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domingo, novembro 03, 2013

MEMÓRIA DE UM SABOROSO ALMOÇO

MEMÓRIA DE UM SABOROSO ALMOÇO
Em Lisboa, nos Olivais Sul, no dia 31 de outubro de 2013


Estávamos satisfeitos – muito satisfeitos mesmo! – quando nos sentámos à mesa do restaurante. Os trabalhos na escola, durante a manhã, tinham corrido muito bem!

Optámos por ficar na esplanada, à sombra. O tempo já não está muito convidativo para estas opções, mas na frescura húmida da hora havia ainda uma réstia do calor sul-europeu para saborear.
A escolha da comida foi fácil de fazer, apontámos no cardápio as tradicionais febras e o bacalhau à Gomes de Sá. A Marisa Matias, com a-propósito, trouxe a história da origem dos pastéis de bacalhau. Pegando as azeitonas, falámos doutras coisas, no fundo, aperitivos trocados entre gente que se sentia ali bem, naquela mesa, com a presença dos outros convivas.
O almoço aconteceu como todos queríamos que acontecesse: sem pressas e sem delongas demasiadas, com a conversa a fluir tranquilamente entre coisas mais sérias, outras mais pitorescas, outras ainda mais pessoais. “Ó Marisa, se continua assim, vou dar o dito por não dito e, afinal, vou deixar que algum dos meus alunos faça o trabalho monográfico consigo! Já disse agora tanta coisa que não está no trabalho da Daniela do ano passado que dá para fazer um trabalho novo inteirinho!...”
Repetiam-se risos entre garfadas; repunha-se o vinho nos copos, sem nunca os encher, assim controlando qualquer eventual excesso, que a boa disposição, quase disfórica, tornava tentador. Também, por vezes, como já o dei a entender, franziam-se os rostos, o presente e o futuro de Portugal e do Mundo não deixam ilusões de esperanças e entusiasmos. O único caminho é a solidariedade empenhada, o resto… O resto tem de trazer qualquer coisa de bom, não pode ser de outra maneira!
Sem que fosse intencionado ou antecipado, quando o almoço caminhava já para o desenlace que todos os almoços têm, emergiu um momento criado em efeito direto da ambiência afetiva que a Marisa, a Ana, o Flávio, o Acúrcio e eu mesmo alimentávamos. Numa carinhosa cumplicidade silenciosa, quase instintiva, entre os mais velhos, o Flávio recebeu, convergindo em uníssono, os olhares de todos os seus companheiros de mesa: ele nunca saiu de Portugal e naquele instante ele foi confrontado com a confirmada possibilidade de o fazer – a Bruxelas, no final de janeiro de 2014, com alguns parceiros da bela jornada da manhã. Foi um momento que nos deixou a todos profundamente contentes!
Até que chegou o momento das teimas de quem pagaria o almoço. O Acúrcio, o vizinho mais próximo destes lugares, com outra cumplicidade – neste caso, a do empregado do restaurante – levou, como de costume, a melhor.
http://www.idadecerta.com.br/blog/?tag=velhinha
Enquanto o momento das contas decorria, uma senhora – como nos habituámos, por tradição, dizer: uma velhinha – aproximou-se da mesa. A Marisa e a Ana, uma dum lado da mesa e a outra do outro lado, eram as que estavam do lado de fora, em mais imediato contacto com o espaço público para lá da esplanada. A senhora idosa chegou-se à cabeceira da mesa e exibiu numa pequena cesta de vime alguns produtos – uma ou duas embalagens de chá e outras tantas de folhas de louro, um frasco de mel, e mais uma ou outra coisa; no seu braço esquerdo, pendurados, alguns trabalhos, toscos, em lã – pegas de cozinha, quase todos.
A senhora agarrou no pequeno frasco de mel, exibiu-o-nos e perguntou se algum de nós queria comprar aquilo. A Ana perguntou quanto custava e a senhora respondeu-lhe que era um euro. A Marisa ficou logo igual à Ana: quer dizer, bem visivelmente, de coração tomado por imensa ternura pela frágil senhora, senhora idosa sem oportunidade de saborear o descanso que as imensas e bem cravadas rugas do rosto, a magreza de ossos de toda a sua figura, a curva irremediável das suas costas, as largas lentes dos óculos, e o sorriso que eu adivinhava perdido há muito, lhe outorgavam em bem profunda humana legitimidade.
Com gestos cuidados, prudentes, a Marisa e a Ana procuravam bondosamente “enganar” a senhora: os gestos, não obstante cuidadosos, mostravam alguma atrapalhação, que, esperávamos todos nós, a senhora não se apercebesse. As nossas companheiras de mesa queriam ajudar a senhora, mas queriam fazê-lo respeitando, com a dignidade que a senhora, fosse quem fosse, fossem quais fossem os pecados feitos durante uma vida visivelmente longa, merecia; não queriam – não queríamos - que a coisa parecesse uma esmola condoída dada a uma pobrezinha num ato de circunstancial e despachada piedade humana.
