sexta-feira, agosto 03, 2018

Olhares das Religiões e o Ser Humano - Que perspectiva mais nos atrai?


Que convicção escolhe cada um de nós para lema do modo de estar na vida?
  • BUDISMO: «Somos todos budas.» (1)
  • CRISTIANISMO: «Somos todos pecadores.»
  • MANDELA: «Somos os senhores do nosso destino.»
Alguém estranha que aqui traga Nelson Mandela? Foi o Professor Adriano Moreia - alguém tem dúvidas em relação às suas convicções religiosas? - quem, em artigo vindo a público na edição 'on line' do Diário de Notícias de 30 de Julho passado, fala da santidade de Mandela e de outros homens que, como ele, dedicam, quiçá, o mais importante das suas vidas a esta "terra casa comum dos homens".
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(1) Aquele que está desperto para o seu potencial de realização. Como título formal, refere-se habitualmente a Gautama Siddharta.

Quando a Psicologia, nos anúncios, é uma treta

Há dias assim: inopinadamente, isto cruza-se com aquilo, e o que tinha um pequeno efeito na atenção ganha um espaço nobre no pensamento.
Para não me alongar, que o calor record que está pede preguiça, só duas coisas:
1) Um jornalista, do género daqueles que gosta de fazer a reportagem dos fogos bem no meio de uma linda e cordial labareda, está dentro de um caiaque a dizer como é bom andar por ali de caiaque a ver as gravuras rupestres - na verdade, o que a gente vê é a enorme falta de conhecimento e de cuidado (a dois) na manobra da pequena embarcação. Pois, quando elas não acontecem, foi-porreiro-pá-nós-somos-bons-nisto ; quando acontecem, por que razão terá acontecido, se nós tivemos todo o cuidado, até estávamos de colete!
2) Mas esta é que é o alvo principal deste apontamento. Não vejo anúncios - e, por isso, já perdi, aqui e ali, boas oportunidades, não tanto de comprar, mas mais de desfrutar; mas eu sou assim. Só que, desta vez, eu estava a ver o telejornal da hora do almoço na SIC, vem o intervalo, mas eu já estava de olhos paralisados no écrã da televisão, olhando o infinito através dele. Quando volto a mim, passava o anúncio de um rapazinho vestido à super-homem, disparando tintas. Era o anúncio de uma nova pastilha de lavagem de roupa da Skip, que acaba a dizer (com direito a "selo" escrito, no canto inferior esquerdo da imagem), repare-se bem: "Manter fora do alcance das crianças".  Ah?, o que é isto?...
Então, põem as crianças no âmago do anúncio (são várias) e depois dizem para se pôr aquela pastilha super-poderosa longe das crianças, por exemplo, das que fazem o anúncio?
Há quase três anos atrás, a mesma Skip lançou um anúncio, informado com boa psicologia, que acabava dizendo "É bom sujar-se". Pois, o que isto dá para ver é que, nos anúncios, o uso da Psicologia é, em regra, perverso - a única coisa que verdadeiramente se quer é condicionar a vontade dos consumidores para que passem a desejar o produto, a psicologia, em si, é uma treta, é apenas um recurso para ser usado segundo as conveniências das vendas.


Canções com história, n.º 1: La Cucaracha

CANÇÕES COM HISTÓRIA, 1: LA CUCARACHA
Estive na Gulbenkian na estreia do conjunto de curtas-metragens de que esta faz parte (Programa Gulbenkian Distância e Proximidade, 2008)
Desde esse dia nunca mais cantei La Cucaracha em momento de folia puramente recreativa. Esta canção tornou-se para mim num hino. Como eu aprendi nesse dia, quantos não precisarão também de aprender?

Olhar o velhote, no fim do vídeo, no final da fila, deixa-me com um apertozinho no coração: o mundo, mais novo, vai-se afastando dele. Quanto é que tudo do que os mais novos deixaram de sofrer por tanto que ele, afinal, sofreu e lutou quando teve a idade dos que agora são os novos que se afastam dele?

sexta-feira, julho 20, 2018

O altruísmo é natural nas crianças. É, pois é. E depois?

