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domingo, janeiro 31, 2010

Os vizinhos dos colegas da Mariana

- Vou agora à Praia do Norte, vou lá comprar uma massa sovada.

- Posso ir contigo?, tio, perguntou-me a Mariana.

Para a minha sobrinha, na ilha do Faial, nos Açores, ir da Horta à Praia do Norte é como ir da cidade para o campo, numa perspectiva que nunca antes eu tivera da ilha, não obstante as minhas tantas visitas lá, de há quase vinte anos para cá.

Fomos da Horta ao Capelo, pelo lado sul da ilha. Na Feteira perguntou-me se depois voltávamos pelo outro lado. Percebi que lhe apetecia dar a volta à ilha, ia muito pensativa sobre a geografia da ilha e sobre a vida que se leva fora da sua cidade.

Acabou por reconhecer que há muito tempo não se deslocava para aquela zona, que não saía para fora da cidade; e reconheceu que entrava num mundo outro, diferente do dela, um mundo que muitos dos seus colegas de escola falavam e que ela desconhecia e, se calhar pela convivência com eles, agora queria entender melhor.

Fez-me lembrar os meus tempos de escola, e os meus colegas dessa altura, que vinham das aldeias ali à volta de Abrantes, e chegavam a andar sete e mais quilómetros a pé todos os dias para virem para as aulas.

- Ó tio, agora é que eu estou a ver bem o que é eles irem todos os dias para a escola assim de tão longe!... Mesmo que vão de transportes é muito tempo.

Lembrei-me do Luís, que no ano passado connosco subiu o Pico, que, em São Jorge, para uma distância de cerca de 20 quilómetros, faz, todos os dias, mais de uma hora para cá e outro tanto para lá na carreira, entre a sua casa e a sua escola. E lembrei-
-me dos meus velhos – que saudades me sobrevêm, meu Deus!... – colegas, que saíam de casa, a caminho da escola, pelo menos hora e meia antes de eu sair da minha… todos, todos os dias, enquanto as aulas duravam.

E pus-me a pensar se a vontade que ela tem mostrado nestes dias de ir a pé para a escola teria alguma coisa a ver com isto tudo ou não. Ir a pé para a escola é bom, se o fizer com colegas, ainda melhor.

Nas suas ruminações geográficas, procurando tirar o melhor partido desta viagem para esclarecer coisas que aos poucos lhe povoaram a cabeça de interrogações e reflexões mais ou menos indefinidas e sedentas de esclarecimento, pediu-me que a ajudasse a localizar a Feteira de Cima e a Feteira de Baixo. A Dalila, a empregada lá de casa, falava-lhe da de Cima e tinha colegas que lhe falavam da de Baixo.

Foi nesta altura que eu claramente tomei consciência do meu papel, e que percebi que aquela conversa da Mariana era mesmo importante para ela. Na verdade, foi nesta altura que eu percebi que talvez não estivesse à altura do papel que ela me atribuía: a do tio que sabia porque era mais velho e porque era tio; que conhecera o Faial ainda antes dela mesmo; o tio que um dia foi o sábio que falou ao irmão, o João, sobre o mar dos Açores.

Afinal, aquela ilha, mesmo que muito pequenina na minha representação mental, não era para a minha sobrinha açoriana aquilo que eu pensava que era; nem era para mim aquilo que a Mariana pensava que fosse… Por exemplo, não me passava sequer pela cabeça que houvesse ali uma Feteira de Cima e outra de Baixo!...

E consciencializei que estava perante uma situação engraçada, desafiadora, em que um desconhecimento se dispunha alia à minha frente, pronto para ser conhecido se ao encontro dele avançasse. E assim decidi fazer.

Onde me faltava experiência sensorial, física, de passos calcorreados por aqueles lugares, a trazer para dentro da pele a realidade daqueles lugares e daquelas pessoas, tornando-os parte de mim; dizia eu, onde me faltavam essas coisas, pus eu o poder da análise dos meus esquemas mentais, adquiridos noutros lugares e com outras pessoas, ao longo de muitos anos.

