Mostrar mensagens com a etiqueta educação. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta educação. Mostrar todas as mensagens

domingo, abril 30, 2017

OS PROFESSORES SÃO OS BOMBOS DA FESTA

Bombos da festa, ou maus da fita?
  • A festa é a Educação do Futuro, ou do Século XXI, ou outra qualquer, Rumo a Qualquer Coisa...
  • Nunca houve tanta gente preocupada e gente ocupada (os "especialistas") a produzir textos, materiais gráficos, vídeos - todos postos gratuitamente nas nossas mãos, de todas as formas e feitios! - e disponibilizar essa parafernália toda aos professores. A UNESCO é uma dessas honradas, competentes e bem-intencionadas instituições; mais: oficial e mundial!
  • Um exemplo de sugerida Pedagogia para a Aprendizagem (infelizmente e dramaticamente - estou a falar a sério!) muito necessária, a bem do Ambiente, e a bem do Futuro:

Estão vendo?, é fácil!, está tudo aqui, nem há que pensar mais, é só fazer... Nem o inglês é limitação, o que não falta por aí é uma bem numerosa colecção de tradutores automáticos. Ah, pois! Há também os colegas, os professores de Inglês, eles, quem sabe?, poderão dar uma ajudinha.
Bem a sério: qual é o pecado original desta sugestão gráfica? Vá, vamos pensar um bocadinho...
  • Uma pista para quem aceitar seguir a minha sugestão: é esta notícia que Ken Robinson "tuïtou" há 2 dias, "Primary school head and deputy quit over 'bland and joyless' curriculum" (em inglês, outra vez?...). (1)
    No fundo, o que dizem estes professores directores da sua escola: que estão fartos de directivas oficiais, de disposições legislativas, de planificação e normalização; de currículos essenciais, que façam a gestão economicista dos recursos escolares (humanos incluídos) - e, lá vem o poderoso aceno-papão!, preparem as crianças e os jovens para o Futuro!
  • Que fez, então, o casal de professores? Escreveram aos pais dizendo-lhes: "Assim não dá. Assim não é educar os vossos filhos..."
  • É mesmo, é simplesmente isto que se insiste em pedir aos professores - a bem da sacrossanta economia de mercado, da necessidade de produzir força de trabalho bem distribuída de acordo com antevisões e projecções bem excelianas - que façam tudo sem terem liberdade para nada.
  • Sejam criativos!, Honrem a nobre missão social de que estão investidos!, Levem às crianças que as sociedades vos confiam à Expansão Pessoal da Criatividade, da Alegria, da Realização Pessoal, da Solidariedade!, da Amizade!, do Amor pelo Ambiente! E, pois claro, que sejam Empresários de Sucesso!
Sim... é só mesmo isto que se pede hoje aos professores... Só isto.


________________________
(1) A tradução automática do Twitter escreve-nos assim: "Cabeça de escola primária e vice para no currículo 'sem graça, sem alegria'

sábado, janeiro 02, 2016

Medos ancestrais à tona. A propósito dos refugiados sírios.

«Uma criança, um professor, um livro e uma caneta podem mudar o mundo.»
Atenas, Grécia, Dezembro de 2015. Enquanto houver crianças assim - e é da sua
natureza serem assim, haverá sempre esperança; haverá sempre motivos que nos
 galvanizem e façam querer estar na linha da frente da solidariedade e comunhão.
Esta é a célebre frase de uma adolescente paquistanesa, já ouvida no grande palco das Nações Unidas. Adolescente Malala, candidata a prestigiantes Prémios da Paz; e vencedora, mesmo que não em todas as candidaturas.

Malala é a razão de um livro, escrito em jeito de bandeira na luta pela Liberdade e pelo direito à Educação.
«A todas as meninas que enfrentam injustiças e que foram silenciadas. Juntas seremos ouvidas.»,
É assim, com esta dedicatória que Malala, e quem dela recolhe as memórias, abrem o livro.
O seu nascimento foi um acontecimento decepcionante - porque nasceu uma menina.
"Quando nasci, os habitantes da nossa aldeia exprimiram o seu pesar à minha mãe e ninguém deu os parabéns ao meu pai." (p. 23)
As meninas são acontecimentos natalícios não desejados na cultura de origem da Malala.
Até onde estará Malala disposta a ir... Até onde conseguirá ela ir?... Até onde permitirão que ela vá?...
Quem rodeia Malala?... O que quer quem a rodeia?... Quem a educa?... Quem a apoia?... Quem a seduz?... Quem quer tirar proveito dela?...
Que poder tem, de facto, uma criança? E um professor? E um livro? E uma caneta?
Há encanto no que Malala - ou alguém por ela - diz da sua família, dos antepassados que fazem a história e a identidade do Povo a que pertence e de que se orgulha.
O livro de Malala foi trazido a público em Outubro de 2013 (já o Papa Francisco tinha estado em Lampedusa, provavelmente enquanto o livro ainda se ultimava).
Que boa fé povoava a mente de quem escreveu o parágrafo que a seguir transcrevo?
Os nossos antepassados chegaram ao Vale de Swat no século XVI, vindos de Cabul, onde tinham ajudado um imperador da dinastia timúrida a reconquistar o trono após a sua própria tribo o ter deposto. O imperador recompensou-os com posições imdo autor portantes na corte e no exército, mas os seus amigos e familiares avisaram‑no de que os Yousafzai estavam a tornar-se tão poderosos, que o iriam destronar. Por isso, certa noite, convidou todos os chefes para um banquete e lançou os seus homens sobre os Yousafzai, enquanto estes estavam a comer. Foram massacrados cerca de seiscentos chefes. Apenas dois escaparam e fugiram para Peshawar juntamente com os homens da sua tribo. Após algum tempo, foram visitar algumas tribos no Vale de Swat para granjear o seu apoio de modo a conseguirem regressar ao Afeganistão. Porém, ficaram tão cativados pela beleza de Swat, que decidiram, em vez disso, ficar aqui e forçaram as outras tribos a sair. Os Yousafzai dividiram toda a terra entre os membros masculinos da tribo. (p. 32)
Em Lampedusa, em Lesbos, em Paris, em Atenas, que estado de consciência povoaria a mente do autor se (re)escrevesse o parágrafo agora, com tantas portas de medo que se têm fechado por tanta e oficial Europa (sim, oficial, que a Europa dos cidadãos não é exactamente a mesma)?
Não confirma o parágrafo o temor que tanto agitam em tanta comunicação social? Que razões assitem hoje a todos os temerosos?
Que podem o professor, o livro e a caneta fazer à criança para que o Futuro seja outro, diferente do que foi a "vitória" da experiência de refugido do orgulhoso Povo de Malala?
De que maneira são os Povos capazes de olharem as gestas e as epopeias das suas Histórias - por exemplo, de Marítimas Descobertas e Escravaturas massivas atravessando gloriosos mares - à luz dos ideais de Liberdade, Igualdade e Fraternidade que continuamos a tanto tentar que iluminem e guiem as relações entre os Povos; e mesmo dentro de cada Povo?
Malala, ela própria, será menina capaz de olhar, ousadamente, de outra maneira, as fascinantes histórias ouvidas aconchegada aos joelhos de seu pai e avós?
Tão importantes são os professores! O pai de Malala é professor.
Será que a História nos mostra que é impossível ser de outra maneira, que a competição entre as Culturas vencerá sempre sobre a cooperação? Será que podemos fazer a História de outra maneira?
Como canta o Tim dos Rio Grande:
"Mestre-escola diga lá se for capaz / P'ra que lado é que me viro, p'ra que lado?"