Continuam em alta os estudos acerca do altruísmo e da compaixão - em todas as idades; com sofisticados estudos cheios de neuro-imagens; e muitas comparações entre culturas.
«As crianças pequenas ajudam espontaneamente», afirma a investigação experimental sistemática. Crianças pequenas são, 'grosso modo', as que têm 2 anos de idade; mas a investigação já detecta comportamentos altruístas aos 14 meses.
https://www.nytimes.com/2009/12/01/science/01human.html
Ainda há poucos dias aqui escrevi que, na minha opinião, a questão não é se o ser humano é naturalmente, e primariamente, bom ou mau; ou altruísta, ou compassivo, ou solidário.
E o foco na "ajuda" também me parece limitar o valor do que essencialmente está em causa. Para ser claro, mais do querer ajudar, a criança quer participar; participar ao lado dos outros, e com os outros..
As crianças apercebem-se, logo que despertam para o mundo (e as teorias do desenvolvimento sócio-afectivo voltam a situar por volta do ano e meio, dois anos, a consciência da vontade pessoal e do bem assumido "Não!" pela criança, em afirmação da sua própria vontade, em oposição à do adulto), que andamos por aqui todos (menos grandes e mais mais grandes), que elas têm de crescer, e que a vida dos adultos será um dia a delas. Naturalmente, as crianças querem fazer o que as outras pessoas todas à sua volta fazem; e as crianças fazem-nos com alegria e empenho. Portanto, as crianças querem, antes de mais, participar na Vida; e a vida está impregnada de adultos que fazem coisas. Se, em razão dessa natural participação na vida em comum com os outros, constatar que é preciso ajudar algum adulto, a criança, voluntariosamente, tenta ajudar.
Pensando desta maneira, a questão não será "São as crianças naturalmente altruístas?", mas sim "Por que razão as crianças se tornam cada vez menos altruístas?" Ora bem, responder a esta pergunta é comprometer os adultos.
Eu já disse, e repito-o, que a questão-chave é a da Educação.
Como deve ser, então, a educação do altruísmo, sobretudo tendo em conta que este precioso valor-motivador do comportamento corre fortemente o risco de ser vencido, ao longo da vida, pelo valor da competição entre os indivíduos e entre os grupos? Nos pódios, só há lugar para o outro, de ouro, prata e bronze - só mesmo três; e até o ideal olímpico exorta o "mais rápido, mais alto, mais forte"... que os outros! Mesmo que insista que o jeito e o espírito sejam o da competição saudável.
Ora bem, como a criança, antes de mais, faz o que vê o adulto fazer, a primeira forma de educação tem de ser o próprio exemplo do adulto. Quer dizer, a criança naturalmente, participa na vida do adulto, e ajuda-o. Naturalmente, também, a criança toma consciência de que tem desejos, tornando-se, por isso, (mais um) ser portador de desejos. Que nunca se negue que as crianças criam desejos!, alguns iguais aos dos adultos, e outros diferentes.
Na minha opinião, a chave da Educação do Altruísmo e do Desejo é uma, e é radical: a renúncia. Provavelmente, o Presidente José Mujica diria "a sobriedade do desejo" - é que renúncia, mais do que recusa ou negação total, quer dizer, no meu entender, contenção viável. Com os adultos, as crianças têm de aprender os exemplos do altruísmo e da contenção dos desejos. O altruísmo não se explica com textos, sejam eles servidos por sofisticadas ilustrações ou recomendações de boa exploração em sala de aula. O altruísmo faz-se, vive-se, todos os dias, em todos os momentos; e a sobriedade dos desejos também.