O que resultou em cheio!... Acabámos por concordar, na volta a casa, com as massas sovadas descansando no banco de trás do carro, que a estrada dividiria a povoação para cima e para baixo e a Mariana, apontando agora já com esclarecimento e segurança com a ponta do dedo, localizou a Feteira de Cima e a de Baixo, a da Dalila e a dos colegas de escola.

Esta pequena viagem era mesmo uma necessidade para a menina da cidade. A incursão nos territórios de vida dos colegas e da experiência social de muitos deles trouxe-lhe à mente e aos sentimentos um novelo bem enrodilhado de interrogações e fantasias.

A Mariana ouvia-os lá na escola e hipnotizava-se com o que diziam. Tentava chegar a pôr-se na pele deles para entender – sentir mesmo! – o que eles diziam mas era muito difícil.

- Tio, eles falam dos vizinhos deles… Eu já pensei por mim, eu não sei o que são vizinhos, eu não sei os nomes de quem mora ao pé de mim, nem sei quem são… e acho que era engraçado ter vizinhos…

Na verdade, a minha sobrinha mostrava uma vaga tristeza por não poder fruir a experiência social e afectiva que ela adivinhava nas conversas, nos risos e nos entusiasmos dos seus colegas do campo. Eles falam de tanta coisa, conhecem os nomes das pessoas que moram ao pé deles, vão para o café ou para a associação e conhecem os nomes dos velhotes que lá estão e falam com eles todos. “E eu não conheço ninguém… não posso falar de ninguém…”

Eles têm de tratar dos animais e das coisas lá do campo, falam do que plantam e do que apanham. “E ainda têm que estudar…”

Não sei se na cabeça da minha sobrinha a vida dos seus colegas tinha tomado proporções hercúleas: iam de longe para a escola, o que lhes tomava, todos os dias, muito tempo; tinham de tratar das coisas dos animais e das tarefas agrícolas dos seus pequenos pedaços de terreno; juntavam-se aos vizinhos e falavam com eles; e tinham ainda de estudar as coisas da escola. E nem ao domingo os animais e outros trabalhos davam descanso!... E ela não sabia fazer nada, nem com o leite das vacas, nem com couves que se apanham…

Não sei se ela chegaria a invejar os seus colegas por isso, mas seguramente que ela se deixava fascinar pela “sabedoria” e pelo prazer com que os ouvia a falar uns com os outros, solidários numa experiência de vida, que lhes alimentava o desenvolvimento pessoal com um húmus que a Mariana não tem dúvidas nenhumas que é muito importante na formação das pessoas.

Lembrei-me do extraordinário documentário sobre Konrad Lorenz, em que ele diz, a certa altura, “Onde as rãs sobrevivem, as crianças medram”.

Tenho dito repetidamente que me reconheço como psicólogo praticamente desde os meus dez anos de idade. E a Mariana agora estava a ser também sabiamente empática dos outros e da importância das experiências sociais precoces no desenvolvimento das pessoas. Penso mesmo que se lhe desse uma ou outra dica para isso, ela consciencializaria em palavras certas e ajustadas o paradoxo que é, provavelmente, viver na rua principal em comércio e serviços da cidade da Horta, com a densidade populacional no máximo, e isso nada lhe valer do ponto de vista das relações de vizinhança. Pelo contrário, precisamente ao contrário dos seus amigos de escolas provenientes de regiões com muito menos habitantes por unidade de espaço geográfico.

A minha sobrinha é seguramente uma “campeã” de telemóveis, usa-os, estraga-os, descontenta-se com eles quase à velocidade da luz. Tem já na Internet uma experiência de redes sociais no Hi5 e no Messenger de grande dimensão, que domina com elevada perícia. Tantos contactos!... tantas mensagens!... tantas fotografias!...

Tanta comunicação… virtual… mas nenhuma destas coisas lhe traz a experiência, pela voz, no olhar, no toque, no cheiro, nos jogos, nas brincadeiras, nas tarefas, nas conversas, da presença dos vizinhos. Que tipo de húmus é este, o das crescentes e consolidadas urbanizações?...

