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terça-feira, julho 10, 2018

Professor - ensinar e aprender

Oferta da refeição, Escola Primária Piang Luang Sam, Tailândia.
«Se fores consciente enquanto ensinas os outros, estarás a ensinar-te ao mesmo tempo. Não penses que estás somente a ensinar os outros.» 
in Calendário da Floresta 2018 . 2561, Aruno Publications 2017

[If you are mindful while giving teachings to others, you will be teaching yourself at the same time. Don’t think that you are only teaching others.]

domingo, abril 30, 2017

OS PROFESSORES SÃO OS BOMBOS DA FESTA

Bombos da festa, ou maus da fita?
  • A festa é a Educação do Futuro, ou do Século XXI, ou outra qualquer, Rumo a Qualquer Coisa...
  • Nunca houve tanta gente preocupada e gente ocupada (os "especialistas") a produzir textos, materiais gráficos, vídeos - todos postos gratuitamente nas nossas mãos, de todas as formas e feitios! - e disponibilizar essa parafernália toda aos professores. A UNESCO é uma dessas honradas, competentes e bem-intencionadas instituições; mais: oficial e mundial!
  • Um exemplo de sugerida Pedagogia para a Aprendizagem (infelizmente e dramaticamente - estou a falar a sério!) muito necessária, a bem do Ambiente, e a bem do Futuro:

Estão vendo?, é fácil!, está tudo aqui, nem há que pensar mais, é só fazer... Nem o inglês é limitação, o que não falta por aí é uma bem numerosa colecção de tradutores automáticos. Ah, pois! Há também os colegas, os professores de Inglês, eles, quem sabe?, poderão dar uma ajudinha.
Bem a sério: qual é o pecado original desta sugestão gráfica? Vá, vamos pensar um bocadinho...
  • Uma pista para quem aceitar seguir a minha sugestão: é esta notícia que Ken Robinson "tuïtou" há 2 dias, "Primary school head and deputy quit over 'bland and joyless' curriculum" (em inglês, outra vez?...). (1)
    No fundo, o que dizem estes professores directores da sua escola: que estão fartos de directivas oficiais, de disposições legislativas, de planificação e normalização; de currículos essenciais, que façam a gestão economicista dos recursos escolares (humanos incluídos) - e, lá vem o poderoso aceno-papão!, preparem as crianças e os jovens para o Futuro!
  • Que fez, então, o casal de professores? Escreveram aos pais dizendo-lhes: "Assim não dá. Assim não é educar os vossos filhos..."
  • É mesmo, é simplesmente isto que se insiste em pedir aos professores - a bem da sacrossanta economia de mercado, da necessidade de produzir força de trabalho bem distribuída de acordo com antevisões e projecções bem excelianas - que façam tudo sem terem liberdade para nada.
  • Sejam criativos!, Honrem a nobre missão social de que estão investidos!, Levem às crianças que as sociedades vos confiam à Expansão Pessoal da Criatividade, da Alegria, da Realização Pessoal, da Solidariedade!, da Amizade!, do Amor pelo Ambiente! E, pois claro, que sejam Empresários de Sucesso!
Sim... é só mesmo isto que se pede hoje aos professores... Só isto.


________________________
(1) A tradução automática do Twitter escreve-nos assim: "Cabeça de escola primária e vice para no currículo 'sem graça, sem alegria'

sábado, janeiro 02, 2016

Medos ancestrais à tona. A propósito dos refugiados sírios.

«Uma criança, um professor, um livro e uma caneta podem mudar o mundo.»
Atenas, Grécia, Dezembro de 2015. Enquanto houver crianças assim - e é da sua
natureza serem assim, haverá sempre esperança; haverá sempre motivos que nos
 galvanizem e façam querer estar na linha da frente da solidariedade e comunhão.
Esta é a célebre frase de uma adolescente paquistanesa, já ouvida no grande palco das Nações Unidas. Adolescente Malala, candidata a prestigiantes Prémios da Paz; e vencedora, mesmo que não em todas as candidaturas.

Malala é a razão de um livro, escrito em jeito de bandeira na luta pela Liberdade e pelo direito à Educação.
«A todas as meninas que enfrentam injustiças e que foram silenciadas. Juntas seremos ouvidas.»,
É assim, com esta dedicatória que Malala, e quem dela recolhe as memórias, abrem o livro.
O seu nascimento foi um acontecimento decepcionante - porque nasceu uma menina.
"Quando nasci, os habitantes da nossa aldeia exprimiram o seu pesar à minha mãe e ninguém deu os parabéns ao meu pai." (p. 23)
As meninas são acontecimentos natalícios não desejados na cultura de origem da Malala.
Até onde estará Malala disposta a ir... Até onde conseguirá ela ir?... Até onde permitirão que ela vá?...
Quem rodeia Malala?... O que quer quem a rodeia?... Quem a educa?... Quem a apoia?... Quem a seduz?... Quem quer tirar proveito dela?...
Que poder tem, de facto, uma criança? E um professor? E um livro? E uma caneta?
Há encanto no que Malala - ou alguém por ela - diz da sua família, dos antepassados que fazem a história e a identidade do Povo a que pertence e de que se orgulha.
O livro de Malala foi trazido a público em Outubro de 2013 (já o Papa Francisco tinha estado em Lampedusa, provavelmente enquanto o livro ainda se ultimava).
Que boa fé povoava a mente de quem escreveu o parágrafo que a seguir transcrevo?
Os nossos antepassados chegaram ao Vale de Swat no século XVI, vindos de Cabul, onde tinham ajudado um imperador da dinastia timúrida a reconquistar o trono após a sua própria tribo o ter deposto. O imperador recompensou-os com posições imdo autor portantes na corte e no exército, mas os seus amigos e familiares avisaram‑no de que os Yousafzai estavam a tornar-se tão poderosos, que o iriam destronar. Por isso, certa noite, convidou todos os chefes para um banquete e lançou os seus homens sobre os Yousafzai, enquanto estes estavam a comer. Foram massacrados cerca de seiscentos chefes. Apenas dois escaparam e fugiram para Peshawar juntamente com os homens da sua tribo. Após algum tempo, foram visitar algumas tribos no Vale de Swat para granjear o seu apoio de modo a conseguirem regressar ao Afeganistão. Porém, ficaram tão cativados pela beleza de Swat, que decidiram, em vez disso, ficar aqui e forçaram as outras tribos a sair. Os Yousafzai dividiram toda a terra entre os membros masculinos da tribo. (p. 32)
Em Lampedusa, em Lesbos, em Paris, em Atenas, que estado de consciência povoaria a mente do autor se (re)escrevesse o parágrafo agora, com tantas portas de medo que se têm fechado por tanta e oficial Europa (sim, oficial, que a Europa dos cidadãos não é exactamente a mesma)?
Não confirma o parágrafo o temor que tanto agitam em tanta comunicação social? Que razões assitem hoje a todos os temerosos?
Que podem o professor, o livro e a caneta fazer à criança para que o Futuro seja outro, diferente do que foi a "vitória" da experiência de refugido do orgulhoso Povo de Malala?
De que maneira são os Povos capazes de olharem as gestas e as epopeias das suas Histórias - por exemplo, de Marítimas Descobertas e Escravaturas massivas atravessando gloriosos mares - à luz dos ideais de Liberdade, Igualdade e Fraternidade que continuamos a tanto tentar que iluminem e guiem as relações entre os Povos; e mesmo dentro de cada Povo?
Malala, ela própria, será menina capaz de olhar, ousadamente, de outra maneira, as fascinantes histórias ouvidas aconchegada aos joelhos de seu pai e avós?
Tão importantes são os professores! O pai de Malala é professor.
Será que a História nos mostra que é impossível ser de outra maneira, que a competição entre as Culturas vencerá sempre sobre a cooperação? Será que podemos fazer a História de outra maneira?
Como canta o Tim dos Rio Grande:
"Mestre-escola diga lá se for capaz / P'ra que lado é que me viro, p'ra que lado?"

