sexta-feira, abril 19, 2019

O DESAFIO DO "ESCOLA EMBAIXADORA DO PARLAMENTO EUROPEU"

ESPLENDOR E SOMBRA SOBRE A EUROPA, 4/12

O DESAFIO DO "ESCOLA EMBAIXADORA DO PARLAMENTO EUROPEU(1)
agrega, no seu 3.º e último ano de existência, a vontade e o empenho de alunos e professores de mais de 100 escolas portuguesas. Visa vencer as visões restritivas dos nacionalismos, valorizar adequadamente as identidades específicas dos patriotismos; e cultivar a sabedoria da colaboração e inter-ajuda entre as nações, tomadas como irmãs em direitos e deveres.

Há cem anos, cidadãos europeus pensavam inteligentemente, sabiamente; e por isso temiam... Infelizmente, a 1.ª Grande Guerra, e depois a 2.ª, deram-lhes razão. Stefan Zweig escreve assim nas suas memórias autobiográficas, em pleno conflito 1939-1945. São palavras que trazem conselhos, que trazem avisos. Por exemplo, que são as forças de conciliação que precisam da nossa dedicação, não as que atiçam o ódio.

«À primeira vista reconheci nele — e o tempo veio dar-me razão — o homem que viria a ser a consciência da Europa na hora decisiva. Conversámos sobre Jean Christophe. Rolland explicou-me que, com essa obra, tinha tentado cumprir uma tripla obrigação: agradecimento à música, declaração de fé na unidade da Europa e apelo à consciência dos povos. Todos nós deveríamos agora agir, cada um no seu posto, cada um a partir do seu país, cada um na sua língua, pois era altura de estarmos vigilantes, cada vez mais vigilantes. A seu ver, as forças que atiçavam o ódio eram, em consonância com a sua própria natureza inferior, mais veementes e agressivas do que as da conciliação, havendo também por trás delas interesses materiais que eram, eles próprios, menos escrupulosos do que os nossos. O absurdo tinha obviamente metido mãos à obra, e lutar contra ele era até mais importante do que a nossa própria arte. Senti a mágoa pela fragilidade estrutural do nosso mundo refletida de forma duplamente comovente naquele homem que celebrou a eternidade da arte em toda a sua obra. «Ela pode aliviar-nos, a cada um de nós em particular», respondeu-me, «mas nada consegue contra a realidade.»
Isto passou-se no ano de 1913. Foi a primeira conversa que me mostrou ser nossa obrigação não ficarmos desprevenidos e inativos perante uma guerra europeia que era, apesar de tudo, possível; no momento decisivo, nada deu a Rolland uma tão enorme superioridade moral sobre todos os outros como o facto de já ter podido fortalecer com antecedência a sua alma dolorida.»(2)
Anos depois das memórias de Stefan Zweig, Jean Monnet escreveu assim, ao mesmo tempo um aviso e um repto:
«Si je suis convaincu, alors je fais de mon mieux pour convaincre les autres, mais pas à la légère. Je me concentre, et je pense que si je n’étais pas moi-même convaincu, je n’agirais pas.»(3) 
(Se estou convencido, então dou o meu melhor para convencer também os outros, mas não impensadamente. Concentro-me, e penso que, se eu próprio não estivesse convencido, eu nada faria) 

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(1) "O Parlamento Europeu lançou um programa pedagógico intitulado "Escola Embaixadora do Parlamento Europeu", em todos os 28 Estados-membros. 
Esta iniciativa que tem a ambição de investir na consciencialização dos jovens sobre as possibilidades que lhes oferece a sua cidadania europeia, bem como sobre o papel que o Parlamento Europeu desempenha no processo de decisão europeu e por conseguinte nas nossas vidas quotidianas, terá uma duração prevista de três anos letivos: 2016-17, 2017-18 e 2018-19." (seg. Ana Maria Antunes Vieira)
(2) “O Mundo de Ontem, recordações de um europeu”, de Stefan Zweig, publicado pela Assírio & Alvim, reimpressão de 2017, p. 242. 
(3) https://dicocitations.lemonde.fr/citations/citation-60024.php

segunda-feira, abril 15, 2019

SE FOSSE PARA REFAZER [A EUROPA], COMEÇAVA PELA CULTURA

ESPLENDOR E SOMBRA SOBRE A EUROPA, 3/12

«SE FOSSE PARA REFAZER, COMEÇAVA PELA CULTURA»,
disse um dia Jean Monnet, um dos pais fundadores do ideal da União Europeia; e também da sua realização concreta.(1)

