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sábado, dezembro 27, 2025

#TOLERÂNCIA362 - DEMOCRACIA E TOLERÂNCIA

 #TOLERÂNCIA362 - DEMOCRACIA E TOLERÂNCIA

A edição de hoje do Expresso traz um artigo de opinião que merece discussão atenta. Atenta e tolerante. A autora é a jurista constitucionalista Teresa Violante. O título do artigo é "A democracia que se defende".

«O Tribunal Cível de Lisboa ordenou a André Ventura a remoção de cartazes que atacam a comunidade cigana. O candidato presidencial já classificou a decisão como um ataque à liberdade de expressão. Terá razão? A resposta curta é: não. A jurisprudência do Tribunal Europeu dos Direitos Humanos é clara. Em ‘Féret c. Bélgica’ (2009), o TEDH considerou legítima a condenação criminal de um político por panfletos eleitorais que estigmatizavam imigrantes, sublinhando que os políticos têm um dever acrescido de evitar discursos que fomentem a intolerância. A jurisprudência é particularmente relevante quando se trata da comunidade cigana. Em ‘Boudinova e Chaprazov c. Bulgária’ (2021), o Tribunal condenou a Bulgária por falhar na protecção de cidadãos roma contra declarações públicas de um político de extrema-direita.

»A liberdade de expressão política, embora ampla, não protege generalizações discriminatórias dirigidas a grupos étnicos. Mais: o artigo 17.º da Convenção Europeia dos Direitos Humanos exclui da protecção discursos manifestamente contrários aos seus valores — a chamada cláusula de abuso do

direito.

»A decisão da juíza Ana Barão inscreve-se nesta lógica: cartazes que “agravam o estigma e o preconceito” contra uma minoria étnica, fomentando “intolerância, segregação, discriminação e, em última análise, ódio”, situam-se fora do âmbito protegido da liberdade de expressão. Não se trata de censurar críticas políticas ou opiniões incómodas. Trata-se de reconhecer que a democracia pode — e deve — defender-se de quem instrumentaliza as suas liberdades para minar a igual dignidade de todos.

»Karl Loewenstein cunhou o conceito de “democracia militante” nos anos 30, ao observar como a democracia de Weimar sucumbiu por se recusar a combater movimentos que usavam instrumentos
democráticos para destruí-la. A lição histórica é clara: a tolerância ilimitada do intolerante conduz à destruição da tolerância.

»Mas a democracia militante comporta riscos. O primeiro é a vitimização: Ventura explorará esta decisão como prova de que o “sistema” o persegue, reforçando a narrativa ‘anti-establishment’ que alimenta o seu eleitorado. O segundo é a tentação de reduzir a defesa democrática a proibições judiciais, esquecendo que os tribunais tratam sintomas, não causas.

»O Chega não surgiu no vazio. Surgiu num país onde o fosso entre Portugal urbano e interior se alarga, onde a classe média se sente pressionada, onde muitos encaram, com apreensão, mudanças que não compreendem. A democracia não se defende apenas nos tribunais. Defende-se com políticas que respondam às necessidades reais que os populistas exploram — habitação, saúde, segurança e integração.

»A democracia que se defende nos tribunais pode ganhar batalhas. Mas só a política conseguirá ganhar esta guerra.»

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sábado, setembro 27, 2025

#TOLERÂNCIA272 - DE ONDE VEM O POPULISMO? DO POVO!

 

Vou reproduzir integralmente o texto de Henrique Monteiro, publicado na edição do Expresso, não porque o subscreva integralmente (penso que ele e eu somos de quadrantes ideológicos bem distintos), mas porque dá relevo à questão da tolerância na dinâmica entre as maiorias e as minorias, entre as democracias e as autocracias, entre o liberal e o iliberal. Sim, por mim, proponho a discussão do artigo.

«Todos conhecem a frase “a democracia é o pior dos regimes, excetuando todos os outros”. Um regime
político decente tem de assegurar liberdade, mas também leis gerais e abstractas, igualdade de oportunidades e justiça nas decisões. Por isso, uma democracia séria e robusta tem, obrigatoriamente,
de restringir a liberdade de cada indivíduo, de forma a que não coloque em causa a liberdade de outros. Isto é, tem de ter regras claras, ou ‘linhas vermelhas’.