domingo, agosto 10, 2014

EDUCAÇÃO, "IMPERATIVOS BÁSICOS DE ADAPTAÇÃO" - 01

EDUCAÇÃO, "IMPERATIVOS BÁSICOS DE ADAPTAÇÃO"
São exigência biológicas de qualquer espécie, até - e uso a preposição para ironizar - a espécie humana.
WadeDavis21-e1407429271867.jpg
"Qualquer biólogo da vida animal sabe que os animais dos jardins zoológicos não se desenvolverão normalmente se o ambiente em que estiverem não for compatível com as necessidades sociais próprias das suas espécies Mas nós esquecemo-nos disto a propósito da nossa própria espécie. Alterámos radicalmente o curso natural do comportamento da nossa espécie segregando artificialmente as crianças em grupos organizados por idades, pelas mesmas idades, em vez de grupos organizados em comunidades compostas por diferentes idades; e forçámo-las a actividades sedentárias nos espaços fechados das escolas, na maior parte do dia, e pedimos-lhes que aprendam com base em materiais escritos, que são artificiais, em vez de actividades contextualizadas no mundo real, e estabelecendo horários arbitrários para aprenderem, em vez cuidarmos seguir o curso natural das aptidões que o desenvolvimento infantil comporta." (Annie Murphy Paul)
(Any wildlife biologist knows that an animal in a zoo will not develop normally if the environment is incompatible with the evolved social needs of its species. But we no longer know this about ourselves. We have radically altered our own evolved species behavior by segregating children artificially in same-age peer groups instead of mixed-age communities, by compelling them to be indoors and sedentary for most of the day, by asking them to learn from text-based artificial materials instead of contextualized real-world activities, by dictating arbitrary timetables for learning rather than following the unfolding of a child’s developmental readiness.)

domingo, julho 14, 2013

Liberdade, criatividade, política, educação; e Einstein

http://www.frasesimagenes.net/covers/preview/frases-de-albert-einstein-40.jpg
"Einstein acreditava que a liberdade era a essência da criatividade. «O desenvolvimento da ciência e das atividades criativas do espírito», defendeu ele, «exige uma liberdade assente na independência do pensamento em relação às restrições do preconceito autoritário e social.» O cultivo dessa liberdade deveria ser a tarefa fundamental do governo, pensava, e a missão da educação."
(in Einstein, a sua vida e universo, de Walter Isaacson, Casa das Letras, 2007, pág. 449)

domingo, abril 28, 2013

Senta-te aí...

CONVERSA SÉRIA NA MANIFESTAÇÃO DO 25 DE ABRIL.
A camisola (estou a deixar de usar o termo 't-shirt') da menina legenda a fala do pai: "I want to tell you something" (Quero dizer-te uma coisa). Esta fala (a fotografia é testemunho da minha coscuvilhice...), se não acontecesse na manifestação do 25 de abril, seria assim, em casa; mas a seriedade dos rostos seria a mesma:
http://www.youtube.com/watch?v=baxj_eVPEe8

quinta-feira, abril 25, 2013

25 de abril, sempre! Em 2013.


Este é o poema que escolhi para o 25 de abril de 2013. Porque penso que são cada vez maiores e mais poderosas, mesmo que menos nítidas ou imediatamente visíveis, as prisões em que confinamos as crianças e os jovens e lhes comprometemos irremediavelmente o futuro. 


25 de abril, sempre!
PELO FUTURO DAS CRIANÇAS E DOS JOVENS DE HOJE
Por razões que eles mesmos conhecem (será que conhecem mesmo?, ou só eu conheço as razões por que eles me marcaram para os destacar nesta ocasião?...), dedico estes versos especialmente à Maria João, à Vanda Menezes, ao Márcio Perdigão, ao João de Matos, ao Fábio Fernandes, ao Hugo Fernandes e ao Ricardo de Sousa.

