sábado, julho 14, 2018

Olhar/Ser atraente, Tese 2: (Des)tapar o Sol com a peneira.

Ao longo do desenvolvimento pessoal acontecem duas coisas em simultâneo, no que à informação diz respeito:
Uma delas: sendo naturalmente curiosa, a criança procura as coisas, a informação, o conhecimento.
A outra: a informação vem ter com a criança; mais, procura-a intencionalmente, ataca-a mesmo - vejam-se, por exemplo, os cada vez mais abundantemente conteúdos e canais televisivos que às crianças são dedicados; os sofisticados brinquedos; os jogos electrónicos ali bem pertinho, nos telemóveis dos pais.
As crianças - naturalmente, espontaneamente; deliberadamente, humildemente e sabiamente - procuram digerir o fluxo de informação gerado pelo que criam e também pelo que recebem. Reconhecendo-se incapazes de assimilarem sozinhas toda a informação com que lidam, humildemente procuram ajuda; e fazem-no junto de quem? Junto daqueles que a organização natural,  cultural e social dominante lhes atribuiu como interlocutores privilegiados logo desde o nascimento: os pais, e a seguir os irmãos e os avós - ou seja, a família, em geral.
Um pouco mais crescidos, juntam a estes o interlocutor escola.
São incontáveis os exemplos que ilustram a intenção e o esforço das crianças para receberem ajuda no entendimento da informação. Há um que considero especialmente delicioso, de que já falei neste blogue, há mais de 10 anos (Uff! Como o tempo passa!...), em que Philip Roth, num dos seus livros, põe uma criança a perguntar assim à mãe: «Mãe, nós cá em casa acreditamos no Inverno?» (1) (Sim, é mesmo Inverno, não é inferno). A pergunta mostra que a criança sabe espontaneamente que nem toda a informação é válida; mais: que ela própria não é o único juiz que decide acerca de qual é a informação válida - a informação válida é gregária e agregadora, com centro na família de pertença.
Ora bem, aquilo a que assistimos hoje em dia é, na minha opinião, a um cada vez menos lento - e sempre muito trágico - esboroar dos filtros familiares e, em geral, educativos básicos, que permitem à criança peneirar a boa informação. As crianças e os jovens são abandonados à sua sorte, os pais põem-lhes écrãs (cada vez mais tácteis) à frente e esperam que os 'softwares', os programas e as aplicações, desenhadas por "especialistas" da educação entretenham, estimulem cognitivamente e eduquem os filhos. Na escola, os professores são também industriados a seguirem cada vez mais estes caminhos, com as famosas e "poderosas" ferramentas da Educação do Século XXI...
Os anos passam, as crianças crescem... Como foram ajudadas a pensar? Como lhes foi apoiado o desenvolvimento do sentido crítico? Como foi respeitada a sua liberdade de pensar e fazer escolhas?

Grau Zero da discussão: Olhar é proibido, ser atraente é... desaconselhado.
Tese 1: Porque me morrem os manjericos?
Tese 3: Espelho meu, há alguém mais bonito do que eu?
Tese 4: Querem lá ver que o idiota... sou eu.
Tese 5: Quem não precisa de favores de ninguém rega mesmo quando chove.
Tese 6: É a Política, estúpido, mas não só!
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(1) https://fernandonaescola.blogspot.com/2007/04/mam-c-em-casa-acreditamos-no-inverno.html

sexta-feira, julho 13, 2018

Olhar/Ser atraente, Tese 1: Porque me morrem os manjericos?

