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sexta-feira, fevereiro 13, 2009

Aniversários: de Darwin, do meu pai e da Mariana

Ontem cantei os parabéns a Charles Darwin, na Gulbenkian, e comi uma pequena fatia do seu bolo de aniversário.
Hoje evocarei o aniversário do meu pai e, na casa que foi a dele, cantarei os parabéns à sua neta açoriana, a minha sobrinha Mariana. Depois de ela apagar as velas, vou comer mais bolo de anos, que virá da deliciosa padaria Barroso, do Redondo. 
A autobiografia de Darwin tem muitas referências ao seu pai, que atestam os laços que os ligavam e os sentimentos profundos que o naturalista nutria pelo seu progenitor.
Para além de todas as opiniões pessoais que pudesse ter manifestado em relação ao seu filho, parece-me que nos momentos críticos das opções de Darwin, Robert Darwin respeitou as opções do filho, e deu espaço para que ele levasse por diante as suas motivações e as suas decisões.
O "salvar a face" da sua autoridade perante a vontade de não deixar o filho embarcar no Beagle e a atitude de não o impedir de realizar este seu grande desejo está na formulação lapidar com que lhe comunica a sua decisão: "Se encontrares alguém de bom senso que te aconselhe a ir, eu dou-te a minha permissão".
É... o meu pai também teria dito qualquer coisa assim deste género. Para ele, mais importante do que obrigar-me a cumprir as suas determinações, ou condicionar-me logo para tomar (para ele, claro, do seu ponto de vista) as boas decisões, o meu pai confiava sempre, deu-me sempre a possibilidade de escolher, queria era que eu assumisse as minhas decisões mesmo nas suas piores consequências. Quando as havia - raramente isso aconteceu - apoiava-me benevolentemente na resolução de quaisquer problemas surgidos.
É... o meu pai ajudou-me, mais do que qualquer outra pessoa, a seguir (responsavelmente) as minhas motivações e a, como diz Darwin, a ter um enorme prazer no esforço físico e mental. Na exploração do mundo e na comunicação com as pessoas à minha volta.
Parabéns, Velho!... Parabéns, Mariana!...

quinta-feira, fevereiro 12, 2009

Charles Darwin e Guerra Junqueiro... pela mão de Rafael Luís Silva

Estava-se em cima das sete da tarde, a exposição sobre Darwin na Gulbenkian estava prestes a abrir. Eu já estava no interior do edifício principal da Fundação e folheava o catálogo, que acabara de comprar. Pela minha esquerda aproxima-se um senhor que pára mesmo junto a mim, me faz uma pergunta sobre o que eu tenho nas mãos. Educadamente, dou-lhe algumas informações. O senhor fica ali a falar comigo. É um "junqueiriano" convicto e confesso. Puxa de um pequeno papel, um quarto de folha A4, de dentro do saco de plástico que trazia.
O papel dizia assim:
"Os Simples não se criticam, lêem-se e admiram-se. Quem não tem sensibilidade para sentir aqueles versos, escusa de perder tempo a arquitectar argumentos para os discutir. Junqueiro trouxe para este precioso volume, breviário das almas de eleição, o espírito de Darwin, o grande génio da transformação das espécies, o vigoroso cabouqueiro do progresso que deu novo rumo à Biologia moderna." EGAS MONIZ (Guerra Junqueiro, 1949, p. 33)
Gostaria de um dia, em breve, falar sobre o resto deste encontro curioso.

quarta-feira, novembro 05, 2008

Sobre a superioridade (?) da espécie humana

Estive hoje, ao final da tarde, na Fundação Calouste Gulbenkian, onde fui assistir à segunda conferência do ciclo "No caminho da Evolução", no âmbito da Exposição "A evolução de Darwin", comemorativa dos 200 anos do nascimento do "pai" da teoria da evolução das espécies.
A conferencista, Patrícia Beldade, fez uma apresentação muito harmoniosa e equilibrada, bem dirigida ao grupo dominante entre a assistência, alunos do ensino secundário. Gostei de ver tamanha plateia, com escolas de fora de Lisboa. De Valongo veio um grupo grande da Escola Secundária de Alfena. Espero que todos tenham aproveitado das duas horas de presença na Gulbenkian. Só que... já lá vamos.


