segunda-feira, agosto 20, 2012

Kilimanjaro - 20 de Agosto de 2007, segunda-feira (2.º dia)


20 de Agosto de 2007, segunda-feira (2.º dia)


Programa proposto:
Day 2: Arusha – Manyara (120km about 2:30hrs)
After breakfast drive to Kiboko Tented Lodge for lunch, after lunch have a game drive in Lake Manyara National Park. Dinner and overnight at Kiboko Tented Lodge.
Nota: A bagagem para Zanzibar entrega-se à Rose. Recebe-se em Moshi

05h00. Somos acordados pelos apelos à oração feito pela voz metalizada esforçada que saía do altifalante da mesquita que, verificávamos agora, ficava ali mesmo do outro lado da rua.
06h00. Alvorada. Antes já praticamente todos nós apercebêramos de um pequeno tremor de terra; duas vezes o chão se sacudiu. Mais um brinde de boas-vindas à nossa chegada à Tanzânia. Pelo menos, um acontecimento com algum impacto. Como que para que consciencializássemos a natureza telúrica do espaço mágico que agora pisávamos. Na costa oposta da imensa massa continental africana, há séculos, o Adamastor aparecera à frente dos portugueses, a atemorizá-los, a pô-los à prova. Para que não falhassem no respeito que naquelas regiões era devido.
Não foi assim que interpretámos os sinais que o Kilimanjaro nos mandava. Pelo contrário, a montanha parecia contente de nos ter nela. E esforçava-se para que a conhecêssemos em todas as suas dimensões, esforçava-se para lhe sentíssemos as mais ínfimas pulsações. Chovia. Era uma chuva miudinha, muito cinzentona, como que para acentuar a ambiência telúrica.
07h10. Pequeno-almoço: sumo de maracujá, ovos mexidos, pão de forma, doce de goiaba, papaia, bananas (muito pequeninas) e melancia.
Saímos finalmente do hotel, em direcção ao escritório da ML Tours, onde recebemos as boas-vindas oficiais, a cargo da já cada vez mais nossa amiga Rose Shaidi, nosso principal contacto até ao momento. A Rosa conduziu um pequeno briefing de apresentação geral do programa de toda a estada. Após o briefing fizemos entrega de algumas lembranças ao pessoal da ML Tours, cuidando especialmente de dar destaque ao galhardete da JFSMO (Junta de Freguesia de St.ª Maria dos Olivais), a entidade que fez questão de apoiar a dimensão cultural e educativa da expedição ao Kilimanjaro. Deixámos ainda à guarda da empresa a bagagem de que não teríamos necessidade nos dois dias seguintes, nos safaris do Lago Manyara e da cratera de Ngorongoro.
Ainda em Arusha fomos trocar dinheiro (dólares por moeda local, os xelins tanzanianos) e o Fernando foi comprar um cartão local para fazer chamadas e tentar activar a Internet, o “Tigô”.
Fizemo-nos à estrada e o percurso, ao longo da estrada, não se coibiu de nos mostrar aquilo que queríamos ver: os primeiros vestígios das aldeias de cubatas africanas características da tribo Maasai.

Passámos pelo Kiboko Tented Lodge, onde iríamos pernoitar. Aí almoçámos e escolhemos os quartos para o grupo.
Cada uma das tendas tinha à entrada a figura de um animal selvagem que o identificava. Coube-nos o Leão, o Búfalo e o Leopardo. Os quartos eram simples, mas muito agradáveis e as camas eram totalmente rodeadas por redes mosquiteiras. Os geradores de luz eléctrica só funcionavam entre as 19h00 e as 23h00. A partir dessa hora, a selva cobria-nos com o seu manto negro e os animais nocturnos rodeavam-nos... Para nos proteger o descanso, claro!, não para que ficássemos temerosos.
Após o almoço fomos visitar o Parque Nacional do Lago Manyara. A pitada de sal, a aguçar o paladar, continuava. Uma operação de auto-stop, que ao princípio tivemos dificuldade em identificar enquanto tal, mas que a demora na troca de palavras e a acentuação dos semblantes do nosso motorista e de um dos polícia acabaram por nos fazer perceber que o que se estava a passar era sério e obrigou ainda à apresentação do Eliezer na esquadra local. Pequeno momento de tensão, a trazer-nos à ideia algumas imagens de televisão de procedimentos policiais sumários de alguns países de África. Aguardámos. Ao longe, de dentro do jeep, observámos o Eliezer a falar com o que parecia ser o polícia-chefe. Depois de uma breve troca de palavras, o nosso motorista-guia voltou. Estava tudo resolvido e poderíamos continuar o nosso caminho. Não fizemos mais perguntas.
A chuva manteve-se praticamente toda a manhã, tal como tinha acontecido durante a noite. Mas quando chegámos ao Lago Manyara, as condições atmosférias estavam nitidamente melhores.