É, num certo sentido, o primado da Cultura que marca a diferença entre os sentimentos da 1.ª Grande Guerra e os da 2.ª. De 1945 até agora, será que soubemos recuperar a Moral e a Cultura? Penso que, infelizmente, muito tristemente, não... Vamos cruzar os braços? Eu não vou!...

«Para marcar bem a diferença entre a atmosfera espiritual da Primeira e da Segunda Guerra Mundial, é sempre obrigatório sublinhar que, naquela época, os países, os dirigentes, os imperadores, os reis, criados numa tradição de humanidade, ainda tinham no seu subconsciente vergonha da guerra. Um após outro, qualquer país repudiava, como vil calúnia, a acusação de ser ou de ter sido «militarista e rivalizava com os outros para mostrar, para demonstrar, para esclarecer, para pôr em evidência que era uma «nação civilizada». Em 1914 tentava-se insistentemente mostrar a um mundo, que punha a cultura acima da força e que teria abominado como imorais as palavras de ordem de «sacro egoísmo» e de «espaço vital», que se reconhecia o valor universal das obras de espírito.»(2)

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(1) Muito recentemente (14ABR19), no semanal texto de opinião, no Diário de Notícias, o Professor Adriano Moreira, escreve assim:
 «As alterações da soberania que na própria metade ocidental não têm deixado de encontrar dificuldades, e até humilhações, conduziram no leste a uma atitude também inspiradora dos populismos que ameaçam as próximas eleições, as quais, nas palavras de Marci Shore, consideram paternalismo ocidental o emaranhado de normativos, de centros de decisão que muitas vezes impuseram a autoridade técnica e científica como suficientemente legitimadora. A meio do trajeto, Jean Monnet - que seguira com atenção e intervenção a discussão sobre a marcha para a unidade da Europa, em que pairava a proposta de Aristide Briand, dos anos 1920, da criação dos Estados Unidos da Europa - concluiria nas Memórias que, quanto à sua participação, deveria ter começado pela cultura e não pela economia, para orientar os europeus na compreensão da necessidade da ação coletiva, sendo certo que já nesse tempo o Reino Unido se opunha a qualquer abandono da soberania.»  https://www.dn.pt/edicao-do-dia/14-abr-2019/interior/as-fraturas-europeias-10789446.html?fbclid=IwAR0zsTkNhW9j2nFYA05-9e1hJDGqN5szFfo_wN95lcRuOeuiBebssw40s8Q
(2) “O Mundo de Ontem, recordações de um europeu”, de Stefan Zweig, publicado pela Assírio & Alvim, reimpressão de 2017, p. 301. 

domingo, abril 14, 2019

AS ILUSÕES DA ETERNA E LIVRE JUVENTUDE

ESPLENDOR E SOMBRA SOBRE A EUROPA, 2/12

AS ILUSÕES DA ETERNA E LIVRE JUVENTUDE

Vive-se o auge da "Belle Époque"(1). Com todos os sinais de bem-estar pessoal, liberdade individual, progresso material e poder científico, como querem que se acredite que podem estar a chegar tempos cinzentos, ou mesmo negros, à Europa?

