sábado, janeiro 23, 2021

POLÍTICA E EDUCAÇÃO, 3/52 - QUANTO VALEM AS OPINIÕES?

 POLÍTICA E EDUCAÇÃO, 3/52

QUANTO VALEM AS OPINIÕES?

1. O direito de opinião é consagrado na generalidade dos textos constitucionais dos países democráticos; e também das organizações políticas supra-nacionais. As limitações a este direito são habitualmente sinal de limitação das liberdades pessoais, regra geral, impostas à força por lideranças contrárias ao espírito e às práticas democráticas.

2. As redes sociais na Internet vieram permitir que, para além das opiniões proferidas pelos governantes, os jornalistas e todos aqueles que em geral têm acesso aos órgãos de comunicação social, as opiniões de muitos cidadãos passassem a aparecer no espaço público, genérico e anónimo, para além de serem emitidas no círculo restrito da família, dos amigos, da empresa; e da escola.

3. Para além das questões que se costumam colocar acerca da ética, ou da responsabilidade, ou da honestidade, na expressão duma opinião, será interessante olhá-la do ponto de vista do fenómeno psicológico que é, nas suas dimensões cognitiva, comunicacional e inter-pessoal.

4. Passaram mais de 40 anos da aula de Psicologia Social Clínica em que, nas instalações provisórias da Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação de Lisboa, na Rua Pinheiro Chagas, o Professor Pina Prata nos deu uma aula de que nunca mais me esqueci. O assunto central da aula foi o Processo Decisional.

5. Numa teorização que lhe era muito própria, ele apresentava-nos a Opinião como a segunda fase de um processo pessoal, consciente, no final do qual o sujeito (cada um de nós) toma uma Decisão, escolhe uma opção, profere uma sentença.

6. O Processo Decisional tem, esquematicamente 3 fases, sendo a Opinião (dimensão afectiva) a 2.ª fase e a Decisão (dimensão operativa) a 3.ª. Qual é a primeira? A 1.ª é a Informação (dimensão cognitiva).

7. É da nossa natureza humana formarmos opiniões, opiniões acerca de tudo com que contactamos. As opiniões podem ser sustentadas pelas crenças e pelas certezas; as opiniões podem ser bem informadas, intensamente intuídas, altamente ou levemente especulativas.

8. Na notável obra “O Livro da Consciência”, António Damásio, profundamente ciente da necessidade de distinguir o que se sabe com segurança do que se sabe mal e do que não se sabe praticamente nada, ao longo dos capítulos usa formulações que espelham os graus de certeza e de incerteza de que falo. Identifiquei-lhe uma vintena (falhei seguramente outras): “Tenho a certeza…”, “Sugiro…”, “Proponho…”, “Imagino…”, “Em minha opinião…”, “Com toda a probabilidade…”, “Acredito…”, “Suspeito…”, “À maneira de hipótese de trabalho…”, “Postulo…”, “Irei especular…”, “Julgo que…”, “Provavelmente…”, “Presumo…”, “É possível que…”, “Especular sobre…”, “Não se sabe ao certo…”, “Segundo me parece…”.

9. No mesmo livro, num pequeno capítulo com o nome “A sensação de vontade consciente”, António Damásio escreve assim: «Com que frequência somos guiados por um inconsciente cognitivo bem ensaiado, treinado sob a supervisão da reflexão consciente para cumprir os ideais, anseios e planos concebidos conscientemente? Com que frequência somos guiados por predisposições, apetites e desejos biologicamente antigos, enraizados bem fundo e inconscientes? Imagino que a maioria de nós, pecadores fracos mas bem-intencionados, se regule por ambos os registos, ora mais por um, ora mais por outro, dependendo da situação e da hora do dia. Seja qual for o registo em que funcionemos, mais virtuoso ou menos virtuoso, a actuação no «momento» é inevitavelmente acompanhada pela impressão, umas vezes falsa, outras vezes não, de que actuamos aí e naquele momento, com pleno controlo consciente».

10. Ora bem, as predisposições, os apetites e os desejos de que fala António Damásio, em hora de muitas verdades, não são informações. Por exemplo, quando temos de tomar decisões sobre os perigos de uma pandemia. Estamos predispostos a reagir aos ataques dos vírus, apetece-nos fazer coisas de que gostamos, desejamos estar livres dos perigos. Só que nada disto nos informa acerca dos perigos dum vírus causador de uma pandemia, e nada disto nos protege da virulência do vírus.

11. A cada indivíduo, numa pandemia, cabe informar-se, formar uma opinião e tomar uma decisão; a cada governo cabe exactamente o mesmo, só que a um nível de regulação do comportamento dos grupos humanos, das sociedades.

12. Perguntas diferentes confrontam-nos com quantidades diferentes de informação. Três exemplos: “Como é a vida depois da morte?”, "Como é que se fazem pastéis de Belém?" e “Qual é o grau de perigosidade do vírus da covid-19?” Não obstante as diferenças, não será que devemos sempre procurar toda a informação possível, reduzir o grau de incerteza e estar menos dependentes das nossas crenças e das nossas intuições – que, em geral, estão mais vezes erradas do que certas? No caso concreto do pastel de Belém, o que temos é precisamente a centenária sonegação absoluta da informação: a receita culinária. Nos outros 2 casos, a Vida está aí inteiramente aberta a que nós obtenhamos toda a informação.

13. As decisões que tomamos, com base nas informações que temos e nas crenças a que nos agarramos, nas situações importantes da vida, são marcadas pelo desejo de prudência ou pelo apetite (ou motivação) do risco. Quando é cada um a decidir acerca da sua própria vida, e na medida em que a decisão não afecte negativamente a vida de outros, é uma coisa; quando temos de tomar decisões que tenham consequência directa na vida dos outros é outra coisa — mas o dilema é o mesmo em ambas as situações: optamos pela prudência ou pelo risco?