»Entramos, assim, na questão de saber quem define essas regras. A maioria, como é óbvio, dirão alguns. De facto, parece evidente, porém esbarra com a diferença entre maioria e razão, ou ser razoável. Nem sempre ter a maioria equivale a ser justo, decente ou assegurar a liberdade. Pelo contrário, a organização da liberdade impõe restrições, o que implica a inteira tolerância para com as minorias e a compreensão das suas legitimidades, desde que não queiram impor os seus pontos de vista. Como perceberão, isto aproxima-se muito do conceito de imperativo categórico do filósofo Immanuel Kant — “age como se a tua acção pudesse ser erigida em lei universal da natureza”.

»E aceitamos que há leis universais da natureza, que nada nem ninguém pode pôr em causa? Ou
achamos que elas dependem de idiossincrasias, latitudes e crenças? Se há valores universais (creio que sim) temos de considerar um ‘chão comum’ desses valores ou dessa lei universal, para todos poderem conviver e dialogar, mesmo que com ideias opostas entre si, religiões diferentes, hábitos diversos, Mas qual lei? Quem a dita — e voltamos ao início.

»Para um crente é Deus ou o Ser (ou pensamento, 'corpus' moral ou filosófico) em que acredita. Não por acaso, no essencial, eles são todos semelhantes — salvo alguns casos de extremismo que existem em todas as variantes, dos judeus ultraortodoxos aos jiadistas, dos budistas aos hindus e cristãos radicais. Para quem em nada acredita, é-me mais difícil ensaiar uma explicação, embora, naturalmente, a maioria dos ateus e dos niilistas respeitem essa lei não escrita, a que Kant chamou lei universal da natureza. Se seguirmos o raciocínio, a liberdade e a democracia colhem-se neste campo, e não na fria lei dos números de maiorias ou minorias. Há países com uma maioria de votos expressiva em programas, pessoas ou partidos que não honram nem uma nem outra. Não são democracias, ou são, como agora se diz, ‘democracias iliberais’. E, de facto, são cada vez mais, o que prova que a democracia, em si mesmo, não assegura a existência de liberdade. A democracia, sem liberdade, pode não passar de um sistema da lei do mais forte, traduzido em votos. Mas qual a legitimidade de uma maioria condenar ao ostracismo a minoria? Que direito tem de a calar? Que direito tem de proibir movimentos antidemocráticos? Por que se proíbe o nazismo e o fascismo ou, noutros casos, o comunismo? Mais ainda: o racismo, o discurso de ódio e outras excrescências democráticas? Será possível a uma maioria proibir tudo o que não gosta? E será, ainda assim, uma democracia?

»Voltemos atrás. Não necessita a democracia de um absoluto e indispensável comprometimento com a liberdade individual, desde que esta não coloque em causa ou prejudique a liberdade dos outros? Ou seja, não necessita de restringir a vontade da maioria, quando esta se torna intolerante? Ter ‘linhas vermelhas’ não é uma mera questão política, mas de civilização. Sem compreender que há quem não jogue o nosso jogo, perdemo-nos.

»O populismo diz agir em nome do que o povo quer. Os democratas têm de conjugar a vontade do povo com o dever que, como seres humanos, têm uns para com os outros. Com respeito, tolerância e fraternidade, como aliás postulam Kant e a Declaração universal dos Direitos Humanos, da ONU.»

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sexta-feira, setembro 19, 2025

#TOLERÂNCIA264 - AS ABELHAS E O HUMOR

 #TOLERÂNCIA264 - AS ABELHAS E O HUMOR

O humor está para a liberdade democrática como as abelhas estão para os ecossistemas do Planeta Terra.

Nas aulas de apresentação da disciplina de Cidadania e Desenvolvimento (4 turmas, duas do 7.º ano e 2 do 9.º), falei das abelhas e das consequências para os ecossistemas da Terra se elas desaparecerem completamente por causa dos incêndios e de outras actividades humanas: as consequências são desastrosas.

Num certo sentido, podemos dizer que o humor na sociedade e na Política é como as abelhas nos ecossistemas: dão-nos picadas, dão-nos ferroadas, mas é para nosso bem, é para bem da democracia.

Há pessoas que não têm sentido de humor, que não toleram uma piada, e entre estas pessoas há muitos políticos. Exagerarão por vezes os humoristas? Sim, é claro que sim, mas apetece rematar que, neste campo, antes demais do que de menos. Que os políticos se zanguem com os humoristas, mas que não os calem.

