quarta-feira, novembro 05, 2008

Sobre a superioridade (?) da espécie humana

Estive hoje, ao final da tarde, na Fundação Calouste Gulbenkian, onde fui assistir à segunda conferência do ciclo "No caminho da Evolução", no âmbito da Exposição "A evolução de Darwin", comemorativa dos 200 anos do nascimento do "pai" da teoria da evolução das espécies.
A conferencista, Patrícia Beldade, fez uma apresentação muito harmoniosa e equilibrada, bem dirigida ao grupo dominante entre a assistência, alunos do ensino secundário. Gostei de ver tamanha plateia, com escolas de fora de Lisboa. De Valongo veio um grupo grande da Escola Secundária de Alfena. Espero que todos tenham aproveitado das duas horas de presença na Gulbenkian. Só que... já lá vamos.


O tema da conferência: "Evolução e Desenvolvimento: variações a dois tempos e muitas cores".
Como já disse, a conferência foi muito bem apresentada pela jovem investigadora portuguesa.
Já antes dela, um outro cientista (de quem não fixei o nome) fez uma muito agradável apresentação do livro "Evolução, história e argumentos".
Depois da apresentação da investigadora Patrícia passou-se a um período - amplo, por sinal, o que se saúda muito agradavelmente - de debate, perguntas e respostas.
Pois aqui é que a porca torceu o rabo!...
Então, Patrícia, fica-se perante uma plateia assim, sem uma folhinha de papel e uma esferograficazinha no colo?... Viu como se viu em dificuldade para se focalizar bem nas perguntas que lhe fizeram?... E reconhece que acabou por dar um exemplo pedagógico pouco conveniente, não é? Desculpe-me, mas a minha idade e a minha antiguidade em ofício idêntico ao seu responsabiliza-me por esta cordial chamada de atenção.
Os alunos cumpriram muito satisfatoriamente a sua obrigação, pondo perguntas sincera e esforçadamente saídas dos seus níveis de conhecimentos escolares, da sua generosidade adolescente típica, das cogitações próprias de espíritos prenhes de ideiais sociais e humanitários.
No meu entender, as respostas lá foram calhando - e encalhando - de acordo com o pouco cuidado no registo das perguntas (não me leve a mal que insista neste ponto, não é minha intenção criticá-la), que, para que não falhassem, na sua maioria estavam já escritas e foram lidas, depuradas, sem redundâncias, dificultando a sua correcta percepção por quem lhes deveria responder. E em qualquer momento, qualquer pergunta empenhada e séria de um aluno é para ser tratada... "como se fosse a Poesia que nos visitasse". Como Sebastião da Gama escreveu que Miguel Torga lhe tinha dito: "Para ser professor, também é preciso ter as mãos purificadas. A toda a hora temos de tocar em flores. A toda a hora a Poesia nos visita."
As perguntas dos jovens têm a simplicidade, mas ao mesmo tempo a complexidade; e a ingenuidade, mas ao mesmo tempo a assertividade, próprias do pensamento em expansão que é da natureza essencial de todos os jovens.
Por duas ou três vezes foram colocadas questões claras e pertinentes sobre a superioridade da espécie humana em relação às outras espécies.
Hoje em dia, mais do que nunca, quando tanto - tão justamente! - é dito sobre a responsabilidade do Homem na destruição das condições de vida de todos os seres vivos e de todos os ambientes de vida no Planeta Terra, seguramente que intensos processos de dissonância cognitiva interferem nos raciocínios dos jovens quando, noutras perspectivas, lhes queremos - enquanto professores - passar-lhes a ideia de que o Homem é a espécie mais desenvolvida, é o ser superior, é o ponto mais alto da escala evolutiva. No fundo, directa ou indirectamente; velada ou claramente; intencional ou involuntariamente, no ensino está-se sempre a passar esta ideia.
Querida Patrícia - permita-me esta familiaridade, que me concedo amparado nos meus cabelos já com muito de branco - não basta dizer a estes jovens sedentos de apaziguamento para os seus raciocínios saudavelmente turbulentos e tortuosos, que Eu não penso assim.
Não tivesse sido o adiantado da hora, eu teria pedido para intervir para dizer qualquer coisa do género:
Isso de ser superior, tem a ver com um critério estabelecido arbitrariamente. Por exemplo, se se considerar superior a espécie que maior capacidade adquiriu para transformar o ambiente à sua volta e influenciar ou agir sobre as outras espécies, naturalmente que o Homem é a espécie superior. Mas se, noutra perspectiva, se considerar que o critério é a capacidade de adaptação ao meio, preservando-o, não o pondo em perigo, bem assim como não pondo em perigo a sobrevivência da generalidade das espécies e dos habitats, então, neste caso, o Homem é quase seguramente a espécie "mais inferior". Há outros critérios possíveis, como muito bem me chamou a atenção a minha querida colega Eulália.
Pessoalmente, penso que respostas, mesmo que dadas de boa fé, que se conformem a simples opiniões pessoais, baseadas nos mais correctos e honestos argumentos científicos, não são respostas que respeitem o dinamismo do pensamento jovem, até quando eticamente pareça que se está a proceder bem.
Que respeitem e que libertem. As respostas que acabo de falar não libertam, antes, formam becos sem saída onde se desejariam estradas largas para percorrer e horizontes a vislumbrar.
Se dissermos aos jovens que a tal superioridade depende de critérios - arbitrários -; se msotrarmos alguns exemplos; e se lhes dissermos que podem criar os seus próprios critérios, deste modo sim, libertaremos e permitiremos a expansão dos seus pensamentos.

domingo, novembro 02, 2008

O abate das árvores da Eça de Queirós e a "Canção da manhã" dos índios Cherokee

No dia 29 de Outubro começou o abate de árvores na Escola. Para que se possa construir um novo edifício de salas de aula, mais acolhedoras e mais ricas de possibilidades do que as que temos agora.
Na noite de 29 para 30 publiquei no YouTube um pequeno vídeo que denunciava a minha tristeza do momento, apesar de conhecer as razões, e querer acreditar nas suas boas intenções.
No dia 30, a minha colega Isabela mandou-me um e-mail de apreciação do vídeo que, no eco empático da minha tristeza, a apaziguou e me fez sentir que vale a pena fazer coisas...
A Isabela acabou por publicar o vídeo no blogue da sua turma. Saúdo o blogue, que já visitei; e agradeço vivamente a publicação do meu vídeo.
Deixo-o agora aqui:

