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terça-feira, junho 17, 2014

Papa Francisco: - Sabe a diferença que existe entre Terrorismo e Protocolo?

Quando (entrevista em 11 de junho) o jornalista Henrique Cymerman questionou o Papa Francisco sobre a sua relação difícil com o "protocolo", o Papa deu-lhe uma resposta magistral! Assim:
Papa Francisco: - Sabe a diferença que existe entre Terrorismo e Protocolo?
Cymerman: - Não...
Papa Francisco: - É que com o Terrorismo pode-se negociar...
Ui!... Que aviso!... Como costumamos dizer, que chapada de luva branca!... As escolas estão cheias de protocolos; a política está cheia de protocolos; as relações institucionais, em geral, estão cheias de protocolos... É evidente que alguns são necessários. Em certa medida, os rituais sociais e culturais são protocolos. Como dizia Konrad Lorenz, servem o objectivo de controlar a agressividade. Mas há rituais, há protocolos; e há muitos exageros de protocolos.
Veja-se hoje como um homem que, como ele próprio um dia disse, "não foi tocado pelo dom da fé - estou a falar de Mário Soares - fala hoje do Papa Francisco num artigo que faz publicar no Diário de Notícias.

sexta-feira, julho 12, 2013

Jane Goodall, o cérebro, os jovens e Nelson Mandela

http://www.blowingrockrotary.org/wp-content/uploads/
2013/07/2013-convention-goodall.jpg
Mais do que em anos escolares anteriores, tive no ano letivo que terminou no início do passado mês de junho, oportunidade de abordar com os meus alunos, de forma especialmente clara, os temas e as pessoas que agora encontro, para grande satisfação pessoal, na entrevista de Jane Goodall, que aparece na edição da Visão, a n.º 1061, de 4 a 10 de julho de 2013.
A notável Cidadã do Mundo - pela defesa do Homem, dos Animais, do Ambiente e da Paz - esteve recentemente em Lisboa, no congresso mundial de Rotary Internacional, instituição internacional a que me ligam laços de muito carinho e gratidão, que me proporcionou uma extraordinária viagem à terra de Mandela e da origem do Homem.
A jornalista não usa a forma interrogativa para pôr a Jane Goodall a última questão:
- "Mantém um discurso esperançoso..."
Jane Goodall responde o seguinte, assim fechando a entrevista:
- "Há quatro aspetos que me fazem manter a esperança: o fantástico cérebro humano que pode ser usado para o bem; a resiliência da natureza; a energia e dedicação da juventude, e o indomável espírito humano que herdámos de Mandela. Ele mostrou-nos que é possível concretizar tarefas que parecem impossíveis."

quinta-feira, abril 25, 2013

25 de abril, sempre! Em 2013.


Este é o poema que escolhi para o 25 de abril de 2013. Porque penso que são cada vez maiores e mais poderosas, mesmo que menos nítidas ou imediatamente visíveis, as prisões em que confinamos as crianças e os jovens e lhes comprometemos irremediavelmente o futuro. 


25 de abril, sempre!
PELO FUTURO DAS CRIANÇAS E DOS JOVENS DE HOJE
Por razões que eles mesmos conhecem (será que conhecem mesmo?, ou só eu conheço as razões por que eles me marcaram para os destacar nesta ocasião?...), dedico estes versos especialmente à Maria João, à Vanda Menezes, ao Márcio Perdigão, ao João de Matos, ao Fábio Fernandes, ao Hugo Fernandes e ao Ricardo de Sousa.

"Camaradas, para a Con
[Condessa Constance Markievicz, defensora dos direitos humanos irlandesa]
A noite tranquila que me rodeia flui,
Rompe pelas portas de ferro da tua prisão,
Livre pelo mundo o teu espírito vai,
Mãos proibidas entrelaçam-se nas tuas.
O vento é nosso cúmplice
A noite deixou as portas entreabertas;
Voltaremos a encontrar-nos para lá das grades dos portões da Terra,
Lá, onde todos os rebeldes selvagens do Mundo estão."
- Eva Gore-Booth
[irmã de Con]
Chris Newman, o Patrick
Comrades, To Con
The peaceful night that round me flows,
Breaks through your iron prison doors,
Free through the world your spirit goes,
Forbidden hands are clasping yours.
The wind is our confederate
The night has left the doors ajar;
We meet beyond earth's barred gate,
Where all the world's wild rebels are.
- Eva Gore-Booth
Estes versos são recitados de cor pelo personagem Patrick, praticamente no final do filme "Song for a raggy boy", quando o professor Franklin se encaminha para a saída do reformatório, de malas na mão.
http://www.youtube.com/watch?v=EWiVx7SyGdA&list=PL1A4B4C8512642559

