segunda-feira, julho 16, 2018

Olhar/Ser atraente, Tese 3: Espelho meu, há alguém mais bonito do que eu?

Há experiência cultural humana, até onde chega o conhecimento actual da história do Homem, em que não haja, ou tivesse havido expressão do Belo? Tomarmo-nos a nós mesmos como expressão do Belo chama-se narcisismo; cultivarmos exageradamente ou doentiamente chama-se vaidade.
“O desejo de obter a estima e a admiração de outras pessoas, quando se dá por meio de qualidades e talentos que são objectos naturais e apropriados da estima e da admiração, é o amor real da verdadeira glória; uma paixão que, se não é a melhor da natureza humana, está certamente entre as melhores. A vaidade é com frequência nada mais que a tentativa de usurpar prematuramente essa glória antes que seja devida. Embora seu filho, antes dos vinte e cinco anos, não passe de um pretensioso, não desespere, por isso, de que ele se torne, antes de chegar aos quarenta, um homem sábio e valoroso, com real aptidão para todos os talentos e virtudes em relação aos quais não passa, no presente, de um vazio e exibido dissimulador. O grande segredo da educação reside em direccionar a vaidade para os objectos apropriados.” Adam Smith, Teoria dos Sentimentos Morais, 1759
A última frase da citação é destacada por minha inteira responsabilidade. A tal educação que deve estar no âmago dos filtros falados na tese 2. A presença do Belo na essência do ser humano foi profundamente pensada e discutida, por exemplo, pelo clássico Platão e pelo contemporâneo W. Bion, um dos mais famosos psicanalistas ingleses.
"Para um homem verdadeiramente sábio, a aprovação judiciosa e ponderada de um único sábio proporciona mais satisfação sincera do que todos os ruidosos aplausos de dez mil admiradores ignorantes, ainda que entusiásticos." Adam Smith, Teoria dos Sentimentos Morais, 1759
Nos tempos actuais, os políticos têm directores de imagem e são cientificamente levados enquanto conceitos - como conceito é um restaurante, um interprete musical, um produto de supermercado. Para parecerem belos, para influenciarem mais eleitores e votantes que os adversários, os políticos e os outros líderes, fazem inquéritos, realizam sondagens e disputam percentagens. Palmo a palmo  disputam décimas e centésimas de percentagem. Tentam evitar desencadear oposição e contestação, procuram estar bem com todos. Cedem nas palavras, nas ideias, nas decisões - é preciso é não perder adeptos; há sempre que tentar ganhar mais alguns. Cedem a uma coisa que se designa por "opinião pública", evitam as ondas de 'deslikes' nas redes sociais; reduzem-se ao politicamente correcto - que é, o mais das vezes o efeito duma onda de pressão social mais ou menos duradoura, agora deste grupo, depois doutro. Quantos votos eleitorais vale a firmeza?, e quantos vale a cedência?
«Para aqueles que se habituaram à posse de admiração pública, ou mesmo à esperança de conquistá-la, todos os demais prazeres empalidecem e definham.» Adam Smith, Teoria dos Sentimentos Morais, 1759
- «Espelho meu, espelho meu, algum deles recebe mais votos do que eu?» é uma espécie de Belo travestido. «Ai, sim? Não sou eu? Ó diabo!, que tenho eu de fazer para voltar lá para cima? O quê, desdizer hoje o que ontem disse? Seja, sem problema!»

Grau Zero da discussão: Olhar é proibido, ser atraente é... desaconselhado.
Tese 1: Porque me morrem os manjericos?
Tese 2: (Des)tapar o Sol com a peneira.
Tese 4: Querem lá ver que o idiota... sou eu.

sábado, julho 14, 2018

Olhar/Ser atraente, Tese 6: É a Política, estúpido, mas não só!