quarta-feira, julho 18, 2018

Afinal, o ser humano já é assim com a Natureza há muito tempo

Um notável documentário acerca do desenvolvimento das sociedades humanas ("The Making of Mankind", 1981, da BBC e Time-Life Films), apresenta as suas conclusões dizendo mais ou menos assim, como primeira grande constatação:
«Se há alguma coisa que desde sempre caracteriza os grupos e as sociedades humanas é que fazem muito lixo.»
 Na revista de Fevereiro 2018, da edição portuguesa, a National Geographic traz para a capa "O Despertar da Europa". E lá dentro diz:
«No entanto, aquela povoação [Bruszczewo]  morreu devido ao sucesso. Cortaram as árvores dos bosques. Os animais defecavam por todo o lado, os nutrientes desses excrementos chegavam ao lago e provocavam a proliferação de cianobactérias tóxicas. Nos excrementos, nasciam também fungos contendo ovos de vermes tricocéfalos, parasitas que em pouco tempo infestaram os alimentos e a água potável. Tudo indica que, por volta de 1650 a.C, após um incêndio e a degradação progressiva do ambiente circundante, os habitantes de Bruszczewo abandonaram o assentamento.»
Num raciocínio idêntico ao que há poucos dias fiz em relação à questão da bondade/maldade do ser humano, tenho por minhas estas convicções - até porque, sendo nós tantos, já não temos para onde deslocar mais os grupos humanos que estragaram os seus ambientes de vida:

  1. A questão não é se o desenvolvimento dos grupos humanos tem sempre de ser feita à custa do sacrifício do espaço natural, da apropriação dos bens naturais e da acumulação de bens materiais.
  2. A questão é que hoje em dia sabemos, com níveis de pormenorização bastante satisfatórios, que procedimentos devem os grupos humanos ter para compatibilizar os interesses humanos com o respeito e a preservação das condições naturais - antes de mais, amigas do Homem.
  3. Mas quem manda e tira proveito continua a, convenientemente, a fazer como a proverbial avestruz: a fugir, para não perder privilégios.

segunda-feira, julho 16, 2018

Olhar/Ser atraente, Tese 3: Espelho meu, há alguém mais bonito do que eu?

Há experiência cultural humana, até onde chega o conhecimento actual da história do Homem, em que não haja, ou tivesse havido expressão do Belo? Tomarmo-nos a nós mesmos como expressão do Belo chama-se narcisismo; cultivarmos exageradamente ou doentiamente chama-se vaidade.
“O desejo de obter a estima e a admiração de outras pessoas, quando se dá por meio de qualidades e talentos que são objectos naturais e apropriados da estima e da admiração, é o amor real da verdadeira glória; uma paixão que, se não é a melhor da natureza humana, está certamente entre as melhores. A vaidade é com frequência nada mais que a tentativa de usurpar prematuramente essa glória antes que seja devida. Embora seu filho, antes dos vinte e cinco anos, não passe de um pretensioso, não desespere, por isso, de que ele se torne, antes de chegar aos quarenta, um homem sábio e valoroso, com real aptidão para todos os talentos e virtudes em relação aos quais não passa, no presente, de um vazio e exibido dissimulador. O grande segredo da educação reside em direccionar a vaidade para os objectos apropriados.” Adam Smith, Teoria dos Sentimentos Morais, 1759
A última frase da citação é destacada por minha inteira responsabilidade. A tal educação que deve estar no âmago dos filtros falados na tese 2. A presença do Belo na essência do ser humano foi profundamente pensada e discutida, por exemplo, pelo clássico Platão e pelo contemporâneo W. Bion, um dos mais famosos psicanalistas ingleses.
"Para um homem verdadeiramente sábio, a aprovação judiciosa e ponderada de um único sábio proporciona mais satisfação sincera do que todos os ruidosos aplausos de dez mil admiradores ignorantes, ainda que entusiásticos." Adam Smith, Teoria dos Sentimentos Morais, 1759
Nos tempos actuais, os políticos têm directores de imagem e são cientificamente levados enquanto conceitos - como conceito é um restaurante, um interprete musical, um produto de supermercado. Para parecerem belos, para influenciarem mais eleitores e votantes que os adversários, os políticos e os outros líderes, fazem inquéritos, realizam sondagens e disputam percentagens. Palmo a palmo  disputam décimas e centésimas de percentagem. Tentam evitar desencadear oposição e contestação, procuram estar bem com todos. Cedem nas palavras, nas ideias, nas decisões - é preciso é não perder adeptos; há sempre que tentar ganhar mais alguns. Cedem a uma coisa que se designa por "opinião pública", evitam as ondas de 'deslikes' nas redes sociais; reduzem-se ao politicamente correcto - que é, o mais das vezes o efeito duma onda de pressão social mais ou menos duradoura, agora deste grupo, depois doutro. Quantos votos eleitorais vale a firmeza?, e quantos vale a cedência?
«Para aqueles que se habituaram à posse de admiração pública, ou mesmo à esperança de conquistá-la, todos os demais prazeres empalidecem e definham.» Adam Smith, Teoria dos Sentimentos Morais, 1759
- «Espelho meu, espelho meu, algum deles recebe mais votos do que eu?» é uma espécie de Belo travestido. «Ai, sim? Não sou eu? Ó diabo!, que tenho eu de fazer para voltar lá para cima? O quê, desdizer hoje o que ontem disse? Seja, sem problema!»