Constance e Eva eram ambas ativistas políticas irlandesas. Ambas se empenharam na defesa dos pobres e dos mais desfavorecidos. Constance foi presa e condenada à morte. Entretanto, dado ser uma mulher, a pena foi comutada para prisão perpétua. Beneficiou de uma amnistia em 1917, mas pouco depois voltou a ser presa; até que foi libertada novamente. Eva morreu em 1926 (aos 56 anos) e Constance em 1927 (aos 59 anos).


domingo, novembro 04, 2012

IDOSOS, ÉTICA E REFORMA


IDOSOS, ÉTICA E REFORMA
por Frei Bento Domingues, O.P.
(jornal Público, edição de 4nov12, caderno Opinião)

1 Vivemos numa sociedade paradoxal: por um lado, alegramo-nos com o aumento da esperança de vida; por outro, os idosos são acusados de levar muito tempo a morrer. Gastam, não produzem e ainda se sentem no direito a receber uma reforma ou uma pensão dignas. Mas os casais novos também não escapam à censura: são responsáveis por sermos um país de velhos. Tinham obrigação de ter mais filhos. Como são egoístas, não se importam. Diz-se que lá virá o dia em que também eles verão as consequências desta falta de previdência.
Mais do que paradoxal, é niilista: não aguenta nem os idosos nem os novos. Se há queixas contra os idosos, os novos estão a ser preparados para nada. Diz-se que Portugal perde 2,7 mil milhões por causa de jovens inactivos. A grande alternativa parece ser a emigração, que não é um crime, mas esses jovens foram educados em Portugal e vão-se embora, sem pensar em ajudar quem por eles se sacrificou. Quando uma sociedade deixa de ser sujeito do seu destino e passa a ser objecto de contabilidade, não se vê possibilidades de acerto. As pessoas queixam-se de serem exploradas pelo Estado e o Estado diz que elas estão a ficar muito caras. Sentem-se todos prejudicados.
A nossa sociedade talvez não seja nem paradoxal nem niilista. Parece irreflectida.
Pensar em termos simplistas, como os que acabei de evocar, é o modo mais habitual de funcionar com os estereótipos, muito facilitados com a redução de tudo a números. Levou-se muito tempo a pensar em termos de deveres e direitos humanos, deveres e direitos de pessoas, sujeitos de dignidade. Agora, a propósito de tudo e de nada, só se pergunta quanto se perde e quanto se ganha. É um jogo de abstracções. As abstracções não choram, não riem, nem protestam. Uma boa máquina de calcular tornou-se o supremo órgão do pensamento. Os cursos de filosofia, de literatura, de teatro, de cinema, de música são artes de empobrecer alegremente, salvo casos geniais, que se descobrem, sobretudo, depois de mortos.
2. Para I. Kant, o ser humano não tem preço, tem dignidade. Nunca deverá ser um meio. É sempre um fim. Nas sociedades pluralistas em que vivemos, se os imperativos éticos não forem incondicionais, se a moral não tiver uma justificação, uma fundamentação, estas não serão pluralistas, mas relativistas, pois não haverá distinção entre bem e mal, tudo será aceitável - "vale tudo" -, basta que corresponda às tendências actuais, aos desejos de cada um, à moda. A pura actualidade sem horizonte, dominada pelo corropio das notícias, sem referência a uma orientação de longo alcance, tende a considerar tudo provisório, com medo do império de falsos absolutos. Será uma época que tem cada vez mais recursos, mas também um tempo de "meios sem fins".
As propostas éticas - que não sejam a sua negação - estão todas inseridas numa tradição. Procuram interlocutores na história.
Paul Ricoeur, sem juramentos de fidelidade ortodoxa a nenhuma delas, situou-se na confluência das tradições aristotélica e kantiana. Apresentou, várias vezes, o seu programa, da forma mais sintética: "A ética tem como objectivo a vida boa, com e para os outros, em instituições justas."
Como diz A.-J. Festugière, a norma para o grego não é "tu deves" (como é para Kant), mas "tu podes" ser humano, podes ser feliz.
Onde está o fundamento ético da reforma? Encontra-se na historicidade da condição humana. Não somos, vamos sendo. Importa que em todas as idades da vida, possamos contar com previdências e providências pessoais, comunitárias e sociais, para quando já não tivermos condições para cuidar de nós e dos outros.
Numa civilização pragmatista, os idosos não valem, estorvam; estão fora de prazo de validade. Paradoxo: caímos numa sociedade de idosos sem saber o que fazer com eles. Mas os reformados não podem ser indesejados e arrumados a um canto, à espera da morte, com medo ou como alívio.
3. Na chamada 3.ª idade reproduzem-se todos os aspectos da vida. Os idosos podem ser acarinhados ou maltratados, considerar-se indispensáveis ou a mais. Com a reforma - cuja idade pode variar - cessa a vida profissional, mas não acaba uma competência desenvolvida ao longo da vida. Deverá ter oportunidade de servir a comunidade, de fazer voluntariado, onde puder e quiser. Os idosos têm muito para dar, mas precisam de quem mostre alegria em receber.
Diz-se que já não produzem, mas quem contabiliza o que eles representam na família e na sociedade? A vida humana só se conta em euros? Fundamental é a sabedoria, mas quem sabe o seu preço?
Os idosos foram, em todas as culturas, considerados a sua memória viva. Fazem falta aos gestores de hoje. Os bons conselheiros não são, apenas, as pessoas de grande competência técnica. Sem sabedoria deita-se a perder o que ilusoriamente se ganhou.
Como escreveu Catarina Nunes, "um dia o mundo será um grande lugar onde ninguém é visto como velho, mas como alguém mais adiantado na jornada da vida". A isto se poderá chamar solidariedade entre gerações.

