quinta-feira, março 20, 2025

#TOLERÂNCIA81 - O CHATGPT É TOLERANTE?

 #TOLERÂNCIA81 - O CHATGPT É TOLERANTE?

Aproveitei o meu dia sem componente lectiva para ir para a escola tratar de algumas tarefas que têm a ver com os trabalhos monográficos dos alunos e preparar as duas últimas semanas de aula do período.

Antes de me entregar a essas tarefas, entretanto, fui ver do correio nas duas caixas de correio pessoais. Numa delas encontrei, acabadinho de chegar, um email das "Sciences Humaines", com novidades de textos, livros e um novo número da revista.

Fixei a atenção num artigo, "Le vrai visage de ChatGPT" (O verdadeiro rosto do CHATGPT), que me deu a ideia de fazer eu mesmo uma pequena conversa com este chatbot. É que o artigo era precisamente isso: uma conversa entre o autor o e ChatGPT. Avancei para a conversa-entrevista, só mesmo para ver como funcionava, seria a primeira vez que ia fazer uma coisa assim.

Vou transcrever já a seguir a "conversa" que eu (identificado como jornalista) tive com o ChatGPT:

JORNALISTA: ChatGpt, és um comunicador tolerante?  

CHATGPT: Sim, sou um comunicador tolerante! Procuro sempre manter uma conversa respeitosa, aberta e equilibrada, independentemente do tema ou da opinião do interlocutor. O objetivo é promover um diálogo saudável e produtivo. Tens algo em mente que queiras discutir? 

JORNALISTA: Quando dizes «Procuro sempre manter uma conversa respeitosa, aberta e equilibrada, independentemente do tema ou da opinião do interlocutor.» estás a dizer que aceitas tudo "tolerantemente" seja verdade ou seja mentira?  

CHATGPT: Boa pergunta! Ser tolerante não significa aceitar tudo indiscriminadamente. Significa ouvir diferentes perspectivas com respeito, mas sem abdicar do pensamento crítico. Se algo for falso, enganoso ou prejudicial, eu não o aceito como verdadeiro – mas explico porquê de forma clara e fundamentada. A tolerância não é passividade; é a capacidade de lidar com opiniões diversas sem recorrer à hostilidade ou à desinformação. Queres discutir um exemplo específico? 

JORNALISTA: Sim, boa ideia. Então, como discutes tu tolerantemente com alguém que te diz que tem provas científicas de que a Terra é plana?  

ChatGPT: Ótima questão! Se alguém me disser que tem "provas científicas" de que a Terra é plana, eu manteria uma abordagem respeitosa, mas baseada em factos. Algo assim:
- Primeiro: Ouvir e perguntar – Para compreender melhor o ponto de vista da pessoa, perguntaria: "Quais são as provas científicas a que te referes?" ou "O que te levou a essa conclusão?" Isso mostra que estou disposto a ouvir antes de responder.
- Segundo: Analisar criticamente – Depois de ouvir os argumentos, explicaria porque é que a ciência há séculos demonstra que a Terra é esférica. Mostraria evidências como: a observação de navios que desaparecem no horizonte; fotografias tiradas do Espaço; a forma como os fusos horários funcionam; a curvatura da sombra da Terra na Lua durante um eclipse lunar.
- Terceiro: Incentivar a reflexão – Em vez de impor uma resposta, faria perguntas que levam a pessoa a pensar: "Se a Terra fosse plana, como explicas o fato de as estrelas mudarem conforme viajamos entre hemisférios?" "Se os governos estivessem a esconder a 'verdade', como justificas que qualquer pessoa possa fazer experiências simples para comprovar a curvatura da Terra?"
- Quarto: Manter a calma e o respeito – O objetivo não é ridicularizar, mas ajudar a pessoa a avaliar criticamente as suas crenças. Se a conversa ficar agressiva ou fechada, reconheço os limites do debate e deixo a questão em aberto.
Assim, sou tolerante na conversa, mas sem aceitar desinformação como verdade. O que achas desta abordagem? 

JORNALISTA: Parece-me bem. Mas se a pessoa te disser que isso de dizer que "A observação de navios que desaparecem no horizonte.", as "Fotografias tiradas do espaço.", "A forma como os fusos horários funcionam.", e "A curvatura da sombra da Terra na Lua durante um eclipse lunar." são erros ou mentiras intencionais? Por exemplo, diz-te que as fotografias tiradas do Espaço são montagens no Photoshop; os fusos não têm interesse, por exemplo, como explicam que a China ter a mesma hora para vários fusos diferentes; e a curvatura da sombra na Lua durante um eclipse lunar são montagens de vídeo fabricadas pela Nasa e distribuídas por todo o Mundo?  

CHATGPT: Ótima continuação da discussão! Se a pessoa rejeita as evidências científicas alegando que são erros ou mentiras intencionais, a conversa muda de perspectiva: não é apenas sobre ciência, mas também sobre confiança nas fontes de informação. A minha abordagem seria:

- Primeiro: Perguntar: Se tudo é falso, então qual é a verdadeira evidência?
Se a NASA, os cientistas, os astrónomos amadores, os marinheiros e os viajantes estão todos a mentir, então onde está a prova fiável de que a Terra é plana? Costumo incentivar as pessoas a fazerem as suas próprias experiências, como:
número 1: Observar um barco a desaparecer no horizonte com um telescópio (ele desaparece de baixo para cima).
número 2: Verificar que em latitudes diferentes as estrelas visíveis mudam.
número 3: Usar um balão meteorológico com uma câmara para ver a curvatura da Terra.
Se alguém afirma que todas as imagens e vídeos do espaço são falsas, então deveria apresentar provas concretas dessa manipulação – não basta dizer que é Photoshop.

- Segundo: Explicar os fusos horários corretamente.
O caso da China é uma exceção política, não científica: a China decidiu adotar uma única hora oficial para todo o país, mesmo atravessando vários fusos. Mas noutros países, como os EUA, o Brasil ou a Rússia, os fusos funcionam como esperado. Se a Terra fosse plana, os fusos seriam inconsistentes para todos os países, não apenas para um por decisão governamental.

- Terceiro: Perguntar: quantas pessoas teriam de estar envolvidas na conspiração?
Se a NASA, a ESA, a SpaceX, os russos, os chineses e até astrónomos amadores do mundo inteiro fabricam provas falsas... quantas milhares de pessoas teriam de estar envolvidas nessa mentira sem que ninguém confessasse? Além disso, porque é que países rivais como os EUA, a Rússia e a China concordariam em manter essa conspiração?

