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terça-feira, março 19, 2013

DIA DO PAI, DE VOLTA EM 2013


DIA DO PAI, com dedicatória especial para os pais, avós e filhos que amam os seus filhos, netos e pais de maneira especialmente complicada. Plagiando o dr. Luís Patrício, "amar não é complicar".
Um abraço especialmente apertado a todos os meus filhos "in pectore". E ao meu pai.


Os Dias disto e daquilo são ocasiões celebrativas que visam alertar, agradecer, fazer pedadogia.
Tendem a extremar os os sentimentos despertados, seja idealizando as imagens mentais, seja acentuando as vivências tristes associadas.
O Dia do Pai é dos que mais dificilmente escapa a este efeito de acentuamento dos pensamentos e dos afetos.
Resolvi, desta vez, trazer - por variadíssimas razões, de que falarei se vierem a propósito - um trecho de Rómulo de Carvalho, sobre o seu próprio pai, num livro de memórias que ele escreveu para os "queridos filhos dos netos dos meus netos":

"Dir-se-ia, ao vê-lo, que era um homem indiferente, insensível ao que se passava em seu redor. Raramente falava. Quando estava acordado preparava-se para dormir. Não tinha uma conversa, não trocava uma opinião. Talvez sentisse acanhamento em fazê-lo e se envergonhasse de descobrir os seus sentimentos. Se houvesse telefone, no tempo, talvez fosse capaz de, por ele, dizer que nos estimava muito a todos e que eram [penso que o autor quereria escrever "era"] muito nosso amigo. Depois desligava. Só de longe, e encoberto, se atreveria a isso. Não me recordo que me fizesse nenhuma carícia, mas um dia ele teve que ir a Évora, e de lá mandou uma carta, e dentro da carta vinha um poema, um acróstico, dactilografado, dirigido a mim, que era seu filho querido, e que tinha sete anos. Era assim o poema:

R apaz vivo e inteligente,
O enlevo de toda a gente,
M enos de oito anos tem,
U m eterno falador,
L endo sempre com amor
O livro que à mão lhe vem.

Repare-se como as primeiras letras dos seis versos formam o meu nome, e o texto decorre sem esforço, fluente e bem ritmado, tudo sinais de viva sensibilidade. Mas, embora enviasse os versos por carta, de longe, não teve mesmo assim coragem para acrescentar o seu nome ou o seu título de pai por debaixo do que escrevera. Mas mandar aquele papel, assim, sem mais nada, também não lhe parecia correcto. Teve uma ideia, escondido atrás dela, sentiu-se então capaz de manifestar o seu amor pelo filho que muito estimava. Assinou; "Votre Père". Conservo esse papel."

Eu avisaria: o que é certo é que Rómulo de Carvalho se veio a tornar, certamente por esta e por outras, no suave poeta António Gedeão.

segunda-feira, novembro 29, 2010

Embora os meus olhos sejam os mais pequenos do mundo, dizia António Aleixo

"Embora os meus olhos sejam
Os mais pequenos do mundo.
O que importa é que eles vejam
O que os homens são no fundo."


No passado dia 25, o grupo de professores que conduziu a participação da Escola nos programas do Parlamento dos Jovens 2010 e Euroscola 2010, conduziu também, novamente com o extraordinário empenho dos alunos, uma sessão de apresentação de todo o projeto, desde a sua germinação, em Janeiro deste ano, até à participação festiva de um grupo de alunos e professores da Eça em Estrasburgo, no Parlamento Europeu, de 20 a 26 de Outubro.
A sessão do Dia do Patrono foi conduzida tornando seu lema a seguinte afirmação de Marcel Proust:
"A única verdadeira viagem não é a que nos leva para outras paisagens, mas a que nos leva a ver as coisas com outros olhos."
Honra agora se faça a António Gedeão que, ao seu jeito, nos diz assim, também, sobre o jeito dos olhos:


IMPRESSÃO DIGITAL
Os meus olhos são uns olhos.
E é com esses olhos uns
que eu vejo no mundo escolhos,
onde outros, com outros olhos, 
não vêem escolhos nenhuns.


Quem diz escolhos, diz flores.
De tudo o mesmo se diz.
Onde uns vêem luto e dores,
uns outros descobrem cores
do mais formoso matiz.


Nas ruas ou nas estradas
onde passa tanta gente,
uns vêem pedras pisadas,
mas outros, gnomos e fadas
num halo resplandecente.


Inútil seguir vizinhos,
querer ser depois ou ser antes.
Cada um é seus caminhos.
Onde Sancho vê moinhos
D. Quixote vê gigantes.


Vê moinhos? São moinhos.
Vê gigantes? São gigantes.
             in "Movimento Perpétuo", 1956

domingo, junho 28, 2009

Michael Jackson e os absurdos da vida

Michael Jackson, sem o querer, dá-nos a lição - ou melhor, dá-nos lições - de tantos absurdos em que alimentamos a vida das pessoas hoje em dia.
Há muitos, mas mesmo muitos anos, ofereceram-me, pelos meus anos (ena, tantos anos!...), um álbum para guardar discos (os singles). Como eu não tinha discos, - olha!... -, passei a ter uma razão para passar a tê-los.
Quase que posso dizer, com muita ironia à mistura (e, eventualmente, com alguma estupidez), eu tinha de justificar o investimento que a lógica da sociedade de consumo fazia em mim!
E ainda me lembro do dia em que fui comprar o meu primeiro single. Foi o Ben, do Michael Jackson.
Ainda hoje, este continua a ser o meu tema favorito de Michael Jackson. E o meu melhor single. E... bem, não há amor como o primeiro, não é verdade?...

[...]
Provavelmente, em Michael Jackson...
- corporizou-se o máximo de realização das potencialidades (artísticas) de uma pessoa, e da sua quase absoluta negação (étnica);
- deu-se forma gigantesca à realização do sonho da Terra do Nunca, e se operou também a sua tremenda contradição;
- sofisticou-se ao paroxismo a defesa pessoal contra a poluição ambiental, e se violentou, quase ao nível do horror, a saúde pessoal, física e psicológica.

Muita gente vai falar incansavelmente de Michael Jackson; e vai continuar a chorá-lo inconsolavelmente.
Escrevi assim, algures, comentando a versão do Ben que juntei neste apontamento:

Perhaps, Michael, you now can tell us how is Neverland!
More than tell us how Neverland is, I hope you can live there with lots of happiness and friends!
Thank you for all, Michael!
You know, Ben was my first single.

Eu vou voltar a ouvir, outra e outra vez, o Ben, o We are the World, e mais umas tantas coisas. E vou procurar vê-lo, nas gravações que dele ficam, nas fases anteriores aos seus absurdos pessoais e vitais.
Lamentando muito os chacais do Zeca Afonso que sugavam tudo à volta dele. A vida dele também tem muito da vida do Filipe II de António Gedeão: tinha tudo, sem peso nem conta; mas não tinha (não teria...) aquela centelha que faz feliz a vida das pessoas.

E, sobretudo, vou sentir muita ternura pela pessoa injustamente infeliz que ele foi sendo cada vez mais. E que me deu o velho Ben.