14. Na minha opinião, cabe à Educação a essencial tarefa social de ajudar os mais novos a irem experimentando em si mesmos o vai-vém entre a prudência e o risco, e o alerta para a necessidade de sustentarem as suas opiniões com a melhor informação possível. Até para que um dia não venham a fazer parte de governos que não saibam precisamente isso: calcular adequadamente o balanço entre a prudência e o risco nas decisões que se reflectem na vida dos cidadãos que governam.

15. Há uma máxima (de tanto partilhada, tornou-se anónima — cá está: perdeu-se a informação de quem foi o seu autor —, ou foi apropriada por este ou aquele outro autor) que diz assim: “O barco está mais seguro no porto. Mas não foi para isso que os barcos foram construídos”. Esta máxima, de tão óbvia que é, torna-nos tentadores do risco. Só que também nos tornámos sábios a prever os mares encapelados e as tempestades, e a medir as nossas forças ao lado das forças dos mares e das tempestades — nestes casos manda a sabedoria e a prudência que nos recolhamos a um porto seguro.


domingo, janeiro 10, 2021

Qual é coisa, qual é ela, que nasce com a Pessoa, a Educação consolida, a Escola abala, a Economia esquece e a Política esmaga?

 POLÍTICA E EDUCAÇÃO, 2/52

Qual é coisa, qual é ela, que nasce com a Pessoa, a Educação consolida, a Escola abala, a Economia esquece e a Política esmaga?
1) E a resposta é… a Tolerância.
2) Como sempre, um título não diz tudo; e quanto maior, pior. Por isso, há que esclarecê-lo, há que, neste caso, modulá-lo, matizá-lo.

3) Para começar esse cuidado de matização, a definição, circunstancial, de Tolerância: numa conversa com o filósofo Paul Ricoeur, Jean-Pierre Changeux, biólogo e professor de Neurobiologia, enumera-a ao lado da Boa Vontade e da Paciência, depois de a referir a propósito de tentar Compreender — no caso concreto da sua fala, a propósito das religiões.
4) Não vamos complicar a definição de Tolerância, apenas proporei considerar que a Tolerância tem a ver com identificar diferenças, aceitar as diferenças, agir respeitando as diferenças e não tentar, mesmo que cordialmente, convencer os outros que as nossas crenças, as nossas perspectivas, os nossos valores, são melhores, mais justos e mais correctos.
5) No mesmo diálogo, Paul Ricoeur diz assim a propósito do uso da palavra Tolerância: “A tolerância passa, de facto, por diversos limiares: no primeiro limiar, consiste em suportar o que não é possível evitar. Mas, é preciso passar desta tolerância forçada a uma tolerância aceite e escolhida. É do interior da relação com o fundamental que há convicções diferentes da minha. A partir daí, a tolerância já não é imposta por terceiros que me dizem: guarde os seus limites, não vá mais longe; terceiros que, de fora, me impõem um constrangimento. É de dentro que reconheço que há outros diferentes de mim, pensando de maneira diferente da minha. Se assim é, o problema da tolerância ultrapassa a relação da ciência e da religião, abrange todas as convicções. Não é só a ciência que detém a chave do problema da violência entre os homens.”
6) A Tolerância nasce com cada ser humano. Sim, cada vez mais as espantosas experiências “ovo-de-colombo”, que os incríveis estudiosos do comportamento humano conseguem conceber, mostram que é assim; e mostram também outros afectos, outras necessidades e motivações — e confirmam que cada criança que nasce não é um anjo celestial que se junta a outros.
7) A Educação não terá o radical poder que António Aleixo sintetiza dos versos que dizem «Sou apenas o produto / Do meio onde fui criado»; mas tem mesmo muito poder! Tem o poder de consolidar o que de melhor o ser humano traz consigo à nascença, e o poder de amaciar, dominar, o que traz de pior. E Educação é, antes de mais, influência parental e familiar — naturalmente aceite pela criança.
8) A Escola abala. Sim, a Escola passou a aparecer na vida da criança como a primeira — e muito valorizada! — instituição social que influencia o desenvolvimento da criança, sendo até a Família a primeira instituição social a reconhecer, aos olhos da criança, a importância da Escola e do que nela fazem com as crianças e os jovens seus filhos (seus, da Família). Acontece que a Escola actual é marcada, cada vez mais, por objectivos de capacitação livresca, conhecimento fragmentado e competição entre alunos — nunca houve tantos ‘rankings’ como agora, nem prémios de excelência por se ser melhor que os outros; e a Escola põe os alunos a disputarem entre si décimas e centésimas nas suas avaliações escolares finais. A Escola, nos dias de hoje, não é socialmente agregadora, é selectiva e desadequadamente competitiva.
9) A Economia esquece. Para a Economia actual, dominada pela expansão ilimitada, sustentada no crescimento constante e no consumismo permanente, de usa-e-deita-fora, a Tolerância é uma perda de tempo — e Tempo é Dinheiro! Há muito que é assim, e não se vê maneira de deixar de ser.
10) A Política esmaga. Depois da invasão do coração da instituição parlamentar dos Estados Unidos da América do Norte, o Capitólio, é preciso dizer mais alguma coisa? Na Europa, o radical movimento a favor da Tolerância aconteceu no início da década de 50 do século XX, quando os pais fundadores da actual União Europeia ousaram quebrar a lógica tradicional dos vencedores e dos vencidos e inventaram o projecto da Europa Unida — que é feito, nos dias de hoje, desse ideal de Paz, Tolerância e União?
11) Num artigo de opinião, na edição do Público de ontem, o sociólogo António Barreto escreve assim, a propósito da invasão do Capitólio: “Como foi possível? E como se pode evitar que seja novamente possível? Esse é o verdadeiro problema. Gente como esta, programas como este e políticas como esta só são possíveis, em democracia, porque os democratas deixam, porque a democracia tem tantos ou mais defeitos, porque os democratas e as esquerdas se transformam em figuras detestáveis de arrogância e suficiência. Porque os democratas decretam e protegem os seus privilégios e nunca se esquecem de defender os seus.”
12) As interrogações postas por António Barreto obrigam-nos a trazer à reflexão o célebre Paradoxo da Tolerância de Karl Popper; e obrigam-nos a pensar a sério que queremos fazer com a Educação e a regulação da Justiça Social e Política.
13) Por cá, no jardim à beira mar plantado, que tema central tem sido debatido até à exaustão, mas que sem que ninguém consiga dar a volta convincentemente? Precisamente a tolerância com André Ventura e o o partido que lidera, o Chega: aceita-se ou não um dirigente político, ou um partido político assim, num ministério governamental, ou mesmo com primeiro-ministro? É isso mesmo: não se chega a conclusão nenhuma; e porquê? Porque não há uma cultura social e político-social da Tolerância e dos valores afins: a Paciência e a Boa Vontade de que fala Paul Ricoeur; e também a Verdade, a Honestidade, a Coerência e o Respeito Humano.
14) Sim, no meu entender, temos vindo a acentuar nas sociedades — até nas que são geralmente apontadas como os grandes bastiões da Democracia — as reacções e os comportamentos de intolerância, numa triste regressão civilizacional que, na esfera da Religião, podemos equipara ao regresso ao olho-por-olho-dente-por-dente do Velho Testamento bíblico, que, precisamente, o Novo Testamento procurou amaciar e eliminar, substituindo-o pelo Perdão e pela Tolerância.
15) Não termos nós acabado de assistir a uma vitória da Tolerância? Estou a falar dos debates televisivos das eleições presidenciais portuguesas. Quais fora os debates em que se tiveram, como o próprio disse, conversas «porreiras», até com o intolerante/“intolerante” André Ventura? Foram todos os debates com o candidato Tino de Rans. Por todos os outros — e pela Comunicação Social, em geral — considerado uma carta fora do baralho, foi o único que que conseguiu expor, sem interrupções, e sem contraditórios deliberadamente a serem ouvidos por eleitores a arregimentar, as suas ideias, os seus pensamentos, as suas parábolas, a sua cultura simples. Será que a Simplicidade é um valor irmão da Tolerância? Acho que o Tino de Rans mostrou-nos que sim, que é.
16) Tino de Rans teve o condão de pôr todos os outros candidatos a ouvi-lo, todos eles sem duas pedras na mão. Ele é que os motivou com as suas 4 pedras, a fazer lembrar a pedra do viajante que inventou a Sopa de Pedra. E como conseguiu ele isso? Os outros, como sempre o consideraram como não sendo perigoso, dispuseram-se a ouvi-lo — e seguramente todos eles aprenderam com ele! Além disso, mesmo quando contraditou os seus oponentes — e poucas vezes o fez — fê lo sempre com Simplicidade e Tolerância.
17) Ao não o considerarem, com genuína boa-fé, adversário perigoso, os outros candidatos presidenciais, curiosamente, chegaram-se ao sentimento natural, genuíno que nos bebés alimenta os comportamentos de tolerância; e esta, hein?
18) A Política Intolerante é a negação da própria Política. Será possível conceber a Política, em sentido estrito, sem Tolerância? Se não pensarmos assim, que temos nós, afinal, aprendido com a Grécia Antiga que tanto louvamos nas suas realizações e nos seus escritos?

