domingo, junho 29, 2008

Um pouco mais sobre Al Gore e Marlo Lewis

No sítio da Ver, está publicada uma entrevista co Marlo Lewis, Jr, (http://www.ver.pt/conteudos/ver_mais_Geral.aspx?docID=529), da qual transcrevo uma pergunta e a respectiva resposta:

Contudo e por outro lado, a evidência do aquecimento global é avassaladora e inegável para a esmagadora maioria dos cientistas. O que tem a dizer sobre este facto?
A evidência do aquecimento global é inegável. Não há qualquer tipo de discussão quanto a isso. O mundo está muito mais quente do em 1975 e o século XX, no geral, foi mais quente do que o século XIX. E também não existem dúvidas de que a emissão de gases com efeito de estufa constitui um dos factores para o recente aquecimento global (embora alguns cientistas defendam que a variabilidade natural possa ser responsável até metade do aquecimento observado durante o século XX e que os registos da temperatura da superfície terrestre podem estar “contaminados” pelos efeitos do aquecimento em locais próximos das estações de monitorização. Mas o truque retórico de Gore é declarar que estes limitados pontos de concordância constituem prova de que o mundo está em perigo iminente e que os benefícios das soluções por ele propostas ultrapassam os custos. E é neste ponto que eu e muitos outros discordamos.

Lá deixei o seguinte comentário, automatica e imediatamente publicado, o que revela a boa fé dos responsáveis do sítio. A entrevistadora foi Helena Oliveira:

29-06-2008 14:34 - Fernando Pinto, Lisboa
Para além dos ódios que Marlo Lewis parece destilar (em todo o lado onde o tenho lido) em relação a Al Gore... Para além do drama que é para nós, professores com a responsabilidade de formar e informar adequadamente os nossos alunos, eu perguntaria:

Para Marlo Lewis, Jr.,
01- O aquecimento global, mesmo que absolutamente natural, é ou não é negativo (no sentido de que reduz espécies; reduz habitats; reduz recursos; etc.) para a vida, em geral; e para os biliões de seres humanos, em particular, que hoje povoam os países e o Planeta?
02- Há ou não há um consumo excessivo de recursos naturais, manufacturados e fabricados, sobretudo nos países desenvolvidos da Europa, da América, da Ásia, e dos países "emergentes" (a China e a Índia)?
03- Há ou não há que moderar consumos e modificar estilos de vida (pensando sobretudo nos países desenvolvidos)?
04- Há ou não há que estabelecer relações de maior ajuda e de menor exploração dos países pobres pelos países ricos?
05- Há ou não há uma crise cada vez maior de água potável, que tem tendência a acentuar-se nos próximos anos, a nível mundial?
06- São ou não os países pobres os que mais irão sofrer com a previsível falta de água?
Não sei se alguma vez Marlo Lewis, Jr. falou ou foi interrogado sobre isto... Alguém me pode ajudar a sabê-lo?... Obrigado!

Al Gore, anti-Algores. Mitos e contra-mitos.

O tema das alterações climáticas e o tema do aquecimento global são temas que não consigo (ainda) observar e pensar com aquela distância pessoal (cognitiva e afectiva) que me dê a segurança conveniente para os abordar da maneira que convém aos professores em face dos seus alunos.
Assim, tudo o que for dizendo, nestes tempos em todo o lado sobre-agitados, é provisório, insuficiente e "verdadeiro-até-ver".
Assumo claramente que poderei estar a ser "redutor", "sectário", "enviesador", sei lá que mais... mas não posso deixar de dizer o seguinte:
Pretenciosamente, na mais pura tradição do "eu"-habitante da estrela Sirius, de Augusto Abelaira, desco à Terra e o que vejo?...
Vejo que os políticos e governantes do mundo discutem o assunto do Aquecimento Global; vejo que os cinetistas especialistas e os jornalistas especializados discutem o assunto do Aquecimento Global; vejo que os interesses económicos e os lobbies discutem o tema do Aquecimento Global; vejo o cidadão comum virando a cabeça, ora olhando um deles, ora escutando outro, ora lendo um terceiro; vejo um professor - ao mesmo tempo, cidadão comum - a seguir para as suas aulas, apressadamente, tentando ler as últimas coisas que por aí se dizem sobre estes assuntos...
Vejo Al Gore de livro na mão, An Inconvenient Truth [Uma verdade inconveniente]; vejo Marlo Lewis, Jr, também de livro na mão, Al Gore's Science Fiction: A Skeptic's Guide to An Inconvenient Truth [A ficção científica de Al Gore]. Al Gore grita que a floresta atrás de Marlo Lewis está a arder e aponta um suspeito que corre ali à vista dos dois. Várias pessoas e os bombeiros correm para apagar o fogo, mas Marlo Lewis grita que parem, que se deixem estar onde estão, não há perigo, o criminoso não é de certeza aquele... que só a má intenção de Al Gore o elevou a bode expiatório...
Ora, há um absurdo nesta situação, não há?... A floresta está mesmo a arder, não está?...

