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quinta-feira, dezembro 18, 2025

#TOLERÂNCIA354 - NEM SEMPRE É FÁCIL SER UM PAI PRESENTE!

 #TOLERÂNCIA354 - NEM SEMPRE É FÁCIL SER UM PAI PRESENTE!

QUANDO AS INSTITUIÇÕES DA PRIMEIRA INFÂNCIA SÃO UM OBSTÁCULO PARA OS PAIS

O texto tem por autor Kevin Hirdjee (Psicanalista clínico e psicólogo, exerce na maternidade e no Centro de Estudo e Conservação de Óvulos e de Esperma Humano (Cecos), e publicou “O que é um Pai?” (Fayard, 2024)), e foi publicado nas 'Sciences Humaines' no dia 8 de dezembro de 2025. Será mais um texto-gatilho para os grupos de discussão que na geografia da Tolerância encontrem fermento.

Nem sempre é fácil ser um pai presente! Por um lado, espera-se que eles estejam presentes em todas as circunstâncias, por outro, desconfia-se que são menos competentes do que as mães. Uma injunção

paradoxal contra a qual eles têm de lutar... desde a maternidade!

O texto tem por autor Kevin Hirdjee (Psicanalista clínico e psicólogo, exerce na maternidade e no Centro de Estudo e Conservação de Óvulos e de Esperma Humano (Cecos), e publicou “O que é um Pai?” (Fayard, 2024)), e foi publicado nas Sciences Humaines no dia 8 de dezembro de 2025.

Os pais vivem hoje sob o olhar de normas que não existiam antes. Normas que se revelam contraditórias: pede-se aos pais que sejam presentes, ternos, envolvidos, empenhados... mas, ao mesmo tempo, estes deparam-se com uma série de obstáculos insidiosos, pouco visíveis, mas muito poderosos, que tornam a sua tarefa difícil.

PROFISSIONAIS DE SAÚDE QUE EXCLUEM OS PAIS

Um local condensa estes paradoxos: a maternidade. Em “Da Nascença e dos Pais” (Les Éditions du remue-ménage, 2016), a historiadora quebequense Andrée Rivard traça a história longa e caótica da entrada dos pais nas salas de parto. Ela mostra como esta presença foi conquistada a pulso e permanece, ainda hoje, marcada por uma forte ambiguidade institucional.

Por detrás das proclamações igualitárias, as maternidades permanecem bastiões duma concepção tradicional da diferença entre os sexos: os pais são mais tolerados do que acolhidos. Basta interrogá-los: quantos se sentiram a mais, deslocados ou mal julgados por terem querido passar a primeira noite ao lado da sua companheira? Quantos não encontraram nem cama, nem refeição, nem espaço pensado para a sua presença?

Um estudo etnográfico conduzido por Gérôme Truc (“La paternité en Maternité. Une étude par observation”, Ethnologie française, vol. 36, 2006/2) numa maternidade parisiense traça um panorama preocupante. O autor revela a forma como a própria organização dos espaços e dos horários mantém indiretamente os homens à margem da criança, como se fossem considerados menos "competentes" do que as mulheres.

Este estado de coisas é tanto mais perturbador quanto assenta numa crença errónea: a de um instinto materno "inato", em virtude do qual as mães não teriam de "aprender" a cuidar de uma criança, mas apenas de "reactivar" nelas uma competência latente. Inversamente, os pais, logo à partida julgados menos competentes, não mereceriam uma atenção igual por parte dos profissionais de saúde. Gérôme Truc conclui que as maternidades funcionam segundo um regime "matrifocal", em que a mãe ocupa uma posição central em detrimento ou na ausência do pai.

UM DÉFICE DE INFORMAÇÃO

Estes entraves à integração dos pais aparecem também nas instituições da primeira infância. Os estudos sobre as visitas domiciliárias após o nascimento ensinam-nos, por exemplo, que as parteiras (Marleen Baker et al., “Entre la sage-femme et le père, des espaces coconstruits : étude exploratoire”, Enfances, Familles, Générations, n° 11, 2009) podem negligenciar os sinais da depressão pós-natal dos pais.

Outra investigação realizada em creches e escolas (France Frascarolo-Moutino et al., “La fonction de garde-barrière (le ‘gatekeeping’) des professionnels envers les pères : une puissante influence sur le développement de l’enfant et sur la famille”, Devenir, vol. 29, 2017) invoca a noção de ‘gatekeeping’ para descrever a tendência de algumas cuidadoras para restringir o acesso do pai à criança. As informações transmitidas aos pais durante as reuniões de final do dia nas creches são parciais, decisões terapêuticas são tomadas sem eles, e a sua competência é frequentemente presumida inferior à das mães. A hiperfeminização dos estabelecimentos e as crenças pessoais das profissionais sobre a repartição dos papéis de género criam fenómenos de entre-si feminino que dão aos homens a impressão de que não têm lugar nestes dispositivos.

HOMENS FACE A UMA INJUNÇÃO PARADOXAL

Vê-se bem que os obstáculos à implicação dos pais não são apenas fruto da má vontade dos principais interessados. Quando os homens se empenham junto dos seus filhos, deparam-se com contrafogos poderosos. As maternidades e as instituições da primeira infância fazem viver a alguns homens uma injunção paradoxal. Por um lado, espera-se que eles estejam presentes, e a sua ausência ou negligência são severamente criticadas.

Por outro, faz-se-lhes sentir através de sinais indiretos que não estão no seu lugar. Pior, recusa-se-lhes a aprendizagem dos saberes-fazer parentais que se concede às mães, como se só existisse uma única maneira legítima de cuidar de uma criança: a das mulheres.

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quinta-feira, novembro 13, 2025

#TOLERÂNCIA319 - O BUDISMO É UMA RELIGIÃO PACIFISTA?

 #TOLERÂNCIA319 - O BUDISMO É UMA RELIGIÃO PACIFISTA?

O texto “Le bouddhisme est-il une religion pacifiste ?”, de Bernard Faure, professor na Universidade de Stanford, Califórnia) é publicado pela revista "Sciences Humaines" (edição de 15 de outubro de 2025).

