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segunda-feira, dezembro 29, 2025

#TOLERÂNCIA365 - TOLERAR O ISOLAMENTO PESSOAL

 #TOLERÂNCIA365 - TOLERAR O ISOLAMENTO PESSOAL

Em rigor, o ano da minha viagem pela geografia da Tolerância acaba hoje, os 365 dias dum ano normal têm todos um tempo de atenção dedicado à Tolerância. Os dias 30 e 31 de Dezembro terão ainda a mesma atenção, e deles falarei, naturalmente, amanhã e depois de amanhã.

O tema de hoje tem a ver com o isolamento e a solidão, mas não foi em isolamento ou solidão que fui escrevendo o que aqui guardei. Não, a MINHA tolerância, a tolerância que fazia sentido nesta viagem era a do encontro com os outros, era sempre no meio dos outros, tinha que ter a ver sempre com os outros. Penso que amanhã e depois vou voltar aqui. Sim, os dois textos que faltam, ao contrário da regra essencial que me impus nestes 365 dias, não se referirão a uma coisa do dia, mas serão uma espécie de prefácio e de posfácio, como se de um livro se tratasse — e quanto ao livro, a ele chegarei se a tanto me ajudar o engenho e a arte.

Em razão daquelas deambulações em que a internet é pródiga, fixei a atenção no livro "À beira-mar" (By the sea) de Abdulrazak Gurnah, escritor tanzaniano que ganhou o Prémio Nobel de Literatura em 2021. Na ficção encontrei uma fala que contém um pedacinho que tomo como desafiador para todos nós: «Talvez você tenha perdido a tolerância para com esse desejo de isolamento que a fé na ambição de um espírito tornou heróico.» Tolerar o isolamento... Associo logo solidão e silêncio ao isolamento...

Penso que, em geral, associamos a tolerância à aceitação de opiniões, pessoas, estilos de vida ou culturas diferentes, mas, na verdade, a tolerância é igualmente posta à prova perante o silêncio. Quando alguém manifesta um profundo desejo de isolamento, a nossa reação instintiva é frequentemente a de tentar "consertar" a pessoa, trazê-la para junto de nós ou trazer-lhe companhia, assumindo que estar só é algo negativo.

É fácil aceitar que, aqui ou ali, alguém queira estar sozinho, em silêncio, quantas vezes dizemos «Vá, deixa-o estar, ele quer estar agora ali sozinho, deixem-no...» Difícil é aceitar que alguém queira estar geralmente sozinho.

Nesta segunda situação, a verdadeira tolerância está na capacidade de, por muito empáticas, carinhosas e louváveis que sejam as nossas intenções, não invadir esse espaço de isolamento e silêncio, não sendo necessariamente de solidão. A verdadeira tolerância está na capacidade de aceitar que o recolhimento do outro não é uma afronta pessoal nem um defeito, mas sim uma necessidade legítima. Tolerar o

isolamento alheio é compreender que, por vezes, a forma mais elevada de respeito é simplesmente deixar o outro em paz, sem julgamentos e sem a exigência de que ele participe no ruído do mundo.

Nas sociedades e nos sistemas educativos — pensando bem, qual não é assim? — que premeiam a extroversão, a participação ruidosa e o trabalho de grupo constante, o desejo de isolamento é frequentemente diagnosticado como um problema a corrigir. Olhamos para a criança ou para o adulto que se retira como alguém a quem "falta algo" — faltam competências sociais, falta alegria, falta integração.

A Educação e as escolas, em particular, pedem uma pedagogia própria para o aluno que se isola, que, quem sabe, apenas deseja ser deixado em paz. Ao permitirmos que alguém «Ele só quer que o deixem em paz», sem o julgarmos, estamos a validar a sua vida interior certamente viva e intensa. Estamos a ensinar que não é preciso estar constantemente em palco para se ter valor. O segredo da sábia e prudente pedagogia será a de não é "mudar" a pessoa, mas sim adaptar o ambiente (na sala de aula, nas relações professor-alunos) para que ela possa contribuir com o seu melhor, sem se sentir obrigada, violentada.