Deixo aqui também o link para o blogue do 9.º A da Eça de Queirós: http://aturmaa.blogspot.com/. Vale bem a pena faze lá uma visita.
Entretanto, nesta fase, que ainda é de "luto", como dizem os psicólogos clínicos, não posso deixar de pensar em algumas de referências que balizam o meu pensamento e a minha maneira de ver e de me dar com o mundo.
Por exemplo, Jane Goodall, que tenho numa gravura, na parede, bem junto à minha mesa de trabalho em casa. Ainda há dois dias a minha sobrinha Mariana me perguntou: - Ó tio, porque é que tens um quadro assim aqui, com uma senhora e um macaco?... Na gravura, Jane Goodall olha interrogativamente, em serena expectativa, um dos chimpanzés que estudou no Gombe, na Tanzânia. Jane procura no chimpanzé o segredo da natureza humana. Ela, em resultado da observação sistemática de 30 longos anos, e do enredo cultural e científico que subrepticiamente determinava o seu pensamento, tinha baptizado o chimpanzé com o nome de Freud. Simbolicamente. Bem significativamente. O quadro tem o nome de "Thinkers", Pensadores.
Penso também em Konrad Lorenz, que um dia escreveu que um dos pecados mortais da civilização [actual] era a devastação do espaço vital. Noutro lado, ele diz também que tanto a beleza do mundo natural, bem como a beleza do mundo cultural são necessários para manter o Homem espiritualmente são, como eu já disse algures neste blogue.
Os eucaliptos e os pinheiros deitados agora abaixo na Escola não faziam parte da natureza "selvagem" ou "natural" do local onde a Escola está implantada. Isso sim, da natureza domesticada pelo homem. Ora, domesticada não quer necessariamente dizer mau, ou menor. Esse é o grande desafio do Homem: o equilíbrio adequado entre a Natureza selvagem e a acção transformadora dos grupos humanos.
No mínimo, com este abate de árvores de porte e presença magníficos, vamos trocar um espaço de vida aberto por um espaço de vida fechado. Deixamos o contacto directo com elementos da Natureza, mesmo que distraído ou inconsciente, e ficamos de costas voltadas para as árvores e para o ambiente. Mais uma razão porque o novo edifício, razão de ser do abatimento das árvores, tem de justificar a sua construção.
Finalmente, sempre que os pensamentos e os afectos me levam de novo à Natureza, volto aos textos e às fotografias dos povos índios da América do Norte, que tão magnificamente souberam estar na Natureza e dela falar. Antes que os pecados mortais da "devastação do espaço vital", da "competição contra si mesmo" e da "rotura com a tradição", entre outros, sobre eles se abatessem.
Em homenagem destes povos nativos, de que já aqui também falei, e como que procurando neles e na magia da manhã - de todas as manhãs - a força da esperança de que vale a pena ser optimista, aqui deixo um belo testemunho, que, hoje em dia, a Internet tão facilmente põe ao nosso alcance.
E em homenagem também aos alunos do 9.º A da Escola Secundária Eça de Queirós e da sua professora, e minha querida colega, Isabela.

Cherokee Morning Song (A beautiful Native American song)

sábado, setembro 27, 2008

O Paul Newman de Raúl Iturra morreu no dia em que reencontrei velhos amigos

Saí hoje para Abrantes, para um almoço de antigos alunos e professores da escola onde fiz o ensino preparatório e também o secundário.

Dos meus colegas de turma, apenas encontrei o Rui Coutinho, primeiro, e depois o António Neto. Claro que nos sentámos à mesma mesa e desfiámos lembranças de episódios que tivemos juntos na escola, perguntámos por colegas e professores. Pouco ou nada falámos de nós, agora, carecas ou de bigodes brancos. Dos tempos de agora, praticamente só falámos da caça do Rui e do Neto, entretenimento que descobrimos terem em comum, o Neto apresentando-se como caçador mais maduro (ou mais mentiroso, como se deve pensar sempre dos caçadores).

De volta a Lisboa, na viagem, revisitei o nosso encontro no extenso almoço, puxei ao pensamento as imagens que trouxemos uns aos outros. Afinal, imagens de gentes e acontecimentos que moldaram fortemente a pessoa que hoje sou.

Senti saudades dos cabelos loiros e encaracolados do Neto! O seu desaparecimento simbolizava, no instante em que o consciencializei, o irremediável da juventude que se perdeu para sempre. Mas senti que se poderia recuperar quase integralmente o "velho" Rui, assim a gente consiga fazer qualquer coisa com a grande barriga sedentária que ele deixou que o envolvesse. Quer dizer, simbolicamente também, afinal, de tudo o que se perdeu, coisas há que ainda se podem recuperar. E que terão eles pensado de mim?...

Cheguei a casa e, quando pude, fui ver o que tinha na minha caixa de correio electrónico. Lá estava um pequeno texto de Raúl Iturra, de homenagem a Paul Newman, que morreu hoje. Só por este texto o soube. Porque o Raúl o quis partilhar comigo.

Raúl Iturra fala dos personagens a que Newman deu corpo. Que marcaram… que o marcaram… que moldaram… que o moldaram… que simbolizaram e fixaram, pela própria ficção, comportamentos, gestos e pensamentos humanos.

Comparei os personagens de Iturra com os personagens (os meus antigos colegas de escola, e os professores) que desfilaram nos "filmes" que vi em retrospectiva quando voltava para Lisboa. O pequeno texto, escrito em inglês, se calhar, para que o próprio Paul Newman mais facilmente os possa ler e entender, fez-me tomar consciência da força que os personagens têm na formação das pessoas em que nos tornamos: se são reais (como os meus colegas de hoje), com eles construímos ficção que nos guia ou nos apazigua – ou que interrogamos; se são de ficção (como os homens virtuais de Newman), facilmente os deslocamos para as nossas realidades e os tornamos partes vitais das acções e dos comportamentos em que nos envolvemos.

Soube-me muito bem estar com os meus colegas de há mais de trinta anos atrás, trinta e muitos. Também por esse reencontro de hoje li as palavras de Raúl Iturra com um outro espírito e provavelmente com um entendimento mais autêntico do que ele escreveu sobre Paul Newman, o homem, o actor, os personagens.

É com a autorização e a gentileza do cidadão do Mundo, Raúl de seu nome, que aqui transcrevo integralmente o seu texto de homenagem a Paul Newman, com a sinceridade única do que é dito a quente, de coração aberto.

Paul Newman has passed away. Sad. However, no one can bring eternity into this earthly world. To my relief, he is not suffering anymore, either himself, extremely nice and faithful wife Joanne Woodward, as good as an actress as Newman was, descendents and friends. And the large mob of admirers he had all over the world. Friendly, serene, happy, friend of the poor. He is Exodus, he is Butch Cassidy, he is the writer, he is all the plays he performed, above all, he is Brick, he is Professor Michael Armstrong, he is Chance Wayne, as he is the sweet birth of youth. Paul Newman is force by his brilliant career, to live eternally as Hud Bannon and, above all, the father who knows how to teach as Eddie Felson. No need to cry, he lives in his pure soul and in the soul and feelings of Joanne Woodward. We, Portuguese, revere, respect, mirror on him.

Prof. Dr. Raúl Iturra

quinta-feira, setembro 18, 2008

Nas escolas portuguesas... Sinais dos tempos!