quinta-feira, junho 12, 2008

Charles Darwin, Sigmund Freud e a origem da felicidade

Comentário a:
Charles Darwin ao Ciência Hoje: «Ao saber livresco sempre preferi os passeios de observação e da natureza»
Fernando Pinto, em 2008-06-05 às 20:25, disse:
Este estilo de relato biográfico tem geralmente boa receptividade junto dos jovens, informa-os de maneira descontraída, pouco exigente, o que facilita a entrega à leitura.
Pela minha parte, gostaria de dizer aos jovens duas coisas, que proponho como ajudas na reflexão sobre a pessoa, a vida e a obra de Charles Darwin:
- A primeira é que ele publicou a sua obra mais célebre (para mim, não é a que mais me marcou, do ponto de vista do rigor sistemático do estudo; prefiro o seu estudo sobre as emoções), aos 50 anos... apenas... Quero eu dizer, "Malta, não tenham pressa, deixem as coisas amadurecer, dêem-lhes o tempo que elas necessitarem".
- A segunda coisa é essa semelhança com outros autores que, depois de se tornarem famosos, foram vasculhados na sua infância por alguém, e isso permitiu que se encontrasse a mesma paixão pela observação e o contacto com a vida animal. Estou a lembrar-me, por exemplo, do pai da Etologia, Konrad Lorenz, que se ligou a patos e gansos ainda menino; e montou em sua casa um autêntico jardim zoológico à medida do seu tamanho de menino. E estou a lembrar-me também de Jane Goodall, que em menina se fechou no galinheiro, horas e horas seguidas, muito pacientemente, porque logo intuiu que seria assim a única possibilidade de ver por onde as galinhas punham os ovos; e isto enquanto a mãe, aflita, a procurava com a ajuda de polícias que entretanto chamara.
Parece que Sigmund Freud, o fundador da Psicanálise, disse um dia que a felicidade é a realização de um desejo de infância.
Pessoalmente penso que não é possível negar a importância da família na ideia ou no sentimento de felicidade.
Mas que a felicidade dos autores de quem agora falei se alimentou, mais do que dos livros que escreveram, da vida e do trabalho que estiveram na origem de tais livros, pois certamente que estaremos perante experiências de vida que conferem razão à ideia de Freud sobre a origem da felicidade.

terça-feira, junho 03, 2008

Nobel da Paz, Muhammad Yunus, DE ESCRAVIDÃO?

Sinto como que a obrigação de ajudar à divulgação destas palavras do Prémio Nobel da Paz de 2006:
Hoje, nos países do Norte, as crianças trabalham duramente na escola para obterem um bom emprego. Em adultos, irão trabalhar por conta de alguém. Ora, o ser humano não nasceu para servir outro ser humano.
Um trabalhador independente, que tem uma banca, por exemplo, trabalha quando tem necessidade. Se há dias em que não quer trabalhar, pode fazê-lo. Acaba o seu dia de trabalho e aproveita um pouco da vida. Não tem ninguém a avisar se se atrasa uma hora. Não fica aflito por ir perder parte do salário.
Quando éramos caçadores-recolectores, não éramos escravos, controlávamos as nossas existências. Há milhões de anos, perdemos esta liberdade. Levamos vidas rígidas, repetindo diariamente os mesmos ritmos de trabalho. Corremos para o trabalho, corremos de volta para casa. Esta vida robótica não me parece um progresso.