(Eu servi-me da edição digital, de que sou assinante, que saiu hoje)

É um texto que confirma que, em todo o lado, em todas as geografias, culturas e filosofias do Mundo, a Tolerância é atitude, é um comportamento que se adquire, que se aprende, que se educa. Que pede empenho constante.


O budismo é uma religião pacifista?

Monges combatentes, assassinatos, guerras… O budismo é realmente uma religião pacifista?

Desde a sua origem, o budismo insiste na compaixão para com os outros: o primeiro budismo, chamado 'theravāda', ainda presente no Sudeste Asiático e no Sri Lanka, dá ênfase a uma introspecção pessoal que deve permitir compreender a natureza das nossas relações com o outro.

Não existe um dogma fundamental, para além de algumas noções herdadas do hinduísmo. Também não existe uma autoridade eclesiástica suprema. Estes dois traços tornam, à primeira vista, difícil falar em ortodoxia, e ainda mais em fundamentalismo budista. Os budismos, por natureza plurais, souberam acolher no seu seio as doutrinas mais diversas.

Todos os seres merecem compaixão

Mais tarde, o budismo 'mahāyāna' (“grande veículo”), hoje em dia difundido na China, Coreia, Japão e Vietname, preconiza a compaixão para com todos os seres, mesmo os piores. Esse sentimento de comunhão baseia-se na crença na transmigração das almas, que leva os seres a renascer em diferentes formas de existência, humanas e não humanas. O 'mahāyāna' insiste na presença de uma “natureza de Buda” em todos os seres.

Quanto ao budismo 'vajrayāna' (esotérico, tântrico), originário do 'mahāyāna' e actualmente praticado sobretudo no Tibete e na Mongólia, oferece uma visão grandiosa do Universo inteiro, que não é senão o corpo do Buda cósmico. Na época contemporânea, compaixão e tolerância tornaram-se, em parte graças à figura mediática do atual dalai-lama — ícone moderno do budismo tibetano —, a imagem de marca do budismo como um todo.

Os pensadores budistas elaboraram rapidamente conceitos próprios para explicar diversos graus de verdade. O próprio Buda, segundo um ensinamento que foi depois sintetizado, em particular pelo 'mahāyāna', ensinava assim uma verdade convencional (acessível a todos), adaptada às faculdades limitadas dos seus ouvintes, reservando a verdade última a uma elite espiritual. Este recurso constante a expedientes salvíficos ('upāya'), que marcam vias diferentes e mais ou menos complexas de acesso à salvação, torna o dogmatismo difícil, pois todo dogma pertence ao domínio da palavra, portanto, da verdade convencional.

Um sincretismo militante

As teorias budistas favoreceram diversas formas de sincretismo, como as de Zhiyi (538-597) e Guifeng Zongmi (780-841) na China, Kūkai (774-835) no Japão, e Tsongkhapa (1357-1419) no Tibete. Muitas vezes trata-se de uma espécie de sincretismo “militante”, em que os cultos rivais (como o bön tibetano, o confucionismo e o taoísmo na China, ou o xintoísmo no Japão...) são integrados num plano subalterno dentro de um sistema cujo ponto culminante é a doutrina do autor.

Estas elaborações conduziram rapidamente o budismo a tornar-se num politeísmo, que assimila e mistura nos seus panteões os deuses das religiões que o precederam (do hinduísmo, do bön, do taoismo…).

Na prática, porém, a harmonia teórica nem sempre se confirmou. Entre os séculos VIII e XIII, no budismo chinês e japonês, surgiu a tendência para privilegiar uma prática única (como a meditação sentada ou a recitação do nome do Buda Amida), que se supõe subsumir todas as outras.

É o caso de certas escolas da corrente do amidismo, chinês e japonês, que postulam que aquele que recita simplesmente uma fórmula cultual no momento de morrer tem garantida a sua reencarnação no paraíso da Terra Pura.

O budismo e a violência

Mas é sobretudo devido à sua evolução histórica que o budismo é levado a cometer infracções aos seus grandes princípios. O principal obstáculo reside nas relações desta religião com as culturas que encontra ao longo da sua expansão. A atitude dos budistas para com as religiões locais é frequentemente descrita como um exemplo clássico de tolerância. Trata-se, na realidade, de uma tentativa de controlo: os deuses indígenas mais importantes são convertidos, os outros são rejeitados nas trevas exteriores, rebaixados à categoria de demónios e, se for o caso, submetidos ou destruídos por ritos apropriados.

É certo que o processo é frequentemente representado nas fontes budistas como uma conversão voluntária das divindades locais. Mas a realidade é frequentemente bem outra, como testemunham certos mitos, que sugerem que o budismo por vezes procurou erradicar os cultos locais que lhe faziam obstáculo.

Foi assim que o Tibete foi «pacificado» no século VIII pelo mestre indiano Padmasambhava, quando este submeteu todos os «demónios» locais (na realidade, os antigos deuses) graças aos seus formidáveis poderes. Um século antes, o primeiro rei budista, Trisong Detsen, já tinha submetido as forças telúricas (energias terrestres de natureza «mágica» que influenciam indivíduos e habitats), simbolizadas por uma demónia, cujo corpo cobria todo o território tibetano, ao «pregar» esta ao solo por meio de 'stûpa' (monumentos comemorativos e muitas vezes centros de peregrinação) fincados nos doze pontos do seu corpo. O templo de Jokhang em Lassa, local sagrado do budismo tibetano, seria o «pio» cravado na parte central do corpo da demónia, o seu sexo.

Budistas conquistadores

Este simbolismo, que descreve a «conquista» budista como uma espécie de submissão sexual, encontra-se num dos mitos fundadores do budismo tântrico, a submissão do deus Maheshvara por Vajrapâni, emanação aterradora do buda cósmico Vairocana.

Maheshvara é um dos nomes de Shiva, um dos grandes deuses da mitologia hindu. Este último, rebaixado pelo budismo à categoria de demónio, não cometeu outro crime senão o de se julgar o Criador e de recusar submeter-se a Vajrapâni, em quem não vê senão um demónio. A sua arrogância vale-lhe ser espezinhado até à morte ou, segundo um piedoso eufemismo, «libertado», apesar da branda intercessão do buda Vairocana para travar a fúria destrutiva do seu avatar Vajrapâni. Tomados pelo medo, os outros demónios (deuses hindus) submetem-se sem resistência.