Os tempos, nas escolas portuguesas, fazem correr ventos de medos entre os professores: medo de estar, medo de falar, medo de fazer... corre-se sempre o risco de se cometer uma falha que marque a "avaliação" que pende sobre a cabeça, avaliação burocrática, complexa, ameaçadora. Teme-se ter iniciativa para qualquer coisa que possa não corresponder ao "amén" que se pressente que é a única coisa que se quer que os professores façam.
Um pequeno exempo, retirado de um canal de televisão generalista, no noticiário da hora do almoço, hoje:
A jornalista pergunta claramente à professora (eventualmente, com responsabilidades directivas na escola) o que acontece aos alunos que estão à espera de professores que ainda não foram colocados. Se ficam sem aulas.
A colega pensa, guarda para si uma pequena pausa e, diplomaticamente, cuidadosamente (eu digo: tristemente, ridiculamente), responde: "São encaminhados para o pátio."
Como se foge de palavras comprometedoras!... Como se dizer "Sim, ficam sem aulas... Pois, não têm aulas..." ou outra coisa qualquer fosse uma acusação contra quem superior determina e avalia desempenhos!... Ou então o reconhecimento de uma culpa que estaria nas mãos do professor ter-se evitado!...
Percebo a colega e, tanto quanto possa fazer sentido que o diga, estou solidário com ela.
Repare-se: um não-acontecimento, uma série de não-acontecimentos [a(s) aula(s) que deveria(m) ter sido dada(s), mas que não foi(foram)], por presumida, adivinhada, responsabilidade de o (ou a) inomonável [não vá ele (ou ela) "cair-nos" em cima, e lá se vai a avaliação, ou lá vem o processo disciplinar!...], em resultado dos caminhos tortuosos dos pensamentos e das falas de mentes aflitas, transforma(m)-se numa acção activa, "responsável" e criativa dos professores que devem estar sempre prontos - como determinam os regulamentos - para cuidarem dos alunos... Assim, em vez de as aulas não acontecerem, em vez de não lhes darem aulas, os professores... encaminham os alunos para o pátio!
Que mais se pode dizer, senhores?... O melhor é calarmo-nos, não é?... Se calhar, já falámos demais...
... ... ...

Há mesmo que dar a volta a este ambiente constrangedor, confrangedor e que nega o fim último de qualquer processo educativo: a formação de cidadãos sabedores, esclarecidos, responsáveis e capazes de iniciativas pessoais socialmente úteis.

No hay Rey, no tenemos quién nos gobierne, nos vamos a gobernar nosotros! Toda história tem uma realidade por detrás da verdade pública!

Recebo todos os dias um e-mail da Britannica Encyclopedia que assinala as datas, as efemérides que a evolução dos tempos foi juntando, digamos, na História da Humanidade. A Enciclopédia Britânica é um colosso de informação, sendo considerada por muita gente um dos maiores, se não mesmo o maior, depositário de conhecimento enciclopédico do mundo.

Por razões editoriais, ou por outras razões – lamentável seria por desconhecimento ou por desvalorização – não assinala, para o dia de hoje, o “grito do Ipiranga” do Chile. E se uso esta imagem é apenas para assinalar os anseios certamente idênticos e fraternos dos povos locais vizinhos relativamente aos poderes monárquicos e colonizadores de portugueses e espanhóis na América do Sul.

Devo a Raúl Iturra, uma vez mais, o acesso a um acontecimento histórico de repercussões muito sensíveis, e de grande impacto, numa área de dinâmica social a que, por empenho pessoal e profissional, tenho dedicado atenção especial: a interculturalidade, a relação entre os povos e o desenvolvimento da tolerância perante as diferenças pessoais e grupais.

Como já noutras vezes o fez, Raúl Iturra traz-nos um relato vivo, à maneira do jornalista repórter que vê os acontecimentos passarem diante de si e procura dar deles uma imagem imediata, que espelhe a vivacidade das ocorrências, sejam simultâneas, ou venham uma após outra. Aqui e ali junta um pequeno complemento informativo, que intui facilitarem ao leitor a compreensão do que está a acontecer, sem deturpações.

Iturra sacrifica alguma forma e gramática à expressividade vital e emocional das ambições de liberdade e de independência dos protagonistas dos acontecimentos.

O Chile, o povo chileno, os chilenos que amam profundamente o seu país de muito longe, como é o caso do nosso “jornalista repórter”, merecem que se grite de júbilo neste dia comemorativo. Que se grite tão alto que os autores da Enciclopédia Britânica se virem para o lado das vozes jubilosas, que sobem intensas lá do fundo, do outro lado do mundo, muito abaixo do Equador, e constatem a falha do seu conhecimento ou do seu registo; e que não queiram que, no ano que vem, alguém no mundo lhes aponte a mesma falha nas efemérides assinaladas para o dia 18 de Setembro.

Agora, finalmente, a palavra viva de Raúl Iturra, a quem, desde já endereçamos um imenso abraço, cheio de sincera fraternidade!

No hay Rey, no tenemos quién nos gobierne, nos vamos a gobernar nosotros!
Toda história tem uma realidade por trás da verdade pública!

Foram as primeiras palavras do Governador do, em esse tempo, 18 de Setembro de 1810, Reyno[1] do Chile. Era uma Colónia. Era parte das propriedades da família real da Espanha, um ramo dos Bourbón de Navarra, reino do Norte da Espanha de esses tempos. Mais tarde virão a ser dos Bourbón Orleáns, como é hoje, 198 após a Independência auto-proclamada do Chile. O Governador do Reyno, o Conde da Conquista, Mateo de Toro e Zambrano e Ureta bem sabia que, desde 1808, Napoleão Bonaparte tinha invadido o Reino da Espanha e colocado como Rei o seu irmão José, levando cativos a França o Rei Fernando VII e a sua mulher, a Infanta Maria Caserta de Bourbon-Sicilia, ao Castelo e cidade de Bayonne, um exílio dourado, do qual Fernando VII nem queria tornar: como em Portugal, era um Rei Absolutista e não queria liberais dentro das suas Cortes, esses Parlamentos impostos às Monarquias desde a Revolução Francesa de 1789. Mateo de Toro e Zambrano[2] sabia tudo isto, mas quis ignorar: estava confortável e cómodo no seu sítio de Governador, sem ter que lutar em guerras nem se aventurar em Cabildos[3], guerras e debates. Mas havia ambições entre as famílias mais antigas, com posses imensas e títulos nobiliários, como relato em outro livro meu: Para Sempre Tricinco. Allende e Eu. Essas família foram as promotoras do auto-governo e Mateo de Toro e Zambrano viu-se obrigado a invocar um Cabildo aberto, instigado pelos escrito do frade que o Primeiro Jornal Chileno instigou com os escritos de um redactor, jornal fundado em finais do Século anterior, pelo denominado frade da Boa Morte - mais uma vez não é gralha, é a ordem à qual pertencia o redactor, mais tarde director, o denominado Frade da Boa Morte, Camilo Henríquez [4].

