quarta-feira, junho 20, 2012

«Mourinho é um grande comunicador que esconde bem a sua mediocridade como treinador» - Zeman

«Mourinho é um grande comunicador que esconde bem a sua mediocridade como treinador» - Zeman
Por Redação (jornal A Bola, edição on line, 20 de junho de 2012)

«José Mourinho é um grande comunicador que esconde bem a sua própria mediocridade como treinador». As declarações foram proferidas pelo novo treinador da Roma, Zdenek Zeman.
As críticas ao Special Onde prosseguiram.

«Salvo algumas exceções como o Barcelona de Guardiola e a seleção espanhola, o futebol evoluiu pouco nos últimos anos. A grande maioria das equipas entra em campo apenas com vontade de neutralizar o adversário, como o Chelsea que este ano ganhou a Liga dos Campeões ou o Inter (aludindo ao período em que o técnico português orientou a formação italiana)», apontou Zeman citado pela gazzetta dello sport.
17:20 - 20-06-2012«Mourinho é um grande comunicador que esconde bem a sua mediocridade como treinador» - Zeman

Caros alunos,
reparem como as palavras são, entre outras coisas, algo que serve os interesses, as motivações, os objetivos, de quem as profere; e servem também para representar, corretamente ou não, as realidades a que se referem.
Diz a cultura popular que "contra factos não há argumentos". Por isso, apenas aqui alinho, em jeito de lista, os factos futebolísticos, profissionais, do autor das palavras, Zdeněk Zeman, e o visado dessas palavras, José Mourinho. Fui buscar estas listas à Wikipédia. No fim de as observar, perguntar-se-á:
O que quererá Zeman verdadeiramente?... Será só protagonismo?... Atrair as atenções sobre si?...
Recomendo-vos: não se deixem ir atrás das emoções... passem por cima da tentação de chamar nomes feios ao senhor da República Checa... tentem apreciar o funcionamento psicológico do treinador, e do homem que (também) é.

Zdeněk Zeman

Títulos

Licata
Foggia
Pescara

José Mourinho

Títulos

Portugal FC Porto
Inglaterra Chelsea
Itália Internazionale
Espanha Real Madrid

[editar]Prêmios individuais

segunda-feira, junho 18, 2012

Economia tradicional e economia ecológica

Porque só estava com meio olho e um quarto de ouvido na televisão (isto é aquela coisa de que falei ontem no Facebook sobre a atenção flutuante), só dei mesmo atenção às últimas frases da entrevista que o programa "Sociedade das Nações", da Sic Notícias, transmitia às 15h45 de hoje.
Foi mais ou menos assim (a conversa estava mesmo no fim):
Entrevistado: Mas o que nós dissemos agora, já dissemos antes, por exemplo, em 2008, para [os governos] não investirem mais na economia tradicional, que comecem já a investir na economia ecológica, os resultados começam a ver-se pouco a pouco...
Entrevistador: Mas isso é os governos [os políticos], e as empresas?
Entrevistado: As empresas tanto se lhes dá que a economia seja tradicional como seja ecológica. As empresas querem é ter lucro. E a responsabilidade disso é dos governos! Se os governos legislarem nos impostos, nas regulamentações, etc., de modo a que as empresas possam claramente ver como obter lucros, as empresas farão certamente a economia da Ecologia.
Ora, isto parece-me que responsabiliza mesmo os políticos, não é verdade?... Esta exigência podem legitimamente os eleitores reclamar dos políticos que são eleitos e governam, seja no poder executivo (o Governo), seja no poder legislativo (os Deputados), ou mesmo nos outros poderes, não é verdade?
Provavelmente isto dá sentido às palavras que já aqui transcrevi de D. Januário Torgal Ferreira, o Bispo de Setúbal, e da sua sugestão de se ir para a rua para fazer a Democracia.

domingo, junho 17, 2012

Carta aberta de José Mourinho à Seleção Portuguesa de Futebol

José Mourinho enviou uma carta à Seleção Nacional onde pede empenho aos jogadores e apoio por parte dos portugueses.
(se não estou errado, a carta foi inicialmente publicada no sítio da Associação Nacional de Treinadores de Futebol, em Outubro de 2010)

«Sou português há 47 anos e treinador de futebol há dez. Sendo assim, sou mais português do que treinador. Posto isto, para que não restassem dúvidas, vamos ao que importa...