Horta, 24 de Janeiro de 2010.

quarta-feira, dezembro 30, 2009

As cheias do Tejo, na memória da avó Lourdes

Mariana, minha querida neta,
Mariana, minha querida bisneta,

Tenho muita pena de ter estragado o Natal de todos e já perguntei ao tio Fernando Jorge e à tia Fatinha porque é que isto me aconteceu. Eles falam-me logo das bolachas, dos chocolates e de que eu não ando nada, mas eu não tenho comido nada às escondidas!... Não vou acender o farol, mas subo e desço as escadas lá de casa muitas vezes por dia. Eles riem-se…
Aqui no hospital vejo quase todos os telejornais. O tio Fernando Jorge está comigo na hora das notícias e vemos os dois as notícias.
Tenho-me lembrado muito das cheias em minha casa, no meu tempo, em Rio de Moinhos, por causa das cheias que vai haver hoje em Constância e na Barquinha.
Quando vinham as cheias, nós tínhamos de sair pela janela para o barco… às vezes, fazíamos as sementeiras e depois perdíamos tudo, o meu pai, coitado, trabalhava tanto e ficava sem nada… Uma vez a minha mãe, a avó Rosa, foi à janela e começou a gritar, deixou de ver o barco onde nós íamos… ia lá eu, o meu pai - o vosso avô Branco -, e iam também outras pessoas, o barco desapareceu da vista dela porque às vezes o barco tinha de fazer umas voltas e foi o que aconteceu nesse dia em que a minha mãe foi à janela.
O “velho” [o avô Branco] uma vez teve de empenhar a máquina de costura, o cordão de ouro da avó Rosa e a corrente dele, também de ouro… é que vinha o Tejo e levava tudo… Depois não houve dinheiro para ir buscar outra vez o cordão e a corrente “ao prego”. Acabámos por comprar outro cordão para a avó, foi a tia Rosinda que pagou, foi a Hélia, a filha, vossa prima, que ficou depois com ele quando a avó Rosa morreu. Só conseguimos ir buscar outra vez a máquina de costura.
Quando saímos de Rio de Moinhos para Abrantes, a minha mãe costumava dizer que tinha lá deixado os dentes. Ela queria dizer que tinham lá deixado tudo, o Tejo tinha-lhes levado tudo.
Era… tínhamos de saltar pelas janelas para ir às compras… a casa em que a gente morava era grande, chegámos a acolher lá cinco famílias por causa das cheias… a cheia chegava quase à casa da Milú, a vossa prima, que os vossos pais conhecem, já fica lá para a parte de cima de Rio de Moinhos. Havia umas poucas de ribeiras que faziam a junção…
Quando o Tejo começava a subir nós íamos pôr-nos à janela a ver até onde é que ele chegava. Os homens punham pedras a ver o que o Tejo subia… quando chegava à nossa casa, como já vos disse, tínhamos de saltar pela janela para o barco para ir ao pão, cá para cima, ao pé da casa da Milú… as oliveiras ficavam todas tapadas…
Quando o Tejo descia, ficavam umas poças de água e nas poças de água ficava, sabem o quê?, ficava sável, íamos ao sável, o tio David e eu, eu não apanhava, era o tio David que apanhava, eu segurava o cesto… Uma vez, nós tínhamos uma marrã com crias e ele foi salvá-las da água. Nós ficámos todas com muito medo porque ele não sabia nadar, mas ele enquanto não salvou a bicha e as crias não descansou, tivemos mesmo muito medo.
Às vezes o Tejo subia e descia, eles não gostavam quando o Tejo descia muito depressa, era sinal de que ele ia subir outra vez.
A nossa casa ainda lá está, é na rua principal, a chegar ao largo… era uma casa que o avô Branco tinha alugado… agora é cor-de-rosa, mas no nosso tempo era amarela.
Olhem, agora na televisão estão a falar do rei D. Carlos… o meu avô David, pai da minha mãe, ia muitas vezes à caça com o rei D. Carlos, ali numa quinta perto dos Casais, chamada Anadia… o meu avô era uma espécie de couteiro… ele era muito educado, era uma pessoa que sabia muito… (e a avó deixou-se dormir…)