Quase tenho medo de olhar os manjericos que trago para casa... É melhor olhá-los durante menos de 5 segundos. É que não consigo dar-lhes a água na medida certa, mas que falta de jeito eu tenho com eles! Acabo sempre por afogá-los em demasiada água. Um dia tratei para casa uma dezena ou dúzia de manjericos e regá-los-ei respeitando os mais sistemáticos procedimentos metodológicos; e concluirei - finalmente!, bem ufano - da medida certa de água, em bem quantificados centilitros.
"[...] à força de sermos confrontados com enorme quantidades de dados e de medidas, já  não sabemos aquilo que estes medem, nem que unidades de medida utilizam. A tabela Excel tornou-se omnipresente, mas já não sabemos o que contêm as suas células e aquilo que nos permitem calcular. As pretensas 'provas' assentes em números, tão indispensáveis para qualquer argumentação, revelam-se assim de uma fragilidade surpreendente, estando afinal ao serviço dos preconceitos subjectivos. [...] Neste tempo em que vivemos, as novas tecnologias do digital proporcionam um verdadeiro dilúvio de informação. Mas permanecemos muito ignorantes quanto ao modo como ela é produzida, seleccionada e hierarquizada, isto é, há um défice de informação, o que leva a uma aceitação acrítica e a um recuo do pensamento e da reflexão." (1)
Quer dizer, fazem às nossas mentes o mesmo que eu faço aos manjericos: afogamo-las em sucessivas e permanentes torrentes de (des)informação. E nós somos incapazes de ter mão no fluxo da informação que nos chega. Ou então como as mães apressadas fazem às crianças que as exasperam com a proverbial - natural! - lentidão a comer: enfiam-lhes, boca adentro, garfadas e garfadas de comida, que as crianças se vêm condenadas a engolir em pressa equivalente à da mãe, ou a vomitar, sob pena de soçobrarem num engasgamento mais dramático que o mais intenso ataque de pânico.

Grau Zero da discussão: Olhar é proibido, ser atraente é... desaconselhado.
Tese 2: (Des)tapar o Sol com a peneira.
Tese 3: Espelho meu, há alguém mais bonito do que eu?
Tese 4: Querem lá ver que o idiota... sou eu.
Tese 5: Quem não precisa de favores de ninguém rega mesmo quando chove.
Tese 6: É a Política, estúpido, mas não só!
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(1) Yves Michaud, "Quando a inteligência nos torna estúpidos". In Electra, Fundação EDP, 2, Junho 2018.

Olhar é seduzir, ser atraente é... desaconselhado

No Maio de 68, em Paris, os estudantes escreveram nas paredes "É proibido proibir". 50 anos depois, a acabar o Maio de 2018, a Netflix determinou aos seus funcionários "É proibido olhar". (1)
Autor: Atelier Popular
Paradoxalmente, o narcisista Homem da Civilização Ocidental, acabara de criticar no Outro o uso da burca; e depois legislou contra o uso do véu. E levou os agentes da polícia às praias para obrigarem as senhoras a despirem-se, a mostrarem-se.
No Maio de 68, os estudantes escreveram nas paredes "A beleza está na rua". 50 anos depois, a FIFA pede que não se mostre a beleza feminina dos estádios de futebol (2), que, entretanto, deseja que seja uma valente festa nas ruas.
Em tantos Maios, de tantos 68, a Cultura Ocidental acolheu, celebrou e homenageou a Nudez Artística do Homem. Em 2018, o Grande Irmão do Facebook lançou algoritmos e censores vigilantes que procuram tirar o Nu, antes consagrado, do democratizado acesso de todos os cidadãos, nas redes sociais digitais, às produções artísticas que o Ocidente consagrou como expressão superior do génio criativa do Homem na plenitude do seu potencial mental.
O meu querido amigo Hugo Pardal, saudoso aluno de há muitos anos atrás, perguntou-me hoje, logo pela manhã, à primeira vista muito ligeiramente:
«O professor é que percebe de psicologia. Ajude-nos a perceber porque razão a sociedade actual condena o que a natureza produziu. Quando me visita na Vidigueira?»
Respondi-lhe brincando com os "ares" que na Vidigueira abrem a alma às palavras, segundo o velho "In vino veritas". O dia foi passando, mas o desafio do Hugo não me saiu da cabeça - até que se tornou muito claro na minha mente que o desafio merecia a atenção e o respeito de uma resposta.
É o que vou tentar fazer, numa série de pretensiosas "teses".
Caro Hugo, cada uma delas, em si mesma, pouco ou nada vale, e todas te parecerão muito insatisfatórias; mas, no seu conjunto, tomando cada uma delas uma perspectiva diferente, talvez eu chegue ao meu objectivo: ajudar a perceber o porquê destas coisas, como dizes, aparentemente tão anti-natura.
Hugo, dá-me tempo, e não me peças um irrepreensível ensaio filosófico, nem um rigoroso estudo psicológico; ou uma análise sociológica de exigentes procedimentos metodológicos.
Para já, um forte e grato abraço pelo teu desafio, em que ponho sincero e entusiástico empenho.
E discute comigo. Questiona-me. E traz mais malta a jogo! Como acontecia nas aulas! Que saudades!...

