segunda-feira, março 15, 2021

GÉNERO NEUTRO E O REI SALOMÃO: REFLECTIR E INFORMAR PARA ENTENDER, n.º 1

 GÉNERO NEUTRO E O REI SALOMÃO: REFLECTIR E INFORMAR PARA ENTENDER, n.º 1


1) Precisamos de, nos tempos que correm, voltar à sabedoria do rei Salomão para entender o que se vai espalhando por aí, fruto da intensa motivação de uns, da envergonhada ignorância de outros...
(Não há mal nenhum em ser-se ignorante; o mal é querer parecer o que não se é para manter os privilégios do posto político e do estatuto social a que se chegou e de que não se quer sair contra tudo e contra todos)
... da passividade tolerante, acomodada ou indiferente de outros; e de mais outras escondidas e não esclarecidas motivações.
Na clássica história do rei Salomão, a mulher que não é, e sabe que não é, progenitora da criança, já que não pode ser progenitora, quer ser mãe - a mãe! Como vê o desejo fugir-lhe das mãos, vai ao ponto de concordar com o rei Salomão em dividir a criança ao meio. É como se dissesse: «𝘚𝘪𝘮, 𝘲𝘶𝘦 𝘴𝘦 𝘥𝘪𝘷𝘪𝘥𝘢 𝘢 𝘤𝘳𝘪𝘢𝘯𝘤̧𝘢 𝘢𝘰 𝘮𝘦𝘪𝘰! 𝘕𝘦𝘮 𝘱𝘢𝘳𝘢 𝘢 𝘰𝘶𝘵𝘳𝘢, 𝘯𝘦𝘮 𝘱𝘢𝘳𝘢 𝘦𝘭𝘢! 𝘌𝘶 𝘯𝘢̃𝘰 𝘴𝘰𝘶 𝘮𝘢̃𝘦, 𝘮𝘢𝘴 𝘵𝘶 𝘵𝘢𝘮𝘣𝘦́𝘮 𝘯𝘢̃𝘰 𝘴𝘦𝘳𝘢́𝘴! 𝘗𝘰𝘥𝘦𝘳𝘢́𝘴 𝘵𝘰𝘥𝘢 𝘢 𝘷𝘪𝘥𝘢 𝘤𝘩𝘢𝘮𝘢𝘳𝘦𝘴-𝘭𝘩𝘦 𝘧𝘪𝘭𝘩𝘰, 𝘮𝘢𝘴 𝘯𝘶𝘯𝘤𝘢 𝘰 𝘵𝘦𝘳𝘢́𝘴 𝘤𝘰𝘯𝘵𝘪𝘨𝘰 𝘦 𝘦𝘭𝘦 𝘯𝘶𝘯𝘤𝘢 𝘵𝘦 𝘤𝘩𝘢𝘮𝘢𝘳𝘢́ "𝘮𝘢̃𝘦"!»
Enredados em justificações cada vez mais sofisticadas, sem que consigam o apaziguamento afectivo interior que tanto procuram, os intensos defensores do apagamento das marcas biológicas, sociais, culturais e civilizacionais dos géneros, pedem à Palavra que anule a evidência da realidade.
Diz António Damásio que "a linguagem é um instrumento extraordinário na criação dos seres humanos que hoje somos. Claro também que a linguagem expande o campo de ação da mente consciente. Contudo a linguagem não constrói a consciência."
Eu acrescento que também não constrói a realidade.
Todos temos direito a sentirmo-nos bem na nossa pele; todos temos direito a fruir o agradável sentimento de bem-estar; todos temos direito ao conforto e à tranquilidade do apaziguamento interior das nossas insuficiências pessoais interiores (se eu fosse psicólogo de inspiração psicanalítica diria "falhas narcísicas").
𝗖𝗼𝗺 𝘁𝗿𝗲̂𝘀 𝗹𝗲𝘁𝗿𝗶𝗻𝗵𝗮𝘀 𝗮𝗽𝗲𝗻𝗮𝘀 / 𝘀𝗲 𝗲𝘀𝗰𝗿𝗲𝘃𝗲 𝗮 𝗽𝗮𝗹𝗮𝘃𝗿𝗮 𝗺𝗮̃𝗲. / 𝗘́ 𝗱𝗮𝘀 𝗽𝗮𝗹𝗮𝘃𝗿𝗮𝘀 𝗽𝗲𝗾𝘂𝗲𝗻𝗮𝘀 / 𝗮 𝗺𝗮𝗶𝗼𝗿 𝗾𝘂𝗲 𝗼 𝗺𝘂𝗻𝗱𝗼 𝘁𝗲𝗺.
Há gente muito empenhada em apressar a chegada do "Admirável Mundo Novo" de Aldous Huxley - quando, paradoxalmente, a obra foi escrita precisamente como um alerta para a ele não chegarmos.

sábado, março 13, 2021

MOVE-TE POR VALORES, NO DESPORTO E NA EDUCAÇÃO

 MOVE-TE POR VALORES, NO DESPORTO E NA EDUCAÇÃO


Pensamento divergente, pensamento criativo. Pensamento cordial e grato que faz os professores sentirem-se bem e reconhecidos no seu devido valor. Neste futebol eu alinho!

sábado, fevereiro 27, 2021

POLÍTICA E EDUCAÇÃO, 9/52 - O PÃO DA MESA E O PÃO DA CULTURA

 POLÍTICA E EDUCAÇÃO, 9/52 - O PÃO DA MESA E O PÃO DA CULTURA


«Casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão»
, desabafa, há muito, a sabedoria popular.

Victor Ângelo, conselheiro em segurança internacional e ex-secretário-geral-adjunto da ONU, deu-nos ontem um artigo no Diário de Notícias que acaba assim:

«Ruídos recentes levaram-me a escrever este texto. Refiro-me à polémica sobre os brasões na Praça do Império frente ao Mosteiro dos Jerónimos, à ideia demolidora que trouxe o Padrão dos Descobrimentos para as redes sociais ou, ainda, ao passamento de um antigo militar que ganhou as suas medalhas no campo da guerra colonial. A paixão extrema das posições assumidas por muitos mostra, uma vez mais, que ainda não conseguimos falar com serenidade do Portugal que virou a página há quase 50 anos. Ora, sem esquecer o acontecido, os muitos problemas que temos pela frente pedem que passemos ao capítulo seguinte. Caso contrário, andaremos em conflito com nós próprios, absortos aos tiros nos pés, para o proveito e gáudio de quem nos quer manter distraídos.»

Quase ao estilo do “Mais Platão, menos Prozac”, Wilhelm Reich, esse autor maldito, recomendava aos líderes das vanguardas populares que especulassem menos acerca do “processo histórico” e dos “processos subjectivos” e se preocupassem em saber — e, consequentemente, em cuidá-los — quais os concretos anseios e necessidades das “massas”.