"Camaradas, para a Con
[Condessa Constance Markievicz, defensora dos direitos humanos irlandesa]
A noite tranquila que me rodeia flui,
Rompe pelas portas de ferro da tua prisão,
Livre pelo mundo o teu espírito vai,
Mãos proibidas entrelaçam-se nas tuas.
O vento é nosso cúmplice
A noite deixou as portas entreabertas;
Voltaremos a encontrar-nos para lá das grades dos portões da Terra,
Lá, onde todos os rebeldes selvagens do Mundo estão."
- Eva Gore-Booth
[irmã de Con]
Chris Newman, o Patrick
Comrades, To Con
The peaceful night that round me flows,
Breaks through your iron prison doors,
Free through the world your spirit goes,
Forbidden hands are clasping yours.
The wind is our confederate
The night has left the doors ajar;
We meet beyond earth's barred gate,
Where all the world's wild rebels are.
- Eva Gore-Booth
Estes versos são recitados de cor pelo personagem Patrick, praticamente no final do filme "Song for a raggy boy", quando o professor Franklin se encaminha para a saída do reformatório, de malas na mão.
http://www.youtube.com/watch?v=EWiVx7SyGdA&list=PL1A4B4C8512642559

Constance e Eva eram ambas ativistas políticas irlandesas. Ambas se empenharam na defesa dos pobres e dos mais desfavorecidos. Constance foi presa e condenada à morte. Entretanto, dado ser uma mulher, a pena foi comutada para prisão perpétua. Beneficiou de uma amnistia em 1917, mas pouco depois voltou a ser presa; até que foi libertada novamente. Eva morreu em 1926 (aos 56 anos) e Constance em 1927 (aos 59 anos).


sábado, abril 20, 2013

Oa alunos-peixes das nossas escolas

http://fictionthatmatters.tumblr.com/post/23042909665/
techedblog-everybody-is-a-genius-but-if-you
Falei ontem, ao final do dia, ao telefone, com a mãe de um aluno de uma escola de Lisboa.
A senhora ligou-me, essencialmente queria desabafar a tensão em que a conversa que tivera com a diretora de turma do seu rapaz mais uma vez a deixara. Conheço a senhor e o rapaz já há tempo suficiente para se terem consolidado relações de amizade pessoal entre nós.
O rapaz anda no ensino básico; é muito inteligente, mas a escola, como se diz popularmente, tem sido madrasta para ele. Lembrei-me, enquanto conversava com a mãe dele, do peixe da história de Einstein.
A Internet, na complexidade espantosa de que tantos de nós se tornaram dependentes, divulga uma afirmação cuja autoria, como quase sempre, é disputada por vários cientistas e pensadores importantes, a maioria dos quais sem sequer saber como foram chamados para tal disputa. No caso da afirmação em questão, quem leva, por agora, a camisola amarela é Albert Einstein.
A frase é poderosa, a situação real que ilustra é dramaticamente verosímil - é mesmo uma situação comum nas nossas escolas. Eu diria, é cada vez mais comum nas nossas escolas, onde eu vejo a qualidade e a competência dos professores aproximar-se da apreciação geral que sempre, ao longo de toda a sua vida, Rómulo de Carvalho foi fazendo acerca dos professores; e que eu me tenho obstinado, até agora, a não aceitar.
Diz assim a frase:

“Everybody is a genius. But if you judge a fish by its ability to climb a tree, it will live its whole life believing that it is stupid.”

(Toda a gente é um génio. Mas se julgamos um peixe pela sua capacidade de subir uma árvore, ele passará toda a sua vida a pensar que é estúpido.)

É essencialmente isto que, no meu entender, acontece em tantas escolas, com tantos professores: só têm a árvore para oferecerem aos seus alunos e quem não é macaco... pois é, está lixado!
Nem a malfadada Crise justifica o comodismo (agora não se diz comodismo, diz-se incapacidade de sair da sua zona de conforto), a falta de esforço - e de respeito! - dos professores pelos seus alunos e pela qualidade das suas aulas.
Lembro-me, agora de uma outra afirmação, que ouvi atribuída a Salazar, que diz mais ou menos assim:
"O grande problema nem é as coisas que se dizem ou que se fazem; o grande problema é as coisas que se inventam para justificar o que se diz ou o que se faz..."
É, é verdade, o que é confrangedor - e muito dramático! - é o que se inventa para justificar as coisas com que aos poucos vamos desgraçando a vida de tantos dos nossos alunos - que têm o azar de serem diferentes de nós e de não corresponderem imediatamente à imagem do que a gente quer que eles sejam.

sexta-feira, abril 12, 2013

O que é a Educação?


Na passada quarta-feira, dia 10, participei numa sessão de trabalho promovida por uma grande empresa informática. A sessão visou apresentar um conjunto extraordinário de recursos informáticos integrados para uso nas escolas e na educação, em geral, a partir das mais tenras idades. Que sofisticação de materiais e equipamentos!... Até na discrição das formas, dos tamanhos e dos pesos de tais coisas! Deixando a pairar no ar a sussurante ideia do Big Brother - superbonzinho, neste caso - que tudo verifica, que tudo controla, nas ações dos miúdos aprendentes.
Quase ao arrepio de tudo o mais que foi dito durante toda a manhã e a primeira parte da tarde, o último conferencista, um muito interessante especialista escocês, avisou, a determinada altura da sua comunicação:
Ewan McIntosh
"Empathy is the key!" Quem diria!... Fantástico! Como eu gostei de o ouvir dizer isto!
Hoje fui confrontado por uma jovem que se inicia como uma muito promissora estudiosa das ciências da Educação com a seguinte questão:
- O que é a Educação?
Pois bem, o melhor jeito que encontrei de lhe responder, foi assim, quase num ápice:
- "Educar é influenciar; em sentido geral, influenciar intencionalmente. Habitualmente é um indivíduo mais velho, mais sabedor, com mais experiência - quase sempre, um progenitor ou um professor - que procura influenciar o comportamento de um outro indivíduo, mais novo, (ainda) menos sabedor, com menos experiência: a criança-filho ou a criança-aluno. A influência social contida no(s) atos(s) de educar visam, tradicionalmente, a INTEGRAÇÃO nas formas de convivência social e nos rituais de relacionamento das famílias e dos outros grupos sociais de pertença; e de TRANSMISSÃO de saberes acumulados (na família e nos diferentes níveis de culturas de pertença). Cada vez mais, as mais modernas formas de educação, sejam formais, sejam informais, visam também o DESENVOLVIMENTO pessoal específico de cada indivíduo, visto na ótica de um ser que nasce com potencialidades únicas, específicas, idiossincráticas, que reclamam oportunidade de expansão e desenvolvimento."
Olho agora para o que lhe disse, e confesso que acho que não me saí mal... Certamente irei partir ainda alguma pedra à volta desta asserção; mas, para uma resposta curta e urgente, repito, acho que não me saí nada mal.
Beijinho grande, querida S.! Obrigado por me teres dado a oportunidade de tornar consciente e dar forma a este pensamento, que é ao mesmo tempo de síntese e prospetivo.