domingo, maio 31, 2020

PARTILHAR É CONDIÇÃO NATURAL DO SER HUMANO

1) No âmbito da disciplina de Cidadania e Desenvolvimento, explorei com uma turma do 8.º ano de escolaridade, um inquérito de David Sloan Wilson, professor de Biologia e Antropologia, inquérito esse que acabou por se tornar um clássico no trabalho de alunos de Psicologia e de Biologia, a propósito do tema da Evolução do Ser humano.

2) No inquérito, muito simples, é pedido aos estudantes que indiquem as características que associam ao bem, e as características que associam ao mal.

3) Acabei por também fazer o inquérito a alunos do ensino secundário, recolhendo 30 respostas válidas do básico e 32 do secundário.

4) No geral, as respostas dos meus alunos alinham genericamente com as respostas que conheço do inquérito original, com ligeiríssimas variações. A primeira característica má é mesmo completamente sobreponível nos 3 casos: egoísmo.

5) No meu inquérito, acrescentei duas perguntas: que os alunos indicassem exemplos de pessoas boas e más que encontrassem na comunicação social. Só uma escolha passou os 50% dos 62 alunos; e foi nas pessoas más: foi Donald Trump.

6) Coerente, na prática, com a sua bem explicitada concepção de governação de um dos países mais poderosos do Mundo, Donald Trump tem retirado os E.U.A. de todos os acordos de cooperação ou regulação internacional que pode, o Presidente norte-americano não pára. Precisamente nesta altura, chega-me a casa este 'cartoon' tão elucidativo.

7) As circunstâncias em que o Mundo vive no tempo presente, amplificadas pelo massivo, acelerado  e muito agressivo comportamento da Comunicação Social, em geral, com fluxos e refluxos de informação e desinformação, são de molde a alimentar a dúvida, a insegurança e a incerteza dos cidadãos: vamos continuar com a nossa casa (leia-se: o nosso país) de portas abertas, deixando entrar e podendo sair; ou vamos, ao invés, fechar-nos em casa e aconselhar a que os outros façam o mesmo?