As Selecções Nacionais não são espaços de afirmação pessoal, mas sim de afirmação de um País e, por isso, devem ser um espaço de profunda emoção colectiva, de empatia, de união. Aqui, nas selecções, os jogadores não são apenas profissionais de futebol, os jogadores são além disso portugueses comuns que, por jogarem melhor que os portugueses empregados bancários, taxistas, políticos, professores, pescadores ou agricultores, foram escolhidos para lutarem por Portugal. E quando estes eleitos a quem Deus deu um talento se juntam para jogar por Portugal, devem faze-lo a pensar naquilo que são - não simplesmente profissionais de futebol (esses são os que jogam nos clubes), mas, além disso, portugueses comuns que vão fazer aquilo que outros não podem fazer, isto é, defender Portugal, a sua auto estima, a sua alegria.

Obviamente há coisas na sociedade portuguesa incomparavelmente muito mais importantes que o futebol, que uma vitória ou uma derrota, que uma qualificação ou não para um Europeu ou um Mundial. Mas os portugueses que vão jogar por Portugal - repito, não gosto de lhes chamar jogadores - têm de saber para onde vão, ao que vão, porque vão e o que se espera deles.

Por isso, quando a Federação Portuguesa de Futebol me contactou para ser treinador nacional, aquilo que senti em minha casa foi orgulho; do que me lembrei foi das centenas e centenas de pessoas que, no período de férias, me abordam para me dizerem quanto desejam que eu assuma este cargo. Isto levou-me, pela primeira vez na minha vida profissional, a decidir de uma forma emocional e não racional, abandonando, ainda que temporariamente, um projecto de carreira que me levou até onde me levou.

Desculpem a linguagem, mas a verdade é que pensei: Que se lixem as consequências negativas e as críticas se não ganhar; que se lixe o facto de não ter tempo para treinar e implementar o futebol que me tem levado ao sucesso; por Portugal, eu vou!

E é isto que eu quero dizer aos eleitos para jogar por Portugal: aí, não se passeia prestigio; aí, não se vai para levar ou retirar dividendos; aí, quem vai, vai para dar; aí, há que ir de alma e coração; aí, não há individualidades nem individualismos; aí, há portugueses que ou vencem ou perdem, mas de pé; aí, não há azias por jogar ou por ir para o banco; aí, só há espaço para se sentir orgulho e se ter atitude positiva.

Por um par de dias senti-me e pensei como treinador de Portugal. E gostei. Mas tenho que reconhecer que o Real Madrid é uma instituição gigante, que me «comprou» ao Inter, que me paga, e que não pode correr riscos perante os seus sócios e adeptos. Permitir que o seu treinador, ainda que por uns dias, saísse do seu habitat de trabalho e dividisse a sua concentração e as suas capacidades era impensável.

Creio, por conseguinte, que o feedback que saiu de Madrid e chegou à Federação levou a que se anulasse a reunião e não se formalizasse o pedido da minha colaboração.
Para tristeza minha e frustração do presidente Gilberto Madail.

Mas, sublinho, agora já a frio: foi e é uma decisão fácil de entender. Estou ao leme de uma nau gigantesca, que não se pode nem se deve abandonar por um minuto. O Real decidiu bem.

Fiquei com o travo amargo de não ter podido ajudar a Selecção, mas fico com a tranquilidade óbvia de quem percebe que tem nas suas mãos um dos trabalhos mais prestigiados no mundo do futebol.

«Agora, Portugal tem um treinador e ele deve ser olhado por todos como «o nosso treinador» e «o melhor» até ao dia em que deixar de ser «o nosso treinador». Esta parece-me uma máxima exemplar: o meu é o melhor! Pois bem, se o nosso é Paulo Bento, Paulo Bento é o melhor.

Como português, do Paulo espero independência, capacidade de decisão, organização, modelagem das estruturas de apoio, mobilização forte, fonte de motivação e, naturalmente, coerência na construção de um modelo de equipa adaptada as características dos portugueses que estão à sua disposição. Sinceramente, acho que o Paulo tem condições para desenvolver tudo isso e para tal terá sempre o meu apoio. Se ele ganhar, eu, português, ganho; se ele perder, eu, português, perderei. Mas eu também quero ganhar.

No ultimo encontro de treinadores que disputam a Champions League, quando questionado sobre o poder dos treinadores nos clubes, ou a perda de poder dos treinadores face ao novo mundo do futebol, sir Alex Fergusson disse (e não havia ninguém com mais autoridade do que ele para o dizer!) que o poder e a liderança dos treinadores depende da personalidade dos mesmos, mas que depende muitíssimo das estruturas que os rodeiam. Clubes e dirigentes fragilizam ou solidificam treinadores.