terça-feira, março 26, 2013

A lição dos amigos


A lição dos amigos
O Luís, sim, esse, o que se sentia no fundo do poço e a irmã desafiou a cavar ainda mais fundo, tem 3 filhos. Um deles é um rapazinho.
O breu do poço de onde o Luís saiu a pulso firme deu lugar à luz franca dos horizontes abertos; do trabalho e das relações pessoais positivas. A vida do jovem e integrado cidadão ganhou consistência, a pressão que quase impedia o fôlego deu espaço à folga que permitia o suspiro tranquilo.
O pai e a mãe do filho do Luís, num dia que a tradição diz que é de prendas para os miúdos – seria natal do Menino Jesus, ou natal do menino do Luís, não importa qual seria –, sentiam-se em condições de ir um pouco mais além na sofisticação do presente para o filho de ambos. Dois presentes, um do pai e um da mãe. Duas ideias, também, sobre o filho, uma do pai e outra da mãe. Dois objetivos também; sem querer, de boa-fé, ambos prendiam o filho ao brinquedo que ousavam para o filho, ambos arriscando a disponibilidade financeira da família. Mas o futuro era risonho e promissor; agora, nem uma réstia do breu difícil de tempos que se distanciavam cada vez mais.
Ignorando-se reciprocamente a início, num quase divertido jogo das escondidas, os brinquedos do pai e da mãe disputavam o filho:
a mãe escolheu um daqueles aparelhos modernos, sofisticados, de comandos à medida dos dedos ágeis infantis, que prendem as crianças, em casa, ao ecrã de televisão ou do computador;
o pai desafiou-se num pagamento a prestações, e comprou uma motoreta de quinhentos euros, que poria o filho na rua.
Estão todos juntos, é hora de os pais darem os presentes e do filho os desembrulhar.
A reacção do rapazinho ao presente do pai deixará adivinhar a reacção ao presente da mãe. O pai olha o filho, com ansiosa expetativa, enquanto ele desembrulha o presente. Sente-se bem, feliz de ter conquistado as condições para poder dar ao filho que tanto amava um brinquedo que simboliza a vida tomada nas mãos com algum desafogo. O jovem pai antecipa a alegria exuberante do filho, só não sabe se ele vai saltar primeiro para o selim da motoreta ou para o colo do pai.
Na hora de uma ou outra coisa acontecer, prenda completamente desembrulhada, o filho não faz uma coisa, nem a outra. O rapazinho mira quase indolentemente o magnífico presente.
Agora ansioso por outra razão, o pai pergunta ao filho:
- Então, filho, não gostas da mota?...
O miúdo tenta não desapontar o pai, mas também não consegue sentir, nem sequer fingir a alegria que o pai quer que ele mostre.
- Eu gosto, pai…
- Então, parece que não ficaste muito entusiasmado… insiste o pai, sem conseguir ver-se aliviado daquela ansiedade, à beira de se tornar numa deceção inesperada e indesejada.
O filho vira-se para o pai e, com a serenidade que expõe a sólida confiança e franqueza a que a educação dos pais levara já a personalidade em formação do filho, olha-o e diz-lhe:
- Ó pai, a mota é gira, mas não dá para o que eu quero…
- E o que é que tu queres, filho?... estranha o ansioso pai.
- É que a mota não dá para eu brincar com os meus amigos, pai… A mota é para eu brincar sozinho, só dá para um, e eu quero brincar com os meus amigos.
É isto a vida, é isto essa coisa extraordinária que é as relações que as pessoas são capazes de estabelecer umas com as outras. Este filho, com este sentir, sim, ele é que acaba sendo o verdadeiro presente – do filho para os pais, que – coitados! – tanto amor e tanto risco de si mesmos tinham posto nos presentes de valor que queriam dar ao filho.
Quanto vale, quanto custa, em dinheiro, o sentir espontâneo da amizade, do companheirismo, numa criança da idade do filho do Luís? Quanto mostra esta genuína forma de sentir do amor e dos valores recebidos pelo filho dos seus pais?
Numa perceção vertiginosa, o pai reviu as vicissitudes da sua própria vida, os afetos, as cumplicidades e os conflitos que o aproximaram e o afastaram dos outros, os amigos e a sociedade.
O Luís e a mãe do seu filho, o filho de ambos, seguramente se tornaram melhores pais, melhores pessoas a partir deste dia. E mimaram com redobrado carinho este filho precioso.
Quem, com esta história - história verdadeira -  não ficará a pensar sobre os presentes que já deu, que gostaria de dar e que vale a pena dar?

segunda-feira, março 25, 2013

NO FUNDO DO POÇO


NO FUNDO DO POÇO

O Luís foi ao fundo. Ao fundo da vida. Assim se sentia, no fundo do poço, por isso estava preso.
Rapaz novo, na idade a dezena redonda mais próxima ainda era a do dois e do zero – 20 anos.
O Luís.
Foi rebelde em puto, foi rebelde mais crescido; continuava a ser rebelde. Só que agora um desconforto o tomava. Tomava-o e vergava-o. Até que se tornou praticamente insuportável. O desagrado, o desconforto, agigantou-se tanto que sentiu que precisava de o extravasar.
Chegou-se um dia à irmã, mais velha, e contou-lhe tudo.
- No fundo do poço?... Sentes que estás no fundo do poço?... quis a irmã que ele claramente lhe confirmasse. Melhor ainda, que ele tomasse para ele consciência de que era ali mesmo que ele estava – no fundo do poço.
- Sim, no fundo… Mesmo no fundo!, confirmou o Luís, de cabeça baixa, incapaz de fugir à atração hipnotizante do breu do poço.
A irmã não lhe respondeu imediatamente, queria que as palavras fossem ouvidas e sentidas até à última reverberação.
- Olha, disse então, a pedir que o irmão pusesse os seus olhos nos dela, se estás no fundo do poço, escava ainda mais fundo, escava até onde puderes!... Quando acabares, e só quando não puderes cavar mais, crava aí as tuas raízes, faz que fiquem aí bem presas e seguras…
O irmão estava agora hipnotizado pelos olhos e pela boca da irmã, por causa da força e da convicção que deles saíam.
- Quando tiveres as tuas raízes bem presas e seguras começa a construir a tua vida assim, a partir de baixo, com toda a firmeza, com toda a força de que fores capaz!
O irmão, o Luís, compreendia que ouvia o que há muito teria sido bom ter sentido ou ter pensado. A irmã tinha razão! Mais!... Ele estava seguro que, com a força da irmã, com a convicção que ele mostrava no que dizia, não havia hipótese de ele falhar. Sim, ele iria ser capaz!
E foi. Até hoje. As palavras da irmã conservam ainda toda a força de então. E ele agora já não está na prisão. Fora dela, casou e tornou-se pai. Adora os filhos e dedica muitas horas da sua vida, com muita alma e muito coração, a tentar que outros, mais novos do que ele é agora, nunca venham a cair na prisão.
Ah! Continua a ser como era - rebelde! Como os jovens que protege e avisa.