Respeitar a idiossincrasia do Outro, tolerar e aceitar o seu desejo de isolamento é um desafio para as estratégias pedagógicas do trabalho de grupo e do trabalho individual. Vamos pensar nalgumas possíveis estratégias? Eu vou, e delas depois aqui darei conta.

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sábado, setembro 20, 2025

#TOLERÂNCIA265 - O SILÊNCIO. CRIANÇA, ERA OUTRO... GANHEI OU PERDI?

 #TOLERÂNCIA265 - O SILÊNCIO. CRIANÇA, ERA OUTRO... GANHEI OU PERDI?

O pequeno poema de Fernando Pessoa, completo, é assim:

«Criança, era outro…
Naquele em que me tornei
Cresci e esqueci.
Tenho de meu, agora, um silêncio, uma lei.
Ganhei ou perdi?»

Tanto que aprecio este poema de Pessoa! Aos educadores e aos professores, e aos psicoterapeutas, o poema lança um interessante e poderoso desafio.

A razão da caminhada de hoje é a convicção que tenho de que o silêncio alimenta a tolerância positiva. Atenção! Estou a falar do silêncio pessoal interior, o silêncio, como escreveu Maria Montessori, que «afina a nossa sensibilidade. Quando ficamos em silêncio não só podemos ouvir com maior atenção a palavras do outro, por isso conseguindo “alcançá-lo”, mas também somos capazes de captar a realidade que nos envolve. Então, é importante deixar que a criança possa viver esta realidade, preservando para ela uma relação de acolhimento e ajuda.» É conhecida por todos os pedagogos montessorianos a sua "Lição do Silêncio".

Num 'site' dedicado à pedagogia montessoriana, alguém escreveu esta frase muito bonita, não sei se

citando a própria Maria Montessori: «O silêncio é o sossego dos sentidos.»(1)

Voltando à minha convicção, penso que, quanto mais sossegado cada um estiver com o seu silêncio-lei, tanto mais disponível e tolerante estará para o Outro. E que fique claro: uma coisa é o silêncio interior, que reduz o potencial agressivo no contacto com o Outro; outra coisa é o silêncio pessoal perante as ocorrências injustas e lesivas das outras pessoas. Se o primeiro é para cultivar, o segundo é para eliminar.

Do ponto de vista pedagógico, o que me estimula e espicaça é o desejo de criar actividades de dinâmica de grupo em que se promova, aprofunde e consolide o silêncio-lei-interior em interacção e comunicação uns com os outros. Actividades que não sejam caracterizadas pela passividade, mas pela mobilização individual, esforçada, de cada participante na actividade. A compreensão do silêncio como um instrumento pedagógico eficaz exige uma mudança de paradigma, passando da sua interpretação, repito, passiva para o reconhecimento do seu poder como um elemento activo no desenvolvimento pessoal e na comunicação interpessoal.

Nos dias que correm, em todo o lado, as vozes, os gritos, os barulhos, os ruídos, crescem em escalada simétrica, muito se ganharia se cada um reduzisse um decibel que fosse na voz e eliminasse uma fala por dia.

O silêncio intencional, produzindo uma pausa, pode ser tão ou mais poderoso do que as palavras. Ao contrário do silêncio vazio, passivo, não comprometedor, o silêncio-pausa bem executado demonstra segurança, controlo e domínio na comunicação verbal — autodomínio e domínio na interacção com o Outro, promovendo a reciprocidade. No breve instante da pausa, as informações que acabam de ser transmitidas ou trocadas são valorizadas, e o ouvinte (cada um à vez) tem a oportunidade de reflectir e processar a mensagem recebida. Cria-se uma expetactiva sobre o que virá a seguir, e a comunicação mostra o seu encanto, fortalecendo a conexão entre os interlocutores.

Antes de me virar para a congeminação dos jogos, um último alerta por agora: se queremos que o silêncio silêncio seja um recurso pedagógico activo e poderoso, será que devemos usar i silêncio como recurso ou estratégia de castigo ou punição? Vou guardar a pergunta, quando puder volto a ela e não deixarei de dar a minha opinião.

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(1) https://www.criancasindependentesmontessori.com/post/a-aula-do-sil%C3%AAncio-montessori