sábado, janeiro 23, 2010
Sonhos de Andorinha - Conectando Mundos 2009/10
A edição do Conectando mundos para o ano lectivo de 2009-2010 centra-se na temática Migrações e Desenvolvimento entre os povos, a partir de uma perspectiva humana e integrada na concepção de cidadania global.
Abordamos as causas e as consequências que o processo migratório tem na vida das pessoas e no seu meio envolvente e apresentamos algumas atitudes e compromissos que podemos assumir, tanto a nível pessoal como colectivo, de forma a contribuir para a construção de uma sociedade aberta, diversa e solidária, baseada no respeito recíproco entre pessoas de diferentes proveniências.
quinta-feira, janeiro 21, 2010
Ao meu amigo Jaime, ao Chefe Jaime
Calhou estar no Faial no dia dos Amigos. Pela primeira vez. Forçadamente.
Calhou bem.
Vive-se aqui o dia dos Amigos como eu nunca o vivi.
As rádios locais falam constantemente no Dia dos Amigos, dizem que hoje está um bom dia para festejar o Dia dos Amigos.
O João Henrique, o meu afilhado, nascido faialense, hoje de manhã, ainda estremunhado, cumprimentou-me como nunca o fizera antes e saudou-me com um "Bom dia, amigo!"
Com o meu amigo Chefe Jaime vou logo, depois de aconchegar a minha mãe no fim do seu jantar, tomar um gin no Peter, à saúde dos amigos. O primeiro de que me vou lembrar - perdoem-me os outros - é do Zeca Barroso, que também vive muito intensamente na sua terra, o Redondo, no Alentejo, o Dia dos Amigos.
Aos outros amigos, de boa vontade os abraçaria a todos hoje. E sinto a alegria de saber que não teria tempo para todos. São já muitos! Estou certo que, ao longo da vida, muitos tenho juntado e praticamente nenhum eu tenho perdido.
A todos dedico o poema de Alexandre O'Neill
AMIGO
Mal nos conhecemos
Inaugurámos a palavra amigo!
"Amigo" é um sorriso
De boca em boca,
Um olhar bem limpo,
Uma casa, mesmo modesta, que se oferece,
Um coração pronto a pulsar
Na nossa mão!
"Amigo" (recordam-se, vocês aí,
Escrupulosos detritos?)
"Amigo" é o contrário de inimigo!
"Amigo" é o erro corrigido
Não o erro perseguido, explorado,
É a verdade partilhada, praticada!
"Amigo" é a solidão derrotada!
"Amigo" é uma grande tarefa,
É um trabalho sem fim,
Um espaço sem fim,
Um espaço útil, um tempo fértil,
"Amigo" vai ser, é já uma grande festa!
Alexandre O'Neill, No Reino da Dinamarca
segunda-feira, janeiro 11, 2010
Chanda Mama, uma prece à Lua?
Recebi mensagens de boa ano e de votos esperançosos para 2010 muito simpáticas.
Deixem-me destacar esta, da Charo, amiga e colega de Madrid, do "velho" PLURALIA, que se sustenta numa canção tradicional da Índia, muito bem apresentada por um projecto cultural internacional muito meritório. Parece que na canção alguém se dirige à Lua, numa prece para que lhe traga as coisas simples que precisa para viver.
quarta-feira, dezembro 30, 2009
As cheias do Tejo, na memória da avó Lourdes
Mariana, minha querida neta,
Mariana, minha querida bisneta,
Tenho muita pena de ter estragado o Natal de todos e já perguntei ao tio Fernando Jorge e à tia Fatinha porque é que isto me aconteceu. Eles falam-me logo das bolachas, dos chocolates e de que eu não ando nada, mas eu não tenho comido nada às escondidas!... Não vou acender o farol, mas subo e desço as escadas lá de casa muitas vezes por dia. Eles riem-se…
Aqui no hospital vejo quase todos os telejornais. O tio Fernando Jorge está comigo na hora das notícias e vemos os dois as notícias.
Tenho-me lembrado muito das cheias em minha casa, no meu tempo, em Rio de Moinhos, por causa das cheias que vai haver hoje em Constância e na Barquinha.
Quando vinham as cheias, nós tínhamos de sair pela janela para o barco… às vezes, fazíamos as sementeiras e depois perdíamos tudo, o meu pai, coitado, trabalhava tanto e ficava sem nada… Uma vez a minha mãe, a avó Rosa, foi à janela e começou a gritar, deixou de ver o barco onde nós íamos… ia lá eu, o meu pai - o vosso avô Branco -, e iam também outras pessoas, o barco desapareceu da vista dela porque às vezes o barco tinha de fazer umas voltas e foi o que aconteceu nesse dia em que a minha mãe foi à janela.
