao aprofundamento das características humanas e dos matizes das diferenças entre grupos culturais, em que se deseja que cada um se sinta bem na sua pele histórica e cultural, senhores de uma identidade gregária que congrega e promove o bem-estar pessoal e comunitário.

«Cruelmente, sem dó nem piedade, levamos dia a dia ao pelourinho os aleijões físicos e morais de cada um. E é um rol infindável de alcunhas por toda a província, sentenças sem qualquer apelo. As deformidades de dentro e de fora recebem o mesmo castigo do cautério inexorável. 'Pé-Tolo', é o sujeito que teve uma paralisia infantil; 'Sobe-e-Desce', o desgraçado manco que anda no chão como um barco nas ondas; 'Pernas de Centeio', o escanifrado com tíbias de gafanhoto. Mas há também o 'Mija-Lérias', o 'Florista' e o 'Padre-Nossos', que são estigmas de misérias mais profundas e doutra natureza: paleio vão, trato social postiço, falsa religiosidade. A espontânea e piedosa compaixão que tais infelicidades despertam não evita o ferrete judicativo. Olhamos os abismos de frente. Magro, o seio que nos

alimentou é uma branca lição de realismo. Por isso, mesmo com lágrimas nos olhos, superem-se as limitações, ultrapasse-se a pró-pria dor. A criatura é uma fome que nem todo o pão do mundo satisfaria. Busque-se, pois, outro alimento. Faça-se na deseroização do transitório a exaltação do definitivo.

»A mãe não manda ser um Narciso de virtudes secretas ou de falências toleradas. Ordena vitórias na colaboração, façanhas no meio da praça, no coração das feiras, na sala das assembleias, no cerne dos continentes, nas profundas dos infernos. E cheguem onde chegarem, os filhos cumprem religiosamente este mandato solene que exige o todo pelo todo, a abnegação mais desmedida e a mais teimosa irredutibilidade. Por toda a parte, nas grandes empresas do ideal, está o transmontano, ou à cabeça do rol ou no cortejo discreto mas actuante dos comparsas. É um quixotismo social irreprimível, um zelo pátrio vigilante, um impulso perpétuo para as obras de humanitarismo. Um apostolado que irrompe dum ímpeto pessoal que se expande, misto de fatalidade, orgulho e dever.

»Fiel às suas remotas regalias municipais, conquistadas a ferro e fogo, o transmontano mantém erguida não só a Domus de Bragança, símbolo palpável dessa liberdade de que não abdica, mas também o sentimento agudo duma colaboração fraterna com o semelhante, que aprendeu no comunitarismo do pastoreio, das fainas agrícolas, da transumância das rogas, no desenrolar de toda a vida quotidiana da sua aldeia. Que significa esta casa, e que significamos todos nós aqui, senão a irresistível entrega ao imperativo sagrado de preservação da personalidade, na dádiva constante do melhor que ela tem?»

Este excerto faz parte da conferência "Trás-os-Montes no Brasil", realizada no Centro Transmontano de São Paulo, em 14 de Agosto de 1954, e repetida no Centro Transmontano do Rio de Janeiro, a 16 do mesmo mês. É um dos textos do livro "Traço de União" (2.ª edição revista, de 1969, edição do autor). A releitura vem na sequência de alguns dias da semana passada, em que estive no Douro Vinhateiro, e foi pelo anfitrião, o amigo Barros de Carvalho, aos outros elementos do grupo desses dias.

#tolerância#tolerance#Tolerancia#tolérance#tolleranza#toleranz#tolerantie#宽容#寛容#관용#सहिष्णुता , #סובלנות#हष्णत#Ανοχή#Hoşgörü#tolerans#toleranță#толерантность#التس