quarta-feira, junho 20, 2012

«Mourinho é um grande comunicador que esconde bem a sua mediocridade como treinador» - Zeman

«Mourinho é um grande comunicador que esconde bem a sua mediocridade como treinador» - Zeman
Por Redação (jornal A Bola, edição on line, 20 de junho de 2012)

«José Mourinho é um grande comunicador que esconde bem a sua própria mediocridade como treinador». As declarações foram proferidas pelo novo treinador da Roma, Zdenek Zeman.
As críticas ao Special Onde prosseguiram.

«Salvo algumas exceções como o Barcelona de Guardiola e a seleção espanhola, o futebol evoluiu pouco nos últimos anos. A grande maioria das equipas entra em campo apenas com vontade de neutralizar o adversário, como o Chelsea que este ano ganhou a Liga dos Campeões ou o Inter (aludindo ao período em que o técnico português orientou a formação italiana)», apontou Zeman citado pela gazzetta dello sport.
17:20 - 20-06-2012«Mourinho é um grande comunicador que esconde bem a sua mediocridade como treinador» - Zeman

Caros alunos,
reparem como as palavras são, entre outras coisas, algo que serve os interesses, as motivações, os objetivos, de quem as profere; e servem também para representar, corretamente ou não, as realidades a que se referem.
Diz a cultura popular que "contra factos não há argumentos". Por isso, apenas aqui alinho, em jeito de lista, os factos futebolísticos, profissionais, do autor das palavras, Zdeněk Zeman, e o visado dessas palavras, José Mourinho. Fui buscar estas listas à Wikipédia. No fim de as observar, perguntar-se-á:
O que quererá Zeman verdadeiramente?... Será só protagonismo?... Atrair as atenções sobre si?...
Recomendo-vos: não se deixem ir atrás das emoções... passem por cima da tentação de chamar nomes feios ao senhor da República Checa... tentem apreciar o funcionamento psicológico do treinador, e do homem que (também) é.

