quarta-feira, agosto 27, 2008

O "mal de altitude" do Fernando no Kilimanjaro

(excerto do livrinho a publicar)

O mal de altitude

Cada um dos elementos do grupo experimentou o mal de altitude à sua maneira. Daí termos considerado que seria interessante que cada um deixasse aqui o seu testemunho pessoal, falando sobre o que pessoalmente sentiu.

Fernando Pinto

Guardo uma viva memória de toda a ascensão, quase passo a passo. A vivacidade está na memória dos sons dos passos, dos momentos de maior esforço físico e dos de alívio do esforço; do serpentear do grupo encosta acima; da claridade fascinante do luar… Enfim, de tanta coisa!...
Fisicamente, senti-me bem durante toda a ascensão, nunca senti qualquer cansaço muscular, senão aquele que penso ser normal ter-se. Foi nesta ascensão que bendisse a preparação física que tinha feito durante os meses anteriores.
Subi sempre alerta para qualquer sinal de enjoo ou de vertigem e, em cada metro escalado, renovava a satisfação de me sentir bem, sem sinais do mal de montanha.
E assim foi até por volta dos 5200m de altitude. Por esta altura, como que caiu sobre mim abruptamente, sem se anunciar sequer de mansinho, uma sonolência que logo identifiquei: Cá está!... É o mal de montanha!... O mal de montanha chegara-me na forma de um sono tremendo!... Entretanto, a clareza de ideias mantinha-se intacta e completamente íntegra. Como disse antes, guardo uma memória muito clara, muito viva, também do longo período de sonolência que se abateu sobre mim. Era como se duas pessoas coexistissem dentro de mim em simultâneo. Eu tinha a consciência clara que não podia deixar-me adormecer. Sabia que teria de lutar contra o sono!... Mas a vontade de dormir era tão grande!... Lembro-me perfeitamente do guia António se colocar à minha frente e pedir-me carinhosamente para não dormir. Eu sabia que não deveria fazê-lo, mas até o simples facto de me imaginar ali deitado a um canto, enroscadinho, a dormir, me consolava e aliviava. Foi, na verdade, uma luta titânica comigo próprio, e foi talvez a satisfação constantemente renovada de me ver a vencer esta luta que permitiu que chegasse aos 5700m de altitude. Tenho também a certeza de que a constante consciencialização que procurava fazer do estado da minha condição física me ajudou decisivamente nesta luta: sentia-me sempre bem fisicamente, não sentia cansaço nos músculos, coisa que me entusiasmava muito. Não tenho dúvidas nenhumas de que a minha experiência do mergulho também me ajudou nesta altura. Sentia-me tão bem (àparte o sono, claro) que, de vez em quando, perguntava-me se não estaria a ficar delirante; sempre que podia, e como podia, era como se pedisse a todos os meus sistemas de verificação internos que me dessem dados actualizados da minha condição física e psicológica e, todos eles, em uníssono me dissessem: Continua, estás bem. Aguenta.
Nunca me passou pela cabeça desistir, eu sempre soube que chegaria ao topo. Curiosamente, nunca tive o mais pequeno indício de náusea ou de vertigem. Nas minhas condições, aquele sono parecia ser como que uma peça que não encaixava no conjunto harmónico que as outras partes de mim todas formavam. Que era uma sensação de sono terrível, pois não tenho dúvidas nenhumas. Que me obrigou a uma luta pessoal titânica para o contrariar, também não.
Eu tinha claramente consciência da presença dos meus colegas e dos guias e preocupava-me por eles, interrogava-me se estariam bem. Se tivesse sido preciso carregar com alguma das suas cargas, certamente o teria feito, pois – repito – fisicamente, muscularmente e respiratoriamente, sentia-me muito bem.
Quando chegámos a Stella Point e ouvi um dos guias dizer qualquer coisa do tipo “Chegámos”, lembro-me que olhei em frente, olhei em volta, vi uma razoável extensão de percurso plano, deixei de ver inclinações de terreno à minha frente para subir; e, subsequentemente, consciencializei que tínhamos atingido um topo. Só um pouco mais tarde consciencializei também que o sono, tão depressa tinha chegado, assim depressa ele também tinha desaparecido. E não voltou mais.
Pouco depois, como está registado neste diário de bordo, explodi num choro intenso e quase incontrolável de alegria olímpica por muitas coisas que naquele momento eu pensei... sim, eu tinha sido capaz de vencer algumas lutas vitalmente importantes antes de ali chegar. É verdade, no pico do Uhuru eu chegara à medalha da minha Olimpíada!
Quando retomámos a caminhada em direcção a Uhuru Peak eu estava quase eufórico, saltava, falava, brincava. Até que senti uma pequena náusea. Rapidamente consciencializei que, por causa daquela alegria toda, perdera a disciplina pessoal necessária para aqueles últimos metros. Sem dificuldade, recuperei essa disciplina e não voltei a sentir qualquer vertigem.
Apenas lamentei, depois, não poder ficar mais tempo “curtindo” bem aquele topo e as neves do Quilimanjaro, afinal, a razão primeira da minha adesão ao projecto desta aventura.