segunda-feira, agosto 25, 2014

Os drones, à entrada do novo ano escolar

Está prestes a começar outro ano escolar.
Oficialmente, deliberadamente, por imperativos políticos, económicos e financeiros, a condição do professor apouca-se, degrada-se; em proporcionalidade inversa às exigências que o Ministério da tutela impõe e que largos grupos da Sociedade, carentes cada vez mais de cada vez mais coisas, aceitam - umas vezes passivamente, mas acomodadamente; e outras vezes, mesmo agressivamente.
http://www.alexchiodi.com.br/vereador-
retoma-discussao-sobre-o-ciclo-educacional/
Entretanto, ao lado desta triste e lamentável situação sócio-profissional, as crianças e os jovens continuarão a ir para a escola dispondo-se, desejando, confiando; quiçá mesmo, ansiando - sempre legitimamente! -, que os professores os ajudem a aprender e a entender um pouco melhor o Mundo - o que os rodeia, na casa e na escola; e o que sem parar, intensivamente, agressivamente, lhes entra pelos sentidos e pelos poros, nas televisões, na Internet, por todo o lado! 24 horas por dia.
Nova Iorque é a cidade que não dorme, acaba de mo confirmar, por testemunho pessoal, o meu amigo Luís Moniz. O Mundo transformou-se, ele, também, numa gigantesca Nova Iorque, e hoje em dia podemos estar em nossas casas a assistir o que acontece, seja onde seja, seja a que horas seja. O Mundo é uma Nova Iorque também cheio de bairro periféricos, pobres, degradados, anónimos, impessoais; o Mundo é a cidade de Nova Iorque que tanto desconforto deu a Eça de Queiroz, e que, provavelmente, ele nunca compreendeu, nem assimilou totalmente, fosse nas marcas da Civilização que lá encontrou, fosse nas marcas da negação da Civilização que também lá encontrou abundantemente, e que tão longe estava da Civilização que ele tinha como ideal; muito lucidamente, Eça percebeu que Nova Iorque não era modelo para ninguém, que o Progresso e o Bem-Estar teriam - se algum modelo de Progresso e Bem-Estar fosse desejável - de ser procurados noutro lado.
Num interessante e curto artigo publicado hoje no jornal Público, Francisco Louça fala de "este progresso são drones a bombardear aldeias, são consolas a comandar guerras, são algoritmos financeiros a arrasar o mundo."
Precisamente, é Nova Iorque uma das grandes capitais mundiais destes drones, destas consolas e destes algoritmos financeiros. Nunca fui a Nova Iorque, nem tenho vontade de lá ir. De Nova Iorque, a única coisa que verdadeiramente gosto é a interpretação deste miúdo, que nem o próprio autor da canção conseguiu alguma vez interpretar com tanta alma, com tanto dar de si mesmo, simbolicamente visível nas traições que a mudança de voz exibe em desafinações aqui e ali, e, sobretudo, naquele vaso sanguíneo do pescoço que a todo o instante parece que vai rebentar; e que no final, perante os aplausos, diz "Obrigada!"
A generalidade das crianças e dos jovens que os professores apanham nas escolas são assim, ou estão dispostos a sê-lo: entusiastas, ávidos por desenvolverem as capacidades pessoais; prontos para nisso serem ajudados por quem tem competência para os educar e confiando, de boa fé; e nenhum professor se pode negar a corresponder a estas expectativas! Sejam quais sejam os obstáculos e as dificuldades que governantes, inspecções, encarregados de educação e outros lhes plantem no caminho.
Na nossa sociedade, não é mais possível viver sem drones, consolas e algoritmos financeiros. Quem sabe falar deles?... Quem os entende?... Quem os domina?... Quem não se sente incomodado por eles?... Quem não foi já, de alguma forma, atingido e prejudicado por estas coisas que os poderosos políticos e financeiros do Mundo, da capital Nova Iorque, a verdadeira e as simbólicas, sem dormirem, criam e infiltram perversamente nas nossas vidas?...
Mas é aos professores que cabe sempre a tarefa de enfrentar, com lucidez, e mesmo que com medo, estas interrogações, estas realidades, ao pé dos seus alunos. Se ninguém entende, a nós, professores, cabe o desafio de ir um pouco mais além; além do que os pais também, cheios de angústia, não sabem explicar aos filhos. Não recusemos nunca este combate!
Os professores é que estão sempre na linha da frente, num frente a frente institucional e formal, que parece cada vez mais uma trincheira de guerra. Aos professores cabe a desafiante e irrecusável tarefa de fazer da trincheira, em que a sala de aula e a escola quase se tornaram, o espaço de encontro que notavelmente, há 100 anos, os soldados alemães e russos tomaram a iniciativa de fazer no Natal de 1914, aproximando-os dos franceses e seus aliados, num exemplo real, vivo, que deve ser para nós, em todos os encontros das nossas vidas , modelo de diálogo, tolerância e convívio humano; sobretudo por nos terem mostrado, em bem concreto risco de vida ou morte, a profunda humanidade que está antes e depois dos mais vis absurdos da guerra dos poderosos do Mundo.