quarta-feira, janeiro 09, 2013

ANTÓNIO DAMÁSIO E A VIOLÊNCIA DA POBREZA


ANTÓNIO DAMÁSIO E A VIOLÊNCIA DA POBREZA.
(António Damásio and the violence of Poverty)
(António Damásio et la violence de la Pauvreté)
O Professor António Damásio, hoje, na celebração festiva "Um dia com o Patrono", promovida pela Escola Secundária António Damásio, e liderada pelo distinto professor António Cruz, disse à grande plateia que o ouvia, que a forma de violência que mais o preocupa hoje em dia, violência essa que continua a crescer em diferentes pontos do Mundo, é a VIOLÊNCIA DA POBREZA, e que, para a combater, um papel determinante cabe à EDUCAÇÃO.
Professor António Damásio,
na Escola Secundária António Damásio, em Lisboa, em 09/jan/2013
Há praticamente 30 anos atrás, vieram 2 professores de uma Faculdade de Psicologia (mais propriamente, da Universidade de Vermont) conhecer o trabalho que eu liderava numa escola de ensino especial, em Lisboa, escola essa que recebia, predominantemente, crianças muito pobres. Ao fim de algumas horas de observação e conversa, honestamente eles me confessaram que, antes de falarem comigo, pensavam que estavam a fazer, lá nos EUA, um trabalho inovador, de ponta, na assistência a crianças muito carenciadas e suas famílias; mas que, depois de conhecerem o meu trabalho, chegaram à conclusão que eu ia 20 anos à frente deles. Assim que voltaram para os EUA, formalmente me apresentaram um convite "irrecusável" para ir trabalhar com eles. Recusei o convite irrecusável. Depois de procurar o sábio e ponderado aviso das minhas duas figuras de referência basilares: a Professora Maria Rita Mendes Leal e o Professo João dos Santos. Sem o saber, o Professor António Damásio hoje confirmou-me que eu fiz a opção correta. E renovou-me energias para continuar o que tenho feito ao longo destes 30 anos, antes com uns companheiros (n' Os Traquinas da Boa Vida) e hoje com outros, na Escola Secundária Eça de Queirós. Obrigado, Professor António Damásio!

sábado, janeiro 05, 2013

De onde vem a consciência

Uma palestra muito interessante do neurocientista António Damásio, em que ele cristalinamente (não obstante a laringite) fala sobre a mente, a consciência, o Self; o que o ser humano partilha ou não com os outros animais. É um desafio muito interessante que nos lança! Por exemplo, se António Damásio levar o leitor (neste caso, o ouvinte) a pensar que o cão que se tem em casa se distingue essencialmente do seu dono porque não antecipa o futuro, como reage o leitor (ou o ouvinte)? Fala sobre a dinâmica do funcionamento cerebral e sobre a relação do Funcionamento Cerebral com a Cultura e a Educação. Grande responsabilidade deixa ele nas mãos de quem decide sobre os sistemas e os valores da Educação dos Povos!
A propósito de uma das suas apresentações de O Livro da Consciência.


Antonio Damasio is David Dornsife Professor of Neuroscience, Psychology, and Neurology, and director of the Brain and Creativity Institute at the University of Southern California. He is author several books including Descartes’ Error and, most recently, Self Comes to Mind: Constructing the Conscious Brain. Below, he takes our In The Green Room Q&A.
Q. What surprises you the most about your life right now?
A. Can I answer with a joke? I have this laryngitis and I’m still speaking.
Q. What is the last habit you tried to kick?
A. Not doing enough exercise.
Q. Who was your childhood hero?
A. Tin Tin.
Q. What do you consider to be the greatest simple pleasure?
A. Enjoying good weather by the seaside next to a forest of pines.
Q. Where would we find you at 10 a.m. Saturday morning?
A. Probably at home writing or reading.
Q. What do you wish you had the nerve to do?
A. Be an airplane pilot.
Q. Who is your favorite fictional character?
A. As a dramatic character, Gatsby. As a comedic character, Alvy Singer in “Annie Hall.”
Q. What is your most prized material possession?
A. Certain pieces of art.
Q. Who is the one person living or dead you would most like to meet for dinner?
A. Perhaps Goethe.
http://www.zocalopublicsquare.org/2010/12/10/antonio-damasio/personalities/in-the-green-room/

