terça-feira, agosto 21, 2012

Kilimanjaro - 21 de Agosto de 2007, terça-feira (3.º dia)


21 de Agosto de 2007, terça-feira (3.º dia)


Programa proposto:
Day 3: Ngorongoro Crater Tour (Ngorongoro–Arusha - 190km about 3:30hrs)
Depart with packed breakfast drive to Ngorongoro Crater for a half day Crater Tour.
Drive back to Kiboko Tented Camp for late lunch, after lunch drive back to Arusha for dinner and overnight at SINKA COURT HOTEL

Acordamos às 05h30, ainda era escuro e, claro!, o gerador eléctrico não funcionava. Tivemos de usar os frontais dentro da “tenda” para conseguir alguma orientação no escuro de breu. A Isabel, corajosa, conseguiu sozinha e no escuro chegar primeiro que todos ao pequeno-almoço. Só depois começou a alvorecer.
Às 07h35 partimos para a visita à Cratera do Ngorongoro. A manhã apresentava-se cinzenta, o céu ameaçava chuva, e à medida que íamos subindo para a boca da cratera o nevoeiro cerrava e não nos deixava ver a beleza da paisagem.
[Contar episódio do Luís, na recepção do Parque, em que perdeu a carteira]
[Contar episódio do miúdo americano que foi muito solícito para tirar uma fotografia ao grupo; mas que não deixou que o fotografássemos]
Logo depois, às 07h48, passámos o Ngorongoro Gate.
[Contar episódio em que o Fernando tentou mijar atrás de um arbusto e foi logo avisado pelo Eliezer]
O Eliezer explica-nos que “ngorongoro” é o nome do badalo das vacas dos Maasai. Quando começámos a descida para a cratera o tempo abriu e possibilitou-nos termos a noção da enormidade do espectáculo. No interior, a imensidão de uma planície gigantesca, a perder da vista, rica de animais, os mais variados, tal como ontem. Já se tem considerado que este local encerra a maior concentração de vida selvagem do mundo: inúmeras espécies de aves, predadores (como os leões, e as hienas), animais de grande porte (elefantes, rinocerontes, hipopótamos, búfalo africano), necrófagos (exemplo: abutres), manadas de herbívoros (gnus, zebras…), delicadas e ágeis gazelas, pitorescas famílias de javalis; e os impagáveis diversos grupos de macacos: ora dolentes, ora determinados, quase sempre divertidos.
Não é fácil, na circunstância destes safaris feitos à medida de pequenos grupos de turistas, observarem-se as imagens dos documentários especializados da National Geographic, que nos mostram a violência da predação e das relações bióticas entre as diferentes espécies animais. Eventualmente o acaso da sorte traz um desses momentos de espectáculo, mesmo que sem grande dramatismo. Mas às vezes com o dramatismo todo! Foi o caso, por exemplo, do que, algures, também em África, um pequeno grupo semelhante ao nosso pode testemunhar, que envolveu na luta pela água e pela sobrevivência, uma cria de búfalo, um grupo de leoas (que avançavam para a cria em caça organizada), um crocodilo (que irrompeu da água num ataque invisível e explosivo à mesma cria de búfalo); e ainda a manada de búfalos a que a cria pertencia, na hora em que os animais se aproximam dos charcos para matar a sede.
A cria, apanhada por uma das leoas, reagiu, esperneou, lutou pela vida; e a certa altura conseguiu mesmo escapar-se dos caninos da leoa que a prendia. Mas, ali à borda da água, cai logo presa nas mandíbulas ainda mais mortíferas do crocodilo. Continua a lutar, o pobre animal. Entretanto, os búfalos, que tinham começado por pôr-se em fuga ao primeiro ataque das leoas, eis que voltam! A leoa e o crocodilo disputam o infeliz, mas esforçado, pedaço de carne juvenil, à beira de esgotar as forças. Os búfalos voltam numa imagem impressionante. Estão todos cerrados uns contra os outros. Formam uma massa larga de patas poderosas e cornos ameaçadores. Resfolegam e reclamam o pequeno ser que lhes pertence. Quando seguramente já resistia com as derradeiras energias, a pequena cria – Oh, milagre! - consegue soltar-se das mandíbulas que procuravam impor a lei do mais forte. E eis que escapa!... no instante, no único pedacinho de tempo viável, suficiente para que naqueles corpos enormes colados uns contra os outros, que desenhavam uma impressionante força colectiva em movimento uníssono, não se sabe como, se abrir um buraco, por onde a cria, esgotada de tanto esforço merecedor de vitória – Sim, aquela cria ali ganhou o direito de viver!... –, entrou e se perdeu (ou melhor, se ganhou), no meio de tantos corpos iguais ao seu, solidários com ela, como todos gostaríamos de sentir muitas vezes da parte dos da nossa própria espécie.
Esta ocorrência está já há vários meses no site do nosso projecto, que tivemos a felicidade de conhecer por indicação oportuna da nossa amiga João Cordeiro, que segue, nos Estados Unidos, o projecto do Kilimanjaro desde a primeira hora.
            Almoçámos, por volta das 13h00, uma pequena refeição volante, que nos tinha sido fornecida no Lodge. Parámos o jeep junto a um pequeno lago repleto de hipopótamos. Foi o momento e o local em que nos confrontámos com a maior concentração de pessoas, turistas, na sua maior parte; e um grupo de estudantes e professores, certamente em visita de estudo. Ou seja, aquele local era como se fosse a estação de serviço em que o motorista de longo curso estaciona para a pausa de descanso, a meio da grande viagem.
Sem qualquer esforço, quase que por atracção natural, instintiva, o nosso grupo encontrou-se junto do grupo escolar; pouco depois, o Fernando falava já com os professores, completamente rodeado de alunos, que observavam tudo em grande silêncio, provavelmente sem perceber qualquer palavra trocada entre os seus professores e os professores que eles não sabiam que o eram também. A certa altura, trocavam-se moradas, e prometiam-se contactos futuros.
Não quisemos perder a oportunidade de contactar directamente com os alunos que, fardados, todos por igual, com a farda que o anfitrião, que na véspera cantou para nós, não pode comprar para os seus irmãos, por isso se vendo obrigado a tirá-los da escola[1], continuavam a olhar-nos em silêncio, não ousando qualquer gesto ou passo que pudesse ser alvo de censura de algum dos professores. Avançámos, então, nós para eles.
O Fernando levava, pendurado ao pescoço, o seu pequeno par de binóculos e apercebeu-se da curiosidade que os rapazes, que fixavam os olhos nesse pequeno equipamento pessoal. Tirou os binóculos do pescoço e estendeu-o para as mãos dos rapazes que estavam mais próximo. Eles esperaram ainda por um sinal dos professores que lhes permitisse aceitar o convite que o Fernando lhes estendia. Pouco depois, como nos habituámos a dizer na gíria da formação dos professores, “quebrou-se o gelo”. Os professores também queriam espreitar pelos binóculos. Disponibilizámos-lhes outros binóculos e, pouco depois, ouvia-se já a voz de muitos dos alunos; o Man’el e a Cristina assumiram a sua condição de professores e distribuíam, como podiam, indicações para o uso adequado dos binóculos. Estávamos encantados com o encanto das crianças por aquele bocadinho tão cheio com tão pouco!
O tempo não dava para mais. Tiraram-se fotografias, renovaram-se promessas de contactos futuros, desejaram-se felicidades no futuro e fizeram-se despedidas[2].