- Quarto:  Manter a calma e plantar a semente da dúvida.
Se a pessoa continuar a rejeitar tudo sem apresentar provas sólidas, é provável que não esteja realmente disposta a considerar outra perspectiva. Neste caso, em vez de insistir, deixo a pessoa com questões que a façam reflectir:

questão 1: "Se a NASA mente, porque é que qualquer pessoa pode comprar um telescópio e ver a Estação Espacial Internacional a passar?"
questão 2: "Se os vídeos da Lua são fabricados, porque é que até astrónomos amadores filmam os eclipses e vêem o mesmo?"
Se a pessoa estiver minimamente aberta ao diálogo, com o tempo pode começar a questionar as suas próprias crenças. O que achas desta abordagem? Mudarias alguma coisa? 

JORNALISTA: Quais são os teus limites de tolerância, por exemplo na discussão deste assunto, de a Terra ser plana ou esférica?

CHATGPT: Os meus limites de tolerância numa discussão como esta passam por manter o respeito, a racionalidade e o pensamento crítico. Ou seja:
Estou disposto a discutir diferentes perspectivas, apresentar evidências científicas, analisar argumentos e até ouvir teorias alternativas, desde que haja abertura para um debate real e fundamentado.
Não tolero:
- Primeiro: Desrespeito ou insultos – Se a conversa se tornar agressiva, com ataques pessoais em vez de argumentos, já não é um debate produtivo.
- Segundo: Recusa total em considerar evidências – Se alguém rejeita qualquer prova científica apenas porque sim, sem apresentar contra-evidências, a conversa deixa de ser racional.
- Terceiro: Desinformação perigosa – Defender que "a Terra é plana" pode parecer inofensivo, mas quando ligado a desconfiança geral na ciência (como negar vacinas ou mudanças climáticas), pode ter impactos reais na sociedade.
- Quarto: Teorias da conspiração infundadas – Questionar é saudável, mas afirmar que "todos os cientistas do mundo mentem" sem provas concretas leva a um beco sem saída.
Ou seja, sou tolerante até ao ponto em que o debate pode ser produtivo e baseado em argumentos. Quando se torna apenas um "bloqueio à verdade" ou uma tentativa de espalhar desinformação, aí deixo claro que não faz sentido continuar.
Farias o mesmo ou tens um limite diferente?

E pronto, fiquei por aqui na entrevista. Ainda não a reli, não a analisei, vou fazê-lo mais tarde. Preferi fazer a mesma entrevista a outro chatbot, o DeepSeek.

A ideia era fazer as mesmíssimas perguntas, mas como as respostas eram diferentes, tive de alterar as perguntas logo a partir da segunda, fiz alguns ajustamentos. E fiquei desconfiado que o DeepSeek andou a cuscar a entrevista ao ChatGPT, é que ainda eu não tinha falado no exemplo da Terra plana já o meu interlocutor estava a falar dele. Um dia destes trago para aqui esse entrevista.

Foram ambas as entrevistas exercícios mentais interessantes. Apreciei sobretudo a maneira como estruturaram as respostas, em que, em geral, não faltam exemplos que concretizam o pensamento e as ideias expostas.

Pois é, mais uma vez os chatbots se mostraram interessantes recursos para a construção de materiais pedagógicos a explorar, neste caso, o tema da Tolerância.

E cá está: pega-se neste texto, faz-se 'copy-paste', fazem-se cópias, distribuem-se pelos membros dum grupo de discussão, prepara-se um guião de desenvolvimento da sessão, e como da discussão nasce a luz, anima-se a conversa entre todos, de acordo com o tempo que se tem disponível. Não me parece é que seja um trabalho para levar a cabo na fase inicial de desenvolvimento dum grupo de trabalho. Para a fase inicial já fui deixando nesta aventura propostas mais adequadas.

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quarta-feira, março 19, 2025

#TOLERÂNCIA80 - PAI, AMOR, TOLERÂNCIA

 #TOLERÂNCIA80 - PAI, AMOR, TOLERÂNCIA

Na segunda-feira, o inusitado cruzamento de várias ocorrências permitiu-me dispor de tempo para ver a série de 4 episódios da série "Adolescência" da Netfix. Ui!, que obra! Gostei muito: enredo muito bem construído, história verosímil, muito actual, à volta do que é o descanso para os pais de os filhos estarem sossegados no quarto; alertas pedagógicos, vários!, para pais e professores; interpretações notáveis, sobretudo a do adolescente protagonista (o desempenho dele no 3.º episódio, o da conversa com a psicóloga, é de arrebatar um óscar) e o do pai; tecnicamente, sobretudo no 1.º episódio, construções artificiais que constantemente nos mostram que estamos a ver um filme, não estamos envolvidos numa realidade. Recomendo vivamente.

A série deixou-me a pensar no complexo de afectos que liga um pai a um filho, e como nesse complexo o afecto do Amor e o afecto da Tolerância se cruzam, é mesmo inevitável que se encontrem, se afastem, e o imenso vai-e-vem desses encontros e afastamentos.

Bem perto do fim da história, escutamos um telefonema do filho para o pai no dia em que este celebra os 50 anos. Depois ficamos a pensar.

Esta série, na minha opinião, tem a grandeza do "Close". Recomendo vivamente a série e o filme a todos os pais e professores.

Tornou-se clássico, quando falamos nas relações entre pais (sobretudo no caso dos pais mesmo, os homens) e filhos que criaram dependências adictivas (álcool e drogas, essencialmente), fazer surgir a recriminação do filho que diz assim ao pai: «Sim, agora preocupas-te muito, mas quando eu precisei que estivesses lá, ao pé de mim, tu nunca estiveste.» Nos tempos que correm, cada vez mais os filhos querem que os pais não estejam lá (quer dizer, quando estão fechados no quarto ao computador).

Hoje, a evocação do dia, a celebração do Dia do Pai (como posso eu passar ao lado da evocação do dia quando chego à escola e sou recebido carinhosamente por alunos que me dizem «Os seus filhos hoje já lhe deram os parabéns, não foi? Também lhe damos os parabéns, stôr), fez-me lembrar a parábola do Filho Pródigo.(3)

A parábola do Filho Pródigo deixa-me a pensar, mais uma vez, na maneira como o amor de pai e a Tolerância se cruzam na mente e no coração dum pai. No caso desta parábola, fico a pensar também no amor e na Tolerância do irmão, aquele que foi sempre obediente e cumpridor com o pai.

Na verdade, quantas vezes os afectos do Amor e da Tolerância são também um desafio exigente para os irmãos do filho pródigo?

A mini-série "Adolescência" e o filme "Close" não são ficções baseadas em casos reais concretos que assim tenham acontecido, mas são uma e outro construídos com bases em ocorrências menores, efectivamente reais, que exploram muito bem onde as coisas podem chegar quando a pressão social dos pares, carregada de intolerância, se torna avassaladora.

Explorar a mini-série, mais o filme, mais a parábola, em dinâmicas de formação de pais e professores — e dos próprios jovens! — são, no mínimo, 12 horas de trabalho, realizadas preferencialmente, de forma extensiva, ao longo do tempo. Há muito que falar, há muito que reflectir com estes 3 preciosos recursos pedagógicos da Educação da Tolerância.