Numa versão ainda mais violenta, o deus Rudra (outra forma de Shiva) é empalado pelo seu temível adversário. O mito da submissão de Maheshvara encontra-se no Japão, embora, neste último país, as coisas aconteçam, em geral, de forma menos brutal. Certamente, também aqui se vêem numerosos relatos de conversões mais ou menos forçadas dos deuses autóctones. Mas, em breve, é encontrada uma solução mais elegante, com a teoria dita «essência e vestígios» ('honji suijaku'). Segundo esta teoria, os deuses japoneses ('kami') são apenas «vestígios», manifestações locais cuja «essência» ('honji') reside em budas indianos. Não há, portanto, mais necessidade de conversão, uma vez que os kami já são reflexos dos budas.

O budismo, as mulheres e as “heresias”

Paradoxalmente, a noção de absoluto libertada pela especulação budista irá permitir aos teóricos de uma nova religião, o chamado «antigo» xintoísmo, questionar a síntese budista em nome de uma reforma purificadora e nacionalista. A prazo, este fundamentalismo xintoísta levará à «revolução cultural» de Meiji (1868-1873), durante a qual o budismo, denunciado como religião estrangeira, verá grande parte dos seus templos destruídos ou confiscados.

Até à Segunda Guerra Mundial, a religião oficial japonesa reinveste os mitos xintoístas e organiza-se em torno do culto do Imperador divinizado, descendente do kami nacional mais importante, a deusa do Sol. Por sua vez, o budismo refugia-se num purismo tingido de modernismo, que rejeita como «superstições» as crenças locais.

Como vimos, a metáfora que inspira os relatos de conversões das divindades locais é frequentemente a da submissão sexual. Nestes relatos, o budismo é fundamentalmente masculino, enquanto as divindades locais são frequentemente feminizadas.

A questão das relações do budismo e das mulheres constitui outro caso de dissonância entre a teoria e a prática. A história começa assim: a tradição relata que o Buda aceitou na ordem monástica que acabava de fundar a sua própria tia e mãe adoptiva, Mahaprajapati.

Foi após a intervenção reiterada do seu discípulo e primo bem-amado Ânanda que o Buda teria finalmente consentido em aceitar a ordenação das mulheres, não sem lhes impor algumas regras particularmente severas (devido à extrema imperfeição feminina). Além disso, ele previu que, devido à sua presença, a Lei (Dharma) budista estaria condenada a declinar ao fim de cinco séculos.

Uma igualdade entre as mulheres e os homens?

Em teoria, o princípio de não-dualidade tão caro ao budismo maaiana parece, no entanto, implicar uma igualdade entre homens e mulheres. Na realidade monástica, as monjas permanecem inferiores aos monges, e são frequentemente reduzidas a condições de existência precárias. Com o acesso das culturas asiáticas à modernidade, as monjas reivindicam uma maior igualdade. Contudo, as suas tentativas esbarram em fortes resistências por parte das autoridades eclesiásticas.

O budismo, por outro lado, impôs durante muito tempo às mulheres todo o tipo de tabus. A misoginia mais crua exprime-se em certos textos budistas que descrevem a mulher como um ser perverso, quase demoníaco. Vistas como fundamentalmente impuras, as mulheres eram excluídas dos locais sagrados e não podiam, por exemplo, fazer peregrinações nas montanhas. Pior ainda, devido à poluição menstrual e ao sangue derramado durante o parto, eram condenadas a cair num inferno especial, o do Charco de Sangue.

O clero budista oferecia, é claro, um remédio, neste caso, os ritos, executados, mediante pagamento de taxas, por sacerdotes. Pois o budismo, na sua grande tolerância, deve salvar até mesmo os seres mais vis...

Menos «heresias» do que nas religiões ocidentais

A noção de «heresia» é raramente empregada no budismo, e não levou aos excessos de fanatismo familiares ao Ocidente. Fala-se por vezes dos «mestres de heresia» vencidos pelo Buda, e em particular da «heresia personalista» ou «substancialista», que questionava o princípio da ausência de eu. Mas estes eventos não deram lugar a autos-de-fé — talvez porque se desenvolveram no seio de tradições orais.

O budismo chinês caracteriza-se por uma forte tendência sincrética. Uma excepção é a do chan (que se tornará o zen no Japão) da chamada escola do Sul. Esta última rejeita a abordagem doutrinal tradicional, qualificada de gradualista, segundo a qual a libertação só é adquirida após um longo processo de meditação, em nome de um Despertar súbito que postula que a libertação pode intervir a qualquer momento. O líder da escola do Sul, Shenhui (670-762), ataca violentamente os seus rivais da escola chan do Norte em 732. O seu activismo, excepcional entre os budistas chineses, vale-lhe o exílio.

No Japão, onde as correntes doutrinais tenderam a endurecer em «seitas», encontram-se exemplos de intolerância mais familiares a um observador ocidental. Assim, a seita da Terra Pura (Nembutsu), fundada por Hônen Shônin (1133-1212), cujos discípulos, na sua devoção exclusiva ao buda Amida, consideram inúteis os antigos cultos (a outros budas, mas sobretudo aos kami japoneses) – minando assim os fundamentos religiosos da sociedade medieval. É para reagir contra esta intransigência, que levou alguns dos adeptos desta seita ao iconoclasmo, que os seus rivais a denunciam e procuram a sua interdição. Hônen Shônin é enviado para o exílio em 1207, e o seu túmulo é profanado alguns anos mais tarde.

Um mestre desperto, mas veemente

Quanto ao mestre zen Dôgen (1200-1253), fundador da seita Sôtô, ele ataca a «heresia naturalista», expressão sob a qual designa, de forma indiscriminada, o hinduísmo, o taoísmo, o confucionismo, e uma corrente rival da sua, a escola de Bodhidharma ('Darumashû'). Os termos pelos quais ele condena dois monges chineses, alegados assassinos do patriarca indiano Bodhidharma, qualificando-os nomeadamente de «cães», são característicos de um novo estado de espírito polémico.

