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quarta-feira, junho 25, 2014

Castigat Ridendo Mores

Hoje fui à Livraria Sá da Costa, no Chiado.
Livros e livros velhos; mapas, postais e aguarelas.
Tive tempo, olhei as estantes, de maneira muito disciplinada, uma a uma - tantas!... cheias de tantos livros velhos!... - e fui guardando na memória a posição de alguns que me interessavam. Quando achei que tinha visto o que vi fui às memórias guardadas e peguei nos livros.
Entre eles, um livrinho muito pequeno, pequeno livro de bolso; muito sofrido, muito frágil. Uma edição da Federação Brasileira dos Escoteiros do Mar, publicado em 1928; isso, a caminhar para os 100 anos de vida. A fazer fé na dedicatória, o livro foi oferecido em 1992 a um grupo de escoteiros português por um chefe escoteiro.
O livro é uma obra notável! Tem como título "Jogos Escoteiros". Dos livros que conheço do género é, sem dúvida, um dos melhores de todos, muito poucos dos sofisticados actuais faz meças com ele. Nem sei se diga que é mesmo o melhor de todos... Como aparece aqui um livro destes, como foi ele largado por um grupo escoteiro?...
Na carta de apresentação que segue imediatamente o prefácio, escrita no Rio de Janeiro em outubro de 1928, e dirigida ao "Snr. Dr. Presidente da UNIÃO DOS ESCOTEIROS DO BRASIL", Gabriel Skinner, escreve o seguinte:
"(...) O jogo, segundo Claparède, é um exercício de preparação para a vida séria. (...) e o ideal do jogo consiste n'um divertimento que associe ao mesmo tempo a actividade physica, intellectual e moral da criança. É o - "Castigat ridendo mores" (1). Pelo jogo se expande a alma do menino; e é ahi então que o educador põe em prática os seus conhecimentos psycho-pedagogicos, actuando seguramente em sua alma ductil e plasmavel, elevando-a e educando-a, dentro dos sãos princípios da integridade physica, moral e intellectual. (...)"
Sim, concordo inteiramente!
São 200 jogos, arrumados por categorias claras, lógicas, cheias de bom-senso. Em outro dos livros que trouxe comigo (- Que compra!... Pela obra em si e pelo preço, de uva mijona.), William James, a veneranda referência da Psicologia Americana (que o próprio António Damásio continua a referir-se, mesmo nos seus mais actuais trabalhos) aflige-se com o risco de invasão sobranceira da Psicologia na Pedagogia, numa obra traduzida para francês em 1906, Causeries Pédagogiques. O que aconteceu sobretudo a partir da segunda metade do século XX veio mostrar que William James tinha razão para estar preocupado. Mas o livrinho de jogos dos Escoteiros do Brasil escapou a tempo da Psicologia! São jogos de 100 anos de vida - é tradição, é cultura, é sabedoria; é um conjunto de oportunidades riquíssimas de desenvolvimento físico, moral, intelectual; e social.
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(1) A expressão latina «ridendo castigat mores» — que também ocorre como «castigat ridendo mores» — não foi empregada por Gil Vicente, mas costuma ser citada em estudos sobre este autor, porque define a sua intenção de crítica moral de tipos e grupos sociais quando recorre ao cómico. Segundo o Dicionário de Português Michaelis, a frase significa «corrige os costumes sorrindo» e corresponde ao «[p]rincípio em que se fundamenta a comédia, criado por Jean de Santeuil» (1630-1697), poeta francês que escreveu em latim. (in Ciberdúvidas)

domingo, março 30, 2014

A educação sexual não deve ser ativa

"A educação sexual não deve ser activa. Deve o adulto explicar à criança aquilo que ela quer saber e isso dizia-o Claparède e deve falar-se sempre seriamente nos assuntos. O adulto pode brincar com a criança, brincar com as palavras, fazer trocadilhos e toda a espécie de jogos verbais que entender. Mas quando trata de assuntos sérios deve-os tratar seriamente. Se o adulto for capaz de falar seriamente dos problemas sexuais e dos problemas que se deparam à criança, então, realmente ele está em condições de fazer a educação sexual. A educação sexual não é educação para ser feita a crianças, mas para ser feita a adultos, os pais é que devem ser educados sob o ponto de vista sexual para terem um comportamento capaz de inspirar uma atitude normal na criança." (João dos Santos, texto recolhido da gravação de uma conferência proferida no Porto, na Ordem dos Médicos, em 14 de março de 1957; texto não revisto pelo autor)
Não é por acaso que trago para aqui este pensamento do dr. João dos Santos no mesmo dia em que levei para o blogue "Mais Pessoa Pouco a Pouco" um pequeno apontamento sobre os três princípios da Educação tradicional romana, segundo Cícero -  http://maispessoapoucoapouco.blogspot.pt/2014/03/os-tres-imortais-principios-da-educacao.html