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(1) "Adolescência" é uma minissérie britânica que acompanha uma família devastada pela acusação de assassinato contra seu filho adolescente.

Com uma narrativa intensa e actual, a série mergulha na vida da família Miller e seu filho Jamie, um garoto de 13 anos acusado de matar uma colega de escola. Além do mistério em torno do crime, a trama explora questões sociais profundas e acontecimentos que se aproximam de nossa realidade.
(https://observatoriodocinema.com.br/series/adolescencia-serie-da-netflix-e-baseada-em-historia-real/)

(2) "Close" é um drama emocionalmente intenso que explora a amizade profunda e a vulnerabilidade da adolescência. A história acompanha Léo e Rémi, dois rapazes de 13 anos que compartilham uma amizade íntima e inocente, cheia de cumplicidade e afecto. Os dois passam os dias um com o outro, brincam, riem-se num mundo que é deles e onde se sentem seguros e livres. Os pais de ambos aceitam agradavelmente e incondicionalmente a relação entre os dois amigos.

No entanto, ao ingressarem, depois das férias, numa escola nova, a relação dos dois começa a ser questionada pelos colegas, que insinuam que a sua proximidade vai além de uma simples amizade. Sob a pressão dos colegas de escola e confuso com as expectativas dos outros, Léo começa a distanciar-se de Rémi, buscando encaixar-se num modelo de rapaz socialmente mais "aceitável" (à vista dos colegas de escola).

Esse afastamento tem consequências devastadoras, levando a um desfecho trágico que força Léo a confrontar-se com os seus sentimentos, a culpa que sente e as complexidades dum luto que nunca esperaria. (DeepSeek, adaptado)

(3) Ver aqui a parábola do Filho Pródigo: https://www.bibliaonline.com.br/nvi/lc/15/11-32

terça-feira, março 18, 2025

#TOLERÂNCIA79 - O DILEMA DA RAQUEL: PAIXÃO OU LIBERDADE

#TOLERÂNCIA79 - O DILEMA DA RAQUEL: PAIXÃO OU LIBERDADE 

Hoje dei uma aula em que puxei do dilema do Amigo de Infância (#TOLERÂNCIA76) e a aula correu muito bem. No intervalo que se seguiu, antes da segunda hora de aula com aqueles alunos, lembrei-me duma situação de que tive conhecimento directo na altura, que envolvia pessoas que eu conhecia, e dei-lhe a forma dum dilema, tive sorte, consegui, na pressa dos 10 minutos daquela pausa, encontrar uma apresentação escrita bastante satisfatória para o logo aos alunos, tentando tirar partido da boa onda da aula anterior.

Esta situação fez-me lembrar duma outra, de que fui o principal protagonista, no Kosovo, talvez o dia também lhe dê a forma dum dilema sobre a Tolerância.

Como no dilema do Amigo de Infância, são dois jovens os protagonistas do dilema. Da aula até agora, dei um pequeno jeito aqui e outro jeito ali, é natural que o texto não me tenha saído logo com todas as coisas certinhas nos seus lugares.

Passo então a apresentar o Dilema da Raquel: Paixão ou Liberdade

Joana, uma jovem portuguesa, namora há seis meses com Charles, um inglês que conheceu numa viagem a Londres, foi quase amor à primeira vista, ela achou-o atraente e com forte presença social. Desde então, vivem uma relação intensa, cheia de momentos felizes e viagens entre os dois países. Joana sente que Charles é o amor da sua vida e faz tudo para o ver feliz.

Finalmente, certa noite, Charles convida Joana para sair com os seus amigos, amigos de longa data, ele quer apresentar-lhes a namorada, o encontro é num pub britânico tradicional. Todos adoram cerveja, e beber juntos faz parte da cultura do grupo. No entanto, Joana nunca gostou do sabor da cerveja, nem de bebidas alcoólicas, prefere outras bebidas. Assim que chegam ao pub, Charles pede uma rodada para todos e entrega-lhe um copo cheio.

— Bebe, amor. Vais gostar! — diz ele, rindo, enquanto os amigos incentivam.

— Não, obrigada, Charles. Sabes que não gosto de cerveja...

O sorriso de Charles desaparece. Com um olhar sério, ele aproxima-se dela e diz-lhe num tom frio, quase em segredo:

— Joana, todos os meus amigos bebem cerveja. Aqui, faz parte da tradição. Não quero namorar com alguém que não se encaixa no meu grupo. Se não bebes comigo hoje, acho que as coisas entre nós vão acabar mal.

O coração de Joana aperta. Ela está profundamente apaixonada por Charles e não quer perdê-lo. Mas, ao mesmo tempo, sente que está a ser forçada a fazer algo que não quer.

O que deve fazer Joana?

Alternativa 1: tolerar a exigência do namorado, beber a cerveja para lhe agradar e salvar a relação entre os dois, mesmo indo contra a sua vontade?

Alternativa 2: recusar, mantendo-se fiel a si mesma, aos seus gostos e à sua liberdade, mesmo que isso signifique perder o namorado de quem tanto gosta?

Eu sei o que aconteceu depois entre a Raquel e o Charles, e ainda bem que não disse aos alunos o que foi. Porquê? Porque eles foram capazes de aproveitar as dicas e sugestões que eu fui dando e criaram uma espécie de alternativa 3 em que era possível a todos salvarem a face: o Charles, aos olhos dos amigos; a Raquel, aos olhos do Charles; o grupo de amigos, aos olhos da Raquel.

Penso que os jovens estão muito necessitados de aprendizagem social, de muitos banhos de aprendizagem social; e, além disso, não é em tempo de guerra que se limpam armas. Esta situação, tal como a do outro dilemas, e muitas outras situações mais podem ser trabalhadas, porque não?, numa disciplina de "Literacia Sócio-Emocional", que ajude a prevenir a irrupção de desentendimentos e conflitos entre jovens, desentendimentos e conflitos marcados pela intolerância, o radicalismo de tomadas de posição e a incapacidade de negociar, de fazer cedências, de se tentar chegar a um entendimento.

No caso do Dilema da Raquel, é claro que aquele namoro ficou condenado ao fracasso, a intolerância do Charles não deu espaço à Tolerância da Raquel.

Embora a natureza dos dilemas clássicos seja a de eles nos obrigarem a pensar eternamente — como é o caso do Dilema de Sita, que tantas vezes uso em dinâmicas de grupo —, os dilemas que têm como substracto uma ocorrência factual real têm uma mais-valia especial, já que permitem confirmar que os dilemas não servem só para especular, por muito valor que a especulação, a reflexão e a discussão em grupo tenham.