Pois, 100 anos depois, continuamos de colher de pau na mão a mexer, mexer, mexer e remexer, o mesmo caldo histórico-ideológico, cheios de especulações vanguardistas, “para vosso bem”, para bem de todos.

Tenho insistido por aí que, quais cogumelos, são cada vez mais os que conhecem a árvore, a árvore singular, e, em razão da genuína crença de que a conhecem com cristalina clareza, são tomados de poderosas e inebriantes elações afectivas, se autoconvencem de que conhecem a floresta inteira. Da crença assim tão entusiasticamente sentida resultam comportamentos que fazem lembrar outro provérbio, o que diz que «Cadela apressada pare os filhos cegos».

Os números estão aí bem escancarados à vista de todos, tanto a nível do nosso País como a nível mundial: a diferença entre os poucos muito ricos e os muitos muito pobres tem-se acentuado; e a pandemia tem acelerado o crescimento dessa diferença.

Especificamente a propósito da pandemia, veja-se a ultrajante diferença na distribuição das vacinas contra o vírus da covid-19: uma imensa vergonha civilizacional.

Para o cidadão comum, o pão nosso de cada dia continua a ditar a sua consciência de classe, o vigor do seu entusiasmo ou protesto cívico.

No que diz respeito às questões directas e indirectas do texto de Victor Ângelo, temos por exemplo o caso de Mamadou Ba (figura circunstancialmente incontornável na generalidade dos meios de comunicação social) que há tempos afirmou, numa entrevista televisiva e radiofónica, que foi quando a bolsa de estudo, que lhe ia permitindo viver e estudar em Portugal acabou e que teve de ir trabalhar, que teve consciência dos problemas; digo eu, dos problemas dos que não têm bolsas, não têm trabalho, ou têm-no mas são muito mal pagos.

As crises são oportunidades, dizem os moderníssimos mentores sociais e empresariais — até são oportunidades para convencer “as massas populares” que têm de suportar as dificuldades laborais, os baixos salários e, não obstante, vencerem psicologicamente os seus sentimentos de frustração e de revolta, numa espécie de «Sou feliz. Sinto-me realizado, venci a minha revolta. Sou escravo, sou um escravo moderno, sou um escravo feliz, sou um escravo realizado.»

Os temas explícitos ou implícitos no texto de Victor Ângelo remetem-nos (é um verbo que os pensadores dos processos históricos gostam muito de usas, o verbo remeter) para os Descobrimentos, o Ultramar, a Colonização, a Descolonização, o Império, a Glória e a Tragédia Camoniana, o Destino Vieirino e Pessoano; o Racismo e o Antirracismo.

Tudo é o que é e é também o seu contrário, digo eu constantemente aos meus alunos de Psicologia.

O Racismo e o Antirracismo são o que são e são também o seu contrário. A História dos Povos está cheia de exemplos de racismos e lutas antirracistas, não apenas por causa da cor da pele, e também entre peles de igual cor.

Vivemos tempos em que o Antirracismo é, mais uma vez, luta legítima; mas é também oportunidade de promoção pessoal, social e económica, bem alinhada com os tradicionais mecanismos de destaque e promoção que a Comunicação Social e as Redes Sociais hoje em dia aceleram especialmente. Continuamos a ter necessidade de, seja no campo do Antirracismo, seja noutros campos, levar em boa atenção o bíblico aviso de sabermos separar o trigo do joio.

Bem, se continuo a escrever, acabo por me tornar no contrário do que quis ser, acabo por me tornar o tal autoproclamado líder vanguardista visionário que entende o processo histórico da coisa e, "para vosso bem", decide o destino das massas populares.

«Casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão».

Senhores líderes das massas populares, tratem mas é de pôr o pão na mesa dos operários e camponeses que hão-de um dia arrebatar o poder à burguesia, como cantava a 'velha' canção festivaleira que veio com o 25 de Abril… Olhem, como um dia nos deixou o poeta António Aleixo, que nunca andou pelos televiseiros festivais: «Vós que lá do vosso império / prometeis um mundo novo, / calai-vos, que pode o povo / qu'rer um mundo novo a sério.»

E, senhores poderosos, não se esqueçam de abrir as livrarias!, a Natália Correia bem reclamou num intenso desabafo pessoal: «Sou uma impudência a mesa posta / de um verso onde o possa escrever / ó subalimentados do sonho! / a poesia é para comer.»

Livro também são pão — há por aí muita gente de dietas muitos esquisitas e muito pobres do pão e da cultura dos livros; mas pensando que sabem tudo.

Caro Victor Ângelo, gostei muito de ler o seu texto! Gostava agora de que considerasse este meu como consonante e não em oposição ao seu.

sábado, fevereiro 20, 2021

POLÍTICA E EDUCAÇÃO 8/52 - PIOR QUE A IGNORÂNCIA É A PRESUNÇÃO DO CONHECIMENTO

POLÍTICA E EDUCAÇÃO 8/52 - PIOR QUE A IGNORÂNCIA É A PRESUNÇÃO DO CONHECIMENTO

Com frequência idêntica, tenho participado neste mês de Fevereiro, em dois conjuntos de reuniões regulares, à distância, através da Internet.

No primeiro, que junta educadoras de infância e professores do ensino básico ao secundário, abordamos as temáticas do Género, da Igualdade e da Cidadania. As reuniões acontecem no âmbito das acções de formação profissional a que as educadoras e os professores estão obrigados a fazerem regularmente. O universo de participantes é o formado pelos profissionais da educação e do ensino sob a tutela do 
Ministério da Educação.

No segundo, que junta profissionais “psi” e afins, distribuídos por todo o mundo, conversa-se à volta dos temas da Saúde Mental e da Educação para a Saúde. São encontros de participação livre, com gentes de todo o Mundo. Já consegui identificar colegas de Espanha, França, Itália, Dinamarca, Polónia, Suíça, Argélia, Cabo Verde, Brasil, Martinica, México; e, naturalmente, Portugal.

Neste segundo grupo abundam os cabelos brancos e as cabeças já sem cabelos. São pessoas com muita experiência profissional, em instituições públicas, em acções de rua, em consulta privada. Percebe-se que são pessoas com muita experiência, que lêem muito, que estudam muito; e que estão naturalmente motivados para observarem as realidades concretas, distintas das suas próprias realidades — estão naturalmente motivados para conhecerem mais e melhor, e para aprenderem; até para escaparem ao sempre iminente risco de se conformarem ao que já sabem e mais cedo ou mais tarde faz as pessoas tomarem a nuvem por Juno. Nestas reuniões, a dinâmica é mesmo a da conversa, a da partilha, a da reflexão entre todos. Escuta-se e fala-se. Há uma sede serena de procura da informação.


No primeiro grupo, entretanto, a sensação por que sou tomado é outra. Dispondo o grupo de um recurso digital de comunicação à distância poderoso (de provas dadas ao longo de muitos anos de experiência e aperfeiçoamentos sucessivos), em que se torna possível a dinâmica síncrona e assíncrona da comunicação entre formadora e formandos; e a constituição de bancos partilhados de dados, informações e documentos, a comunicação está reduzida ao mínimo possível, exclusivamente síncrona, com comunicação quase exclusivamente unidireccional, a fazer lembrar intenções de endoutrinamento.