Tal atitude é surpreendente num mestre em princípio «desperto», que se quis apresentar como um dos principais filósofos japoneses.

Este espírito encontra-se em Nichiren (1222-1282), fundador da seita com o mesmo nome, que se toma por um profeta perseguido. Nichiren denuncia em particular o zen como uma «falsa doutrina» que só atrai os degenerados. Mas nenhuma das outras escolas do budismo japonês encontra graça aos seus olhos.

Segundo ele, «os sábios do Tendai e do Shingon lisonjeiam e temem os patronos do nembutsu e do zen; são como cães que abanam a cauda diante dos seus mestres, como ratos que têm medo dos gatos» (Georges Renondeau, La Doctrine de Nichiren, Puf, 1953).

Finalmente, é preciso mencionar as lutas intestinas que opõem, no seio da seita Tendai (tendência maioritária do budismo japonês do século VIII ao XIII), as fações do Monte Hiei e do Miidera. Em diversas ocasiões, os mosteiros dos dois protagonistas são destruídos pelos «monges-guerreiros» do rival. Os ataques periódicos destes exércitos monacais sobre a capital, Kyôto, preenchem as crónicas medievais. É só por volta do fim do século XVI que um guerreiro sem paciência, Oda Nobunaga (1534-1582), decide arrasar estes templos e passar a fio de espada os causadores de distúrbios.

Fundamentalismos budistas

As relações do budismo e da guerra revelam-se complexas. Nos países onde constituía a ideologia oficial, foi obrigado a apoiar o esforço de guerra. Existe também no budismo tântrico um arsenal importante de técnicas mágicas que visam submeter os demónios. Foi sempre tentador assimilar os inimigos a hordas demoníacas, e procurar submetê-los pela espada e pelo fogo ritual.

Com a ascensão dos nacionalismos no século XIX, o budismo viu-se confrontado com uma tendência fundamentalista. É certo que a coisa não era totalmente nova. No Japão do século XIII, durante as invasões mongóis (elas próprias legitimadas pelos mestres budistas da corte de Kublai Khan), os budistas japoneses invocaram os «ventos divinos» ('kamikaze') que destruíram a armada inimiga. Também realçaram a noção do Japão «terra dos deuses» ('shinkoku'), que assumirá uma importância crucial no Japão imperialista do século XX.

Durante a Segunda Guerra Mundial, os budistas japoneses tiveram de apoiar o esforço de guerra, colocando a sua retórica ao serviço da mística imperial. Mesmo Daisetz Suzuki (1870-1966), o principal propagador do zen no Ocidente, tornar-se-á o porta-voz desta ideologia belicista.

Budismo e reivindicações de independência

Mais recentemente, é no Sri Lanka que este aspecto agonístico prevaleceu, com a reivindicação de independência da minoria tâmil, que levou, desde 1983, a sangrentos confrontos entre as etnias sinhala e tâmil. O discurso dos Sinhaleses constitui o exemplo mais próximo de uma apologia budista da guerra santa. É certo que se trata de um fundamentalismo um pouco particular, pois baseia-se num grupo étnico e não num texto sagrado. Existe, de facto, uma autoridade escritural, o 'Mahâvamsa', crónica mito-histórica onde são descritas as viagens mágicas do Buda ao Sri Lanka, bem como a luta vitoriosa do rei Duttaghâmanî contra os 'Damilas' (Tâmeis) ao serviço do budismo.

O 'Mahâvamsa' serve assim de aval à crença segundo a qual a ilha e o seu governo têm sido tradicionalmente sinhaleses e budistas. É nomeadamente nas suas páginas que aparece o termo «Dharma-dîpa» (ilha da Lei budista). Restava apenas um passo, rapidamente dado, para fazer do Sri Lanka a terra sagrada do budismo, que é preciso defender a todo o custo contra os infiéis. Este fundamentalismo é, antes de mais, uma ideologia política.

O Dalai Lama e os seus partidários assassinos

Mencionemos, por fim, um caso significativo, já que põe em causa a própria pessoa do Dalai Lama, a figura que, aos olhos da maioria, encarna a imagem da tolerância budista. Trata-se do culto de uma divindade tântrica chamada Dorje Shugden, espírito de um antigo lama, rival do quinto Dalai Lama, e assassinado pelos seus partidários, adeptos dos Gelugpa, no século XVII. Por um estranho retorno dos acontecimentos, esta divindade tinha-se tornado a protectora da seita dos Gelugpa, e mais precisamente do actual Dalai Lama, até que este, com base em oráculos proferidos por outra divindade mais poderosa, Pehar, veio a proibir o seu culto aos seus discípulos.

Esta decisão suscitou um levantamento entre os fiéis de Shugden, que reprovaram a intolerância do Dalai Lama. Escusado será dizer que os Chineses souberam explorar esta disputa para todos os fins úteis de propaganda. A história foi trazida para o primeiro plano após o assassínio de um apoiante do Dalai Lama por um dos seus rivais, há alguns anos. Para além das questões de pessoa e das dissensões políticas, este facto sublinha as relações sempre tensas entre as diversas seitas do budismo tibetano.

Mesmo que não se possa negar a existência, no coração do budismo, de um ideal de paz e de tolerância, fundado em numerosas passagens escriturais, estes são contrabalançados por outras fontes segundo as quais a violência e a guerra são permitidas quando o 'Dharma' budista é ameaçado por infiéis. No 'Kalacakra-tantra', por exemplo, texto ao qual o Dalai Lama se refere frequentemente, os infiéis em questão são muçulmanos que ameaçam a existência do reino mítico de Shambhala. Àqueles que sonham com uma tradição budista monológica e pacificada, convém opor, por uma questão de verdade, esta parte de sombra.

NOTAS

Kami: Termo japonês que designa uma divindade venerada no quadro do xintoísmo. Diz-se de bom grado que existem oitocentas miríades de 'kami', que são o espírito de fontes, rochas, árvores, fenómenos naturais, antepassados divinos, mas também divindades de um ou outro lugar cujo alcance pode estender-se a todo o Japão...