Grau Zero da discussão: Olhar é proibido, ser atraente é... desaconselhado.
Tese 1: Porque me morrem os manjericos?
Tese 2: (Des)tapar o Sol com a peneira.
Tese 4: Querem lá ver que o idiota... sou eu.

sábado, julho 14, 2018

Olhar/Ser atraente, Tese 6: É a Política, estúpido, mas não só!

Sufocados em catadupas de informação (tese 1), incapazes de filtrá-la (tese 2), cada vez mais preocupados com a nossa imagem pública (tese 3), cada vez menos à vontade com o Outro, que nos é cada vez mais Estranho (tese 4), ensaiamos e atropelamo-nos uns aos outros em hiper-espartilhados gritos do Ipiranga - até sem muitas vezes sabermos o que estamos a gritar... (tese 5).
«Um espectro assombra o mundo ocidentalizado - o espectro do género. [...] A questão do género provocou uma verdadeira revolução na maneira convencional de pensar a diferença sexual. Mas começa a tornar-se claro que é preciso transpor os seus limites, apontar as suas possibilidades falhadas, fazer uma crítica das suas representações e convenções.» Pê Feijó, "De-Generação: nas Margens do Género".  In Electra, Fundação EDP, 1, Março 2018.
E chegamos, então, finalmente, à Política, no que a ela legitimamente podemos esperar de mais nobre: a regulação justa das relações sociais e cívicas, dentro de cada grupo social e entre os muitos grupos sociais.
O problema é que a Política continua a hesitar, por um lado, pelo que resulta directamente na tese 3; por outro, pela renitente dificuldade em ter mão na vertigem de poder e competição intrínseca à "humanidade" dos detentores dos poderes políticos. A regra é que, praticamente sem excepção (por exemplo, o ex-presidente do Uruguai, José Mujica), quem se senta na cadeira tudo faz para lá permanecer o mais tempo possível.
Entretanto, se calhar, mais do que isso - é um facto a que os cidadãos votantes estão já sobejamente habituados - acontece na Política o que Eugénio de Andrade diz a propósito de uma outra dimensão fundamental da vida dos homens (bem, para ser politicamente correcto, terei de dizer "das mulheres e dos homens"):
Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes. ~
Roberto Esposito, fazendo jus a tanto pensamento arejado que continua a ser atirado para fora do poderoso caldo de fogo da península italiana. escreve:
«As categorias tradicionais da política moderna revelam-se hoje inadequadas. A própria ideia de democracia surge minada nos seus fundamentos, tal como se revelam vazias de sentido as palavras que serviram a acção e o pensamento políticos herdados da modernidade. [...] Como empregar o léxico democrático da igualdade formal entre sujeitos políticos autónomos - entendidos como átomos lógicos puros, chamados periodicamente a exprimir uma escolha racional e voluntária acerca do governo da sociedade - quando o que conta cada vez mais é a diferença étnica, sexual e religiosa de grupos humanos definidos pelas características dos seus corpos, da sua idade e do seu sexo?» (1)
E pronto. Chega de falar desta espécie de niilismo hiper-digito-pós-modernidade.
Em 1962, dois jornalista da RTF, Frédéric Carey e Jean-Claude Bergeret, entrevistaram jovens que, ao chegarem ao ano 2000, estariam na casa dos 50-60 anos. (2) Como pensariam eles que seria a vida nesse ano tão carregado de simbologia. Há uma jovem que, quando lhe perguntam que forma terá o regime político em 2000, responde: «Liberté sans être liberté.» Podemos traduzir por "Liberdade sem ser liberdade." Penso que esta jovem, que terá agora meia dúzia de anos mais do que eu, acertou na mouche!
Hugo, será que me cumpri como me desafiaste?
À cautela, e porque o bom humor é sempre expressão de fina, clara e bem comunicável inteligência, aqui deixo, em jeito de remate, um vídeo que, no fundo, toca todas as coisas destas minhas apressadas 6 teses.

