segunda-feira, novembro 04, 2019

COMO PODEMOS PENSAR O QUE NÃO CONHECEMOS?

COMO PODEMOS PENSAR O QUE NÃO CONHECEMOS?

Viagem pelas curvas e contra-curvas do Muro de Berlim

COMO PODEMOS PENSAR O QUE NÃO CONHECEMOS?
Sem informação, sem conhecer, podemos pensar com base em crenças, em estereótipos, e em preconceitos.
As crenças, os estereótipos, os preconceitos ajudam a pensar - não podemos passar sem eles! São atalhos, são filtros, de que a mente se serve para poder pensar mais, mais depressa e melhor.
O grande problema é quando as crenças, os estereótipos e os preconceitos são negativos. Também é problema quando os governantes, os deputados, os partidos; os donos e os protagonistas da comunicação social; os pais e os professores os usam perversamente e desonestamente e/ou ignorantemente na formação das mais jovens gerações.
Que os genuínos protagonistas da sã educação - que encontramos em muitos pais e em muitos professores - saibam sempre estar presentes e vencer esta cada vez mais importante batalha da Educação! A educação familiar e escolar; a educação formal e informal; a educação pública e privada.
 

sábado, novembro 02, 2019

Nada está na inteligência que não tenha estado antes nos sentidos


Há 30 anos que caminho para a escola, a dar aulas de Psicologia. Sim, começou em 1989.
Em Novembro de 1981 acabei o curso de Psicologia.
Em 1979 ouvi ao meu mestre João dos Santos, em muitas ocasiões - era uma frase de que ele gostava muito -, a frase que, afinal, eu já conhecia das minhas leituras livres dos filósofos pré-socráticos: «Nada está na inteligência que não tenha estado antes nos sentidos».
Há 30 anos que, todos os anos, os alunos me vêem a citar a frase.
Ontem reencontrei-a nos escritos de Comenius:
Efectivamente, porque nada pode ser objecto da inteligência que primeiro não tenha sido objecto dos sentidos, a mente recebe dos sentidos a matéria de todos os seus pensamentos e não pode desempenhar a função de pensar senão por meio da sensação interna, ou seja, contemplando as imagens abstraídas das coisas. Daqui resulta que, danificando o cérebro, danifica-se a faculdade imaginativa, e se os membros do corpo estão doentes, é afectada também a mente. Por isso, o poeta teve razão em dizer: "Deve pedir-se a mente num corpo são"».(1)
Os sentidos pedem o olhar - olhar e ver com olhos de ver; o ouvir - e para ouvir é preciso, tantas vezes!, que os professores se calem e se desliguem os aparelhos; pedem o cheirar - cheirar muito mais que os perfumes e os desodorizantes, e os ambientadores; pedem o saborear - e o desafio do saborear, e saborear não é apenas juntar açúcar ou muito sal; e, finalmente, pedem que se sinta com os dedos, as mãos, a pele, todo o corpo - se sintam os outros corpos e toda a Natureza. E quanto é bom irmos falando de tudo isso uns com os outros!
Olho à minha volta, observo os decisores políticos, os formadores dos professores, os professores dos alunos, os psicólogos conselheiros dos professores e os especialistas das ciências da educação. Olho e fico afligido com o que vejo: sabemos todos tão pouco! Sabemos todos cada vez menos! E, à medida que cresce a nossa ignorância, cresce a nossa arrogância no pouco que sabemos.
As salas de aulas no nosso País são, paradoxalmente - nós que temos uma luz natural que mais de meio mundo inveja! -, locais de (não)vida cada vez mais escuros: fecham-se as janelas, correm-se as cortinas, ligam-se os projectores, apagam-se as luzes -  e lá fora os dias estão tão lindos! Até os dias cinzentos, até os dias de chuva são lindos!
Há poucos dias ouvi uma conferência com três sumidades científicas no campo da maneira como aprendemos: um velho (e português), um assim-assim (estrangeiro) e uma jovem investigadora - o velho foi sábio, foi prudente; os outros dois deixaram-me a pensar como é fácil fazer duma árvore uma floresta, e duma andorinha a Primavera.
Dizia ontem o Pe. Vítor Gonçalves, na sua homilia do Dia de Todos os Santos, na Igreja de São Domingos, na Baixa de Lisboa, que não nos devemos resignar a passar como os outros passam, olhar e não ver, passarmos e sermos indiferentes - logo desde as coisas mais insignificantes do dia-a-dia..
Eu pensava que eu era assim só por causa do mau feito da minha avó Amélia, que nunca passava indiferente, e não importava o estatuto, a condição, os punhos rendilhados ou as convenções sociais delicadamente (ia a escrever doentiamente) sensíveis.
Afinal, parece que há valores que reclamam que a gente diga e aponte: são os valores que tentam que sejamos todos melhores uns com os outros - e a Educação é a mais nobre acção social e geracional de todo o Mundo.
Pronto, esqueçam o meu mau feitio, mas não se esqueçam da afirmação que também Comenius nos traz em eco.
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(1) Coménio, "Didáctica Magna", FCG, 2015, 6.ª edição, p. 198.

segunda-feira, outubro 28, 2019

CRESCE O EVITAMENTO AO CONTACTO DIRECTO COM O CONSUMIDOR

CRESCE O EVITAMENTO AO CONTACTO DIRECTO COM O CONSUMIDOR...
... e cresce o email como poderoso objecto contrafóbico

Dir-me-ão, ao ler o que a seguir vou escrever, que de uma andorinha faço a Primavera.