Dharma: Termo sânscrito utilizado nas religiões derivadas do vedismo. No hinduísmo, ordem sociocósmica que o brâmane tem o dever de manter pelos seus actos sacrificiais. No budismo, ensinamento do Buda, frequentemente definido por extensão como a Lei budista, explicando o funcionamento do cosmos e do espírito.

Despertar: Finalidade do budismo, pela qual o sábio atinge um estado de compreensão do mundo que lhe permite escapar ao 'samsâra' e dissolver a sua individualidade no 'nirvâna' (libertação).

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sábado, agosto 02, 2025

#TOLERÂNCIA216 - TRUMP, UM LÍDER INTOLERANTE?

 #TOLERÂNCIA216 - TRUMP, UM LÍDER INTOLERANTE?

Infelizmente, não é o único em muitas das lideranças vigentes nos países do Mundo.

Donald Trump, que governa um dos 2 ou 3 países mais influentes nas dinâmicas políticas, económicas e bélicas do Mundo, é um personagem bastante polémico, desconcertante, desesperante para muita gente de praticamente todos os países. Invectivado e odiado por uns e adorado e adulado por outros, é personagem complicada para as mentes humanas que, em geral, gostam de entender os líderes políticos e terem deles alguma previsibilidade de comportamento e acções.

Jean-François Marmion é psicólogo de formação, é escritor e jornalista de temas científicos. É, no fundo, um daqueles profissionais da escrita que ajuda os cidadãos a organizarem entendimentos e a encontrarem palavras para exprimirem o que sentem e pensam. Por isso dele trago para aqui este seu texto, publicado na "Sciences Humaines" no dia 23 de Julho de 2025:

«Donald Trump, o troll supremo?

»O 45.º e 47.º presidente dos Estados Unidos é frequentemente apelidado de idiota. Isso é pouco! Poder-se-ia dizer, ó Deus!, muitas coisas em suma. Ele é um troll, um trickster! Que digo eu, é uma

tétrade negra! Mas não nos entusiasmemos e verifiquemos tudo isto.

»Donald Trump ousa tudo: é mesmo por isso que o reconhecemos. Desde 2018, quando dezenas de académicos foram convidados pela Sciences Humaines a dar o seu próprio esclarecimento sobre a estupidez humana, muitos, especialmente nos Estados Unidos, citaram-no espontaneamente como o idiota por excelência. Aaron James, professor de filosofia em Irvine, até o qualifica como "über idiota", uma espécie de super-homem e padrão da estupidez menos brilhante.

»Um parvalhão exemplar?

»Aaron James explica que o idiota comum acredita ser moralmente superior aos outros, exige privilégios sem os merecer e é impermeável a qualquer crítica. Donald Trump, deste ponto de vista, poderia de facto ser um caso exemplar, tratando as instituições como acessórios, os indivíduos como instrumentos e as regras como obstáculos a contornar, exceto quando o protegem. Acusado de 91 crimes em 4 casos, considerado culpado em 34 num deles (o resto está pendente), ele diz-se perseguido enquanto incita ao linchamento mediático ou judicial dos seus adversários. Robert Sutton, professor de Gestão em Stanford, sublinha ainda que o idiota se revela como um destruidor do ambiente relacional: alguém que humilha, domina, stressa e esgota os outros. Ora, Donald Trump, empresário e depois presidente, é acusado de transformar o assédio hierárquico numa arte de viver, com explosões irracionais, desprezo por conselheiros competentes e valorização dos aduladores. A sua réplica mais famosa, afinal, é um "You’re fired!" ("Está despedido!"), proferido friamente ao longo da sua carreira, desde a televisão real até aos tweets. Ele vive num mundo que molda à sua medida, onde qualquer crítica é percebida como uma traição ao seu estatuto de macho alfa visionário. Robert Sutton fala do "teste do efeito": o idiota putativo destrói mais energia à sua volta do que cria? No caso de Trump, a resposta parece ser esmagadoramente positiva. Se Donald Trump fosse realmente um idiota, seria então um idiota estrutural: as suas extravagâncias não seriam desvios de conduta, mas sim uma tendência de fundo.

»Dito isto, os maldosos poderiam atribuir-lhe outros epítetos, como o transtorno de personalidade antissocial, descrito na 5.ª edição do DSM (o manual de classificação psiquiátrica americana) como um desprezo persistente pelos direitos dos outros, comportamentos impulsivos e manipuladores, tendência para a irresponsabilidade, ausência de remorsos… Em Donald Trump, vários comportamentos públicos coincidem ou aproximam-se perigosamente destas características: impulsividade nas redes sociais, incapacidade manifesta de reconhecer um erro ou expressar qualquer remorso (sobre a invasão do Capitólio, as suas infidelidades à mulher grávida…), falta de empatia pelas vítimas das suas políticas (como a ideia de declarar oficialmente mortos e, portanto, inelegíveis para qualquer ajuda social 6.000 imigrantes latinos, ou a proibição aos americanos expatriados na China de se apaixonarem por um local…). O diagnóstico de personalidade antissocial nunca foi oficialmente feito, mas dezenas de especialistas questionam-se seriamente sobre isso. Incluindo a sua própria sobrinha, psicóloga clínica.

»Tétrade negra e ‘trollismo’

Mais especulativa do que a personalidade antissocial, mas interessante para o caso Trump, a Psicologia propõe uma noção próxima chamada "tríade negra" da personalidade. Neste caso, um aglomerado de três traços de carácter tóxicos:

»Narcisismo (sentimento de superioridade, necessidade constante de admiração). Donald Trump parece obcecado pela sua grandeza, totalmente dependente da adulação, alimentando uma necessidade constante de dominação simbólica. A sorte extraordinária que lhe permitiu ser reeleito apesar dos seus problemas judiciais e escapar à morte por um triz confirmaria qualquer um menos narcisista do que ele no seu direito…

»Maquiavelismo (manipulação fria, instrumentalização dos outros). Donald Trump é suspeito de usar não apenas os seus subordinados, mas também os seus apoiantes como peões num jogo de poder.

