Mostrar mensagens com a etiqueta família. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta família. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, março 03, 2010

O que é a educação - 02

Jamie Barry tinha a Terra do Nunca. Era uma coisa muito dele.
Eu tenho uma coisa muito minha: o meu Olimpo de Gente Grande, que muito me ensinam, que muito me inspiram.
Uma das gentes que mais recentemente lá guardei foi Randy Pausch. Outra que já há muito tempo lá se encontra é a minha irmã, a quem dediquei, na minha tese de mestrado o seguinte texto:

Dedicatória

Um dia, há muitos anos,
uma menina estava na sala de aula a trabalhar e teve sede.
Pediu à professora que a deixasse ir beber água,
mas a professora, que constantemente a censurava
pelo seu fraco trabalho escolar, não deixou.
Outra menina, sua colega, concentrada no seu trabalho, levantou a cabeça
e deu atenção ao que se estava a passar entre a professora e a outra menina.
Ela era uma aluna com muito melhor aproveitamento que a menina que tinha sede.
Pouco depois, disse à professora que estava aflita
e pediu à professora que a deixasse ir lá fora fazer xixi.
Quando a menina voltou,
aflitivamente, tropegamente, coitadita!,
tentava conservar na concha das suas mãozitas,
umas gotas de água
que queria dar a beber à colega que tinha sede.
Essa menina, de mãos de fada,
que, naquele gesto, mostrou saber intuir
o mais profundo valor que a escola deve fazer existir,
é minha irmã.
A ela dedico este trabalho.



quarta-feira, dezembro 30, 2009

As cheias do Tejo, na memória da avó Lourdes

Mariana, minha querida neta,
Mariana, minha querida bisneta,

Tenho muita pena de ter estragado o Natal de todos e já perguntei ao tio Fernando Jorge e à tia Fatinha porque é que isto me aconteceu. Eles falam-me logo das bolachas, dos chocolates e de que eu não ando nada, mas eu não tenho comido nada às escondidas!... Não vou acender o farol, mas subo e desço as escadas lá de casa muitas vezes por dia. Eles riem-se…
Aqui no hospital vejo quase todos os telejornais. O tio Fernando Jorge está comigo na hora das notícias e vemos os dois as notícias.
Tenho-me lembrado muito das cheias em minha casa, no meu tempo, em Rio de Moinhos, por causa das cheias que vai haver hoje em Constância e na Barquinha.
Quando vinham as cheias, nós tínhamos de sair pela janela para o barco… às vezes, fazíamos as sementeiras e depois perdíamos tudo, o meu pai, coitado, trabalhava tanto e ficava sem nada… Uma vez a minha mãe, a avó Rosa, foi à janela e começou a gritar, deixou de ver o barco onde nós íamos… ia lá eu, o meu pai - o vosso avô Branco -, e iam também outras pessoas, o barco desapareceu da vista dela porque às vezes o barco tinha de fazer umas voltas e foi o que aconteceu nesse dia em que a minha mãe foi à janela.
O “velho” [o avô Branco] uma vez teve de empenhar a máquina de costura, o cordão de ouro da avó Rosa e a corrente dele, também de ouro… é que vinha o Tejo e levava tudo… Depois não houve dinheiro para ir buscar outra vez o cordão e a corrente “ao prego”. Acabámos por comprar outro cordão para a avó, foi a tia Rosinda que pagou, foi a Hélia, a filha, vossa prima, que ficou depois com ele quando a avó Rosa morreu. Só conseguimos ir buscar outra vez a máquina de costura.
Quando saímos de Rio de Moinhos para Abrantes, a minha mãe costumava dizer que tinha lá deixado os dentes. Ela queria dizer que tinham lá deixado tudo, o Tejo tinha-lhes levado tudo.
Era… tínhamos de saltar pelas janelas para ir às compras… a casa em que a gente morava era grande, chegámos a acolher lá cinco famílias por causa das cheias… a cheia chegava quase à casa da Milú, a vossa prima, que os vossos pais conhecem, já fica lá para a parte de cima de Rio de Moinhos. Havia umas poucas de ribeiras que faziam a junção…
Quando o Tejo começava a subir nós íamos pôr-nos à janela a ver até onde é que ele chegava. Os homens punham pedras a ver o que o Tejo subia… quando chegava à nossa casa, como já vos disse, tínhamos de saltar pela janela para o barco para ir ao pão, cá para cima, ao pé da casa da Milú… as oliveiras ficavam todas tapadas…
Quando o Tejo descia, ficavam umas poças de água e nas poças de água ficava, sabem o quê?, ficava sável, íamos ao sável, o tio David e eu, eu não apanhava, era o tio David que apanhava, eu segurava o cesto… Uma vez, nós tínhamos uma marrã com crias e ele foi salvá-las da água. Nós ficámos todas com muito medo porque ele não sabia nadar, mas ele enquanto não salvou a bicha e as crias não descansou, tivemos mesmo muito medo.
Às vezes o Tejo subia e descia, eles não gostavam quando o Tejo descia muito depressa, era sinal de que ele ia subir outra vez.
A nossa casa ainda lá está, é na rua principal, a chegar ao largo… era uma casa que o avô Branco tinha alugado… agora é cor-de-rosa, mas no nosso tempo era amarela.
Olhem, agora na televisão estão a falar do rei D. Carlos… o meu avô David, pai da minha mãe, ia muitas vezes à caça com o rei D. Carlos, ali numa quinta perto dos Casais, chamada Anadia… o meu avô era uma espécie de couteiro… ele era muito educado, era uma pessoa que sabia muito… (e a avó deixou-se dormir…)