O Kilimanjaro foi há um ano! Que lindo foi!...

Faz hoje um ano que, tomando parte na aventura de cinco amigos e companheiros, cheguei ao topo do Kilimanjaro.

Temos tardado em pôr na forma, se calhar, de um livrinho, essa experiência extraordinária. Mas hoje, em jeito de comemoração, aqui deixo a forma que está a tomar o relato desse dia fantástico:

27 de Agosto de 2007, segunda-feira (9.º dia)

Programa proposto:
Day 9: Wake up very early, at around midnight, have some light tea with cookies, Start trekking to the summit, the Uhuru peak (5895m 8hours). Spend sometimes at the summit; Start descending to Barafu hut for lunch and some rest, then walk down to Mweka hut for dinner and overnight.

Dados da expedição para este dia:
· Ponto de partida: Barafu Hut (4600m)
· Ponto de chegada: Mweka Hut (3100m)
· Ponto máximo intermédio: Uhuru Peak (5895m)
· Progressão em altitude: 1295m; depois, descida de 2795m)
· Distância percorrida: 5km (até Uhuru Peak) + 12km
· Tempo de caminhada previsto: 7 horas + 5 horas (real: xxhxx)
Condições do dia:
· Nascer-do-sol: 06h06
· Temperatura: temperaturas negativas durante a subida (a água gelava nos tubos das bolsas de água)
· Condições de tempo: durante a subida a Uhuru Peak, noite muito fria, de céu limpo, praticamente lua cheia; sem vento. Durante a descida: céu com algumas nuvens, dia quente.
Nesta jornada decisiva, a hora de levantar calhou… na hora de deitar!... Às 23h30 do dia 26 estávamos prontos para a derradeira escalada. Bebemos um chá quente e partimos.