É precisamente este grupo que me impõe à consciência a imagem da ignorância e da presunção sábia. A presunção de que conhecendo uma árvore, a árvore singular, se conhece a floresta toda. É o primado do pensamento sincrético, insuficientemente informado, por isso, produtor de comportamentos desajustados, ambíguos, errados. Ora, na esfera da Educação, do ensino pré-escolar ao ensino universitário, em que as crianças, os alunos, os estudantes vão progredindo, crédulos e cheios de boa-fé na capacitação e na competência de quem os educa ou ensina, isto é perigoso… muito perigoso!

Num notável artigo publicado n’ “O Referencial” (edição de Out-Dez 2020, n.º 139) o Procurador-geral Adjunto Jubilado Pena dos Reis escreve que “o que ameaça o êxito do pensamento científico na sociedade é a extraordinária persistência e generalização do pensamento mágico”, identificando neste 3 níveis. O segundo nível, diz ele, “é aquele que cria modelos susceptíveis de poderem ser confirmados ou infirmados pela observação, mas que desvaloriza o papel desta (da observação) no processo de consolidação do que se pode afirmar como verdade."

Por seu lado, o Professor José Mattoso, na entrevista que o semanário Expresso publicou ontem, quando lhe perguntam «Há uma boa e uma má maneira de fazer a História?» ele responde: «Sem dúvida. Uma maneira má é esquecer a relação entre os factos e as suas causas ou consequências. Os factos não acontecem por acaso. Temos sempre de os medir, situar, contextualizar, atribuir a um sujeito. Só assim podemos fazer deles uma narrativa. Só assim podemos fazer boa História. Além disso, temos de respeitar os factos sem pretender julgá-los. Também não podemos pôr os factos (ou seja, a sua narrativa) ao serviço de uma causa, por melhor que ela seja.»

Podemos praticamente transpor na íntegra estas palavras da História para a Educação e o Ensino.

Sim, o pensamento sincrético, mal informado, que confunde a nuvem com Juno e faz da singular árvore a floresta inteira, é um perigo real que espreita hoje em dia, a todo o momento, a Educação e o Ensino.

Na mesma entrevista ao Expresso, perguntam ao Professor José Mattoso: «A Idade Média é a Idade das Trevas?» Ele responde: «O conceito de Idade das Trevas aplicado à Idade Média resulta de um equívoco ou de ignorância pura e simples. É verdade que a cultura medieval muitas vezes confundia magia e superstição com religião autêntica, e que via milagres e intervenções divinas um pouco por toda a parte. Mas não podemos generalizar a toda a sociedade o que consideramos crendice. Também não podemos esquecer o incalculável valor da arte medieval expressa nas grandes catedrais, nem a genialidade do pensamento teológico demonstrada por um autor como São Tomás de Aquino. Não são produtos das trevas. A expressão Idade das Trevas apareceu primeiro no Renascimento, quando a cultura europeia redescobriu a estética greco-romana e, depois, no século XVIII, quando os intelectuais franceses atribuíram à filosofia iluminista o papel de fonte de toda a política civilizada. O pressuposto depreciativo da expressão só revela a ignorância de quem a usa.»

A mim próprio faço a pergunta: «A Idade dos Dias de Hoje é a Idade das Trevas?», e não me sinto nada bem com a resposta que me vem à cabeça.

sábado, janeiro 23, 2021

POLÍTICA E EDUCAÇÃO, 3/52 - QUANTO VALEM AS OPINIÕES?

 POLÍTICA E EDUCAÇÃO, 3/52

QUANTO VALEM AS OPINIÕES?

1. O direito de opinião é consagrado na generalidade dos textos constitucionais dos países democráticos; e também das organizações políticas supra-nacionais. As limitações a este direito são habitualmente sinal de limitação das liberdades pessoais, regra geral, impostas à força por lideranças contrárias ao espírito e às práticas democráticas.

2. As redes sociais na Internet vieram permitir que, para além das opiniões proferidas pelos governantes, os jornalistas e todos aqueles que em geral têm acesso aos órgãos de comunicação social, as opiniões de muitos cidadãos passassem a aparecer no espaço público, genérico e anónimo, para além de serem emitidas no círculo restrito da família, dos amigos, da empresa; e da escola.

3. Para além das questões que se costumam colocar acerca da ética, ou da responsabilidade, ou da honestidade, na expressão duma opinião, será interessante olhá-la do ponto de vista do fenómeno psicológico que é, nas suas dimensões cognitiva, comunicacional e inter-pessoal.

4. Passaram mais de 40 anos da aula de Psicologia Social Clínica em que, nas instalações provisórias da Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação de Lisboa, na Rua Pinheiro Chagas, o Professor Pina Prata nos deu uma aula de que nunca mais me esqueci. O assunto central da aula foi o Processo Decisional.

5. Numa teorização que lhe era muito própria, ele apresentava-nos a Opinião como a segunda fase de um processo pessoal, consciente, no final do qual o sujeito (cada um de nós) toma uma Decisão, escolhe uma opção, profere uma sentença.

6. O Processo Decisional tem, esquematicamente 3 fases, sendo a Opinião (dimensão afectiva) a 2.ª fase e a Decisão (dimensão operativa) a 3.ª. Qual é a primeira? A 1.ª é a Informação (dimensão cognitiva).

7. É da nossa natureza humana formarmos opiniões, opiniões acerca de tudo com que contactamos. As opiniões podem ser sustentadas pelas crenças e pelas certezas; as opiniões podem ser bem informadas, intensamente intuídas, altamente ou levemente especulativas.

8. Na notável obra “O Livro da Consciência”, António Damásio, profundamente ciente da necessidade de distinguir o que se sabe com segurança do que se sabe mal e do que não se sabe praticamente nada, ao longo dos capítulos usa formulações que espelham os graus de certeza e de incerteza de que falo. Identifiquei-lhe uma vintena (falhei seguramente outras): “Tenho a certeza…”, “Sugiro…”, “Proponho…”, “Imagino…”, “Em minha opinião…”, “Com toda a probabilidade…”, “Acredito…”, “Suspeito…”, “À maneira de hipótese de trabalho…”, “Postulo…”, “Irei especular…”, “Julgo que…”, “Provavelmente…”, “Presumo…”, “É possível que…”, “Especular sobre…”, “Não se sabe ao certo…”, “Segundo me parece…”.