«Nunca a Europa fora tão forte, tão rica, tão bela, nunca acreditara tão profundamente num futuro ainda melhor; ninguém, a não ser alguns velhos já engelhados, lamentava, como antigamente, os "bons velhos tempos".
September 8, 1906
Mas não eram só as cidades, também as próprias pessoas estavam mais belas e mais saudáveis graças ao desporto, à melhor alimentação, à redução do horário de trabalho e à relação mais íntima com a natureza. O inverno, outrora uma estação de monotonia, que as pessoas desbaratavam de mau humor, jogando às cartas nas tabernas ou então aborrecendo-se em compartimentos sobreaquecidos, tinha sido descoberto nas montanhas como lugar de filtragem do sol, como néctar para os pulmões, como voluptuosidade para a pele onde um sangue veloz afluía. E as montanhas, os lagos, o mar já não estavam tão longe como dantes. A bicicleta, o automóvel, o comboio elétrico tinham encurtado distâncias e oferecido ao mundo uma nova sensação de espaço. Ao domingo, milhares e dezenas de milhar, em anoraques de cores berrantes, lançavam-se velozmente pela encostas nevadas nos seus esquis e trenós; por todo o lado surgiam palácios de desportos e piscinas. E era justamente na piscina que era possível notar mais claramente a mudança: enquanto que, nos meus anos de juventude, um homem realmente bem constituído sobressaía no meio dos pescoços anafados, das grandes panças e dos peitos cavados, agora eram corpos ginasticados, tisnados pelo sol, enrijecidos pelo desporto que rivalizavam entre si à maneira das joviais competições clássicas. Ninguém, a não ser os mais pobres entre os pobres, ficava agora em casa ao domingo, toda a juventude, instruída em todas as modalidades desportivas, fazia caminhadas, trepava, lutava; quem tinha férias, já não as passava perto da cidade ou, na melhor das hipóteses, no Salzkammergut como ainda fora hábito no tempo dos meus pais; tinha-se curiosidade em saber se o mundo seria assim tão belo em toda a parte, ou se teria uma beleza diferente. Enquanto que outrora só os privilegiados conheciam o estrangeiro, agora eram os empregados bancários e os pequenos comerciantes que iam até à Itália, até à França. Viajar tinha-se tornado mais barato, mais cómodo, mas sobretudo: era a nova coragem, a nova ousadia das pessoas que as tornava também mais audazes nas deslocações, menos receosas e menos poupadas na vida — sim, tinha-se vergonha de mostrar receio. Toda aquela geração tomara a decisão de se tornar mais jovem; contrariamente ao mundo dos meus pais, tinha-se orgulho em se ser jovem; de repente, as barbas desapareceram dos rostos dos mais novos, imitados então pelos mais velhos que não queriam ser tomados como tal. Ser jovem, fresco, e não arvorar ares dignos tornou-se a palavra de ordem. As mulheres deitaram fora os espartilhos que lhes comprimiam os seios, abdicaram dos chapéus de sol e dos véus, porque já não temiam nem o ar nem o sol, encurtaram as saias para melhor poderem movimentar as pernas no ténis, e deixaram de ter vergonha de mostrá-las quando eram bem feitas. A moda tornou-se cada vez mais natural, os homens usavam calções, as mulheres aventuravam-se na sela de cavaleiro, ninguém se tapava, ninguém se escondia dos outros. O mundo não estava apenas mais belo, estava também mais livre.» (2)
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(1) "expressão origem francesa que significa literalmente “Bela Época”. Esta expressão criada para designar um período da história na Europa marcado pela paz aproximadamente entre 1871 quando teve fim a Guerra Franco-Prussiana e julho de 1914 quando começou a primeira Guerra Mundial, compreendendo um total de 43 anos. Este período ficou caracterizado sobretudo pela expansão e progresso tecnológico, científico e cultural." https://www.infoescola.com/artes/belle-epoque/
(2) “O Mundo de Ontem, recordações de um europeu”, de Stefan Zweig, publicado pela Assírio & Alvim, reimpressão de 2017, pp. 230-32.

sábado, abril 13, 2019

NÃO, EU NUNCA ABANDONAREI OS MEUS AMIGOS.

ESPLENDOR E SOMBRA SOBRE A EUROPA, 1/12
Romain Rolland

«NÃO, EU NUNCA ABANDONAREI OS MEUS AMIGOS.»

Sou um defensor “descarado” da participação activa dos cidadãos nas próximas eleições europeias, no final do próximo mês de Maio.

Não sendo possível trazer para aqui todo o “O Mundo de Ontem, recordações de um europeu”, de Stefan Zweig, vou trazer algumas das suas memórias-reflexões que considero especialmente emblemáticas. E porquê? Porque está em jogo, em estado muito crítico, o futuro da Europa (a Europa solidária, cooperativa, agregadora de esforços e recursos; e a todos beneficiando) - e o futuro dos nossos filhos e dos nossos netos.

