domingo, fevereiro 08, 2009

Sobre a escola de 12 horas - capítulo II

A minha querida colega e amiga Ana Almeida, da Universidade do Minho, teve a gentileza (que muita alegria me deu; e que muito sinceramente agradeço) de me mandar o seguinte texto, em que exprime a sua opinião sobre o assunto das 12 horas na escola:

Concordo inteiramente. Se a minha opinião douta, na qualidade de professora de Psicologia de Desenvolvimento nas licenciaturas de formação de professores, também tem algum crédito, acrescentaria que não há estudos científicos que possam predizer que o aumento de horas na escola se traduza linearmente em ganhos desenvolvimentais em qualquer plano: cognitivo, afectivo ou social. Se esse tempo for ganho à família tanto pior, pelo que isso significa em termos de perdas de cuidados, acompanhamento e supervisão às crianças, mas pior ainda pelo que isso representa para o exercício da parentalidade positiva e da defesa das políticas de conciliação do trabalho e do apoio aos filhos. Moral da história para abreviar: não se podem considerar todos os desabafos como dignos de serem comentados, sob o risco de alimentar uma polémica sem fundamento.

2 comentários:

Pedro Mota disse...

À partida, 12 horas é um exagero, acima de tudo porque se trata dum projecto desde logo viciado por um objectivo que não é o das crianças mas dos pais, pressionados pelo empresariado sôfrego de lucro, em especial em época de crise. Mas tudo depende do que seja a escola, em particular se permite ou não a liberdade de escolha pelas crianças das actividades extracurriculares - sem uma rígida pré-programação por parte dos pais ou do plano escolar - e da possibilidade de existirem tempos de actividades espontâneas entre pares, e mesmo de espaços e momentos de privacidade. A educação ao longo da História, nunca foi um exclusivo da família, e sobretudo a formação informal, quotidiana, em todos os aspectos, morais, convivenciais e afectivos, técno-práticos, etc.. As afinidades electivas constróem-se na base originária do colo intrafamiliar mas devem extender-se, para que a criança se torne um ser humano autónomo, completo e desembaraçado, à multiplicidade das relações espontâneas e institucionalmente organizadas da sociedade inteira. Só se pode crescer na escola e fora dela. Se a escola monopolizar o dia, definindo as crianças num modelo "standard" de educação, sem atender às necessidades particulares de cada uma, inclusive a muito natural necessidade das crianças fantasiarem livremente e criarem a sua esfera e mundo pessoais, então a escola torna-se opressiva, no constrangimento da diversidade potencial de maneiras de ser. Mas viver o mundo é o único modo de o dominar e de nos conhecermos a nós próprios e aos outros. O grande perígo que vejo na escola a 12 horas é, pois, pelo que disse, a possibilidade de encerrar as crianças na esfera concentracionária das actividades pré-programadas.

Psikus disse...

Caro Pedro, aprecio muito a clareza de ideias deste teu apontamento, que, a meu ver, muito enriquece, abrindo perspectivas, uma discussão a propósito da notícia que foi publicada em jornal diário de grande divulgação. É o velho "da discussão nasce a luz", no seu mais genuíno significado.
Concordo absolutamente contigo em que a educação das crianças e dos jovens não é, nem deve ser, um monopólio da família. Todos nós somos, desde que nascemos, membros de um grupo social alargado de pertença que contém a nossa própria família. E o que deve ser promovido e estimulado é o contacto das crianças e dos jovens com as organizações e instituições que fazem parte desse grupo social mais vasto a que a família pertence. Ora, a meu ver, a criança deve ser socializada de maneira a que autonomamente aprenda a ter contacto com esses elementos da estrutura social de pertença: o clube desportivo, a associação de música, a biblioteca, etc. Isso, a meu ver, é que é "viver o mundo", como tu dizes. O problema é que hoje em dia todos se vêem enredados em horários, distâncias, regulamentos, (in)seguranças, que tornam a vida social complexa e pessoalmente muito desprotegida, perigosa, mesmo. E, por muito boa que seja, não haverá nunca escola de 12 horas nenhuma que substitua essa vivência social concreta da criança que se movimenta livremente no seu bairro, a partir de sua casa.
Para mim, o verdadeiro desafio é conseguirmos recuperar um pouco das quintas-feiras do T., que saía da escola, ia a casa lanchar com a mãe e depois saía, sozinho, se juntava aos amigos, que se movimentavam também sozinhos e, aqui e ali, participavam na vida da sua comunidade.
Como eu costumo responder quando os pais me perguntam qual será a melhor escola para os filhos deles, A melhor escola para o seu filho é a que fica mais perto de casa, a que ele consegue chegar sem ser preciso que vá lá levá-lo, ou que não seja preciso sequer apanhar o autocarro. O tempo não volta atrás, mas temos de ter noção do quanto nos temos afastados da real dimensão pessoal da vida livre de cada um, logo que se nasce, se baptiza ou não, e que se passa a ir à escola. Penso que, evolutivamente, foi a organização social do pequeno grupo que nos proporcionou a sobrevivência e e desenvolvimento a que chegámos enquanto espécie. É a desvalorização desta "pessoalidade" e desta identidade local, cada vez mais substituída pela ideia de cada um de nós enquanto "Homo estatisticus", que nos levou ao novelo que agora não conseguimos desenrodilhar. E nos faz produzir - até mesmo acreditando nelas honesta, mas ingenuamente!... - ideias sobre as pessoas e os grupos humanos (qualquer governante hoje em dia diz "Conseguimos garantir a cobertura escolar de 100% do País". Sim, lindo, mas a que preço?...) com os pés completamente desamparados do chão.