Sufocados em catadupas de informação (tese 1), incapazes de filtrá-la (tese 2), cada vez mais preocupados com a nossa imagem pública (tese 3), cada vez menos à vontade com o Outro, que nos é cada vez mais Estranho (tese 4), ensaiamos e atropelamo-nos uns aos outros em hiper-espartilhados gritos do Ipiranga - até sem muitas vezes sabermos o que estamos a gritar... (tese 5).
«Um espectro assombra o mundo ocidentalizado - o espectro do género. [...] A questão do género provocou uma verdadeira revolução na maneira convencional de pensar a diferença sexual. Mas começa a tornar-se claro que é preciso transpor os seus limites, apontar as suas possibilidades falhadas, fazer uma crítica das suas representações e convenções.» Pê Feijó, "De-Generação: nas Margens do Género".  In Electra, Fundação EDP, 1, Março 2018.
E chegamos, então, finalmente, à Política, no que a ela legitimamente podemos esperar de mais nobre: a regulação justa das relações sociais e cívicas, dentro de cada grupo social e entre os muitos grupos sociais.
O problema é que a Política continua a hesitar, por um lado, pelo que resulta directamente na tese 3; por outro, pela renitente dificuldade em ter mão na vertigem de poder e competição intrínseca à "humanidade" dos detentores dos poderes políticos. A regra é que, praticamente sem excepção (por exemplo, o ex-presidente do Uruguai, José Mujica), quem se senta na cadeira tudo faz para lá permanecer o mais tempo possível.
Entretanto, se calhar, mais do que isso - é um facto a que os cidadãos votantes estão já sobejamente habituados - acontece na Política o que Eugénio de Andrade diz a propósito de uma outra dimensão fundamental da vida dos homens (bem, para ser politicamente correcto, terei de dizer "das mulheres e dos homens"):
Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes. ~
Roberto Esposito, fazendo jus a tanto pensamento arejado que continua a ser atirado para fora do poderoso caldo de fogo da península italiana. escreve:
«As categorias tradicionais da política moderna revelam-se hoje inadequadas. A própria ideia de democracia surge minada nos seus fundamentos, tal como se revelam vazias de sentido as palavras que serviram a acção e o pensamento políticos herdados da modernidade. [...] Como empregar o léxico democrático da igualdade formal entre sujeitos políticos autónomos - entendidos como átomos lógicos puros, chamados periodicamente a exprimir uma escolha racional e voluntária acerca do governo da sociedade - quando o que conta cada vez mais é a diferença étnica, sexual e religiosa de grupos humanos definidos pelas características dos seus corpos, da sua idade e do seu sexo?» (1)
E pronto. Chega de falar desta espécie de niilismo hiper-digito-pós-modernidade.
Em 1962, dois jornalista da RTF, Frédéric Carey e Jean-Claude Bergeret, entrevistaram jovens que, ao chegarem ao ano 2000, estariam na casa dos 50-60 anos. (2) Como pensariam eles que seria a vida nesse ano tão carregado de simbologia. Há uma jovem que, quando lhe perguntam que forma terá o regime político em 2000, responde: «Liberté sans être liberté.» Podemos traduzir por "Liberdade sem ser liberdade." Penso que esta jovem, que terá agora meia dúzia de anos mais do que eu, acertou na mouche!
Hugo, será que me cumpri como me desafiaste?
À cautela, e porque o bom humor é sempre expressão de fina, clara e bem comunicável inteligência, aqui deixo, em jeito de remate, um vídeo que, no fundo, toca todas as coisas destas minhas apressadas 6 teses.

 

Grau Zero da discussão: Olhar é proibido, ser atraente é... desaconselhado.
Tese 1: Porque me morrem os manjericos?
Tese 2: (Des)tapar o Sol com a peneira.
Tese 3: Espelho meu, há alguém mais bonito do que eu?
Tese 4: Querem lá ver que o idiota... sou eu.
Tese 5: Quem não precisa de favores de ninguém rega mesmo quando chove.
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(1) Roberto Esposito, "A Nova Linguagem Política: pós-democracia e biopolítica"".  In Electra, Fundação EDP, 1, Março 2018.
(2) https://www.youtube.com/watch?v=emvHuVnwbJo&t=626s (aos 00:10:20)

Olhar/Ser atraente, Tese 5: Quem não precisa de favores de ninguém rega mesmo quando chove.