Entre pôr moeda e tirar moeda, ficaram duas moedas de 2 euros em cima da mesa para pagar o euro do frasco de mel. “Fica assim…”, diziam a Ana e a Marisa. A atrapalhação que as nossas companheiras de mesa não queriam denunciar tornou-se agora bem nítida nos gestos e na voz da frágil senhora: olhava o frasco de mel, as moedas postas em cima da mesa, abria e fechava a boca sem nada dizer e sem alguma vez mudar a expressão séria e triste do rosto. Nós parámos, suspensos, na expetativa do que iria dizer ou fazer. Quase gaguejou, a senhora, mostrando-nos o cansado indicador da mão direita: “Falta um…” . A todos nós pareceu que aquele preço era bem mais justo para aquele frasco de mel do que o euro pedido pela senhora. Respirámos todos aliviados!... Enquanto, claramente satisfeitas, a Ana e a Marisa respigavam mais moedas nas suas carteiras, a senhora perguntava se não queriam comprar mais alguma coisa. Exibiu a embalagem da folha de louro, a do chá de lúcia-lima, e ergueu o braço esquerdo para vermos bem as toscas pegas de lã.
Nesta altura, a toalha da mesa já mostrava pelo menos quatro moedas de 2 euros e uma moeda de 1 euro, só para, “discretamente”, pagar o frasco de mel. A Ana perguntou à senhora quanto custava o saquinho de folhas de louro. Era cinquenta cêntimos. A Ana puxa de mais uma moeda, penso que de um euro, e estende-a para a senhora: “Olhe, fica assim…” A senhora, sempre com os mesmos gestos lentos, sempre com o mesmo rosto que todos queríamos ver abrir um pouco mais, devolvendo-nos um sorriso, por pequenino que fosse, a dar-nos sinal de que estava a sentir-se bem – sorriso esse que nunca veio, a velha senhora sabe que a vida vai continuar a ser dura para ela e vai continuar a exigir-lhe esforço em vez de descanso -; a senhora, dizia eu, olhou as moedas que estavam em cima da mesa, olhou a seguir a Ana e, com a firmeza que a fragilidade da voz gasta da vida ainda lhe permitia, disse-lhe, abrindo a mão solta, a mão direita, como o fazem as mãos francas: “A senhora já pagou, já não é mais nada…” E apontou à Ana as moedas em cima da mesa.
Eu fiquei com um nó na garganta, e estou convencido de que ficámos todos. Levantámo-nos da mesa, a senhora recolheu as moedas, agradeceu e seguiu o seu caminho. Ela sabe onde o caminho a vai levar, não faltará muito tempo; e nós, que ali continuámos juntos, em saborosa partilha, também bem sabíamos onde os tão exaustos e tristes passos que se afastavam de nós naquele momento iriam chegar e finalmente deixar descansar as pernas que sempre os conduziram.
Quais serão as condições de vida desta idosa senhora?... O que é que a sociedade desenvolvida que ela ajudou a criar lhe dá agora, ou melhor, lhe tem tirado e lhe tem negado? Os poderosos, a gente sabe o que eles fazem quando é a hora deles darem ou tirarem às pessoas. Esta senhora, massacrada pela vida – já o disse: sejam quais sejam os pecados que tenha feito até hoje -, quando foi hora de ser ela a decidir, escolheu ser honesta com o seu próximo, ali mesmo, quando a oportunidade de juntar mais uma preciosa moeda para a sua sofrida sobrevivência era fácil, estava ali escancarada à sua frente com a bondade discreta das senhoras deputadas; bondade esforçadamente discreta mas traída pela abundância de moedas, que a própria senhora percebeu estarem em exagero perante o valor dos objetos da rudimentar troca comercial. Que sabem os senhores poderosos do Mundo desta senhora? Levaram-lhe, e continuam a levar-lhe, todos os dias, a paz e o sossego que os carregados anos de vida legitimam à senhora, a qualquer senhora desta idade; mas não conseguiram levar-lhe a dignidade! Que exemplo!... Que lição!...
Que manhã, esta!... Tão cheia de humanidade! Valeu o esforço que prepará-la? Valeu a viagem “louca” da Marisa e da Ana, de Aveiro a Tomar; e de Tomar a Lisboa? Valeu o esforço do Flávio, que juntou, com a sua disponibilidade, mais exigências às exigências que o seu dia a dia de estudante lhe coloca? Valeu, sim senhor! São estas coisas que na vida, nos encontros humanos, valem a pena!
Beijinho grande, de muita gratidão, Marisa! Outro para a Ana! Um abraço, ao mesmo tempo paternal e fraternal ao Flávio; à Daniela e ao Fábio! Ao mano Acúrcio, o abraço do costume!