8) Penso que a questão não deve ser colocada na dicotomia "pessoas boas 'versus' pessoas más"; mas antes entre as características boas e as características más das pessoas. Um exemplo actual, flagrante, é a trágica e brutal morte da Beatriz às mãos do Rúben. Até à tremendamente infeliz situação, o rapaz era praticamente um modelo de jovem cidadão, ele encaixava perfeitamente na lista das características das pessoas boas, os seus comportamentos pessoais e sociais testemunhavam-nas todas. Até que...

9) Sou muito céptico na filosófica questão da luta entre o bem e mal. Veja-se o caso de Hitler, como ele dá testemunho da tão intrínseca fragilidade do seu humano: super-simplificando as coisas, podemos dizer que ele "tentou" ser bom, quando se candidatou à Escola de Belas-Artes de Viena. Não o tendo conseguido, o mal escancarou-se dentro dele, e toda a sua ascensão social e política mostra como um simples vírus, de uma única pessoa, pode disseminar-se, acordar parceiros adormecidos ou em estado latente noutras pessoas e dominar completamente um poderoso país, e quase o Mundo todo.

10) Estarão os grupos humanos condenados à vitória do mal sobre o bem? Não, creio convictamente que não estão. Com a mesma convicção, afirmo que resignarmo-nos a essa sorte, deitar a toalha ao chão, é negarmos a nossa própria natureza. E é essa consciência e essa pedagogia junto, não apenas dos mais novos, mas de todos os cidadãos do Mundo, que é a razão de ser deste apontamento.

11) Não vou invocar Konrad Lorenz, já o fiz bastas vezes. Vou onvocar António Damásio e David Sloam Wilson. Damásio leu Wilson, não sei de Wilson leu Damásio. No que aqui trago, Damásio fala de altruísmo e Wilson fala de partilha.

12) Diz António Damásio:
«A cooperação desenvolveu-se como irmã gémea da competição, o que ajudou a seleccionar os organismos que exibam as estratégias mais produtivas. Consequentemente, quando hoje nos comportamos de forma cooperativa, com uma certa dose de sacrifício pessoal, e quando designamos de altruísta esse comportamento, isso não quer dizer que os seres humanos tenham usado o seu bom coração para inventar a estratégia cooperativa. [...] A questão do altruísmo é um excelente ponto de partida para a distinção entre as primeiras "culturas" e a sua variedade madura. O altruísmo tem a sua origem na cooperação cega, mas pode ser analisado e ensinado no sei das famílias e nas escolas como estratégia humana deliberada. [...] Nada garante que resulte sempre, mas existe como recurso humano consciente, presente através da educação.» (1)
13) E diz ainda o seguinte:
«A homeostasia básica tende a cumprir o seu dever relativamente a cada organismo cultural separável e nada mais. Deixados por sua conta, sem o efeito equilibrante de esforços civilizacionais determinados, visando algum grua de integração, e sem o benefício de circunstâncias favoráveis, os organismos culturais não tendem a coalescer.» [aglutinar, ligar, unir] (2)  

13) Por seu lado, David Sloam Wilson afirma:
«Esta e outras experiências revelam que a mentalidade humana se baseia fundamentalmente na partilha. [Não serão o altruísmo e a partilha o oposto do egoísmo?] Se não partilhámos intenção e atenção, nem sequer podemos fazer uma coisa tão simples como apontar para um objecto de interesse mútuo e muito menos partilhar os nossos comportamentos e representações simbólicas. Felizmente, a partilha faz parte do nosso meio social externo há tempo suficiente para se ter incorporado geneticamente nas nossas mentes, tão profunda e subconscientemente que não a reconhecemos como partilha até a estudarmos por métodos científicos.» (3)
14) As constatações científicas  de Wilson devem ser muito do agrado dos defensores da completa separação ente o Homem e os outros animais: é que os nossos parentes evolutivos mais próximos não apresentam esta capacidade de partilhar; mas o bebé humano, espontaneamente, apresenta!

15) O que será uma contrariedade para os criacionistas é terem de admitir, simultaneamente, que a competição, essa sim, é parte intrínseca do património comportamental tanto de símios como do Homem. Em conclusão, o que nos eleva é o altruísmo, é a partilha.

16) Penso que acabamos por nos confrontar com as duas grandes tarefas dos grupos humanos: a transmissão cultural (a Educação), e a regulação da vida cívica (a Política).

17) E voltamos à ideia dos jovens sobre as pessoas más, voltamos a Donald Trump. O que tenho achado especialmente interessante e promissor é ver que, apesar da quase violenta assertividade dos presidentes Trump e Bolsonaro (a 2.ª escolha, também destacada dos meus alunos), os sistemas de distribuição democrática de poder, regulando, aplacando a intensidade do egoísmo, e do despotismo, funcionam: ao nível dos governos regionais, de estados, ou distritos, os todo-poderosos presidentes têm de aceitar e resignar-se ao limite do seu próprio poder presidencial.  Logo, a Política é mesmo importante! A regulação formal da vida cívica, não pondo, como simbolicamente se diz, todos os ovos no mesmo cesto, é amiga da, está em sintonia com ela, condição básica, genética, do ser humano: a partilha, o altruísmo.
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(1) António Damásio, "A Estranha Ordem das Coisas", 2017, Lisboa, Círculo de Leitores - Temas e Debates, p. 322.
(2) António Damásio, "A Estranha Ordem das Coisas", 2017, Lisboa, Círculo de Leitores - Temas e Debates, p. 299
(3) David Sloan Wilson, "A Evolução para Todos", Lisboa, Gradiva, 2007, p. 244.