domingo, janeiro 05, 2014

Ser bom professor com Ricardo Araújo Pereira

E, de repente, aparece Ricardo Araújo Pereira a trazer-me à consciência a pergunta:
http://problemasteoremas.wordpress.com/2008/07/22/
dois-comboios-e-duas-cidades/
- Será, na verdade, possível ser-se bom professor se não se entender isto e se não se lidar com prudência e sabedoria com estas diferenças?...
Vem na Visão, na edição de 2 de janeiro de 2014:
"O escritor brasileiro Luís Fernando Veríssimo percebeu que se interessava mais por letras do que por números quando, em criança, o professor de matemática lhe colocou aqueles problemas do costume. "Um comboio parte do ponto A às 8h00 e viaja a uma velocidade média de 100 km/h. Outro comboio parte do ponto B duas horas mais tarde e depois segue a 80 km/h. Determine a que horas vão os comboios encontrar-se no ponto C, sabendo que, etc." Em vez de calcular a resposta, Veríssimo punha-se a imaginar quem seriam os passageiros dos comboios, por que razão iriam do ponto C àquela hora da manhã, ou quem os esperaria lá."

segunda-feira, setembro 02, 2013

O almofariz da Escola Portuguesa atual

Sou professor dedicado à escola pública.
http://1.bp.blogspot.com/-pgeFEMUhvZQ/UPgmUNjVyxI/
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Regresso hoje ao trabalho (sem que dele saísse completamente durante as férias... Tantas coisas boas encontrei, delas logo fazendo desejo de trazer a alunos e colegas!), com o entusiasmo renovado dos outros anos.
Sinceramente penso que o grande desafio dos professores - e dos pais dos alunos! - continua a ser a vitória sobre a escola de que fala Guerra Junqueiro neste seu poema. Aliás, do meu pensamento sobre a escola atual faz parte a convicção de que a "estupidez decretada" e  "esse almofariz" estão mais presentes do que nunca!
Acredito nos professores dedicados. Acredito na vontade de muitos de se tornarem professores dedicados. Assim ganharemos os alunos, até mesmo os mais renitentes à escola e aos professores! Todos os alunos merecem a dedicação dos professores!
Vivemos tempos em que muito teremos - nós, os professores -  de nos esforçar contra o tutelar ministério e a estupidez decretada. Se estivermos unidos será mais fácil.

A Escola Portuguesa


Eis as crianças vermelhas 
Na sua hedionda prisão: 
Doirado enxame de abelhas! 
O mestre-escola é o zangão. 

Em duros bancos de pinho 
Senta-se a turba sonora 
Dos corpos feitos de arminho, 
Das almas feitas d'aurora. 

Soletram versos e prosas 
Horríveis; contudo, ao lê-las 
Daquelas bocas de rosas 
Saem murmúrios de estrela. 

Contemplam de quando em quando, 
E com inveja, Senhor! 
As andorinhas passando 
Do azul no livre esplendor. 

Oh, que existência doirada 
Lá cima, no azul, na glória, 
Sem cartilhas, sem tabuada, 
Sem mestre e sem palmatória! 

E como os dias são longos 
Nestas prisões sepulcrais! 
Abrem a boca os ditongos, 
E as cifras tristes dão ais! 

Desgraçadas toutinegras, 
Que insuportáveis martírios! 
João Félix co'as unhas negras, 
Mostrando as vogais aos lírios! 

Como querem que despontem 
Os frutos na escola aldeã, 
Se o nome do mestre é — Ontem 
E o do discíp'lo — Amanhã! 

Como é que há-de na campina 
Surgir o trigal maduro, 
Se é o Passado quem ensina 
O b a ba ao Futuro! 

Entregar a um tarimbeiro 
Um coração infantil! 
Fazer o calvo Janeiro 
Preceptor do loiro Abril! 

Barbaridade irrisória, 
Estúpido despotismo! 
Meter uma palmatória 
Nas mãos dum anacronismo! 

A palmatória, o açoite, 
A estupidez decretada! 
A lei incumbindo a Noite 
Da educação da Alvoradal 

Gravai na vossa lembrança 
E meditai com horror, 
Que o homem sai da criança 
Como o fruto sai da flor. 

Da pequenina semente, 
Que a escola régia destrói, 
Pode fazer-se igualmente 
Ou o assassino ou o herói. 

Desta escola a uma prisão 
Vai um caminho agoireiro: 
A escola produz o grão 
De que a enxovia é o celeiro. 

Deixai ver o Sol doirado 
À infância, eis o que eu vos peço. 
Esta escola é um atentado, 
Um roubo feito ao progresso. 

Vamos, arrancai a infância 
Da lama deste paul; 
Rasgai no muro Ignorância 
Trezentas portas de azul! 

O professor asinino, 
Segundo entre nós ele é, 
Dum anjo extrai um cretino, 
Dum cretino um chimpanzé. 

Empunhando as rijas férulas 
Vós esmagais e partis 
As crianças — essas pérolas 
Na escola — esse almofariz. 

Isto escolas!... que índecência 
Escolas, esta farsada! 
São açougues de inocência, 
São talhos d'anjos, mais nada. 

(Guerra Junqueiro [1850-1923], in 'A Musa em Férias')

sábado, junho 01, 2013

QUE INFELIZ PRÉDICA SOBRE OS VALORES! A REPUDIAR!


QUE INFELIZ PRÉDICA SOBRE OS VALORES! A REPUDIAR!
Padre Anselmo, tanta atenção que tento dar aos seus textos!... Este é bastante infeliz. No fundo, é a velha e perversa recomendação beata, da má religião, de mansidão aos pobres e o perdão compreensivo aos ricos, no fim de uma Psicologia dos Valores tão fragilmente exposta; e depois do estafado dedo acusador ao dinheiro, o vil metal.
Repare o que tão discretamente pretende deixar inculcado nas nossas cabeças! Repare quem designa na falta de valores (ex-presidentes da República, bispos, professores, padres, pais e mães, educadores). Repare quem designa como sendo infelizes (os ricos). Repare quem designa na felicidade (os da sobriedade, quer dizer, os pobres). Repare quem escapa a qualquer designação, sobretudo comprometedora: os políticos que governam e tomam decisões!...
COMO PROFESSOR, COMO EDUCADOR, COMO "SÓBRIO", COMO CIDADÃO, REPUDIO ESTA SUA PRÉDICA, senhor padre Anselmo! O senhor, assim, não é nada cristão!
Quero muito que os meus alunos não se deixem enganar por este tipo de discurso!
http://www.dn.pt/inicio/opiniao/interior.aspx?content_id=3251231&seccao=Anselmo+Borges&tag=Opini%E3o+-+Em+Foco&page=-1