Depois de almoço, afinal, sempre fomos presenteados - fomos deliciosamente surpreendidos!... - com a tal cena “à la National Geografic”. Inclusivamente, tivemos a felicidade de a registar num pequeno documento vídeo[3]! Não houve, até agora, dia que esse espírito mágico do Kilimanjaro não nos presenteasse com alguma coisa que nos fizesse sentir ali como desejados e bem-vindos! Outro momento a trazer-nos a pitada que acentua o sabor da vida selvagem, na sua pureza e na sua espontaneidade.
Quando estávamos parados, fosse por que razão fosse, olhando, de pé, à volta, apareceu, no meio do capim, um pequeno felino, que deduzimos tratar-se de uma fêmea porque trazia pendurada na boca uma ainda mais pequena cria. As passadas eram firmes, mas o animal parecia deslocar-se em movimentos ziguezagueantes, como se não soubesse bem para onde quisesse ir.
Não identificámos o animal logo ao princípio. Só pouco de pois o Luís pôs o grupo a pensar no animal, identificando-o claramente: tratava-se de uma fêmea cerval. Hipotetizámos que a mãe procurava um lugar para pousar a cria em segurança. Pouco tempo depois de o animal atravessar o caminho mesmo à nossa frente, continuando, do outro lado, com o mesmo tipo de comportamento, vimos uma hiena aproximando-se de nós pelo mesmo caminho do cerval. Vinha devagar, de focinho empinado, farejando o ar. E acabou por atravessar o caminho bem perto do sítio onde, momentos antes, a mãe passou o filhote, à procura de esconderijo.