Não é por acaso que este frade é nomeado dentro do texto. Foi quem instigou ao Governador para abrir um Cabildo, por meio dos seus sermões e textos do jornal referido, exaltando aos patriotas que queriam independência a solicitar essa convocatória. Os revolucionários de famílias antigas, como José Miguel Carrera, José Luis Carrera e a sua Irmã Javiera, famílias antigas e de poder, estavam fora do Chile ao ser convocado o Cabildo. De imediato apareceram em Santiago, a capital, e em conjunto com outro patrício revolucionário, o denominado patriota Manuel Rodríguez Erdoiza, já Deputado do Primeiro Congresso Chileno. Os dois criaram a primeira bandeira do Chile, o primeiro hino nacional e a primeira Constituição, tudo a seguir a um golpe de Estado contra o Governo Eleito por sufrágio dos mais poderosos. No Jornal Aurora de Chile, foi publicado ao detalhe os acontecimentos do 18 de Setembro[5]. José Miguel Varrera estava na guerra da Espanha contra Bonaparte, tornou rapidamente ao Chile, organizou com o seu grande amigo Manuel Rodrígues um batalhão, “Los húsares de la Muerte” e derrubou o Presidente da Junta Superior de Governo, Juan Martínez de Rozas, pacífico cidadão e patriota, para passar a ser o ditador do Chile, com o Título de Presidente da República, derrubado mais tarde pelas forças encabeçadas pela família Jaraquemada, tornou a atacar em 1813, auto-designou-se outra vez Presidente, até cair perante as forças patriotas encabeçadas pelas família Pérez, Infante e Eyzaguirre, todos eles depostos ao lutar uns contra os outros pelo poder, até que em 1814 a Coroa Espanhola tornou às mãos de Fernando VII Bourbon, derrotada finalmente em 1818, pelo novo Brigadeiro Bernardo O’Higgins, na batalha de Cancha Rayada, ao sul de Santiago do Chile, com a colaboração inacreditável das forças de mais nova República de Argentina. Lideradas pelo General José de San Martín, derrubado em Buenos Aires mais tarde ao querer se auto-proclamar Imperador da Argentina e exilado para Paris, onde faleceu. José Miguel Carrera e os seus irmãos José Manuel e José Luis foram, fuzilados na Argentina, enquanto se preparava um Exército Libertador do Chile. Apenas ficou viva a irmã, lembrada como uma grande patriota hoje em dia, Doña Javiera Carrera. Após ter ganho o Chile para os Chilenos, o Brigadeiro O´Higgins passou a ser Director Supremo, até que pelas suas imprudências, assassinatos de patriotas, como Manuel Rodríguez, e uma má Constituição, foi-lhe solicitado pelo Congresso abandonar o cargo e se exilar do Chile. Após criar a nacionalidade denominada Chilena em 1929, anunció a sua visita ao Congresso, onde se demitira e dissera: “Compatriotas, sé que no me quíeren acá. Me voy al Perú, que también liberté y me acepta. Les entrego el bastón y el mando”, y se fue. Todos os golpes e contragolpes foram sempre a 11 de Setembro, como é possível ler na História do Chile[6]. Uma histórica premonição!



[1] Não é gralha, é como se escrevia antigamente a palavra Reino em Castelhano antigo, em quanto em Portugal era a Pessoa Sagrada do Rei. Mudam os tempos, mudam os costumes e as palavras. Para Portugal, esta citação: O mais importante tratado, pelo seu carácter lesivo a Portugal, foi o de Methuen, assinado em 1703, em pleno início da mineração no Brasil. O tratado possuía apenas dois artigos:
Artigo 1º. Sua Sagrada Majestade El Rei de Portugal promete, tanto em seu próprio Nome, como no de Seus Sucessores, admitir para sempre de aqui em diante, no Reino de Portugal, os panos de lã e mais fábricas de lanifício de Inglaterra, como era costume até o tempo em que foram proibidas pelas leis, não obstante qualquer condição em contrário.

[2] Mateo de Toro Zambrano y Ureta (o de Toro y Zambrano, como se escribe en muchos registros históricos) (Santiago de Chile, 20 de septiembre de 1727 - † 26 de febrero de 1811), Vizconde previo de la Descubierta, I conde de la Conquista, Caballero de la Orden de Santiago, Gobernador de Chile 1810-1811, militar criollo chileno y presidente de la primera Junta de Gobierno de Chile.

[3] Cabildo é uma reunião de notáveis que acompanham a pessoa governante para decidir o quê fazer em momentos de mudança o para votar uma decisão importante. Normalmente composto pelos homens das famílias mais antigas e de mais patente hierárquica e muita riqueza. As minhas palavras. Há também uma definição mais oficial: Consistía en la reunión de la parte más "sana" y principal de cada población, convocada por el cabildo ordinario, que la presidía, para tratar asuntos de grave importancia. La reunión solía celebrarse en el recinto del cabildo o en alguna iglesia.
Los cabildos abiertos atribuían a la parte representativa de la ciudad el derecho a deliberar sobre cuestiones que por su naturaleza requerían una solución extraordinaria. Las personas convocadas eran designadas por el cabildo invitante sin intervención del pueblo y constituían la aristocracia local; pero, con todo, la circunstancia de llamarlas para deliberar con el cabildo ordinario daba a estas asambleas un carácter más democrático, em: http://es.wikipedia.org/wiki/Cabildo_abierto#Cabildo_Abierto

[4] Camilo Henríquez, da ordem dos Camilianos que ajudavam a morrer bem, foi Presidente do Primeiro Senado do Chile e perseguido pela Inquisição pelos seus escritos subversivos. Religioso y político chileno. Religioso de la Orden de los Camilos, fue perseguido por el Santo Oficio a causa de sus ideas ilustradas. Apoyó a los independentistas chilenos, fue elegido diputado y en 1811, en un sermón pronunciado en la catedral de Santiago, reclamó la independencia de la patria chilena. A través de sus periódicos, La Aurora de Chile, el primer diario nacional chileno, y El Monitor Araucano, difundió el pensamiento liberal y apoyó la independencia de su país. En 1812 escribió El catecismo de los patriotas, donde realiza una vigorosa defensa de la libertad y la razón frente al despotismo, la superstición y la ignorancia. Retirado do meu saber e de: http://www.biografiasyvidas.com/biografia/h/henriquez.htm

[5] EL CABILDO ABIERTO DEL 18 DE SEPTIEMBRE DE 1810 fue un éxito resonante, y sus organizadores se restregaban las manos con regocijo. Todos los acuerdos se tomaron por unanimidad, y hasta los nombramientos de los dos últimos vocales de la Junta Provisoria de Gobierno fueron hechos por mayorías abrumadoras, sin que se notasen voces discordantes, especialmente después de los elocuentes discursos de Argomedo y de Infante. El tímido llamado a la reflexión que intentó hacer don Manuel Manso, cabildante más timorato que realista, fue acallada a las primeras frases por la vociferación general de: '¡Junta queremos! ¡Junta queremos!', artículo de La Aurora de Chile, retirado do livro de Ismael Espinosa V.
Artículo publicado en su libro "Historia secreta de Santiago de Chile", en el cual escribe sobre las medidas y actuaciones del Cabildo Abierto de 1810. http://www.auroradechile.cl/newtenberg/681/article-2325.html

[6] O Presidente da República do Chile é ao mesmo tempo o chefe de estado e de governo do Chile e também a máxima autoridade política. Ele é eleito por voto popular e seu mandato dura quatro anos, sem a possibilidade de reeleição imediata.
De acordo com a Constituição, o Presidente tem o dever de desempenhar fielmente seu cargo, manter a independência da nação e defender e fazer ser defendida a Constituição e as leis, tal como determina o juramento que ele presta antes de assumir suas funções.
A sede presidencial é, desde 1845, o Palácio de la Moneda ("Palácio da Moeda") na capital Santiago.
A lista dos Presidentes pode ser lida em:
http://dicionario.sensagent.com/presidente+do+chile/pt-pt/

sexta-feira, setembro 12, 2008

Encapuçados ou encapuzados

Se a frequência de notícias nos meios de comunicação social é um bom indicador da realidade, então está-se em Portugal perante uma onda de assaltos (à noite ou em plena luz do dia; com armas de fogo ou sem elas; fazendo e não fazendo reféns; na via pública, a cidadãos desprevenidos, ou a estabelecimentos comerciais de portas abertas ou já trancadas; com carjacking ou a pé...) como nunca antes.
Lamentavelmente, os governantes e os demais políticos principescamente instalados (e governando-se...) no sitema de condução da coisa pública desdobram-se em espectáculos televisivos de controlos de entradas e de saídas de locais da vida nocturna e da vida diurna; fiscalizam papéis, mandam soprar no balão, passam multas; procedem à detenção de um ou outro indivíduo e apreendem uma ou outra arma de fogo, mantendo-se por localizar centenas de milhares de armas, como já foi publicamente admitido. Chega a roçar a imbecilidade, tudo isto!...
Tristemente, nesta "brincadeira" de polícias e ladrões, só uma vitória, só uma mudança parece ter-se consolidado definitivamente: já ninguén diz assaltantes "encapuçados", já todos dizem que os ditos gatunos estão "encapuzados".
O mérito parece que terá de ser atribuído à experiência social que se impôs (tanto roubo!... tanto capuz, pois então!...) e ao minuto dedicado pela RTP1, todos os dias, de manhã, bem cedo, aos erros mais comuns da língua portuguesa.