A jornada deste dia – dia 9
A partida, como combinado, foi (cronometricamente) à meia-noite. A Isabel saiu da tenda e foi despedir-se de nós e desejar-nos bom regresso. Não quisemos deixar de tirar uma fotografia, talvez esse registo pudesse deixar expresso o entusiasmo e o “nervoso miudinho” daquele momento.
Estava uma noite calma, de luar sem vento – uma bela noite!... - e, apesar do frio que se fazia sentir, a noite apresentava-se propícia à nossa actividade. A subida, bastante difícil foi-se fazendo muito, muito lentamente. Praticamente logo no início tivemos que vencer a dificuldade de um gigantesco rochedo, que testemunhava, na sua superfície lisa, as marcas da erosão pelos elementos do clima e também por muitos outros caminheiros antes de nós. Passámos depois a terreno pedregoso e com gravilha porosa e escorregadia. A progressão foi-se fazendo contornando as rochas, aqui e ali, traçando ziguezagues pela montanha acima.
Apesar do magnífico luar, íamos todos munidos de frontais e era visível o espectáculo das pequenas lanternas que, no escuro, à nossa frente e atrás, progrediam ao longo da montanha deslocando-se vagarosamente. A noite estava bela, mas, não obstante, não tínhamos a perspectiva dos espaços percorridos, nem das alturas a vencer. Por isso as pequenas lagartas serpenteantes de luzes frontais, que, atrás e à frente do grupo, desenhavam linhas brancas e amareladas sobre o fundo cinzento-escuro, adquiriram para nós uma importância vital: eram essas lagartas, feitas das luzes das lanternas frontais, que nos diziam de onde vínhamos e para onde seguiríamos.
À medida que subíamos, no constante passo lento e cadenciado, todos começámos a ser tomados pelo surgimento, primeiro, e agravamento, depois, dos sintomas do “mal de altitude”: náuseas, dores de cabeça, tonturas e uma certa sensação de desequilíbrio. Sentíamos mesmo que era fundamental conseguir evitar os movimentos corporais e respiratórios bruscos, e criar uma rotina ou automatismo individual de marcha, fosse ele a manutenção de uma passada cadenciada, como fez o Man’el; ou cantar para dentro, sempre e sempre, a mesma canção, como fez a Cristina. Estes "esquemas" funcionavam também como truques para que conseguíssemos não pensar na subida que ainda faltava, ou no que estava já para trás (que teríamos de voltar a percorrer, no regresso!...) e deixar a ascensão ir por si. Fomos parando, aqui e acolá, bebendo chá quente, que tinha sido trazido em thermos, por cada um de nós. Foi, na verdade, muito útil este chá, dado que a água dos “Camel back” mantinha-se em risco de gelar nos tubos que a traziam à boca. Depois de cada chupada de água, havia sempre que soprar a água que ficava no tubo para dentro do depósito, para que não gelasse completamente no tubo, e assim impedisse que se bebesse mais água. E o esforço de soprar bem a água de volta ao depósito fazia-se ressentir na disponibilidade física e respiratória de todos.
Cada paragem constituía-se num paradoxo: por um lado, era desejada por causa do cansaço que sentíamos; mas, em contrapartida, representava também um esforço suplementar a cada recomeço da caminhada.
A Cristina, desde muito cedo, sentiu que não suportava do peso da mochila e entregou-a ao Augusto, que seguia à sua frente. Tornou-se evidente que o Augusto – bem como o António – tinha observado, ao longo dos dias anteriores, o comportamento e as características de cada um dos elementos do grupo e agora tinha uma ideia clara do que poderia esperar de cada um de nós. Ele sabia que a Cristina teria de o seguir imediatamente na subida e, no nosso entender, foi notável a maneira como ele casou a sua passada com a passada da Cristina, durante toda a ascensão. A Cristina fez quase todo o trajecto de mão dada com este guia, que, silenciosamente quase, uma palavra aqui, outra ali, lhe ia orientando o caminho.
O Fernando, por volta dos 5200m, foi tomado por uma vontade de dormir terrível. Em cada paragem, parecia que ia finalmente fechar os olhos para um sono de horas. O guia António, sempre presente, sempre vigilante, sempre animado, aproximava-se dele e muito carinhosamente, mas também muito firmemente, pedia-lhe: - Fernando, please, don’t sleep!...[1] O Fernando olhava para ele, sorria ao António, dizia-lhe que estivesse descansado, mas a expressão dos olhos sonolentos dizia absolutamente o contrário. Tentava construir pensamentos que o enquadrassem ali de uma outra forma, com uma outra disponibilidade vigil, mas até o nome da montanha lhe falhava!... Ao pensamento, impunham-se os nomes Nicarágua, Aconcágua e outros… excepto Quilimanjaro!