9. No mesmo livro, num pequeno capítulo com o nome “A sensação de vontade consciente”, António Damásio escreve assim: «Com que frequência somos guiados por um inconsciente cognitivo bem ensaiado, treinado sob a supervisão da reflexão consciente para cumprir os ideais, anseios e planos concebidos conscientemente? Com que frequência somos guiados por predisposições, apetites e desejos biologicamente antigos, enraizados bem fundo e inconscientes? Imagino que a maioria de nós, pecadores fracos mas bem-intencionados, se regule por ambos os registos, ora mais por um, ora mais por outro, dependendo da situação e da hora do dia. Seja qual for o registo em que funcionemos, mais virtuoso ou menos virtuoso, a actuação no «momento» é inevitavelmente acompanhada pela impressão, umas vezes falsa, outras vezes não, de que actuamos aí e naquele momento, com pleno controlo consciente».

10. Ora bem, as predisposições, os apetites e os desejos de que fala António Damásio, em hora de muitas verdades, não são informações. Por exemplo, quando temos de tomar decisões sobre os perigos de uma pandemia. Estamos predispostos a reagir aos ataques dos vírus, apetece-nos fazer coisas de que gostamos, desejamos estar livres dos perigos. Só que nada disto nos informa acerca dos perigos dum vírus causador de uma pandemia, e nada disto nos protege da virulência do vírus.

11. A cada indivíduo, numa pandemia, cabe informar-se, formar uma opinião e tomar uma decisão; a cada governo cabe exactamente o mesmo, só que a um nível de regulação do comportamento dos grupos humanos, das sociedades.

12. Perguntas diferentes confrontam-nos com quantidades diferentes de informação. Três exemplos: “Como é a vida depois da morte?”, "Como é que se fazem pastéis de Belém?" e “Qual é o grau de perigosidade do vírus da covid-19?” Não obstante as diferenças, não será que devemos sempre procurar toda a informação possível, reduzir o grau de incerteza e estar menos dependentes das nossas crenças e das nossas intuições – que, em geral, estão mais vezes erradas do que certas? No caso concreto do pastel de Belém, o que temos é precisamente a centenária sonegação absoluta da informação: a receita culinária. Nos outros 2 casos, a Vida está aí inteiramente aberta a que nós obtenhamos toda a informação.

13. As decisões que tomamos, com base nas informações que temos e nas crenças a que nos agarramos, nas situações importantes da vida, são marcadas pelo desejo de prudência ou pelo apetite (ou motivação) do risco. Quando é cada um a decidir acerca da sua própria vida, e na medida em que a decisão não afecte negativamente a vida de outros, é uma coisa; quando temos de tomar decisões que tenham consequência directa na vida dos outros é outra coisa — mas o dilema é o mesmo em ambas as situações: optamos pela prudência ou pelo risco?

14. Na minha opinião, cabe à Educação a essencial tarefa social de ajudar os mais novos a irem experimentando em si mesmos o vai-vém entre a prudência e o risco, e o alerta para a necessidade de sustentarem as suas opiniões com a melhor informação possível. Até para que um dia não venham a fazer parte de governos que não saibam precisamente isso: calcular adequadamente o balanço entre a prudência e o risco nas decisões que se reflectem na vida dos cidadãos que governam.

15. Há uma máxima (de tanto partilhada, tornou-se anónima — cá está: perdeu-se a informação de quem foi o seu autor —, ou foi apropriada por este ou aquele outro autor) que diz assim: “O barco está mais seguro no porto. Mas não foi para isso que os barcos foram construídos”. Esta máxima, de tão óbvia que é, torna-nos tentadores do risco. Só que também nos tornámos sábios a prever os mares encapelados e as tempestades, e a medir as nossas forças ao lado das forças dos mares e das tempestades — nestes casos manda a sabedoria e a prudência que nos recolhamos a um porto seguro.


domingo, janeiro 10, 2021

Qual é coisa, qual é ela, que nasce com a Pessoa, a Educação consolida, a Escola abala, a Economia esquece e a Política esmaga?

 POLÍTICA E EDUCAÇÃO, 2/52

Qual é coisa, qual é ela, que nasce com a Pessoa, a Educação consolida, a Escola abala, a Economia esquece e a Política esmaga?
1) E a resposta é… a Tolerância.
2) Como sempre, um título não diz tudo; e quanto maior, pior. Por isso, há que esclarecê-lo, há que, neste caso, modulá-lo, matizá-lo.