*Photo by Aaron Salcido. 
DECEMBER 10, 2010

segunda-feira, junho 25, 2012

Não concordo com José Mourinho, nem com Nelson Mandela - 2/2

Hoje também fui "obrigado" a dedicar um pouco de atenção a Nelson Mandela. Por causa da Academia Ubuntu. Nelson Mandela disse -  e alguém depois escreveu - as seguintes palavras:
"No one is born hating another person because of the colour of his skin, or his background, or his religion. People must learn to hate, and if they can learn to hate, they can be taught to love, for love comes more naturally to the human heart than its opposite."
A Wikipédia traduziu assim as palavras de Mandela:
"Ninguém nasce odiando outra pessoa por causa da cor de sua pele, da sua origem ou da sua religião. Para odiar, é preciso aprender. E, se podem aprender a odiar, as pessoas também podem aprender a amar."
Nelson Mandela, senhor presidente, com todo o respeito, o oposto, ou o contrário, do amor não é o ódio. O contrário do amor é a indiferença.
É importante dizer isto porque a razão do ódio é uma, e a fonte da indiferença é outra. Ora isto tem implicações importantes na educação das crianças e dos jovens.
Não quero que o meu desacordo desvie a atenção do mais importante que diz: que para odiar é preciso aprender. Isso é essencialmente verdade! E o crescimento ou ou apaziguamento do ódio gere-se na relação educativa. Só que para que os educadores (pais, professores, líderes sociais) possam ter comportamentos  positivos no campo da educação da vivência do ódio é preciso que saibam bem o que está realmente em causa quando se sente ódio.
Voltarei a este assunto em breve.

Não concordo com José Mourinho, nem com Nelson Mandela - 1/2

Hoje, nem sei eu bem porquê, dei atenção a um dos vários anúncios do Millenium em que aparece José Mourinho. Diz ele, a certa altura, que o objetivo é ser o melhor entre os melhores.
Nada de mais errado! Do ponto de vista de formação dos jovens, nada de mais errado! No fundo, no limite, ser o melhor entre os melhores pode não ser grande coisa... basta que os outros não sejam suficientemente bons. Neste caso, posso ser o melhor entre os melhores, mas, no fundo, não sou nunca sufucientemente bom.
Por mim, continuo a acreditar mais na cooperação do que na competição. Com a ajuda dos outros, com o diálogo com os outros, eu posso ser melhor... e os outros também. Serem todos melhores, esse sim, é o objetivo que vale a pena!
Por exemplo, quando jovens como George Sampson criam as suas escolas, o objetivo deles não é serem os melhores de todos. O objetivo deles é serem por que gostam, é serem cada vez melhores, é partilharem com os outros o que sabem, para que os outros também sejam bons.

quarta-feira, junho 20, 2012

«Mourinho é um grande comunicador que esconde bem a sua mediocridade como treinador» - Zeman

«Mourinho é um grande comunicador que esconde bem a sua mediocridade como treinador» - Zeman
Por Redação (jornal A Bola, edição on line, 20 de junho de 2012)

«José Mourinho é um grande comunicador que esconde bem a sua própria mediocridade como treinador». As declarações foram proferidas pelo novo treinador da Roma, Zdenek Zeman.
As críticas ao Special Onde prosseguiram.

«Salvo algumas exceções como o Barcelona de Guardiola e a seleção espanhola, o futebol evoluiu pouco nos últimos anos. A grande maioria das equipas entra em campo apenas com vontade de neutralizar o adversário, como o Chelsea que este ano ganhou a Liga dos Campeões ou o Inter (aludindo ao período em que o técnico português orientou a formação italiana)», apontou Zeman citado pela gazzetta dello sport.
17:20 - 20-06-2012«Mourinho é um grande comunicador que esconde bem a sua mediocridade como treinador» - Zeman

Caros alunos,
reparem como as palavras são, entre outras coisas, algo que serve os interesses, as motivações, os objetivos, de quem as profere; e servem também para representar, corretamente ou não, as realidades a que se referem.
Diz a cultura popular que "contra factos não há argumentos". Por isso, apenas aqui alinho, em jeito de lista, os factos futebolísticos, profissionais, do autor das palavras, Zdeněk Zeman, e o visado dessas palavras, José Mourinho. Fui buscar estas listas à Wikipédia. No fim de as observar, perguntar-se-á:
O que quererá Zeman verdadeiramente?... Será só protagonismo?... Atrair as atenções sobre si?...
Recomendo-vos: não se deixem ir atrás das emoções... passem por cima da tentação de chamar nomes feios ao senhor da República Checa... tentem apreciar o funcionamento psicológico do treinador, e do homem que (também) é.

Zdeněk Zeman

Títulos

Licata
Foggia
Pescara

José Mourinho

Títulos

Portugal FC Porto
Inglaterra Chelsea
Itália Internazionale
Espanha Real Madrid

[editar]Prêmios individuais

quinta-feira, junho 14, 2012

Educação Física não conta para a média - Portugal - DN

Educação Física não conta para a média - Portugal - DN

Esta medida do Ministério de Educação da República Portuguesa é, no meu entender, uma medida que nos permite formar opinião sobre a consistência da cultura civilizacional e científica dos decisores que a tomaram; e a sua estreiteza de perspetiva, quando as verdadeiras soluções, não apenas na área da educação, mas também no desenvolvimento geral do País, reclamam sabedoria, rasgo e valorização de todas as dimensões das competências e capacidades humanas.
A médio ou longo prazo, é uma medida perfeitamente reversível, o que me deixa mais descansado. A curto prazo, parece-me uma medida muito infeliz, que vem distorcer a formação de um punhado não negligenciável de jovens.
Não é apenas a negação da velha máxima grega, que avisa que a mente sã se constroi sustentada no corpo são, é também a negação do que hoje em dia se sabe sobre a importância das actividades do corpo no desenvolvimento do cérebro, das capacidades abstrativas da mente; do autocontrolo e da autorregulação emocional; da estimulação e da aprendizagem da regulação da sociabilidade, da competição e da gestão dos conflitos.
Sinal dos tempos, esta medida mostra quanto as preocupações oficiais com a educação dos jovens vai a reboque das necessidades e das motivações pequenas do "desenrasca"  económico, mercantilista; e que todos nós, com os nossos governantes à cabeça, andamos a reboque de quem manda (os poderosos do dinheiro) e os que pensam que têm verdadeiro poder (os provisórios governantes).
Admito perfeitamente que haja alunos (não são todos, seguramente, os que há pouco quis referi no "punhado não negligenciável de jovens") e encarregados de educação em número não negligenciável que apoiem este medida, mas, infelizmente, a minha experiência, enquanto professor e enquanto psicólogo, tem-me mostrado quanto a pessoa (no fundo, pessoas concretas que eu conheço) perde quando se sobrevaloriza as coisas da mente, ou as coisas do corpo, pondo-se em causa a integridade da pessoa. É, sobretudo a felicidade pessoal e a felicidade das famílias que é posta em causa.