Tese 1: Porque me morrem os manjericos?
Tese 2: (Des)tapar o Sol com a peneira.
Tese 3: Espelho meu, há alguém mais bonito do que eu?
Tese 4: Querem lá ver que o idiota... sou eu.
Tese 5: Quem não precisa de favores de ninguém rega mesmo quando chove.
Tese 6: É a Política, estúpido, mas não só!
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(1) https://www.independent.co.uk/arts-entertainment/tv/news/netflix-sexual-harassment-training-rules-me-too-flirting-on-set-a8396431.html
(2) https://www.rt.com/sport/432861-female-fans-fifa-sexism/


terça-feira, julho 10, 2018

Professor - ensinar e aprender

Oferta da refeição, Escola Primária Piang Luang Sam, Tailândia.
«Se fores consciente enquanto ensinas os outros, estarás a ensinar-te ao mesmo tempo. Não penses que estás somente a ensinar os outros.» 
in Calendário da Floresta 2018 . 2561, Aruno Publications 2017

[If you are mindful while giving teachings to others, you will be teaching yourself at the same time. Don’t think that you are only teaching others.]

domingo, junho 10, 2018

Gostar. Acreditar. Aprender. Ensinar.



 GOSTAR. ACREDITAR. APRENDER. ENSINAR.

- «A verdade é que nunca gostei da escola. Nunca aceitei que tudo possa, deva ou tenha de ser explicado. Explicado e transmitido.”,
conta Dulce Maria Cardoso, numa antologia de contos sobre crianças e adolescentes.
E Vergílio Ferreira escreve, em Um Escritor Apresenta-se,
«Não se acredita por deliberação, como ninguém ama porque assim o decidiu.»
O gostar e o acreditar são, respectivamente, os polos da afectividade e da inteligência dos processos mentais. Ambos procuram a verdade. A verdade do que é saboroso e do que é verdadeiro.
Na sexta-feira, saía eu da escola, uma jovem estudante chegou-se a mim, ela vinha acompanhada com quem eu deduzi ser seu namorado.
- «P’ró ano vou ser sua aluna, o que é que o professor dá, Sociologia ou Psicologia?»
- «Eu dou a melhor disciplina do ensino secundário em todo o mundo!...»
- «Que é?...»
- “«Que é?...» desafiei-a eu em eco.
- «Sociologia?... Não sei…»
- «Pois, vê-se mesmo que não sabes…»
- «Também não interessa, eu quero é ter aulas consigo, e pronto.»
A jovem, simpática, conhecer-me-á dos corredores da escola, das sessões no grande auditório da escola, dos ecos dos projectos extra-curriculares que lidero ou em que participo…
Que pensa ela que poderá gostar nas minhas aulas?... Que verdades imagina ela que poderá encontrar nas minhas lições?...
Que mais pode um professor desejar de um aluno ao arrancar num novo ciclo de ser o que deve ser sempre: um professor no autêntico sentido do termo? Sem explicar, sem transmitir, sem deliberar, sem impor amar.
«Tudo o que se ensina à criança é um obstáculo à sua capacidade de descobrir e inventar.»
é o aviso de Jean Piaget que nunca me sai da cabeça.

quinta-feira, março 15, 2018

Já tirou uma senha?

