segunda-feira, abril 16, 2007

Mamã, nós cá em casa acreditamos no Inverno?


"Momma, do we believe in winter?"
(in Portnoy’s Complaint, de Philip Roth, 1969)
Esta pergunta, ao que parece, feita pelo pequeno Alexandre (o próprio Portnoy) presta-se a muitas e variadas interpretações, desde as que a encaram no mais estrito sentido clínico, doentio, até às que a encaram de um ponto de vista fantasista, poético mesmo, sugerindo laços pessoais e intensidades emocionais que, por vezes, se situam nos antípodas uns dos outros.
Hoje participei (mais uma vez, a convite do meu muito querido colega e amigo Acúrcio) num debate na Escola, aberto a alunos e professores da Escola, no âmbito do lançamento da Semana de E. M. R. Católica, e em que o documentário de Al Gore, Un Inconvenient Truth, se constituiu como o ponto de partida do debate.
O debate foi pouco participado pelos alunos. Do pouco que disseram, e também da impressão geral que a dinâmica do auditório me deixou, fiquei com a ideia de que faltam perguntas daquele género na vida dos nossos jovens.
Há muitas maneiras e exemplos de afirmações, perguntas e comentários que denunciam o esforço, a tentativa das crianças e dos jovens em participar numa espécie de, digamos, cultura e sistema de valores familiares. Provavelmente isso tem a ver com necessidades de desenvolvimento e integração social biologicamente inscritas na condição vital do ser humano. Mas, se calhar, nenhuma terá a força e a clareza daquela questão inicial, seja ela verdadeira na boca do seu autor, ou puro produto de ficção.
Parece-me que, cada vez menos, cultivamos a força e o prazer dos laços familiares. Parece que as famílias não têm tempo para se ocuparem com os seus membros. E sentirão que os seus membros, sobretudo os mais jovens, são cada vez mais sugados pela força da influência social fora da família, e contra a qual as famílas pouco ou nada podem já fazer.
Houve um momento em que olhei os jovens que tinha à minha frente e constatei que conhecia mais de metade do auditório, ou porque são meus alunos, ou porque já foram noutros anos.
Dificilmente encontrei alguns poucos em que a minha fantasia punha os pais a responderem-lhes coisas diferentes destas: "O que é que estás para aí a dizer?... És parvo ou quê?..." ou "Deixa-te de tolices!... Vejam lá, vejam lá, se isso é pergunta que se faça?!..." ou "Ouve lá, não tens mais nada com que entreter?... Não tens nada sério para estudar?..." ou... ou... ou...
Onde haverá o pai disponível que, perante aquela pergunta, se aproximasse do filho, poisasse a mão sobre o seu ombro, olhasse lá fora a neve que o filho estava a olhar e lhe dissesse qualquer coisa do género: É... sim, cá em casa acreditamos. E quando ele vem, temos de estar preparados para ele... Temos de habituarmo-nos a ele. O que é que tu achas?... Que achas do Inverno?... Sabes o que temos de fazer? Eu vou dizer-te. Ouve bem...
Sem rumo, sem guias, os jovens de hoje, por mais informados que estejam, terão muitas dificuldades em saber o que fazer com o documentário de Al Gore. E mesmo que a Escola passe um modelo social e proponha referências aos jovens, eles precisam sempre de algum ponto de ancoragem familiar que lhes diga que o modelo da Escola não é uma qualquer idealização, inalcançável por quem tem condições de vida muito estreitas, bem distantes das (aparentemente) idealizadas da Escola.
Próximo apontamento: 22 de Abril de 2007

1 comentário:

Marta Gomes Nunes disse...

Muito boa tarde!!
Estar em casa a um sábado é raro para mim, estar sem nada para fazer ainda mais raro se torna, ir à caixa correio, decididamente, é algo que só de quando em quando faço; mas acredito que nada é por acaso e dei por mim a visitar este seu blog, achei que devia deixar algo escrito.
Do texto que acabei de ler, acho que há muito a comentar...o documentário do Al Gore, por exemplo, foi algo que me chocou, mas que sinceramente, quando interrogada acerca do que me predispunha a fazer, nada me ocorreu...
Penso que não parte só da família aconselhar ou esclarecer as dúvidas, mas também da escola. Graças a Deus ou a qualquer outra coisa, ao contrário do que me parece acontecer na maioria da escola, eu tenho uma família na qual a maioria são formados, têm capacidade para me responder a perguntas do dia a dia, e mesmo sem perguntar me criticam ou aconselham em relação a certos comportamentos prejudiciais, tanto para mim como para o ambiente, que tenho...como por exemplo fumar...sei que está errado..mas o que penso (erradamente, eu sei) é "porque terei eu de mudar, se tanta gente o faz?". Na realidade, penso que é a isso que se deve a falta de atitude (quer a fazer perguntas num debate, quer em mudar comportamentos)individual que nos impede de melhorar seja o que for! Estamos sempre à espera que os outros dêem o primeiro passo, e depois mais outro, e mais outro...até que pensamos que "se tantos já fizeram, porque não hei-de fazer também?!"
Aqui acaba o meu comentário, espero que não lhe pareça absurdo, mas foi isto que pensei quando li o que escreveu! Continuação de bom fim de semana!