terça-feira, abril 03, 2012

Agostinho da Silva, a cultura, a educação e... a matemática

Na edição do ano passado da Semana do Mar da Horta, na ilha do Faial, comprei um pequeno livrinho, editado pelo FaiAlentejo, em 2006. Trata-se da publicação das atas do III.º CICLO AGOSTINIANO AÇORES, dedicado ao tema da Cidadania e Ambiente no Pensamento de Agostinho da Silva.
Só agora encontrei ocasião de ler este pequeno livro, e parece-me oportuno, agora que se volta a falar em reforma curricular do ensino primário e secundário, destacar duas ou três coisas da comunicação de Mário Cabral, "A 'Cidade de Deus' em Santo Agostinho de Portugal:

  1. A forte defesa, por vezes ingénua, do "bom selvagem", em contraponto com o mundo contemporâneo ocidental, nunca atinge, porém, o ponto de cegar o autor no que respeita à esperança depositada na revolução tecnológica que, no seu entender, funcionará como uma espécie de redenção da queda em que se encontra a Humanidade, espécie de círculo que se fecha e rosto que se encontra depois de se ter perdido.
  2. [como nota de rodapé, para explicar o que é o "bom selvagem"] TP II, "Educação em Portugal", 89-151, 92: "Acreditando, pois, que o homem nasce bom, o que significa para mim que nasce irmão do mundo, não seu dono e destruidor [...]".
  3. "[...] o professor deve sempre aparecer ao seu discípulo como uma pessoa de cultura perfeita; por cultura perfeita entenderemos tudo o que pode contribuir para lhe dar uma base moral inabalável, sem subserviências nem compromissos".
  4. "É esta a minha noção de cultura: tornar melhor a vida das pessoas. Começar pela alimentação, pelo vestuário, pela saúde, pelo ensino".
  5. Não se poderá jamais falar de cultura enquanto houver opressores e oprimidos. Agostinho da Silva é deveras sensível à condição infantil, mais até do que à feminina, escandalizando-se com o modo como a escola perverte a natureza do "bom selvagem", orientando-o para aquilo que chama ser civilizado. Cf. TP II, "Educação de Portugal", 89-151, 108.
  6. TEF II, "Pensamento em Farmácia de Província", 310: "[...] já que matemática é apenas uma parte do pensar e talvez o sonhar lhe seja muito maior".
(aversão integral do texto pode ser encontrada aqui:  http://www.jornaldepoesia.jor.br/A%20CIDADE%20DE%20DEUS.pdf)

quarta-feira, agosto 10, 2011

Com a língua partilhamos a saudade, com a saudade partilhamos o destino e com o destino partilhamos a utopia.

O que tem estado a acontecer em Inglaterra (Reino Unido, eu sei, mas isso é mais para quem lá vive mesmo) é lamentável, muito lamentável. Os problemas sociais ganham forma de espetáculo de televisão e canais inserem na sua programação avisos de que vão fazer emissões especiais , diretamente de várias cidades inglesas, a partir das horas tais e tais, para que todos nós possamos ver, no descanso das nossas casas, os atos de violência e saque, e possamos exclamando, em tempo real, como agora se diz: Credo!... Ai que horror!... Que vândalos!... Meus Deus, onde é que este mundo vai parar!...
Hoje de manhã, pois claro, um dos canais generalistas da televisão portuguesa, apresentou imagens da noite que passou, mostrando várias cidades inglesas, focando bem o ferro e o fogo. Curiosamente, logo a seguir, no alinhamento do telejornal, veio o habitual noticiário dos movimentos de compra e venda nas principais bolsas europeias, notícias essas apresentadas com o tom de voz sempre monocórdico, de frases feitas, sempre iguais, absolutamente comuns a todos os canais que dão, todas as manhãs, informações sobre as ações que sobem, as ações que descem, os índices para cima, os índices para baixo.
No jogo que se sempre se joga nestas ocasiões, das causas próximas e das causas remotas deste tipo de acontecimentos, se calhar, sem querer, o canal de televisão em causa associou o efeito a uma das suas causas maiores, que nos mostra o estilo de vida dominante nas nossas sociedades: o movimento de capitais a pôr e a dispor das pessoas e das sociedades.
Repare-se no seguinte: os danos acumulados já devem chegar a valores que dariam para cobrir os orçamentos anuais dos centros de juventude que fecharam em Londres. Não estou a dizer que foi esta a causa precipitante, nem tão pouco que é a mais importante.
Não me canso de repetir o que o meu mestre João dos Santos muito sabiamente me repetiu, que, no fundo, o que importa na organização da vida das pessoas é a educação e a política. Ora, terão sido precisamente a educação e a política que falharam; que estão a falhar. Em Inglaterra e em todo o mundo.
Entre nós, portugueses, por exemplo, o grande desiderato da Educação é a melhoria dos resultados a Matemática, e quase se tem a vertigem de criar um deserto à volta dela, qual eucalipto voraz que absorve tudo avidamente.
Que sociedades, na história dos povos, conseguiu engrandecer com a desvalorização dos sábios da Educação, com a menorização dos seus professores?
É essa a desgraça dos tempos de hoje: os donos do dinheiro manietam os políticos, e os políticos desprezam os professores.
Curiosamente, também, na leitura matinal de hoje, li, precisamente depois de ver os noticiários:
"Podemos partilhar a saudade, entre todos os falantes da língua que se impôs como uma das maiores do mundo, veículo de muitas culturas, identidade comum. Pelo caminho houve muito sangue desperdiçado, muitos desastres ecológicos, muitos equívocos irreparáveis. Muitas pedras no meio do caminho. De todos esses desastres restam algures vestígios, uns indeléveis outros violentos, pelas veredas tortuosas que trouxeram até nós o poder de todas as paixões e a força de todas as utopias que se afeiçoam ao nosso destino. Com a língua partilhamos a saudade, com a saudade partilhamos o destino e com o destino partilhamos a utopia." (in Diário de Bordo, de António de Abreu Freire, apontamento de quinta-feira, dia 17 de maio de 2007, em Salvador da Bahia, no Brasil) 
A crise em que se inserem os acontecimentos de Inglaterra tem a ver, no meu entender, com o desprezo pelos valores da partilha, pelo deslaçamento das pessoas e dos grupos sociais, pela desistência das utopias coletivas. É o domínio absoluto do individualismo, casado, por intensa paixão, ao insaciável consumismo, que reclama satisfação imediata.
A responsabilidade última de tudo isto é sempre dos políticos e dos governantes.