Autora: Aleksi Siirtola, Finland
Sufocados em catadupas de informação (tese 1), incapazes de filtrá-la (tese 2), cada vez mais preocupados com a nossa imagem pública (tese 3), cada vez menos à vontade com o Outro, que nos é cada vez mais Estranho (tese 4), afirmamos cada vez mais, a qualquer preço, a nossa individualidade e os nossos inalienáveis direitos cívicos e políticos - o absoluto primado do Singular! Distorcemos e renegamos o primado da nossa condição biológica básica - sobretudo o ser humano! -, que é a de sermos parte do grupo-família (e senão se lhe quiser chamar família, chame-se-lhe grupo-nascimento). Antes de sermos indivíduos, somos díade, tríade, "multiplídade" - esquecê-lo é renegar a nossa natureza humana.
Estamos todos a aprender que não somos estritamente dicotómicos: homem-mulher, branco-preto, inteligente idiota, migrante-não migrante, puros-misturas; isso sim, despertamos cada vez mais para os matizes, as nuances, as composições - e tudo isso requer aprendizagem e reaprendizagem; perda de rotinas e criação de novos hábitos; abandono de estereótipos antigos e inconsciente substituição por outros, novos; esvaziamento de preconceitos e emergência involuntária de outros que demorarão ainda algum tempo a identificar.
Há uma anedota - tinha de ser alentejana! - em que alguém apanha um senhor a regar os seus canteiros em dia de evidente chuva. Instado a responder por que razão o fazia, o homem, muito sério, respondeu com a proverbial lenta assertividade: «Não preciso de favores de ninguém.»
A Finlândia anda cada vez mais nas bocas do mundo. Agora até por causa do futebol, e da maneira como, através deste desporto, a sociaeda finlandesa resolveu o problema da noctívaga vagabundeagem, ociosa, de um número crescente de jovens de tão longínquo e estranho país. Alarmantemente ociosa.
Ora bem, há alguns meses estive com um rapaz, velho associado dos saudosos Traquinas da Boa vida. Ele está há vários anos a viver e a trabalhar na Finlândia, país com sistema político em vigor que muito promove e assegura a paridade entre os sexos em todos os níveis da experiência cívica, hierarquias laborais e relações políticas do país. Contava-me ele que, se um homem for na rua, se deparar com uma senhora vergada ao peso dos sacos do supermercado e se se dirigir a ela a oferecer-lhe ajuda, arrisca-se a ser por ela insultado pelo "evidente" machismo, como se ela não fosse capaz de carregar sozinha com os sacos!...
É como já o disse: são tempos de aprendizagem, de novos equilíbrios, de revisitação do bom senso; da recuperação da confiança pessoal e de redução da tensão emocional.

Grau Zero da discussão: Olhar é proibido, ser atraente é... desaconselhado.
Tese 1: Porque me morrem os manjericos?
Tese 2: (Des)tapar o Sol com a peneira.
Tese 3: Espelho meu, há alguém mais bonito do que eu?
Tese 4: Querem lá ver que o idiota... sou eu.
Tese 6: É a Política, estúpido, mas não só!

Olhar/Ser atraente, Tese 4: Querem lá ver que o idiota... sou eu.