O Luís, a cerca de um terço do final da subida, e por solicitação do guia António, entregou-lhe a mochila. Começava a ser visível algum desequilíbrio postural da sua parte e, por volta dos 5700m, teve um acesso de náusea violento e vomitou profusamente.
Finalmente, depois de uma noite de esforço tremendo, de sofrimento estranhamente indolor, chegamos ao Stella Point (5735mts), situado na orla do vulcão.
Os relógios marcavam 06h06. Que maior glória poderíamos nós querer naquela altura do que ali sermos recebidos e saudados pelo Astro Rei, que logo naquele instante nos presenteou e felicitou com a beleza espantosa da alvorada a romper a noite!?... Alvorada única e irrepetível. Como ninguém nunca antes tinha visto, nem alguma vez se verá. Claramente o Rei Sol esperou pelo grupo para magnificamente se mostrar, e meigamente fez guardar na memória futura de cada elemento do grupo o luar intenso que agora dava lugar ao brilho do sol, luar que, assim começámos a caminhar, connosco tinha ficado e nunca nos tinha deixado. Durante toda a ascensão, suavemente, o luar nos fora tocando pelas costas, montanha acima, incentivando-nos carinhosamente, passo a passo. É verdade... naquele momento, às seis horas e dez minutos do dia vinte e sete de agosto de dois mil e sete, estávamos já todos transformados em heróis escaladores pulsando miríades de emoções intensas!
Lembrando vivências pessoais dramáticas recentes, e claramente conscientes dos significados que pusera nesta expedição, o Fernando deixou que as suas emoções explodissem num choro de torrente selvagem, em que parecia querer, a cada lágrima soltada, limpar os olhos de maneira a que não perdesse pedacinho da beleza imensa à sua volta. A romântica Cristina também não resistiu à intensidade das emoções, depois que a subida praticamente a tivesse confrontado com o desafio do limite das suas forças físicas.
Bastou apenas que uma ou duas palavras de cada um deles os dois se encontrassem, e os olhares se espelhassem um no outro, para que o peito de ambos vibrasse convulsivamente, até à mais completa exaustão. Por razões diferentes, o feito já alcançado tinha um sabor de vitória pessoal muito especial.
A certeza bem gostosa de que faltava apenas o passo final levou-nos a pensar que dispunhamos agora de tempo interminável, o que fez com que ganhássemos vontade de preguiçar e ficar ali mais um bocadinho... e outro... e outro, fruindo a imensidão à volta. E tentámos o impossível: fixar em bits de informação fotográfica as cores, as luzes e o infinito espacial do nascer-do-sol que tão gentilmente aguardara que aparecêssemos para se mostrar.
De Stella Point até ao topo (Uhuru Peak) faltavam poucos metros para conquistar, de vez, o Kili. Poucos mas difíceis. E lentos. Obrigando ainda a um controlo pessoal muito rigoroso na gestão do esforço.
O avanço foi feito sobre gelo quebradiço nas partes mais finas, mas duro e bastante escorregadio noutras partes mais preenchidas. Quase todo o gelo que pisávamos desenhava covas de pés mais fundas que as marcadas na areia das praias, dificultando a progressão. Na areia, as marcas dos pés de outros modificam-se ao molde dos nossos pés, mas aqui, se as nossas botas não se moldam aos buracos rígidos onde pousam, corremos seriamente o risco de tropeçar e cair. Por outro lado, contávamos já com uma subida nocturna exigente, a mais exigente de todas. E havíamos atingido o máximo de rarefacção de oxigénio. Daí que os “poucos metros” que faltavam demoraram ainda mais duas horas a percorrer. Não valia a pena estragar a festa naquela altura. O nosso maior adversário naquele momento era a nossa própria euforia. De Stella Point a Uhuru Peak a altitude a vencer atinge quase os 200m.
Finalmente, o tecto de África (5895m). Às 08h42. Tirámos mais fotos para registar o feito para a posteridade. A esgotada carga da bateria viciada de uma pequena máquina de vídeo que levávamos connosco – bateria carregada praticamente uma semana antes, e que não resistiu àqueles dias de condições climatéricas exigentes – permitiu a gravação de minúsculos instantes, que agora podemos ver e ouvir (http://www.youtube.com/watch?v=Wr_lHKU3vc0) repetidamente. A paisagem era magnífica e pudemos finalmente contemplar as neves eternas do Kilimanjaro. O último vestígio de carga da bateria da máquina de filmar foi para elas.
[1] Ver capítulo sobre o “mal de altitude”, pág. xx.