quarta-feira, julho 27, 2011

A estética do falhanço, ainda a lamentável morte do rapaz que "toureava" carros

Ontem já, dia 26 de Julho, o padre José Luís Borga deixou, na sua página do Facebook, um comentário interessante sobre este assunto, centrando-se no caso do jovem que morreu quando, com outros, se entretinha a "tourear" os carros.
Hoje, a edição em linha do Diário de Notícias, traz um texto também muito interessante, do comentador cinéfilo João Lopes, sobre, não o caso de que fala o padre José Borga, mas sobre o fenómeno social em que o caso se insere.
No meu entender, sem conjunto, os dois textos são excelentes pontos de partida para "partir pedra" (há muita pedra para partir!) nas escolas, nas famílias, nas comunidades locais, na comunicação social; e, claro, entre os decisores políticos.
Tudo isto tem a ver com opções, com valores, com prioridades sociais. Com educação; com muita educação! Com a maneira como decidimos tecer as relações sociais (que começam em casa e na escola; com os governos a garantirem condições para que possa haver tempo - e valorização, repito! - para que tais relações aconteçam e deem frutos).

O texto do Diário de Notícias:
A estética do falhanço - Opinião - DN
Há uma narrativa mediática, de raiz televisiva, que nos leva a identificar uma "juventude-YouTube" que, enredada nas ambiguidades do mundo virtual, se compraz em encenar-se através dos dispositivos mais extremados: agredindo, desafiando a morte, morrendo...
É um facto que a imagem não é estranha a tais vertigens, envolvendo mesmo o poder radical de integrar a morte, superando os seus limites (será que já nos esquecemos que nascemos em berço católico?). Em todo o caso, vale a pena questionar a transparência daquela narrativa: será que podemos compreender esta paixão menor pelas imagens "perturbantes" como um mero reflexo das novas tecnologias e suas derivações? Ou ainda: que dizer de um mundo em que, todos os dias, se oferece à juventude o espelho de coisas tão medíocres como Morangos com Açúcar ou de inenarráveis anúncios em que a posse de um telemóvel se confunde com abrasivos êxtases sexuais?
Na verdade, quase ninguém (a começar pela esmagadora maioria da classe política) se mostra disponível para lidar com os valores da nossa cultura dominante. Que cultura é essa? A da celebração da festa obrigatória e da gratificação instantânea, logo de indiferença pela certeza indizível da morte. Não adianta, por isso, demonizarmos as imagens. Elas não são "boas" nem "más". Num mundo dominado pela fealdade das telenovelas e seus derivados, são apenas irrelevantes e intermutáveis. Os jovens limitam-se a prolongar o falhanço estético dos adultos que os criaram. A minha geração, por sinal.

Agora só falta o texto do padre José Luís Borga. Ele aqui está:
"O gosto de ser admirado é, quando não enquadrado numa acção meritória, um enorme risco de morte. Este jovem acabou "toureado" pela estupidez que, pelos vistos, um grupo de "amigos" estava disposto a registar. Deve ter registado mas... fugiu perante a tragédia e no contexto da desgraça. Mais uma prova de que são precisos amigos melhores e... aprendizagem do gosto pela vida! Que a dor destes pais seja remédio para muit (...)!


P.S. - Achega do Francisco Raposo (Obrigado, Francisco!), via Facebook:
A corrida para o vídeo famoso - Opinião - DN
Há limites para anedotas? Alguém, lúcido, disse: "Eu conto anedotas sobre tudo mas não conto é certas anedotas a toda a gente." Não nos rimos de anedotas racistas (e há-as, boas) com racistas. E vídeos? Aí, o critério é mais relaxado. Há dias que Portugal se ri com o Hélio, titubeante ao skate ("sai da frente Guedes!"), descendo uma estrada, lançando uma frase épica ("o medo é uma cena que a mim não me assiste"), cruzando um automóvel e espalhando-se na berma. O vídeo foi visto no YouTube em quantidades maiores que as enchentes do Estádio da Luz num ano, as televisões entrevistaram os pais do Hélio, rimo-nos todos. E, no entanto, o vídeo do Hélio é uma estupidez criminosa que acabou bem. Exemplo de uma estupidez criminosa que acabou mal: António, de 17 anos, foi de madrugada para uma auto-estrada tourear carros. Deveria haver também um Guedes com um vídeo a filmar, mas fugiu, sem coragem de mostrar o atropelamento e a morte do António. Sem coragem, e daí não sei... Talvez ainda apareça no YouTube - e nos online dos jornais - a morte do António. A estupidez das pessoas (e não estou a falar só do grupo do António) é infinita. Aqueles que têm a arma de propagação da estupidez nas mãos - dos grupos de popularização dos Hélios até ao YouTube, passando pelos jornais e televisões - deveriam pensar nos limites. O próximo passo é pôr o vídeo de um garoto a atirar um pedregulho, de uma ponte, para a auto-estrada?

domingo, julho 17, 2011

TEDxBaltimore 2011 KREBS The Future We Make - Outra vez a Matemática, o Português e a Área de Projeto

Sem qualquer ponta de ironia ou insolência, o assunto deste vídeo tem mais a ver com Área de Projeto, com Matemática ou com Português?...
O que, se calhar, todos concordamos é que tem a ver com educação. Ou não?...
Mas logo a seguir, outra divergência pode surgir: tem a ver com educação feita dentro da escola, ou fora da escola?...