Confesso que já imaginei a senhora descansando num leito quentinho e aconchegado; a fechar a olhos, esfregando mansamente a cabeça contra a almofada para a fazer ao jeito das curvas do seu rosto. Eu, debruçado sobre ela, ajeito-lhe o lençol e os cobertores, faço-lhe uma festa na cabeça, digo-lhe “Bom descanso… Até amanhã…”, apago a luz e fecho devagarinho a porta do quarto atrás de mim.

quinta-feira, junho 13, 2013

A crendice mágica infantil do Acúrcio Domingos, o génio de Einstein, a sabedoria de Pestalozzi e a infeliz régua de fazer as contas

            Fazendo fé no que me parece ser uma séria e muito bem conseguida biografia sobre Albert Einstein, o seu autor, Walter Isaacson, na parte em que fala do instável e turbulento desenvolvimento escolar do jovem Einstein, escreve, a certa altura:
“(…) Einstein, aconselhado pelo diretor [do Instituto Politécnico de Zürich], resolveu dedicar um ano a preparar-se na escola cantonal da vila de Aarau, a quarenta quilómetros para oeste [de Zürich]. Era a escola perfeita para Einstein. [Einstein tinha, nesta altura, 16 anos de idade] O ensino inspirava-se na filosofia do reformador da educação do início do século XIX, o suíço Johann Heirich Pestalozzi , que pretendia estimular os estudantes à visualização de imagens[1]. Também considerava importante cultivar a ‘dignidade interior’ e a individualidade de cada criança. Pestalozzi defendia que os estudantes deviam chegar às suas próprias conclusões seguindo uma série de etapas que começavam com o contacto direto com o objeto e que depois prosseguiam até intuições, pensamento conceitual e imaginação visual. (…) A compreensão visual dos conceitos, como era defendida por Pestalozzi e os seus seguidores em Aarau, tornou-se um aspeto significativo da genialidade de Einstein. ‘A compreensão visual é essencial, a única forma verdadeira de ensinar e avaliar as coisas corretamente, escreveu Pestalozzi, e ‘a aprendizagem dos números e da linguagem deve indubitavelmente subordinar-se a ela’. Não surpreende que, naquela escola, Einstein se tenha, pela primeira vez dedicado às experiências mentais que o ajudariam a converter-se no maior génio científico do seu tempo: tentou visualizar como seria viajar ao lado de um raio de luz. (…) Com o passar dos anos, ele visualizaria mentalmente eventos como relâmpagos e comboios em movimento, elevadores a acelerar e pintores em queda (…)”.
 Também o meu querido mano Acúrcio Domingos mais do que uma vez, na sua meninice, se deixou levar, no seu pensamento imaginativo, crédulo e ávido, por façanhas de corpos em movimento.
Agora que falou de uma dessas saborosas memória às minhas alunas de Psicologia, num trabalho monográfico que ele próprio acarinhou com muito empenho e satisfação, sinto que posso trazer a público uma dessas curiosas ‘experiências mentais’ do menino Acúrcio Domingos. O meu mano tinha um tio fascinante, o seu tio António, irmão de sua mãe; na altura, o sobrinho era uma criança que via o tio como um homem do futuro, “com as suas ideias alucinadas”… O tio António convenceu-o que tinha um burro com mudanças, que usava para o fazer andar mais depressa ou mais devagar, carregado ou mais leve, em subidas e descidas; e, no meio de outros relatos fantasiosos, deixou-o preso na imagem de um dia ter dado um chuto numa bola com tal força que a boa se elevou bem no ar, deu voltas e voltas e foi cair na Covilhã. O menino Acúrcio, que vivia numa austera aldeia serrana, e nunca tinha ido à Covilhã, viu o seu pensamento ficar escravo daquela façanha humana extraordinária e muitas vezes se deixou ficar absorto na imaginação da viagem daquela bola que, na descrição do seu hipnotizante tio, tanto tinha subido no ar e pulado por cima de montes e vales até voltar ao chão na desconhecida cidade. Três dias, garantia-lhe o tio, andou a bola no ar, a voar, até que caiu na Covilhã!...
Einstein seguiu, na sua imaginação, a viagem de um raio de luz, vindo de cima para baixo; o Acúrcio seguiu a viagem de uma bola, ida de baixo para cima.