Hoje fui a um organismo público, na Baixa de Lisboa.
Já me tinham confirmado, em conversa telefónica, um pouco antes, que lá alguém estaria à minha espera. Entrei onde nunca tinha entrado e dirigi-me ao senhor que estava ao balcão, com um écrã de computador do seu lado esquerdo, em diagonal. O senhor não estava ocupado com nada.
Saudei-o com os bons dias devidos nestas ocasiões, de acordo com a mais elementar etiqueta social, mas o senhor continuou a olhar para além de mim, trespassando-me, com expressão esfíngica mais indecifrável do que a da pedra que a baptizou originalmente. Olhei para trás de mim, uma senhora esperava com ar de que o assunto que a levara ali seria bem mais complicado do que o meu. Olhei outra vez a esfíngica face - esfíngica continuava.
"Instintivamente", olhei para o meu lado direito e dei com uma máquina servidora de senhas de atendimento. Fui-me a ela, A, B, C, D. Era o botão D. Dispara-me a senha 3. Oiço, logo a seguir, o som avisante do mostrador da parede do fundo, é para ele que agora olho. Estavam a chamar pela senha D3, a minha. Quem me chamava? O senhor de composição esfíngica. Desta vez, perguntou-me: «Senha 3?» Sim, respondi-lhe; e voltei a dar-lhe os bons-dias - desta vez respondeu-me; por sinal, educadamente. Perguntou-me o que queria e eu disse-lhe ao que ia, e quem ali me tinha mandado. Levantou-se e pediu-me para esperar um pouco. Aproveitei, e voltei a olhar a repartição toda - sim, ninguém mais tinha entrado naquele lugar. Volta o senhor. Bem!... Ele tinha-se tornado irreconhecível, que simpatia!, que sorriso luminoso!
A senhora que há pouco estava à espera atrás de mim agora sentara-se ao balcão ao lado do meu. A funcionária que fora lá dentro, regressara e dava más notícias à senhora, que eu adivinhara que tinha ali assunto mais complicado do que o meu. «Ai é?, muito bem. Olhe, diga então à dona XXXX que, quando quiser falar comigo, chame-me cá ou vá ter comigo, eu que não volto cá para falar com ela.»

terça-feira, fevereiro 06, 2018

sábado, dezembro 30, 2017

Os cachalotes e o narval - duas realidades: a concreta e a virtual

Estava a ver este belo vídeo - que dispensava perfeitamente o extra da
encantatória melodia do piano - e veio-me à cabeça o título, alinhado com cada mais coisas também assim, "História do Mundo sem as Partes Chatas"; isto é, cada vez mais se produzem coisas "sem as partes chatas" - e assim se cria a ilusão:cada vez mais o Mundo existe com tudo pronto, simples, directo, imediato, sem as partes chatas, ali bem à nossa espera. É tudo fácil, basta um toque num botão (virtual, evidentemente; o toque é no écrã), numa imagem - a viagem, real ou virtual, está marcada.


Quem, como eu, já foi muitas vezes ao mar, ao lardo do Faial e do Pico, à procura dos grandes cachalotes (e vou como turista!, a desfrutar, não fazendo disso a minha actividade profissional rotineira...), sabe que, na verdade, nada existe na Realidade Concreta sem as partes chatas. Mas vende-se cada vez mais essa ilusão, educam-se cada vez mais as novas gerações dessa maneira - depois, os mais velhos queixam-se que os mais novos são impacientes, intolerantes, permanentemente insatisfeitos, não suportam as mínimas frustrações, etc., etc., etc.
Repito: este vídeo é muito bonito. Agora, de quantos retalhos é feito? Com adequada atenção à sequência de imagens, podemos constatar que o vídeo que o sofisticado e moderníssimo drone produz é uma composição de muitos retalhos - quer dizer, para embelezar virtualmente a natural e concreta beleza, eliminaram-se as partes chatas.
É essa a decepção que tantas vejo nas minhas saídas para o mar: onde estão os grandes animais que quase vêm ali à proa do barco a jeito de a gente lhes fazer festas junto aos olhos e no lombo? Onde estão aqueles pinchos, tipo, "Vá, prepara a máquina fotográfica, aqui vou eu! Um... dois... três! Dispara!"? «Eh, pá, eu não sabia que tinha de andar mais de uma hora no barco, a grande velocidade, praticamente sem ver nada...» «Olá... isto, afinal, balança, já estou a sentir-me enjoado, isto é mesmo desagradável, pronto, vou vomitar, só espero que depois fique bem.» E quantas vezes se volta para terra, 3 ou 4 horas depois e parece que aquele imenso mar mingua de animais como nunca se imaginaria.
Sim, cada vez mais penso que estes cada vez mais presentes vídeos de divulgação (onde nos levarão ainda os drones e outros que tais?... que até já dispensam os grandes canais televisivos especializados? Qualquer um de nós pode ser autor de belezas assim...) são uma faca de dois gumes, e cada vez mais os vejo pelo gume em que me corto, não pelo gume que corto o que quero.
#Açores, #cachalote, #realidade, #realidade virtual

sexta-feira, junho 30, 2017

Cultura. Avisos. Rossio, e a Rua da Betesga.