3) Para começar esse cuidado de matização, a definição, circunstancial, de Tolerância: numa conversa com o filósofo Paul Ricoeur, Jean-Pierre Changeux, biólogo e professor de Neurobiologia, enumera-a ao lado da Boa Vontade e da Paciência, depois de a referir a propósito de tentar Compreender — no caso concreto da sua fala, a propósito das religiões.
4) Não vamos complicar a definição de Tolerância, apenas proporei considerar que a Tolerância tem a ver com identificar diferenças, aceitar as diferenças, agir respeitando as diferenças e não tentar, mesmo que cordialmente, convencer os outros que as nossas crenças, as nossas perspectivas, os nossos valores, são melhores, mais justos e mais correctos.
5) No mesmo diálogo, Paul Ricoeur diz assim a propósito do uso da palavra Tolerância: “A tolerância passa, de facto, por diversos limiares: no primeiro limiar, consiste em suportar o que não é possível evitar. Mas, é preciso passar desta tolerância forçada a uma tolerância aceite e escolhida. É do interior da relação com o fundamental que há convicções diferentes da minha. A partir daí, a tolerância já não é imposta por terceiros que me dizem: guarde os seus limites, não vá mais longe; terceiros que, de fora, me impõem um constrangimento. É de dentro que reconheço que há outros diferentes de mim, pensando de maneira diferente da minha. Se assim é, o problema da tolerância ultrapassa a relação da ciência e da religião, abrange todas as convicções. Não é só a ciência que detém a chave do problema da violência entre os homens.”
6) A Tolerância nasce com cada ser humano. Sim, cada vez mais as espantosas experiências “ovo-de-colombo”, que os incríveis estudiosos do comportamento humano conseguem conceber, mostram que é assim; e mostram também outros afectos, outras necessidades e motivações — e confirmam que cada criança que nasce não é um anjo celestial que se junta a outros.
7) A Educação não terá o radical poder que António Aleixo sintetiza dos versos que dizem «Sou apenas o produto / Do meio onde fui criado»; mas tem mesmo muito poder! Tem o poder de consolidar o que de melhor o ser humano traz consigo à nascença, e o poder de amaciar, dominar, o que traz de pior. E Educação é, antes de mais, influência parental e familiar — naturalmente aceite pela criança.
8) A Escola abala. Sim, a Escola passou a aparecer na vida da criança como a primeira — e muito valorizada! — instituição social que influencia o desenvolvimento da criança, sendo até a Família a primeira instituição social a reconhecer, aos olhos da criança, a importância da Escola e do que nela fazem com as crianças e os jovens seus filhos (seus, da Família). Acontece que a Escola actual é marcada, cada vez mais, por objectivos de capacitação livresca, conhecimento fragmentado e competição entre alunos — nunca houve tantos ‘rankings’ como agora, nem prémios de excelência por se ser melhor que os outros; e a Escola põe os alunos a disputarem entre si décimas e centésimas nas suas avaliações escolares finais. A Escola, nos dias de hoje, não é socialmente agregadora, é selectiva e desadequadamente competitiva.
9) A Economia esquece. Para a Economia actual, dominada pela expansão ilimitada, sustentada no crescimento constante e no consumismo permanente, de usa-e-deita-fora, a Tolerância é uma perda de tempo — e Tempo é Dinheiro! Há muito que é assim, e não se vê maneira de deixar de ser.
10) A Política esmaga. Depois da invasão do coração da instituição parlamentar dos Estados Unidos da América do Norte, o Capitólio, é preciso dizer mais alguma coisa? Na Europa, o radical movimento a favor da Tolerância aconteceu no início da década de 50 do século XX, quando os pais fundadores da actual União Europeia ousaram quebrar a lógica tradicional dos vencedores e dos vencidos e inventaram o projecto da Europa Unida — que é feito, nos dias de hoje, desse ideal de Paz, Tolerância e União?
11) Num artigo de opinião, na edição do Público de ontem, o sociólogo António Barreto escreve assim, a propósito da invasão do Capitólio: “Como foi possível? E como se pode evitar que seja novamente possível? Esse é o verdadeiro problema. Gente como esta, programas como este e políticas como esta só são possíveis, em democracia, porque os democratas deixam, porque a democracia tem tantos ou mais defeitos, porque os democratas e as esquerdas se transformam em figuras detestáveis de arrogância e suficiência. Porque os democratas decretam e protegem os seus privilégios e nunca se esquecem de defender os seus.”
12) As interrogações postas por António Barreto obrigam-nos a trazer à reflexão o célebre Paradoxo da Tolerância de Karl Popper; e obrigam-nos a pensar a sério que queremos fazer com a Educação e a regulação da Justiça Social e Política.
13) Por cá, no jardim à beira mar plantado, que tema central tem sido debatido até à exaustão, mas que sem que ninguém consiga dar a volta convincentemente? Precisamente a tolerância com André Ventura e o o partido que lidera, o Chega: aceita-se ou não um dirigente político, ou um partido político assim, num ministério governamental, ou mesmo com primeiro-ministro? É isso mesmo: não se chega a conclusão nenhuma; e porquê? Porque não há uma cultura social e político-social da Tolerância e dos valores afins: a Paciência e a Boa Vontade de que fala Paul Ricoeur; e também a Verdade, a Honestidade, a Coerência e o Respeito Humano.
14) Sim, no meu entender, temos vindo a acentuar nas sociedades — até nas que são geralmente apontadas como os grandes bastiões da Democracia — as reacções e os comportamentos de intolerância, numa triste regressão civilizacional que, na esfera da Religião, podemos equipara ao regresso ao olho-por-olho-dente-por-dente do Velho Testamento bíblico, que, precisamente, o Novo Testamento procurou amaciar e eliminar, substituindo-o pelo Perdão e pela Tolerância.
15) Não termos nós acabado de assistir a uma vitória da Tolerância? Estou a falar dos debates televisivos das eleições presidenciais portuguesas. Quais fora os debates em que se tiveram, como o próprio disse, conversas «porreiras», até com o intolerante/“intolerante” André Ventura? Foram todos os debates com o candidato Tino de Rans. Por todos os outros — e pela Comunicação Social, em geral — considerado uma carta fora do baralho, foi o único que que conseguiu expor, sem interrupções, e sem contraditórios deliberadamente a serem ouvidos por eleitores a arregimentar, as suas ideias, os seus pensamentos, as suas parábolas, a sua cultura simples. Será que a Simplicidade é um valor irmão da Tolerância? Acho que o Tino de Rans mostrou-nos que sim, que é.
16) Tino de Rans teve o condão de pôr todos os outros candidatos a ouvi-lo, todos eles sem duas pedras na mão. Ele é que os motivou com as suas 4 pedras, a fazer lembrar a pedra do viajante que inventou a Sopa de Pedra. E como conseguiu ele isso? Os outros, como sempre o consideraram como não sendo perigoso, dispuseram-se a ouvi-lo — e seguramente todos eles aprenderam com ele! Além disso, mesmo quando contraditou os seus oponentes — e poucas vezes o fez — fê lo sempre com Simplicidade e Tolerância.
17) Ao não o considerarem, com genuína boa-fé, adversário perigoso, os outros candidatos presidenciais, curiosamente, chegaram-se ao sentimento natural, genuíno que nos bebés alimenta os comportamentos de tolerância; e esta, hein?
18) A Política Intolerante é a negação da própria Política. Será possível conceber a Política, em sentido estrito, sem Tolerância? Se não pensarmos assim, que temos nós, afinal, aprendido com a Grécia Antiga que tanto louvamos nas suas realizações e nos seus escritos?

domingo, maio 31, 2020

PARTILHAR É CONDIÇÃO NATURAL DO SER HUMANO

1) No âmbito da disciplina de Cidadania e Desenvolvimento, explorei com uma turma do 8.º ano de escolaridade, um inquérito de David Sloan Wilson, professor de Biologia e Antropologia, inquérito esse que acabou por se tornar um clássico no trabalho de alunos de Psicologia e de Biologia, a propósito do tema da Evolução do Ser humano.

2) No inquérito, muito simples, é pedido aos estudantes que indiquem as características que associam ao bem, e as características que associam ao mal.

3) Acabei por também fazer o inquérito a alunos do ensino secundário, recolhendo 30 respostas válidas do básico e 32 do secundário.

4) No geral, as respostas dos meus alunos alinham genericamente com as respostas que conheço do inquérito original, com ligeiríssimas variações. A primeira característica má é mesmo completamente sobreponível nos 3 casos: egoísmo.

5) No meu inquérito, acrescentei duas perguntas: que os alunos indicassem exemplos de pessoas boas e más que encontrassem na comunicação social. Só uma escolha passou os 50% dos 62 alunos; e foi nas pessoas más: foi Donald Trump.

6) Coerente, na prática, com a sua bem explicitada concepção de governação de um dos países mais poderosos do Mundo, Donald Trump tem retirado os E.U.A. de todos os acordos de cooperação ou regulação internacional que pode, o Presidente norte-americano não pára. Precisamente nesta altura, chega-me a casa este 'cartoon' tão elucidativo.

7) As circunstâncias em que o Mundo vive no tempo presente, amplificadas pelo massivo, acelerado  e muito agressivo comportamento da Comunicação Social, em geral, com fluxos e refluxos de informação e desinformação, são de molde a alimentar a dúvida, a insegurança e a incerteza dos cidadãos: vamos continuar com a nossa casa (leia-se: o nosso país) de portas abertas, deixando entrar e podendo sair; ou vamos, ao invés, fechar-nos em casa e aconselhar a que os outros façam o mesmo?