Já agora, a bebida preferida da Raquel naquele tipo de ajuntamentos de amigos era o sumo de laranja.

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segunda-feira, março 17, 2025

#TOLERÂNCIA78 - VOCABULÁRIO TOLERANTE E INTOLERANTE

 #TOLERÂNCIA78 - VOCABULÁRIO TOLERANTE E INTOLERANTE

A Tolerância está nas atitudes, nas acções, nos projectos de intenções, nas estratégicas comunicacionais; e nas palavras do dia-a-dia.

Numa escola está também na atenção que se dá à pessoa da criança, ao seu estádio de desenvolvimento psicológico, ao seu nível de maturidade emocional e social.

Hoje, estava eu de saída da escola, uma mãe ligou-me pelo telemóvel, estava muito chocada com a maneira como a directora de turma tinha ralhado com o filho, usou termos que faziam parecer que o filho era um criminoso. Com algum humor, saudável, disse-me mais ou menos assim: «Felizmente, ele é tão pequenino, que não deve ter entendido dois ou três dos termos que ela usou e eu disse-lhe "Esquece, vê lá se tens juízo, tu é que te puseste a jeito, a falha foi tua, a professora tinha razão, não repitas a gracinha, não voltes a fazer o que fizeste", mas acho que não era preciso ela ter usado aquele vocabulário todo, espero mesmo que ele esqueça algumas daquelas palavras.»

Grão a grão enche a galinha o papo, sermão a sermão enche o aluno o saco.


À pressa, tentei rabiscar uma lista de palavras, ou melhor, duas listas de palavras. A primeira lista é de frases típicas da comunicação professor-aluno em sala de aula, em ambiente normal de sala de aula; a segunda lista é de frases típicas que os professores usam quando ralham com os alunos.

Tenho ideia de que o vocabulário tolerante é construtivo e promove o respeito e a inclusão; o intolerante é agressivo e promove o desencorajamento e o desrespeito pelo aluno.

Da primeira lista, as frases tolerantes:

"Boa tentativa! Agora vamos tentar melhorar, vá, estou por perto."
"Não há pressa, cada um aprende ao seu ritmo."
"Olha que boa pergunta!"
"Foi bom teres tentado, agora talvez a gente consiga fazer doutra maneira."
"Vá, o erro faz parte da aprendizagem, ninguém nasce ensinado."
"Parece-me que vais lá, tens jeito, precisas é de treinar mais um bocadinho."
"Se precisares de ajuda, estou por aqui."
"O teu esforço está a mostrar resultados!"
"Gosto da tua curiosidade sobre este tema."
"No fundo, todos têm alguma coisa a ensinar e a aprender."
"Tens alguma sugestão ou ideia?"
"Bem, não tenho a mesma opinião que tu, mas percebo o teu ponto de vista."

Agora, da primeira lista, as frases intolerantes:

"Isso é básico, já devias saber."
"Nem vale a pena tentares."
"Que pergunta sem sentido!"
"Se não aprendes assim, o problema é teu."
"Nunca vais conseguir."
"Não tens jeito para isto."
"Já expliquei mais do que uma vez, se não entendeste, paciência."
"Fazes sempre tudo errado! Será que não sabes mudar?"
"Olha como os outros conseguem e tu não."
"Desisto de te tentar ensinar, és um caso perdido."
"Sim, és diferente dos outros, mas olha que não é no bom sentido."
"Mas como é possível que não entendas esta coisa que é tão simples!"

Da segunda lista (a do ralhar), as frases tolerantes:

"Sei que consegues fazer melhor do que isto, tu consegues controlar-te."
"O que fizeste não está certo, já percebeste, não foi?, mas podes corrigir, certo?."
"Confesso que fiquei desapontado com essa tua atitude, mas podemos falar um bocadinho sobre isso."
"Tens capacidade para fazer diferente na próxima vez. Diferente e melhor, mais justo, tenho a certeza."
"O respeito é fundamental, e preciso que colabores, sei que és capaz."
"Sabes que isto não é aceitável, vamos pensar numa solução para que não se repita?."
"Estou aqui para te ajudar, sim, mas preciso que me ouças."
"Entendo que tenhas dificuldades, mas precisamos de encontrar um caminho melhor."
"Vamos tentar resolver isto sem prejudicar ninguém, o caminho é esse."
"O que aconteceu hoje foi um erro, mas todos podemos aprender com os erros."
"Todos cometemos erros, o que é importante é aprender com eles."
"Anda cá, precisamos de pensar sobre as consequências das nossas acções."

Da segunda lista, as frases intolerantes:

"És sempre um problema na turma!"
"Estou farto de ti!"
"Nunca vais aprender!"
"És um desastre como aluno."
"Não quero saber das tuas desculpas!"
"Não tens respeito por ninguém!"
"Se continuares assim, não vais a lado nenhum na vida."
"Já não há remédio para ti, vais ser sempre assim."
"Não passas de um irresponsável."
"Se não queres aprender, então desiste de vez!"
"Nunca fazes nada bem, estás sempre a meter a pata na poça!"
"Isso é inaceitável, não tens desculpa alguma."

São doze frases de cada, para não me acusarem de filhos e enteados. Se quiserem juntar mais algumas, todas são bem-vindas!

Penso que estas listas podem ser o mote para conversas entre os professores nas reuniões do início do ano lectivo; e nem é preciso chamar à escola peritos destes assuntos. Bastará que os professores conversem entre si, departamento a departamento, ou grupo disciplinar a grupo disciplinar; ou mesmo nos conselhos de turma. Bastará uma hora! Acredito no potencial educativo dessa hora!

Confesso que o que me levou a escrever hoje este apontamento foi também uma ocorrência numa das aulas que tive de manhã: a pretexto de ser autêntico e sincero, um aluno fez uma apreciação muito intolerante do trabalho dum seu colega, ainda por cima um trabalho bastante bem feito, já que o colega cumpriu todas as minhas instruções e produziu de acordo com o seu potencial. Não seremos nós, professores, os modelos destas atitudes intolerantes? Paremos para pensar. Pensar com clareza e honestidade.

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domingo, março 16, 2025

#TOLERÂNCIA77 - TOLERÂNCIA E INCLUSÃO

 #TOLERÂNCIA77 - TOLERÂNCIA E INCLUSÃO

Tão importante quanto a educação da Tolerância é a educação da Inclusão.

A educação da Inclusão parece-me ser mais sensível do que a educação da Tolerância, direi mesmo, muito mais sensível, quer dizer, muito mais sujeita a sensibilidades, sensibilidades de ordens que não estarão em jogo no que diz respeito à Tolerância.