A partir da mesma matriz imaginativa infantil – notável matriz! – Einstein e Acúrcio seguiram caminhos diferentes. Einstein, se fosse colocado, como o Acúrcio o foi, perante a ocorrência incrível da bola em movimento no ar durante três dias, ter-se-ia dedicado a fazer todos os cálculos de Física indispensáveis para determinar a força inicial que seria necessária para imprimir o movimento à bola, tentaria descrever a trajetória do corpo em deslocação no ar, sujeito às condições habituais da gravidade, a resistência oferecida pela superfície de propagação, etc., etc., etc. E seguramente chegaria ao valor – brutal! -, nas unidades de medida convenientes, que o pontapé do tio António teria aplicado na bola para que parasse apenas ao fim dos 3 dias…
O meu mano Acúrcio seguiu a outra dimensão do caminho de Pestalozzi. Deixou os cálculos da Física para Einstein (ou, premonitoriamente, para o filho Gonçalo?... que agora se dedica às contas de Einstein) e entregou-se, de corpo e alma, a, como dizia Pestalozzi, “cultivar a ‘dignidade interior’ e a individualidade de cada criança”, de cada aluno; de cada um, seja ele qual for, que entra, circunstancialmente, ou mais demoradamente, no círculo dos seus contactos pessoais.
Ontem, véspera de Santo António, no meio da turbulência que foi o dia de trabalho na escola, com reuniões que se faziam ou não se faziam, com horas e salas que se trocavam, tive tempo e paz oportuna para receber uma antiga aluna de Psicologia, de quem muito gosto e que sempre me tratou com muito carinho.
Veio falar-me de uma angústia que sente com o seu filho mais velho. Deixou-me com angústia semelhante. Na verdade, o filho, que tem mostrado um desenvolvimento pessoal tumultuoso, chega ao segundo ano de escolaridade e é confrontado, tal como os seus colegas, ao contacto com 7 professoras diferentes desde o princípio do ano!... Sete, imagine-se!... Sete, em dois anos já é demais, então, num ano só é o falhanço total da estabilidade nos processos de aprendizagem, de identificação afetiva ao mestre que ensina, é… é terrível!... Disse à aflita mãe que o que agora chamam “hiperatividade”, no tempo do meu mestre João dos Santos, era designado por “instabilidade”. E ele dizia de forma simples que nos ajudava a sentir a essência da dinâmica psicológica interior da criança, que “a instabilidade é a procura da estabilidade”, tal como nós que, quando começamos a ansiar a resolução de alguma coisa, nos envolvemos em procedimentos cada vez mais apressados para resolver o que nos aflige.
O filho da minha querida aluna tem dado mostras de desenvolvimento cognitivo precoce, com aquisições escolares autónomas e antes das idades habituais. A mãe dele, nos seus relatos, mostrou-me uma série de danos que poderão ser mais ou menos gravosos se não forem atalhados a tempo. Um deles, que não é dos menores, é a capacidade que a criança tem de cálculo mental, por processos idiossincraticamente muito imaginativos. Disse-me a mãe que o filho agora desistiu deles. A mais recente das suas “multiprofessoras” disse-lhe que as contas se fazem mas é com uma régua!... A trazer-me à consciência, a saber a fel, a ironia da afirmação que o pai lavrador terá feito, no leito da morte iminente, ao filho: “E não te esqueças, meu filho, que até das uvas se faz vinho…”
Como pode esta criança, com as condições de aprendizagem que a sociedade organizada lhe dá, sonhar saborosamente com bolas que dão voltas no ar e caem 3 dias depois na Covilhã, ou sonhar em voar ao lado de raios de luz?...



[1] Estais vendo, queridos alunos, o que tantas vezes vos falei?... Isto é intuição sábia, muitas dezenas de anos antes que os modernos estudos do cérebro mostrem “cientificamente” esta evidência; no fundo, como António Damásio também nos procurou mostrar com o que escreveu sobre Espinoza.

(fonte da imagem: http://www.pestalozzirj.org/imagens/pestalozzi.jpg)
(fonte documental: Isaacson, W., 2008. Einstein, a sua vida e universo. Casa das Letras. Pág. 40-41)