Seria isso, sim senhor, se fosse o primeiro caso que me ocorresse; e se eu não tivesse falado, até mais do que uma vez, nos últimos anos, nas redes sociais, em situações semelhantes.

Liguei para um dos números de telefone que a empresa indicava na Internet. Logo me respondeu uma senhora, «Sim, [o nome da empresa], o que deseja?»

Tentei ser breve, mas disse tudo o que precisava à senhora — o essencial, no fundo, era perguntar se tinham, e onde ficava, uma loja em Lisboa onde eu pudesse ir.
A senhora ficou em silêncio do outro lado da linha, dizendo-me depois: «Sim, temos uma loja em Lisboa, na Rua de São Bento, mas, olhe, espere um bocadinho, se faz favor…»
Esperei.
Desta vez a senhora demorou mais tempo… «Está lá, desculpe a demora, olhe, em vez de vir cá, o melhor é o senhor mandar um email…»
Bem, assim que a senhora falou no email, interrompi-a: «Minha senhora, desta vez quem pede desculpa sou eu. Ora vamos cá ver: à minha escola foi atribuído um equipamento, equipamento esse que é muito interessante e de que eu quero mais 2 ou 3 exemplares. A entidade que nos deu o equipamento disse-me que são os senhores que têm esses equipamentos à venda. Disse-lhe há pouco que, na sessão oficial em que o equipamento nos foi atribuído, eu vi um determinado modelo; na carta de confirmação que depois recebi, mandam-me uma fotografia dum modelo diferente; fui ao vosso ‘site’, e os senhores não têm nem um, nem outro - nem o que me deram, nem o da fotografia. A senhora já me disse que sim, que foi a vossa empresa que forneceu esses equipamentos, confirmou-me que não têm o modelo que forneceram à entidade no mostruário do vosso 'site', reconhece que isso certamente será um lapso,  e, como a senhora também já me disse, têm outros dois diferentes, e a senhora quer que eu escreva um email? A dizer o quê?...»
Novo silêncio da senhora; e depois: «O senhor tem razão, venha cá, a nossa loja está aberta das 9 às 19 horas, de segunda a sexta». «Obrigado! Num dia destes apareço aí, bons dias!» «Bom dia e obrigada!»
E desliguei.

domingo, outubro 27, 2019

A PEDAGOGIA DO PROFESSOR EMPREGADO DE CAFÉ

A PEDAGOGIA DO PROFESSOR EMPREGADO DE CAFÉ (1)
(transcrição integral do 'post' que publiquei hoje no Facebook)

Com toda a sinceridade, eu conheço muitos empregados de café cuja inteligência e capacidade de trabalho me fascinam extraordinariamente; mas imaginar assim os professores, sujeitos aos ditames de tantos (des)governantes da Educação, eh pá!, a caricatura é extraordinária!

E atenção! Se alguém me disser: «Ó Fernandinho, se querias atacar os ministros da Educação socialistas do nosso País, tira o cavalinho da chuva! Estás a ver que é um problema geral?», eu respondo: «Isto só me dá razão! É que a situação aqui identificada e analisada não é de TODOS as sociedades e sistemas educativos, mas tão só daqueles de que somos historicamente dependentes - e gostaria eu muito que desses sistemas imitássemos outras coisas, algumas delas excelentes exemplos de acolhimento e trabalho escolar.»
«Declaração [de Outubro de 2015] de Philippe Meyrieu, pedagogo, sobre as crianças de hoje:

"Vivemos, pela primeira vez, numa sociedade em que a grande maioria das crianças que vêm ao mundo são crianças desejadas. Isso implica uma reversão radical: antigamente, a família "criava filhos", hoje é a criança que faz a família. Ao cumprir o nosso desejo, a criança mudou de ‘status’ e tornou-se o nosso professor: não podemos recusar nada à criança, correndo o risco de nos tornarmos "maus pais"...
Esse fenómeno foi listado pelo liberalismo mercantil: a sociedade de consumo coloca, de facto, à nossa disposição uma infinidade de aparelhos que precisamos de comprar para satisfazer os caprichos dos nossos filhos.
Essa conjunção de um fenómeno demográfico e o surgimento do capricho globalizado, numa economia que faz com que as compras impulsionem a matriz do comportamento humano, prejudicam as configurações tradicionais do sistema escolar.
Por ter ensinado recentemente no CM2(1), depois de uma pausa de vários anos, não fiquei tão impressionado com a queda no nível quanto com a dificuldade extraordinária de conter uma turma semelhante a uma panela de pressão.
No geral, os alunos não são violentos ou agressivos, mas não ficam sossegados nos seus lugares. O professor precisa de gastar do seu tempo tentando construir ou restaurar um quadro estruturante. Ele é muitas vezes forçado a praticar uma "pedagogia do empregado de café", indo de um para o outro para repetir individualmente uma instrução dada coletivamente, acalmando alguns aqui, colocando outros de volta ao trabalho ali.
Ele é vampirizado por uma exigência permanente de interacção individual. Ele esgota-se a tentar diminuir a tensão e a recuperar a atenção dos alunos. No mundo do ‘zapping’ e da comunicação "em tempo real", com uma oferta permanente de efeitos que solicita uma reacção pulsional imediata, torna-se cada vez mais difícil "ir à escola". Muitos colegas preocupam-se diariamente com a impossibilidade de fazer o que Gabriel Madinier definia como a própria expressão da inteligência, "a inversão da dispersão".
Como alguns pais não criam mais os filhos em função do colectivo, mas a bem do seu crescimento pessoal, é de lamentar que a cultura tenha deixado de ser um valor compartilhado ".»
A pista é do Gonçalo Santos. Obrigado! Abraço!
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(1) Extracto duma entrevista ao "Le Monde", em 2 de Setembro de 2011.
(2) Escalão do sistema escolar francês.