»Psicopatia (ausência de empatia e impulsividade). Trump demonstra uma incapacidade de antecipar as consequências dos seus actos (minimizar a Covid ou preconizar injeções de lixívia…), ausência de remorsos e indiferença pelo destino daqueles a quem prejudica, desde que ganhe algo.

»Alguns investigadores propõem acrescentar um quarto traço de personalidade:

»Sadismo (prazer em infligir sofrimento ou humilhação). O presidente parece ter prazer em humilhar, especialmente em público. Atribui alcunhas depreciativas aos adversários ("Crooked Hillary", "Sleepy Joe"…), goza com as aparências físicas (chamando à apresentadora Rosie O’Donnell porca ou dizendo da sua rival Carly Fiorina: "Olhem para esta cara! Alguém votaria nisto?"), deleita-se com o sofrimento moral dos jornalistas ou das minorias. E convida Zelensky para o Gabinete Oval só para o rebaixar perante o mundo.

»O sadismo não é aceite por todos os investigadores como devendo acompanhar os três traços anteriores. Seja como for, Donald Trump destaca-se pela crueldade social sem complexos. Ora, o sadismo quotidiano é um bom preditor do ‘trollismo’.

»Sim, desde o aparecimento dos fóruns na Internet, mesmo antes das redes sociais, o ‘troll’ é um autêntico objeto de estudo em Psicologia Social. Longe de ser um brincalhão que provoca por diversão, ele procura activamente provocar, frustrar e chocar os outros, para seu próprio prazer. O ‘trollismo’ está, portanto, frequentemente associado a uma forma de sadismo, combinado com narcisismo e prazer na disrupção. É fácil imaginar Trump como um ‘troll’ a praticar a provocação permanente, incitando ao conflito, contradizendo-se de um dia para o outro, improvisando. No primeiro debate presidencial com Biden, por exemplo, que ele interrompeu 128 vezes em 90 minutos, pode-se pensar que estava numa lógica de ‘trollagem’ destrutiva, não de debate. Algumas das suas afirmações são por vezes tão surpreendentes ("Não há um único lugar vazio", declarou ele num comício perante uma sala meio vazia filmada pela televisão) que parecem feitas não para serem acreditadas, mas para serem repetidas, como um meme.

»Não contente em explodir as normas discursivas, Donald Trump parece divertir-se com a indignação que provoca, como um ‘troll’ de estatuto elevado, uma espécie de ‘über idiota’ ainda mais intencional: quanto mais choca, mais visível é, mais o seu comportamento é reforçado. Trump encarnaria então uma figura totémica da personalidade tóxica pós-moderna: um ‘troll’ criado na televisão real, alimentado pelo conflito, eleito pelo ressentimento e sobrevivendo graças à indignação que provoca.

»O rei vai nu, mas passa em ‘loop’ na televisão

»Tal como o idiota, a personalidade antissocial, o ‘troll’ ou o indivíduo marcado pela tétrade negra, falta decididamente a Donald Trump um ingrediente importante do que faz um ser humano: a empatia. Recordemos uma observação que Alison Gopnik, professora de Psicologia em Berkeley, menciona regularmente: Trump apresentaria as características de uma criança malcriada obcecada pelo seu próprio prazer. Mal-educado, caprichoso, tirânico, barulhento, intolerante à frustração. Se quisermos especular sobre o melhor rótulo para lhe atribuir, talvez este aspecto imprevisível e infantil o faça destacar-se numa outra categoria ainda, aqui apresentada como hipótese: Donald Trump assemelha-se surpreendentemente a um ‘trickster’. O que quer isto dizer? Em Antropologia, o ‘trickster’ (ou "embusteiro divino") é uma entidade divina, espiritual ou demoníaca, que engana e transgride como respira. Muitas vezes ridículo, por vezes perigoso, é um mentiroso astuto (Trump em modo ‘fake news’ permanente), um profanador (Trump a abençoar os seus apoiantes que invadem o Capitólio), um agente de ambiguidade moral. Na mitologia ameríndia, por exemplo, o ‘trickster’ Coyote rouba, engana, choca, mas também revela as insuficiências e hipocrisias dos mortais e da sua sociedade. Talvez Donald Trump proceda assim, sem o querer: mostrou pela sua carreira que a democracia americana é mais frágil do que se pensava, que o jornalismo "objetivo" é permeável ao espetáculo, que a classe média branca contém a sua raiva há muito tempo, que a ira popular pode eleger um palhaço triste.

»Galeria dos deuses idiotas e odiosos

»Com ele, o rei vai nu: não é preciso diploma, boas maneiras, empatia, projeto que não seja enriquecer, respeito pela palavra ou pela lei. O ‘trickster’ Trump revela o que a democracia tolera, o que o espetáculo celebra e o que o digital amplifica. Ele mostra que o problema não é ele, mas que possa aceder legalmente, não ao comando de uma república das bananas, mas à Casa Branca. Duas vezes. É como no episódio III de Star Wars, quando Palpatine adquire legalmente plenos poderes: "É assim que a liberdade morre: com uma salva de palmas." Mas Palpatine é um jogador de xadrez, não um ‘punk’ permanentemente preocupado em chamar a atenção com as suas bravatas.

»É por isso que decretar que Trump é um idiota é uma explicação um pouco curta. Se ele fosse só isso! Aviso à população: o homem mais poderoso do mundo, aquele que pode desencadear uma guerra nuclear, é talvez um ‘trickster’. Bom em nada, mas capaz de tudo. Ele está aqui pela vontade do povo. Portanto, é possível. Tal como se pensou que não se poderia descer mais baixo do que George W. Bush, talvez um dia o lamentemos, pois um dos seus sucessores poderá aplicar a mesma receita de forma ainda pior. Não há razão para que Trump seja o último do seu género ou o pior.