Terá a ver com a afirmação de que a História (não) se repete? Sim, tem a ver.
Terá a ver com a afirmação que diz que as sociedades têm memória curta das coisas? Sim, tem a ver.

Há cerca de 100 anos - estava-se em 1914-1915 -, ainda se pensava que a Guerra iria acabar depressa, Stefan Zweig(1), andando pelos 32 anos, escreveu um artigo, “An die Freunde im Fremdland”(2) (Aos Meus Amigos do Estrangeiro), que foi publicado no “jornal alemão mais lido”, o Berliner Tageblatt, que “não hesitou em publicá-lo na íntegra." Em 19 de Setembro de 1914.
Nesse artigo, ele, que, assim que a guerra começou, passou a ver os autores e os artistas, em geral, a abandonarem os amigos e conhecidos de outros países; e, consequentemente, a fecharem-se em círculos absolutamente nacionalistas, moldados pelos “valores” da guerra - ele, que tanta gente notável conhecera em tantas cidades europeias e tantos amigos fora fazendo, foi contra essa corrente e defendeu, no livro, a preservação da amizade além fronteiras.
“Oh, como sentíamos, nessa altura, que, graças ao amor e à confiança, a diferença entre os homens pudesse enriquecer o espírito e dar-nos um profundo sentimento de plenitude!”(3)
Stefan Zweig ficou espantado com a publicação do seu texto, já que não tinha esperança que fosse aceite fosse por que jornal fosse. No Berliner Tageblatt uma única frase foi vítima de censura - «seja para onde que a vitória se incline» - "porque na época não era permitido ter a mínima dúvida de que a Alemanha seria a natural vencedora dessa guerra mundial." Ignorado, desprezado, ostracizado, repudiado na pátria da língua alemã (Áustria e Alemanha), pelo que escreveu, Stefan Zweig acaba por receber, “quinze dias mais tarde”, de um autor francês que ele muito admirava, e de quem era muito amigo - Romain Rolland -, a seguinte e muito significativa saudação, n' "uma carta com selo suíço e ornamentada com o carimbo da censura": «Non, je ne quitterai jamais mes amis.»"(4)
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(1) austríaco, de origem judia.
(2) https://www.asymptotejournal.com/nonfiction/stefan-zweig-to-friends-in-foreign-land/german/ ; tradução inglesa: https://www.asymptotejournal.com/nonfiction/stefan-zweig-to-friends-in-foreign-land/
(3) "Oh, wie spürten wir damals dass Fremdheit der Art durch Liebe und Vertrauen unendliche Befruchtung des Geistes werden kann und ein Gefühl der Geistesfülle!" ( http://docnum.univ-lorraine.fr/public/UPV-M/Theses/1999/Zarini.Marie_Emmanuelle.LMZ9911.pdf , p. 275)
(4) As citações de que me sirvo foram retiradas de “O Mundo de Ontem, recordações de um europeu”, de Stefan Zweig, publicado pela Assírio & Alvim, reimpressão de 2017.
Nota: a fotografia é de Romain Rolland.

terça-feira, abril 09, 2019

A GRATIDÃO E OS TRABALHOS MONOGRÁFICOS

A GRATIDÃO E OS TRABALHOS MONOGRÁFICOS

Escrevi assim hoje aos meus alunos:

https://www.mensagens.inf.br/mensagens-de-agradecimento/
«Queridos alunos,

Vistos os trabalhos monográficos de todos, venho dizer-vos o seguinte:

1) Nenhum trabalho monográfico alcançará, na avaliação final, os 20 valores se não apresentar, explicitamente, um capítulo ou sub-capítulo, especificamente centrado na gratidão: na gratidão ao sujeito monográfico e a todos aqueles que ajudaram na realização dos trabalhos monográficos. E porquê? Por 3 razões: porque a gratidão é um sabor gostoso, é um sentimento; porque a gratidão é uma atitude social; porque a gratidão é um dever ético.