Por isso, quando políticos têm o poder de calar os humoristas e os jornalistas-humoristas e o exercem isso é mau para os ecossistemas sociais e políticos. Ora, se quanto aos regimes políticos repressivos e ditatoriais não dizemos nada, quando isso acontece em regimes tradicionalmente não-repressivos e não-ditatoriais, nestes casos, deve soar o alarme.

Neste caso recentíssimo dos EUA, em que o 'talk-show' de Jimmy Kimmel, do canal ABC, foi suspenso por pressão do Presidente Trump, o caso caso é especialmente grave. Ao cidadão comum parece evidente que o Presidente dos EUA quer ter um poder autoritário, absoluto e discricionário que ele vê outros líderes mundiais terem nos seus países. A mim não me aflige que ele o queira ter, o que me aflige é que ele vai obtendo esse poder com a anuência de cada vez mais gente. Pior! Com a cedência da Imprensa e dos Órgãos de Comunicação Social, que parece que aceitam passar a dizer o que for aceitável para o Grande Ditador. Sem as ferroadas das abelhas, os ecossistemas da Liberdade de Expressão e da Imprensa Livre precipitam a corrosão dos sistemas democráticos dos países.

Na edição de hoje, o "The Guardian" traz um artigo que enumera algumas ocorrências recentes, pela escrita de Oliver Holmes. O primeiro terço do artigo diz assim, sob o título: "Líderes Amordaçados que não sabem aguentar uma piada"

«O comediante egípcio exilado Bassem Youssef sentiu na pele como a sátira política pode ser silenciada. E tem uma mensagem curta para aqueles que vivem numa era de repressão à liberdade de expressão de Donald Trump: "Meus Queridos Cidadãos Americanos", escreveu no X. "Bem-vindos ao meu mundo".

»Nos seus ataques aos satiristas americanos mais proeminentes, o presidente dos EUA juntou-se a um grupo de líderes iliberais em todo o mundo que não toleram uma piada. O alvo mais recente do que os críticos dizem ser uma campanha para silenciar vozes dissidentes foi Jimmy Kimmel, cujo programa de entrevistas nocturno da ABC foi suspenso após pressão governamental.

»A remoção, semanas depois de a rede rival CBS ter cancelado o programa satírico de Stephen Colbert, segue-se a outras repressões lideradas por Trump. Opositores políticos do presidente norte-americano afirmam que o espaço cada vez menor para a liberdade de expressão mostra que a América de Trump está a avançar para o autoritarismo.

»O senador Bernie Sanders, em declarações à MSNBC, afirmou que o país está num caminho para se tornar mais parecido com regimes opressivos como os da Rússia e da Arábia Saudita. "Isto é apenas mais um passo em frente", disse. "Estamos a tentar unir o povo americano contra a oligarquia, contra o autoritarismo".

»Desde o chefe da junta militar egípcia Abdel Fatah al-Sisi até ao primeiro-ministro nacionalista da Índia Narendra Modi, as gargalhadas muitas vezes terminam à medida que a democracia definha.»

E o jornalista vai, então, por aí fora enumerando outros casos.

Vêm-me à cabeça as estações desta minha saga, lá muito para trás, em que junteiei, com a ajuda da Internet, algumas piadas para usar em actividades de dinâmica de grupo de promoção da Tolerância. É verdade, em boa hora o fiz.

Já uma ou outra vez sugeri aqui um ou outro tema de tese de Psicologia ou de Sociologia. Talvez este seja mais um: estudar o passado escolar e o passado de vida dos líderes dos países e compará-los. Uma questão a investigar: será que os líderes governativos mais "iliberais" (como diz Oliver Holmes) eram

crianças que se riam menos, que não gostavam de piadas, que eram gozados pelos amigos e colegas? Podia especular aqui com outras perguntas, mas o texto já vai longo.

Por cá, felizmente a grande parte dos políticos ainda deseja ardentemente ser convidado para o "Isto é Gozar com Quem Trabalha", do Ricardo Araújo Pereira, na SIC, nas alturas dos processos eleitorais. Que neste programa e noutros nunca deixe de ser assim. E acredito que o Ricardo Araújo Pereira já tenha sido pressionado para levar lá um certo líder político, mas ele continua a não querer fazê-lo. Se um dia o levar lá, que seja por sua livre vontade.