Com o regime assalariado, passámos da liberdade de empreender e de uma certa flexibilidade de vida para a maior rigidez. Tenho um salário, um patrão, tenho de fazer o meu trabalho quer me agrade quer não, porque sou uma máquina de fazer dinheiro. É esse o perigo global das estruturas económicas actuais, da teoria dominante. O homem é considerado apenas como um agente económico, um empregado, um assalariado, uma máquina. É uma visão unidimensional do humano. Ser assalariado deveria ser uma opção entre várias. (Frédéric Joignot, Le Monde, 25/04/08, em Courrier Internacional, Junho 2008, n.º 148)

Pelo menos na minha representação mental do mundo, Yunus, o banqueiro dos pobres, vem da mesma cultura, do mesmo outro lado do mundo, do mesmo ponto de vista diferente do dominante na cultura ocidental, que um dia nos trouxe também Mahatma Gandhi. Por isso, mesmo que algumas das suas afirmações nos possam parecer "simplistas", "redutoras", "questionáveis", bem merecem a atenção de todos. Ajudam-nos a apontar para um caminho que nos ajuda a sair do beco sem saída para onde a ideologia e o poder capitalistas dominantes na nossa cultura ocidental actual nos trouxe.

segunda-feira, maio 26, 2008

Aquecimento global persistirá durante séculos mesmo com redução de emissões

Para além de toda a informação, contra-informação, verdades, mentiras e notícias convenientes e inconvenientes, o tema do AQUECIMENTO GLOBAL é, hoje em dia, incontornável.
No site Ciência Viva, li hoje esta notícia:
2008-05-25
Valdés alertou para a gravidade da situação
Cientistas reunidos num simpósio em Gijon, Espanha, manifestaram a convicção de que o aquecimento global persistirá durante vários séculos, mesmo que se reduzam substancialmente a emissões de gases com efeito de estufa. Os cientistas, que estão a participar desde segunda-feira num seminário sobre os efeitos da mudança climática nos oceanos consideraram que o processo "é praticamente irreversível".
Como dizia uma velha canção revolucionária, cantada pelo padre Fanhais:
"Vemos, ouvimos e lemos
Não podemos ignorar..."

domingo, maio 25, 2008

Para pensar, sobre a publicidade

Parece que numa conferência que um dos maiores neurologistas actuais - e de sempre! - fez no passado dia 20, em Lisboa, ele disse uma coisa sobre a publicidade que nos deverá pôr a pensar. Pensar muito, uns com os outros.
O neurologista é António Damásio que escreve sobre o cérebro, a mente e a consciência como mais ninguém: com encantamento, com poesia, com um fluir de palavras que parecem pedaços de água da mais pura e linda cascata a cair docemente no regaço do mais tranquilamente convidativo e hipnotizante lago. E a defesa intransigente que ele faz da língua portuguesa, sempre nela procurando encontrar a palavra ou a expressão vernácula que correctamente traduzam as palavras da língua inglesa!... Um orgulho e um assombro!...
A conferência foi "A anatomia do comportamento na era da comunicação".
A frase que uma jornalista lhe atribui é a seguinte: “Tão cedo o indivíduo não aprenderá a defender-se da publicidade.”
Como disse, é uma frase para pensarmos uns com os outros. Em voz alta, e trocando pensamentos e opiniões uns com os outros.

domingo, maio 18, 2008

17 de Maio, Dia Mundial contra a Homofobia, a liberdade individual e a família

JS afixa cartazes contra a homofobia e espera pelo BE para avançar com leis
18.05.2008, Leonete Botelho
Casamento com pessoas do mesmo sexo vai sendo trabalhado no plano dos argumentos. Lei vai esperar...

É assim que começa uma notícia da edição de hoje do jornal Público, que diz ainda que o Dia Mundial contra a Homofobia ainda não é oficialmente reconhecido pelo governo português.

No dia 13 levei uma das minhas turmas a participar numa sessão de esclarecimento, na escola, sobre a prevenção do cancro do colo do útero. Foi uma sessão muito interessante e muito conseguida. Falou-se com inteligência e entusiasmo sóbrio do que era importante falar. E mais uma vez se falou em métodos contraceptivos, em geral, e no preservativo, em particular.

No dia 16 aconteceu fazer com essa mesma turma um pequeno exercício em que as alunas tinham de escolher as "suas" sete maravilhas do mundo, em seguimento de um pequeno trabalho que um colega de uma escola grega, de Kalamata, me enviou pela Internet. Surpreendentemente para mim, a maravilha mais vezes escolhida, a que mais nitidamente recebeu o maior número de votos, foi a família.