O tema da conferência: "Evolução e Desenvolvimento: variações a dois tempos e muitas cores".
Como já disse, a conferência foi muito bem apresentada pela jovem investigadora portuguesa.
Já antes dela, um outro cientista (de quem não fixei o nome) fez uma muito agradável apresentação do livro "Evolução, história e argumentos".
Depois da apresentação da investigadora Patrícia passou-se a um período - amplo, por sinal, o que se saúda muito agradavelmente - de debate, perguntas e respostas.
Pois aqui é que a porca torceu o rabo!...
Então, Patrícia, fica-se perante uma plateia assim, sem uma folhinha de papel e uma esferograficazinha no colo?... Viu como se viu em dificuldade para se focalizar bem nas perguntas que lhe fizeram?... E reconhece que acabou por dar um exemplo pedagógico pouco conveniente, não é? Desculpe-me, mas a minha idade e a minha antiguidade em ofício idêntico ao seu responsabiliza-me por esta cordial chamada de atenção.
Os alunos cumpriram muito satisfatoriamente a sua obrigação, pondo perguntas sincera e esforçadamente saídas dos seus níveis de conhecimentos escolares, da sua generosidade adolescente típica, das cogitações próprias de espíritos prenhes de ideiais sociais e humanitários.
No meu entender, as respostas lá foram calhando - e encalhando - de acordo com o pouco cuidado no registo das perguntas (não me leve a mal que insista neste ponto, não é minha intenção criticá-la), que, para que não falhassem, na sua maioria estavam já escritas e foram lidas, depuradas, sem redundâncias, dificultando a sua correcta percepção por quem lhes deveria responder. E em qualquer momento, qualquer pergunta empenhada e séria de um aluno é para ser tratada... "como se fosse a Poesia que nos visitasse". Como Sebastião da Gama escreveu que Miguel Torga lhe tinha dito: "Para ser professor, também é preciso ter as mãos purificadas. A toda a hora temos de tocar em flores. A toda a hora a Poesia nos visita."
As perguntas dos jovens têm a simplicidade, mas ao mesmo tempo a complexidade; e a ingenuidade, mas ao mesmo tempo a assertividade, próprias do pensamento em expansão que é da natureza essencial de todos os jovens.
Por duas ou três vezes foram colocadas questões claras e pertinentes sobre a superioridade da espécie humana em relação às outras espécies.
Hoje em dia, mais do que nunca, quando tanto - tão justamente! - é dito sobre a responsabilidade do Homem na destruição das condições de vida de todos os seres vivos e de todos os ambientes de vida no Planeta Terra, seguramente que intensos processos de dissonância cognitiva interferem nos raciocínios dos jovens quando, noutras perspectivas, lhes queremos - enquanto professores - passar-lhes a ideia de que o Homem é a espécie mais desenvolvida, é o ser superior, é o ponto mais alto da escala evolutiva. No fundo, directa ou indirectamente; velada ou claramente; intencional ou involuntariamente, no ensino está-se sempre a passar esta ideia.
Querida Patrícia - permita-me esta familiaridade, que me concedo amparado nos meus cabelos já com muito de branco - não basta dizer a estes jovens sedentos de apaziguamento para os seus raciocínios saudavelmente turbulentos e tortuosos, que Eu não penso assim.
Não tivesse sido o adiantado da hora, eu teria pedido para intervir para dizer qualquer coisa do género:
Isso de ser superior, tem a ver com um critério estabelecido arbitrariamente. Por exemplo, se se considerar superior a espécie que maior capacidade adquiriu para transformar o ambiente à sua volta e influenciar ou agir sobre as outras espécies, naturalmente que o Homem é a espécie superior. Mas se, noutra perspectiva, se considerar que o critério é a capacidade de adaptação ao meio, preservando-o, não o pondo em perigo, bem assim como não pondo em perigo a sobrevivência da generalidade das espécies e dos habitats, então, neste caso, o Homem é quase seguramente a espécie "mais inferior". Há outros critérios possíveis, como muito bem me chamou a atenção a minha querida colega Eulália.
Pessoalmente, penso que respostas, mesmo que dadas de boa fé, que se conformem a simples opiniões pessoais, baseadas nos mais correctos e honestos argumentos científicos, não são respostas que respeitem o dinamismo do pensamento jovem, até quando eticamente pareça que se está a proceder bem.
Que respeitem e que libertem. As respostas que acabo de falar não libertam, antes, formam becos sem saída onde se desejariam estradas largas para percorrer e horizontes a vislumbrar.
Se dissermos aos jovens que a tal superioridade depende de critérios - arbitrários -; se msotrarmos alguns exemplos; e se lhes dissermos que podem criar os seus próprios critérios, deste modo sim, libertaremos e permitiremos a expansão dos seus pensamentos.