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terça-feira, fevereiro 21, 2012

Tempo de Quaresma. Ainda o Chefe Jaime.

Hoje de manhã, pelas razões que deixo a descoberto no que a seguir vou escrever, vi-me na Igreja Paroquial dos Olivais a perguntar pelo meu antigo aluno Bruno, que presentemente é o senhor padre guardador dessa igreja.
Quando cheguei a casa e fui deixar um apontamento no Facebook, curiosamente, encontrei, no meu mural, uma mensagem do senhor padre Bruno Machado. A mensagem, pública, anunciava que tinham acabado de chegar da Terra Santa.
Deixei o seguinte comentário à mensagem do senhor padre, no espaço próprio para o fazer:
Saí há pouco da igreja paroquial dos Olivais. Na Horta, no Faial, um grande amigo meu recebia o adeus cristão na sua igreja de sempre. Impossibilitado de estar junto dos seus familiares e amigos, procurei a igreja que tanto tem, aqui, em Lisboa, a ver comigo e com esse amigo. A igreja estava fechada, mas um mistério daqueles que nos recolhem fraternalmente nos braços abriu-me as portas da igreja e pude juntar-me, no coração e no pensamento, àqueles de quem eu queria muito hoje estar junto. Perguntei por ti, meu querido aluno, perguntei por si, sr. Pe Bruno Miguel Machado. Disseram-me que estavam de volta da Terra Santa. Deixei-(te)lhe um abraço muito grato e fraterno. Peço-lhe agora, senhor padre, que repita os meus mais sinceros agradecimentos à senhora paroquiana que, plena de boa fé, me deu a bênção do bocadinho precioso de recolhimento de que tanto necessitei esta manhã!

Entretanto, aproveitei para trazer comigo um exemplar da edição do jornal Voz da Verdade (n.º 4019, de 19 de fevereiro de 2012). Gostei muito de ler o editorial! O seu autor é  D. Nuno Brás.
O conteúdo do texto tem a ver com o que tantas vezes falo nas aulas de Psicologia (Espero que o senhor padre Bruno Miguel Machado seja ainda capaz de o testemunhar...); e tem a ver com o modo de ser do meu grande e, a partir de agora, saudoso amigo Jaime Alexandre - o Chefe Jaime -, afinal, a razão de coração que me levou hoje à igreja paroquial dos Olivais.
Com a licença de quem o possa permitir, reproduzo aqui, na íntegra, esse texto, tão claro, tão cordialmente cristão, sobre o tempo da Quaresma:
Confesso que a Quaresma nem sempre foi para mim um tempo litúrgico simpático. Pelo contrário: foi muitas vezes suportado como o tempo de tomar consciência do pecado, da fraqueza de não o conseguir ultrapassar, de fazer parte de uma humanidade bem longe das glórias que se atribui a si mesma.
Hoje, acredito que o problema não se encontra, obviamente, na Quaresma, mas no modo de a viver. Para um egoísta empedernido, a Quaresma é, de facto, difícil de viver. Para aquele que olha para si, é difícil compreender o convite a dar mais tempo à oração (a dar mais tempo ao Outro que é Deus), à caridade que nos ensina a amar o outro nosso irmão não com o nosso amor mas com o amor de Deus, e ao jejum que nos obriga a privarmo-nos de tantos pequenos prazeres e nos convida a perceber que não somos o nosso fim último.
Mais que qualquer outro tempo litúrgico, a Quaresma convida-nos a dar atenção ao outro que se encontra ao nosso lado: precisamente, aquele outro de que nada sabemos de seguro, de quem, eventualmente e sem qualquer razão, imaginamos que sofra ou que se alegre, que tenha uma boa vida descansada e egoísta ou que, vergado pelo peso de uma história de dor, nem sequer consiga esboçar um sorriso.
A Quaresma convida-nos a ir para além daquilo que imaginamos, das segundas ou terceiras intenções que atribuímos a gestos, atitudes e palavras dos outros – tantas vezes criadoras de mal-estar – para ir ao encontro do outro real. A Quaresma convida-nos a conhecer a realidade do outro, como ele efectivamente é; o que ele na realidade pensa; aquilo de que, verdadeiramente, necessita. Convida-nos, afinal, a sairmos de nós, da nossa concha, do nosso mundo cheio de muros, de classificações, de preconceitos, de sonhos e imaginações, para termos a ousadia de nos expormos, como somos e com as nossas dificuldades, mas igualmente com tudo aquilo que Deus faz (ou pode fazer) em nós e através de nós.
Pouco importa a “simpatia” da Quaresma. O facto é que ela nos ajuda, em cada ano que passa, a crescer na fé, na esperança e na caridade. Sem os “exercícios quaresmais”, como o nosso coração seria bem mais duro e empedernido!


quinta-feira, janeiro 21, 2010

Ao meu amigo Jaime, ao Chefe Jaime

Calhou estar no Faial no dia dos Amigos. Pela primeira vez. Forçadamente.
Calhou bem.
Vive-se aqui o dia dos Amigos como eu nunca o vivi.
As rádios locais falam constantemente no Dia dos Amigos, dizem que hoje está um bom dia para festejar o Dia dos Amigos.
O João Henrique, o meu afilhado, nascido faialense, hoje de manhã, ainda estremunhado, cumprimentou-me como nunca o fizera antes e saudou-me com um "Bom dia, amigo!"
Com o meu amigo Chefe Jaime vou logo, depois de aconchegar a minha mãe no fim do seu jantar, tomar um gin no Peter, à saúde dos amigos. O primeiro de que me vou lembrar - perdoem-me os outros - é do Zeca Barroso, que também vive muito intensamente na sua terra, o Redondo, no Alentejo, o Dia dos Amigos.
Aos outros amigos, de boa vontade os abraçaria a todos hoje. E sinto a alegria de saber que não teria tempo para todos. São já muitos! Estou certo que, ao longo da vida, muitos tenho juntado e praticamente nenhum eu tenho perdido.
A todos dedico o poema de Alexandre O'Neill

AMIGO

Mal nos conhecemos
Inaugurámos a palavra amigo!