quinta-feira, setembro 04, 2008

O 11 de Setembro de 1973 de Raúl Iturra

O 11 de Setembro de 2001, com a tragédia que toda a gente, em todo o mundo, pôde acompanhar em directo, através da televisão, ganhou o efeito de absorvência que a ciência de divulgação corrente atribui aos buracos negros celestes, que apanham, absorvem tudo o que entre dentro da esfera da acção das suas forças internas e nelas se perdem para sempre. De 2001 até agora, a cada novo 11 de Setembro, praticamente mais nada existe senão a memória desse dia infeliz e vergonhoso para a cultura humana, essa cultura que desde há milhares de anos tem procurado acrescentar tolerância e entendimento entre todos os homens.
Mesmo que o poder de absorvência possa estar a entrar em fase de redução da sua intensidade, provavelmente, enquanto Bin Laden continuar a estar na primeira linha dos culpados dos acontecimentos do 11 de Setembro de 2001 e, em consequência, continuar a ser apontado como o inimigo número um da experiência política democrática dos países ocidentais (os EUA incluídos), o 11 de Setembro de 2001 impedirá que de outras coisas se fale e de outras experiências sócio-políticas se conserve memória.
Daí que seja com especial gratidão que abrace o Professor Raúl Iturra, que amavelmente me trouxe a partilha de uma memória especialmente sentida, formada a partir da sua própria experiência pessoal, vivida de corpo e alma, com inteligência e emoção, junto do seu País Chile, do seu Presidente Allende, do seu projecto político socialista latino-americano.
Redobro o esforço de pedir que se tenha presente que não se trata do texto de um estudioso universitário (que Raúl Iturra, afinal, também é), consultando livros, documentos e teses, mas sim de alguém que tem gravada em todas as células do seu ser uma experiência pessoal, social e política que deve fazer parte do património cultural e político de todos aqueles que um dia queiram ocupar-se – para verdadeiramente a resolver - da velha (mas sempre renovada) “questão social”, que assim tomou forma com o pensamento e os escritos de Marx e seus contemporâneos, no século XIX. “Como acabar com a enorme diferença entre ricos e pobres e com as vergonhosas desigualdades em matéria de saúde, educação e oportunidades de realização”, é essa a questão social de Marx, na síntese de Tony Judt.
Ainda antes de apresentar o texto de Raúl Iturra, quero deixar aqui um poema de Pablo Neruda, que é uma forma de lhe agradecer o pedaço de vida que quis partilhar comigo. Creio que Raúl Iturra vai apreciar o poema, se alguma coisa dele conheço, se consegui aprender o que lhe é caro.
Companheiro Raúl, aqui vai:

O teu riso
Tira-me o pão, se quiseres,
tira-me o ar, mas não
me tires o teu riso.
Não me tires a rosa,
a lança que desfolhas,
a água que de súbito
brota da tua alegria,
a repentina onda
de prata que em ti nasce.
A minha luta é dura e regresso
com os olhos cansados
às vezes por ver
que a terra não muda,
mas ao entrar teu riso
sobe ao céu a procurar-me
e abre-me todas
as portas da vida.
Meu amor, nos momentos
mais escuros solta
o teu riso e se de súbito
vires que o meu sangue mancha
as pedras da rua,
ri, porque o teu riso
será para as minhas mãos
como uma espada fresca.
À beira do mar, no outono,
teu riso deve erguer
sua cascata de espuma,
e na primavera , amor,
quero teu riso como
flor que esperava,
a flor azul, a rosa
da minha pátria sonora.
Ri-te da noite,
do dia, da lua,
ri-te das ruas
tortas da ilha,
ri-te deste grosseiro
rapaz que te ama,
mas quando abro
os olhos e os fecho,
quando meus passos vão,
quando voltam meus passos,
nega-me o pão, o ar,
a luz, a primavera,
mas nunca o teu riso,
porque então morreria.