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segunda-feira, julho 28, 2025

#TOLERÂNCIA211 - PÓS-VERDADE, 'FAKE NEWS, TRETAS (BULLSHIT): AS NOVAS VARIANTES DA ESTUPIDEZ

 #TOLERÂNCIA211 - PÓS-VERDADE, 'FAKE NEWS, TRETAS (BULLSHIT): AS NOVAS VARIANTES DA ESTUPIDEZ

Li na edição 'on-line' da Sciences Humaines, com a data de 19 de Julho, um artigo assinado por Sebastian Dieguez, neuropsicólogo e investigador no Laboratório de Ciências Cognitivas e Neurológicas da Universidade de Friburgo.

Em tempos em que os conceitos "fake news" e "desinformação" parecem funcionar como elementos absorventes do mal-informar, dificultando a percepção clara das mentiras, dos seus autores, e da determinação de estratégias adequadas para combater as mentiras e os aldrabões, o texto de Sebastian

Dieguez parece-me oportuno e útil para um proveitoso esclarecimento conceptual: porque se tolera o "artista da treta" como não se toleram outros aldrabões?

Vamos ao texto, ou melhor, ao primeiro terço dele, o artigo é muito grande.

«Quando a verdade se torna acessória e a desfaçatez faz lei, a estupidez ['connerie' no original francês] 2.0 instala-se no cerne do debate público. Bem-vindos à era da treta [do 'bullshit', da parvoíce].

»Num contexto de tensões diplomáticas, terrorismo e guerras intermináveis, de destruição metódica do nosso ambiente e de uma economia que só beneficia um punhado de indivíduos — aliás, sem indícios de que sejam particularmente inteligentes —, a nossa época parece totalmente devotada ao triunfo da estupidez. E se, no fundo, tudo isto não passasse de treta [bullshit]?

»Não que a estupidez não exista ou que a situação actual deixe de ser alarmante. Proponho antes que o que parece ser um declínio generalizado da inteligência se compreende melhor se interpretado como um aumento da treta. Na verdade, a estupidez não é — ou não é apenas — o oposto da inteligência. Pode-se ser muito inteligente e muito parvo: basta colocar qualquer intelectual num cargo político ou incentivar um qualquer especialista a falar sobre um tema que não domina. O que daí resulta chama-se treta.

»Segundo a célebre análise do filósofo Harry Frankfurt, a essência da treta é uma indiferença perante a verdade. Ao contrário do mentiroso, que precisa de manter um olho na verdade para a distorcer ou ocultar, o 'artista da treta' está-se nas tintas. Desata a dizer o que lhe vem à cabeça, desde que lhe convenha, sem qualquer preocupação com a veracidade ou falsidade do que afirma. Desbunda alegremente, e para tal dispõe de múltiplas estratégias: cortina de fumo, confusão deliberada, mudança de assunto, obscurantismo, lirismo, solenidade afetada, linguagem burocrática, discurso oco, tanga… Seja como for, o 'artista da treta', como diz Frankfurt, procura «safar-se» a custo zero, fingindo que diz algo quando na realidade não diz nada — no sentido de que não transmite qualquer informação relevante. A treta é, assim, uma forma de camuflagem epistémica: faz-se passar por contributo para a discussão, enquanto obstrui o seu avanço. É, em suma, o oposto do progresso discursivo.

»Porque toleramos este parasita intelectual? Afinal, o mentiroso, quando desmascarado, é geralmente repreendido, desprezado e rejeitado; já o 'artista da treta' parece agir com total impunidade. Por um lado, somos excessivamente indulgentes com a treta: se alguém diz qualquer disparate, o nosso primeiro reflexo é tentar encontrar sentido no seu discurso, inferir como poderá ser relevante na situação dada e, se necessário, fornecer uma interpretação que satisfaça essa necessidade. Muitas vezes, são as próprias vítimas da treta que fazem grande parte do trabalho por quem a produz.

»Por outro lado, a treta beneficia também de certa cultura predominante: se a desfaçatez, a autoconfiança, a 'autenticidade' e a 'sinceridade' forem mais valorizadas do que o simples acto de dizer algo claro e correcto, então a treta não só passará despercebida como poderá prosperar. Frankfurt concluía a sua análise com estas palavras: «A própria sinceridade é treta». Falar «com o coração», exprimir-se «com ardor e paixão», dizer «o que se pensa realmente», conversar «homem para homem», ser «directo» e «franco como um alqueire» — estes são, hoje, valores muito mais celebrados do que o rigor, a prudência, a precisão e a exactidão, chegando mesmo a substituí-los.

»Se esta análise estiver correcta, parece que temos uma explicação para o surgimento da «pós-verdade», definida pelos dicionários Oxford (que a elegeram a «palavra do ano» em 2016) como um adjetivo que descreve «circunstâncias em que os factos objetivos têm menos influência na formação da opinião pública do que os apelos à emoção e às crenças pessoais». O corolário imediato desta situação seria que qualquer pessoa que não partilhe a nossa opinião está 'de facto' errada, procura manipular-nos, é profundamente imoral e não respeita as nossas crenças — que são a nossa verdade. Daí resulta uma polarização do debate.

»Neste processo infernal, naturalmente, a verdade, os factos, a realidade das coisas, o que é verdadeiramente assim ou não, tornam-se conceitos totalmente secundários — quando não francamente suspeitos. Um observador imparcial, perante esta dinâmica em acção, não teria outra opção senão questionar-se: no fundo, não será tudo isto um pouco estúpido?

»Treta, pós-verdade, factos alternativos, notícias falsas e teorias da conspiração serão simplesmente os novos nomes que damos à parvoíce

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quarta-feira, julho 09, 2025

#TOLERÂNCIA192 - OS LÍDERES IDIOTAS. PORQUE OS TOLERAMOS?

#TOLERÂNCIA192 - OS LÍDERES IDIOTAS. PORQUE OS TOLERAMOS?

Encontrei este texto nas "Sciences Humaines". A data da publicação é de hoje mesmo. Uma entrevista ao a-modos-que-guru Steven Pinker. Trazer para aqui uma entrevista dele não quer dizer que subscreva as suas ideias e concepções, aliás como em relação a outros autores que tenho citado e transcrito. Mas vale a pena discutir com Steven Pinker.