sábado, abril 18, 2020

Regresso ao Futuro

«Professor, para algo novo, diferente, inesperado, não seria importante uma resposta nova, diferente, fora da caixa? O que os professores estão a tentar fazer é heróico, esta adaptação gigantesca em tempo real, creio que só falta fugir um pouco ao modelo de aulas presenciais, ao esquema do toma para aí uns trabalhos e umas fichas e até já. Eu que adorei as suas aulas adorava saber que coelhos vai tirar da cartola para estes tempos que aí vêm. Força e grande abraço!»
O António, que foi meu aluno há muito tempo, desafia-me a tirar um coelho da cartola para os tempos que estamos a viver no ensino, e para os que hão-de vir.
Ora bem, para os que hão-de vir é mais fácil, o que é fácil prever é uma aposta maior, mais a sério, nas tecnologias digitais à distância, equilibrando-as com as aulas presenciais. Vai certamente haver muita tentativa e erro, muita polémica, muita tentação burocratizante — eu digo mesmo: até estalinista — dos governos centrais para controlar os procedimentos de professores e alunos. Espero que alguma coisa de boa saia disto, até porque seguramente eu já não estarei no activo da docência quando esse tempo estabilizado, que harmoniza a relação pessoal directa entre professor e alunos; os recursos didácticos tradicionais e os digitais; as aulas presenciais e à distância, finalmente chegar. Até lá, muita água correrá a gente está fartinha de saber onde, muitas polémicas, muitas contradições, muitas tentativas e erros; muitos “sábios” e poucos sábios.
O tempo de tirar coelhos da cartola é o tempo do Presente, o que está a acontecer, o que estamos a viver.
Tanto há para dizer de premissas e contextualizações que, se fosse por esse caminho, não saberia escrever menos do que 10 ou 12 páginas A4, e ninguém, nem o António!, teria pachorra para as ler. Por isso, vou atalhar.
Passou uma semana de aulas à distância, oficialmente assumidas para todas as escolas. A Telescola vai começar na próxima segunda-feira. Os professores estão afogados em tarefas, desde as mais burocráticas às mais pedagógicas. É fácil resvalar (estou a falar do ministério da tutela e das direcções dos agrupamentos de escolas) para a tentação de lhes pedir sol na eira e chuva no nabal: procedimentos burocráticos imensos, muitas fichas e mapas para preencherem; e disponibilidade total para gerirem, em aulas de 30 minutos (isso, 30 minutos!) a condução de trabalho presencial, obrigatório, síncrono e mais outro tanto, por extensão, assíncrono — com a mais competente das pedagogias, com recursos de comunicação à distância insuficientemente preparados, com alunos e professores com pouca “literacia digital”; e tendo sempre em mente essa coisa a um tempo sacrossanta e diabólica que é a avaliação final dos alunos!
Repare-se o que é estar a querer que os professores consigam, em um ou dois meses, que todos (repito, alunos e professores) participem adequadamente em “aulas” de 30 minutos.
Eu tenho uma turma de 30 alunos. Tenho mais sorte que a generalidade dos meus colegas, que têm normalmente bem mais do que uma. Ora bem, 30 minutos a dividir por 30 alunos dá… pois, muito menos que um minuto por aluno, já que o professor também deverá fazer qualquer coisa; há sempre um ou outro que se atrasa um bocadinho, espera-se por ele; e as “salas de aula” digitais não estão preparadas para que os professores façam a gestão adequada dos grupos. E há, como já se estão a espalhar por aí em vídeos ilustrativos, as interferências marotas, perversas, até mesmo muito maldosas.
Este é o caldo em que os professores se esforçam por explorar os conteúdos programáticos tradicionais, que aqui ainda estão de pedra e cal, praticamente intocáveis. Sempre o espectro dos exames no futuro!
Quer dizer que isto está tudo mal? Claro que não! Até penso que não pode ser de maneira muito diferente. Para aprender é preciso tempo. Até os génios das informáticas precisam de tempo para fazerem salas de aula digitais, à distância, que funcionem bem. Não tenho dúvidas nenhumas que eles estão na primeira linha dos que estão a aprender neste tempo de inesperada turbulência no ensino, em praticamente todo o mundo.
Não sei se estou a tirar algum coelho da cartola, mas a aula que eu chamarei matriz para esta altura é a aula-não-aula.
A Psicologia Social já há muito que mostrou que nós não podemos ser, ao mesmo tempo, o sujeito que age, o espectador que se observa a si-mesmo e o estudante que vê o sujeito e a sua acção como objecto de estudo e aprendizagem nos livros e nos computadores.
O tempo que vivemos agora é um tempo histórico, único, como nunca houve antes nem alguma vez vai acontecer outra vez — é que não amor como o primeiro.
As minhas aulas agora são, todas elas, organizadas sob a égide do protagonismo dos alunos no tempo histórico que está a acontecer na vida deles — tanto o que é bom, como o que não é bom.
Eu só posso falar do que sinto se sentir; eu só posso pensar no que faço, ou fiz, se fizer ou se tiver feito; eu só posso guardar memória das minhas acções se as realizar, se não for um simples espectador das coisas que acontecem à minha volta.
Logo que o confinamento começou, eu sugeri que nas famílias se suspendesse o estatuto de pais e de filhos e passasse a vigorar, em período de quarentena, o estatuto partilhado, igualizador, de cidadão, e dei exemplos de como isso se traduziria na vivência do dia-a-dia de todos em condição de confinamento em casa.