domingo, agosto 10, 2008

Só Fórró... Que momento tão agradável!

Hoje foi um dia fantástico de mostra (Eu ia dizer "cultura popular", mas não digo; porque, na minha ideia, a noção de cultura popular está associada a uma cultura menor, que as culturas mais pensantes e eruditas toleram. Por isso direi...) capacidades humanas, de prazer de convívio, de celebração da ligação harmoniosa entre gentes de terra com o mar que as cerca. Foi na Horta, no penúltimo dia da Semana do Mar.
Vou direito ao assunto de agora. A seguir a ter gravado em filme imagens fantásticas de botes baleeiros a competirem (saudavelmente) entre si no Canal de Vitorino Nemésio e de tantas gerações de açorianos, a caminho de casa cruzei-me com um pequeno grupo de homens que tocava e cantava, parados à frente de um dos restaurantes de rua montados na avenida marginal da cidade, propositadamente para as festividades da semana, e assim animava e fazia sorrir quem à sua volta estava.
Meus queridos alunos (os que foram e os que serão), no pequeno acontecimento que vão ver a seguir, há alegria, há inteligência, há prazer no convívio social, há espontaneidade; e o seu contrário, a ritualização. São a espontaneidade e a ritualização que estão na base da (re)criação da cultura que consolida os laços e os afectos entre os membros das comunidades humanas.
As imprecisões do documento resultam do momento ter sido inesperado, não poder ser interrompido e repetido em replay; resultam também do fundo musical que vinha de um pouco mais longe daquele local, em que uma banda musical jovem, mais "pesada", estava a ensaiar e a experimentar as colunas de som potentíssimas para a sua actuação à noite; e resultam também da inabilidade técnica do autor das imagens.
Obrigado ao grupo Só Fórró, que todos poderão conhecer melhor clicando no título deste apontamento. Serão reencaminhados para o blogue do grupo.
Repito, muto obrigado ao grupo Só Fórró! Desejo-vos muitas felicidades no futuro!

terça-feira, julho 22, 2008

Reciprocidade, falada por quem sabe o que verdadeiramente é




Raúl Iturra é uma daquelas pessoas cuja vida - procurada e acontecida - cria personagens de histórias de banda desenhada e de romances épicos, que se tornam exemplos para quem procura aquelas coisas que valem o sacrifício e o risco pessoal. Não por si próprios, mas pelos conjuntos de pessoas a que se pertence por língua, cultura, ideal ou, simplesmente, por condição huamana.
Ele traz-nos agora um novo livro, que se propõe falar de reciprocidade.
Hoje em dia, mais do que nunca, fala-se em educação inclusiva, educação intercultural; respeito pelo outro, respeito pela diferença; relações internacionais "em pé de igualdade", sem laivos de neo-colonialismo.
Ora, se calhar, o princípio comum a todos estes princípios pedagógicos e políticos é esse ovo de Colombo chamado reciprocidade. Boa proposta, Raúl, em boa hora!

quinta-feira, julho 10, 2008

Até Setembro!...

Vou aproveitar o abrandamento no ritmo e na intensidade de trabalho na escola (Cheira a férias!...) para me dedicar, praticamente em exclusividade, à minha valorização profissional e académica.
Assim, tirando uma ou outra vez, muito excepcional, se ocasiões para isso houver - e que não comprometam muito tempo, vosso e meu -, só aqui voltarei no início de Setembro, e desse regresso darei conta através de e-mail.
Se até lá, até Setembro, aqui escrever alguma coisa, também por e-mail anunciarei a publicação.
Entretanto, em qualquer altura poderei ser contactado pelo e-mail habitual.
Inté!...