O monumental livro de Dietrich Schwanitz, "Cultura, tudo o que é preciso saber" é uma tentativa - mais uma! - de condensação da História do Mundo (pelo menos do mundo ocidental), de acordo com a tradicional imagem de enfiar o Rossio na Rua da Betesga.
A edição que eu estou a ler é a 16.ª, revista e adaptada para Portugal pela D. Quixote, em Janeiro deste ano. Embora o autor tenha morrido em 2004, a informação na borda da capa é omissa nessa informação - não deixo de me perguntar porquê...
Parece-me um livro arejado, escrito por quem tem muita informação; e é como se estivesse à mesa do café, bebericando uma muito agradável cerveja, e fosse falando sobre os acontecimentos do Mundo e a História dos Europeus. Tenho clara certeza de que o meu interesse na obra foi decisivamente determinado pelo facto de ser um estudioso alemão; se fosse inglês, francês, espanhol ou português, seguramente o deixaria para ser comprado na Feira do Livro do ano que vem. moveu-me a curiosidade de ter a perspectiva "do outro lado", a dos que estão fora das "narrativas" dos vencedores das Grandes Guerras. Vou agora a meio do livro. Vale bem a pena. É de 1999, pois é, mas só agora me apareceu à frente.
Se duvidava sobre escrever e publicar sobre uma das perplexidades que para já nele encontrei, a leitura de um apontamento que o senhor Capitão de Abril, o coronel Sousa e Castro, acrescentou hoje ao seu mural no Facebook, levou-me as dúvidas que tinha: é que é mesmo necessário pensarmos a sério nestas coisas da Paz e da Guerra, como, há cerca de 50 anos, nos Estados Unidos da América, o célebre professor de História de um grupo de alunos tomou consciência, quando interrogava os seus alunos sobre se um fenómeno social e político como Hitler e o Nazismo seriam possíveis novamente, e um dos seus alunos lhe respondeu que não - "é que os jovens, dizia muito empavoadamente o rapaz, hoje em dia estão muito bem informados". Preocupado, esse professor "montou-lhes uma cilada", pedagogicamente muito bem feita, e no tempo de uma semana de trabalho, literalmente falando, desenganou o convencido aluno e os seus colegas - o que deu origem às sucessivas edições de "A Terceira Onda" e "A Onda" (readaptação para os tempos actuais numa escola alemã) - filme notável!, que todos os anos mostro aos meus alunos de Psicologia.
Ora o convencimento do rapaz, de há 50 anos atrás, é o mesmo dos rapazes de agora!...
Já agora, a quem não conhece este documentário, recomendo-o vivamente: A Terceira Onda.
Então, o que diz o alemão Schwanitz, lá do alto da sua poderosa, e muito bem sustentada, reflexão cultural? Diz duas ou três coisas que nos devem obrigar a pensar:
«Hoje é inimaginável a onda de alegria que a eclosão da [Primeira Grande] guerra causou, sobretudo na Alemanha. O conflito foi vivido como a fusão do indivíduo com o colectivo numa festa que aliviava as limitações de uma vida cristalizada na rotina de uma sociedade industrial.» (p. 210)
Alegria?!... Pela guerra?!...
Mais à frente, o interessante autor escreve:
«As gerações nascidas depois da guerra perguntam: Qual foi a causa de tamanha loucura? A identidade romântica dos alemães, conjugada com a sua submissão cega à autoridade do Estado. Esta mistura especializou-os em duas modalidades não olímpicas: a obediência incondicional e a submissão da ralidade pela fantasia. Hitler oferecia-lhes as duas: milícias e fantasias nacionalistas. Ditoso o povo que dá o seu amor a mulheres e homens que sabem pensar pela sua cabeça e não admitem ser tratados por menores nem aceitam qualquer ordem que não possam aceitar como certa.» (p. 224)
Finalmente, do ponto de vista que quero aqui explorar:
Os alemães tinham-se identificado com Hitler até ao fim e seguiram-no até à ruína. Nunca um governante fora tão popular entre os alemães como ele. Primeiro, tornara-se a personificação da sua patologia, depois, induzira-os a celebrar com ele uma festa de bruxas sem precedentes: estas coisas unem. Ainda hoje a Alemanha se encontra possuída por ele, quando jura de dois em dois minutos que já o superou. (p. 232-3)
 Onde quero eu chegar? Que, invocando Rodrigo Sousa e Castro, Capitão de Abril, devemos ter umas Forças Armadas que nos protejam dos alemães, sempre sequiosos de guerras e da conquista do Mundo? Não senhor. "Apenas" (ironizo, como se de uma coisa de somenos importância de tratasse...) que a Guerra e a Paz, as Armas e os Exércitos, têm de ser lúcida e seriamente pensados - sempre! -, até porque as granadas e balas por aí agora espalhadas - roubadas às forças armadas a sério! - não têm como destino as bombas de carnaval e os fogos de artifício das passagens de ano. E parece-me esse o sentido do alerta do senhor coronel Sousa e Castro: que se pense a sério, nas instâncias responsáveis, sobre as Forças Armadas, e as maneiras de manter a Paz e evitar a Guerra. Com o fogo não se brinca!

