No Maio de 68, em Paris, os estudantes escreveram nas paredes "É proibido proibir". 50 anos depois, a acabar o Maio de 2018, a Netflix determinou aos seus funcionários "É proibido olhar".
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| Autor: Atelier Popular |
Paradoxalmente, o narcisista Homem da Civilização Ocidental, acabara de criticar no Outro o uso da burca; e depois legislou contra o uso do véu. E levou os agentes da polícia às praias para obrigarem as senhoras a despirem-se, a mostrarem-se.
No Maio de 68, os estudantes escreveram nas paredes "A beleza está na rua". 50 anos depois, a FIFA pede que não se mostre a beleza feminina dos estádios de futebol (2), que, entretanto, deseja que seja uma valente festa nas ruas.
Em tantos Maios, de tantos 68, a Cultura Ocidental acolheu, celebrou e homenageou a Nudez Artística do Homem. Em 2018, o Grande Irmão do Facebook lançou algoritmos e censores vigilantes que procuram tirar o Nu, antes consagrado, do democratizado acesso de todos os cidadãos, nas redes sociais digitais, às produções artísticas que o Ocidente consagrou como expressão superior do génio criativa do Homem na plenitude do seu potencial mental.
O meu querido amigo Hugo Pardal, saudoso aluno de há muitos anos atrás, perguntou-me hoje, logo pela manhã, à primeira vista muito ligeiramente:
«O professor é que percebe de psicologia. Ajude-nos a perceber porque razão a sociedade actual condena o que a natureza produziu. Quando me visita na Vidigueira?»
Respondi-lhe brincando com os "ares" que na Vidigueira abrem a alma às palavras, segundo o velho "In vino veritas". O dia foi passando, mas o desafio do Hugo não me saiu da cabeça - até que se tornou muito claro na minha mente que o desafio merecia a atenção e o respeito de uma resposta.
É o que vou tentar fazer, numa série de pretensiosas "teses".
Caro Hugo, cada uma delas, em si mesma, pouco ou nada vale, e todas te parecerão muito insatisfatórias; mas, no seu conjunto, tomando cada uma delas uma perspectiva diferente, talvez eu chegue ao meu objectivo: ajudar a perceber o porquê destas coisas, como dizes, aparentemente tão anti-natura.
Hugo, dá-me tempo, e não me peças um irrepreensível ensaio filosófico, nem um rigoroso estudo psicológico; ou uma análise sociológica de exigentes procedimentos metodológicos.
Para já, um forte e grato abraço pelo teu desafio, em que ponho sincero e entusiástico empenho.