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quinta-feira, outubro 01, 2026

CRISTIANO RONALDO E JORGE JESUS. ONDE FICOU A TOLERÂNCIA?

CRISTIANO RONALDO E JORGE JESUS. ONDE FICOU A TOLERÂNCIA?

Durante um ano, mais exactamente durante 365 dias mais dois, andei a escrever por aqui sobre a tolerância.

Quero voltar a escrever sobre a tolerância a propósito deste caso, o da crise na selecção portuguesa de futebol com o desentendimento entre o seleccionador Jorge Jesus e o jogador (de grande estatuto — sim, não é um jogador qualquer; mas, pensando bem, todos os jogadores que estão numa selecção nacional, seja de que desporto for, são também atletas de estatuto especial. Certamente também aqui vale, em jeito orwelliano: todos têm estatuto especial, mas uns estatutos são mais especiais do que outros) Cristiano Ronaldo, celebrizado, por mérito próprio, com a marca CR7 — a qual, no mundo das finanças, a gente sabe que vale muitas centenas de milhões de euros ou dólares.

O resultado imediato da crise acabou no afastamento (afastamento no sentido de agora estar longe, não de ter sido afastado ou de se ter afastado por decisão própria) do jogador da selecção.

Quero escrever agora, precisamente enquanto não se conhece, enquanto não é pública, toda a verdade.

Muitas altas individualidades, muitos dirigentes disto e daquilo, vêm salomonicamente aconselhar a que se espere, se oiçam as duas partes, até se saber, repito, toda a verdade; e só depois se opine e se julgue. Ter primeiro o conhecimento cabal dos factos e só depois «botar opinadura».

Não, eu quero falar agora, com o que se sabe agora, em que o poder da informação é pouco e o poder da desinformação é grande. Sim, quero mesmo opinar com a informação que penso ter disponível e ser fidedigna.

Antes de dizer o que penso — adianto já que penso ter falhado a tolerância da parte de Cristiano Ronaldo; e que falhou também a tolerância de Jorge Jesus —, interrogo-me sobre o que é o «conhecimento cabal dos factos» e sobre «qual é a verdade».

A Comunicação Social tem dado destaque, nas afirmações escritas oficialmente por Cristiano Ronaldo no Instagram, a ele escrever «A seu tempo, direi a verdade a todos os Portugueses».

Logo aqui, calma… Cristiano Ronaldo escreveu, na verdade, «A seu tempo, direi a verdade a todos os Portugueses sobre as razões que motivaram a minha saída da equipa nacional, à qual sempre me dediquei.», que não é exactamente o que se pode depreender da citação sincopada.

Que verdade vai contar Cristiano Ronaldo? O que é a verdade dele? Quais são as suas razões? Repare-se: ele até pode estar a dizer que compreende e aceita como perfeitamente legítimas as decisões de Jorge Jesus, mas que se sentiu magoado, enganado, traído, desapontado, triste, desrespeitado; e que reagiu por impulso, como é tão, tão humano acontecer.

Vão surgir várias verdades: oficiais e oficiosas; formais e informais; de especialistas e de adeptos de bancada.

Quero falar no contexto e nas condições actuais porque o desafio e as exigências da tolerância se espoletam precisamente, na maioria dos casos, em ambientes de grande intensidade emocional, quando os sentimentos e as emoções facilmente cavalgam por cima dos raciocínios frios e obnubilam a capacidade de reflectir e decidir.

É precisamente quando as emoções estão mais ao rubro, quando o pensamento e as decisões estão mais invadidos pelas emoções fortes e intensas, ou mais dependentes delas, que os diferendos, as desinteligências e os confrontos pedem atitudes e comportamentos de tolerância.

Factual, factual é a condição de Jorge Jesus, enquanto seleccionador, ter pegado na equipa para a preparar a muito curto prazo, para jogos a valer, dos que dão pontos, classificam ou põem de lado as equipas. Mesmo tendo ele tido o cuidado de escolher maioritariamente jogadores com os quais já tinha trabalhado, não é fácil. Oiçam-se os testemunhos, precisamente de agora, de alguns jogadores a falarem sobre as diferenças entre jogarem nos seus clubes ou na selecção, mesmo com colegas da equipa em que jogam todo o ano!