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domingo, agosto 10, 2025

#TOLERÂNCIA224 - A TOLERÂNCIA É A VIRTUDE DEMOCRÁTICA POR EXCELÊNCIA

 #TOLERÂNCIA224 - A TOLERÂNCIA É A VIRTUDE DEMOCRÁTICA POR EXCELÊNCIA

«A tolerância é a virtude democrática por excelência.» Quem escreve assim é Victoria Camps, Professora catedrática de Ética da Universidade Autónoma de Barcelona, à data de Junho de 1991 (que

é a data do n.º 83 da revista Documentacion Social, revista de estudios sociales y de sociologia aplicada, de Madrid), no artigo "Los contenidos de la ética civil".

Bem, com o temos visto especialmente nos últimos tempos, e admitindo que Victoria Camps é competente a ensinar, a generalidade dos líderes políticos (e afins) do Mundo, nem dos dirigentes desportivos, não foi aluna desta professora catedrática.

Eis aqui o parágrafo completo:

«A tolerância é a virtude democrática por excelência. Tolerância em relação a tudo aquilo que não tem de ser comum. A distinção entre o público e o privado, entre o universalizável e o que não o é nem deve ser, não é uma distinção estática e fixada de uma vez por todas. Pelo contrário, convém ir deslocando as fronteiras à medida que o tempo avança e descobrimos o que os éticos contemporâneos entendem como a diferença entre a justiça — que deve ser universal e a felicidade que não deve submeter-se a normas universais. Cada um tem o dever de aceitar os princípios éticos da justiça, mas, para além ou aquém desses princípios, cada um é livre de optar pela forma de vida que mais lhe aprouver. Tentar converter num modelo universal e obrigatório para todos um tipo de pessoa, de família, uma religião ou uma ideologia política é ser intolerante. A democracia pressupõe pluralidade de pontos de vista, os quais merecem conviver desde que essa convivência não obstrua o objectivo comum da justiça. Perante isto, em contrapartida, perante tudo o que é injusto ou negação da própria democracia, há que mostrar-se intolerante. Em poucas palavras, não se deve confundir a tolerância com o 'vale tudo' ou com a indiferença.»

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sábado, agosto 02, 2025

#TOLERÂNCIA216 - TRUMP, UM LÍDER INTOLERANTE?

 #TOLERÂNCIA216 - TRUMP, UM LÍDER INTOLERANTE?

Infelizmente, não é o único em muitas das lideranças vigentes nos países do Mundo.

Donald Trump, que governa um dos 2 ou 3 países mais influentes nas dinâmicas políticas, económicas e bélicas do Mundo, é um personagem bastante polémico, desconcertante, desesperante para muita gente de praticamente todos os países. Invectivado e odiado por uns e adorado e adulado por outros, é personagem complicada para as mentes humanas que, em geral, gostam de entender os líderes políticos e terem deles alguma previsibilidade de comportamento e acções.

Jean-François Marmion é psicólogo de formação, é escritor e jornalista de temas científicos. É, no fundo, um daqueles profissionais da escrita que ajuda os cidadãos a organizarem entendimentos e a encontrarem palavras para exprimirem o que sentem e pensam. Por isso dele trago para aqui este seu texto, publicado na "Sciences Humaines" no dia 23 de Julho de 2025:

«Donald Trump, o troll supremo?

»O 45.º e 47.º presidente dos Estados Unidos é frequentemente apelidado de idiota. Isso é pouco! Poder-se-ia dizer, ó Deus!, muitas coisas em suma. Ele é um troll, um trickster! Que digo eu, é uma

tétrade negra! Mas não nos entusiasmemos e verifiquemos tudo isto.

»Donald Trump ousa tudo: é mesmo por isso que o reconhecemos. Desde 2018, quando dezenas de académicos foram convidados pela Sciences Humaines a dar o seu próprio esclarecimento sobre a estupidez humana, muitos, especialmente nos Estados Unidos, citaram-no espontaneamente como o idiota por excelência. Aaron James, professor de filosofia em Irvine, até o qualifica como "über idiota", uma espécie de super-homem e padrão da estupidez menos brilhante.

»Um parvalhão exemplar?