terça-feira, setembro 03, 2019

BEM-VINDOS AO ANO LECTIVO 2019/20!

BEM-VINDOS AO ANO LECTIVO 2019/20!

Um valente viva! aos professores (do ensino público, cooperativo ou privado) que conseguem meter o Rossio na Rua da Betesga!

O jornalista do Observador ficou fascinado com o nosso colega director da reputadíssima Escola da Ponte, quando recentemente o entrevistou e escreveu assim:
«Chegámos tarde. José Pacheco já seguiu para outra, já rejeita que o centro seja o aluno, diz antes que centro é a relação entre professor e estudante, aquilo a que chama paradigma da comunicação. Veste o papel de entrevistador e não se inibe de responder a perguntas com outras perguntas, algumas que nem ele próprio sabe responder.»
Ora bem, como o jornalista cita logo a abrir o seu texto, “Só um burro não muda de ideias.” É isso mesmo! É que há muitos anos que muitos professores sabem aquilo a que agora o nosso colega da Escola da Ponte chegou - mais vale tarde do que nunca.
Não tenho dúvidas de que o processo de desenvolvimento pessoal e de liderança escolar do colega José Pacheco foi muito duro, muito tenaz. Mas outros professores, tantos!, com a sua nesgazinha de oportunidade, também têm feito coisas espantosas. E enquanto o colega da Escola da Ponte foi contando com a cumplicidade das inspecções ministeriais, muitos dos seus colegas ousadamente inovadores foram, desta ou daquela maneira, sendo cerceados por essas mesmas inspecções escolares - directamente, ou através dos órgãos directivos das escolas.
Repito, é isso mesmo! Até na mesma luta, uns têm sorte, e outros não.
É verdade: o "paradigma" da acção educativa que assenta no binómio professor-aluno há muito que existe nas escolas, quais vivências de Rossios em Ruas de Betesgas.
E digo mais: sugiro ao colega da Escola da Ponte que ouse um outro paradigma comunicacional, muito valioso e poderoso, e de que as sociedades humanas estão bem precisadas: o que privilegia a comunicação professor-grupo turma. Vá por mim, caro José Pacheco.
Repare, há quantos anos fomos nós encontrar nas culturas africanas o que agora tantas vezes repetimos? Isto:«Sozinhos vamos mais depressa [é o paradigma professor-aluno], juntos vamos mais longe [é o paradigma professor-grupo turma].
Um forte abraço para todos os meus colegas professores, e votos de um ano escolar cheio de prazer, humanidade, solidariedade e amor pela aprendizagem e pelo conhecimento!

sábado, julho 13, 2019

Os "descritores" do racismo

Nota prévia: este texto é a continuação directa do que eu escrevi e publiquei ontem (Espelho meu, espelho meu, que racistas pensas que sou eu?), pelo que será, na minha opinião, melhor entendido se for lido depois desse outro.

Mesmo que não conhecesse ainda a afirmação do Professor Adriano Moreira, que diz que um licenciado é alguém que tem licença para estudar sozinho, era já assim que eu tentava fazer.


A 'Roche' tinha naquela altura (anos 80 do século XX) uma série de livrinhos sobre psicofarmacologia, psicossomática e psiquiatria, a que eu tive acesso, nem sei como, e que muito gostei de ler.

Num deles, talvez no de Psiquiatria (não tenho o livro agora comigo, aqui em casa; está no armazém onde tenho os livros que já não cabem cá), encontrei uma secção que li com especial gosto, interesse e humor. Era a secção que falava da necessidade reconhecida em muitos médicos de fazerem o treino (hoje em dia diríamos: “frequentarem o workshop”), ou a habituação ao vocabulário grosseiro, do calão, das asneiras, quer dizer, de tudo o que estivesse ligado à anatomia sexual, às relações sexuais e às doenças sexuais. No fundo, por razões culturais e de educação, um grande número de médicos (e médicas...) não se sentia à vontade no uso de termos, tais como (e dou apenas 2 ou 3 exemplos, de alguns mais “mansos”) pila, picha, comer uma gaja, etc.