O direito à diferença. Seja.
A edição desta semana da revista Visão fala do aumento de casos em que jovens homens se ligam maritalmente a mulheres claramente mais velhas. Seja.
A defesa e a educação das liberdades individuais. Seja.
O casamento entre pessoas do mesmo sexo. Seja.

A família, maravilha rainha numa breve aula de sexta-feira de manhã de uma escola secundária de Lisboa, é a família tradicional que todos conhecemos. O casamento, mesmo o casamento tradicional, não é sinónimo de família.

Tenho ideia que temos de agarrar a defesa do valor da família com a mesma força com que agora se pugna por outras coisas.

sexta-feira, maio 09, 2008

Sobre o Dia da Europa

Hoje falei assim na Escola, na sessão comemorativa do Dia da Europa e da Educação Intercultural, em que estiveram presentes a Senhora Alta-Comissária para a Imigração e o Diálogo Intercultural, o Senhor Presidente da Junta de Freguesia de Santa Maria dos Olivais, dois amigos do S.O.S. Racismo e alguns dos meus queridos alunos e colegas da Eça:

Eu, abaixo-assinado, declaro, por minha honra, serem verdadeiras as afirmações que a seguir apresento:
· Que eu, nascido no Oriente, português da China, da antiga Macau, fui a Madrid de 16 a 22 de Abril passado com a incumbência de representar a portuguesa Escola Secundária Eça de Queirós no 4.º Encontro do projecto de Educação Intercultural PLURALIA;
· Que fui acompanhado pelo professor e colega Onivaldo Dutra, brasileiro de língua e nacionalidade; pelo aluno da escola Alexandru Marius Casota, romeno de nascimento, nacionalidade e língua;
· Que a colega Dolores Fonseca, nascida no lugar das Falcoeiras, freguesia do Montoito, concelho do Redondo, filha de pai e mãe nados e criados no mesmo concelho, parecia ser o único professor da comitiva lusa digno representante do velho húmus viriático que definiu há séculos as fronteiras portuguesas da ibérica península;
· Que o grupo de 19 jovens do grupo de teatro que connosco foi, todos alunos da escola, era maioritariamente de origem étnica e cultural africana, de tantos países quantas praticamente as colónias que um dia Portugal teve em África;
· Que fomos recebidos numa escola madrilena em que a colega professora responsável do PLURALIA em Espanha é argentina de nascença e de infância;
· Que os alunos que maioritariamente conhecemos na escola são africanos e americanos do sul, praticamente desconhecidos em Portugal, já que os africanos de Espanha são brancos, ao contrário dos nossos, que têm vincados matizes de castanhos brilhantes e sedosos nas suas peles; e os americanos do sul de lá, da Espanha, não dançam o samba nem falam o português do Brasil que os americanos do sul de Portugal falam; e – dizem os espanhóis nativos de Espanha – nem falam espanhol, o que é claramente uma demonstração de dificuldades auditivas dos espanhóis de Espanha, porque para nós, os portugueses, aqueles seres tão sorridentes com a nossa presença, de tez e perfil inca e azteca evidentemente falam espanhol!
· Que, quando preparava à noite a entrevista a que iria sujeitar-me no dia seguinte na escola, topei, no meu computador, com as fotografias que, no fim-de-semana anterior, tinha tirado em Coimbra, à frente da Igreja de Santa Cruz, em que, quando abordava um jovem ardina para lhe comprar o velho Borda d’Água, ele, ainda antes de me dar atenção, se virou para o outro ardina que a ele se juntara e perguntou-lhe “Tu não és português, pois não?”, e o outro respondeu “Não, sou romeno”. Quando depois o “meu” ardina ficou sozinho face a face comigo, e eu lhe perguntei “Tu não és português, pois não?”, ele me respondeu “Não, sou moldavo…”
· Que, quando a colega Olga me apresentou aos alunos que me iriam entrevistar, não quis deixar de saudar o aluno da turma que tinha acabado de ganhar um prémio internacional de Matemática. Quando todos olhámos para o jovem que ela acabou por apontar, vimos uns lindos e bem altos olhos em bico de um rapazinho cujas feições não deixavam quaisquer dúvidas, apenas traídos por um agradecimento em espanhol escorreito;
· Que, quando com este rapazinho falei no fim da entrevista, ele me confidenciou que nunca tinha estado na China, e – ao contrário de mim, que fui lá nascer para não ser chinês – nem sequer lá tinha nascido. Mas ele era chinês de nacionalidade.
· Que fiz a minha última intervenção numa reunião espontânea em que, numa escola espanhola, um professor português falou em francês e portinhol com uma vintena de alunos romenos que naquela escola estudavam; e que me perguntaram o que é que eu achava das mulheres romenas;
· Finalmente que, ao jantar festivo de despedida da última noite, depois do discurso da praxe do director da escola de Madrid ser traduzido do espanhol para a língua oficial do PLURALIA, o francês, um rapazito aluno daquela escola de hotelaria, com quem eu tinha metido conversa mesmo antes do jantar começar, e que estivera todo o tempo do jantar em aula, servindo-nos, levantou o braço direito, pediu licença para falar (assim se afastando completamente do rigor quase protocolar que a farda que vestia o obrigava) e ofereceu-se para traduzir o discurso do director da escola para português. É que o pai dele era espanhol, mas a mãe era portuguesa transmontana, de Bragança, e tinha-lhe ensinado a língua que conhecia e que amava.
Por serem verdadeiros todos estes factos relatados sobre a Europa, que assim me recebeu na semana supra identificada, numa exasperantemente chuvosa capital madrilena, vai esta declaração por mim assinada e autenticada com a memória saborosa guardada no pensamento e nos corações daqueles que comigo em Madrid estiveram e dos quais eu fiquei muito grato e orgulhoso.
A todos os que hoje aqui vieram e connosco estarão até ao fim da manhã, o meu muito obrigado!