sábado, abril 20, 2013

Oa alunos-peixes das nossas escolas

http://fictionthatmatters.tumblr.com/post/23042909665/
techedblog-everybody-is-a-genius-but-if-you
Falei ontem, ao final do dia, ao telefone, com a mãe de um aluno de uma escola de Lisboa.
A senhora ligou-me, essencialmente queria desabafar a tensão em que a conversa que tivera com a diretora de turma do seu rapaz mais uma vez a deixara. Conheço a senhor e o rapaz já há tempo suficiente para se terem consolidado relações de amizade pessoal entre nós.
O rapaz anda no ensino básico; é muito inteligente, mas a escola, como se diz popularmente, tem sido madrasta para ele. Lembrei-me, enquanto conversava com a mãe dele, do peixe da história de Einstein.
A Internet, na complexidade espantosa de que tantos de nós se tornaram dependentes, divulga uma afirmação cuja autoria, como quase sempre, é disputada por vários cientistas e pensadores importantes, a maioria dos quais sem sequer saber como foram chamados para tal disputa. No caso da afirmação em questão, quem leva, por agora, a camisola amarela é Albert Einstein.
A frase é poderosa, a situação real que ilustra é dramaticamente verosímil - é mesmo uma situação comum nas nossas escolas. Eu diria, é cada vez mais comum nas nossas escolas, onde eu vejo a qualidade e a competência dos professores aproximar-se da apreciação geral que sempre, ao longo de toda a sua vida, Rómulo de Carvalho foi fazendo acerca dos professores; e que eu me tenho obstinado, até agora, a não aceitar.
Diz assim a frase:

“Everybody is a genius. But if you judge a fish by its ability to climb a tree, it will live its whole life believing that it is stupid.”

(Toda a gente é um génio. Mas se julgamos um peixe pela sua capacidade de subir uma árvore, ele passará toda a sua vida a pensar que é estúpido.)

É essencialmente isto que, no meu entender, acontece em tantas escolas, com tantos professores: só têm a árvore para oferecerem aos seus alunos e quem não é macaco... pois é, está lixado!
Nem a malfadada Crise justifica o comodismo (agora não se diz comodismo, diz-se incapacidade de sair da sua zona de conforto), a falta de esforço - e de respeito! - dos professores pelos seus alunos e pela qualidade das suas aulas.
Lembro-me, agora de uma outra afirmação, que ouvi atribuída a Salazar, que diz mais ou menos assim:
"O grande problema nem é as coisas que se dizem ou que se fazem; o grande problema é as coisas que se inventam para justificar o que se diz ou o que se faz..."
É, é verdade, o que é confrangedor - e muito dramático! - é o que se inventa para justificar as coisas com que aos poucos vamos desgraçando a vida de tantos dos nossos alunos - que têm o azar de serem diferentes de nós e de não corresponderem imediatamente à imagem do que a gente quer que eles sejam.

terça-feira, abril 03, 2012

Agostinho da Silva, a cultura, a educação e... a matemática

Na edição do ano passado da Semana do Mar da Horta, na ilha do Faial, comprei um pequeno livrinho, editado pelo FaiAlentejo, em 2006. Trata-se da publicação das atas do III.º CICLO AGOSTINIANO AÇORES, dedicado ao tema da Cidadania e Ambiente no Pensamento de Agostinho da Silva.
Só agora encontrei ocasião de ler este pequeno livro, e parece-me oportuno, agora que se volta a falar em reforma curricular do ensino primário e secundário, destacar duas ou três coisas da comunicação de Mário Cabral, "A 'Cidade de Deus' em Santo Agostinho de Portugal:

  1. A forte defesa, por vezes ingénua, do "bom selvagem", em contraponto com o mundo contemporâneo ocidental, nunca atinge, porém, o ponto de cegar o autor no que respeita à esperança depositada na revolução tecnológica que, no seu entender, funcionará como uma espécie de redenção da queda em que se encontra a Humanidade, espécie de círculo que se fecha e rosto que se encontra depois de se ter perdido.
  2. [como nota de rodapé, para explicar o que é o "bom selvagem"] TP II, "Educação em Portugal", 89-151, 92: "Acreditando, pois, que o homem nasce bom, o que significa para mim que nasce irmão do mundo, não seu dono e destruidor [...]".
  3. "[...] o professor deve sempre aparecer ao seu discípulo como uma pessoa de cultura perfeita; por cultura perfeita entenderemos tudo o que pode contribuir para lhe dar uma base moral inabalável, sem subserviências nem compromissos".
  4. "É esta a minha noção de cultura: tornar melhor a vida das pessoas. Começar pela alimentação, pelo vestuário, pela saúde, pelo ensino".
  5. Não se poderá jamais falar de cultura enquanto houver opressores e oprimidos. Agostinho da Silva é deveras sensível à condição infantil, mais até do que à feminina, escandalizando-se com o modo como a escola perverte a natureza do "bom selvagem", orientando-o para aquilo que chama ser civilizado. Cf. TP II, "Educação de Portugal", 89-151, 108.
  6. TEF II, "Pensamento em Farmácia de Província", 310: "[...] já que matemática é apenas uma parte do pensar e talvez o sonhar lhe seja muito maior".
(aversão integral do texto pode ser encontrada aqui:  http://www.jornaldepoesia.jor.br/A%20CIDADE%20DE%20DEUS.pdf)

domingo, fevereiro 26, 2012

O Professor Daniel Sampaio, a aprendizagem construtiva dos alunos, as aulas e os professores.

Professor Daniel Sampaio,
Espero que não tenha dito exatamente assim a afirmação que lhe é atribuída pela jornalista Clara Soares no artigo "Um avô, dois netos, um livro", da edição n. 990 da Visão (p. 89): "É preciso ajudar os alunos a construir a aprendizagem e não pô-los sentados durante 90 minutos a ouvir o professor."
Tenho a opinião de o que os leitores precisam de pessoas, especialistas, consagradas na Comunicação Social, como é o caso do Professor Daniel Sampaio, é que o seu génio as ponha a dizer coisas bem para além, com muito mais valor, do que o que está contido naquela afirmação.
A dicotomia, radical, subjacente à forma "É preciso... e não...", convenhamos, é de utilidade e de eficácia muito duvidosas. Se, na verdade, queremos ajudar os alunos, os pais e os professores nessa coisa hipercomplexa e hiperdeterminada que é, hoje em dia, a gestão do direito de todos à educação, ao ensino e à aprendizagem; e se, de facto queremos dizer-lhes alguma coisa interessante e útil, que congregue a compreensão e o esforço de todos eles (já que os - eternos! - problemas com os decisores políticos são o que todos nós sabemos), tal dicotomia é - pelo menos, parece-me - absolutamente infrutífera, quiçá mesmo, pouco inteligente e contraproducente.
Concordará comigo que, no mínimo, a afirmação deveria ter sido formulada de maneira aberta e realmente viável, por exemplo, da seguinte maneira: "É preciso ajudar os alunos a construir a aprendizagem, para além de (ou, não basta) pô-los sentados durante 90 (ou 60... ou 45... ou 50... ou...) minutos a ouvir o professor."(1)
Professor Daniel Sampaio, é ou não é preciso pôr os alunos a ouvir os professores?... (2) Sim, concordo, está a ver, esta pergunta tem também o radicalismo que eu critico na sua.
É mesmo, as palavras às vezes são mesmo complicadas!... A gente tem mesmo de ter cuidado com as palavras que diz. Então no seu caso, que sabemos que muito gente o ouve e o lê. Não devemos bastar-nos a querer dizer coisas só porque produzem um determinado efeito, ou impacto, na comunicação social ou nos grupos alvo que temos em mente.
Entretanto, terei todo o prazer em conhecer as experiências pedagógicas que o senhor Professor conhece e que sustentam a afirmação, repito, que a jornalista lhe atribui.