Zdeněk Zeman

Títulos

Licata
Foggia
Pescara

José Mourinho

Títulos

Portugal FC Porto
Inglaterra Chelsea
Itália Internazionale
Espanha Real Madrid

[editar]Prêmios individuais

quinta-feira, junho 14, 2012

Educação Física não conta para a média - Portugal - DN

Educação Física não conta para a média - Portugal - DN

Esta medida do Ministério de Educação da República Portuguesa é, no meu entender, uma medida que nos permite formar opinião sobre a consistência da cultura civilizacional e científica dos decisores que a tomaram; e a sua estreiteza de perspetiva, quando as verdadeiras soluções, não apenas na área da educação, mas também no desenvolvimento geral do País, reclamam sabedoria, rasgo e valorização de todas as dimensões das competências e capacidades humanas.
A médio ou longo prazo, é uma medida perfeitamente reversível, o que me deixa mais descansado. A curto prazo, parece-me uma medida muito infeliz, que vem distorcer a formação de um punhado não negligenciável de jovens.
Não é apenas a negação da velha máxima grega, que avisa que a mente sã se constroi sustentada no corpo são, é também a negação do que hoje em dia se sabe sobre a importância das actividades do corpo no desenvolvimento do cérebro, das capacidades abstrativas da mente; do autocontrolo e da autorregulação emocional; da estimulação e da aprendizagem da regulação da sociabilidade, da competição e da gestão dos conflitos.
Sinal dos tempos, esta medida mostra quanto as preocupações oficiais com a educação dos jovens vai a reboque das necessidades e das motivações pequenas do "desenrasca"  económico, mercantilista; e que todos nós, com os nossos governantes à cabeça, andamos a reboque de quem manda (os poderosos do dinheiro) e os que pensam que têm verdadeiro poder (os provisórios governantes).
Admito perfeitamente que haja alunos (não são todos, seguramente, os que há pouco quis referi no "punhado não negligenciável de jovens") e encarregados de educação em número não negligenciável que apoiem este medida, mas, infelizmente, a minha experiência, enquanto professor e enquanto psicólogo, tem-me mostrado quanto a pessoa (no fundo, pessoas concretas que eu conheço) perde quando se sobrevaloriza as coisas da mente, ou as coisas do corpo, pondo-se em causa a integridade da pessoa. É, sobretudo a felicidade pessoal e a felicidade das famílias que é posta em causa.

quinta-feira, junho 10, 2010

Educação Sexual nas escolas - outro episódio

A sempre polémica e acaloradamente discutida Educação Sexual nas escolas.
Agora apareceu um kit de educação sexual, em que, entre tantas coisas que diz ou apresenta que nos deixam de olhos esbugalhados, se fala que "os espermatozóides do meu pai começaram a correr loucamente para ver qual atingia primeiro o óvulo da minha mãe". Quer dizer, continua-se, pretenciosamente invocando as mais nobres ou respeitadas ideias pedagógicas, a imbecilizar as pessoas (crianças e jovens) a quem a educação se dirige, e a imbecilizar temas ou assuntos que mereceriam outro senso (muito bom senso!) e outra competência (verdadeiramente) científica.
Enfim, a Terra continua a girar sobre si própria e também à volta do Sol.

No meu entender, o grande erro da Educação Sexual é estar centrada nas crianças, nos jovens e nas escolas. A verdadeira educação sexual deveria estar centrada nas famílias. Há famílias que são difíceis?... Ora, esse é que é o verdadeiro desafio!... Eduquem-se as famílias que elas encontrarão os momentos e as formas mas adequadas e oportunas para abordar a sexualidade enquanto dimensão da vida; aliás, como outras dimensões igualmente importantes.