Hoje é o melhor dia da minha vida, propõe-nos o vídeo

O vídeo que encontrei no YouTube, entre tantos outros - lindos de mensagens, lindos de imagens, lindos de sorrisos - é isso: é um vídeo lindo entre muitos outros, lindos também.
Reflecte um certo modo de estar na vida, não traz ensinamentos; propõe-nos, como hoje se diz muito, por influência dos nossos irmãos brasileiros, que se pense positivo, com optimismo, quando se começa o dia.
Mesmo que não se entenda o inglês, as imagens são bonitas, falam por si. Nelas conseguimos espelhar os nossos pensamentos e os nossos afectos, nas imagens lindas das paisagens, dos sorrisos e das acções das pessoas, dos comportamentos dos animais, e do sempre poderoso encantamento que fica dos olhos grandes de uma criança que nos fita directamente.
No fundo, parece-me que temos tendência a cuidar mais e melhor daquilo que gostamos. E a gostar mais daquilo que conhecemos. E a conhecermos mais profundamente o que observamos com mais atenção e mais dedicação. Finalmente, para observar com atenção e dedicação, é preciso parar um instante.
Como eu gosto repetidamente de citar, na forma simplificada de Marc Oraison, mais uma vez aqui deixo a velha recomendação bíblica: "Fala, ancião, porque isso te compete; mas com discrição, não perturbes a música."

Tradução livre:
(…)
… HOJE COMEÇA A MINHA NOVA VIDA...
(Sérgio Godinho canta há muito tempo: “Hoje é o primeiro dia do resto da minha vida…”)
... VOU RECOMEÇAR HOJE…
… HOJE SÓ ME VÃO ACONTECER COISAS BOAS…
… DOU GRAÇAS POR ESTAR VIVO…
… DESCUBRO BELEZA EM TUDO À MINHA VOLTA…
… VIVO COM PAIXÃO E COM DETERMINAÇÃO…
… VOU RIR E BRINCAR TODOS OS DIAS…
… ESTOU DESPERTO, CHEIO DE ENERGIA. ESTOU VIVO…
… CONCENTRO-ME EM TODAS AS COISAS BOAS DA VIDA…
… E DOU GRAÇAS POR ELAS EXISTIREM…
… ESTOU EM PAZ E EM SINTONIA COM TODAS AS COISAS…
… SINTO O AMOR, A ALEGRIA E A ABUNDÂNCIA…
… SINTO-ME LIVRE PARA SER EU PRÓPRIO…
… O SER HUMANO É UMA COISA MAGNÍFICA…
… EU, COMO SER HUMANO, SOU A PERFEIÇÃO DA VIDA…
… EU… DOU GRAÇAS POR SER…
… QUEM SOU…

... HOJE É O MELHOR DIA DA MINHA VIDA...
(…)

domingo, junho 29, 2008

Um pouco mais sobre Al Gore e Marlo Lewis

No sítio da Ver, está publicada uma entrevista co Marlo Lewis, Jr, (http://www.ver.pt/conteudos/ver_mais_Geral.aspx?docID=529), da qual transcrevo uma pergunta e a respectiva resposta:

Contudo e por outro lado, a evidência do aquecimento global é avassaladora e inegável para a esmagadora maioria dos cientistas. O que tem a dizer sobre este facto?
A evidência do aquecimento global é inegável. Não há qualquer tipo de discussão quanto a isso. O mundo está muito mais quente do em 1975 e o século XX, no geral, foi mais quente do que o século XIX. E também não existem dúvidas de que a emissão de gases com efeito de estufa constitui um dos factores para o recente aquecimento global (embora alguns cientistas defendam que a variabilidade natural possa ser responsável até metade do aquecimento observado durante o século XX e que os registos da temperatura da superfície terrestre podem estar “contaminados” pelos efeitos do aquecimento em locais próximos das estações de monitorização. Mas o truque retórico de Gore é declarar que estes limitados pontos de concordância constituem prova de que o mundo está em perigo iminente e que os benefícios das soluções por ele propostas ultrapassam os custos. E é neste ponto que eu e muitos outros discordamos.