Avó Lourdes,
Hospital da Horta, 29 de Dezembro de 2009

sexta-feira, fevereiro 13, 2009

Aniversários: de Darwin, do meu pai e da Mariana

Ontem cantei os parabéns a Charles Darwin, na Gulbenkian, e comi uma pequena fatia do seu bolo de aniversário.
Hoje evocarei o aniversário do meu pai e, na casa que foi a dele, cantarei os parabéns à sua neta açoriana, a minha sobrinha Mariana. Depois de ela apagar as velas, vou comer mais bolo de anos, que virá da deliciosa padaria Barroso, do Redondo. 
A autobiografia de Darwin tem muitas referências ao seu pai, que atestam os laços que os ligavam e os sentimentos profundos que o naturalista nutria pelo seu progenitor.
Para além de todas as opiniões pessoais que pudesse ter manifestado em relação ao seu filho, parece-me que nos momentos críticos das opções de Darwin, Robert Darwin respeitou as opções do filho, e deu espaço para que ele levasse por diante as suas motivações e as suas decisões.
O "salvar a face" da sua autoridade perante a vontade de não deixar o filho embarcar no Beagle e a atitude de não o impedir de realizar este seu grande desejo está na formulação lapidar com que lhe comunica a sua decisão: "Se encontrares alguém de bom senso que te aconselhe a ir, eu dou-te a minha permissão".
É... o meu pai também teria dito qualquer coisa assim deste género. Para ele, mais importante do que obrigar-me a cumprir as suas determinações, ou condicionar-me logo para tomar (para ele, claro, do seu ponto de vista) as boas decisões, o meu pai confiava sempre, deu-me sempre a possibilidade de escolher, queria era que eu assumisse as minhas decisões mesmo nas suas piores consequências. Quando as havia - raramente isso aconteceu - apoiava-me benevolentemente na resolução de quaisquer problemas surgidos.
É... o meu pai ajudou-me, mais do que qualquer outra pessoa, a seguir (responsavelmente) as minhas motivações e a, como diz Darwin, a ter um enorme prazer no esforço físico e mental. Na exploração do mundo e na comunicação com as pessoas à minha volta.
Parabéns, Velho!... Parabéns, Mariana!...

quinta-feira, janeiro 01, 2009

Carta aberta ao menino prodígio de Setúbal, o Miguel Guerreiro

Querido Miguel,

Vou tentar que esta carta tenha o teu tamanho, que seja pequena.
Ontem, na noite de passagem de ano fiz questão de te ver no espectáculo da TVI. Tinha-te visto no fim-de-semana e tinha ficado impressionado com a tua performance a cantares o “Sol de inverno”.
Miguel, a tua voz é um dom. O teu corpo canta todo contigo. E quando a canção te puxa ao limite do esforço, e a boca se abre em toda a sua expansão, parece que a gente consegue ver-te a alma, feliz, a trazer-nos as canções de ti para nós, cantadas em modulações deliciosamente harmoniosas.
Não gosto do género de espectáculos em que participaste, nunca os vejo. Mas era a oportunidade de te voltar a ouvir – já que da primeira vez te ouvi por mero acaso - , e não quis perdê-la.
A minha sobrinha Mariana, ao meu lado, perguntava-me como era possível uma criança ter a voz assim. Ela tem 13 anos, quase 14. E se a tua voz irá ser sempre assim, tão bonita. Eu disse-lhe, entre outras coisas, que, por exemplo, terás de passar pelo risco da puberdade, não sabemos o que ela fará à tua voz.
O resto… o resto é motivação pessoal e educação familiar e escolar. Este teu grande sucesso, tão precoce, pode virar-se contra ti. Gostei de ver os teus pais no espectáculo. Fico a desejar que eles venham a ser contigo o que penso que eles deverão ser: que te protejam do sucesso fácil e dos gananciosos dos espectáculos mediáticos; e te proporcionem a formação pessoal e a educação escolar e artística que a tua pessoa e o teu dom necessitam.
Parabéns, Miguel!
Muito obrigado pelos momentos deliciosos que me proporcionaste!
Desejo-te tudo de bom na vida. Não é nada de especial, toda a gente diz assim. Mas também, na verdade, que mais posso eu desejar agora para ti?...