8) Penso que a questão não deve ser colocada na dicotomia "pessoas boas 'versus' pessoas más"; mas antes entre as características boas e as características más das pessoas. Um exemplo actual, flagrante, é a trágica e brutal morte da Beatriz às mãos do Rúben. Até à tremendamente infeliz situação, o rapaz era praticamente um modelo de jovem cidadão, ele encaixava perfeitamente na lista das características das pessoas boas, os seus comportamentos pessoais e sociais testemunhavam-nas todas. Até que...

9) Sou muito céptico na filosófica questão da luta entre o bem e mal. Veja-se o caso de Hitler, como ele dá testemunho da tão intrínseca fragilidade do seu humano: super-simplificando as coisas, podemos dizer que ele "tentou" ser bom, quando se candidatou à Escola de Belas-Artes de Viena. Não o tendo conseguido, o mal escancarou-se dentro dele, e toda a sua ascensão social e política mostra como um simples vírus, de uma única pessoa, pode disseminar-se, acordar parceiros adormecidos ou em estado latente noutras pessoas e dominar completamente um poderoso país, e quase o Mundo todo.

10) Estarão os grupos humanos condenados à vitória do mal sobre o bem? Não, creio convictamente que não estão. Com a mesma convicção, afirmo que resignarmo-nos a essa sorte, deitar a toalha ao chão, é negarmos a nossa própria natureza. E é essa consciência e essa pedagogia junto, não apenas dos mais novos, mas de todos os cidadãos do Mundo, que é a razão de ser deste apontamento.

11) Não vou invocar Konrad Lorenz, já o fiz bastas vezes. Vou onvocar António Damásio e David Sloam Wilson. Damásio leu Wilson, não sei de Wilson leu Damásio. No que aqui trago, Damásio fala de altruísmo e Wilson fala de partilha.

12) Diz António Damásio:
«A cooperação desenvolveu-se como irmã gémea da competição, o que ajudou a seleccionar os organismos que exibam as estratégias mais produtivas. Consequentemente, quando hoje nos comportamos de forma cooperativa, com uma certa dose de sacrifício pessoal, e quando designamos de altruísta esse comportamento, isso não quer dizer que os seres humanos tenham usado o seu bom coração para inventar a estratégia cooperativa. [...] A questão do altruísmo é um excelente ponto de partida para a distinção entre as primeiras "culturas" e a sua variedade madura. O altruísmo tem a sua origem na cooperação cega, mas pode ser analisado e ensinado no sei das famílias e nas escolas como estratégia humana deliberada. [...] Nada garante que resulte sempre, mas existe como recurso humano consciente, presente através da educação.» (1)
13) E diz ainda o seguinte:
«A homeostasia básica tende a cumprir o seu dever relativamente a cada organismo cultural separável e nada mais. Deixados por sua conta, sem o efeito equilibrante de esforços civilizacionais determinados, visando algum grua de integração, e sem o benefício de circunstâncias favoráveis, os organismos culturais não tendem a coalescer.» [aglutinar, ligar, unir] (2)  

13) Por seu lado, David Sloam Wilson afirma:
«Esta e outras experiências revelam que a mentalidade humana se baseia fundamentalmente na partilha. [Não serão o altruísmo e a partilha o oposto do egoísmo?] Se não partilhámos intenção e atenção, nem sequer podemos fazer uma coisa tão simples como apontar para um objecto de interesse mútuo e muito menos partilhar os nossos comportamentos e representações simbólicas. Felizmente, a partilha faz parte do nosso meio social externo há tempo suficiente para se ter incorporado geneticamente nas nossas mentes, tão profunda e subconscientemente que não a reconhecemos como partilha até a estudarmos por métodos científicos.» (3)
14) As constatações científicas  de Wilson devem ser muito do agrado dos defensores da completa separação ente o Homem e os outros animais: é que os nossos parentes evolutivos mais próximos não apresentam esta capacidade de partilhar; mas o bebé humano, espontaneamente, apresenta!

15) O que será uma contrariedade para os criacionistas é terem de admitir, simultaneamente, que a competição, essa sim, é parte intrínseca do património comportamental tanto de símios como do Homem. Em conclusão, o que nos eleva é o altruísmo, é a partilha.

16) Penso que acabamos por nos confrontar com as duas grandes tarefas dos grupos humanos: a transmissão cultural (a Educação), e a regulação da vida cívica (a Política).

17) E voltamos à ideia dos jovens sobre as pessoas más, voltamos a Donald Trump. O que tenho achado especialmente interessante e promissor é ver que, apesar da quase violenta assertividade dos presidentes Trump e Bolsonaro (a 2.ª escolha, também destacada dos meus alunos), os sistemas de distribuição democrática de poder, regulando, aplacando a intensidade do egoísmo, e do despotismo, funcionam: ao nível dos governos regionais, de estados, ou distritos, os todo-poderosos presidentes têm de aceitar e resignar-se ao limite do seu próprio poder presidencial.  Logo, a Política é mesmo importante! A regulação formal da vida cívica, não pondo, como simbolicamente se diz, todos os ovos no mesmo cesto, é amiga da, está em sintonia com ela, condição básica, genética, do ser humano: a partilha, o altruísmo.
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(1) António Damásio, "A Estranha Ordem das Coisas", 2017, Lisboa, Círculo de Leitores - Temas e Debates, p. 322.
(2) António Damásio, "A Estranha Ordem das Coisas", 2017, Lisboa, Círculo de Leitores - Temas e Debates, p. 299
(3) David Sloan Wilson, "A Evolução para Todos", Lisboa, Gradiva, 2007, p. 244.