Sufocados em catadupas de informação (tese 1), incapazes de filtrá-la (tese 2), cada vez mais preocupados com a nossa imagem pública (tese 3), que nos resta fazer? Parar, bloquearmo-nos; fecharmo-nos em casa. Torna-se-nos cada vez mais difícil olhar o Outro, entendê-lo, reconhecê-lo; desconfiamos dele e queremos é que ele não nos chateie a cabeça. Só que ele continua aí, a perscrutar-nos nas redes sociais, a clicar 'likes', a assinar petições, a organizarem-se em 'lobbies' de pressão.
«Na sua origem, a world wide web suscitou um sonho ingénuo, a utopia de um espaço público digital que iria cumprir todas as promessas implícitas na própria concepção moderna de espaço público. Mas é hoje bem visível que o resultado é outro e que em vez do prometido paraíso digital triunfou o caos e o discurso da estupidez nas suas formas mais violentas e regressivas.» (1)
 O espaço social do contacto pessoal directo está cada vez mais reduzido. Houve o tempo do "Não vá, telefone". O tempo é agora de "Não telefone, mande um email". Já várias vezes fui confrontado com o absurdo (ainda esta semana!) de ir aos locais, falar com um funcionário e ele me "exigir" que mandasse um email para o colega que está na sala ao lado! Nestas ocasiões, faço um pé-de-vento, e não saio sem falar directamente com a pessoa em questão; em caso de reiterada recusa, há sempre um livro de reclamações por ali, sempre deixo uma marca formal de protesto pelo absurdo da situação.
Um caso bem claro: até há pouco tempo, as matrículas nas faculdades eram presenciais, ao balcão. Hoje, ou as fazemos 'on line', ou não há nada para ninguém.
«O termo [idiótes] significava, em grego antigo, o homem "privado", no sentido de quem vive apenas "junto a si", sem participar na vida pública ou política, que para os gregos era a forma de existência mais digna. Mantendo-se fechado na esfera privada, o idiótes tinha como referência única a sua própria pessoa (a família, a casa, a propriedade privada, etc.) e não podia aceder aos conhecimentos que a vida em público, ou no mundo, podia garantir-lhe.» (2)
 Pessoalmente, considero notável todo o texto de onde extraí esta citação. Se, historicamente, até fomos nós, os Portugueses, um dos maiores responsáveis (se não mesmo o maior - o que nos fica muito bem) pela mais alargada presença pública, ao nível de todo o Planeta, podemos ler mais à frente, no texto de Alessandro Dal Lago:
«Todavia, ao analisar os dados sobre a percepção dos fenómenos migratórios, descobre-se que os europeus temem um crescimento imparável dos migrantes e, portanto, uma verdadeira invasão. Mais ainda: os próprios refugiados, na percepção dos europeus, não são já vítimas de guerras e perseguições, mas ameaças à estabilidade cultural de cada país.»
quer dizer, da nossa casa, do nosso refúgio. Parece que cada vez mais o Outro, qualquer Outro, não apenas o migrante ou refugiado é sentido como um Estranho; e um estranho ameaçador. É, finalmente, sentido como um Invasor. Publicamente, a própria ideia do Politicamente Correcto (e tendo em mente que a Política tem a ver com a possibilidade de organização justa dos grupos sociais) abana e hesita. Hesitando, acaba-se por ceder, cada vez mais sem se saber bem a quê... Parece cada vez mais fruto da força do 'lobby' ou dos 'lobbies' que estão circunstancialmente na mó de cima - no fundo, como há vai para cem anos Thomas Mann metaforizava no jogo das esferas da tetralogia de José e os Seus Irmãos.

Grau Zero da discussão: Olhar é proibido, ser atraente é... desaconselhado.
Tese 1: Porque me morrem os manjericos?
Tese 2: (Des)tapar o Sol com a peneira.
Tese 3: Espelho meu, há alguém mais bonito do que eu?
Tese 5: Quem não precisa de favores de ninguém rega mesmo quando chove.
Tese 6: É a Política, estúpido, mas não só!
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(1) António Baião e António Pedro Marques, "Notícias do Paraíso Digital".  In Electra, Fundação EDP, 2, Junho 2018.
(2)  Alessandro Dla Lago, "Idiotia, Identidade e Migrações". In Electra, Fundação EDP, 2, Junho 2018.

Olhar/Ser atraente, Tese 2: (Des)tapar o Sol com a peneira.