(1) E isto é praticamente estar a dizer que os alunos que constroem a aprendizagem não o conseguem fazer nas aulas em que ouvem os professores, o que não é, de todo, verdade! Nem Piaget foi alguma vez tão radical, mesmo quando disse que "tudo o que se ensina à criança é um obstáculo à sua capacidade de descobrir e inventar!" Basta que não tomemos ensinar como sinónimo de ouvir, por exemplo.
(2) Tanto que o senhor Professor diz que os pais devem ouvir os filhos!... E o contrário, não?...

quarta-feira, outubro 05, 2011

Dia Internacional do Professor, 2011

Na edição desta ano do Dia Internacional do Professor, proponho a leitura dos seguintes textos:

O primeiro é de um jovem do Canadá, de 15 anos de idade, lido no Dia Internacional do Professor, em 2002, nas Nações Unidas:
"What we need are good teachers who can get you to question yourself and what you know about the world, and who build communities in schools. Good teachers are what we need" (Nikki Sanchez-Hood, 15yrs, Canada)
(http://portal.unesco.org/education/en/ev.php-URL_ID=5217&URL_DO=DO_TOPIC&URL_SECTION=201.html)


O segundo tem a chancela do mestre Agostinho da Silva, que tive ainda a felicidade de conhecer pessoalmente e de o visitar em sua casa:
O Professor como Mestre
Não me basta o professor honesto e cumpridor dos seus deveres; a sua norma é burocrática e vejo-o como pouco mais fazendo do que exercer a sua profissão; estou pronto a conceder-lhe todas as qualidades, uma relativa inteligência e aquele saber que lhe assegura superioridade ante a classe; acho-o digno dos louvores oficiais e das atenções das pessoas mais sérias; creio mesmo que tal distinção foi expressamente criada para ele e seus pares. De resto, é sempre possível a comparação com tipos inferiores de humanidade; e ante eles o professor exemplar aparece cheio de mérito. Simplesmente, notaremos que o ser mestre não é de modo algum um emprego e que a sua actividade se não pode aferir pelos métodos correntes; ganhar a vida é no professor um acréscimo e não o alvo; e o que importa, no seu juízo final, não é a ideia que fazem dele os homens do tempo; o que verdadeiramente há-de pesar na balança é a pedra que lançou para os alicerces do futuro.
A sua contribuição terá sido mínima se o não moveu a tomar o caminho de mestre um imenso amor da humanidade e a clara inteligência dos destinos a que o espírito o chama; errou o que se fez professor e desconfia dos homens, se defende deles, evita ir ao seu encontro de coração aberto, paga falta com falta e se mantém na moral da luta; esse jamais tornará melhores os seus alunos; poderão ser excelentes as palavras que profere; mas o moço que o escuta vai rindo por dentro porque só o exemplo o abala. Outros há que fazem da marcha do homem sobre a Terra uma estranha concepção; vêem-no girando perpetuamente nos batidos caminhos; e, julgando o mundo por si, não descobrem em volta mais que uma eterna condenação à maldade, à cegueira e à miséria; bem no fundo da alma nenhuma luz que os alumie e solicite; porque não acreditam em progresso nenhuma vontade de melhorar; são os que troçam daquilo a que chamam «a pedagogia moderna»; são os que se riem de certos loucos que pensam o contrário.
Ora o mestre não se fez para rir; é de facto um mestre aquele de que os outros se riem, aquele de que troçam todos os prudentes e todos os bem estabelecidos; pertence-lhe ser extravagante, defender os ideais absurdos, acreditar num futuro de generosidade e de justiça, despojar-se ele próprio de comodidades e de bens, viver incerta vida, ser junto dos irmãos homens e da irmã Natureza inteligência e piedade; a ninguém terá rancor, saberá compreender todas as cóleras e todos os desprezos, pagará o mal com o bem, num esforço obstinado para que o ódio desapareça do mundo; não verá no aluno um inimigo natural, mas o mais belo dom que lhe poderiam conceder; perante ele e os outros nenhum desejo de domínio; o mestre é o homem que não manda; aconselha e canaliza, apazigua e abranda; não é a palavra que incendeia, é a palavra que faz renascer o canto alegre do pastor depois da tempestade; não o interessa vencer, nem ficar em boa posição; tornar alguém melhor — eis todo o seu programa; para si mesmo, a dádiva contínua, a humildade e o amor do próximo. (Agostinho da Silva, in 'Considerações')

A terceira proposta de leitura vem do meu grande mestre e amigo João dos Santos:
[Renúncia ao educador perfeito]
A minha formação como homem e a minha carreira como profissional, devo-a tanto às interferências positivas dos meus educadores e mestres, como, sobretudo, aos erros educativos que eles cometeram para comigo. Aprendi por intuição e experiência na vida que as atitudes erradas são tão válidas em educação como as atitudes corretasO educador em que me tornei renunciou há muito à crença mágica do educador perfeito, como o profissional que sou renunciou a esconder a ignorância com a erudição. Aprecio, portanto, os homens mais por aquilo que são (para o meu sentir) do que por aquilo que dizem.
Texto não revisto pelo autor(João dos Santos, in "Ensinaram-me a ler o mundo à minha volta", Assírio € Alvim, p. 306)



sábado, março 12, 2011

O toque de Midas do Empreendedorismo

Também a especialista em Comunicação Social Felisbela Lopes, investigadora da Universidade do Minho, veio hoje à televisão bater no ceguinho (o ceguinho é a escola, os professores e os alunos) e dizer que começamos na escola a não ter a cultura do empreendedorismo, por isso é que as coisas estão como estão. Minha nossa! De repente, qual toque de Midas, onde o empreendedorismo toca nasce a solução de um problema. Como se os gravíssimos problemas em todo o mundo não tivessem resultado de esforços empreendedores! O que não tem faltado ao mundo é empreendedores. Mas empreendedor não é sinónimo de justo, nem solidário! O que fecha o futuro aos jovens não é a SUA falta de empreendedorismo, mas sim a ÉTICA (a falta dela) de tantos empreendedores que tomaram conta de todos os poderes na POLÍTICA, na ECONOMIA e na JUSTIÇA, SEM ÉTICA NENHUMA e gerem as nossas vidas a seu bel-prazer! Apesar de tudo, nas escolas, os professores ainda tentam que os alunos parem, escutem, olhem, pensem e criem valores! E os jovens estudantes continuam a ter uma apetência natural, instintiva, para uma sociabilidade saudável, amiga e solidária.