domingo, maio 04, 2008

A Thayna e os Índios Tupi Guarani

A Thayna S teve a amabilidade de me fazer umas perguntas em jeito de comentário, mais ou menos assim (no apontamento "A fala do Índio e O DIA DA TERRA" está a versão original deste comentário):

Eu gostei um pouco das histórias índigenas dos Índios Tupi Guarani. Tenho três perguntas a dizer:
- primeira: Porque os índios comem coisas diferentes das outras espécies de pessoas?
- seguda: Porque existem chefes de tribo indígena?
- terceira: Porque os tribos indígenas vestiam roupas diferentes das outras pessoas?

Bem, Thayna, o que te posso dizer imediatamente é o seguinte:
- primeira pergunta: todos os grupos humanos que fixaram um espaço de vida, como fizeram os Índios Tupi Guarani, comem o que a Natureza nesse espaço lhes proporciona espontaneamente; depois, com as trocas com outros grupos humanos, podem acrescentar coisas à sua alimentação, normalmente alimentos que depois se dão bem com o clima e com os terrenos plantados por cada um dos grupos humanos. Portanto, os índios de que falas comem o que o seu espaço de vida mais naturalmente lhes põe à disposição. Além disso, as crenças espirituais e religiosas também influenciam o que as pessoas comem. Por exemplo, em certas partes da Índia, embora haja muitas vacas e haja muita necessidade de alimentos, por razões religiosas, as pessoas não podem matar as vacas; entretanto, em África, o povo Masai tem como um dos principais alimentos o sangue das vacas.
- segunda pergunta: os grupos humanos só conseguem sobreviver e manter-se se tiverem uma organização das pessoas umas com as outras. Assim, é preciso haver um chefe, que é normalmente um homem. Repito, para que as pessoas de um grupo humano possam ter uma organização social que defenda e fortaleça o grupo.
- terceira pergunta: quase que te poderia responder aqui como fiz na primeira pergunta. Mas neste caso é importante falar das temperaturas altas ou baixas, a humidade e a secura do ar, a presença de sol intenso ou de sol fraco, a latitude do lugar, etc.

Thayna, as minhas respostas servem-te para alguma coisa?...

sexta-feira, abril 25, 2008

25 de Abril, sempre!


Quando finalmente eu quis saber
Se inda vale a pena tanto q'rer
Eu olhei p'ra ti
E então eu entendi
É um lindo sonho p'ra viver
Quando toda a gente assim quiser


Lamento que os anos a passarem uns sobre os outros nos tenham afastado, a todos nós portugueses, do 25 de Abril festivo, cada novo ano confirmando que valeu a pena.
Pela minha parte, continuo convictamente - com muita força, mesmo – a responder a responder a Fernando Pessoa que sim senhor, valeu a pena; que sempre que Abril aqui passar aqui estarei para o ajudar.
Os versos que comecei por escrever são de José Mário Branco. Escritos há pelo menos 25 anos.
Hoje, enquanto aquecia o café da manhã, fui à estante, peguei no cêdê e ouvi todo o tema, "Eu vim de longe, eu vou p'ra longe ("chulinha"). Do álbum "Ser solidário". É a minha sugestão de hoje.