Como que simbolicamente, Neruda, que desistiu da sua candidatura à presidência do Chile a favor de Allende, em 1970, morreu a 23 de Setembro de 1973, apenas 12 dias depois do golpe militar de Pinochet. De cancro na próstata. Simbolicamente, também?...
Neruda morreu como o nosso imaginário colectivo compôs também a morte de Camões, que morreu quando o Portugal das fantasias sebastianinas também morreu.
A palavra a Raúl Iturra:
Em breve devo partir fora de Portugal para acabar com uma doença que mata. Mortes é o que não queremos. São tantas ao longo da nossa vida! Apenas a nossa mata as outros: não estamos mais por aí para saber o que se passa.
Como esse 11 de Setembro de 1973.
Ouvi, como é habitual, as notícias das 7 da manhã, apenas marchas militares..
Por acaso, estava no Chile, país para o qual tinha sido enviado pelo meu Catedrático da minha Britânica Universidade de Cambridge, Sir Jack Goody, para entender o que era o que se pretendia com a via chilena para o socialismo. Até onde eu saiba ou me lembre, os socialismos de ideologia materialista tinham sido conquistados pela luta armada. Como na Rússia de 1911, como na Cuba de 1959.
O que o democrata Presidente do Chile, o Dr. Salvador Allende pretendia era uma redistribuirão da riqueza, acumulada em poucas mãos, entre todos os habitantes do país. Conquistou o poder por via do voto directo, em época de eleições normais, e a sua eleição foi ratificada pelo Parlamento Bicameral do País: a eleição tinha sido ganha por estreita margem de votos do segundo candidato, era preciso, por causa da Constituição de 1925, uma ratificação, ou não, da parte do Congresso pleno. O Dr. Salvador Allende Gossens ganhou com facilidade essa eleição. O Chile era, e tornou a ser, um país democrata, com uma longa história de respeito e cumprimento da lei. Houve imensas manipulações para impedir o acesso da Sua Excelência, como se diz no Chile aos Presidentes, sejam homens ou mulheres, como é o caso hoje, ou ao cargo de Presidente de todos os chilenos. Era também mau hábito das Suas Excelências, esse governar apenas para os seus apoiantes. Para votar, era preciso pensar com muito cuidado na personalidade do candidato. No caso do Presidente Allende, não havia dúvidas: tinha prometido governar para todos os chilenos. E fez por cumprir essa promessa. Retirou a riqueza do Chile das mãos de estrangeiros, como o Cobre, a maior riqueza dos seus proprietários da América do Norte, a Kenneth Copper Companny, e outras empresas das mãos dos britânicos, como o carvão, os tecidos de tweed; ou dos alemães, as terras das maiores estâncias do mundo, no Sul do Chile, a limitar com a Antárctida: milhares de hectares de terra usadas para criar ovelhas. Todo esse Produto Interno Gerado, o denominado Produto Interno Bruto ou PIB, ia para os estrangeiros. Os ricos do Chile viviam ou da terra ou dos rendimentos alfandegários de exportação da riqueza da nação, como disse Adam Smith em 1775: o pior negócio para uma nação.
O mais estranho era a raiva dos não proprietários com o novo Presidente. Não souberam entender, como, pelo contrário, nos dias de hoje tem feito Joseph Ratzinger ou Bento XVI, o texto
A Ideologia Alemã e a marcada tendência luterana de Marx nos seus textos e acções, imbuídos de uma grande solidariedade cristã. Solidariedade que não está na denominada fé, uma inteligência emocional, como diz Daniel Goleman, mas na acção descrita por Babeuf na França 1785, ou Sylvain Maréchal em 1795, ou Marx e Engels em 1848. Livros básicos para entender que somos todos iguais, livres e fraternos.
Salvador Allende terá lido o texto. Leu, entendeu e agiu. Mas os da confissão católica do Chile não entendiam as crenças cristãs de Marx e Engels, nem sabiam que agiam assim por solidariedade com os espoliados de sempre. A denominada bem-aventurança da caridade parece existir apenas para nós, os materialistas. Allende respeitava verdadeiramente a bem-aventurança da caridade, mas os cristãos não - excepto nós, os cristãos materialistas da Teologia de Libertação e do Movimento de Cristãos para o Socialismo, organizado no Chile a pedido de Fidel Castro na sua visita a Sua Excelência o Presidente. O respeito foi tão faltoso, que a 11 de Setembro de 1973 as Forças Armadas do Chile, instigadas pela CIA por ordem do derrubado Nixon e do Nobel da Paz Kissinger, mandaram matar uma pessoa que apenas tinha cometido um erro: dar a riqueza da nação à maior parte da população, que – compreensivelmente? - a não sabia gerir, começando assim o mercado negro dos produtos básicos.
O Senhor Presidente devia saber que para ter riqueza, é preciso saber gerir bens. Ao lhe dizer esta ideia, achou que eu tinha razão. Mas era tarde demais.
Nesse 11 de Setembro de 1973 ele foi bombardeado pelos Hawkers Haunters da USA e morto, e eu levado a um campo de concentração, julgado sem lei, torturado sem piedade, até Jack Goody - 4 anos de Auschwtichz - e o seu professor, e meu também, Meyer Fortes - 2 anos campo de concentração na África do Sul por judeu e anti-apartheid -, me resgatarem antes do fuzilamento.
Para meu prazer, o ditador que matou o Senhor Presidente morreu em processo penal como réu, faz poucos dias, e a sua família toda viu requisitados todos os bens roubados durante a ditadura, e passaram a ficar em prisão domiciliária ou pública.
Entretanto, como membro de Amnistia Internacional, sei que esse milhão que teve que sofrer, fugir, ou ser torturado, anda ainda por aí, como eu! Com prazer, porque Sua Excelência me ensinara a andar pelas largas avenidas por onde circula o homem livre. Muito obrigado, Senhor Companheiro Presidente!
Muitos devem lembrar-se desse 11 de Setembro de 2001, do World Trade Center, que eu também choro. Mas poucos do Presidente Democrata, Salvador Allende Gossens, hoje em dia mais um Pai da Pátria livre e soberana que o Chile é, pátria a ser governada pela filha do assassinado General Bachelet, fiel ao Companheiro Presidente até a sua morte. Quem manda no Chile é essa leal filha, socialista como o pai, como o Presidente e como muitos de nós, socialistas democratas que vamos sempre a eleições livres e directas. Trinta e cinco anos de sobrevivência, já com um legado de pessoas e experiências em todos os países da Europa, sítio desde o qual lembramos ao nosso Presidente.

quarta-feira, agosto 27, 2008

O "mal de altitude" do Fernando no Kilimanjaro

(excerto do livrinho a publicar)

O mal de altitude

Cada um dos elementos do grupo experimentou o mal de altitude à sua maneira. Daí termos considerado que seria interessante que cada um deixasse aqui o seu testemunho pessoal, falando sobre o que pessoalmente sentiu.

Fernando Pinto

Guardo uma viva memória de toda a ascensão, quase passo a passo. A vivacidade está na memória dos sons dos passos, dos momentos de maior esforço físico e dos de alívio do esforço; do serpentear do grupo encosta acima; da claridade fascinante do luar… Enfim, de tanta coisa!...
Fisicamente, senti-me bem durante toda a ascensão, nunca senti qualquer cansaço muscular, senão aquele que penso ser normal ter-se. Foi nesta ascensão que bendisse a preparação física que tinha feito durante os meses anteriores.
Subi sempre alerta para qualquer sinal de enjoo ou de vertigem e, em cada metro escalado, renovava a satisfação de me sentir bem, sem sinais do mal de montanha.
E assim foi até por volta dos 5200m de altitude. Por esta altura, como que caiu sobre mim abruptamente, sem se anunciar sequer de mansinho, uma sonolência que logo identifiquei: Cá está!... É o mal de montanha!... O mal de montanha chegara-me na forma de um sono tremendo!... Entretanto, a clareza de ideias mantinha-se intacta e completamente íntegra. Como disse antes, guardo uma memória muito clara, muito viva, também do longo período de sonolência que se abateu sobre mim. Era como se duas pessoas coexistissem dentro de mim em simultâneo. Eu tinha a consciência clara que não podia deixar-me adormecer. Sabia que teria de lutar contra o sono!... Mas a vontade de dormir era tão grande!... Lembro-me perfeitamente do guia António se colocar à minha frente e pedir-me carinhosamente para não dormir. Eu sabia que não deveria fazê-lo, mas até o simples facto de me imaginar ali deitado a um canto, enroscadinho, a dormir, me consolava e aliviava. Foi, na verdade, uma luta titânica comigo próprio, e foi talvez a satisfação constantemente renovada de me ver a vencer esta luta que permitiu que chegasse aos 5700m de altitude. Tenho também a certeza de que a constante consciencialização que procurava fazer do estado da minha condição física me ajudou decisivamente nesta luta: sentia-me sempre bem fisicamente, não sentia cansaço nos músculos, coisa que me entusiasmava muito. Não tenho dúvidas nenhumas de que a minha experiência do mergulho também me ajudou nesta altura. Sentia-me tão bem (àparte o sono, claro) que, de vez em quando, perguntava-me se não estaria a ficar delirante; sempre que podia, e como podia, era como se pedisse a todos os meus sistemas de verificação internos que me dessem dados actualizados da minha condição física e psicológica e, todos eles, em uníssono me dissessem: Continua, estás bem. Aguenta.
Nunca me passou pela cabeça desistir, eu sempre soube que chegaria ao topo. Curiosamente, nunca tive o mais pequeno indício de náusea ou de vertigem. Nas minhas condições, aquele sono parecia ser como que uma peça que não encaixava no conjunto harmónico que as outras partes de mim todas formavam. Que era uma sensação de sono terrível, pois não tenho dúvidas nenhumas. Que me obrigou a uma luta pessoal titânica para o contrariar, também não.
Eu tinha claramente consciência da presença dos meus colegas e dos guias e preocupava-me por eles, interrogava-me se estariam bem. Se tivesse sido preciso carregar com alguma das suas cargas, certamente o teria feito, pois – repito – fisicamente, muscularmente e respiratoriamente, sentia-me muito bem.
Quando chegámos a Stella Point e ouvi um dos guias dizer qualquer coisa do tipo “Chegámos”, lembro-me que olhei em frente, olhei em volta, vi uma razoável extensão de percurso plano, deixei de ver inclinações de terreno à minha frente para subir; e, subsequentemente, consciencializei que tínhamos atingido um topo. Só um pouco mais tarde consciencializei também que o sono, tão depressa tinha chegado, assim depressa ele também tinha desaparecido. E não voltou mais.
Pouco depois, como está registado neste diário de bordo, explodi num choro intenso e quase incontrolável de alegria olímpica por muitas coisas que naquele momento eu pensei... sim, eu tinha sido capaz de vencer algumas lutas vitalmente importantes antes de ali chegar. É verdade, no pico do Uhuru eu chegara à medalha da minha Olimpíada!
Quando retomámos a caminhada em direcção a Uhuru Peak eu estava quase eufórico, saltava, falava, brincava. Até que senti uma pequena náusea. Rapidamente consciencializei que, por causa daquela alegria toda, perdera a disciplina pessoal necessária para aqueles últimos metros. Sem dificuldade, recuperei essa disciplina e não voltei a sentir qualquer vertigem.
Apenas lamentei, depois, não poder ficar mais tempo “curtindo” bem aquele topo e as neves do Quilimanjaro, afinal, a razão primeira da minha adesão ao projecto desta aventura.