Como certamente voltarei várias vezes ao lugar da Inclusão, não vou preocupar-me em escalpelizar e muito menos esgotar essas sensibilidades que a Inclusão desperta, nos dias de hoje, à flor da pele, quase instintivamente. Mas não é porque sejam mesmo instintivas ou automáticas, muitas delas foram, ou estão, a ser aprendidas pavlovianamente, tal é a intensidade de excitação criada por um caldo bem quente de estímulos, caldo esse que mistura informação e desinformação; rigor e distorção; motivações honestas e motivações perversas; ideais de equidade e defesa de privilégios; esforços de aproximação e salvaguarda de distanciamento.

Penso que vou ter de aprofundar a reflexão acerca do que é que a Tolerância tem a ver com a Inclusão e vice-versa. Algumas perguntas terei de me pôr. Por exemplo, será que a Tolerância é uma etapa no caminho da Inclusão? Ou será que a Tolerância pode ser usada como estratégia para atrasar ou mesmo impedir a Inclusão?

Não quero responder por agora a estas perguntas, prefiro antes começar por juntar outras. Não vou a correr para os tratados de Sociologia, de História, de Psicologia, Antropologia, ou outros que sejam, à procura de respostas. A minha prioridade é fazer o meu próprio entendimento sobre o assunto, clarificá-lo na minha cabeça e saber para onde quero caminhar a seguir.

Volto a dizer que um dos objectivos destes meus apontamentos é que eles possam ser imediatamente de alguma utilidade prática para quem os leia, que promovam imediatamente a criação de ideias ou projectos de acção, sejam por quem sejam, sejam onde sejam.

Na edição da revista da American Psychological Association de Jan/Feb 2025 (revista que assino há muitos anos), há um artigo, Sustaining EDI Efforts in a Chalenging New Normal (Manter os esforços de EDI num novo normal desafiante, em que EDI quer dizer Equidade, Diversidade, Inclusão), vêm dois parágrafos que me parecem bons avisos, sobretudo para ajudar a pensar e habilitar as pessoas de boa vontade (professores, educadores sociais, voluntários associativos; pais, autarcas e outros decisores políticos), já que nem sempre o que nos alivia a consciência é o que é mais correcto nas acções que levamos a cabo e, não me levem a mal lembrá-lo, de boas intenções está o Inferno cheio.

São estes os tais dois parágrafos:

A investigação dá suporte aos potenciais benefícios de enfatizar a inclusão de todos os grupos, mas isso deve ser feito com cuidado e ponderação. Quando bem feitas, as políticas inclusivas que apoiam tanto os membros do grupo dominante como os dos grupos marginalizados podem aumentar o apoio geral dos membros do grupo dominante às iniciativas de diversidade organizacional (Iyer, A., Social and Personality Psychology Compass, Vol. 16, N.º 5, 2022).

O enfoque na inclusão também pode desencadear reacções positivas por parte dos grupos marginalizados, mas o tiro pode sair pela culatra se não for executado de forma ponderada ou se parecer superficial ou performativo, como, por exemplo, fazer declarações públicas que não são apoiadas por acções concretas ou alterações de políticas. Há especialistas que advertem contra as iniciativas de EDI que implicitamente capitulam às preferências e ao conforto dos grupos dominantes em detrimento dos grupos não-dominantes. Não só fazem com que os grupos não-dominantes se sintam menos seguros, como também podem tornar-se menos eficazes em geral (Plaut, V. C., et al. in Thomas, K. M. [Ed.], Diversity Resistance in Organizations, Routledge, 2020).(2)

Quer dizer, vale o sábio aviso de não se darem passos maiores que as pernas. O pior que pode acontecer a quem tenta alguma coisa e não consegue (sem se dar conta de que o fracasso está não na intenção, mas na estratégia ou no processo) é concluir que não vale a pena, ou que eles não querem mesmo ser incluídos, e assim se resignam à Tolerância, quer dizer, a aguentarem, a suportarem.

Conclusão: devagar se chega ao longe. Há que fazer o esforço de envolver dominantes e não-dominantes (e marginalizados e em risco de exclusão) nas acções que visam promover a Inclusão. A Tolerância é uma preciosa ferramenta para essa promoção, só que, como todas as ferramentas, precisa de ser bem utilizada. Como diz o aviso, não se matam leões com fisga, nem moscas com carabina.(1)

Como eu disse antes, voltaremos a este lugar. No fundo, como tantas vezes fazemos com os lugares reais, a que voltamos outras vezes para conhecer melhor. E também como voltamos às obras artísticas. Um ocorrência de hoje, que me parece que vem a propósito: ia a caminho do Redondo para um encontro de amigos ao almoço. Na rádio, sintonizada na Antena 1, alguém dizia muito bem da cantora Márcia, das coisas que escrevia, que às vezes parecia que ela tinha escolhido maus caminhos, mas depois via-se, quando ela chegava ao fim, que tudo aquilo, afinal, estava certo e bem arquitectado; e a seguir disse que sempre ouviu Sérgio Godinho, e continua a ouvir porque continua a descobrir coisas novas, que nunca tinha pensado, nessas coisas que ele há muito tempo escreveu.

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(1) Sim, eu sei que não é politicamente correcto, nos dias que correm, falar em matar leões, disparar com carabinas, nem sequer matar moscas com fisgas. Cá está, quem sentir ferida a sua sensibilidade pessoal, deixo o pedido de que sejam tolerantes com a imagem idiomática dos leões e das moscas. O tempo se encarregará, espero eu, de arranjar outra mais em conformidade com os tempos que correm. Tome-se bem nota: o conhecimento, a cultura, a identidade e a alteridade necessitam muito das coisas simbólicas e das formulações idiomáticas, não se desdenhe delas.

(2) Traduzido com a versão gratuita do tradutor - DeepL.com

sábado, março 15, 2025

#TOLERÂNCIA76 - O DILEMA DO AMIGO DE INFÂNCIA

 #TOLERÂNCIA76 - O DILEMA DO AMIGO DE INFÂNCIA

Fui à Baixa, ao princípio da tarde, fazer o roteiro d' "O Último Cabalista de Lisboa". Cheguei cedo e, com a ajuda dum turista que por ali passou, tive oportunidade de tirar uma fotografia ao lado do Memorial às Vítimas do Massacre Judaico de 1506, no Largo de São Domingos. A fotografia está muito boa.

A fotografia pode ser vista com a aparência dum dilema: fico do lados dos judeus ou fico do lado dos palestinianos.

Bem, em relação ao que está a acontecer na Faixa de Gaza, não há dilema menhum: estou do lado dos palestinianos e contra o Governo de Israel e todos os que o apoiam, sejam ou não israelitas.

O que é certo é que, com o tempo que tive para olhar para as fotografias que o rapaz me tirou (repito, 3 boas fotografias, com máquina fotográfica. Ele sabe da poda.) pus-me a pensar nos dilemas, os velhos dilemas, e no valor pedagógico que eles têm.