segunda-feira, outubro 04, 2010

Dia Mundial do Professor


DIA MUNDIAL DO PROFESSOR.
A 5 de Outubro.
A UNESCO celebra, desde 1994, o Dia Mundial do Professor, a 5 de Outubro. Este ano, sob o lema "A RECUPERAÇÃO COMEÇA COM OS PROFESSORES"

Endereço da página oficial da UNESCO na Internet: aqui

Para além de uma saudação muito cordial e solidária com todos os professores do mundo, permitam-me que este ano abrace muito especialmente, muito carinhosamente, uma colega, já reformada, que conheci este ano na ilha do Faial, no passado dia 29 de Setembro, que dedicou a sua vida ao nosso tão delicado e honroso ministério. A nossa colega, aos 8 anos de idade, prometeu ao Divino Espírito Santo, muito em segredo, que se um dia chegasse a ser professora, não faltaria nunca à celebração religiosa anual na ilha que era a sua, São Miguel. Enquanto pode, a nossa colega cumpriu a sua promessa.
Enviuvou cedo e, a certa altura da sua vida, tinha os seus quatro filhos a estudarem em Lisboa. Pelo Natal, era ela que vinha a Lisboa juntar-se a eles para a Consoada. Não era financeiramente suportável para a economia familiar que os filhos fossem, todos à uma, passar o Natal a São Miguel.

domingo, setembro 05, 2010

Causa "Abaixo as mochilas da escola supercarregadas de livros"

Numa reportagem que hoje vi na RTP Notícias sobre o regresso às aulas, falou-se de muita coisa, tendo um pormenor passado despercebido: há um primeiro momento em que uma criança se esforça por recitar o alfabeto perante as câmaras, ali com o microfone bem apontado à boca. Depois, num segundo momento, aparece a mesma criança a tentar pegar, a muito custo, numa mochila supercarregada de livros, cadernos e outro material escolar.
Ora, tenho para mim que essa era, na verdade, a situação mais grave apresentada na reportagem! Quantas vezes vemos as crianças caminhando desajeitadamente na rua por causa do peso da mochila que levam às costas para a escola! Quantas vezes é o pai, a mãe, o avô ou a avó a levar a mochila para a escola porque a criança não aguenta com aquele peso!
Penso que é mesmo um problema de saúde pública! Grave!
Não é novidade denunciar esta situação. "Água mole em pedra dura, tanto bate até que fura."
Cada vez mais, hoje em dia, os estudantes dos anos terminais do ensino secundário vão para a escola praticamente sem nada, quase só com uma esferográfica e um caderno mais ou menos retorcido num bolso ou na cova da mão. Mas, no ensino básico, a maioria das mochilas são autênticas cruzes de crucificação que comprometem o desenvolvimento físico saudável das crianças.
Ora aqui está um tema que merecia uma Causa no Facebook. São tantas as causas que agora, em catadupa, chegam todos os dias pela Internet a nossas casas.
NÃO HÁ, SEGURAMENTE, NECESSIDADE DE SER ASSIM!
NÃO PODE SER ASSIM!
ABAIXO AS MOCHILAS DA ESCOLA SUPERCARREGADAS!
Há anos subi o Kilimanjaro, com amigos, em que só um não era professor. À entrada do Parque Natural, o peso das cargas de cada um dos carregadores (adultos) era fiscalizada: não podia exceder os vinte quilogramas por carregador.
Penso que, proporcionalmente à idade e ao peso corporal, há muitas crianças portuguesas que carregam muito mais que esses vinte quilogramas. Que dizem os pais?... Que fazem os professores?...

quinta-feira, maio 13, 2010

O burro carregado de livros, o verdadeiro é este

Esta é daquelas coisas que pedem que a gente passe a palavra.
Recebi-a de António Eça de Queirós, passo-a a quem a quiser pegar.
É sobre as crianças,
é sobre os professores dedicados,
é sobre os burros pacientes e esforçados,
é sobre a pobreza que se combate,
é sobre a ignorância que se abate.
Em "Poetas de Hoje e de Ontem", os autores do livro dizem que Afonso Lopes Vieira organizou no seu palácio vários espetáculos para as crianças do bairro. O poeta leiriense, que nasceu em 1878 e faleceu em 1946, escreveu o seguinte poema, que parece talhado para este vídeo. Felizmente não é!... Mas é só por causa do dono!... O dono de que o poeta fala não é o professor colombiano.
Cuidadosos,
os burrinhos
vão andando
por caminhos.

Levam sacos,
levam lenha...
pesa a carga
que é tamanha!

Levam coisas
p'ra o mercado
no alforge
tão pesado.

E transportam
tudo, tudo
no seu passo
tão miúdo.

Tão miúdo,
tão esperto.
que anda tanto
por ser certo.

Do seu dono
que seria
sem o burro?
que faria?

E esse dono,
quando é mau,
dá-lhe, dá-lhe
com um pau!

E o burrinho
sofre então...
tem nos olhos
o perdão!

quarta-feira, março 03, 2010

O que é a educação - 02

Jamie Barry tinha a Terra do Nunca. Era uma coisa muito dele.
Eu tenho uma coisa muito minha: o meu Olimpo de Gente Grande, que muito me ensinam, que muito me inspiram.
Uma das gentes que mais recentemente lá guardei foi Randy Pausch. Outra que já há muito tempo lá se encontra é a minha irmã, a quem dediquei, na minha tese de mestrado o seguinte texto:

Dedicatória

Um dia, há muitos anos,
uma menina estava na sala de aula a trabalhar e teve sede.
Pediu à professora que a deixasse ir beber água,
mas a professora, que constantemente a censurava
pelo seu fraco trabalho escolar, não deixou.
Outra menina, sua colega, concentrada no seu trabalho, levantou a cabeça
e deu atenção ao que se estava a passar entre a professora e a outra menina.
Ela era uma aluna com muito melhor aproveitamento que a menina que tinha sede.
Pouco depois, disse à professora que estava aflita
e pediu à professora que a deixasse ir lá fora fazer xixi.
Quando a menina voltou,
aflitivamente, tropegamente, coitadita!,
tentava conservar na concha das suas mãozitas,
umas gotas de água
que queria dar a beber à colega que tinha sede.
Essa menina, de mãos de fada,
que, naquele gesto, mostrou saber intuir
o mais profundo valor que a escola deve fazer existir,
é minha irmã.
A ela dedico este trabalho.