 

Grau Zero da discussão: Olhar é proibido, ser atraente é... desaconselhado.
Tese 1: Porque me morrem os manjericos?
Tese 2: (Des)tapar o Sol com a peneira.
Tese 3: Espelho meu, há alguém mais bonito do que eu?
Tese 4: Querem lá ver que o idiota... sou eu.
Tese 5: Quem não precisa de favores de ninguém rega mesmo quando chove.
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(1) Roberto Esposito, "A Nova Linguagem Política: pós-democracia e biopolítica"".  In Electra, Fundação EDP, 1, Março 2018.
(2) https://www.youtube.com/watch?v=emvHuVnwbJo&t=626s (aos 00:10:20)

Olhar/Ser atraente, Tese 5: Quem não precisa de favores de ninguém rega mesmo quando chove.

Autora: Aleksi Siirtola, Finland
Sufocados em catadupas de informação (tese 1), incapazes de filtrá-la (tese 2), cada vez mais preocupados com a nossa imagem pública (tese 3), cada vez menos à vontade com o Outro, que nos é cada vez mais Estranho (tese 4), afirmamos cada vez mais, a qualquer preço, a nossa individualidade e os nossos inalienáveis direitos cívicos e políticos - o absoluto primado do Singular! Distorcemos e renegamos o primado da nossa condição biológica básica - sobretudo o ser humano! -, que é a de sermos parte do grupo-família (e senão se lhe quiser chamar família, chame-se-lhe grupo-nascimento). Antes de sermos indivíduos, somos díade, tríade, "multiplídade" - esquecê-lo é renegar a nossa natureza humana.
Estamos todos a aprender que não somos estritamente dicotómicos: homem-mulher, branco-preto, inteligente idiota, migrante-não migrante, puros-misturas; isso sim, despertamos cada vez mais para os matizes, as nuances, as composições - e tudo isso requer aprendizagem e reaprendizagem; perda de rotinas e criação de novos hábitos; abandono de estereótipos antigos e inconsciente substituição por outros, novos; esvaziamento de preconceitos e emergência involuntária de outros que demorarão ainda algum tempo a identificar.
Há uma anedota - tinha de ser alentejana! - em que alguém apanha um senhor a regar os seus canteiros em dia de evidente chuva. Instado a responder por que razão o fazia, o homem, muito sério, respondeu com a proverbial lenta assertividade: «Não preciso de favores de ninguém.»
A Finlândia anda cada vez mais nas bocas do mundo. Agora até por causa do futebol, e da maneira como, através deste desporto, a sociaeda finlandesa resolveu o problema da noctívaga vagabundeagem, ociosa, de um número crescente de jovens de tão longínquo e estranho país. Alarmantemente ociosa.
Ora bem, há alguns meses estive com um rapaz, velho associado dos saudosos Traquinas da Boa vida. Ele está há vários anos a viver e a trabalhar na Finlândia, país com sistema político em vigor que muito promove e assegura a paridade entre os sexos em todos os níveis da experiência cívica, hierarquias laborais e relações políticas do país. Contava-me ele que, se um homem for na rua, se deparar com uma senhora vergada ao peso dos sacos do supermercado e se se dirigir a ela a oferecer-lhe ajuda, arrisca-se a ser por ela insultado pelo "evidente" machismo, como se ela não fosse capaz de carregar sozinha com os sacos!...
É como já o disse: são tempos de aprendizagem, de novos equilíbrios, de revisitação do bom senso; da recuperação da confiança pessoal e de redução da tensão emocional.