Quando cheguei a casa, pouco depois pus-me ao computador e andei de chatbot em chatbot a pedir que me criassem dilemas que tivessem a ver com a tolerância. Olhando o primeiro de cada um dos chatbots (4, ao todo) que consultei, a primeira sugestão de cada um deles mostrou-me que andaram todos a comer sopa da mesma gamela. Quando lhes pedi um segundo, aí sim, apareceu variação entre eles.

A estrutura de apresentação e desenvolvimento dum dilema é simples. Entretanto, a forçados dilemas não está aí, na estrutura, mas na dinâmica de exploração pedagógica feita pelo professor ou dinamizador do grupo — felizmente, a competência para a orientação duma dinâmica de um grupo que se ocupa com um dilema é sensível ao treino e à aprendizagem.

Para já, neste campo, o dos dilemas, viva os chatbots!

Trago para aqui um de que gostei especialmente, já que tem muito a ver com questões que, assim mesmo ou por analogia, fazem parte da vida normal dos jovens que tenho nas aulas. Se quisermos, podemos pedir aos chatbots que alterem aqui, mudem ali, e assim afinamos a situação dilemática à medida do que mais especificamente pretendemos. Podemos pedir as vezes que quisermos, os chatbots são muito tolerantes com os seus utilizadores. Vamos ao dilema.

O Dilema do Amigo de Infância
Joana e Pedro são amigos desde a infância. Eles cresceram juntos, compartilharam momentos importantes e sempre se apoiaram. No entanto, nos últimos anos, Pedro começou a expressar opiniões políticas e sociais que Joana considera profundamente problemáticas. Ele faz comentários discriminatórios sobre certos grupos étnicos e defende políticas que Joana vê como injustas e opressivas.

Joana se sente dividida. Por um lado, ela valoriza a amizade de longa data e acredita que o diálogo pode ajudar Pedro a refletir sobre suas visões. Por outro, ela se preocupa com que, ao manter a amizade, esteja implicitamente validando ou tolerando opiniões que considera moralmente erradas. Além disso, ela teme que a associação com Pedro possa afectar a sua própria reputação e relacionamentos com outras pessoas.

O dilema é:
alternativa 1: Se a Joana cortar laços com o Pedro, ela pode perder uma amizade importante e fechar a porta para possíveis mudanças no pensamento dele.
alternativa 2: Se ela mantiver a amizade, corre o risco de parecer concordar com suas opiniões ou de se sentir desconfortável com suas atitudes.(1)

Perguntas para reflexão:
pergunta 1: Até que ponto devemos tolerar opiniões divergentes em nossas relações pessoais?
pergunta 2: É possível manter uma amizade com alguém cujas visões consideramos moralmente questionáveis?
pergunta 3: Como equilibrar o respeito pela individualidade do outro com a defesa de nossos próprios valores?

Tema do dilema: este dilema explora os desafios de conviver com diferenças profundas, especialmente quando envolvem pessoas próximas a nós. O que você acha que Joana deveria fazer?

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(1) Quantas vezes situações análogas a esta surgem nos namoros dos jovens (e não só...), os quais, caso tivessem algum treino em situações dilemáticas, talvez soubessem resolver mais rapidamente relacionamentos tóxicos que se tornam desgastantes, sobretudo porque se prolongam demasiadamente no tempo.

sexta-feira, março 14, 2025

#TOLERÂNCIA75 - NÃO, HOJE NÃO CONSIGO RIR

 #TOLERÂNCIA75 - NÃO, HOJE NÃO CONSIGO RIR

Hoje orientei o pensamento para pegar em frases humorísticas de rabinos e trazê-las para aqui. Conheço algumas, o humor judeu e rabino tem jeitos que aprecio especialmente. Já arranjei meia dúzia dessas frases, comecei a seleccioná-las para me me centrar nas que têm a ver com a Tolerância.

Rimo-nos com o humor, já o devo ter escrito num ou noutro destes apontamentos. Rimo-nos e aprendemos. Aprendemos coisas sobre os grupos e as culturas que são visados nos dizeres carregados de humor, aprendemos sobre a essência desses grupos e culturas.

É, no fundo, uma experiência de identidade e de alteridade. De identidade porque também nós temos uma essência grupal ou cultural; de alteridade porque temos também diferenças.

Os momentos de contar anedotas e piadas são momentos de partilha descontraída, ambiente que é propício à Tolerância. E são, ao mesmo tempo, momentos de aprendizagem. Aprendemos em que é que somos iguais e em que é que somos diferentes. Aprendemos a aceitar-nos reciprocamente.

Quando trouxer para aqui o que comecei a juntar desenvolverei um pouco mais esta "tese".

Por que razão me lembrei agora dos judeus e do humor rabino? A razão é uma, bem clara: amanhã, na parte da tarde, vou participar num pequeno roteiro pedestre que caminhará à volta do título "Lisboa Judaica - ao encontro do último cabalista". Li assim no anúncio: «Uma viagem no tempo para (re)descobrir as histórias da nossa História: vozes que nos falam de coragem e resiliência, de tolerância e de diálogo… únicos caminhos possíveis para vivermos num mundo mais justo e mais fraterno. A Literatura cria momentos de reflexão e partilha, desperta novos olhares sobre nós mesmos e os outros … apela à escuta, ao pensamento crítico, ao sentir… ler e ver, ler e ver outra vez…»

O roteiro é, penso eu, uma ilustração dos lugares do livro "O Último Cabalista de Lisboa", de Richard Zimler, livro que li há poucos anos e de que gostei muito. Já não sei o que aconteceu primeiro, se a leitura do livro ou as minhas frequentes visitas à Igreja de São Domingos, lugar centrar do enredo do livro, que procura dar-nos ideia da tão trágica e infeliz ocorrência que foi a perseguição e matança dos judeus em 1506.(1) Foi uma horrorosa sequência de acções da mais desbragada intolerância religiosa e cultural.

Se o que acabei de dizer é, então, o primeiro motivo que me impede de hoje rir com o humor rabino dos judeus, o segundo é a tragédia actual da Palestina.

No Instagram de Basel Adra (https://www.instagram.com/basilaladraa#), o palestiniano co-realizador do

documentário "No Other Land", que ganhou há dias o óscar da Academia para o melhor documentário, li há 2 dias assim:

«Esta manhã, um dia depois de eu ter regressado dos Óscares, um grupo mascarado de colonos israelitas invadiu a casa dos meus vizinhos, agrediu os membros da família, atirou-lhes gás pimenta para os olhos e partiu os telemóveis dos activistas.

A política de aterrorização dos palestinianos pelos colonos e de demolição de casas palestinianas continua.

Há uma semana, subi com orgulho ao palco dos Óscares para apelar ao mundo para que acabasse com a limpeza étnica do povo palestiniano. Em apenas algumas palavras, falei sobre o que os palestinianos de Masafer Yatta estão a enfrentar.