sábado, abril 18, 2020

Regresso ao Futuro

«Professor, para algo novo, diferente, inesperado, não seria importante uma resposta nova, diferente, fora da caixa? O que os professores estão a tentar fazer é heróico, esta adaptação gigantesca em tempo real, creio que só falta fugir um pouco ao modelo de aulas presenciais, ao esquema do toma para aí uns trabalhos e umas fichas e até já. Eu que adorei as suas aulas adorava saber que coelhos vai tirar da cartola para estes tempos que aí vêm. Força e grande abraço!»
O António, que foi meu aluno há muito tempo, desafia-me a tirar um coelho da cartola para os tempos que estamos a viver no ensino, e para os que hão-de vir.
Ora bem, para os que hão-de vir é mais fácil, o que é fácil prever é uma aposta maior, mais a sério, nas tecnologias digitais à distância, equilibrando-as com as aulas presenciais. Vai certamente haver muita tentativa e erro, muita polémica, muita tentação burocratizante — eu digo mesmo: até estalinista — dos governos centrais para controlar os procedimentos de professores e alunos. Espero que alguma coisa de boa saia disto, até porque seguramente eu já não estarei no activo da docência quando esse tempo estabilizado, que harmoniza a relação pessoal directa entre professor e alunos; os recursos didácticos tradicionais e os digitais; as aulas presenciais e à distância, finalmente chegar. Até lá, muita água correrá a gente está fartinha de saber onde, muitas polémicas, muitas contradições, muitas tentativas e erros; muitos “sábios” e poucos sábios.
O tempo de tirar coelhos da cartola é o tempo do Presente, o que está a acontecer, o que estamos a viver.
Tanto há para dizer de premissas e contextualizações que, se fosse por esse caminho, não saberia escrever menos do que 10 ou 12 páginas A4, e ninguém, nem o António!, teria pachorra para as ler. Por isso, vou atalhar.
Passou uma semana de aulas à distância, oficialmente assumidas para todas as escolas. A Telescola vai começar na próxima segunda-feira. Os professores estão afogados em tarefas, desde as mais burocráticas às mais pedagógicas. É fácil resvalar (estou a falar do ministério da tutela e das direcções dos agrupamentos de escolas) para a tentação de lhes pedir sol na eira e chuva no nabal: procedimentos burocráticos imensos, muitas fichas e mapas para preencherem; e disponibilidade total para gerirem, em aulas de 30 minutos (isso, 30 minutos!) a condução de trabalho presencial, obrigatório, síncrono e mais outro tanto, por extensão, assíncrono — com a mais competente das pedagogias, com recursos de comunicação à distância insuficientemente preparados, com alunos e professores com pouca “literacia digital”; e tendo sempre em mente essa coisa a um tempo sacrossanta e diabólica que é a avaliação final dos alunos!
Repare-se o que é estar a querer que os professores consigam, em um ou dois meses, que todos (repito, alunos e professores) participem adequadamente em “aulas” de 30 minutos.
Eu tenho uma turma de 30 alunos. Tenho mais sorte que a generalidade dos meus colegas, que têm normalmente bem mais do que uma. Ora bem, 30 minutos a dividir por 30 alunos dá… pois, muito menos que um minuto por aluno, já que o professor também deverá fazer qualquer coisa; há sempre um ou outro que se atrasa um bocadinho, espera-se por ele; e as “salas de aula” digitais não estão preparadas para que os professores façam a gestão adequada dos grupos. E há, como já se estão a espalhar por aí em vídeos ilustrativos, as interferências marotas, perversas, até mesmo muito maldosas.
Este é o caldo em que os professores se esforçam por explorar os conteúdos programáticos tradicionais, que aqui ainda estão de pedra e cal, praticamente intocáveis. Sempre o espectro dos exames no futuro!
Quer dizer que isto está tudo mal? Claro que não! Até penso que não pode ser de maneira muito diferente. Para aprender é preciso tempo. Até os génios das informáticas precisam de tempo para fazerem salas de aula digitais, à distância, que funcionem bem. Não tenho dúvidas nenhumas que eles estão na primeira linha dos que estão a aprender neste tempo de inesperada turbulência no ensino, em praticamente todo o mundo.
Não sei se estou a tirar algum coelho da cartola, mas a aula que eu chamarei matriz para esta altura é a aula-não-aula.
A Psicologia Social já há muito que mostrou que nós não podemos ser, ao mesmo tempo, o sujeito que age, o espectador que se observa a si-mesmo e o estudante que vê o sujeito e a sua acção como objecto de estudo e aprendizagem nos livros e nos computadores.
O tempo que vivemos agora é um tempo histórico, único, como nunca houve antes nem alguma vez vai acontecer outra vez — é que não amor como o primeiro.
As minhas aulas agora são, todas elas, organizadas sob a égide do protagonismo dos alunos no tempo histórico que está a acontecer na vida deles — tanto o que é bom, como o que não é bom.
Eu só posso falar do que sinto se sentir; eu só posso pensar no que faço, ou fiz, se fizer ou se tiver feito; eu só posso guardar memória das minhas acções se as realizar, se não for um simples espectador das coisas que acontecem à minha volta.
Logo que o confinamento começou, eu sugeri que nas famílias se suspendesse o estatuto de pais e de filhos e passasse a vigorar, em período de quarentena, o estatuto partilhado, igualizador, de cidadão, e dei exemplos de como isso se traduziria na vivência do dia-a-dia de todos em condição de confinamento em casa.
Por isso eu advogo que as aulas devem ser, em geral, conduzidas de maneira a que os alunos olhem à sua volta e sejam protagonistas activos de um tempo único na História dos Homens e das Sociedades Humanas, Não lhes roubem essa oportunidade única, não os fechem ainda mais em casa, no reino desvitalizado dos livros e das matérias escolares.
No fundo, foi isto que a Greta Thunberg quis fazer: ser protagonista do seu tempo, não apenas uma espectadora das coisas do Mundo a passarem por ela.
Como imortalizou a pintora Maria Helena Vieira da Silva, em tantas pinceladas do 25 de Abril, “A Poesia está na Rua”; e nós, paradoxalmente, fechados em casa! Mas o tempo é mesmo de Poesia! Não se roube aos miúdos de desfrutarem esse tempo.
No teu tempo de escola, António, ainda muito se visitava o Clube dos Poetas Mortos, em que o professor Keaton desafiava os alunos a acrescentarem o seu verso à grande sinfonia do Mundo. Não é este o tempo de deixarmos as crianças e os jovens viverem o tempo, penetrando nele, e assim ganhando inspiração para o seu verso?
Para lá da dramática pandemia, que está ao alcance dos alunos verem e fazerem acontecer?
É inegável que se abriu, escancarou mesmo, uma janela de oportunidade para o tremendo valor da Solidariedade Humana. É inegável que o Ambiente, perante a intensa redução da actividade humana, reagiu prontamente e baixou imenso os níveis de poluição, limpou os canais de Veneza, fez regressar os animais a lugares donde já tinham desaparecido, parecia que definitivamente.
Perante o terrível espectro das alterações climáticas, o Ambiente respondeu, nesta janela de oportunidade, «Estou pronto!»
Este é o tempo em que as gerações do Futuro têm aqui a sua viagem, o seu Regresso ao Futuro. Sim, mudar é possível! Sim, é possível deter as alterações climáticas! Sim, é possível as pessoas serem mais solidárias! E não é porque isso está nos livros de estudo! É porque está mesmo a acontecer!
Não tirem as crianças e os jovens das janelas! Não os obriguem a estar fechadas no quarto ou na sala com os olhos nos computadores ou nas aulas da Telescola! Deixem-nas viver o tempo do Futuro! Deixem-nas ser protagonistas desse Futuro!
António, não são quimeras, não são sonhos de uma noite de Verão! É a realidade a acontecer à nossa volta!
Querem os jovens a acreditarem no Futuro e a apostar nele? Então deixem-nas ser protagonistas do Livro da Vida que está a acontecer nestes dias, nestas semanas, nestes meses.
O Futuro é possível. O Futuro que desejamos para os nossos filhos e netos está agora a acontecer. Deixem ao jovens saboreá-lo. Conhecendo-o, na primeira pessoa, mais convictamente lutarão por ele. A Utopia é possível, António!
Já escrevi demais, já me fizeste escrever demais. Mas sei que muito mais escreverei acerca destas coisas.
Para já, nas minhas aulas, o repto, o desafio é então esse (só mesmo 2 ou 3 exemplos):
· Tens que estudar os “Riscos” na disciplina de Cidadania e Desenvolvimento? Muito bem. Olha à tua volta: que riscos corremos quando desrespeitamos o equilíbrio ambiental? Estão a ver que pode haver um Ambiente melhor caso não punhamos em risco as pessoas, os animais e a Natureza? Estão a ver os riscos em que pomos o Homem caso desrespeitemos a natureza dos lugares que habitamos e consumamos os recursos naturais desreguladamente? Ou os riscos que criamos para o Homem quando exploramos cegamente a vida dos animais pensando que eles nos pertencem de pleno direito?
· Tens que estudar os Processos Afectivos nas relações individuais e de grupo? Repara como se sentem as pessoas quando os afectos são positivos… Repara como se sentem as pessoas, e o que conseguem quando a solidariedade domina sobre a competição…
· Tens de estudar o conceito de Recaída nos grupos humanos em risco? Repara se recaímos nos comportamentos consumistas e acelerados dominantes no tempo de antes da pandemia e do confinamento? O que voltamos a perder? Será que o que recuperamos vale o que vamos outra vez perder?
António, este texto foi escrito de rajada, sei que aqui e ali vou reformulá-lo, corrigir, modificar, acrescentar, cortar. Mas o essencial da resposta à questão que me puseste está cá:
O coelho da cartola é a aula-não-aula. Ajudar as crianças e os jovens a olhar à sua volta, ver o que está a acontecer; e a olharem para dentro de si, tomando consciência do que estão a sentir. Conversar com eles sobre tudo isso. Sugerir-lhes olhares e objectos de atenção e exploração. Fazer cada um o primeiro protagonista do seu próprio Futuro. Nada como o que está a acontecer pode dar tanta esperança no Futuro e na Vida aos jovens. Nem a mais sofisticada plataforma digital, nem o mais pintado dos professores.
O professor de agora é o genuíno pedagogo: o que conduz discretamente o aluno para a escola, e a escola é o mundo que está a acontecer à volta do aluno. Deixem-no desfrutar do que está a acontecer! Não sei se mais alguma vez na vida terão essa oportunidade. Mas, se olharem bem à sua volta, verão e formarão a mais absoluta das convicções: «Sim, é possível!»
Forte abraço, António! Obrigado pelo desafio que me lançaste. Votos de um Futuro promissor para os teus filhos!