Eu transponho estas sábias palavras para a selecção nacional: todos, mas todos, neste país devem fazer do treinador da selecção um homem forte e protegido. E quando digo todos, refiro-me a dirigentes associativos, federativos e de clubes, passando pelos jogadores convocados e pelos não convocados, continuando pelos que trabalham na comunicação social e terminando nos taxistas, políticos, pescadores, policias, metalúrgicos, etc. Todos temos de estar unidos e ganhar. E se perdermos, que seja de pé.

Mas, repito, há coisas incomparavelmente mais importantes neste país que o futebol. Incomparavelmente mais importantes¿ Infelizmente!

Aproveito esta oportunidade para desejar a todos os treinadores portugueses, aos que estão em Portugal e aos muitos que já trabalham em tantos países de diferentes continentes, uma época com poucas tristezas e muitas alegrias.

Ao Xico Silveira Ramos, manifesto-lhe a minha confiança no seu cargo de Presidente da ANTF.
Um abraço a todos.
José Mourinho»

quinta-feira, junho 14, 2012

Educação Física não conta para a média - Portugal - DN

Educação Física não conta para a média - Portugal - DN

Esta medida do Ministério de Educação da República Portuguesa é, no meu entender, uma medida que nos permite formar opinião sobre a consistência da cultura civilizacional e científica dos decisores que a tomaram; e a sua estreiteza de perspetiva, quando as verdadeiras soluções, não apenas na área da educação, mas também no desenvolvimento geral do País, reclamam sabedoria, rasgo e valorização de todas as dimensões das competências e capacidades humanas.
A médio ou longo prazo, é uma medida perfeitamente reversível, o que me deixa mais descansado. A curto prazo, parece-me uma medida muito infeliz, que vem distorcer a formação de um punhado não negligenciável de jovens.
Não é apenas a negação da velha máxima grega, que avisa que a mente sã se constroi sustentada no corpo são, é também a negação do que hoje em dia se sabe sobre a importância das actividades do corpo no desenvolvimento do cérebro, das capacidades abstrativas da mente; do autocontrolo e da autorregulação emocional; da estimulação e da aprendizagem da regulação da sociabilidade, da competição e da gestão dos conflitos.
Sinal dos tempos, esta medida mostra quanto as preocupações oficiais com a educação dos jovens vai a reboque das necessidades e das motivações pequenas do "desenrasca"  económico, mercantilista; e que todos nós, com os nossos governantes à cabeça, andamos a reboque de quem manda (os poderosos do dinheiro) e os que pensam que têm verdadeiro poder (os provisórios governantes).
Admito perfeitamente que haja alunos (não são todos, seguramente, os que há pouco quis referi no "punhado não negligenciável de jovens") e encarregados de educação em número não negligenciável que apoiem este medida, mas, infelizmente, a minha experiência, enquanto professor e enquanto psicólogo, tem-me mostrado quanto a pessoa (no fundo, pessoas concretas que eu conheço) perde quando se sobrevaloriza as coisas da mente, ou as coisas do corpo, pondo-se em causa a integridade da pessoa. É, sobretudo a felicidade pessoal e a felicidade das famílias que é posta em causa.

quarta-feira, junho 13, 2012

Santo António, Baptista-Bastos e Vasco Graça Moura - que caldo!