»Aaron James explica que o idiota comum acredita ser moralmente superior aos outros, exige privilégios sem os merecer e é impermeável a qualquer crítica. Donald Trump, deste ponto de vista, poderia de facto ser um caso exemplar, tratando as instituições como acessórios, os indivíduos como instrumentos e as regras como obstáculos a contornar, exceto quando o protegem. Acusado de 91 crimes em 4 casos, considerado culpado em 34 num deles (o resto está pendente), ele diz-se perseguido enquanto incita ao linchamento mediático ou judicial dos seus adversários. Robert Sutton, professor de Gestão em Stanford, sublinha ainda que o idiota se revela como um destruidor do ambiente relacional: alguém que humilha, domina, stressa e esgota os outros. Ora, Donald Trump, empresário e depois presidente, é acusado de transformar o assédio hierárquico numa arte de viver, com explosões irracionais, desprezo por conselheiros competentes e valorização dos aduladores. A sua réplica mais famosa, afinal, é um "You’re fired!" ("Está despedido!"), proferido friamente ao longo da sua carreira, desde a televisão real até aos tweets. Ele vive num mundo que molda à sua medida, onde qualquer crítica é percebida como uma traição ao seu estatuto de macho alfa visionário. Robert Sutton fala do "teste do efeito": o idiota putativo destrói mais energia à sua volta do que cria? No caso de Trump, a resposta parece ser esmagadoramente positiva. Se Donald Trump fosse realmente um idiota, seria então um idiota estrutural: as suas extravagâncias não seriam desvios de conduta, mas sim uma tendência de fundo.

»Dito isto, os maldosos poderiam atribuir-lhe outros epítetos, como o transtorno de personalidade antissocial, descrito na 5.ª edição do DSM (o manual de classificação psiquiátrica americana) como um desprezo persistente pelos direitos dos outros, comportamentos impulsivos e manipuladores, tendência para a irresponsabilidade, ausência de remorsos… Em Donald Trump, vários comportamentos públicos coincidem ou aproximam-se perigosamente destas características: impulsividade nas redes sociais, incapacidade manifesta de reconhecer um erro ou expressar qualquer remorso (sobre a invasão do Capitólio, as suas infidelidades à mulher grávida…), falta de empatia pelas vítimas das suas políticas (como a ideia de declarar oficialmente mortos e, portanto, inelegíveis para qualquer ajuda social 6.000 imigrantes latinos, ou a proibição aos americanos expatriados na China de se apaixonarem por um local…). O diagnóstico de personalidade antissocial nunca foi oficialmente feito, mas dezenas de especialistas questionam-se seriamente sobre isso. Incluindo a sua própria sobrinha, psicóloga clínica.

»Tétrade negra e ‘trollismo’

Mais especulativa do que a personalidade antissocial, mas interessante para o caso Trump, a Psicologia propõe uma noção próxima chamada "tríade negra" da personalidade. Neste caso, um aglomerado de três traços de carácter tóxicos:

»Narcisismo (sentimento de superioridade, necessidade constante de admiração). Donald Trump parece obcecado pela sua grandeza, totalmente dependente da adulação, alimentando uma necessidade constante de dominação simbólica. A sorte extraordinária que lhe permitiu ser reeleito apesar dos seus problemas judiciais e escapar à morte por um triz confirmaria qualquer um menos narcisista do que ele no seu direito…

»Maquiavelismo (manipulação fria, instrumentalização dos outros). Donald Trump é suspeito de usar não apenas os seus subordinados, mas também os seus apoiantes como peões num jogo de poder.

»Psicopatia (ausência de empatia e impulsividade). Trump demonstra uma incapacidade de antecipar as consequências dos seus actos (minimizar a Covid ou preconizar injeções de lixívia…), ausência de remorsos e indiferença pelo destino daqueles a quem prejudica, desde que ganhe algo.

»Alguns investigadores propõem acrescentar um quarto traço de personalidade:

»Sadismo (prazer em infligir sofrimento ou humilhação). O presidente parece ter prazer em humilhar, especialmente em público. Atribui alcunhas depreciativas aos adversários ("Crooked Hillary", "Sleepy Joe"…), goza com as aparências físicas (chamando à apresentadora Rosie O’Donnell porca ou dizendo da sua rival Carly Fiorina: "Olhem para esta cara! Alguém votaria nisto?"), deleita-se com o sofrimento moral dos jornalistas ou das minorias. E convida Zelensky para o Gabinete Oval só para o rebaixar perante o mundo.

»O sadismo não é aceite por todos os investigadores como devendo acompanhar os três traços anteriores. Seja como for, Donald Trump destaca-se pela crueldade social sem complexos. Ora, o sadismo quotidiano é um bom preditor do ‘trollismo’.