Por isso eu advogo que as aulas devem ser, em geral, conduzidas de maneira a que os alunos olhem à sua volta e sejam protagonistas activos de um tempo único na História dos Homens e das Sociedades Humanas, Não lhes roubem essa oportunidade única, não os fechem ainda mais em casa, no reino desvitalizado dos livros e das matérias escolares.
No fundo, foi isto que a Greta Thunberg quis fazer: ser protagonista do seu tempo, não apenas uma espectadora das coisas do Mundo a passarem por ela.
Como imortalizou a pintora Maria Helena Vieira da Silva, em tantas pinceladas do 25 de Abril, “A Poesia está na Rua”; e nós, paradoxalmente, fechados em casa! Mas o tempo é mesmo de Poesia! Não se roube aos miúdos de desfrutarem esse tempo.
No teu tempo de escola, António, ainda muito se visitava o Clube dos Poetas Mortos, em que o professor Keaton desafiava os alunos a acrescentarem o seu verso à grande sinfonia do Mundo. Não é este o tempo de deixarmos as crianças e os jovens viverem o tempo, penetrando nele, e assim ganhando inspiração para o seu verso?
Para lá da dramática pandemia, que está ao alcance dos alunos verem e fazerem acontecer?
É inegável que se abriu, escancarou mesmo, uma janela de oportunidade para o tremendo valor da Solidariedade Humana. É inegável que o Ambiente, perante a intensa redução da actividade humana, reagiu prontamente e baixou imenso os níveis de poluição, limpou os canais de Veneza, fez regressar os animais a lugares donde já tinham desaparecido, parecia que definitivamente.
Perante o terrível espectro das alterações climáticas, o Ambiente respondeu, nesta janela de oportunidade, «Estou pronto!»
Este é o tempo em que as gerações do Futuro têm aqui a sua viagem, o seu Regresso ao Futuro. Sim, mudar é possível! Sim, é possível deter as alterações climáticas! Sim, é possível as pessoas serem mais solidárias! E não é porque isso está nos livros de estudo! É porque está mesmo a acontecer!
Não tirem as crianças e os jovens das janelas! Não os obriguem a estar fechadas no quarto ou na sala com os olhos nos computadores ou nas aulas da Telescola! Deixem-nas viver o tempo do Futuro! Deixem-nas ser protagonistas desse Futuro!
António, não são quimeras, não são sonhos de uma noite de Verão! É a realidade a acontecer à nossa volta!
Querem os jovens a acreditarem no Futuro e a apostar nele? Então deixem-nas ser protagonistas do Livro da Vida que está a acontecer nestes dias, nestas semanas, nestes meses.
O Futuro é possível. O Futuro que desejamos para os nossos filhos e netos está agora a acontecer. Deixem ao jovens saboreá-lo. Conhecendo-o, na primeira pessoa, mais convictamente lutarão por ele. A Utopia é possível, António!
Já escrevi demais, já me fizeste escrever demais. Mas sei que muito mais escreverei acerca destas coisas.
Para já, nas minhas aulas, o repto, o desafio é então esse (só mesmo 2 ou 3 exemplos):
· Tens que estudar os “Riscos” na disciplina de Cidadania e Desenvolvimento? Muito bem. Olha à tua volta: que riscos corremos quando desrespeitamos o equilíbrio ambiental? Estão a ver que pode haver um Ambiente melhor caso não punhamos em risco as pessoas, os animais e a Natureza? Estão a ver os riscos em que pomos o Homem caso desrespeitemos a natureza dos lugares que habitamos e consumamos os recursos naturais desreguladamente? Ou os riscos que criamos para o Homem quando exploramos cegamente a vida dos animais pensando que eles nos pertencem de pleno direito?
· Tens que estudar os Processos Afectivos nas relações individuais e de grupo? Repara como se sentem as pessoas quando os afectos são positivos… Repara como se sentem as pessoas, e o que conseguem quando a solidariedade domina sobre a competição…
· Tens de estudar o conceito de Recaída nos grupos humanos em risco? Repara se recaímos nos comportamentos consumistas e acelerados dominantes no tempo de antes da pandemia e do confinamento? O que voltamos a perder? Será que o que recuperamos vale o que vamos outra vez perder?
António, este texto foi escrito de rajada, sei que aqui e ali vou reformulá-lo, corrigir, modificar, acrescentar, cortar. Mas o essencial da resposta à questão que me puseste está cá:
O coelho da cartola é a aula-não-aula. Ajudar as crianças e os jovens a olhar à sua volta, ver o que está a acontecer; e a olharem para dentro de si, tomando consciência do que estão a sentir. Conversar com eles sobre tudo isso. Sugerir-lhes olhares e objectos de atenção e exploração. Fazer cada um o primeiro protagonista do seu próprio Futuro. Nada como o que está a acontecer pode dar tanta esperança no Futuro e na Vida aos jovens. Nem a mais sofisticada plataforma digital, nem o mais pintado dos professores.
O professor de agora é o genuíno pedagogo: o que conduz discretamente o aluno para a escola, e a escola é o mundo que está a acontecer à volta do aluno. Deixem-no desfrutar do que está a acontecer! Não sei se mais alguma vez na vida terão essa oportunidade. Mas, se olharem bem à sua volta, verão e formarão a mais absoluta das convicções: «Sim, é possível!»
Forte abraço, António! Obrigado pelo desafio que me lançaste. Votos de um Futuro promissor para os teus filhos!