Para aqueles que ainda não viram No Other Land, mesmo que discordem de nós, encorajo-os a irem ver o filme. E para aqueles que já viram, espero que se juntem a nós de todas as formas possíveis na nossa luta contra a ocupação - até que esta termine.(2)

Por tudo isto, o humor rabino tem de esperar, não é este o seu dia, não é hoje o seu momento. Hoje é mas dia de dizer não ao ódio e à intolerância para com os judeus; e é dia de dizer não ao ódio e à intolerância dos judeus contra os palestinianos. Hoje é dia de eu me afirmar intolerante contra estes dois tipos de intolerância.

A Pedagogia e a Educação não é apenas ensinar. Antes de mais, é ser.

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(1) Fui cruzar os elementos que tenho. Então, é assim: a primeira vez que escrevi ao sr. Padre Vítor Gonçalves para lhe pedir que orientasse a visita dos meus alunos à Igreja de São Domingos foi em 7 de Outubro de 2019, já era visitador frequente da Igreja. O livro de Richard Zimler, na identificação que habitualmente faço nos meus livros, tem a data de 24 de Novembro de 2019. Pronto, assunto esclarecido.

(2) Traduzido com a versão gratuita do tradutor - DeepL.com

quinta-feira, março 13, 2025

#TOLERÂNCIA74 - ASSENTAR OS PÉS NO CHÃO

 #TOLERÂNCIA74 - ASSENTAR OS PÉS NO CHÃO

Como nas experiências mentais de Einstein, proponho que procuremos o lugar mais alto da Terra, que cada um nesse lugar se imagine, um lugar onde se possa assentar bem os pés no chão.

A figura de Jesus sabia bem o poder do alto. Fazendo fé na leitura bíblica dos Evangelhos, quando Ele ordenou a Pedro, Tiago, João que o seguissem, ele foi para um alto. Um alto monte. Ele sabia que o alto nos transfigura, resplandecemos como o Sol e ganhamos o branco puro da luz.

O poder do alto também já tinha sido uma estratégia do Demónio para fazer Jesus cair na tentação. O Demónio levou Jesus a um monte muito alto e mostrou-Lhe todos os reinos do mundo com a sua glória: «Serão todos teus se me adorares.»

Do alto podemos olhar para baixo e ver abaixo dos nossos pés tudo o que, inteiramente à nossa volta, sai dali, percorre a grande extensão, do mais perto ao mais longínquo, e só acaba na linha do horizonte. Algures num daqueles imensos lugares, aquilo que um dia, estando nós lá, nos parecia grande e fazia de nós pequenos, daqui, do alto do monte, parece-nos pequeno, insignificante mesmo. Ficamos com a sensação de que somos mais do que toda a vastidão que se espraia aos nossos pés.

O alto é um lugar de vertigem, de expansão e de tentação. Tomemos consciência das sensações, emoções e sentimentos que nos percorrem o corpo quando lá estamos...

A seguir, com os mesmos olhos com que olhámos para baixo, olhemos para cima, para cima de nós. Todo o firmamento está com a nitidez do puro cristal, do finíssimo cristal. A luz é doce, suave aos olhos.

«Quando olhamos para o céu nocturno, vemos uma luz que viajou durante milhões ou mesmo milhares de milhões de anos. Isto recorda-nos como os nossos problemas quotidianos são pequenos quando comparados com o Tempo e o Espaço infinitos do Universo. Faz-nos questionar: O que é que é verdadeiramente importante na Vida? Estaremos a viver com um objectivo, ou apenas a correr em círculos, preocupados com coisas que, a longo prazo, não terão qualquer importância?

«A ciência diz-nos que tudo no nosso corpo - o oxigénio que respiramos, o ferro no nosso sangue, o carbono nos nossos ossos - já esteve dentro de uma estrela. Somos literalmente feitos de poeira estelar. Isto significa que estamos profundamente ligados ao Universo, e não separados dele.

«Durante a maior parte da História, os humanos pensaram que eram especiais e que estavam no centro de tudo. Mas a ciência tem-nos mostrado que somos apenas uma pequena parte de algo muito maior. A nossa Terra é apenas um planeta numa vasta galáxia, e há biliões de outras galáxias lá fora. Esta constatação deveria tornar-nos mais humildes. Deveria tornar-nos menos arrogantes e mais curiosos.»(1)(2)

Fica-me a apetecer sugerir à Pedagogia e à Educação que levem as pessoas à noite para o campo, de

preferência, a um alto; e em que as pessoas se afastem de toda a luz artificial que o Homem foi capaz de inventar, e que tão útil nos é!, e se reduza o ambiente à luz natural da noite; mais, ali para as noites da Lua Nova.

Lá, depois, fala-se, caminha-se; e faz-se silêncio. Finalmente, convidamos quem connosco está a trazer à mente consciente uma experiência de intolerância, ou mesmo uma atitude reiterada, duradoura de intolerância. Não será necessário partilhá-la seja com quem seja. Tão pouco o objectivo é desistir da atitude intolerante. O objectivo é só o de estarmos em contacto com uma parte de nós, uma parte sensível ao nosso relacionamento com o Outro. Uma parte que tem um potencial de dano para o Outro, para si próprio ou para ambos. Quem sabe — Desculpem-me, estou a caminhar com o pensamento solto, quase em corrente livre — o objectivo é desligar a intolerância da raiva; sim, da raiva, não da firmeza.

Acho que vale a pena visitar este lugar e prender com ele.

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(1) Instagram, @astrophilesz.

(2) Traduzido com a versão gratuita do tradutor - DeepL.com

quarta-feira, março 12, 2025

#TOLERÂNCIA73 - OS PILARES DA TOLERÂNCIA

 #TOLERÂNCIA73 - OS PILARES DA TOLERÂNCIA

Recebi hoje numa das minhas aulas (duas horas de aula) um casal que daqui a 3 dias fará 61 anos de casamento. O protagonista principal da aula, avô duma aluna (que o escolheu para sujeito do seu trabalho monográfico) disse que está à espera de nesse dia receber uma prenda da sua mulher. Riu-se ela, riu-se ele, rimo-nos todos.

Quando lhe foi dada a oportunidade de falar, a muito simpática senhora disse que a vida deles os dois

dava um livro — Precisamente! É o que a neta começou a escrever com o trabalho monográfico que está a fazer sobre o avô! —, e que a vida harmoniosa e feliz de quase sessenta e um anos se deve a 3 coisas, Escolhendo os dedos mínimo, anelar e médio da mão esquerda (a que tem as alianças) enumerou a Paciência, o Respeito e o Amor.

O marido lá mais à frente, a meio duma das suas muito límpidas e tranquilas falas, confirmou as palavras da sua companheira de tantos anos (63, incluindo os de namoro), e, para reforçá-las, repetiu-as.

