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domingo, dezembro 27, 2009

Cadeia de poemas de Natal - 11, para a Arrábida do Miguel Guerreiro

Deixei o seguinte agradecimento no blogue do Miguel Guerreiro, no dia 19:

Obrigado, Miguel, pelos teus votos!
Também desejo para ti um Natal muito feliz, com muita alegria, muito aconchego da família, uns docinhos e algumas prendinhas.
E enquanto outros discutem se o Natal é do Pai Natal ou do Menino Jesus, deixo-te aqui um lindo poema que Sebastião da Gama, teu conterrâneo, escreveu, em que, no fundo, ele diz que é mais importante aconchegar os meninos do que apenas festejar os meninos:

PRESÉPIO

Nuzinho sobre as palhas,
nuzinho - e em Dezembro!
Que pintores tão cruéis,
Menino, te pintaram!

O calor do seu corpo,
pra que o quer a tua Mãe?
Tão cruéis os pintores!
(Tão injustos contigo,
Senhora!)

Só a vaca e a mula
com o seu bafo te aquecem...

- Quem as pôs na pintura?

quinta-feira, dezembro 24, 2009

Cadeia de poemas de Natal - 10, para o Alentejo do Zé Geadas

Escrevi assim no blogue do Zé, em resposta aos seus votos natalícios:

Obrigado, Zé, pelos teus votos.
Aqui te deixo, como se de um abraço grande se tratasse, para ti, teus pais, mano e avós, um poema de Natal, que colhi ontem na linda Biblioteca Municipal da Horta, para onde corri a proteger-me da valente chuva.
Diz que o Natal é de todos, em todo o lado. É em Dezembro, mas pode ser em todo o ano. O que é verdade.

Natal, e não Dezembro
..........................
Entremos, apressados, friorentos,
numa gruta, no bojo de um navio,
num presépio, num prédio, num presídio,
no prédio que amanhã for demolido...
Entremos, inseguros, mas entremos.
Entremos, e depressa , em qualquer sítio,
porque esta noite chama-se Dezembro,
porque sofremos, porque temos frio.
..........................
Entremos, dois a dois: somos duzentos,
duzentos mil, doze milhões de nada.
Procuremos o rastro de uma casa,
a cave, a gruta, o sulco de uma nave...
Entremos despojados , mas entremos.
Das mãos dadas talvez o fogo nasça,
talvez seja Natal e não Dezembro,
talvez universal a consoada.
David Mourão-Ferreira (Cancioneiro de Natal.1960-1987)

quarta-feira, dezembro 23, 2009

Cadeia de poemas de Natal - 9, dos Açores ao Brasil

Cheguei ao Faial, já estou mesmo na Horta.
Assim que cheguei a casa, larguei a bagagem, abracei a minha mãe e tentei ir direitinho ao cemitério, junto à campa do meu pai. Só que chovia bastante.
Abriguei-me na Biblioteca Municipal, e fui passar os olhos pelas estantes. Lá descobri as "101 Noites de Natal, uma antologia literária".
À página 34 fui buscar o "Soneto de Natal", de Machado de Assis, que aqui reproduzo, dedicando-o a todos os brasileiros que conheço, e a todos os brasileiros que de vez em quando visitam este blogue.

Um homem, — era aquela noite amiga,

Noite cristã, berço do Nazareno, —

Ao relembrar os dias de pequeno,

E a viva dança, e a lépida cantiga,


Quis transportar ao verso doce e ameno

As sensações da sua idade antiga,

Naquela mesma velha noite amiga,

Noite cristã, berço do Nazareno.


Escolheu o soneto . . . A folha branca

Pede-lhe a inspiração; mas, frouxa e manca,

A pena não acode ao gesto seu.