segunda-feira, março 23, 2020

COVID-19: A GESTÃO DA ANSIEDADE, 1

COVID-19: A GESTÃO DA ANSIEDADE, 1

Não olhes já para a meta. Não a vais ver, e ficarás aflito - podes sentir-te incapaz e indefeso.
Olha só para os passos que podes dar hoje. Um dia terás a meta à vista.
É uma corrida individual, mas não é solitária, estamos todos nela.
Boa prova!

domingo, fevereiro 16, 2020

Ninguém nasce ensinado, então por que razão as crianças fazem tudo bem?

Eu tinha pouca coisa para pesar e pagar. Estava com tempo.
À minha frente, na caixa de pagamento do bem apertado estabelecimento de frutas e legumes, no rés-do-chão do meu prédio, estava uma senhora e uma menina, bem pequenina, mal me chegava à cintura.
Não lhes via as faces, estavam viradas para o pequeno balcão de pesagem e pagamento. A menina, à direita da senhora.
A senhora esvaziou a cesta laranja que tinha pousada em cima do balcão. O senhor chinês, do lado de lá, ia pesando os sacos de plástico com as compras.
Cesta esvaziada, a senhora virou-se sobre o seu lado direito, e, pondo-o no chão, diz para a menina:
- Vá, vai arrumar ao pé dos outros.
A menina, sem dizer nada, pegou logo na cesta e, enquanto se dirigia para a entrada do estabelecimento, ainda ouviu a avó dizer-lhe:
- Se precisares de ajuda, chama-me.
- Não é p'eciso, avó.
Por um instante olhei mais demoradamente a avó, que se preparava, com o ar mais tranquilo deste mundo, para pagar, largando de vista a pequenina menina.
Passei então a olhar a menina. Ela caberia perfeitamente dentro da cesta, bastaria que se dobrasse sobre si mesma.
A menina pôs a cesta dentro do molho de cestas, com ligeireza; felizmente, só 4 ou 5 lá estavam, senão, a menina não teria altura suficiente para fazer o gesto necessário para encaixar a sua cesta dentro das outras.
O outro senhor chinês da pequena loja olhava a menina, ao pé dela, falava-lhe, mas deixava-a sozinha na sua tarefa.
É nesta altura que eu fico especialmente deliciado com o que a menina, sem que alguém lho encomendasse, passou a fazer.
Para ela, é lógico, é óbvio, que as cestas para as compras são para estar à entrada do estabelecimento - e entrada é mesmo entrada, logo ali à pontinha! Então, que fez ela: depois de pôr a cesta dentro das outras, não podendo pegar nelas, arrastou-o o molho das cestas, o qual, na avaliação dela, estaria demasiadamente para dentro do estabelecimento, ou seja, fora do lugar. E foi com precioso cuidado que alinhou a base das cestas com o bordo de entrada na loja! Ficou perfeito!
Olhou o senhor chinês, o senhor chinês sorriu para a menina e agradeceu-lhe a inteligente e muito prestável colaboração, absolutamente voluntária.
A menina chegou-se depois à avó, que, de mão direita estendida, recebia o troco.
- Já está, 'vó.
- Boa, eu também estou quase despachada... Já está, vamos.
Arrumou o troco dentro do porta-moedas, guardou o porta-moedas e, encostando a mão mansamente nas costas da neta, disse-lhe, sorrindo: «Vamos». Saíram, tranquilamente.
As crianças não nascem ensinadas. Então, por que razão sabem fazer as coisas assim tão bem feitas?
A razão não é uma só. São duas razões:
a primeira é ter uma avó assim, que intui o que a neta é capaz de fazer sozinha e sabe que de pequenino é que se torce o pepino;
a segunda é ter um senhor chinês que sabe quanto vale a mente de uma criança, que faz porque é capaz, e tem a intuição de que a vida é gregária, eu-sou-a-minha-comunidade.
A avó não agradeceu à neta porque não tem de agradecer, mostrou-se confiante e carinhosa como deveria ser. O senhor chinês agradeceu porque isso lhe competia, já que a menina teve um gesto voluntarioso de colaboração e ajuda.
Parece-me que a comunidade humana da minha rua se cumpriu neste pequeno nada, e uma valorosa cidadã está aqui a formar-se como bem deve ser. Porque a comunidade está envolvida na educação da criança. “É preciso uma aldeia inteira para educar uma criança.”, não é o que nos dizem ser um provérbio africano?

sábado, fevereiro 01, 2020

TRIBALISMOS; E OS 7 MIL MILHÕES DE OUTROS

Penso que José Pacheco Pereira tem razão quando procura caracterizar os tempos em que vivemos como os de (nova) ascensão dos tribalismos - do tipo em que expressam mais as suas componentes negativas, destruidoras, do que positivas ou construtivas.
Escreve ele assim, no Público, hoje:
«O tribalismo dos dias de hoje é outra coisa, é no seu cerne antidemocrático, destruindo, com o precioso incentivo das redes sociais, um espaço público mediado pela verdade, pelo saber, pelas instituições da democracia, partidos e sindicatos, mas também pela família, pela escola, e mesmo pela igreja. O terreno impante de ressentimentos, violência, anti-intelectual, completamente de costas voltadas para os factos e para a verdade, sedento, não de autoridade, mas de autoritarismo, profundamente solitário diante do Facebook e do Instagram, em que estão viciados, e incapaz de pertenças sociais a não ser a grupos agressivos contra tudo e contra todos. Vêm aí os bárbaros, como no poema de KavaÆs, mas não são os bárbaros que precisamos, aqueles que “talvez fossem uma solução”. Esses nunca chegaram e estes são outra coisa e não nos vão ensinar a ser outra coisa. Vão obrigar-nos a ser nós mesmos, mas pior.»
Assim que li o artigo de José Pacheco Pereira fui revisitar os fascinantes vídeos dos "7 Mil Milhões de Outros". Temos cada vez mais medo de olhar os outros nos olhos, de os conhecer e de os reconhecer. Estes vídeos - uns muito pequenos, outros assim-assim, outros grandes, dão para todos os gostos - ajudam-nos na reaprendizagem do contacto com os outros, e na educação da consciência de que somos muito mais iguais a eles do que pensamos.
Convido-vos a todos a passarem por eles de vez em quando. Muitos deles têm já boas legendas em português.

sábado, janeiro 04, 2020

SEREMOS BOLA DE NEVE EM PLANO CADA VEZ MAIS INCLINADO?

SEREMOS BOLA DE NEVE EM PLANO CADA VEZ MAIS INCLINADO?