Lá deixei o seguinte comentário, automatica e imediatamente publicado, o que revela a boa fé dos responsáveis do sítio. A entrevistadora foi Helena Oliveira:

29-06-2008 14:34 - Fernando Pinto, Lisboa
Para além dos ódios que Marlo Lewis parece destilar (em todo o lado onde o tenho lido) em relação a Al Gore... Para além do drama que é para nós, professores com a responsabilidade de formar e informar adequadamente os nossos alunos, eu perguntaria:

Para Marlo Lewis, Jr.,
01- O aquecimento global, mesmo que absolutamente natural, é ou não é negativo (no sentido de que reduz espécies; reduz habitats; reduz recursos; etc.) para a vida, em geral; e para os biliões de seres humanos, em particular, que hoje povoam os países e o Planeta?
02- Há ou não há um consumo excessivo de recursos naturais, manufacturados e fabricados, sobretudo nos países desenvolvidos da Europa, da América, da Ásia, e dos países "emergentes" (a China e a Índia)?
03- Há ou não há que moderar consumos e modificar estilos de vida (pensando sobretudo nos países desenvolvidos)?
04- Há ou não há que estabelecer relações de maior ajuda e de menor exploração dos países pobres pelos países ricos?
05- Há ou não há uma crise cada vez maior de água potável, que tem tendência a acentuar-se nos próximos anos, a nível mundial?
06- São ou não os países pobres os que mais irão sofrer com a previsível falta de água?
Não sei se alguma vez Marlo Lewis, Jr. falou ou foi interrogado sobre isto... Alguém me pode ajudar a sabê-lo?... Obrigado!

Al Gore, anti-Algores. Mitos e contra-mitos.

O tema das alterações climáticas e o tema do aquecimento global são temas que não consigo (ainda) observar e pensar com aquela distância pessoal (cognitiva e afectiva) que me dê a segurança conveniente para os abordar da maneira que convém aos professores em face dos seus alunos.
Assim, tudo o que for dizendo, nestes tempos em todo o lado sobre-agitados, é provisório, insuficiente e "verdadeiro-até-ver".
Assumo claramente que poderei estar a ser "redutor", "sectário", "enviesador", sei lá que mais... mas não posso deixar de dizer o seguinte:
Pretenciosamente, na mais pura tradição do "eu"-habitante da estrela Sirius, de Augusto Abelaira, desco à Terra e o que vejo?...
Vejo que os políticos e governantes do mundo discutem o assunto do Aquecimento Global; vejo que os cinetistas especialistas e os jornalistas especializados discutem o assunto do Aquecimento Global; vejo que os interesses económicos e os lobbies discutem o tema do Aquecimento Global; vejo o cidadão comum virando a cabeça, ora olhando um deles, ora escutando outro, ora lendo um terceiro; vejo um professor - ao mesmo tempo, cidadão comum - a seguir para as suas aulas, apressadamente, tentando ler as últimas coisas que por aí se dizem sobre estes assuntos...
Vejo Al Gore de livro na mão, An Inconvenient Truth [Uma verdade inconveniente]; vejo Marlo Lewis, Jr, também de livro na mão, Al Gore's Science Fiction: A Skeptic's Guide to An Inconvenient Truth [A ficção científica de Al Gore]. Al Gore grita que a floresta atrás de Marlo Lewis está a arder e aponta um suspeito que corre ali à vista dos dois. Várias pessoas e os bombeiros correm para apagar o fogo, mas Marlo Lewis grita que parem, que se deixem estar onde estão, não há perigo, o criminoso não é de certeza aquele... que só a má intenção de Al Gore o elevou a bode expiatório...
Ora, há um absurdo nesta situação, não há?... A floresta está mesmo a arder, não está?...