2) A gratidão enquanto sabor, enquanto sentimento: melhor que todos os outros, António Damásio soube mostrar (de forma especialmente clara no seu último livro "A Estranha Ordem das Coisas") que os sentimentos estão na base do que o 'Homo sapiens' melhor pensa e melhor decide no sentido do bem-estar pessoal - dos outros e de si-mesmo; e da capacidade inteligente de resolver problemas.

3) A gratidão enquanto atitude social: sabe-se já, com muita investigação probatória, que sentimentos positivos atraem sentimentos positivos e sentimentos negativos atraem sentimentos negativos. Assim, se deliberadamente, mesmo sem lhe sentirmos o sabor genuíno, expressarmos gratidão, estaremos a incentivar a presença, a marca, da gratidão nas relações pessoais e inter-grupais, com os benefícios daí decorrentes - para o próprio, para os outros, para os grupos.

4) A gratidão enquanto ética: mesmo não experimentando o sabor; e mesmo descrendo da gratidão enquanto atitude social promotora do bem-estar individual e grupal, devemos agradecer por razões éticas e morais a quem, seja de que forma seja, nos ajuda a alcançar os nossos objetivos. Tem a ver com o formalismo, os rituais das relações pessoais que inibem a agressividade e promovem a emergência dos comportamentos não-lesivos de Outrem, ou do Outro.

5) Como outros já disseram, esta é a minha linha vermelha, é quase a minha objeção de consciência, abaixo da qual eu não me permito atribuir a classificação de 20 valores em trabalhos em que nós, alunos e professor, pedimos a outros que connosco colaborassem na nossa aprendizagem social e académica.

Beijos e abraços para todos vós!»

domingo, março 31, 2019

A flor, desenhar uma flor

Poucos conseguem encontrar as palavras, e a sua ordem, para falar do que vai na alma da criança que se entrega ao desenho.
autor: Victor Manuel Marques Candeias
«Pede-se a uma criança: Desenha uma flor! Dá-se-lhe papel e lápis. A criança vai sentar-se no outro canto da sala onde não há ninguém.
Passado algum tempo o papel está cheio de linhas. Umas numa direcção, outras noutra; umas mais carregadas, outras mais leves umas mais fáceis, outras mais custosas. A criança quis tanta força em certas linhas que o papel quase que não resistiu.
Outras eram tão delicadas que apenas o peso do lápis já era de mais Depois a criança vem mostrar essas linhas às pessoas: uma flor!
As pessoas não acham parecidas estas linhas com as de uma flor!
Contudo, a palavra flor andou por dentro da criança, da cabeça para o coração e do coração para a cabeça, à procura das linhas com que se faz uma flor, e a criança pôs no papel algumas dessas linhas, ou todas. Talvez as tivesse posto fora dos seus lugares, mas são aquelas as linhas com que Deus faz uma flor!»
José Almada Negreiros, in “O Regresso ou o Homem Sentado – III parte”
Nota: o texto e o desenho estão juntos na antologia "A Mulher e a Sensibilidade Portuguesa", 1.ª edição, do Comissariado Provincial da Mocidade Portuguesa Feminina, Luanda, 1970.

segunda-feira, janeiro 28, 2019

Meu amor é a Língua Portuguesa. (Sim, eu sei, é um plágio)

Era uma vez um par de namorados: uma menina e um papagaio. A menina chamava-se Língua Portuguesa e o papagaio, coitado, não tinha nome.

Um dia o papagaio desapareceu. Foi para bem longe, seduzido por graciosos amigos. A menina, apaixonada, procurou, procurou, procurou, sempre por onde o seu coração pedia. O Amor a guiou, o Amor os juntou outra vez. Até hoje, não voltaram a separar-se; nem o querem fazer nunca mais. Aliás, já os viram fazer planos para o Dia dos Namorados que está a chegar.

Mas afinal o que se passou?