E nem eram apenas os pruridos ligados aos rigores e censuras morais da cultura dominante, eram também questões ligadas à riqueza da expressão vocabular da língua. Por exemplo, um dia, numa consulta numa escola de ensino especial, a mãe de um jovem rapazinho queixava-se que o filho tinha um problema com o São Lázaro... e São Lázaro para aqui, São Lázaro para ali, e eu já a arquitectar, entre outras coisas, uma fantasia delirante do rapaz, reactiva a uma imposta e muito severa educação religiosa... Mas não dava a bota com a perdigota... Até que finalmente percebi que o São Lázaro era a pilinha do menino. A senhora é que estava com vergonha de dizer pilinha - e nem sei se conheceria o educado pénis.

É isso, lembro-me muito bem quanto me diverti a imaginar tais “workshops” de desinibição moral e verbal; e cheguei até a participar em alguns, ad hoc, ou melhor, à balda, que fiz com alguns colegas (sim, de ambos os sexos).

E que tem tudo isto a ver com o racismo e os descritores do racismo?

É que a carga moral, a pressão política e sociológica, sobretudo de certos grupos de pressão, social e política, é tão grande que há palavras e frases que se tornaram malditas, autênticos tabus, mais inomináveis que o Inominável do Senhor dos Anéis. Mais: não só não podem ser ditas como nem sequer podem ser pensadas, em consequência dos processos de auto-culpabilização gerados pela assimilação passiva da quase-católica apostólica romana máxima, ou sentença, de que todos somos pecadores, perdão!, racistas. Pensar essas coisas é provar-se racista - atitude absolutamente condenável! Nem ao espelho assim me atrevo a olhar, quanto mais olhar as outras pessoas.

O que eu quero dizer é que temos de ser capazes de tirar a carga emocional e moralmente repressora excessiva que os ventos dos tempos lobbianos que correm põem em cima de coisas que temos toda a legitimidade para pensar e sentir sem sermos logo invadidos pelos sentimentos de culpabilidade que tanto matraquear sócio-político provocou (e continua a fazê-lo) na generalidade das pessoas.

Expressá-los é, então, afinal, enumerar os tais descritores. Alguns exemplos:
  1. Já alguma vez pensei que um preto cheira mal e que o seu cheiro me incomoda? Sim, já. E já alguma vez senti e pensei o mesmo em relação a um branco? Sim, quantas vezes!
  2. Já alguma vez pensei que aquele preto é um calão do caraças que quer ter tudo sem fazer nada? Sim, já. E já alguma vez senti e pensei o mesmo em relação a um branco? Ui, quantas vezes!
  3. Já alguma vez tive medo de um cigano e tive medo que ele me quisesse aldrabar ou roubar? Sim, já. E já alguma vez senti e pensei o mesmo em relação a um branco, ou em relação a um preto? Sim, também; sobretudo brancos.
  4. Já alguma vez pensei que aquele aluno, preto, é bestialmente arrogante e mal-educado? Sim, já. E já alguma vez senti e pensei o mesmo em relação a um aluno branco? Ui, quantas vezes!
  5. Já alguma vez senti vontade de mandar um preto para a sua terra? Não, nunca. E já alguma vez senti isso em relação a um branco? Sim, uma vez desejei, durante dois ou três anos seguidos, que um aluno branco não voltasse a matricular-se na escola no ano a seguir; e ele voltou sempre - que orgulho eu guardei da minha escola!, que sempre se mostrou disponível para o receber e aguentou sempre toda a sua maldade. Muita maldade, sobre as coisas e sobre os outros.

“Desconfio” que muita gente se reconhecerá nos pensamentos, nas vontades e nos sentimentos que expressei a título de exemplos dos “descritores” do racismo. Valem o que valem.

Duas ou três situações mais, apanhadas da minha experiência pessoal e familiar; e sem querer com elas, quais andorinhas, colorir Primaveras.
  • um dia, à mesa, em casa dos avós maternos, a minha sobrinha-neta, pequenita, com idade de início de escolaridade básica (nem sei mesmo se ainda no jardim-de-infância), fez questão de corrigir um dos avós que lhe falou de um dos meninos pretos lá da escola. «Ele não é preto, ele é castanho.»
  • a minha irmã, numa feira, regateava o preço de qualquer coisa que queria comprar. Fazia-o com tal denodo que a vendedeira lhe disse, divertida: «Ó senhora, olhe que a cigana sou eu...» E aquilo foi mesmo um divertimento!
  • esta agora é uma confissão. Já me aconteceu três vezes, com alunos da escola. Um deles ainda é meu aluno. Com os três (dois rapazes e uma rapariga) mantive contacto ao longo de meses - e contacto regular, porque ambos eram alunos de turmas que eu leccionava. Longe de mim a necessidade, ou sequer a consciência perceptiva da cor da pele - deles e dos outros. Até que um dia, colegas se referiram a eles como “pretos” e eles responderam com naturalidade ao chamamento. Em todos os casos reagi com espanto - nunca assim eu os havia identificado: pretos. Há quem diga que só ultrapassamos as barreiras do racismo quando somos capazes de olhar sem ver a cor da pele. Estes casos fizeram sentir-me muito bem comigo mesmo.