E, em vão lutando contra o metro adverso

Só lhe saiu este pequeno verso:

"Mudaria o Natal ou mudei eu?"



domingo, dezembro 20, 2009

Cadeia de poemas de Natal - 7, KALANDA, da Grécia

Dos meus queridos amigos George Detras, Sissi e Giannos, de Kalamata (Grécia), companheiros do PLURALIA, recebi, num e-mail, informações preciosas sobre a celebração tradicional do Natal na Grécia, que transcrevo para aqui, agora:
"No dia 24 de Dezembro, a véspera de Natal, as crianças gregas cantam canções de Natal chamadas “Kalanda”. Este termo provém do termo latino Calendae [donde resulta o “calendário”], que designa os primeiros dias do mês de Janeiro, os quais eram celebrados no tempo do império bizantino com grande pompa. Assim, as crianças gregas vão de casa em casa e os habitantes oferecem-lhe guloseimas, frutos secos ou bolos secos que, hoje em dia, são substituídos quase sempre por dinheiro. As crianças acompanham os seus cantos com um triângulo metálico [trigone, termo latino], que percutem com a ajuda de uma vareta, também ela metálica." São, afinal, os nossos tradicionais ferrinhos.
KALANTA = Chant de Noël
Καλήν εσπέραν άρχοντες - Good afternoon lords
κι αν είναι ορισμός σας - and if it's your command
Χριστού την θείαν γέννησιν - the holy birth of Christ
να πω στ' αρχοντικό σας - may I say in your house
Χριστός γεννάται σήμερον - Christ is born today
εν Βηθλεέμ τη πόλει - in the city of Bethlehem
οι ουρανοί αγάλλονται - the skies get serene
χαίρει η κτίσις όλη - the entire firmament rejoices

Εν τω σπηλαίω τίκτεται - in the cave is born
εν φάτνη των αλόγων - in the stable of the horses
ο βασιλεύς των ουρανών - the king of the skies
και ποιητής των όλων - and creator of everything

GREGO

Kalîn espéran árchontes,
an eínai orismós sas,
Christoú tîn theían Génnîsin
na pô st' archontikó sas.
Christós yennátai sîmeron
en Bîthleém tî pólei.
Oi ouranoí agállontai
chaírei î ktîsis ólî.

En tô spîlaíô tíktetai
en phátnî tôn alógôn
o Vasileús tôn ouranôn
kai Poiîtîs tôn ólôn.




FRANCÊS

Bonne soirée maîtres
et si ce sont vos ordres
que j’annonce la naissance
de Jésus à votre château.

Jésus est né aujourd’hui
dans la ville de Bethléem.
Le ciel exulte
et toute la nature se réjouit

Dans la grotte, il vient à la vie.
Dans l’écurie des chevaux,
le roi des cieux
et le poètes de tous

ESPANHOL

Buenas tardes, noble gente,
Si quieren
El santo nacimiento de Cristo
Podré cantar en su casa.
Cristo ha nacido hoy
En el pueblo de Belén,
Los cielos se regocijan,
Toda la naturaleza es feliz.

En una cueva nació
En un pesebre para caballos,
El Rey de todo el universo,
El Creador de cada cosa.


sábado, dezembro 19, 2009

Cadeia de poemas de Natal - 6, PETIT PAPA NOËL

Este apontamento é dedicado aos meus alunos do 10.º AS, na sequência da aula com que fechámos as aulas do primeiros período, para agora irmos celebrar o Natal com os nossos familiares e os nossos amigos.
Foi uma aula muito espontânea, muito bonita, em que visitámos o Natal de vários países, até de alguns que estranhámos que festejassem o Natal ("Com aquela Língua?...", "As senhoras estão lindas, mas... vestidas com sari?... Não sabia que cantavam o Natal!...")
A meio da aula, o meu mano Acúrcio entrou pela sala dentro e brindou-nos com o lindo poema de Natal que faz parte da nossa cadeia de poemas de Natal (o de David Mourão-Ferreira). Que foi lido em voz alta para todos.
Junto agora os versos da linda canção de Natal francesa, cantada na língua oficial do projecto em que a nossa Escola participou durante três anos, o PLURALIA, e cujo espírito de trabalho, confraternização e amizade continua bem vivo (clicando no título do apontamento, vai-se ao Youtube ouvir a canção, numa interpretação ligeira, muito bonita; e que tem a ver com as nossas aulas, os meus alunos perceberão porquê).

Petit papa Noël

C'est la belle nuit de Noël,

La neige étend son manteau blanc,

Et les yeux levés vers le ciel,

à genoux, les petits enfants,

Avant de fermer les paupières,

Font une dernière prière.