Ao longo do desenvolvimento pessoal acontecem duas coisas em simultâneo, no que à informação diz respeito:
Uma delas: sendo naturalmente curiosa, a criança procura as coisas, a informação, o conhecimento.
A outra: a informação vem ter com a criança; mais, procura-a intencionalmente, ataca-a mesmo - vejam-se, por exemplo, os cada vez mais abundantemente conteúdos e canais televisivos que às crianças são dedicados; os sofisticados brinquedos; os jogos electrónicos ali bem pertinho, nos telemóveis dos pais.
As crianças - naturalmente, espontaneamente; deliberadamente, humildemente e sabiamente - procuram digerir o fluxo de informação gerado pelo que criam e também pelo que recebem. Reconhecendo-se incapazes de assimilarem sozinhas toda a informação com que lidam, humildemente procuram ajuda; e fazem-no junto de quem? Junto daqueles que a organização natural,  cultural e social dominante lhes atribuiu como interlocutores privilegiados logo desde o nascimento: os pais, e a seguir os irmãos e os avós - ou seja, a família, em geral.
Um pouco mais crescidos, juntam a estes o interlocutor escola.
São incontáveis os exemplos que ilustram a intenção e o esforço das crianças para receberem ajuda no entendimento da informação. Há um que considero especialmente delicioso, de que já falei neste blogue, há mais de 10 anos (Uff! Como o tempo passa!...), em que Philip Roth, num dos seus livros, põe uma criança a perguntar assim à mãe: «Mãe, nós cá em casa acreditamos no Inverno?» (1) (Sim, é mesmo Inverno, não é inferno). A pergunta mostra que a criança sabe espontaneamente que nem toda a informação é válida; mais: que ela própria não é o único juiz que decide acerca de qual é a informação válida - a informação válida é gregária e agregadora, com centro na família de pertença.
Ora bem, aquilo a que assistimos hoje em dia é, na minha opinião, a um cada vez menos lento - e sempre muito trágico - esboroar dos filtros familiares e, em geral, educativos básicos, que permitem à criança peneirar a boa informação. As crianças e os jovens são abandonados à sua sorte, os pais põem-lhes écrãs (cada vez mais tácteis) à frente e esperam que os 'softwares', os programas e as aplicações, desenhadas por "especialistas" da educação entretenham, estimulem cognitivamente e eduquem os filhos. Na escola, os professores são também industriados a seguirem cada vez mais estes caminhos, com as famosas e "poderosas" ferramentas da Educação do Século XXI...
Os anos passam, as crianças crescem... Como foram ajudadas a pensar? Como lhes foi apoiado o desenvolvimento do sentido crítico? Como foi respeitada a sua liberdade de pensar e fazer escolhas?

Grau Zero da discussão: Olhar é proibido, ser atraente é... desaconselhado.
Tese 1: Porque me morrem os manjericos?
Tese 3: Espelho meu, há alguém mais bonito do que eu?
Tese 4: Querem lá ver que o idiota... sou eu.
Tese 5: Quem não precisa de favores de ninguém rega mesmo quando chove.
Tese 6: É a Política, estúpido, mas não só!
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(1) https://fernandonaescola.blogspot.com/2007/04/mam-c-em-casa-acreditamos-no-inverno.html

sexta-feira, julho 13, 2018

Olhar/Ser atraente, Tese 1: Porque me morrem os manjericos?

Quase tenho medo de olhar os manjericos que trago para casa... É melhor olhá-los durante menos de 5 segundos. É que não consigo dar-lhes a água na medida certa, mas que falta de jeito eu tenho com eles! Acabo sempre por afogá-los em demasiada água. Um dia tratei para casa uma dezena ou dúzia de manjericos e regá-los-ei respeitando os mais sistemáticos procedimentos metodológicos; e concluirei - finalmente!, bem ufano - da medida certa de água, em bem quantificados centilitros.
"[...] à força de sermos confrontados com enorme quantidades de dados e de medidas, já  não sabemos aquilo que estes medem, nem que unidades de medida utilizam. A tabela Excel tornou-se omnipresente, mas já não sabemos o que contêm as suas células e aquilo que nos permitem calcular. As pretensas 'provas' assentes em números, tão indispensáveis para qualquer argumentação, revelam-se assim de uma fragilidade surpreendente, estando afinal ao serviço dos preconceitos subjectivos. [...] Neste tempo em que vivemos, as novas tecnologias do digital proporcionam um verdadeiro dilúvio de informação. Mas permanecemos muito ignorantes quanto ao modo como ela é produzida, seleccionada e hierarquizada, isto é, há um défice de informação, o que leva a uma aceitação acrítica e a um recuo do pensamento e da reflexão." (1)
Quer dizer, fazem às nossas mentes o mesmo que eu faço aos manjericos: afogamo-las em sucessivas e permanentes torrentes de (des)informação. E nós somos incapazes de ter mão no fluxo da informação que nos chega. Ou então como as mães apressadas fazem às crianças que as exasperam com a proverbial - natural! - lentidão a comer: enfiam-lhes, boca adentro, garfadas e garfadas de comida, que as crianças se vêm condenadas a engolir em pressa equivalente à da mãe, ou a vomitar, sob pena de soçobrarem num engasgamento mais dramático que o mais intenso ataque de pânico.