Pululam à nossa volta indivíduos e grupos com jeitos de Grandes Irmãos que nos vigiam e querem moldar o nosso pensamento, alguns deles servidos por estruturas formais e politico-partidárias organizadas, e a mãozinha deste ou aquele órgão da comunicação social; e o aconchego de certos interesses económicos. Que nos escrutinem tudo, mas que saibamos preservar a nossa liberdade de pensar. Lembremo-nos de Mandela e do poema, escrito por um jovem, que o inspirou: «Sou o senhor do meu destino / Sou o comandante da minha alma.»

quinta-feira, julho 11, 2019

Espelho meu, espelho meu, que racista pensas que sou eu?


  1. O muito lamentável texto da Professora Bonifácio sobre ciganos, africanos e afro-descendentes
    (sim, nunca disse pretos; e negros só 2 vezes, e, neste caso, para se referir às palavras de outros autores) teve o condão de pôr muita gente a discutir a questão de sermos ou não todos racistas - não interessa se declaradamente ou veladamente.
  2. Para tentar dar um contributo pessoal válido à discussão, procedi rapidamente a uma muito objectivamente focada investigação sociológica e obtive os seguintes resultados: 50% da amostra reconhece-se no grupo A: "Tento não ser..."; e os outros 50% no grupo B: "Eu não sou, mas..." Para estes resultados tão claros, uniformes e consistentes contribuíram, para o grupo A, 1 (um) indivíduo; para o grupo B, 1 (um) indivíduo também. Quer dizer, os resultados e as conclusões são incontestáveis.
  3. Em 2007, depois de subir o Quilimanjaro, desci à Ilha dos Amores, Zanzibar, também na Tanzânia. Na cidade que é Património da Humanidade, Stone Town, a generalidade dos restaurantes e a fantástica praça pública, aberta, onde todos os dias do ano se juntam, na maior diversidade étnica que eu alguma vez vi, livremente, pessoas (famílias, grupos de amigos, turistas, solitários; grupos homogéneos ou heterogéneos) a partir do pôr-do-sol, a comer e a beber, não se vendem bebidas alcoólicas - é que, mesmo que a religião muçulmana não seja a dominante, é muito assertiva e conseguiu impor a proibição das bebidas alcoólicas. Podemos bebê-las, mas temos de nos desenrascar para as comprar onde as houver, mas nos restaurantes e nas barraquitas da praça é que não as há - se quisermos beber vinho ou uma cerveja temos de levar essas bebidas connosco. Podemos bebê-las ali (até nos restaurantes!), mas comprá-las ali não temos hipóteses.
  4. Isto vem a propósito de haver hoje em dia, em Portugal (e não só, mas agora é de Portugal que eu quero falar) questões, assuntos ou temas que são acerrimamente expostos e tratados na Comunicação Social e das arenas políticas por gente muito aguerrida e auto-atribuída de valores e princípios que, no caso de que me ocupo agora (essencialmente, o racismo), está, essa gente, muito bem pensada e analisada no recente artigo de Gabriel Mithá Ribeiro, "A deficiência moral da esquerda branca e activista".
  5. Quer-me parecer (e isto é uma mera opinião, não é, de modo nenhum, o resultado de uma "investigação sociológica" como a que referi no ponto 2), que, nos tempos que correm, e, se calhar, em resultado dos processos em que nos viciámos inconscientemente pelas marcas de cultura que ao longo da vida fomos absorvendo, a "verdade" (que nos querem inculcar à força de muito matraquearem ) de que "todos somos racistas" é o substituto sociológico, cultural ou histórico da evidência cristã, doutros tempos, de outros séculos, de que "todos somos pecadores".
  6. Bem, mesmo um não-crente, se lhe perguntarem se ele é pecador (e como pecar é, basicamente, fazer coisas mal feitas), evidentemente, mesmo que não o diga para fora, ele vai reconhecer-se interiormente como pecador, já que é "estatisticamente", "matematicamente", impossível não pecar. Não nos diz a Voz do Povo que "errar é humano"?
  7. Só que - esperem aí! - pecar é uma coisa; ser racista é outra. Eu sou - sim senhor - pecador (mesmo não sendo crente), mas não sou racista. Pronto, tenho de admitir que, "às escondidas", eu também aceitei dizer "Não sou racista, mas..."