Tema de jornada n.º x – O Lago Manyara, parque nacional da Tanzâzia
            Parece que Ernest Hemingway, que eternizou num conto as neves do Kilimanjaro (“… grande como um mundo, muito alto e incrivelmente branco à luz do Sol…”[1]) terá dito sobre o parque nacional de Manyara, O mais bonito que alguma vez vi em África”.
            O parque tem uma superfície de 330km2, 200 dos quais ficam cobertos pela água do lago na época do ano mais húmida. É considerado o local ideal para se tomar contacto com a tremenda diversidade de aves africanas. Num dia especialmente feliz, consegue-se observar pelo menos uma das quatro centenas de aves já identificadas nesta região magnífica.
            Geologicamente assume a importância de se constituir como a região que se estende na base do Vale do Grande Rifte, uma escarpa de 600m que se prolonga por dezenas de quilómetros.


            Praticamente logo ao início da viagem Parque adentro, o motorista-guia Eliezer chamou-nos a atenção para a árvore sagrada ali e noutras regiões africanas: o embondeiro, a árvore “de cabeça para baixo”, designação imposta pela imagem das copas nuas hiper-ramificadas. A tradição oral africana diz que um dia, depois da criação do mundo, foi dada uma árvore a cada animal para a plantasse. O embondeiro foi entregue à hiena, que, com a representação que a mesma tradição africana faz deste animal (que não abona muito a favor da sua inteligência), plantou a sua árvore assim mesmo, de cabeça para baixo.
O Eliezer não tinha - não podia ter - a noção da nossa costela histórica e cultural africana, donde quase geneticamente resulta um certo tipo de familiaridade nostálgica desta espécie arbórea. O embondeiro aparece frequentemente na prosa e na poesia da nossa literatura; nos relatos das experiências de vida trabalhosa, anos a fio, no Ultramar; nas histórias das guerras forçadas contra os movimentos de libertação das ex-colónias africanas; nas canções que os nossos trovadores trouxeram inspiradas na ambiência das savanas iguais à que era agora a nossa vez de percorrer, sentir e respirar. Mas não deixámos de olhar respeitosamente, e em silêncio, o embondeiro para que o guia apontava. Também não deixámos de guardar uma, e mais outra, e ainda outra fotografia, embondeiro a embondeiro.

São plantas que podem atingir troncos gigantescos, de 10m de diâmetro. Guardam água, e tudo nelas se aproveita. O tronco para a madeira, a casca para a produção de fibras e substâncias medicinais; as folhas, as flores e as sementes, para além dos frutos, são comestíveis.


O nosso safari confirma a grande diversidade de animais anunciada. O parque é realmente muito rico em vida selvagem, sejam os animais de grande porte (elefantes e hipopótamos, por exemplo), sejam as tais centenas de espécies de aves.
Há uma imagem que quase se impõe na memória de todos: é a das margens do lago marcadas por grandes manchas de flamingos e pelicanos, pontuadas aqui e ali pelos hipopótamos, em que todos parecem cooperativamente partilhar o potencial alimentar daquelas bordas lamacentas.

Nas estruturas edificadas na entrada do parque, criadas para receberem os visitantes, pudemos ler num dos cartazes:
As quatro famílias linguísticas mais antigas do mundo são todas africanas. Khoisan, Bantu, Nilo-Saharan e Cushitic. Todas estas famílias linguísticas estão representadas nas línguas que hoje em dia se ouvem na região do Lago Manyara. Muito perto dos locais onde os fósseis humanos mais antigos do mundo foram encontrados.
Mto wa Mbu ou “Rio do Mosquito” é a aldeia da diversidade cultural desta região para onde várias tribos convergiram e formaram uma mistura linguística composta pela maior parte das línguas tribais faladas na Tanzânia.