Avó Lourdes,
Hospital da Horta, 29 de Dezembro de 2009

quinta-feira, agosto 13, 2009

O toque de Midas do Pedro


Aqui está um exemplo do "fazer das fraquezas forças". O que se diz das pessoas aplicado nas fotografias: o que é a exibição de uma fraqueza da reprodução fotográfica
(a distorção - que se tornou já vulgar explorar - causada pela ausência de perspectiva e da posição relativa dos elementos figurados entre si) transforma-se num óptimo exemplo da força do pensamento que caracteriza o desenvolvimento dos rapazinhos e das meninas da idade do protagonista que agora aqui temos: o Pedro, de 7 anos de idade.

Aos 7 anos, o pensamento de uma criança sã, viva e tranquila, tem o poder do toque de Midas: tudo aquilo em que a criança põe a mão se transforma em ouro, quer dizer, em imaginação, em criatividade, em desenvolvimento da inteligência, da sociabilidade e do prazer de fazer (a "industriosidade" de que fala Erik Erikson).

Companheiro de jornada extraordinário, o Pedro foi sempre uma criança muito afável, com um cuidado e uma solicitude quase "arrepiante"!, em relação ao forasteiro que eu era. Não se limitou a ser participante passivo nas voltas que demos, mas contribuiu activamente para o prazer e o sucesso da jornada.

O rapaz tem queda para a gestão e a liderança dos grupos: não rejeita sequer as pequenas provocações com que às vezes "picamos" os rapazinhos da idade dele; ouve, olha-nos, sorri e a seguir diz-nos qualquer coisa em que aceita a provocação ou o desafio que lhe fazemos, mas de modo a que conserve para ele margem de manobra para a sua decisão ou o seu comprometimento pessoal.

Parece uma criança que sustenta os passos num estimulante "chão" que avós, pais e os próprios irmãos têm adubado com o que de melhor pedem o afecto e a inteligência das crianças.

E se aquele Topo me deixa apreensivo, por exemplo, sobre o que possam ser as suas condições de cuidado atempado a uma criança sem saúde, não há dúvida que, pelo contrário, dispõe das condições fundamentais para o desenvolvimento de uma criança sã: a ambiência de uma natureza selvagem poderosa, imprevisível e infinita; a humanização dos espaços naturais de vida, de acordo com as necessidades dos grupos humanos e os recursos disponíveis; a presença da vida animal amansada a fazer parte rotineira da economia doméstica; os laços afectivos com a família nuclear e a família alargada; a suficiência básica dos recursos educativos; e a mágica Internet que a leva, à criança, dali, do fim do mundo aos seus antípodas, numa brevidade vertiginosa de tempo.