Como é tradição da disciplina de Psicologia, a um e a outro, à entrada, oferecemos um raminho de oliveira numa saudação de boas-vindas à escola. O senhor António, agitando o raminho entre as mãos, agarrou logo a rapaziada comentando: «Aqui este ramo de oliveira, não sei se a oliveira já estava plantada aqui há 70 anos, 71... 72, quando eu guardava ovelhas nesta zona toda (e descreve um largo círculo com o indicador da mão direita.) Guardei ovelhas, guardei porcos, trabalhei no campo.»

Por todo os temas da conversa perpassava um sentimento de tolerância pelas dificuldades que passou, a pobreza que sofreu, as transformações a que assistiu: nos lugares, nas leis, nos regulamentos; e nas pessoas, sobretudo nas pessoas; e em si mesmo, nos problemas de saúde que a vida lhe foi trazendo.

Pareceu, a todos os títulos, uma pessoa pacificada consigo mesmo e tentando conseguir estar assim também com o mundo. Exortou os jovens ao respeito; e também a luta pelos ideais, uma luta com respeito. Respeito para com todos os outros, mas também consigo próprios.

Num certo sentido, podemos dizer que a paciência, o respeito e o amor são os pilares da Tolerância; ou, no mínimo, que são 3 dos pilares da Tolerância.

Numa reflexão breve e ainda a quente, o que me apetece dizer hoje acerca da relação entre a Tolerância e cada um dos 3 pilares? (considerá-los pilares da Tolerância é da minha responsabilidade, não é da avó da minha aluna). Pois bem, numa breve síntese direi que:

número 1: a Paciência e a Tolerância
Se considerarmos que a paciência é a capacidade de esperar, de lidar com situações difíceis ou desafiadoras sem perder a calma, então podemos dizer que a paciência, permitindo o diálogo, evitando conflitos e favorecendo a empatia, cria chão em que a Tolerância assente e melhore o relacionamento entre as pessoas que circunstancialmente possam estar desavindas, em confronto ou zangadas entre si (o senhor disse que ao longo dos 61 de vida em comum, o tempo de zanga mais extenso que tiveram foi de 6 dias, sem se falarem, por causa dum diferendo a propósito dum cozinhado... dele).

número 2: O Respeito e a Tolerância
O respeito é o reconhecimento do valor intrínseco de cada pessoa. Do valor, e dos comportamentos e opiniões que lhe são legítimos, independentemente das suas diferenças em relação a nós. Será pilar da tolerância na medida em que valoriza a diversidade (cultural, religiosa, política, social, de opinião, de opção), promove a equidade no trato social, opõe-se aos preconceitos que excluem os outros e opõe-se à discriminação. Convida à reciprocidade e à mutualidade.

número 3: O Amor e a Tolerância
O amor, entendido como solicitude e cuidado pelo Outro, é o elemento que dá sentido e profundidade à Tolerância. O amor tece os laços que ligam as pessoas, supera a indiferença (que, na minha opinião, tem bem mais desamor do que o ódio, o sentimento a que se costuma opor ao amor). Foi um momento carregado de tensão emocional positiva quando o senhor António avisou os alunos: «Não pensem que o amor está logo no princípio do caminho, o amor constrói-se ao longo do caminho.»

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terça-feira, março 11, 2025

#TOLERÂNCIA72 - A TOLERÂNCIA (OU NÃO) NA FAMÍLIA

 #TOLERÂNCIA72 - A TOLERÂNCIA (OU NÃO) NA FAMÍLIA

N' "A Capital", de Robert Menasse há uma pequena passagem que pode servir de texto-gatilho para uma abordagem da Tolerância dentro de portas, e não tem de ser exclusivamente a propósito do Natal, mesmo que o texto a esta festa familiar anual diga respeito; e mesmo que saibamos de quantas vezes as celebrações do Natal em família são carregadas de tensão, nervosidade, pequenas crises ou grandes tragédias que estragam a festa.

Quantas vezes nos interrogamos «Aguento?, tolero isto?, é pela família... Não, não dá mais, tenham paciência, não vale a pena, assim de certeza que não acaba em tragédia.»

Transcrevo tal passagem para aqui, fico em reserva de a ela voltar, se calhar, lá mais perto do Natal.

«Na sexta-feira regresso a Praga. A minha irmã casa-se no sábado. (...) Ela vai casar-se com Květoslav Hanka (...) Nós chamamos-lhe křikloun. Sim, um hooligan. (...) É simplesmente de loucos, não achas? Eu trabalho na Comissão Europeia, o meu cunhado trabalha em prol da destruição da UE. (...) Eu não iria lá, comentou Martin. É a minha irmã. E a nossa mãe disse que, se eu não for, ela se mata. (...)

«Martin quisera falar com Bohumil de um assunto importante, a respeito do Jubilee Project, mas decidiu adiá-lo para depois, quando estivessem de regresso ao escritório. Agora tinha a sensação de que ele, justamente ele, tinha de algum modo de animar Bohumil, justamente Bohumil. Ergueu o copo e disse: Sei como consolar-te. Pensa em Herman Van Rompuy!

«Bohumil dirigiu-lhe um olhar interrogativo.

«Tenta imaginar isto: Van Rompuy foi presidente do Conselho Europeu, portanto um presidente da União Europeia, a sua irmã pertence ao movimento maoísta belga, e o outro irmão é mandatário dos nacionalistas belgas, um separatista flamengo ferrenho. Li no jornal que a família só se encontra uma vez por ano... Por altura do Natal!

«Bohumil, que naquele preciso momento estava a beber um gole de vinho, desatou a rir: Pelo Natal! O presidente europeísta, o nacionalista e a maoísta!

«E depois cantam «Noite Feliz»!

«Noite feliz!, repetiu Bohumi, entre gargalhadas. Isso é verdade?

«Sim, supostamente. Li acerca disso. Num artigo no De Morgen. Bohumil, ainda a rir, acrescentou: Ainda bebemos mais um copo!

«Quando regressaram ao escritório, já a manifestação se desmobilizara, atravessaram a Rotunda Schuman, passando entre as barreiras de segurança metálicas e ao lado dos montes de esterco, que estavam a ser removidos às pazadas para os camiões de limpezas da cidade. Cheirava mal. O Sol brilhava, radiante.

«No caminho de regresso para o escritório Bohumil manteve-se taciturno e pensativo. No elevador anunciou: Vou pedir a devolução do valor do voo que tenho marcado para sexta-feira. Não vou ao casamento. Não quero aparecer ao lado de Květoslav Hanka numa fotografia que depois venha a ser publicada no Blesk.

«E a tua mãe?

«Vou-lhe dizer que vou lá pelo Natal.

«De seguida fingiu dar um murro no braço de Martin e, esboçando um sorriso trocista, cantarolou: Noite feliz!»

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