"Amigo" é um sorriso
De boca em boca,
Um olhar bem limpo,
Uma casa, mesmo modesta, que se oferece,
Um coração pronto a pulsar
Na nossa mão!

"Amigo" (recordam-se, vocês aí,
Escrupulosos detritos?)
"Amigo" é o contrário de inimigo!
"Amigo" é o erro corrigido
Não o erro perseguido, explorado,
É a verdade partilhada, praticada!

"Amigo" é a solidão derrotada!
"Amigo" é uma grande tarefa,
É um trabalho sem fim,
Um espaço sem fim,
Um espaço útil, um tempo fértil,
"Amigo" vai ser, é já uma grande festa!

Alexandre O'Neill, No Reino da Dinamarca

domingo, outubro 18, 2009

Ó ti Jóge, o mar dos Açores é grande?

Hoje, a arrumar papéis, recuperei o que considero ser um bem delicioso diálogo familiar, que aconteceu numa manhã em que o Sol irradiava um brilho como se tudo a que ele chegasse ele quisesse abençoar mansamente.

O dia 18 de Outubro é o Dia Europeu de Luta contra o Tráfico de Seres Humanos.
Dedico este pequenino texto a todos os pequenos sobrinhos e a todos os tios e tias que por causa da violência de homens não podem fruir estes momentos encantadores de convívio humano, de carinho familiar.

"- Ó ti Jóge, o mar é grande, não é? perguntou-me lá do banco de trás, assim que eu parei o carro para me desembaraçar do toque do telemóvel, o J. H., 7 anos de idade, neto do Peter, que toda a sua vida viveu o mar como o rapazinho o começava a ver agora: grande, muito grande. Estávamos num ponto alcandorado da ilha, com o hospital da cidade por detrás de nós e a montanha do Pico a aparecer-nos sobre o lado esquerdo.
- É, J., é grande, e às vezes é mesmo muito grande…
- O mar dos Açores é grande, ti Jóge?
- Olha para ali, J., a gente olha lá para o fundo, vê sempre o mar e depois la no fundo a gente não vê mais, mas o mar continua ainda mais, parece que nunca mais acaba. Mas se tu olhares ali para o Pico, o mar fica pequenino; e se tu um dia quiseres e o mar estiver mansinho, tu podes ir o mar todo até ao Pico, a nadar.
- Ti Jóge, o mar tem um nome?
- Tem, tem muitos nomes, é que há muitos mares. E quando os mares ficam muito grandes já não se chamam mar, chamam-se oceanos.
O J. olhou lá para o fundo para onde eu dissera que o mar continuava e perguntou-me:
- O mar dos Açores é um oceano?
- O mar dos Açores ali para o fundo já se chama Oceano Atlântico. Ali em baixo – tu sabes – chama-se praia de Porto Pim; daquele lado ali, quando vamos para o Pico, chama-se Canal; onde tu estiveste ontem com o teu irmão e os vossos amigos chama-se Praia do Almoxarife…
- Quantos oceanos há no mundo?... interrompeu-me ele.
- Um dia, na escola, a tua professora vai mostrar-te num mapa grande o Oceano Atlântico, o Oceano Pacífico, o Oceano Índico, o Oceano Glacial Ártico e o Oceano Glacial Antártico.
- Este aqui dos Açores é o mais grande ou não, ti Jóge?
- É quase o mais grande. O mais grande de todos é o Oceano Pacífico.
- O oceano dos Açores não é o mais grande, ti Jóge?
A voz e o rosto do J. traziam, nem era bem um desapontamento, era mesmo uma aflição.
- Não, não é… Mas tu já viste bem as coisas bonitas que o mar dos Açores tem? As baleias e os golfinhos; a doca onde tu, o teu pai e os teus irmãos tomam banho; os peixes que a gente pesca com o Chefe Jaime… não é, J.?...
- Ó ti Jóge, tu sabes tanta coisa…
A voz e o rosto do petiz recuperavam já o ar ruminativo e espantado que tomam nas crianças quando elas pensam intensamente. Parece que, quanto ao mar, por agora bastava.
O objecto da sua curiosidade passou a ser a sabedoria das pessoas.
- Ó ti Jóge, quem é que sabe mais, és tu ou é o avô?..."

É a esse avô e ao seu compadre Peter, que leram e se riram com esta pequena história, que eu envio, hoje, dia de Sol também lindo, que há bem pouco trouxe o brilho ao Tejo, que passa lá ao fundo, no horizonte da minha janela, como naquele dia passava o mar dos Açores, que eu mando um muito forte e carinhoso abraço. Um abraço manso, como fez o Sol num dia de Agosto, no Faial, no ano dois mil.