  8. Deixem-me contar outra experiência pessoal, também bem verdadeira (aliás, já a contei algures, por aí): quando eu estava a fazer recruta, já eu era psicólogo, um dos meus recém-camaradas tentava, desde o primeiro dia da nossa guerra, ser dispensado dela. Um dia diz-me: "Consegui que um psiquiatra me passe um atestado de doença mental e já o trago na semana que vem." Tentei demovê-lo disso, tentei, tentei, mas sem sucesso. Quando ele regressou ao quartel na semana seguinte, trazia o tal atestado, mas o semblante dele tornou-se sombrio, cabisbaixo: é que ele tinha lido o atestato (que eu li também, era um documento muito pormenorizado para para que não deixasse de ser convincente), e, ao fazê-lo, constatou que, na verdade, ele tinha muito daquelas coisas, por isso, afinal ele estava mesmo doente; e por isso talvez fosse até já inconscientemente que ele fora ter com o psiquiatra, para lhe pedir ajuda. Dois ou três dias depois, ele foi embora para casa num estado psicológico deplorável! Quanto eu maldisse aquele psiquiatra! Na primeira folga que tive, corri quase 200 quilómetros e fui vê-lo. Não consegui, só falei com a mãe, ele estava a dormir sob o efeito de poderosa medicação psiquiátrica...
  9. Ora bem, os tais muito aguerridos defensores de que todos somos racistas, no fundo, têm uma lista de "descritores" comportamentais do racismo, tal como as bulas psiquiátricas têm das várias doenças mentais. E então, quando somos confrontados com elas, pois é verdade que sim, eh pá, isto aqui, sim, lembro-me que fiz uma vez naquele dia; este outro, tenho de reconhecer, também, é verdade, até me lembro do dia da semana e da hora em que fiz aquilo. Pronto, sou pecador, sou racista; e é melhor não voltar a ler o atestado do meu camarada, não vá ficar convencido com a releitura daqueles descritores todos.
  10. O filme "Don Juan de Marco" mostra muito bem como a linha que separa a saúde e a doença mental é muito ténue, tão ténue que facilmente nos podemos reconhecer num ou noutro lado.
  11. Se é assim tão ténue, o que nos faz sentir, com segurança, no lado de cá da saúde? É a percepção que temos de nós mesmos, é a confiança que temos em nós mesmos, é a força das nossas convicções; e é a consciência de que podemos errar e, depois, assumir o erro, responder por ele e, se necessário, repará-lo.
  12. Por tudo isto, quando me olho ao espelho, cheio de satisfação, oiço-o dizer-me: "Fernando Jorge, tu és pecador, tu não és racista e podes ler o atestado psiquiátrico do teu amigo, à confiança. Mas és pecador, não te esqueças, mas só és mesmo isso." E já não é pouco!
  13. Já agora, lembras-te, Fernando Jorge, quando uma vez foste (foram já tantas!) ao tribunal testemunhar abonatoriamente a favor de um rapaz preto, teu antigo aluno? Lembras-te como saíste de lá vergado ao peso da humilhação que o juiz pôs em cima de ti e quanto essa ferida levou muito tempo a sarar? Só porque disseste que tinhas dado o teu número de telemóvel ao rapaz para ele te ligar caso precisasse de alguma coisa. E lembras-te de que só quando saraste a ferida da humilhação (profundamente injusta, cheia de fel, do juiz) sentiste, mesmo assim, admiração pelo juiz porque, no meio da maldade tão grande que ele te fez, nem uma única vez ele fez referência à cor da pele ou à etnia do teu querido aluno - sendo ele, o juiz, um exemplar típico do tipo humano branco, "caucasiano"?
  • Sobre a fotografia deste escrito: com dois filhos muito pequenos, em Macau, sem apoio da família, a minha mãe teve um problema ortopédico grave, que a obrigou a manter uma das pernas engessada de alto a baixo, durante muito tempo. Do quartel em que o nosso pai, 2.º sargento do Exército, trabalhava veio o Alfredo para ajudar a nossa mãe a cuidar de nós os dois, rapazinhos pequeninos. Um dia os nosso pais saíram e, quando voltaram, a nossa mãe foi encontrar o Alfredo à beira das nossas camas a dar-nos beijinhos.O Alfredo, assim apanhado, desfez-se, muito aflito, em desculpas e jurou por tudo nunca mais voltar a fazer o mesmo. A nossa mãe disse-lhe: "Ó Alfredo, dê os beijinhos que quiser aos meninos, e quando quiser, não tem de fazer isso às escondidas, dê os beijinhos todos que quiser." Não me lembro dos beijinhos do Alfredo, mas guardo dele uma memória terna muito grande que, aqui e ali, me tem ajudado a ser afectuoso, carinhoso e solidário - seja com quem seja. Curiosamente, as chinesas desconfiavam da nossa mãe: nós éramos tão loirinhos que elas pensavam que a nossa mãe nos dava qualquer coisa pouco saudável para sermos assim, elas não achavam possível haver assim crianças tão branquinhas e tão loirinhas. 