Grau Zero da discussão: Olhar é proibido, ser atraente é... desaconselhado.
Tese 1: Porque me morrem os manjericos?
Tese 2: (Des)tapar o Sol com a peneira.
Tese 3: Espelho meu, há alguém mais bonito do que eu?
Tese 4: Querem lá ver que o idiota... sou eu.
Tese 6: É a Política, estúpido, mas não só!

Olhar/Ser atraente, Tese 4: Querem lá ver que o idiota... sou eu.

Sufocados em catadupas de informação (tese 1), incapazes de filtrá-la (tese 2), cada vez mais preocupados com a nossa imagem pública (tese 3), que nos resta fazer? Parar, bloquearmo-nos; fecharmo-nos em casa. Torna-se-nos cada vez mais difícil olhar o Outro, entendê-lo, reconhecê-lo; desconfiamos dele e queremos é que ele não nos chateie a cabeça. Só que ele continua aí, a perscrutar-nos nas redes sociais, a clicar 'likes', a assinar petições, a organizarem-se em 'lobbies' de pressão.
«Na sua origem, a world wide web suscitou um sonho ingénuo, a utopia de um espaço público digital que iria cumprir todas as promessas implícitas na própria concepção moderna de espaço público. Mas é hoje bem visível que o resultado é outro e que em vez do prometido paraíso digital triunfou o caos e o discurso da estupidez nas suas formas mais violentas e regressivas.» (1)
 O espaço social do contacto pessoal directo está cada vez mais reduzido. Houve o tempo do "Não vá, telefone". O tempo é agora de "Não telefone, mande um email". Já várias vezes fui confrontado com o absurdo (ainda esta semana!) de ir aos locais, falar com um funcionário e ele me "exigir" que mandasse um email para o colega que está na sala ao lado! Nestas ocasiões, faço um pé-de-vento, e não saio sem falar directamente com a pessoa em questão; em caso de reiterada recusa, há sempre um livro de reclamações por ali, sempre deixo uma marca formal de protesto pelo absurdo da situação.
Um caso bem claro: até há pouco tempo, as matrículas nas faculdades eram presenciais, ao balcão. Hoje, ou as fazemos 'on line', ou não há nada para ninguém.
«O termo [idiótes] significava, em grego antigo, o homem "privado", no sentido de quem vive apenas "junto a si", sem participar na vida pública ou política, que para os gregos era a forma de existência mais digna. Mantendo-se fechado na esfera privada, o idiótes tinha como referência única a sua própria pessoa (a família, a casa, a propriedade privada, etc.) e não podia aceder aos conhecimentos que a vida em público, ou no mundo, podia garantir-lhe.» (2)
 Pessoalmente, considero notável todo o texto de onde extraí esta citação. Se, historicamente, até fomos nós, os Portugueses, um dos maiores responsáveis (se não mesmo o maior - o que nos fica muito bem) pela mais alargada presença pública, ao nível de todo o Planeta, podemos ler mais à frente, no texto de Alessandro Dal Lago:
«Todavia, ao analisar os dados sobre a percepção dos fenómenos migratórios, descobre-se que os europeus temem um crescimento imparável dos migrantes e, portanto, uma verdadeira invasão. Mais ainda: os próprios refugiados, na percepção dos europeus, não são já vítimas de guerras e perseguições, mas ameaças à estabilidade cultural de cada país.»
quer dizer, da nossa casa, do nosso refúgio. Parece que cada vez mais o Outro, qualquer Outro, não apenas o migrante ou refugiado é sentido como um Estranho; e um estranho ameaçador. É, finalmente, sentido como um Invasor. Publicamente, a própria ideia do Politicamente Correcto (e tendo em mente que a Política tem a ver com a possibilidade de organização justa dos grupos sociais) abana e hesita. Hesitando, acaba-se por ceder, cada vez mais sem se saber bem a quê... Parece cada vez mais fruto da força do 'lobby' ou dos 'lobbies' que estão circunstancialmente na mó de cima - no fundo, como há vai para cem anos Thomas Mann metaforizava no jogo das esferas da tetralogia de José e os Seus Irmãos.