Quem o conta é a escritora Lídia Jorge, no Contrato Sentimental. Assim:

«A história é breve e verdadeira, e narra-se mais ou menos da seguinte forma — Àquela data, ali na zona da península de Setúbal, uma família possuía um papagaio. O papagaio costumava voar para junto dos flamingos, subia para o dorso deles e por ali andava a dizer aquelas coisas que os papagaios dizem. Mas um dia o papagaio desapareceu. Consta que os donos percorreram os sapais de ponta a ponta, e nada. Puseram anúncio, e nada. Só que ao mesmo tempo que os donos, em Portugal, perdiam a esperança de encontrar o seu papagaio, na Tunísia aparecia um papagaio no meio dum bando de flamingos. Tinha voado com os flamingos. E imaginam, por acaso, como os serviços agropecuários tunisinos deram por que o papagaio era português? Pela simples razão de que o bicho entre outras palavras grasnava «amor, amor, amor». Ora os linguistas locais foram chamados a analisar a palavra insistentemente proferida e descobriram que a entoação era portuguesa de Portugal. Nem ‘amor’ espanhol com a aberto, nem ‘amore’ italiano com as vogais todas ao alto, nem ‘amor’ brasileiro, que prolonga o ‘ô’ bem fundo, e arrasta o ‘r’ final na profundidade da garganta, encorpando a palavra até ao sussurro. Não, não era nenhum deles — tratava-se do nosso ‘amor’, com as vogais bem sumidas, bem contidas, obrigando a pessoa a arredondar os lábios e a recuá-los logo, ao contrário dos franceses, que os têm de unir e fazer avançar em forma de bico ou de beijo. Nada disso, nem redondo, nem bico nem beijo. O «amor» do papagaio era ‘amor’ pronunciado à portuguesa, rápido, sumido, produzido a meio gás, a meio da garganta. O nosso amor. Então a história terminou bem. Descoberta a nacionalidade, os tunisinos ligaram para os homólogos de Portugal, os funcionários foram examinar a lista de papagaios perdidos e transformaram aquele espécime, de papagaio perdido, em papagaio achado.»(1)

(1) Lídia Jorge, “Contrato Sentimental”, Sextante Editora, Lisboa, 2009, pp. 128-9.

domingo, novembro 25, 2018

"A Europa" de Eça de Queiroz - edição quadrilingue

A EUROPA  *  L’ OUROPA  *  L’ EUROPE  *  EUROPE
Homenagear o patrono da escola com a edição quadrilingue de “A Europa”, de 1888. A tradução inédita do texto, quanto mais em 4 línguas!
português: A «crise» é a condição periódica da Europa.
mirandês: La «crise» ye la cundiçon quaije regular de l’Ouropa.
francês: La « crise » est la condition périodique de l’Europe.
inglês: “Crisis” is the almost standard condition in Europe.
1888 é também o ano de “Os Maias”, que a Gulbenkian e os CTT vão celebrar no dia 30.
Mas o dia de Eça é hoje: - Parabéns, Eça de Queiroz!

Com a colaboração entusiasta de portugueses valentes, de dentro e de fora da escola; e outros notáveis europeus. A todos eles agradeceremos publicamente como merecem.

A primeira partilha será na próxima semana, no Parlamento Europeu, em Estrasburgo, com alunos e professores dos outros países da União Europeia.

sábado, setembro 29, 2018

A boneca perdida, a criança nunca encontrada, as cartas procuradas, o afecto que nunca esmoreceu


A boneca perdida, a criança nunca encontrada, as cartas procuradas, o afecto que nunca esmoreceu

Um ano antes da sua morte, Franz Kafka viveu uma experiência singular.
Passeando pelo parque de Steglitz, em Berlim, encontrou uma menina chorando porque havia perdido a sua boneca.
Kafka disse à menina que queria ajudá-la a encontrar a boneca, ia procurá-la, e combinou um encontro com ela no dia seguinte, no mesmo lugar, podia ser que a tivesse encontrado.
Não tendo encontrado a boneca, ele escreveu uma carta como se fosse a boneca e leu-a à pequenita quando se encontraram. A carta dizia: “Por favor, não chores por mim, parti numa viagem para ver o mundo, e quero contar-te as minhas aventuras.”
Durante três semanas, Kafka entregou pontualmente à menina outras cartas que narravam
as peripécias da boneca em todos os cantos do mundo: Londres, Paris, Madagáscar…
Tudo para que a menina esquecesse a grande tristeza!
No final das três semanas, Kafka deu de presente à menina uma outra boneca.
A boneca era, obviamente, diferente da boneca original.
A última carta da boneca, que chegou no mesmo dia da nova boneca, dizia assim: “Não te assustes, não me estranhes, a minha viagem transformou-me…”.
Anos depois, a garota encontrou uma carta enfiada numa abertura escondida da querida boneca substituta.
O bilhete dizia:
“Tudo que amamos, eventualmente perderemos, mas, no fim, o amor voltará numa forma diferente.”

