quinta-feira, agosto 16, 2012

Parabéns a António Nobre, à beira do mar

http://www.gutenberg.org/files/27535/27535-h/27535-h.htm
Hoje seria o dia de aniversário de António Nobre.
Fernando Pessoa, a fazer fé nas suas notas autobiográficas, leu o "Só" aos 18 anos de idade. Num dia leu metade e no dia a seguir acabou.
Num texto que é publicado pela primeira vez em 1915 (tem, portanto, 26 ou 27 anos de idade), Pessoa diz que "De António Nobre partem todas as palavras com sentido lusitano que de então para cá têm sido pronunciadas. (...) ele foi o primeiro a pôr em europeu este sentimento português das almas e das coisas, que tem pena de que umas não sejam corpos, para lhes poder fazer festas, e de que outras não sejam gente, para poder falar com elas. (...) Quando ele nasceu, nascemos todos nós." (http://arquivopessoa.net/textos/3119)
Filho da brisa que soprava do mar, fascinado pela lonjura prateada do horizonte que o poente lhe trazia, António Nobre, várias vezes cantou o mar, prendeu-se por ele, pelas suas fainas, e pela sua história:


Quisera ser um grande marinheiro, 
Um novo astro entre os milhões de sóis! 
Ser de Albuquerque um filho aventureiro, 
Pertencer à família dos Heróis! 
«Quisera ser um grande marinheiro», Leça, 1887


Um dia, ainda em 1887, António Nobre escreve assim a um amigo:


«Tens o mar, que é o melhor conselheiro depois de nossos Pais.»
«Ouve uma coisa que te digo: nunca te decidas sobre uma questão qualquer 
sem primeiro teres meditado nela à beira daquelas negras águas. Verás como 
aquele eterno runrum das ondas que se transformam a pouco e pouco numa voz 
deliciosa e amiga capaz de deitar a um canto a voz da Patti (…).» 

Todos nó somos produto das nossas circunstâncias, como falava Gasset das influências à volta das quais crescemos e nos fazemos. Também eu tenho fascínio pelo mar, também eu tenho memórias ainda vivas do seu cheiro intenso, húmido, na respiração da minha infância.
O que, todavia, me pergunto agora é qual é o mar do transmontano, do beirão ou do alentejano do interior? O mesmo conselho profundo, telúrico, a seguir ao dos Pais, estes buscarão também. A que "mar" vão eles buscá-lo?...
Muito bem, António, vinha eu apenas dar-te um abraço de parabéns e pus-me a divagar por estas coisas. Sabes que tenho um carinho especial por ti, sabes que, para mim, o Manoel e a Coimbra da tua carta é o Manuel e a Coimbra do meu pai.
Vá, um abraço de parabéns, António! Seguramente muitas mais vezes te procurarei em muitos mais aniversários - os teus, os meus, os do Manuel; e os do Mar.

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