Não é fácil encontrar-se o jeito de dizer certas coisas que tantas vezes se sentem, mas ainda são difíceis de pensar porque não se encontraram as palavras certas, e, menos ainda, se as arrumaram umas a seguir às outras. Volta e meia repito isto, com estas palavras ou com outras parecidas.
Enquanto professores, seja de que saber técnico ou científico seja, devemos estar disponíveis para falar aos nossos alunos de coisas que lhes tocam como pessoas e os podem respeitar ou ofender na sua condição de cidadãos.
Neste espantoso texto de Baptista-Bastos, que encontrei na edição on line de hoje do Diário de Notícias, destaco duas ideias muito bem expressas com as tais palavras tantas vezes tão difíceis de encontrar:
"O niilismo moderno oculta-se na ideologia que domina a Europa, e os aparentes equívocos não são exercícios de estilo ou miniaturas verbais: constituem peças para aumentar a confusão geral. A Imprensa pouco ou nada esclarece do que se passa no interior da superfície; as televisões são caudais de frivolidades; os comentadores somente glosam e, na maioria, anotadores sem risco e sem reflexão. Alguém tem de sacudir esta inércia que nos está a liquidar como povo e a destruir, visivelmente, a nossa democracia - se é que a democracia alguma vez foi nossa."
A segunda ideia é esta:
" Quando D. Januário Torgal Ferreira declara: "Apetece-me dizer: vamos todos para a rua! Não vamos fazer tumultos, vamos fazer democracia"; diz, afinal, que nos devemos saber defender, que aprendamos a nos precaver contra o ovo da serpente. E, sobretudo, nos insurjamos perante as pequenas limitações de liberdade e de justiça, que nos aplicam em nome da "inevitabilidade" e do "equilíbrio do sistema." "
As palavras do bispo - Opinião - DN
Na edição on line do Diário de Notícias podemos encontrar, ao lado do artigo de Baptista-Bastos, um outro, também de opinião, de Vasco Graça Moura.
Neste artigo, VGM, mais uma vez destila o seu asco praticamente visceral a certos grupos de pessoas, muitos jovens, que, desta vez, cometeram o "pecado mortal" de irem ver o Rock in Rio; e fá-lo mais uma vez a partir de ideias preconcebidas, que ele próprio denuncia resultarem de se deixar levar pelas aparências: "E pelo aspecto, muitos deles integram as hordas de indignados que aparecem por aí noutras ocasiões."
É pena que ele faça assim, o texto, no essencial, é duma clareza e duma acutilância que saúdo, na mesma linha do que no outro artigo Baptista-Bastos faz também:
"É neste clima de fuga à realidade e amplificações ensurdecedoras que o verdadeiro rock da pesada muda de nome e de cenário. Passa a chamar-se Euro 2012. Agora, não lhe faltará o singular empenhamento da comunicação social, engendrando expectativas desmesuradas de triunfo e criando em todas as almas verdadeiramente lusitanas o frisson patriótico daquelas manhãs de nevoeiro em que uma redenção colectiva nos há-de chegar pela biqueira ágil dos craques, pondo termo às nossas angústias."

domingo, abril 22, 2012

Um dia na Terra

One Day on Earth
Fui hoje à estreia no Diário de Notícias.
Tem muito que se lhe diga, mas vale a pena ver. Recomendo.
Atendendo aos objetivos, a extensão do filme não ajuda os ritmos qoe, por exemplo, as escolas impõem. Mas a gente nas escolas se desenrascará!
Vá, vamos a ver!