Os adeptos do futebol — que são, em todo o mundo, os que alimentam a riquíssima indústria do futebol e permitem ordenados altíssimos a jogadores, treinadores, dirigentes desportivos, agentes de futebol, comentadores desportivos, etc., etc., etc. — pressionam para que as suas equipas ganhem. Nem sequer é para que joguem, é para que ganhem. E os jogadores estão sempre a dedicar as vitórias aos adeptos ou a pedir desculpa aos adeptos.

Jorge Jesus, bem ou mal, na pressa em que bem sabia ter-se metido, quis dar vitórias aos adeptos. Quis e deu. Com pressas, com dúvidas, com a natural exigência desportiva de ter de experimentar, não obstante o conhecimento profundo de pelo menos metade dos jogadores da selecção. Com decisões eventualmente atabalhoadas, a que obrigou a realidade dos jogos e das outras selecções, já que o futebol não é um jogo de sentido único. Só nos matraquilhos não se pode mexer na estrutura da equipa e, mesmo nos matraquilhos, às vezes tenho dúvidas…

Antes dos jogos, que factos aconteceram? Não disse Cristiano Ronaldo que Jorge Jesus era a escolha perfeita para a selecção nacional? Não disse Jorge Jesus que Cristiano Ronaldo tinha um estatuto especial na selecção?

Parece-me que a senhora do mercado de Viseu que ouvi hoje de manhã, entrevistada em directo num dos canais noticiosos, tem toda a razão: é uma garotada entre duas pessoas que são homens feitos e que se deviam portar doutra maneira.

A partir daqui, tudo parece… tudo é nebuloso… tudo é diz que disse… E dizem-nos, então, que a verdade virá depois. Pois sim…

Os factos que eu gostaria de ter visto (É quase um «I have a dream!»):

  1. Cristiano Ronaldo, no final do jogo contra a Noruega, ir junto de Jorge Jesus e cumprimentá-lo; a seguir, ir junto dos colegas de equipa e abraçá-los; depois, ir com os colegas junto dos adeptos e saudá-los. Se o tivesse feito, CR7 redobraria as razões por que eu tantas vezes disse bem dele aos meus alunos e a colegas em acções de formação.
  2. Jorge Jesus dizer na conferência de imprensa após o jogo qualquer coisa deste género: «Eu hoje fui muito mauzinho para o Cristiano Ronaldo e ele teve muita paciência comigo; pedi-lhe uma coisa, ele anuiu, e depois eu fiz outra. Foi a dinâmica dum jogo muito difícil que me levou a fazer o que fiz, e também a não fazer o que lhe tinha dito que provavelmente ia fazer. Assim que eu saia daqui, vou ter com ele, vou-lhe pedir desculpa e vou agradecer-lhe o notável exemplo de grande capitão.»

Houve luta de egos? É tão fácil falar assim!...

O que não houve seguramente foi tolerância. Repito: o que não houve foi tolerância.

Se um e outro erraram num primeiro momento, tiveram depois pelo menos mais um momento para aparecerem um ao lado do outro a mostrarem, sem que nenhum deles perdesse a face, como se resolvem, sob a grande pressão de quatro jogos importantes em onze dias, sem treinos para ver o que pode dar melhor, os problemas entre sujeitos de grande estatuto desportivo, que estão ali, ambos!, para servir a equipa, o país e os adeptos que os elevam

quinta-feira, novembro 27, 2025

#TOLERÂNCIA333 - TOLERÂNCIA COM CR7 OU COM O PRESIDENTE DA REPÚBLICA

 #TOLERÂNCIA333 - TOLERÂNCIA COM CR7 OU COM O PRESIDENTE DA REPÚBLICA

Logo a seguir ao encontro de Cristiano Ronaldo com Donald Trump eu escrevi no Facebook «Se o Cristiano Ronaldo representa sempre Portugal como diz Roberto Martínez, hoje sinto-me profundamente envergonhado.»

Penso que não foi o próprio Cristiano Ronaldo que reclamou para si a condição de "embaixador de Portugal", essa condição, no fundo, é-lhe atribuída pelo seleccionador da Equipa das Quinas e pelo próprio Presidente da República. Sobretudo pela posição assumida por Marcelo Rebelo de Sousa, eu senti (e sem agora me desdizer) a vergonha.