Petit papa Noël

Quand tu descendras du ciel,

Avec des jouets par milliers,

N'oublie pas mon petit soulier.

Mais avant de partir,

Il faudra bien te couvrir,

Dehors tu vas avoir si froid,

C'est un peu à cause de moi.

Il me tarde tant que le jour se lève

Pour voir si tu m'as apporté,

Tous les beaux joujoux que je vois en rêve

Et que je t'ai commandés.

Petit papa Noël

Quand tu descendras du ciel,

Avec des jouets par milliers,

N'oublie pas mon petit soulier.

Le marchand de sable est passé

Les enfants vont faire dodo

Et tu vas pouvoir commencer

Avec ta hotte sur le dos

Au son des cloches des églises

Ta distribution de surprises

Petit papa Noël

Quand tu descendras du ciel,

Avec des jouets par milliers,

N'oublie pas mon petit soulier.

Si tu dois t'arrêter

Sur les toits du monde entier

Tout ça avant demain matin,

Mets-toi vite, vite en chemin.

Et quand tu seras sur ton beau nuage,

Viens d'abord sur notre maison

Je n'ai pas été tous les jours bien sage,

Mais j'en demande pardon.

Petit papa Noël

Quand tu descendras du ciel,

Avec des jouets par milliers,

N'oublie pas mon petit soulier,

Petit papa Noël.

paroles : Raymond Vinci

musique : Henri Martinet

Cadeia de poemas de Natal - 5, este tem letra dos Açores

Outro elo da cadeia, outro elo da Manuela


NATAL CHIQUE

Percorro o dia, que esmorece
Nas ruas cheias de rumor;
Minha alma vã desaparece
Na muita pressa e pouco amor.

Hoje é Natal. Comprei um anjo,
Dos que anunciam no jornal;
Mas houve um etéreo desarranjo
E o efeito em casa saiu mal.

Valeu-me um príncipe esfarrapado
A quem dão coroas no meio disto,
Um moço doente, desanimado…
Só esse pobre me pareceu Cristo.

Vitorino Nemésio

quinta-feira, dezembro 17, 2009

Cadeia de poemas de Natal - 4

Hoje trago para aqui um poema de Natal de Miguel Torga.
Por três razões:
  • porque é um poema de Natal
  • porque adoro os escritos de Miguel Torga
  • porque acho delicioso (sem ironia, acreditem!) o comentário que encontrei no blogue de onde tirei o poema. Andava "preguiçosamente" à procura de uma versão já escrita (para não ter de escrevê-la eu por inteiro), encontrei-a num outro blogue, mas mal publicada, e depois apareceu-me bem escrita neste blogue. Sinceramente, acho o comentário delicioso, pela ingenuidade (verdadeiramente natalícia) e pela atenção e estímulo afectuosos da autora Teresa para com o seu escritor ( penso que ela pensa que é o João Carvalho Fernandes)!

HISTÓRIA ANTIGA - MIGUEL TORGA

Era uma vez, lá na Judeia, um rei.
Feio bicho, de resto:
Uma cara de burro sem cabresto
E duas grandes tranças.
A gente olhava, reparava, e via
Que naquela figura não havia
Olhos de quem gosta de crianças.

E, na verdade, assim acontecia.
Porque um dia,
O malvado,
Só por ter o poder de quem é rei
Por não ter coração,
Sem mais nem menos,
Mandou matar quantos eram pequenos
Nas cidades e aldeias da Nação.

Mas,
Por acaso ou milagre, aconteceu
Que, num burrinho pela areia fora,
Fugiu
Daquelas mãos de sangue um pequenito
Que o vivo sol da vida acarinhou;
E bastou
Esse palmo de sonho
Para encher este mundo de alegria;
Para crescer, ser Deus;
E meter no inferno o tal das tranças,
Só porque ele não gostava de crianças.

Miguel Torga

(no blogue http://fumacas.weblog.com.pt/arquivo/380002.html)

O comentário é o seguinte, que depois, a seguir, reproduzo com a pontuação correcta:

"nao sei o que dizer desta historia mas acho um bocado esagerada de mais veja se a melhora boa sorte"

"Não sei o que dizer desta história, mas acho um bocado exagerada demais. Veja se a melhora. Boa sorte!"