Grau Zero da discussão: Olhar é proibido, ser atraente é... desaconselhado.
Tese 2: (Des)tapar o Sol com a peneira.
Tese 3: Espelho meu, há alguém mais bonito do que eu?
Tese 4: Querem lá ver que o idiota... sou eu.
Tese 5: Quem não precisa de favores de ninguém rega mesmo quando chove.
Tese 6: É a Política, estúpido, mas não só!
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(1) Yves Michaud, "Quando a inteligência nos torna estúpidos". In Electra, Fundação EDP, 2, Junho 2018.

Olhar é seduzir, ser atraente é... desaconselhado

No Maio de 68, em Paris, os estudantes escreveram nas paredes "É proibido proibir". 50 anos depois, a acabar o Maio de 2018, a Netflix determinou aos seus funcionários "É proibido olhar". (1)
Autor: Atelier Popular
Paradoxalmente, o narcisista Homem da Civilização Ocidental, acabara de criticar no Outro o uso da burca; e depois legislou contra o uso do véu. E levou os agentes da polícia às praias para obrigarem as senhoras a despirem-se, a mostrarem-se.
No Maio de 68, os estudantes escreveram nas paredes "A beleza está na rua". 50 anos depois, a FIFA pede que não se mostre a beleza feminina dos estádios de futebol (2), que, entretanto, deseja que seja uma valente festa nas ruas.
Em tantos Maios, de tantos 68, a Cultura Ocidental acolheu, celebrou e homenageou a Nudez Artística do Homem. Em 2018, o Grande Irmão do Facebook lançou algoritmos e censores vigilantes que procuram tirar o Nu, antes consagrado, do democratizado acesso de todos os cidadãos, nas redes sociais digitais, às produções artísticas que o Ocidente consagrou como expressão superior do génio criativa do Homem na plenitude do seu potencial mental.
O meu querido amigo Hugo Pardal, saudoso aluno de há muitos anos atrás, perguntou-me hoje, logo pela manhã, à primeira vista muito ligeiramente:
«O professor é que percebe de psicologia. Ajude-nos a perceber porque razão a sociedade actual condena o que a natureza produziu. Quando me visita na Vidigueira?»
Respondi-lhe brincando com os "ares" que na Vidigueira abrem a alma às palavras, segundo o velho "In vino veritas". O dia foi passando, mas o desafio do Hugo não me saiu da cabeça - até que se tornou muito claro na minha mente que o desafio merecia a atenção e o respeito de uma resposta.
É o que vou tentar fazer, numa série de pretensiosas "teses".
Caro Hugo, cada uma delas, em si mesma, pouco ou nada vale, e todas te parecerão muito insatisfatórias; mas, no seu conjunto, tomando cada uma delas uma perspectiva diferente, talvez eu chegue ao meu objectivo: ajudar a perceber o porquê destas coisas, como dizes, aparentemente tão anti-natura.
Hugo, dá-me tempo, e não me peças um irrepreensível ensaio filosófico, nem um rigoroso estudo psicológico; ou uma análise sociológica de exigentes procedimentos metodológicos.
Para já, um forte e grato abraço pelo teu desafio, em que ponho sincero e entusiástico empenho.
E discute comigo. Questiona-me. E traz mais malta a jogo! Como acontecia nas aulas! Que saudades!...

Tese 1: Porque me morrem os manjericos?
Tese 2: (Des)tapar o Sol com a peneira.
Tese 3: Espelho meu, há alguém mais bonito do que eu?
Tese 4: Querem lá ver que o idiota... sou eu.
Tese 5: Quem não precisa de favores de ninguém rega mesmo quando chove.
Tese 6: É a Política, estúpido, mas não só!
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(1) https://www.independent.co.uk/arts-entertainment/tv/news/netflix-sexual-harassment-training-rules-me-too-flirting-on-set-a8396431.html
(2) https://www.rt.com/sport/432861-female-fans-fifa-sexism/


terça-feira, julho 10, 2018

Professor - ensinar e aprender

Oferta da refeição, Escola Primária Piang Luang Sam, Tailândia.
«Se fores consciente enquanto ensinas os outros, estarás a ensinar-te ao mesmo tempo. Não penses que estás somente a ensinar os outros.» 
in Calendário da Floresta 2018 . 2561, Aruno Publications 2017

[If you are mindful while giving teachings to others, you will be teaching yourself at the same time. Don’t think that you are only teaching others.]

domingo, junho 10, 2018

Gostar. Acreditar. Aprender. Ensinar.