domingo, junho 25, 2017

O padre António Vieira, os escravos e os índios do Brasil

Não tenho estabilizado, nem pacificado, o entendimento sobre o que o padre António Vieira fez e disse sobre a escravatura, os negros (africanos traficados para o Brasil) e os índios (nativos da América do Sul).
Não conheço ainda o suficiente da obra e dos escrito do padre António Vieira, o que me leva a ter a ideia (espero que errada) de que os nativos índios eram os filhos queridos, e os traficados negros eram os filhos, enfim, "bastardos" (no sentido tradicional de serem desvalorizados, quiçá, desprezados).
Foi pura coincidência, ontem, ler, no "Cultura", de Dietrich Schwanitz,
[...] Isto conduz à segunda catástrofe: raptam-se em África negros que suportam o clima e o trabalho nas plantações e vendem-se como escravos. Na Lisboa manuelina, com cerca de cem mil habitantes, dez mil são escravos [...] (D. Quixote, 16.ª edição, p. 133)
e a notícia da inauguração da estátua do padre António Vieira, em Lisboa, no Largo Trindade Coelho.
Eu sei qual é a pedra no sapato que ainda tenho por causa do padre António Vieira: é que ele aceita e/ou defende o conceito de "guerra justa", que, no entender dele, legitima a escravatura - e é sobre isto que eu tenho ainda de ler ainda um pouco mais na tremenda e absolutamente fascinante obra do nosso imperador. Sim, absolutamente, ele é o imperador de que Fernando Pessoa fala.
A favor de Vieira estão as seguintes palavras do seu sermão, classificado como sendo o XXVII dos Sermões do Rosário:
Todas estas razões de Séneca se reduzem a uma, que é serem também homens os que são escravos. Se a fortuna os fez escravos, a natureza fê-los homens: e por que há de poder mais a desigualdade da fortuna para o desprezo, que a igualdade da natureza para a estimação? Quando os desprezo a eles, mais me desprezo a mim, porque neles desprezo o que é por desgraça, e em mim o que sou por natureza. A esta razão forçosa em toda a parte se acrescenta outra no Brasil, que convence a injustiça e exagera a ingratidão. Quem vos sustenta no Brasil, senão os vossos escravos? Pois, se eles são os que vos dão de comer, por que lhes haveis de negar a mesa, que mais é sua que vossa? Contudo, a majestade ou desumanidade da opinião contrária é a que prevalece, e não só não são admitidos os escravos à mesa, mas nem ainda às migalhas dela, sendo melhor a fortuna dos cães que a sua, posto que sejam tratados com o mesmo nome. Que importa, porém, que os senhores os não admitam à sua mesa, se Deus os convida e regala com a sua? 
Ora bem, ganharão aqui os escravos negros africanos a reboque dos escravos índios americanos... mas a questão do conceito de "guerra justa" é mesmo, por enquanto, uma valente pedra no meu sapato. Talvez seja a minha visão - estreita - de português, europeu e cidadão do mundo tardio mais de 300 anos em relação ao tempo da assombrosa figura da Cultura Portuguesa e Mundial.
Além disso, o padre António Vieira terá parceiros de peso - na verdade, nem a cidade ideal da fascinante Utopia de Thomas Moore dispensa a escravatura... de guerra ou castigo justo...
É, para mim, é assunto ainda em aberto.