A selecção natural dos idiotas. Entrevista com Steven Pinker

São prejudiciais para a sociedade, eficazes para si próprios. Os mecanismos evolucionistas explicam por que razão os piores entre nós, por vezes, se safam tão bem... mas nem sempre por muito tempo.

Do ponto de vista evolucionista, como explicar uma tal proliferação da estupidez ao longo da história da humanidade?

«Acredito, antes de mais, que o gosto desinteressado pela verdade nua e crua, independentemente das suas consequências para os outros ou para nós próprios, é provavelmente um presente do Iluminismo. Se defendemos a racionalidade, isso significa que aceitamos que outros possam usar a razão contra nós, e que aquilo que mais beneficia a comunidade possa prejudicar-nos pessoalmente.»

«Ora, a maioria das pessoas, num contexto de competição social, preocupa-se sobretudo com o seu estatuto, poder e reputação: se os factos põem em causa as suas pretensões ao conhecimento, à sabedoria, à competência ou à virtude, então mais vale negar os factos, negar a lógica que vai contra a sua pessoa ou o grupo a que pertencem. Além disso, o conhecimento é algo que se conquista com esforço. A ciência, o jornalismo, a universidade, as enciclopédias, os processos de verificação de factos são invenções muito recentes na história da evolução e até da cultura humana. A nossa intuição, o nosso senso comum, não nos leva naturalmente a verificar a veracidade dos factos com fontes fiáveis, simplesmente porque isso nunca foi um hábito ao longo da história da nossa espécie. Ainda hoje, ninguém detém o monopólio da verdade: sabemos que os cientistas se podem enganar, tal como os jornalistas e os especialistas de todo o tipo.»

«Com tudo isto, não é de admirar que nem sempre confiemos nas fontes que, racionalmente, temos todas as razões para considerar fiáveis. Não é intuitivo, nem natural, referirmo-nos a elas.»

Os idiotas são muitas vezes populares, arranjam parceiros sexuais com facilidade. Será que os idiotas representam uma vantagem evolutiva para um grupo social?

«A evolução não acontece em benefício de um grupo, mas sim em benefício dos genes. A verdadeira questão não é se isso é bom para o grupo, mas se é bom para o idiota ser idiota! E a resposta, claramente, é: "É bem possível…" Até certo ponto, pelo menos, pois há tantas vantagens como desvantagens em sê-lo. A vantagem é que se sentem confiantes, procuram o poder, reivindicam os recursos dos outros. Os idiotas são muitas vezes populares, arranjam parceiros sexuais com facilidade… A desvantagem é que magoam muitas pessoas que podem então unir esforços para os destituir ou descredibilizar. Não está provado, mas é possível que certos idiotas se propaguem

naturalmente… até certo ponto apenas.»

«Se começarem a alienar demasiadas pessoas, estas acabam por se revoltar. E se houver mesmo demasiados idiotas, acabam por prejudicar-se mutuamente e perder as vantagens que advêm da cooperação e das relações sociais harmoniosas. É uma dinâmica: a sociedade tolera um certo número deles, porque os próprios idiotas beneficiam disso, mas há limites!»

Como explicar que certas pessoas votem num idiota?

«Lembremo-nos da citação atribuída a Franklin Roosevelt sobre Anastasio Somoza Garcia, ditador da Nicarágua: “Pode ser um filho da mãe, mas é o nosso filho da mãe!” As pessoas que votam num idiota votam no seu idiota. Que pode ser perfeitamente carismático e transmitir uma imagem de segurança, de domínio. Se for teu aliado, pode combater os teus inimigos e defender os teus interesses.»

Então pode ser muito vantajoso ser governado por um idiota?

«Certamente. Pelo menos para o próprio idiota! E para os seus aliados. Mas não necessariamente para um país no seu todo. Na realidade, raramente...»

A estupidez é globalmente idêntica entre homens e mulheres?

«Existem diferenças. Não sou especialista, mas talvez os mesmos genes se expressem de forma diferente em homens e mulheres. Os homens tendem mais para a psicopatia e o narcisismo, enquanto as mulheres mostram mais traços de personalidade borderline ou histriónicos, como certas divas. Dito isto, a estupidez mais nociva existe nos dois sexos. Em inglês, é raro uma mulher ser chamada de 'asshole' (idiota, canalha), não sei porquê. Para elas, o termo mais próximo é provavelmente 'bitch' (vaca, cabra). Mas é um tema politicamente sensível, porque pode parecer misógino.»

Segundo as ideias que desenvolve nos seus livros mais recentes, nunca fomos tão educados, nem tão inteligentes. No entanto, os idiotas da pior espécie nunca foram tão visíveis, graças à Internet. Não será a nossa época, ainda assim, a mais propícia à expansão da estupidez?

«Sempre houve estupidez e idiotas, líderes fascistas, ditadores, reis incompetentes, mas é indiscutível que hoje os idiotas têm muito mais visibilidade. Porque, embora nunca tenhamos sido tão inteligentes, tão racionais, existem hoje muito mais oportunidades para os ignorantes se reunirem. Dois fenómenos entram em jogo: por um lado, a ascensão dos psicopatas narcisistas e, por outro, a desinformação e o 'bullshit'. Por vezes, estas duas tendências andam de mãos dadas!»

Será que a humanidade tem o monopólio da estupidez? Existem idiotas entre os animais?

«Oh sim, é provável que, segundo os nossos padrões, a maioria dos animais seja idiota! Não demonstram a mesma generosidade, o mesmo cuidado pelo bem comum que nós. Os machos competem entre si para seduzir as fêmeas, que por vezes chegam a matar as crias dos outros, como acontece com os chimpanzés, os nossos parentes mais próximos. Muitos especialistas são sensíveis a este tema porque querem melhorar a nossa perceção dos animais, especialmente os explorados ou em vias de extinção. Por isso é difícil obter uma resposta categórica, mas, segundo os nossos padrões, sim, mais uma vez, muitos animais seriam grandes idiotas!»

Steven Pinker
Linguista e professor de Psicologia na Universidade de Harvard.(1)

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(1) https://www.scienceshumaines.com/la-selection-naturelle-des-connards-rencontre-avec-steven-pinker