Michael Sandel, há meses, na conferência da FFMS, disse que o problema actual foi que
transformámos a economia de mercado, boa, em sociedade de mercado, má.
Comentarei eu: quem sabe, em resultado do império das concepções utilitaristas do 'velho' Jeremy Bentham.
Numa das anedotas que recolhi neste Natal apanhei o que me parece ser um bom exemplo disso:
"Negócio falhado"
Um grande capitalista americano tem uma audiência com o papa e propõe pagar-lhe um milhão de dólares se, daí em diante, se disser no pai-nosso: «Dai-nos hoje a nossa coca-cola...»
Apesar de insistir, é posto imediatamente na rua. Começa a afastar-se, resmungando:
«O pão nosso de cada dia... o pão nosso de cada dia... Sempre gostava de saber quanto lhe pagaram os padeiros!..»

segunda-feira, novembro 04, 2019

COMO PODEMOS PENSAR O QUE NÃO CONHECEMOS?

COMO PODEMOS PENSAR O QUE NÃO CONHECEMOS?

Viagem pelas curvas e contra-curvas do Muro de Berlim

COMO PODEMOS PENSAR O QUE NÃO CONHECEMOS?
Sem informação, sem conhecer, podemos pensar com base em crenças, em estereótipos, e em preconceitos.
As crenças, os estereótipos, os preconceitos ajudam a pensar - não podemos passar sem eles! São atalhos, são filtros, de que a mente se serve para poder pensar mais, mais depressa e melhor.
O grande problema é quando as crenças, os estereótipos e os preconceitos são negativos. Também é problema quando os governantes, os deputados, os partidos; os donos e os protagonistas da comunicação social; os pais e os professores os usam perversamente e desonestamente e/ou ignorantemente na formação das mais jovens gerações.
Que os genuínos protagonistas da sã educação - que encontramos em muitos pais e em muitos professores - saibam sempre estar presentes e vencer esta cada vez mais importante batalha da Educação! A educação familiar e escolar; a educação formal e informal; a educação pública e privada.
 

sábado, novembro 02, 2019

Nada está na inteligência que não tenha estado antes nos sentidos


Há 30 anos que caminho para a escola, a dar aulas de Psicologia. Sim, começou em 1989.
Em Novembro de 1981 acabei o curso de Psicologia.
Em 1979 ouvi ao meu mestre João dos Santos, em muitas ocasiões - era uma frase de que ele gostava muito -, a frase que, afinal, eu já conhecia das minhas leituras livres dos filósofos pré-socráticos: «Nada está na inteligência que não tenha estado antes nos sentidos».
Há 30 anos que, todos os anos, os alunos me vêem a citar a frase.
Ontem reencontrei-a nos escritos de Comenius:
Efectivamente, porque nada pode ser objecto da inteligência que primeiro não tenha sido objecto dos sentidos, a mente recebe dos sentidos a matéria de todos os seus pensamentos e não pode desempenhar a função de pensar senão por meio da sensação interna, ou seja, contemplando as imagens abstraídas das coisas. Daqui resulta que, danificando o cérebro, danifica-se a faculdade imaginativa, e se os membros do corpo estão doentes, é afectada também a mente. Por isso, o poeta teve razão em dizer: "Deve pedir-se a mente num corpo são"».(1)
Os sentidos pedem o olhar - olhar e ver com olhos de ver; o ouvir - e para ouvir é preciso, tantas vezes!, que os professores se calem e se desliguem os aparelhos; pedem o cheirar - cheirar muito mais que os perfumes e os desodorizantes, e os ambientadores; pedem o saborear - e o desafio do saborear, e saborear não é apenas juntar açúcar ou muito sal; e, finalmente, pedem que se sinta com os dedos, as mãos, a pele, todo o corpo - se sintam os outros corpos e toda a Natureza. E quanto é bom irmos falando de tudo isso uns com os outros!
Olho à minha volta, observo os decisores políticos, os formadores dos professores, os professores dos alunos, os psicólogos conselheiros dos professores e os especialistas das ciências da educação. Olho e fico afligido com o que vejo: sabemos todos tão pouco! Sabemos todos cada vez menos! E, à medida que cresce a nossa ignorância, cresce a nossa arrogância no pouco que sabemos.
As salas de aulas no nosso País são, paradoxalmente - nós que temos uma luz natural que mais de meio mundo inveja! -, locais de (não)vida cada vez mais escuros: fecham-se as janelas, correm-se as cortinas, ligam-se os projectores, apagam-se as luzes -  e lá fora os dias estão tão lindos! Até os dias cinzentos, até os dias de chuva são lindos!
Há poucos dias ouvi uma conferência com três sumidades científicas no campo da maneira como aprendemos: um velho (e português), um assim-assim (estrangeiro) e uma jovem investigadora - o velho foi sábio, foi prudente; os outros dois deixaram-me a pensar como é fácil fazer duma árvore uma floresta, e duma andorinha a Primavera.
Dizia ontem o Pe. Vítor Gonçalves, na sua homilia do Dia de Todos os Santos, na Igreja de São Domingos, na Baixa de Lisboa, que não nos devemos resignar a passar como os outros passam, olhar e não ver, passarmos e sermos indiferentes - logo desde as coisas mais insignificantes do dia-a-dia..
Eu pensava que eu era assim só por causa do mau feito da minha avó Amélia, que nunca passava indiferente, e não importava o estatuto, a condição, os punhos rendilhados ou as convenções sociais delicadamente (ia a escrever doentiamente) sensíveis.
Afinal, parece que há valores que reclamam que a gente diga e aponte: são os valores que tentam que sejamos todos melhores uns com os outros - e a Educação é a mais nobre acção social e geracional de todo o Mundo.
Pronto, esqueçam o meu mau feitio, mas não se esqueçam da afirmação que também Comenius nos traz em eco.
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(1) Coménio, "Didáctica Magna", FCG, 2015, 6.ª edição, p. 198.