 Já tínhamos perdido o cerval de vista. Agora já só víamos a hiena. Finalmente, deixámos de a ver também. O jeep arrancou. Que terá acontecido depois, fora da nossa vista? Será que o filhote se salvou? Será que a mãe cerval conseguiu ludibriar a hiena faminta? Em nós ficará para sempre a dúvida. E sempre que gigantescas paisagens de Ngorongoro guardadas na memória voltarem ao nosso pensamento, virá também a imagem do pequeno filhote na boca da mãe, coruja a seu modo, como o instinto animal manda que toda a mãe de filhote seja. E, se calhar ainda com uma pontinha de ansiedade, a pergunta: será que a mãe conseguiu salvar o seu bébé?...
O relógio marcava 15h26 quando saímos do parque. Nesta altura, o dia estava lindo, cheio de sol.
          De regresso a Arusha, constatámos que dispúnhamos de tempo.
Primeiramente, tempo para procurar numa casa de comércio à beira da estrada, souvenirs Maasai, de origem de confiança, segundo as palavras do guia e motorista Eliezer. A seguir, tempo para outra paragem para “negociar” a compra de mais do verdadeiro artesanato Maasai,
Depois, quisemos tomar contacto mais de perto com as gentes locais, mesmo que isso não estivesse previsto na programação de actividades contratada com a agência. Insistimos com o Eliezer para parar numa das aldeias por onde passássemos. Diga-se, em abono da verdade, que não foi preciso insistir muito. Ele era uma pessoa delicada e dócil; e nós éramos um grupo cordato, de trato fácil e amigável. Ele só queria encontrar um local que fosse absolutamente seguro para os seus passageiros e para o próprio veículo. Pouco depois estávamos numa “esplanada” a beber uma cerveja.

A conversa fez-nos saborear o tempo. A certa altura, “coscuvilhávamos” o que à nossa volta as pessoas bebiam e comiam. Não deixámos de ser premiados no nosso esforço: acabámos por tomar contacto – o primeiro - com uma das especialidades gastronómicas locais em gastronomia – o ungali –, que um grupo de homens, certamente habitantes locais, comia numa mesa ao lado. Tratava-se de uma farinha branca que eles enrolavam com molho e pedaços de carne e comiam com visível prazer. Ficámos curiosos e desejosos de experimentar. Por isso, quando chegamos ao hotel – o mesmo do primeiro dia – resolvemos experimentar a especialidade já nessa mesma noite. Provámos ungali com carne de porco, de galinha, com bife, com peixe, etc. Foi uma novidade; agradável para uns, sensaborona ou decepcionante para outros.
De qualquer maneira, o dia ficou ainda marcado por duas outras ocorrências merecedoras de relato.
A primeira, aconteceu por volta das 17h40. Já em estrada asfaltada, num longo pedaço de recta que subia lentamente, uma, depois outra; e finalmente uma terceira girafa, atravessaram, no seu passo característico, a estrada, lá quase no topo da lomba. Em contra-luz, os corpos esguios em passada lenta e cadenciada, desenhavam figuras negras que se moviam contra o alaranjado cada vez mais forte que vinha dos lados do monte Meru, deixando-nos presos do fascínio daquele quadro belo e inesperado.
A segunda ocorrência fez-nos registar no caderninho de apontamentos: 18h15. E conta-se em duas palavras: lá ao longe, a caminho de Arusha, surgia aos nossos olhos, magnífico, na silhueta que desenhava quase no horizonte pinceladas enérgicas de branco brilhante, o Kilimanjaro. Parecia que aparecia para nos perguntar: Então, que tal?... Gostaram das coisitas que vos preparei?... Sei onde vão amanhã. Força!... Vou ficar muito contente em ter-vos bem perto. Boa sorte! Que tudo vos corra bem!...


[1] Ver desenvolvimento deste tema em Modos de vida,
[2] Ver desenvolvimento deste tema em
[3] Ver anexo n.º x, ………………………………………

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