 GOSTAR. ACREDITAR. APRENDER. ENSINAR.

- «A verdade é que nunca gostei da escola. Nunca aceitei que tudo possa, deva ou tenha de ser explicado. Explicado e transmitido.”,
conta Dulce Maria Cardoso, numa antologia de contos sobre crianças e adolescentes.
E Vergílio Ferreira escreve, em Um Escritor Apresenta-se,
«Não se acredita por deliberação, como ninguém ama porque assim o decidiu.»
O gostar e o acreditar são, respectivamente, os polos da afectividade e da inteligência dos processos mentais. Ambos procuram a verdade. A verdade do que é saboroso e do que é verdadeiro.
Na sexta-feira, saía eu da escola, uma jovem estudante chegou-se a mim, ela vinha acompanhada com quem eu deduzi ser seu namorado.
- «P’ró ano vou ser sua aluna, o que é que o professor dá, Sociologia ou Psicologia?»
- «Eu dou a melhor disciplina do ensino secundário em todo o mundo!...»
- «Que é?...»
- “«Que é?...» desafiei-a eu em eco.
- «Sociologia?... Não sei…»
- «Pois, vê-se mesmo que não sabes…»
- «Também não interessa, eu quero é ter aulas consigo, e pronto.»
A jovem, simpática, conhecer-me-á dos corredores da escola, das sessões no grande auditório da escola, dos ecos dos projectos extra-curriculares que lidero ou em que participo…
Que pensa ela que poderá gostar nas minhas aulas?... Que verdades imagina ela que poderá encontrar nas minhas lições?...
Que mais pode um professor desejar de um aluno ao arrancar num novo ciclo de ser o que deve ser sempre: um professor no autêntico sentido do termo? Sem explicar, sem transmitir, sem deliberar, sem impor amar.
«Tudo o que se ensina à criança é um obstáculo à sua capacidade de descobrir e inventar.»
é o aviso de Jean Piaget que nunca me sai da cabeça.

quinta-feira, março 15, 2018

Já tirou uma senha?

Hoje fui a um organismo público, na Baixa de Lisboa.
Já me tinham confirmado, em conversa telefónica, um pouco antes, que lá alguém estaria à minha espera. Entrei onde nunca tinha entrado e dirigi-me ao senhor que estava ao balcão, com um écrã de computador do seu lado esquerdo, em diagonal. O senhor não estava ocupado com nada.
Saudei-o com os bons dias devidos nestas ocasiões, de acordo com a mais elementar etiqueta social, mas o senhor continuou a olhar para além de mim, trespassando-me, com expressão esfíngica mais indecifrável do que a da pedra que a baptizou originalmente. Olhei para trás de mim, uma senhora esperava com ar de que o assunto que a levara ali seria bem mais complicado do que o meu. Olhei outra vez a esfíngica face - esfíngica continuava.
"Instintivamente", olhei para o meu lado direito e dei com uma máquina servidora de senhas de atendimento. Fui-me a ela, A, B, C, D. Era o botão D. Dispara-me a senha 3. Oiço, logo a seguir, o som avisante do mostrador da parede do fundo, é para ele que agora olho. Estavam a chamar pela senha D3, a minha. Quem me chamava? O senhor de composição esfíngica. Desta vez, perguntou-me: «Senha 3?» Sim, respondi-lhe; e voltei a dar-lhe os bons-dias - desta vez respondeu-me; por sinal, educadamente. Perguntou-me o que queria e eu disse-lhe ao que ia, e quem ali me tinha mandado. Levantou-se e pediu-me para esperar um pouco. Aproveitei, e voltei a olhar a repartição toda - sim, ninguém mais tinha entrado naquele lugar. Volta o senhor. Bem!... Ele tinha-se tornado irreconhecível, que simpatia!, que sorriso luminoso!
A senhora que há pouco estava à espera atrás de mim agora sentara-se ao balcão ao lado do meu. A funcionária que fora lá dentro, regressara e dava más notícias à senhora, que eu adivinhara que tinha ali assunto mais complicado do que o meu. «Ai é?, muito bem. Olhe, diga então à dona XXXX que, quando quiser falar comigo, chame-me cá ou vá ter comigo, eu que não volto cá para falar com ela.»