Nota: Será verdade o que a história conta? Durante anos, Klaus Wagenbach, um estudioso de Kafka, procurou a menina pela região próxima ao parque, investigou com os vizinhos, colocou anúncio nos jornais, mas nunca conseguiu encontrar a pista da menina ou das cartas. Contada e recontada, a versão mais difundida da história é a do conto de Jordi Sierra I Fabra “Kafka y la Muñeca Viajera”.

Querido aluno, viaja! Ousa, aceita transformar-te! Olha, embarca já nesta: a da Psicologia — cada aula é uma paragem: Paris, Roma, Londres, e por aí fora…

Um beijinho grande de carinho e gratidão à Professora Manuela Barros Ferreira, que me fez embarcar na fascinante viagem deste conto!


Bibliografia
O conto e o testemunho de Jordi Sierra I Fabra:

quarta-feira, setembro 19, 2018

O PROFESSOR DE PSICOLOGIA ENQUANTO SUJEITO DOS TRABALHOS MONOGRÁFICOS


Conversas reais ou imaginárias com alunos, 1

O PROFESSOR DE PSICOLOGIA ENQUANTO SUJEITO DOS TRABALHOS MONOGRÁFICOS

— Mas, ó “stôr”, porque é que não o podemos escolher a si como sujeito do trabalho monográfico,
"O pensador" original, na Porta do Inferno.
será que é diferente das outras pessoas?...
A provocação é grande, mas a resposta não é difícil.
— Caro aluno, o caso que eu vos contei acerca da forma como cheguei ao contacto com o Professor António Damásio, o que nos diz ele? É que o desafio que vos proponho, o desafio vencedor, é aquele em que nós vamos um pouco mais além do que óbvio, do que é lógico: se eu quero falar com o Professor António Damásio, escrevo ao Professor António Damásio. Foi o que fez o vosso colega, insistindo ao longo de mais de 2 meses. Resultado: nada, o que o fez querer desistir do Professor António Damásio enquanto sujeito monográfico. E que fiz eu para chegar ao Professor António Damásio em menos de 24 horas? Não escrevi ao Professor António Damásio, não foi o que vos disse?
Porta do Inferno (Musée Rodin).
                No fundo, o que fiz eu? Pensei um pouco para além do óbvio, do imediato; do lógico. Quer dizer, essencialmente, em vez de pensar de forma convergente, pensei de forma divergente, criativa. Imaginei o Professor no seu dia-a-dia de trabalho, na maneira como se move entre as aulas que dá, as investigações em que participa, as teses que orienta, as leituras que faz, a correspondência que manda e recebe, etc.
                Então, agora, pensem cá uma coisa: nunca algum de vocês teria hipótese de fazer o trabalho monográfico comigo! Vejam lá se é obvio, ou não: os meus alunos fazem trabalhos monográficos há vários anos — vocês acham mesmo que são os primeiros a quererem fazer o trabalho monográfico comigo? Se eu já tivesse dito sim a um dos vossos colegas, em resultado das regras (não se podem repetir sujeitos monográficos), o que eu agora vos diria era “Não posso, já alguém fez o trabalho comigo.”
                Por outro lado, para ser justo com todos, da mesma maneira que vos estou a dizer não, disse não a todos os outros. O que eu tenho dito aos vossos colegas dos outros anos é o seguinte: “Aceitarei ser sujeito de trabalho monográfico quando tiver a certeza de estar a leccionar o meu último ano de aulas. E mesmo nessa altura, só serei se algum dos alunos quiser; se não quiserem, nem nesse ano serei. Portanto, aquele ‘nunca’ lá de trás vale para todos os anos em que ainda venha a dar aulas, excepto para o último ano.”