Grau Zero da discussão: Olhar é proibido, ser atraente é... desaconselhado.
Tese 1: Porque me morrem os manjericos?
Tese 2: (Des)tapar o Sol com a peneira.
Tese 3: Espelho meu, há alguém mais bonito do que eu?
Tese 5: Quem não precisa de favores de ninguém rega mesmo quando chove.
Tese 6: É a Política, estúpido, mas não só!
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(1) António Baião e António Pedro Marques, "Notícias do Paraíso Digital".  In Electra, Fundação EDP, 2, Junho 2018.
(2)  Alessandro Dla Lago, "Idiotia, Identidade e Migrações". In Electra, Fundação EDP, 2, Junho 2018.

Olhar/Ser atraente, Tese 2: (Des)tapar o Sol com a peneira.

Ao longo do desenvolvimento pessoal acontecem duas coisas em simultâneo, no que à informação diz respeito:
Uma delas: sendo naturalmente curiosa, a criança procura as coisas, a informação, o conhecimento.
A outra: a informação vem ter com a criança; mais, procura-a intencionalmente, ataca-a mesmo - vejam-se, por exemplo, os cada vez mais abundantemente conteúdos e canais televisivos que às crianças são dedicados; os sofisticados brinquedos; os jogos electrónicos ali bem pertinho, nos telemóveis dos pais.
As crianças - naturalmente, espontaneamente; deliberadamente, humildemente e sabiamente - procuram digerir o fluxo de informação gerado pelo que criam e também pelo que recebem. Reconhecendo-se incapazes de assimilarem sozinhas toda a informação com que lidam, humildemente procuram ajuda; e fazem-no junto de quem? Junto daqueles que a organização natural,  cultural e social dominante lhes atribuiu como interlocutores privilegiados logo desde o nascimento: os pais, e a seguir os irmãos e os avós - ou seja, a família, em geral.
Um pouco mais crescidos, juntam a estes o interlocutor escola.
São incontáveis os exemplos que ilustram a intenção e o esforço das crianças para receberem ajuda no entendimento da informação. Há um que considero especialmente delicioso, de que já falei neste blogue, há mais de 10 anos (Uff! Como o tempo passa!...), em que Philip Roth, num dos seus livros, põe uma criança a perguntar assim à mãe: «Mãe, nós cá em casa acreditamos no Inverno?» (1) (Sim, é mesmo Inverno, não é inferno). A pergunta mostra que a criança sabe espontaneamente que nem toda a informação é válida; mais: que ela própria não é o único juiz que decide acerca de qual é a informação válida - a informação válida é gregária e agregadora, com centro na família de pertença.
Ora bem, aquilo a que assistimos hoje em dia é, na minha opinião, a um cada vez menos lento - e sempre muito trágico - esboroar dos filtros familiares e, em geral, educativos básicos, que permitem à criança peneirar a boa informação. As crianças e os jovens são abandonados à sua sorte, os pais põem-lhes écrãs (cada vez mais tácteis) à frente e esperam que os 'softwares', os programas e as aplicações, desenhadas por "especialistas" da educação entretenham, estimulem cognitivamente e eduquem os filhos. Na escola, os professores são também industriados a seguirem cada vez mais estes caminhos, com as famosas e "poderosas" ferramentas da Educação do Século XXI...
Os anos passam, as crianças crescem... Como foram ajudadas a pensar? Como lhes foi apoiado o desenvolvimento do sentido crítico? Como foi respeitada a sua liberdade de pensar e fazer escolhas?

Grau Zero da discussão: Olhar é proibido, ser atraente é... desaconselhado.
Tese 1: Porque me morrem os manjericos?
Tese 3: Espelho meu, há alguém mais bonito do que eu?
Tese 4: Querem lá ver que o idiota... sou eu.
Tese 5: Quem não precisa de favores de ninguém rega mesmo quando chove.
Tese 6: É a Política, estúpido, mas não só!
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(1) https://fernandonaescola.blogspot.com/2007/04/mam-c-em-casa-acreditamos-no-inverno.html