quinta-feira, março 11, 2010

Sobre a (des)igualdade de oportunidades

As aulas mais recentes de Psicologia têm sido dedicadas ao modelo bioecológico do desenvolvimento de Urie Bronfenbrenner.
Ontem acompanhei o 12.º H à edição deste ano da Futurália, e as primeiras conferências da Feira estiveram centradas sobre as e-skills, do presente e do futuro. Segundo os dados do comissário André Richier, é de alarme a situação actual na União Europeia, tal como, por exemplo, no Canadá: as graduações em Tecnologias da Informação e Comunicação estão a perder alunos. E a desproporção entre ambos os sexos é enorme, mais de 5 estudantes rapazes para cada estudante rapariga.
Por este género de coisas e situações a União Europeia promove a divulgação de vídeos deste tipo:

sábado, fevereiro 27, 2010

As lições da Madeira

Penso que, enquanto educadores, temos a obrigação de mostrar trabalhos deste tipo aos nossos jovens.
É verdade, temos sempre alguma margem de manobra, alguma capacidade de decisão, nas coisas que podem acautelar o seu futuro ou, pelo contrário, torná-lo mais difícil.
E há mesmo pessoas que são competentes e corajosas! E são portugueses!


sexta-feira, abril 24, 2009

O 25 de Abril comemorado na Escola

A Eulália Andrade, a Paula Faia e a Cristina Kirkby - colegas de História - promoveram hoje na Escola uma sessão aberta à comunidade escolar sobre o 25 de Abril, centrada no testemunho pessoal, transmitido ao vivo, por colegas que viveram o 25 de Abril; e na entrevista a outros colegas, feitas por alunos do 12.º H1, trabalho esse que foi visionado a partir do computador.
No final da sessão, eu não quis deixar de dizer aos jovens - e professores jovens - presentes no CRE (centro de recursos educativos) que eles também terão pela sua frente lutas de intensidade igual - mesmo, maior! - às que nós tivemos no nosso 25 de Abril. Ganhámos em liberdade cívica, em democracia (mesmo que apenas formal), mas o estado do mundo é, nos dias de hoje, de perspectivas muito sombrias, basta pensar-se no tema do aquecimento global e da delapidação vertiginosa dos recursos do Planeta, ou no tamanho da nossa pegada ecológica. Disse-lhes ainda que muitas das tiranias e dos poderes exploradores se mantêm, ou retornaram, sob vestes bem mais sofisticadas e a coberto de princípios democráticos indiscutíveis.
É verdade, mesmo que por outras razões, o mundo das próximas gerações parece que vai ser bem mais difícil que o meu e dos meus colegas "cotas".
Por isso, em jeito de despedida (despedida até ao 25 de Abril do próximo ano; despedida de esperança e de alento, apesar de tudo), deixei-lhes o seguinte poema de Miguel Torga:

Perenidade

Nada no mundo se repete.
Nenhuma hora é igual à que passou.
Cada fruto que vem cria e promete
Uma doçura que ninguém provou.

Mas a vida deseja
Em cada recomeço o mesmo fim.
E a borboleta, mal desperta, adeja
Pelas ruas floridas do jardim.

Homem novo que vens, olha a beleza!
Olha a graça que o teu instinto pede.
Tira da natureza
O luxo eterno que ela te concede.
(Miguel Torga, Libertação, 4.ª edição, 1978)

quarta-feira, novembro 05, 2008

Sobre a superioridade (?) da espécie humana

Estive hoje, ao final da tarde, na Fundação Calouste Gulbenkian, onde fui assistir à segunda conferência do ciclo "No caminho da Evolução", no âmbito da Exposição "A evolução de Darwin", comemorativa dos 200 anos do nascimento do "pai" da teoria da evolução das espécies.
A conferencista, Patrícia Beldade, fez uma apresentação muito harmoniosa e equilibrada, bem dirigida ao grupo dominante entre a assistência, alunos do ensino secundário. Gostei de ver tamanha plateia, com escolas de fora de Lisboa. De Valongo veio um grupo grande da Escola Secundária de Alfena. Espero que todos tenham aproveitado das duas horas de presença na Gulbenkian. Só que... já lá vamos.