quinta-feira, maio 23, 2019

CRESCER E APARECER. A LEMBRAR O ADOLESCENTE PEREGRINO DE GUERRA JUNQUEIRO

ESPLENDOR E SOMBRA SOBRE A EUROPA, 9/12

CRESCER E APARECER. A LEMBRAR O ADOLESCENTE PEREGRINO DE GUERRA JUNQUEIRO

Depois de começar o capítulo "Universitas Vitae" a dizer que
«Chegado o último ano do velho século [está a falar do séc. XIX], chegou também o momento, há tanto tempo esperado, em que pudemos fechar atrás de nós a porta do odiado liceu»(1),
Stefan Zweig, umas páginas mais à frente, escreve:
«numa época em que tudo se absorve, onde é fácil estabelecer amizades e em que as diferenças sociais ou políticas ainda não estão anquilosadas, um jovem aprende realmente melhor o que é essencial no contacto com os que com ele se esforçam por avançar, do que com os superiores.»(2)
O trágico autor, aos poucos, toma consciência das turbulências interiores que o atraem e lhe pedem toda a dedicação pessoal que consiga:
«[…] No meu íntimo, era agora claro qual o caminho a seguir nos anos que aí vinham; ver muito, aprender muito, e só depois começar de verdade! 
[…] Talvez seja necessário fazer aqui um pequeno esclarecimento. A nossa época vive demasiado depressa um número excessivo de acontecimentos para conseguir manter deles uma memória fiel e não sei se o nome Emile Verhaeren ainda significa alguma coisa nos dias que correm. Verhaeren tinha sido o primeiro de todos os poetas franceses a tentar dar à Europa o que Walt Whitman deu à América: uma profissão de fé no seu tempo, uma profissão de fé no futuro. Começara a amar o mundo e queria conquistá-lo para a poesia. Enquanto que, para os outros, a máquina era o mal, as cidades eram o feio, o presente era a antipoesia, ele entusiasmava-se com cada nova descoberta, com cada feito da técnica e entusiasmava-se com o seu próprio entusiasmo, entusiasmava-se com plena consciência, para melhor sentir essa paixão. Os poemas iniciais deram origem a grandes hinos caudalosos. “Admirez-vous les uns les utres» era a sua sigla para os povos da Europa. Todo o optimismo da nossa geração, um optimismo que há muito se tornou incompreensível para a época de terrível regressão que hoje estamos a viver, encontrou nele a primeira expressão poética, e alguns dos seus melhores poemas ainda serão por muito tempo o testemunho da Europa e da humanidade com que então sonhávamos. »(3)
Que concluirão jovens adultos, quais adolescentes peregrinos, mendigos, arrimados ao cajado, agora, pouco mais de 100 anos depois, com as realidades dramáticas e esperançosas que o século que passou lhes mostra? Sim, o desafio é grande - e não pede senão dedicação.
________________________
(1) “O Mundo de Ontem, recordações de um europeu”, de Stefan Zweig (1942), publicado pela Assírio & Alvim, reimpressão de 2017, p. 118. 
(2) “O Mundo de Ontem, recordações de um europeu”, de Stefan Zweig (1942), publicado pela Assírio & Alvim, reimpressão de 2017, p. 145. 
(3) “O Mundo de Ontem, recordações de um europeu”, de Stefan Zweig (1942), publicado pela Assírio & Alvim, reimpressão de 2017, pp. 149-50. 

terça-feira, maio 21, 2019

EUROPEUS E REFUGIADOS; E REFUGIADOS EUROPEUS DENTRO DA PRÓPRIA EUROPA

ESPLENDOR E SOMBRA SOBRE A EUROPA, 8/12

EUROPEUS E REFUGIADOS; E REFUGIADOS EUROPEUS DENTRO DA PRÓPRIA EUROPA

No último capítulo do seu livro de memórias (dramaticamente chegadas ao momento do suicídio,
levado a cabo com a esposa), significativamente titulado "A Agonia da Paz", Stefan Zweig fala do tempo em que, já a fugir do ambiente que germinava a 2.ª Grande Guerra, se encontrava em Inglaterra.
«A queda da Áustria levou a uma alteração na minha vida privada, que comecei por considerar como absolutamente insignificantee meramente formal: fez.me perder o passaporte austríaco e tive de solicitar às autoridades inglesas a sua substituição por um papel branco, um passaporte de apátrida.»(1)