Pedro, sabes o que quer dizer "antípodas"? Se não sabes, pergunta ao Luís... ou vê na Internet...

sábado, abril 11, 2009

A Páscoa, com ou sem coelhinhos

Foi esta a mensagem que, a celebrar a época festiva que atravessamos, tão característica da nossa tradição cultural, espiritual ou religiosa, enviei à quase totalidade das minhas listas de endereços electrónicos (Quer dizer, modernices... cómodas, rápidas e eficazes modernices). Foi escrita ontem, à tarde:

Ai!... Ai!...

Agora, às três e meia da tarde, cá por casa, cada um descansa para seu lado...

De manhã fui p'ró mar, ver baleias e golfinhos, depois de dar à pressa o pequeno-almoço à minha "Velhitas".
Cheguei a casa quase às duas da tarde, ela esperava por mim para almoçar. Creme de ervilhas e um belo bacalhau no forno!...
Depois consolámo-nos - quem ainda estava em casa - com amêndoas, que eu trouxe de Lisboa, escolhidas quase uma a uma! Falámos de folares (que os temos cá em casa; os do Redondo já acabaram, mas temos ainda um grande do Pico, que uma doente da minha irmã fez questão de lhe oferecer), até dos lagartos com olhinhos de feijão frade que há mais de 30 anos a tia Rosinda oferecia aos sobrinhos!... Eram deliciosos!... O Pedro Henrique, o meu sobrinho açoriano mais velho, foi surfar para São Jorge, come menos amêndoas, só as que tiverem sobrado no domingo de Páscoa; é bem feito!... (Talvez lhe guarde algumas, às escondidas)
Daqui a pouco, vou levar a minha mãe - como agora se tornou hábito - a acender o farol, o que, além de útil para quem cruza o mar no canal entre as ilhas, é um excelente passeio higiénico para ela.
Amanhã vamos todos almoçar fora, ao Chinês (!) que é a grande novidade aqui na cidade da Horta.
No domingo de Páscoa vamos chamar os amigos (aqueles muito especiais) e os outros familiares da Ilha e vamos todos almoçar tradicionalmente cá em casa.
De manhã iremos todos ao cemitério levar as amêndoas aos gulosos do senhor José (o Peter) e ao nosso "Velho". À tarde, será tempo de telefonar para a família de (Grande) Lisboa, Coimbra, Cernache, Abrantes e Matosinhos. E amigos, também do continente.
A missa pascal é seguida em casa, pela televisão, pelas duas anciãs da família, Lourdes e Luísa.

Desejo a todos vós uma Páscoa igual à minha! Ou melhor!...
Beijinhos e abraços!

domingo, fevereiro 08, 2009

O T. tem razão. A quinta-feira é mesmo o melhor dia da semana!

É verdade! A quinta-feira do T. é mesmo o melhor dia da semana.
Se eu tivesse participado na conversa que ouvi ali ao meu lado, enquanto preparava materiais de estudo para alguns dos miúdos que estavam ali a trabalhar comigo, eu teria também dito, lembrando-me do que me acontecia quando tinha a idade deles:
- Para mim, o melhor dia da semana é a quinta-feira.
E depois de dar a volta, quando fosse a minha vez de dizer porquê, seria assim que eu falaria:
- À quinta-feira é quando tenho catequese. Acaba às cinco, cinco e meia. O salão paroquial fica perto da casa dos meus avós, é só descer a rua do teatro São Pedro. Mal acaba a catequese, vou lá, a correr, antes de ir para minha casa. Quando eu lá chego, a minha avó Rosa corta duas fatias de pão, grandes, eu olho a ver se as brasas estão boas, e depois é só esperar que elas fiquem torradinhas. Vou falar com o avô Branco, que está sentado lá na sala, sempre a ranger os dentes devagarinho [Rilhava os dentes e esfregava os dedos da mão direito uns nos outros, os dedos fechados em punho. Só mais tarde claramente percebi que assim, silenciosamente, ele se confrontava com as terríveis dores que acabaram por vencê-lo]. Quando as torradas ficam prontas, a minha avó chama-me e eu gosto de ficar a vê-la a pôr a manteiga, só mesmo com a pontinha da faca. Custa-lhe muito estar de pé. Senta-se sempre primeiro, antes de pôr a manteiga. Ela fica depois ali ao pé de mim a conversar e a ver-me comer as torradas. São tão boas!