O que é a educação - 01


Aprendemos com os poetas que o sonho comanda a vida.
Não sei se Randy Pausch conhecia ou não os poetas da Língua Portuguesa. Seguramente na sua própria língua, outros poetas cantaram também o sonho.
Quando ele deu a sua última aula, verdadeiramente última porque ele sabia que ia morrer dentro de pouco tempo, intitulou-a "Conquistar os nosso sonhos de infância".
Da aula, registada em vídeo (ver aqui) ele depois fez um livro, onde juntou outras coisas.
Por exemplo, um pequeno capítulo que a seguir transcrevo a partir da edição portuguesa. Este capítulo, no meu entender, relata maravilhosamente, com muita clareza e simplicidade, a essência da educação, do que aos agentes educativos (pais, escola e educadores sociais) cabe, com lógica, amor e bom senso.

SONHAR EM GRANDE
Os homens pisaram a Lua no Verão de 1969, tinha eu oito anos. Soube então que quase tudo era possível. Era como se todos nós, em todo o mundo, tivéssemos obtido permissão para ter sonhos em grande.
Nesse verão tinha ido acampar e, quando o módulo lunar poisou, fomos para a casa principal da fazenda, onde tinham ligado uma televisão. Os astronautas estavam a demorar muito tempo a organizar-se antes de poderem descer a escada e andar na superfície da lunar. Eu compreendia. Tinham muito equipamento, muitos pormenores a tratar. Eu era paciente.
Mas as pessoas que dirigiam o acampamento não paravam de ver as horas. Já passava das onze. Eventualmente, enquanto se tomavam decisões inteligentes na Lua, foi tomada uma idiota aqui na Terra. Era muito tarde. As crianças foram todas enviadas de volta às tendas para dormir.
Estava profundamente irritado com os directores do acampamento. O pensamento que me atormentava era o seguinte: «A minha espécie saiu do nosso planeta e aterrou pela primeira vez num mundo novo e vocês estão preocupados com a hora de deitar?»
Mas quando cheguei a casa, algumas semanas depois, descobri que o meu pai tinha tirado uma fotografia à nossa televisão assim que Neil Armstrong pisou a Lua. Tinha preservado o momento para mim, pois sabia que podia ajudar a desencadear sonhos em grande. Ainda temos essa fotografia num álbum.
Compreendo quem argumenta que os milhares de milhões de dólares gastos para colocar homens na Lua poderiam ter sido utilizados para combater a pobreza e a fome na Terra. Mas pronto, sou um cientista que vê a inspiração como derradeira ferramenta para fazer o bem.
Quando utilizamos o dinheiro para combater a pobreza, isso pode ser de grande valor, mas, com demasiada frequência, trabalhamos à margem. Quando se colocam pessoas na Lua, inspiramo-nos todos para desenvolver o nosso máximo potencial humano, que é como eventualmente os nossos problemas serão resolvidos.
Permitam-se sonhar. Alimentem também os sonhos dos vossos filhos. De vez em quando, isso pode significar deixá-los ficar acordados depois da hora de deitar.
(in A ÚLTIMA AULA, Randy Pausch, Editorial Presença, 2008, páginas 153-155)

domingo, fevereiro 08, 2009

Sobre a escola de 12 horas - capítulo II

A minha querida colega e amiga Ana Almeida, da Universidade do Minho, teve a gentileza (que muita alegria me deu; e que muito sinceramente agradeço) de me mandar o seguinte texto, em que exprime a sua opinião sobre o assunto das 12 horas na escola:

Concordo inteiramente. Se a minha opinião douta, na qualidade de professora de Psicologia de Desenvolvimento nas licenciaturas de formação de professores, também tem algum crédito, acrescentaria que não há estudos científicos que possam predizer que o aumento de horas na escola se traduza linearmente em ganhos desenvolvimentais em qualquer plano: cognitivo, afectivo ou social. Se esse tempo for ganho à família tanto pior, pelo que isso significa em termos de perdas de cuidados, acompanhamento e supervisão às crianças, mas pior ainda pelo que isso representa para o exercício da parentalidade positiva e da defesa das políticas de conciliação do trabalho e do apoio aos filhos. Moral da história para abreviar: não se podem considerar todos os desabafos como dignos de serem comentados, sob o risco de alimentar uma polémica sem fundamento.

sábado, fevereiro 07, 2009

Sobre a hipótese da escola de 12 horas

Encontrei na edição on line de hoje do jornal "Público" uma notícia que começa assim:
Que geração será a das crianças que vão passar doze horas na escola?

07.02.2009, Natália Faria

Adolescentes como os do filme Paranoid Park, quase delinquentes. Ou como os outros, sem mais dramas. Mas o tempo a mais na escola deve ser para brincar

Diz o psiquiatra Daniel Sampaio: "O que é preciso é modificar os horários dos pais e não aumentar o tempo de permanência das crianças na escola. Se persistirmos neste modelo, estaremos a criar uma geração de adolescentes como a do Paranoid Park, do Gus Van Sant", ou seja, jovens a arriscar a fronteira da delinquência. 
Desdramatiza o neuropediatra Nu-
no Lobo Antunes: "Não antecipo na-
da esse cenário. Não creio que a per-
manência das crianças na escola durante mais tempo vá provocar uma hecatombe ou deitar a perder uma geração. Não sendo a situação ideal, não me parece que as crianças fiquem mal empregues". 
A possibilidade de as escolas do 1.º ciclo do ensino básico funcionarem 12 horas por dia, entre as sete da manhã e as sete da tarde, posta esta semana em cima da mesa pela Confederação Nacional das Associações de Pais (Confap), está longe de gerar consensos. (...)