»Sim, desde o aparecimento dos fóruns na Internet, mesmo antes das redes sociais, o ‘troll’ é um autêntico objeto de estudo em Psicologia Social. Longe de ser um brincalhão que provoca por diversão, ele procura activamente provocar, frustrar e chocar os outros, para seu próprio prazer. O ‘trollismo’ está, portanto, frequentemente associado a uma forma de sadismo, combinado com narcisismo e prazer na disrupção. É fácil imaginar Trump como um ‘troll’ a praticar a provocação permanente, incitando ao conflito, contradizendo-se de um dia para o outro, improvisando. No primeiro debate presidencial com Biden, por exemplo, que ele interrompeu 128 vezes em 90 minutos, pode-se pensar que estava numa lógica de ‘trollagem’ destrutiva, não de debate. Algumas das suas afirmações são por vezes tão surpreendentes ("Não há um único lugar vazio", declarou ele num comício perante uma sala meio vazia filmada pela televisão) que parecem feitas não para serem acreditadas, mas para serem repetidas, como um meme.

»Não contente em explodir as normas discursivas, Donald Trump parece divertir-se com a indignação que provoca, como um ‘troll’ de estatuto elevado, uma espécie de ‘über idiota’ ainda mais intencional: quanto mais choca, mais visível é, mais o seu comportamento é reforçado. Trump encarnaria então uma figura totémica da personalidade tóxica pós-moderna: um ‘troll’ criado na televisão real, alimentado pelo conflito, eleito pelo ressentimento e sobrevivendo graças à indignação que provoca.

»O rei vai nu, mas passa em ‘loop’ na televisão

»Tal como o idiota, a personalidade antissocial, o ‘troll’ ou o indivíduo marcado pela tétrade negra, falta decididamente a Donald Trump um ingrediente importante do que faz um ser humano: a empatia. Recordemos uma observação que Alison Gopnik, professora de Psicologia em Berkeley, menciona regularmente: Trump apresentaria as características de uma criança malcriada obcecada pelo seu próprio prazer. Mal-educado, caprichoso, tirânico, barulhento, intolerante à frustração. Se quisermos especular sobre o melhor rótulo para lhe atribuir, talvez este aspecto imprevisível e infantil o faça destacar-se numa outra categoria ainda, aqui apresentada como hipótese: Donald Trump assemelha-se surpreendentemente a um ‘trickster’. O que quer isto dizer? Em Antropologia, o ‘trickster’ (ou "embusteiro divino") é uma entidade divina, espiritual ou demoníaca, que engana e transgride como respira. Muitas vezes ridículo, por vezes perigoso, é um mentiroso astuto (Trump em modo ‘fake news’ permanente), um profanador (Trump a abençoar os seus apoiantes que invadem o Capitólio), um agente de ambiguidade moral. Na mitologia ameríndia, por exemplo, o ‘trickster’ Coyote rouba, engana, choca, mas também revela as insuficiências e hipocrisias dos mortais e da sua sociedade. Talvez Donald Trump proceda assim, sem o querer: mostrou pela sua carreira que a democracia americana é mais frágil do que se pensava, que o jornalismo "objetivo" é permeável ao espetáculo, que a classe média branca contém a sua raiva há muito tempo, que a ira popular pode eleger um palhaço triste.

»Galeria dos deuses idiotas e odiosos

»Com ele, o rei vai nu: não é preciso diploma, boas maneiras, empatia, projeto que não seja enriquecer, respeito pela palavra ou pela lei. O ‘trickster’ Trump revela o que a democracia tolera, o que o espetáculo celebra e o que o digital amplifica. Ele mostra que o problema não é ele, mas que possa aceder legalmente, não ao comando de uma república das bananas, mas à Casa Branca. Duas vezes. É como no episódio III de Star Wars, quando Palpatine adquire legalmente plenos poderes: "É assim que a liberdade morre: com uma salva de palmas." Mas Palpatine é um jogador de xadrez, não um ‘punk’ permanentemente preocupado em chamar a atenção com as suas bravatas.

»É por isso que decretar que Trump é um idiota é uma explicação um pouco curta. Se ele fosse só isso! Aviso à população: o homem mais poderoso do mundo, aquele que pode desencadear uma guerra nuclear, é talvez um ‘trickster’. Bom em nada, mas capaz de tudo. Ele está aqui pela vontade do povo. Portanto, é possível. Tal como se pensou que não se poderia descer mais baixo do que George W. Bush, talvez um dia o lamentemos, pois um dos seus sucessores poderá aplicar a mesma receita de forma ainda pior. Não há razão para que Trump seja o último do seu género ou o pior.

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