O Kilimanjaro foi há um ano! Que lindo foi!...

Faz hoje um ano que, tomando parte na aventura de cinco amigos e companheiros, cheguei ao topo do Kilimanjaro.

Temos tardado em pôr na forma, se calhar, de um livrinho, essa experiência extraordinária. Mas hoje, em jeito de comemoração, aqui deixo a forma que está a tomar o relato desse dia fantástico:

27 de Agosto de 2007, segunda-feira (9.º dia)

Programa proposto:
Day 9: Wake up very early, at around midnight, have some light tea with cookies, Start trekking to the summit, the Uhuru peak (5895m 8hours). Spend sometimes at the summit; Start descending to Barafu hut for lunch and some rest, then walk down to Mweka hut for dinner and overnight.

Dados da expedição para este dia:
· Ponto de partida: Barafu Hut (4600m)
· Ponto de chegada: Mweka Hut (3100m)
· Ponto máximo intermédio: Uhuru Peak (5895m)
· Progressão em altitude: 1295m; depois, descida de 2795m)
· Distância percorrida: 5km (até Uhuru Peak) + 12km
· Tempo de caminhada previsto: 7 horas + 5 horas (real: xxhxx)
Condições do dia:
· Nascer-do-sol: 06h06
· Temperatura: temperaturas negativas durante a subida (a água gelava nos tubos das bolsas de água)
· Condições de tempo: durante a subida a Uhuru Peak, noite muito fria, de céu limpo, praticamente lua cheia; sem vento. Durante a descida: céu com algumas nuvens, dia quente.
Nesta jornada decisiva, a hora de levantar calhou… na hora de deitar!... Às 23h30 do dia 26 estávamos prontos para a derradeira escalada. Bebemos um chá quente e partimos.