Parece-me que na edição de hoje da Visão, o subdirector Filipe Luís coloca muito bem a questão:

«A polémica nacional – e, talvez, internacional – relacionada com o convite/visita de Cristiano Ronaldo à Casa Branca, depois de, dias antes, cirurgicamente, ter manifestado a sua admiração por Donald Trump, é como todas as polémicas ligadas ao futebol: um manifesto exagero, exacerbado por factores emocionais que nada têm a ver com a realidade das coisas. A importância dada a este evento teve de tudo: 'haters' de Ronaldo que viram confirmada a sua aversão, fãs de Donald Trump que viram legitimada a sua
admiração, novos 'haters' para o primeiro, saídos das fileiras de anteriores incondicionais, e até novos admiradores do segundo que, se antes o viam com maus olhos, agora apreciaram a sua “humanização”. O nosso CR7 esteve numa plateia de poderosos barra milionários, com nomes como Je Bezos e Elon Musk, juntamente com Donald Trump e Mohammed bin Salman. De referir que a Arábia Saudita anunciou o investimento de mil milhões de dólares em projectos nos EUA, ao mesmo tempo que confirma parcerias em Inteligência Artificial, tecnologia e defesa, com implicações directas na geopolítica do Médio Oriente. Não esquecer, neste contexto, o Projeto Prometheus, de Bezos, que pode transformar a capital saudita, Riade, num centro mundial de IA. No meio disto tudo, o peão Cristiano Ronaldo é um 'influencer' de luxo, uma flor na lapela do príncipe saudita.

»Vale a pena, neste ponto, portanto, debruçarmo-nos sobre um argumento muito utilizado pelos

defensores de Cristiano Ronaldo, não porque ele tenha fundamento, mas porque foi brandido por figuras com a responsabilidade do seleccionador nacional, Roberto Martínez, e do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa. Segundo esta narrativa, a presença de Ronaldo na Casa Branca, naquela intimidade com o homem alegadamente mais poderoso do mundo, deve encher-nos de orgulho, porque o Cristiano “é o melhor dos nossos embaixadores”. Além do provincianismo do argumento, podemos tolerar, compreender (e o autor destas linhas compreende) [Repare-se, peço-vos eu, neste precioso exemplo da proximidade e da distância entre tolerar e compreender] defender ou até admirar a façanha da presença de Ronaldo, como convidado de luxo de Trump. Mas não por estes motivos. Nem o seleccionador nem o PR ignoram, porque o próprio Ronaldo não o escondeu, que a ida do jogador para o campeonato saudita incluiu nas suas atribuições a função de embaixador da candidatura da Arábia Saudita à organização do Campeonato do Mundo de Futebol de 2034. É legítimo: Ronaldo é pago para isso. E não vale a pena vir o choradinho dos direitos humanos espezinhados na Arábia Saudita e a alegada conivência do astro português com um regime supostamente assassino: ele não é a Madre Teresa, nem é um activista, nem é obrigado a sê-lo. Ele é um profissional, bem acompanhado por outros profissionais congéneres que encontraram naquele país um emprego e um futuro – a começar por muitos jogadores e vários treinadores portugueses. Ele, sendo muito mais do que um jogador de futebol, na essência é só um jogador de futebol. Mas dizer que Ronaldo, nesta missão específica em Washington, foi nosso “embaixador”, é fazer de nós estúpidos e pretender que engulamos uma pílula de coliformes fecais com cobertura de açúcar. Em primeiro lugar, se um “embaixador de Portugal” está incluído numa comitiva saudita, é o País, e neste caso, o Presidente da República – que reconhece a Cristiano esse estatuto diplomático… – que está a pactuar com o regime sanguinário da Arábia Saudita. Não é Cristiano que está a fazê-lo. A natureza da “missão diplomática” não compromete o embaixador, pessoalmente: ela compromete o país que representa e que o legitima. Será que os portugueses acham bem ter um embaixador seu ao serviço de interesses sauditas?… E compromete, especificamente, o Presidente da República, na sua associação indesejável com o regime árabe. Que nós consideremos Cristiano um embaixador informal, tudo bem: é uma maneira de dizer. Mas que seja o PR a dar-lhe esse estatuto, nesta história concreta, é uma leviandade.»

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