Quando o avião aqui chegou
Quando o mês de Maio começou
Eu olhei p'ra ti
E então eu entendi
Foi um sonho mau que já passou
Foi um mau bocado que acabou

Tinha esta viola numa mão
Uma flor vermelha noutra mão
Tinha um grande amor
Marcado pela dor
E quando a fronteira me abraçou
Foi esta bagagem que encontrou

Eu vim de longe, de muito longe
O que eu andei p'ra aqui chegar
Eu vou p'ra longe, p'ra muito longe
Onde nos vamos encontrar
Com o que temos p'ra nos dar

E então olhei à minha volta
Vi tanta esperança andar à solta
Que não hesitei
E os hinos que cantei
Foram frutos do meu coração
Feitos de alegria e de paixão

(refrão)

Quando a nossa festa se estragou
E o mês de Novembro se vingou
Eu olhei p'ra ti
E então eu entendi
Foi um sonho lindo que acabou
Houve aqui alguém que se enganou

Tinha esta viola numa mão
Coisas começadas noutra mão
Tinha um grande amor
Marcado pela dor
E quando a espingarda se virou
Foi p'ra esta força que apontou

(refrão)

E então olhei à minha volta
Vi tanta mentira andar à solta
Que me perguntei
Se os hinos que cantei
Eram só promessas e ilusões
Que nunca passaram de canções

(refrão)


Quando eu finalmente eu quis saber
Se inda vale a pena tanto crer
Eu olhei p'ra ti
E então eu entendi
É um lindo sonho p'ra viver
Quando toda a gente assim quiser

Tenho esta viola numa mão
Tenho minha vida noutra mão
Tenho um grande amor
Marcado pela dor
E sempre que Abril aqui passar
Dou-lhe este farnel para o ajudar

(refrão)


E agora eu olho à minha volta
Vejo tanta raiva andar a solta
Que já não hesito
E os hinos que repito
São a parte que eu posso prever
Do que a minha gente vai fazer

(refrão, final)

E se as palavras que mais soarem nos nossos ouvidos forem dor, medo e raiva, peguemos nos buracos que o tempo foi roendo no grande manto da alegria e da paixão de que o poema também fala e façamos o seu remendo outra vez com as sementes das grandes utopias sociais.
No mesmo álbum, José Mário Branco repete a "Queixa das almas jovens censuradas", de Natália Correia. Vale a pena voltar a ouvir também este tema. Não resultou de um simples exercício literário, mas de uma realidade política e social que é preciso não deixar voltar, mesmo que disfarçada por todas as habilidades que as realidades virtuais de hoje em dia são capazes. A capacidade de manipulação dos grupos e das gentes é hoje mais forte do que nunca!

Dão-nos um lírio e um canivete
e uma alma para ir à escola
mais um letreiro que promete
raízes, hastes e corola

Dão-nos um mapa imaginário
que tem a forma de uma cidade
mais um relógio e um calendário
onde não vem a nossa idade

Dão-nos a honra de manequim
para dar corda à nossa ausência.
Dão-nos um prêmio de ser assim
sem pecado e sem inocência

Dão-nos um barco e um chapéu
para tirarmos o retrato.
Dão-nos bilhetes para o céu
levado à cena num teatro

Penteiam-nos os crânios ermos
com as cabeleiras das avós
para jamais nos parecermos
conosco quando estamos sós

Dão-nos um bolo que é a história
da nossa historia sem enredo
e não nos soa na memória
outra palavra que o medo

Temos fantasmas tão educados
que adormecemos no seu ombros
omos vazios despovoados
de personagens de assombro

Dão-nos a capa do evangelho
e um pacote de tabaco
dão-nos um pente e um espelho
pra pentearmos um macaco

Dão-nos um cravo preso à cabeça
e uma cabeça presa à cintura
para que o corpo não pareça
a forma da alma que o procura

Dão-nos um esquife feito de ferro
com embutidos de diamante
para organizar já o enterro
do nosso corpo mais adiante

Dão-nos um nome e um jornal
um avião e um violino
mas não nos dão o animal
que espeta os cornos no destino

Dão-nos marujos de papelão
com carimbo no passaporte
por isso a nossa dimensão
não é a vida, nem é a morte