sábado, julho 14, 2018

Olhar/Ser atraente, Tese 5: Quem não precisa de favores de ninguém rega mesmo quando chove.

Autora: Aleksi Siirtola, Finland
Sufocados em catadupas de informação (tese 1), incapazes de filtrá-la (tese 2), cada vez mais preocupados com a nossa imagem pública (tese 3), cada vez menos à vontade com o Outro, que nos é cada vez mais Estranho (tese 4), afirmamos cada vez mais, a qualquer preço, a nossa individualidade e os nossos inalienáveis direitos cívicos e políticos - o absoluto primado do Singular! Distorcemos e renegamos o primado da nossa condição biológica básica - sobretudo o ser humano! -, que é a de sermos parte do grupo-família (e senão se lhe quiser chamar família, chame-se-lhe grupo-nascimento). Antes de sermos indivíduos, somos díade, tríade, "multiplídade" - esquecê-lo é renegar a nossa natureza humana.
Estamos todos a aprender que não somos estritamente dicotómicos: homem-mulher, branco-preto, inteligente idiota, migrante-não migrante, puros-misturas; isso sim, despertamos cada vez mais para os matizes, as nuances, as composições - e tudo isso requer aprendizagem e reaprendizagem; perda de rotinas e criação de novos hábitos; abandono de estereótipos antigos e inconsciente substituição por outros, novos; esvaziamento de preconceitos e emergência involuntária de outros que demorarão ainda algum tempo a identificar.
Há uma anedota - tinha de ser alentejana! - em que alguém apanha um senhor a regar os seus canteiros em dia de evidente chuva. Instado a responder por que razão o fazia, o homem, muito sério, respondeu com a proverbial lenta assertividade: «Não preciso de favores de ninguém.»
A Finlândia anda cada vez mais nas bocas do mundo. Agora até por causa do futebol, e da maneira como, através deste desporto, a sociaeda finlandesa resolveu o problema da noctívaga vagabundeagem, ociosa, de um número crescente de jovens de tão longínquo e estranho país. Alarmantemente ociosa.
Ora bem, há alguns meses estive com um rapaz, velho associado dos saudosos Traquinas da Boa vida. Ele está há vários anos a viver e a trabalhar na Finlândia, país com sistema político em vigor que muito promove e assegura a paridade entre os sexos em todos os níveis da experiência cívica, hierarquias laborais e relações políticas do país. Contava-me ele que, se um homem for na rua, se deparar com uma senhora vergada ao peso dos sacos do supermercado e se se dirigir a ela a oferecer-lhe ajuda, arrisca-se a ser por ela insultado pelo "evidente" machismo, como se ela não fosse capaz de carregar sozinha com os sacos!...
É como já o disse: são tempos de aprendizagem, de novos equilíbrios, de revisitação do bom senso; da recuperação da confiança pessoal e de redução da tensão emocional.

Grau Zero da discussão: Olhar é proibido, ser atraente é... desaconselhado.
Tese 1: Porque me morrem os manjericos?
Tese 2: (Des)tapar o Sol com a peneira.
Tese 3: Espelho meu, há alguém mais bonito do que eu?
Tese 4: Querem lá ver que o idiota... sou eu.
Tese 6: É a Política, estúpido, mas não só!

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