sábado, fevereiro 07, 2009

Sobre a hipótese da escola de 12 horas

Encontrei na edição on line de hoje do jornal "Público" uma notícia que começa assim:
Que geração será a das crianças que vão passar doze horas na escola?

07.02.2009, Natália Faria

Adolescentes como os do filme Paranoid Park, quase delinquentes. Ou como os outros, sem mais dramas. Mas o tempo a mais na escola deve ser para brincar

Diz o psiquiatra Daniel Sampaio: "O que é preciso é modificar os horários dos pais e não aumentar o tempo de permanência das crianças na escola. Se persistirmos neste modelo, estaremos a criar uma geração de adolescentes como a do Paranoid Park, do Gus Van Sant", ou seja, jovens a arriscar a fronteira da delinquência. 
Desdramatiza o neuropediatra Nu-
no Lobo Antunes: "Não antecipo na-
da esse cenário. Não creio que a per-
manência das crianças na escola durante mais tempo vá provocar uma hecatombe ou deitar a perder uma geração. Não sendo a situação ideal, não me parece que as crianças fiquem mal empregues". 
A possibilidade de as escolas do 1.º ciclo do ensino básico funcionarem 12 horas por dia, entre as sete da manhã e as sete da tarde, posta esta semana em cima da mesa pela Confederação Nacional das Associações de Pais (Confap), está longe de gerar consensos. (...)

Hoje também, de manhã, a atravessar a ponte Vasco da Gama, ouvi na rádio do carro a repetição de uma conversa com Daniel Sampaio, em que ele opinava e aconselhava acerca de uma carta mandada por uma mãe que tinha criado com as filhas uma lista de coisas para cumprirem diariamente, as filhas não cumpriam e ela não sabia o que fazer. Pessoalmente discordo claramente da opinião expressa por Daniel Sampaio na rádio. Talvez um dia volte a este assunto e explique aqui porquê.
Mas no que diz respeito ao assunto do jornal, no fundamental estou de acordo com ele e fico espantado com a opinião que diz "não me parece que as crianças fiquem mal empregues".
Somos todos muito doutos, somos todos muito sabedores destas coisas todas... e hoje há também muitas pessoas que pensam que sabem muito mais que os professores e as educadoras sobre estas coisas, e se os professores e as educadoras não querem ficar mais tempo com as crianças é porque não querem trabalhar!
Pela minha parte, quero apenas deixar aqui um brevíssimo pedaço de uma pequena conversa que um dia ouvi numa sala de estudo de apoio a crianças em risco escolar. Uma conversa de crianças. Era sobre o dia da semana que mais gostavam. Este deste, aquele daquele, aquela do outro... O T., o dia que gostava mais era a quinta-feira. A conversa era absolutamente espontânea. À vez, cada um disse o dia que gostava mais. E depois de dar a volta a todos, voltou ao primeiro, e todos tiveram de explicar porque gostavam mais do dia que tinham escolhido. Quando chegou a sua vez, o T. disse: "Eu gosto mais da quinta-feira porque é o dia em que eu chego a casa e a minha mãe já lá está. Ela pergunta-me como é que foi a escola. Eu sento-me na cozinha e enquanto a minha mãe me arranja o lanche eu conto-lhe como foi". No fim da conversa, todos acharam que a razão do T. era uma razão muito boa, a quinta-feira devia ser mesmo o melhor dia da semana.