segunda-feira, março 23, 2020

COVID-19: A GESTÃO DA ANSIEDADE, 1

COVID-19: A GESTÃO DA ANSIEDADE, 1

Não olhes já para a meta. Não a vais ver, e ficarás aflito - podes sentir-te incapaz e indefeso.
Olha só para os passos que podes dar hoje. Um dia terás a meta à vista.
É uma corrida individual, mas não é solitária, estamos todos nela.
Boa prova!

domingo, fevereiro 16, 2020

Ninguém nasce ensinado, então por que razão as crianças fazem tudo bem?

Eu tinha pouca coisa para pesar e pagar. Estava com tempo.
À minha frente, na caixa de pagamento do bem apertado estabelecimento de frutas e legumes, no rés-do-chão do meu prédio, estava uma senhora e uma menina, bem pequenina, mal me chegava à cintura.
Não lhes via as faces, estavam viradas para o pequeno balcão de pesagem e pagamento. A menina, à direita da senhora.
A senhora esvaziou a cesta laranja que tinha pousada em cima do balcão. O senhor chinês, do lado de lá, ia pesando os sacos de plástico com as compras.
Cesta esvaziada, a senhora virou-se sobre o seu lado direito, e, pondo-o no chão, diz para a menina:
- Vá, vai arrumar ao pé dos outros.
A menina, sem dizer nada, pegou logo na cesta e, enquanto se dirigia para a entrada do estabelecimento, ainda ouviu a avó dizer-lhe:
- Se precisares de ajuda, chama-me.
- Não é p'eciso, avó.
Por um instante olhei mais demoradamente a avó, que se preparava, com o ar mais tranquilo deste mundo, para pagar, largando de vista a pequenina menina.
Passei então a olhar a menina. Ela caberia perfeitamente dentro da cesta, bastaria que se dobrasse sobre si mesma.
A menina pôs a cesta dentro do molho de cestas, com ligeireza; felizmente, só 4 ou 5 lá estavam, senão, a menina não teria altura suficiente para fazer o gesto necessário para encaixar a sua cesta dentro das outras.
O outro senhor chinês da pequena loja olhava a menina, ao pé dela, falava-lhe, mas deixava-a sozinha na sua tarefa.
É nesta altura que eu fico especialmente deliciado com o que a menina, sem que alguém lho encomendasse, passou a fazer.
Para ela, é lógico, é óbvio, que as cestas para as compras são para estar à entrada do estabelecimento - e entrada é mesmo entrada, logo ali à pontinha! Então, que fez ela: depois de pôr a cesta dentro das outras, não podendo pegar nelas, arrastou-o o molho das cestas, o qual, na avaliação dela, estaria demasiadamente para dentro do estabelecimento, ou seja, fora do lugar. E foi com precioso cuidado que alinhou a base das cestas com o bordo de entrada na loja! Ficou perfeito!
Olhou o senhor chinês, o senhor chinês sorriu para a menina e agradeceu-lhe a inteligente e muito prestável colaboração, absolutamente voluntária.
A menina chegou-se depois à avó, que, de mão direita estendida, recebia o troco.
- Já está, 'vó.
- Boa, eu também estou quase despachada... Já está, vamos.
Arrumou o troco dentro do porta-moedas, guardou o porta-moedas e, encostando a mão mansamente nas costas da neta, disse-lhe, sorrindo: «Vamos». Saíram, tranquilamente.
As crianças não nascem ensinadas. Então, por que razão sabem fazer as coisas assim tão bem feitas?
A razão não é uma só. São duas razões:
a primeira é ter uma avó assim, que intui o que a neta é capaz de fazer sozinha e sabe que de pequenino é que se torce o pepino;
a segunda é ter um senhor chinês que sabe quanto vale a mente de uma criança, que faz porque é capaz, e tem a intuição de que a vida é gregária, eu-sou-a-minha-comunidade.
A avó não agradeceu à neta porque não tem de agradecer, mostrou-se confiante e carinhosa como deveria ser. O senhor chinês agradeceu porque isso lhe competia, já que a menina teve um gesto voluntarioso de colaboração e ajuda.
Parece-me que a comunidade humana da minha rua se cumpriu neste pequeno nada, e uma valorosa cidadã está aqui a formar-se como bem deve ser. Porque a comunidade está envolvida na educação da criança. “É preciso uma aldeia inteira para educar uma criança.”, não é o que nos dizem ser um provérbio africano?