Hoje também, de manhã, a atravessar a ponte Vasco da Gama, ouvi na rádio do carro a repetição de uma conversa com Daniel Sampaio, em que ele opinava e aconselhava acerca de uma carta mandada por uma mãe que tinha criado com as filhas uma lista de coisas para cumprirem diariamente, as filhas não cumpriam e ela não sabia o que fazer. Pessoalmente discordo claramente da opinião expressa por Daniel Sampaio na rádio. Talvez um dia volte a este assunto e explique aqui porquê.
Mas no que diz respeito ao assunto do jornal, no fundamental estou de acordo com ele e fico espantado com a opinião que diz "não me parece que as crianças fiquem mal empregues".
Somos todos muito doutos, somos todos muito sabedores destas coisas todas... e hoje há também muitas pessoas que pensam que sabem muito mais que os professores e as educadoras sobre estas coisas, e se os professores e as educadoras não querem ficar mais tempo com as crianças é porque não querem trabalhar!
Pela minha parte, quero apenas deixar aqui um brevíssimo pedaço de uma pequena conversa que um dia ouvi numa sala de estudo de apoio a crianças em risco escolar. Uma conversa de crianças. Era sobre o dia da semana que mais gostavam. Este deste, aquele daquele, aquela do outro... O T., o dia que gostava mais era a quinta-feira. A conversa era absolutamente espontânea. À vez, cada um disse o dia que gostava mais. E depois de dar a volta a todos, voltou ao primeiro, e todos tiveram de explicar porque gostavam mais do dia que tinham escolhido. Quando chegou a sua vez, o T. disse: "Eu gosto mais da quinta-feira porque é o dia em que eu chego a casa e a minha mãe já lá está. Ela pergunta-me como é que foi a escola. Eu sento-me na cozinha e enquanto a minha mãe me arranja o lanche eu conto-lhe como foi". No fim da conversa, todos acharam que a razão do T. era uma razão muito boa, a quinta-feira devia ser mesmo o melhor dia da semana.

sábado, janeiro 10, 2009

O segredo é amar

Hoje, assim que saí da piscina, vi lá ao longe, a começar a afastar-se da linha irregular do perfil dos telhados, a lua, magnífica!... Enorme!... Branca, a crescer em brilho.
Da piscina a casa pouco mais é do que uma centena de metros. Mesmo assim, cruzei-me com quem me perguntou pelo Jorge América.
Associei a lembrança do rapaz à lua magnífica que acabara de ver. Logo que cheguei a casa fui procurar um dos textos que sobre ele escrevi, já há alguns anos, em 1996. Aqui está:

O segredo é amar.”, disse um dia Sebastião da Gama. Matilde Rosa Araújo, na apresentação da obra do professor, do poeta, do peda­gogo, da obra com o mesmo nome “O segredo é amar”, escreve assim: (...)

Sebastião soube sempre desde menino, e nunca o desaprendeu - e todos o sabemos desde crianças, só o desaprendemos mais tarde - que o  segredo é amar.

Foi esse segredo natural que gritou a sua pedagogia de poeta e professor, segredo natural de vida que é o dos verdadeiros homens.

Viver para Sebastião foi amar. Amar numa dádiva total. (...)

A sua clara alegria era a transparência do homem sofredor: e Sebastião, numa Carta de Estremoz, explica-a: “Se me querem ver contente, é darem-me um sábado de Estremoz. Não que eu seja triste nos mais dias. O que eu amo e quanto bendigo, pelo contrário, este precioso bem de existir!

Dores, desgostos, bofetadas? Disso é feito o bem... Que coragem teria eu de ser feliz se na base de tudo, e a dar sabor e pureza à impura alegria, não esti­vessem bofetadas, desgostos, dores?”

Nestas bofetadas, desgostos, dores, não está, de forma alguma, uma pas­sividade negativa  do comportamento, uma aceitação do mal que um conceito de natureza religiosa podia fazer aceitar para sublimar. Deus para Sebastião era o “Cristo da moldura” fraterno e militante que com ele também sofre: a fé nunca lhe quis esconder os valores terrenos nem o seu significado dentro da própria vida. A convicção de que a vida física não é senão um mero estágio, e breve, não lhe tira a ternura e o encantamento perante o mundo e, também, não lhe entrega a rejeição de um mundo imperfeito que ele sabe que saudavelmente temos de tornar melhor.

Portanto, a sua alegria (e quem ainda o poderá julgar liricamente cego?) foi a alegria consciente de quem sabe que a vida só é vida quando actuante na responsabilidade maravilhosa, e tão raras vezes maravilhada, de nos sabermos vi­vos, de olhos, ouvidos e coração abertos.” 

         Assim como ele nos revela neste escrito:

Os meus vizinhos têm um bicho numa gaiola. Um pintassilgo. Pois se eu andasse zangado com a Vida, que não ando (apesar de tanto mal que me tem feito, há tantas coisas boas que a Vida dá e me dá!), era por causa do pintassilgo que me reconciliaria com ela. Com ela e com os homens - se eu andasse zangado com os homens... Era ao lusco-fusco. Frio como só cá no meu Estremozinho. Batem à porta, vou ver. Uma velhinha. “Ó senhor, o pintassilgo é seu? É para o recolher, que o animal apanha muito frio.”

Ó velhinha santa, velhinha dos livros! Naturalmente, se te estivesse à mão a gaiola, soltavas o pintassilgo. Mas o que pudeste fazer é tão grande! Não sabes duas letras, provavelmente. E ainda se persiste no erro de que a grande desgraça é não saber ler. Qual coisa! A grande desgraça é não saber que os pássaros têm frio.” 

         Ou - acrescento agora eu - a grande desgraça é não olhar para a lua e ver que ela é bonita.

         Mas tu, meu outro príncipe [referência a outros jovens de quem falara antes no texto], há bem pouco tempo, numa nestas noi­tes de Páscoa, em que a hora a que devias ter-te deitado já tinha passado há muito, foste também capaz de dizer-me, no pátio do Lar [o Jorge era um jovem institucionalizado], quando me cruzei contigo, a caminho do meu gabinete, e eu insistia para que fosses descansar:

         Descansar, ó Bigodes? Cala-te mas é tu com essas coisas de to­dos os dias e olha! Já viste bem a lua linda que está? Descansar é dormir ou é estar bem? E eu agora estou bem é a ver aquela lua! Garantes-me que ela amanhã está ali outra vez assim como está agora?

         Parei e pensei no que ele me estava a dizer. Ele tinha razão. Não me lembro de alguma vez ter visto a lua naquele dourado tão lindo. E esqueci-me outra vez das horas.

         Pensar que este príncipe teve seis a Filosofia neste último período!... Que raio de educação ou ensino temos nós, que fazemos dum jovem filó­sofo, espontaneamente de olhos abertos para o mundo, um aluno de Filo­sofia empobrecido e desalentado, que deve ir para a cama mais cedo!...

         Diz o profeta na Bíblia (Ecles. 32:3): “Fala, ancião, porque isso te compete; mas com discrição, não perturbes a música”.

         Pois falei. Talvez sem a discrição aconselhada. Perdoem-me. É hora de me calar.