O tema da conferência: "Evolução e Desenvolvimento: variações a dois tempos e muitas cores".
Como já disse, a conferência foi muito bem apresentada pela jovem investigadora portuguesa.
Já antes dela, um outro cientista (de quem não fixei o nome) fez uma muito agradável apresentação do livro "Evolução, história e argumentos".
Depois da apresentação da investigadora Patrícia passou-se a um período - amplo, por sinal, o que se saúda muito agradavelmente - de debate, perguntas e respostas.
Pois aqui é que a porca torceu o rabo!...
Então, Patrícia, fica-se perante uma plateia assim, sem uma folhinha de papel e uma esferograficazinha no colo?... Viu como se viu em dificuldade para se focalizar bem nas perguntas que lhe fizeram?... E reconhece que acabou por dar um exemplo pedagógico pouco conveniente, não é? Desculpe-me, mas a minha idade e a minha antiguidade em ofício idêntico ao seu responsabiliza-me por esta cordial chamada de atenção.
Os alunos cumpriram muito satisfatoriamente a sua obrigação, pondo perguntas sincera e esforçadamente saídas dos seus níveis de conhecimentos escolares, da sua generosidade adolescente típica, das cogitações próprias de espíritos prenhes de ideiais sociais e humanitários.
No meu entender, as respostas lá foram calhando - e encalhando - de acordo com o pouco cuidado no registo das perguntas (não me leve a mal que insista neste ponto, não é minha intenção criticá-la), que, para que não falhassem, na sua maioria estavam já escritas e foram lidas, depuradas, sem redundâncias, dificultando a sua correcta percepção por quem lhes deveria responder. E em qualquer momento, qualquer pergunta empenhada e séria de um aluno é para ser tratada... "como se fosse a Poesia que nos visitasse". Como Sebastião da Gama escreveu que Miguel Torga lhe tinha dito: "Para ser professor, também é preciso ter as mãos purificadas. A toda a hora temos de tocar em flores. A toda a hora a Poesia nos visita."
As perguntas dos jovens têm a simplicidade, mas ao mesmo tempo a complexidade; e a ingenuidade, mas ao mesmo tempo a assertividade, próprias do pensamento em expansão que é da natureza essencial de todos os jovens.
Por duas ou três vezes foram colocadas questões claras e pertinentes sobre a superioridade da espécie humana em relação às outras espécies.
Hoje em dia, mais do que nunca, quando tanto - tão justamente! - é dito sobre a responsabilidade do Homem na destruição das condições de vida de todos os seres vivos e de todos os ambientes de vida no Planeta Terra, seguramente que intensos processos de dissonância cognitiva interferem nos raciocínios dos jovens quando, noutras perspectivas, lhes queremos - enquanto professores - passar-lhes a ideia de que o Homem é a espécie mais desenvolvida, é o ser superior, é o ponto mais alto da escala evolutiva. No fundo, directa ou indirectamente; velada ou claramente; intencional ou involuntariamente, no ensino está-se sempre a passar esta ideia.
Querida Patrícia - permita-me esta familiaridade, que me concedo amparado nos meus cabelos já com muito de branco - não basta dizer a estes jovens sedentos de apaziguamento para os seus raciocínios saudavelmente turbulentos e tortuosos, que Eu não penso assim.
Não tivesse sido o adiantado da hora, eu teria pedido para intervir para dizer qualquer coisa do género:
Isso de ser superior, tem a ver com um critério estabelecido arbitrariamente. Por exemplo, se se considerar superior a espécie que maior capacidade adquiriu para transformar o ambiente à sua volta e influenciar ou agir sobre as outras espécies, naturalmente que o Homem é a espécie superior. Mas se, noutra perspectiva, se considerar que o critério é a capacidade de adaptação ao meio, preservando-o, não o pondo em perigo, bem assim como não pondo em perigo a sobrevivência da generalidade das espécies e dos habitats, então, neste caso, o Homem é quase seguramente a espécie "mais inferior". Há outros critérios possíveis, como muito bem me chamou a atenção a minha querida colega Eulália.
Pessoalmente, penso que respostas, mesmo que dadas de boa fé, que se conformem a simples opiniões pessoais, baseadas nos mais correctos e honestos argumentos científicos, não são respostas que respeitem o dinamismo do pensamento jovem, até quando eticamente pareça que se está a proceder bem.
Que respeitem e que libertem. As respostas que acabo de falar não libertam, antes, formam becos sem saída onde se desejariam estradas largas para percorrer e horizontes a vislumbrar.
Se dissermos aos jovens que a tal superioridade depende de critérios - arbitrários -; se msotrarmos alguns exemplos; e se lhes dissermos que podem criar os seus próprios critérios, deste modo sim, libertaremos e permitiremos a expansão dos seus pensamentos.