A estranheza, o absurdo em que se sentia, fá-lo escrever assim um pouco mais à frente:
«De um dia para o outro, voltei a descer mais um degrau. Ontem ainda hóspede estrangeiro e, por assim dizer, um gentleman que aqui vivia dos seus rendimentos internacionais e pagava os seus impostos, e agora um emigrante, um refugee. Tinha resvalado para uma categoria inferior, embora não desonrosa.»(2)
É, pois, já quase num aviso histriónico às novas gerações, Stefan Zweig se esforça para deixar claro na cabeça de todos:
«[…] Antes de 1914, a Terra era de todos. Cada um ia para onde queria e ficava o tempo que quisesse. Não havia autorizações, permissões, e divirto-me sempre ao ver o espanto dos mais jovens quando lhes conto que antes de 1914, andei pela Índia e pela América sem passaporte e sem nunca ter visto sequer um passaporte. Uma pessoa entrava num meio de transporte e apeava-se sem perguntar nada e sem que nada lhe fosse perguntado; das centenas de papéis que hoje são exigidos, não era preciso preencher um único. Não havia nem permits, nem vistos, nem maçadas; as mesmas fronteiras que, devido à desconfiança patológica de todos contra todos estão hoje transformadas numa barreira de arame farpado, com funcionários alfandegários, polícia, postos da guarda, não eram mais do que linhas simbólicas que se atravessavam com a mesma descontração com que se passa o meridiano de Greenwich. Só depois da guerra é que o mundo se viu abalado pelo nacional-socialismo, e o primeiro fenómeno visível desta epidemia espiritual do nosso século foi a xenofobia: o ódio ao outro ou, pelo menos, o medo do outro. Em todo o lado as pessoas protegiam-se do estrangeiro, em todo o lado ele se via excluído. Todas as humilhações outrora criadas exclusivamente para os criminosos eram agora infligidas ao viajante antes da viagem e durante a viagem. Uma pessoa tinha de se deixar fotografar do lado direito e do lado esquerdo, de perfil e de frente, com o cabelo tão curto que deixasse a orelha à vista; tinha de tirar as impressões digitais, primeiro só do polegar, depois de todos os dez dedos e, além disso, de apresentar certificados, certificados de saúde, de vacina, de boa conduta, boas referências, tinha de poder apresentar convites e endereços de parentes, tinha de oferecer garantias morais e financeiras, de preencher e assinar impressos em triplicado, em quadruplicado, e se faltasse um único elemento nesta pilha de folhas, estava tudo perdido.
Todas estas coisas podem parecer ninharias. E à primeira vista, pode até parecer niquento da minha parte mencioná-las. Mas foi com estas “ninharias” absurdas que a nossa geração desperdiçou absurdamente um tempo precioso e irrecuperável.»(3)
Teremos nós noção do essencial valor desta liberdade pessoal perdida? De quanto vale o que temos, e do que estamos em risco de perder? Seria, ainda há poucos meses, imaginável para nós pensarmos que voltaríamos -  como já está outra vez a acontecer aos portugueses! - a necessitar de um visto para entrar no Reino Unido?
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(1) “O Mundo de Ontem, recordações de um europeu”, de Stefan Zweig (1942), publicado pela Assírio & Alvim, reimpressão de 2017, p. 375. 
(2) “O Mundo de Ontem, recordações de um europeu”, de Stefan Zweig (1942), publicado pela Assírio & Alvim, reimpressão de 2017, p. 476. 
(3) “O Mundo de Ontem, recordações de um europeu”, de Stefan Zweig (1942), publicado pela Assírio & Alvim, reimpressão de 2017, pp. 377-8. 

domingo, maio 19, 2019

A IMPORTÂNCIA DOS VALORES NOS COMPORTAMENTOS DA CIDADANIA SOLIDÁRIA

ESPLENDOR E SOMBRA SOBRE A EUROPA, 7/12

A IMPORTÂNCIA DOS VALORES NOS COMPORTAMENTOS DA CIDADANIA SOLIDÁRIA

Crianças alemãs usando notas de marco para construir uma torre em 1923.
Ainda incrédulos com a tragédia da 1.ª Grande Guerra, os austríacos tentavam vencer o absurdo que muitos nunca tinham pensado que alguma vez pudesse acontecer. A brutal crise económica e financeira consecutiva à guerra, «em que, na Áustria, um ovo era tão caro como tinha sido um carro de luxo, e que esse ovo seria pago, mais tarde, na Alemanha, ao preço de quatro mil milhões de marcos - quase tanto como o valor de todas as casas da zona de Berlim anteriores à guerra»(1), pressionava todos os dias.
«Mas, surpreendentemente, o que acontecia era exactamente o contrário. A vontade de continuar a viver mostrou ser mais forte do que a instabilidade da moeda.»(2)
Afinal, os cidadãos austríacos, em razão do profundo desenvolvimento sócio-cultural acumulado gerações após gerações resistiam:
[…] Devido precisamente ao inesperado da situação — a desvalorização diária do dinheiro, outrora o valor mais estável —, as pessoas davam maior apreço aos autênticos valores da vida — ao trabalho, ao amor, à amizade, à arte e à natureza — e todo o povo vivia, no meio da catástrofe, de forma mais intensa e mais empolgante do que antes; rapazes e raparigas calcorreavam as montanhas e regressavam a casa tisnados pelo sol, os salões de baile ofereciam música até às tantas, por toda a parte surgiam novas fábricas e novas casas comerciais; eu próprio penso nunca ter vivido nem trabalhado mais intensamente do que naqueles anos. O que fora importante para nós antes da guerra, tornara-se mais importante ainda; nunca na Áustria amámos mais a arte do que naqueles anos de caos, porque a traição do dinheiro fazia-nos sentir que só a eternidade em nós era verdadeiramente imutável.»(3)
Sabemos agora que, mais uma vez, os valores - nobres, solidários - soçobraram perante  os seus contrários: os da competição, da rivalidade e dos nacionalismos egoístas - que desembocaram na ainda mais trágica 2.ª Grande Guerra.
Será que estamos, outra vez, a deixar que a esforçada tessitura congregadora, colaborativa e solidária do sonho dos fundadores do ideal da Europa Unida vai deixar-se vencer pelos que defendem as venenosas e ilusórias promessas populistas e divisionistas?
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(1) “O Mundo de Ontem, recordações de um europeu”, de Stefan Zweig (1942), publicado pela Assírio & Alvim, reimpressão de 2017, p. 344. 
(2) “O Mundo de Ontem, recordações de um europeu”, de Stefan Zweig (1942), publicado pela Assírio & Alvim, reimpressão de 2017, p. 345. 
(3) “O Mundo de Ontem, recordações de um europeu”, de Stefan Zweig (1942), publicado pela Assírio & Alvim, reimpressão de 2017, p. 345.