 Sim, pareceu-nos importante guardar registo de mais estes factos da dinâmica de intercâmbio cultural entre os povos. Eu sou eu e a minha circunstância, disse um dia José Ortega e Gasset. Por analogia, a afirmação também parece aplicar-se com propriedade a cada uma das realidades culturais específicas. No fundo, são os encontros circunstanciais de grupos de homens, em contextos geográficos determinados que promovem e consolidam a riqueza da diversidade intercultural. Quer dizer, durante séculos e séculos, foi predominantemente assim, independentemente até da forma mais pacífica ou violenta com que os povos se foram encontrando uns com os outros.
A alma do Kilimanjaro continuava connosco. Não poderíamos sair do parque sem que um frisson dos fizesse sentir na espinha, de alto abaixo, a natureza selvagem de África. Não, não estávamos a fazer a visita a um jardim zoológico, nem observávamos o espectáculo de uma realização cinematográfica a três dimensões. Não!... O elefante que se pusera ali à nossa frente, preenchendo completamente o caminho de terra batida, expectante, de grandes orelhas a abanar lentamente, de olhos fixados no nosso veículo e tromba balouçando à frente e atrás, sim!... era mesmo de carne e osso!... Ele não estaria ali em jeito de receber-nos de braços abertos… Foi um momento de ambiência bem selvagem… O Eliezer, muito mais conhecedor do que nós do que por ali acontecia, redobrou imediatamente de prudência e aprestou-se logo a fazer recuar o jeep... Da ideia passou à acção. O elefante avançou pelo espaço que lhe libertávamos à frente. Parecia manter o que nos também parecia ser uma atitude ameaçadora. Tivemos de recuar mais. Um pouco mais ainda. A distância entre nós e o elefante aumentava. Aproximávamo-nos já de uma curva mais acentuada. Demos algum tempo. A certa altura, o elefante parou e acabou por deixar o caminho, desaparecendo pachorrentamente pelo seu lado direito. O Eliezer resolveu avançar, com muita prudência. Lá estava ele, à nossa esquerda. O elefante arrancava folhas às árvores e alimentava-se. Parámos, mantendo o jeep pronto a arrancar a qualquer instante. Se o elefante nos permitisse, ainda lhe tiraríamos algumas fotografias.  Falávamos baixinho uns com os outros, fascinados ainda por aquela massa enorme do paquiderme, e deixando que o batimento cardíaco retornasse a pancadinhas de maior repouso.
A temperatura do dia andara estavelmente à roda dos 28º C. Mas, naquele instante, parecia que tínhamos sido tomados por um súbito salto ainda mais para cima no termómetro!...


17h45. Saída do parque nacional do Lago Manyara.
Levámos para lá a expectativa de ver e fotografar os leões trepadores. Mas acabámos por não os ver, risco a que está sujeito quem se entrega a observação “quase” naturalista da vida selvagem. O nosso guia comentou que o parque está agora muito empobrecido. Se assim era, interrogaram-se alguns de nós, como seria antes, quando o parque fervilharia em toda a sua pujança animal?... De facto, pudemos observar ainda muita coisa.
Regressámos ao Kiboko Lodge e relaxámos no banho. Ainda dispúnhamos de algum tempo, aproveitámo-lo dar um pequeno passeio antes de jantar, para abrir o apetite. Sabíamos já que na cozinha se confeccionava um prato especial expressamente preparado para nós. Era um prato típico com banana de sabor a batata, arroz e carne. Uns apreciaram mais que outros o guisado. Depois de jantar o responsável pelo Lodge relaxou também, o atendimento principal tinha sido feito e tinha corrido bem. Sentou-se ao pé de nós, fez-nos companhia, falou dele, da família, da escola, e do investimento pessoal que fez naquelas instalações turísticas. Cantaram-se canções e contaram-se histórias[2], tendo-se feito mesmo um pequeno registo digital de uma pequena canção sobre o Kilimanjaro.
No pequeno espaço exterior coberto, à entrada da sala do restaurante, um indivíduo novo tinha exposto no chão um conjunto razoavelmente variado de souvenirs, a que o grupo não foi indiferente. Olhámos, apetitosos, os artigos expostos, com a convicção, naquela ambiência de amizade que se estabelecera, que se poderiam adquirir os “verdadeiros” panos Maasai, que assim, à primeira vista, se parecem com qualquer coisa entre os panos de toalhas de mesa e os tecidos escoceses.. E – coisa não insignificante - adquiri-los a preço justo!


[1] Hemingway, E. As neves do Kilimanjaro. Lisboa, Editora Livros do Brasil, 2005, pág. 38.
[2] Ver Modos de vida e Temas de educação em Temas do Projecto Kilimanjaro e Educação.

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