CRISTIANO RONALDO E JORGE JESUS. ONDE FICOU A TOLERÂNCIA?
Durante um ano, mais exactamente durante 365 dias mais dois, andei a escrever por aqui sobre a tolerância.
Quero voltar a escrever sobre a tolerância a propósito deste caso, o da crise na selecção portuguesa de futebol com o desentendimento entre o seleccionador Jorge Jesus e o jogador (de grande estatuto — sim, não é um jogador qualquer; mas, pensando bem, todos os jogadores que estão numa selecção nacional, seja de que desporto for, são também atletas de estatuto especial. Certamente também aqui vale, em jeito orwelliano: todos têm estatuto especial, mas uns estatutos são mais especiais do que outros) Cristiano Ronaldo, celebrizado, por mérito próprio, com a marca CR7 — a qual, no mundo das finanças, a gente sabe que vale muitas centenas de milhões de euros ou dólares.
O resultado imediato da crise acabou no afastamento (afastamento no sentido de agora estar longe, não de ter sido afastado ou de se ter afastado por decisão própria) do jogador da selecção.
Quero escrever agora, precisamente enquanto não se conhece, enquanto não é pública, toda a verdade.
Muitas altas individualidades, muitos dirigentes disto e daquilo, vêm salomonicamente aconselhar a que se espere, se oiçam as duas partes, até se saber, repito, toda a verdade; e só depois se opine e se julgue. Ter primeiro o conhecimento cabal dos factos e só depois «botar opinadura».
Não, eu quero falar agora, com o que se sabe agora, em que o poder da informação é pouco e o poder da desinformação é grande. Sim, quero mesmo opinar com a informação que penso ter disponível e ser fidedigna.
Antes de dizer o que penso — adianto já que penso ter falhado a tolerância da parte de Cristiano Ronaldo; e que falhou também a tolerância de Jorge Jesus —, interrogo-me sobre o que é o «conhecimento cabal dos factos» e sobre «qual é a verdade».
A Comunicação Social tem dado destaque, nas afirmações escritas oficialmente por Cristiano Ronaldo no Instagram, a ele escrever «A seu tempo, direi a verdade a todos os Portugueses».
Logo aqui, calma… Cristiano Ronaldo escreveu, na verdade, «A seu tempo, direi a verdade a todos os Portugueses sobre as razões que motivaram a minha saída da equipa nacional, à qual sempre me dediquei.», que não é exactamente o que se pode depreender da citação sincopada.
Que verdade vai contar Cristiano Ronaldo? O que é a verdade dele? Quais são as suas razões? Repare-se: ele até pode estar a dizer que compreende e aceita como perfeitamente legítimas as decisões de Jorge Jesus, mas que se sentiu magoado, enganado, traído, desapontado, triste, desrespeitado; e que reagiu por impulso, como é tão, tão humano acontecer.
Vão surgir várias verdades: oficiais e oficiosas; formais e informais; de especialistas e de adeptos de bancada.
Quero falar no contexto e nas condições actuais porque o desafio e as exigências da tolerância se espoletam precisamente, na maioria dos casos, em ambientes de grande intensidade emocional, quando os sentimentos e as emoções facilmente cavalgam por cima dos raciocínios frios e obnubilam a capacidade de reflectir e decidir.
É precisamente quando as emoções estão mais ao rubro, quando o pensamento e as decisões estão mais invadidos pelas emoções fortes e intensas, ou mais dependentes delas, que os diferendos, as desinteligências e os confrontos pedem atitudes e comportamentos de tolerância.
Factual, factual é a condição de Jorge Jesus, enquanto seleccionador, ter pegado na equipa para a preparar a muito curto prazo, para jogos a valer, dos que dão pontos, classificam ou põem de lado as equipas. Mesmo tendo ele tido o cuidado de escolher maioritariamente jogadores com os quais já tinha trabalhado, não é fácil. Oiçam-se os testemunhos, precisamente de agora, de alguns jogadores a falarem sobre as diferenças entre jogarem nos seus clubes ou na selecção, mesmo com colegas da equipa em que jogam todo o ano!
Os adeptos do futebol — que são, em todo o mundo, os que alimentam a riquíssima indústria do futebol e permitem ordenados altíssimos a jogadores, treinadores, dirigentes desportivos, agentes de futebol, comentadores desportivos, etc., etc., etc. — pressionam para que as suas equipas ganhem. Nem sequer é para que joguem, é para que ganhem. E os jogadores estão sempre a dedicar as vitórias aos adeptos ou a pedir desculpa aos adeptos.
Jorge Jesus, bem ou mal, na pressa em que bem sabia ter-se metido, quis dar vitórias aos adeptos. Quis e deu. Com pressas, com dúvidas, com a natural exigência desportiva de ter de experimentar, não obstante o conhecimento profundo de pelo menos metade dos jogadores da selecção. Com decisões eventualmente atabalhoadas, a que obrigou a realidade dos jogos e das outras selecções, já que o futebol não é um jogo de sentido único. Só nos matraquilhos não se pode mexer na estrutura da equipa e, mesmo nos matraquilhos, às vezes tenho dúvidas…
Antes dos jogos, que factos aconteceram? Não disse Cristiano Ronaldo que Jorge Jesus era a escolha perfeita para a selecção nacional? Não disse Jorge Jesus que Cristiano Ronaldo tinha um estatuto especial na selecção?
Parece-me que a senhora do mercado de Viseu que ouvi hoje de manhã, entrevistada em directo num dos canais noticiosos, tem toda a razão: é uma garotada entre duas pessoas que são homens feitos e que se deviam portar doutra maneira.
A partir daqui, tudo parece… tudo é nebuloso… tudo é diz que disse… E dizem-nos, então, que a verdade virá depois. Pois sim…
Os factos que eu gostaria de ter visto (É quase um «I have a dream!»):
- Cristiano Ronaldo, no final do jogo contra a Noruega, ir junto de Jorge Jesus e cumprimentá-lo; a seguir, ir junto dos colegas de equipa e abraçá-los; depois, ir com os colegas junto dos adeptos e saudá-los. Se o tivesse feito, CR7 redobraria as razões por que eu tantas vezes disse bem dele aos meus alunos e a colegas em acções de formação.
- Jorge Jesus dizer na conferência de imprensa após o jogo qualquer coisa deste género: «Eu hoje fui muito mauzinho para o Cristiano Ronaldo e ele teve muita paciência comigo; pedi-lhe uma coisa, ele anuiu, e depois eu fiz outra. Foi a dinâmica dum jogo muito difícil que me levou a fazer o que fiz, e também a não fazer o que lhe tinha dito que provavelmente ia fazer. Assim que eu saia daqui, vou ter com ele, vou-lhe pedir desculpa e vou agradecer-lhe o notável exemplo de grande capitão.»
Houve luta de egos? É tão fácil falar assim!...
O que não houve seguramente foi tolerância. Repito: o que não houve foi tolerância.
Se um e outro erraram num primeiro momento, tiveram depois pelo menos mais um momento para aparecerem um ao lado do outro a mostrarem, sem que nenhum deles perdesse a face, como se resolvem, sob a grande pressão de quatro jogos importantes em onze dias, sem treinos para ver o que pode dar melhor, os problemas entre sujeitos de grande estatuto desportivo, que estão ali, ambos!, para servir a equipa, o país e os adeptos que os elevam

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