sábado, abril 07, 2012

No Sábado de Aleluia, a Páscoa de Agostinho da Silva


Quando fui, há uma semana atrás, à Biblioteca Municipal da Horta requisitar o “In Memoriam” de Antero de Quental, a solícita funcionária porfiou a procurá-lo mas não o encontrou. Desejosa de me ajudar, trouxe-me o “In Memoriam” de Agostinho da Silva. “Obrigado, não é este que eu quero, mas tenho muito interesse em levá-lo.” Que engraçado! Logo quando tinha acabado de pôr a atenção nas atas do Encontro em São Jorge sobre Agostinho da Silva! E trouxe mesmo o livro para casa!
Hoje, finalmente, dei-lhe um pouco de séria atenção. Li as contribuições de Pedro Agostinho da Silva, Maria Gabriela Agostinho da Silva Rodrigues, seus filhos; do meu querido colega e amigo Inácio Fiadeiro; de António José Saraiva, autor que leio com olhos de filho-coruja, tudo o que ele escreve é, para mim, antecipadamente notável; e calhou – pura coincidência, abrir na página do testemunho de José Hermano Saraiva, irmão do meu “pai-corujado”, ou “mãe-corujada”.
Por atravessarmos a época cultural-religiosa que atravessamos – a celebração da Páscoa – chamou-me a atenção que o filho Pedro fizesse questão de associar a “partida” (como ele se refere ao falecimento de seu pai) de Agostinho da Silva ao Domingo de Páscoa, em 3 de abril de 1994. “(…) do Restelo de onde os Navegadores partiram, detendo-se no dia seguinte, brevemente, na Igreja de Santa Maria de Belém, Mosteiro dos Jerónimos.”
Confesso que não sei se as coisas se passaram assim por vontade expressa de Agostinho da Silva, ou se porque os vivos lhe quiseram dedicar, em presença, um derradeiro simbolismo.
Fico com curiosidade em saber um pouco melhor porque aconteceram assim as coisas na partida de Agostinho da Silva – aliás, preciso de saber muito mais de muitas mais coisas de Agostinho da Silva – já que, noutra contribuição do In Memoriam, a do jornalista António de Sousa, é feita aparentemente (o texto está escrito entre aspas) a seguinte citação do Professor Agostinho da Silva, que nos mostra uma certa maneira de estar do autor acerca dos Descobrimentos Portugueses (quer dizer, não são de franca ou orgulhosa glorificação): [o feito extraordinário das Descobertas] “Sim, prejudicaram Portugal porque passou a ser fácil enriquecer: Bastava ir pilhar. Toda a gente que não queria fazer nenhum esforço de trabalho, resolveu mudar de vida e lançar-se a essa aventura dos descobrimentos, essa empresa estatal dos descobrimentos, e isso levou aqueles que ficam em Portugal a viver daquilo que colhíamos lá fora, portanto a não tomar aqui nenhuma iniciativa”.
Quando calhei no depoimento de José Hermano Saraiva, lá estava a Páscoa outra vez! Num texto de 3 linhas, hiper-sóbrio, denunciando, no meu entender, o simples esforço de “cumprir um dever”, o mais conhecido divulgador da História de Portugal, anos a fio, na televisão portuguesa, insinua um mistério, um simbolismo religioso que, creio, Agostinho da Silva nunca encomendaria: “Se Agostinho da Silva pudesse comentar a sua morte, diria que esta ocorreu num Domingo de Páscoa, o dia da Ressurreição. Quando um pensador morre, a morte passa a ser ilusória. Ficam as sementes do pensamento.” Pergunto-me se noutro dia qualquer do ano não ficariam, do pensador, as sementes do pensamento. O misticismo – o dia da Ressurreição - que José Hermano Saraiva associa à morte do homenageado é o misticismo que o Professor Agostinho da Silva professava?...  Será que alguma vez Agostinho da Silva se tomou como um “eleito”, predestinado a alguma especial missão de condução dos homens, ressuscitando ao terceiro dia, como o Cristo celebrado há tantos séculos? E como “cola” este misticismo com o que cheguei a ver em alguns dos programas do Professor José Hermano Saraiva, em que me parecia ver uma pedagogia paciente para quebrar mitos e “ledos enganos” que distorcem a perceção, ou melhor, que alimentam uma certa perceção de nós próprios, os Portugueses, e da nossa História?a 

sexta-feira, abril 06, 2012

Eça sobre Antero: "Um Génio que era um Santo"

Estou no Faial. Tempo invernoso no mar. Em terra, olhos habituados procuram baleias... Nada, nem uma mesmo! Volto do Peter para casa - "Fico de prevenção, se aparecer baleia e forem ao mar, liguem-me, ponho-me logo aqui." Oportunidade criada, oportunidade aproveitada: sentei-me à mesa para ler o extraordinário texto de Eça de Queirós sobre o seu amigo Antero de Quental, açoriano de São Miguel. É verdade, que texto!...
Luís de Magalhães foi o pólo centralizador da contribuição de muitos amigos para o "In Memoriam" que tantos quiseram dedicar a Antero. Magalhães quase desespera com a demora de Eça na entrega do texto. Mas, quando o lemos, percebemos claramente as razões, a espera dos mentores e editores da obra valeu bem a pena!
Com o título "Um Génio que era um Santo", Eça realça em Antero a arte de saber escutar; e afirma em período de uma só oração, para lhe dar melhor destaque: "A grande obra de Anthero, na verdade, foi a sua conversação." Explicita que a arte de Antero não é "só d'escutar, mas de ajudar o pensamento dos outros a surgir dos embaraços da expressão pêrra, a lançar o seu pequenino brilho: - e assim muitos affirmavam que, conversando com Anthero, se sentiam inesperadamente mais inventivos, mais intelligentes... A intelligencia era a d'elle, que, como o generoso sol, feito d'oiro candente, tudo doira em redor."

terça-feira, abril 03, 2012

"Há nos confins da Ibéria um povo que nem se governa nem se deixa governar." lê-se na Casa Manuel de Arriaga, na Horta