A jornada deste dia – dia 9
A partida, como combinado, foi (cronometricamente) à meia-noite. A Isabel saiu da tenda e foi despedir-se de nós e desejar-nos bom regresso. Não quisemos deixar de tirar uma fotografia, talvez esse registo pudesse deixar expresso o entusiasmo e o “nervoso miudinho” daquele momento.
Estava uma noite calma, de luar sem vento – uma bela noite!... - e, apesar do frio que se fazia sentir, a noite apresentava-se propícia à nossa actividade. A subida, bastante difícil foi-se fazendo muito, muito lentamente. Praticamente logo no início tivemos que vencer a dificuldade de um gigantesco rochedo, que testemunhava, na sua superfície lisa, as marcas da erosão pelos elementos do clima e também por muitos outros caminheiros antes de nós. Passámos depois a terreno pedregoso e com gravilha porosa e escorregadia. A progressão foi-se fazendo contornando as rochas, aqui e ali, traçando ziguezagues pela montanha acima.
Apesar do magnífico luar, íamos todos munidos de frontais e era visível o espectáculo das pequenas lanternas que, no escuro, à nossa frente e atrás, progrediam ao longo da montanha deslocando-se vagarosamente. A noite estava bela, mas, não obstante, não tínhamos a perspectiva dos espaços percorridos, nem das alturas a vencer. Por isso as pequenas lagartas serpenteantes de luzes frontais, que, atrás e à frente do grupo, desenhavam linhas brancas e amareladas sobre o fundo cinzento-escuro, adquiriram para nós uma importância vital: eram essas lagartas, feitas das luzes das lanternas frontais, que nos diziam de onde vínhamos e para onde seguiríamos.
À medida que subíamos, no constante passo lento e cadenciado, todos começámos a ser tomados pelo surgimento, primeiro, e agravamento, depois, dos sintomas do “mal de altitude”: náuseas, dores de cabeça, tonturas e uma certa sensação de desequilíbrio. Sentíamos mesmo que era fundamental conseguir evitar os movimentos corporais e respiratórios bruscos, e criar uma rotina ou automatismo individual de marcha, fosse ele a manutenção de uma passada cadenciada, como fez o Man’el; ou cantar para dentro, sempre e sempre, a mesma canção, como fez a Cristina. Estes "esquemas" funcionavam também como truques para que conseguíssemos não pensar na subida que ainda faltava, ou no que estava já para trás (que teríamos de voltar a percorrer, no regresso!...) e deixar a ascensão ir por si. Fomos parando, aqui e acolá, bebendo chá quente, que tinha sido trazido em thermos, por cada um de nós. Foi, na verdade, muito útil este chá, dado que a água dos “Camel back” mantinha-se em risco de gelar nos tubos que a traziam à boca. Depois de cada chupada de água, havia sempre que soprar a água que ficava no tubo para dentro do depósito, para que não gelasse completamente no tubo, e assim impedisse que se bebesse mais água. E o esforço de soprar bem a água de volta ao depósito fazia-se ressentir na disponibilidade física e respiratória de todos.
Cada paragem constituía-se num paradoxo: por um lado, era desejada por causa do cansaço que sentíamos; mas, em contrapartida, representava também um esforço suplementar a cada recomeço da caminhada.
A Cristina, desde muito cedo, sentiu que não suportava do peso da mochila e entregou-a ao Augusto, que seguia à sua frente. Tornou-se evidente que o Augusto – bem como o António – tinha observado, ao longo dos dias anteriores, o comportamento e as características de cada um dos elementos do grupo e agora tinha uma ideia clara do que poderia esperar de cada um de nós. Ele sabia que a Cristina teria de o seguir imediatamente na subida e, no nosso entender, foi notável a maneira como ele casou a sua passada com a passada da Cristina, durante toda a ascensão. A Cristina fez quase todo o trajecto de mão dada com este guia, que, silenciosamente quase, uma palavra aqui, outra ali, lhe ia orientando o caminho.
O Fernando, por volta dos 5200m, foi tomado por uma vontade de dormir terrível. Em cada paragem, parecia que ia finalmente fechar os olhos para um sono de horas. O guia António, sempre presente, sempre vigilante, sempre animado, aproximava-se dele e muito carinhosamente, mas também muito firmemente, pedia-lhe: - Fernando, please, don’t sleep!...[1] O Fernando olhava para ele, sorria ao António, dizia-lhe que estivesse descansado, mas a expressão dos olhos sonolentos dizia absolutamente o contrário. Tentava construir pensamentos que o enquadrassem ali de uma outra forma, com uma outra disponibilidade vigil, mas até o nome da montanha lhe falhava!... Ao pensamento, impunham-se os nomes Nicarágua, Aconcágua e outros… excepto Quilimanjaro!
O Luís, a cerca de um terço do final da subida, e por solicitação do guia António, entregou-lhe a mochila. Começava a ser visível algum desequilíbrio postural da sua parte e, por volta dos 5700m, teve um acesso de náusea violento e vomitou profusamente.
Finalmente, depois de uma noite de esforço tremendo, de sofrimento estranhamente indolor, chegamos ao Stella Point (5735mts), situado na orla do vulcão.
Os relógios marcavam 06h06. Que maior glória poderíamos nós querer naquela altura do que ali sermos recebidos e saudados pelo Astro Rei, que logo naquele instante nos presenteou e felicitou com a beleza espantosa da alvorada a romper a noite!?... Alvorada única e irrepetível. Como ninguém nunca antes tinha visto, nem alguma vez se verá. Claramente o Rei Sol esperou pelo grupo para magnificamente se mostrar, e meigamente fez guardar na memória futura de cada elemento do grupo o luar intenso que agora dava lugar ao brilho do sol, luar que, assim começámos a caminhar, connosco tinha ficado e nunca nos tinha deixado. Durante toda a ascensão, suavemente, o luar nos fora tocando pelas costas, montanha acima, incentivando-nos carinhosamente, passo a passo. É verdade... naquele momento, às seis horas e dez minutos do dia vinte e sete de agosto de dois mil e sete, estávamos já todos transformados em heróis escaladores pulsando miríades de emoções intensas!
Lembrando vivências pessoais dramáticas recentes, e claramente conscientes dos significados que pusera nesta expedição, o Fernando deixou que as suas emoções explodissem num choro de torrente selvagem, em que parecia querer, a cada lágrima soltada, limpar os olhos de maneira a que não perdesse pedacinho da beleza imensa à sua volta. A romântica Cristina também não resistiu à intensidade das emoções, depois que a subida praticamente a tivesse confrontado com o desafio do limite das suas forças físicas.
Bastou apenas que uma ou duas palavras de cada um deles os dois se encontrassem, e os olhares se espelhassem um no outro, para que o peito de ambos vibrasse convulsivamente, até à mais completa exaustão. Por razões diferentes, o feito já alcançado tinha um sabor de vitória pessoal muito especial.
A certeza bem gostosa de que faltava apenas o passo final levou-nos a pensar que dispunhamos agora de tempo interminável, o que fez com que ganhássemos vontade de preguiçar e ficar ali mais um bocadinho... e outro... e outro, fruindo a imensidão à volta. E tentámos o impossível: fixar em bits de informação fotográfica as cores, as luzes e o infinito espacial do nascer-do-sol que tão gentilmente aguardara que aparecêssemos para se mostrar.
De Stella Point até ao topo (Uhuru Peak) faltavam poucos metros para conquistar, de vez, o Kili. Poucos mas difíceis. E lentos. Obrigando ainda a um controlo pessoal muito rigoroso na gestão do esforço.
O avanço foi feito sobre gelo quebradiço nas partes mais finas, mas duro e bastante escorregadio noutras partes mais preenchidas. Quase todo o gelo que pisávamos desenhava covas de pés mais fundas que as marcadas na areia das praias, dificultando a progressão. Na areia, as marcas dos pés de outros modificam-se ao molde dos nossos pés, mas aqui, se as nossas botas não se moldam aos buracos rígidos onde pousam, corremos seriamente o risco de tropeçar e cair. Por outro lado, contávamos já com uma subida nocturna exigente, a mais exigente de todas. E havíamos atingido o máximo de rarefacção de oxigénio. Daí que os “poucos metros” que faltavam demoraram ainda mais duas horas a percorrer. Não valia a pena estragar a festa naquela altura. O nosso maior adversário naquele momento era a nossa própria euforia. De Stella Point a Uhuru Peak a altitude a vencer atinge quase os 200m.
Finalmente, o tecto de África (5895m). Às 08h42. Tirámos mais fotos para registar o feito para a posteridade. A esgotada carga da bateria viciada de uma pequena máquina de vídeo que levávamos connosco – bateria carregada praticamente uma semana antes, e que não resistiu àqueles dias de condições climatéricas exigentes – permitiu a gravação de minúsculos instantes, que agora podemos ver e ouvir (http://www.youtube.com/watch?v=Wr_lHKU3vc0) repetidamente. A paisagem era magnífica e pudemos finalmente contemplar as neves eternas do Kilimanjaro. O último vestígio de carga da bateria da máquina de filmar foi para elas.
[1] Ver capítulo sobre o “mal de altitude”, pág. xx.

domingo, agosto 10, 2008

Só Fórró... Que momento tão agradável!

Hoje foi um dia fantástico de mostra (Eu ia dizer "cultura popular", mas não digo; porque, na minha ideia, a noção de cultura popular está associada a uma cultura menor, que as culturas mais pensantes e eruditas toleram. Por isso direi...) capacidades humanas, de prazer de convívio, de celebração da ligação harmoniosa entre gentes de terra com o mar que as cerca. Foi na Horta, no penúltimo dia da Semana do Mar.
Vou direito ao assunto de agora. A seguir a ter gravado em filme imagens fantásticas de botes baleeiros a competirem (saudavelmente) entre si no Canal de Vitorino Nemésio e de tantas gerações de açorianos, a caminho de casa cruzei-me com um pequeno grupo de homens que tocava e cantava, parados à frente de um dos restaurantes de rua montados na avenida marginal da cidade, propositadamente para as festividades da semana, e assim animava e fazia sorrir quem à sua volta estava.
Meus queridos alunos (os que foram e os que serão), no pequeno acontecimento que vão ver a seguir, há alegria, há inteligência, há prazer no convívio social, há espontaneidade; e o seu contrário, a ritualização. São a espontaneidade e a ritualização que estão na base da (re)criação da cultura que consolida os laços e os afectos entre os membros das comunidades humanas.
As imprecisões do documento resultam do momento ter sido inesperado, não poder ser interrompido e repetido em replay; resultam também do fundo musical que vinha de um pouco mais longe daquele local, em que uma banda musical jovem, mais "pesada", estava a ensaiar e a experimentar as colunas de som potentíssimas para a sua actuação à noite; e resultam também da inabilidade técnica do autor das imagens.
Obrigado ao grupo Só Fórró, que todos poderão conhecer melhor clicando no título deste apontamento. Serão reencaminhados para o blogue do grupo.
Repito, muto obrigado ao grupo Só Fórró! Desejo-vos muitas felicidades no futuro!