quinta-feira, junho 12, 2008

Charles Darwin, Sigmund Freud e a origem da felicidade

Comentário a:
Charles Darwin ao Ciência Hoje: «Ao saber livresco sempre preferi os passeios de observação e da natureza»
Fernando Pinto, em 2008-06-05 às 20:25, disse:
Este estilo de relato biográfico tem geralmente boa receptividade junto dos jovens, informa-os de maneira descontraída, pouco exigente, o que facilita a entrega à leitura.
Pela minha parte, gostaria de dizer aos jovens duas coisas, que proponho como ajudas na reflexão sobre a pessoa, a vida e a obra de Charles Darwin:
- A primeira é que ele publicou a sua obra mais célebre (para mim, não é a que mais me marcou, do ponto de vista do rigor sistemático do estudo; prefiro o seu estudo sobre as emoções), aos 50 anos... apenas... Quero eu dizer, "Malta, não tenham pressa, deixem as coisas amadurecer, dêem-lhes o tempo que elas necessitarem".
- A segunda coisa é essa semelhança com outros autores que, depois de se tornarem famosos, foram vasculhados na sua infância por alguém, e isso permitiu que se encontrasse a mesma paixão pela observação e o contacto com a vida animal. Estou a lembrar-me, por exemplo, do pai da Etologia, Konrad Lorenz, que se ligou a patos e gansos ainda menino; e montou em sua casa um autêntico jardim zoológico à medida do seu tamanho de menino. E estou a lembrar-me também de Jane Goodall, que em menina se fechou no galinheiro, horas e horas seguidas, muito pacientemente, porque logo intuiu que seria assim a única possibilidade de ver por onde as galinhas punham os ovos; e isto enquanto a mãe, aflita, a procurava com a ajuda de polícias que entretanto chamara.
Parece que Sigmund Freud, o fundador da Psicanálise, disse um dia que a felicidade é a realização de um desejo de infância.
Pessoalmente penso que não é possível negar a importância da família na ideia ou no sentimento de felicidade.
Mas que a felicidade dos autores de quem agora falei se alimentou, mais do que dos livros que escreveram, da vida e do trabalho que estiveram na origem de tais livros, pois certamente que estaremos perante experiências de vida que conferem razão à ideia de Freud sobre a origem da felicidade.

terça-feira, junho 03, 2008

Nobel da Paz, Muhammad Yunus, DE ESCRAVIDÃO?

Sinto como que a obrigação de ajudar à divulgação destas palavras do Prémio Nobel da Paz de 2006:
Hoje, nos países do Norte, as crianças trabalham duramente na escola para obterem um bom emprego. Em adultos, irão trabalhar por conta de alguém. Ora, o ser humano não nasceu para servir outro ser humano.
Um trabalhador independente, que tem uma banca, por exemplo, trabalha quando tem necessidade. Se há dias em que não quer trabalhar, pode fazê-lo. Acaba o seu dia de trabalho e aproveita um pouco da vida. Não tem ninguém a avisar se se atrasa uma hora. Não fica aflito por ir perder parte do salário.
Quando éramos caçadores-recolectores, não éramos escravos, controlávamos as nossas existências. Há milhões de anos, perdemos esta liberdade. Levamos vidas rígidas, repetindo diariamente os mesmos ritmos de trabalho. Corremos para o trabalho, corremos de volta para casa. Esta vida robótica não me parece um progresso.

Com o regime assalariado, passámos da liberdade de empreender e de uma certa flexibilidade de vida para a maior rigidez. Tenho um salário, um patrão, tenho de fazer o meu trabalho quer me agrade quer não, porque sou uma máquina de fazer dinheiro. É esse o perigo global das estruturas económicas actuais, da teoria dominante. O homem é considerado apenas como um agente económico, um empregado, um assalariado, uma máquina. É uma visão unidimensional do humano. Ser assalariado deveria ser uma opção entre várias. (Frédéric Joignot, Le Monde, 25/04/08, em Courrier Internacional, Junho 2008, n.º 148)

Pelo menos na minha representação mental do mundo, Yunus, o banqueiro dos pobres, vem da mesma cultura, do mesmo outro lado do mundo, do mesmo ponto de vista diferente do dominante na cultura ocidental, que um dia nos trouxe também Mahatma Gandhi. Por isso, mesmo que algumas das suas afirmações nos possam parecer "simplistas", "redutoras", "questionáveis", bem merecem a atenção de todos. Ajudam-nos a apontar para um caminho que nos ajuda a sair do beco sem saída para onde a ideologia e o poder capitalistas dominantes na nossa cultura ocidental actual nos trouxe.