Guardamos, enquanto povo(s), na(s) nossa(s) memória(s) coletiva(s), imagens e afirmações sobre nós próprios a que nos acomodamos narcisicamente ou com que nos flagelamos masoquisticamente. São balas que disparamos enquanto se ouvem os ecos de verdades acontecidas ou "verdades" inventadas, tantas vezes tornadas mitos; e tanto as verdades como as "verdades" moldam - porque a traduzem fielmente ou porque parecem aconchegá-la na perfeição - a nossa personalidade coletiva, se é que esta "entidade", porventura existe (pela minha parte, acredito que existe; acredito na existência dessa coisa a que, por exemplo, Talcott Parsons chamou personalidade de base).
Hoje, quando procurava absorver tudo o que a espantosa exposição que a Casa Manuel de Arriaga, na Horta, tem para mostrar aos seus visitantes, reencontrei, entre as coisas que a exposição revela, duas dessas tiradas, que guardei como testemunham as fotografias que aqui junto.
A primeira é, hoje em dia, como que um dos arquétipos que formam a identidade, a individualidade e a idiossincrasia dos portugueses enquanto povo. É um quase-arquétipo quer quer fazer-nos crer que estas coisas têm a ver com os genes, certamente, mas também com o chão que pisamos e que nos alimenta; e também com o Sol que nos ilumina e aquece; finalmente, tem ainda a ver com com os horizontes geográficos -  dum lado, a secura de Castela e, do outro, a lonjura do mar.
"Há nos confins da Ibéria um povo que nem se governa nem se deixa governar." afirmou (terá afirmado) Júlio César.
Se o tema dos arquétipos me atraiu por formação académica, a segunda afirmação atraiu-me a atenção pela minha própria identificação ao nome do seu autor e à escola a que me dedico na minha profissão de todos os dias: a escola Eça de Queirós. Diz ele na citação que alguém quis destacar na projeção de slides que, num dos cantos da Casa-Museu,  homenageia e consagra Manuel de Arriaga:
"Que fazer? Que esperar? Portugal tem atravessado crises igualmente más: - mas nelas nunca nos faltaram nem homens de valor e carácter, nem dinheiro ou crédito. Hoje crédito não temos, dinheiro também não - pelo menos o Estado não tem: - e homens não os há, ou os raros que há são postos na sombra pela política. De sorte que esta crise me parece a pior - e sem cura."

Entretanto, para quem tiver curiosidade, aconselho uma olhadela à morada virtual da casa-museu:


Agostinho da Silva, a cultura, a educação e... a matemática

Na edição do ano passado da Semana do Mar da Horta, na ilha do Faial, comprei um pequeno livrinho, editado pelo FaiAlentejo, em 2006. Trata-se da publicação das atas do III.º CICLO AGOSTINIANO AÇORES, dedicado ao tema da Cidadania e Ambiente no Pensamento de Agostinho da Silva.
Só agora encontrei ocasião de ler este pequeno livro, e parece-me oportuno, agora que se volta a falar em reforma curricular do ensino primário e secundário, destacar duas ou três coisas da comunicação de Mário Cabral, "A 'Cidade de Deus' em Santo Agostinho de Portugal:

  1. A forte defesa, por vezes ingénua, do "bom selvagem", em contraponto com o mundo contemporâneo ocidental, nunca atinge, porém, o ponto de cegar o autor no que respeita à esperança depositada na revolução tecnológica que, no seu entender, funcionará como uma espécie de redenção da queda em que se encontra a Humanidade, espécie de círculo que se fecha e rosto que se encontra depois de se ter perdido.
  2. [como nota de rodapé, para explicar o que é o "bom selvagem"] TP II, "Educação em Portugal", 89-151, 92: "Acreditando, pois, que o homem nasce bom, o que significa para mim que nasce irmão do mundo, não seu dono e destruidor [...]".
  3. "[...] o professor deve sempre aparecer ao seu discípulo como uma pessoa de cultura perfeita; por cultura perfeita entenderemos tudo o que pode contribuir para lhe dar uma base moral inabalável, sem subserviências nem compromissos".
  4. "É esta a minha noção de cultura: tornar melhor a vida das pessoas. Começar pela alimentação, pelo vestuário, pela saúde, pelo ensino".
  5. Não se poderá jamais falar de cultura enquanto houver opressores e oprimidos. Agostinho da Silva é deveras sensível à condição infantil, mais até do que à feminina, escandalizando-se com o modo como a escola perverte a natureza do "bom selvagem", orientando-o para aquilo que chama ser civilizado. Cf. TP II, "Educação de Portugal", 89-151, 108.
  6. TEF II, "Pensamento em Farmácia de Província", 310: "[...] já que matemática é apenas uma parte do pensar e talvez o sonhar lhe seja muito maior".
(aversão integral do texto pode ser encontrada aqui:  http://www.jornaldepoesia.jor.br/A%20CIDADE%20DE%20DEUS.pdf)