O “velho” [o avô Branco] uma vez teve de empenhar a máquina de costura, o cordão de ouro da avó Rosa e a corrente dele, também de ouro… é que vinha o Tejo e levava tudo… Depois não houve dinheiro para ir buscar outra vez o cordão e a corrente “ao prego”. Acabámos por comprar outro cordão para a avó, foi a tia Rosinda que pagou, foi a Hélia, a filha, vossa prima, que ficou depois com ele quando a avó Rosa morreu. Só conseguimos ir buscar outra vez a máquina de costura.
Quando saímos de Rio de Moinhos para Abrantes, a minha mãe costumava dizer que tinha lá deixado os dentes. Ela queria dizer que tinham lá deixado tudo, o Tejo tinha-lhes levado tudo.
Era… tínhamos de saltar pelas janelas para ir às compras… a casa em que a gente morava era grande, chegámos a acolher lá cinco famílias por causa das cheias… a cheia chegava quase à casa da Milú, a vossa prima, que os vossos pais conhecem, já fica lá para a parte de cima de Rio de Moinhos. Havia umas poucas de ribeiras que faziam a junção…
Quando o Tejo começava a subir nós íamos pôr-nos à janela a ver até onde é que ele chegava. Os homens punham pedras a ver o que o Tejo subia… quando chegava à nossa casa, como já vos disse, tínhamos de saltar pela janela para o barco para ir ao pão, cá para cima, ao pé da casa da Milú… as oliveiras ficavam todas tapadas…
Quando o Tejo descia, ficavam umas poças de água e nas poças de água ficava, sabem o quê?, ficava sável, íamos ao sável, o tio David e eu, eu não apanhava, era o tio David que apanhava, eu segurava o cesto… Uma vez, nós tínhamos uma marrã com crias e ele foi salvá-las da água. Nós ficámos todas com muito medo porque ele não sabia nadar, mas ele enquanto não salvou a bicha e as crias não descansou, tivemos mesmo muito medo.
Às vezes o Tejo subia e descia, eles não gostavam quando o Tejo descia muito depressa, era sinal de que ele ia subir outra vez.
A nossa casa ainda lá está, é na rua principal, a chegar ao largo… era uma casa que o avô Branco tinha alugado… agora é cor-de-rosa, mas no nosso tempo era amarela.
Olhem, agora na televisão estão a falar do rei D. Carlos… o meu avô David, pai da minha mãe, ia muitas vezes à caça com o rei D. Carlos, ali numa quinta perto dos Casais, chamada Anadia… o meu avô era uma espécie de couteiro… ele era muito educado, era uma pessoa que sabia muito… (e a avó deixou-se dormir…)
Avó Lourdes,
Hospital da Horta, 29 de Dezembro de 2009
Mariana, minha querida bisneta,
Tenho muita pena de ter estragado o Natal de todos e já perguntei ao tio Fernando Jorge e à tia Fatinha porque é que isto me aconteceu. Eles falam-me logo das bolachas, dos chocolates e de que eu não ando nada, mas eu não tenho comido nada às escondidas!... Não vou acender o farol, mas subo e desço as escadas lá de casa muitas vezes por dia. Eles riem-se…
Aqui no hospital vejo quase todos os telejornais. O tio Fernando Jorge está comigo na hora das notícias e vemos os dois as notícias.
Tenho-me lembrado muito das cheias em minha casa, no meu tempo, em Rio de Moinhos, por causa das cheias que vai haver hoje em Constância e na Barquinha.
Quando vinham as cheias, nós tínhamos de sair pela janela para o barco… às vezes, fazíamos as sementeiras e depois perdíamos tudo, o meu pai, coitado, trabalhava tanto e ficava sem nada… Uma vez a minha mãe, a avó Rosa, foi à janela e começou a gritar, deixou de ver o barco onde nós íamos… ia lá eu, o meu pai - o vosso avô Branco -, e iam também outras pessoas, o barco desapareceu da vista dela porque às vezes o barco tinha de fazer umas voltas e foi o que aconteceu nesse dia em que a minha mãe foi à janela.
O “velho” [o avô Branco] uma vez teve de empenhar a máquina de costura, o cordão de ouro da avó Rosa e a corrente dele, também de ouro… é que vinha o Tejo e levava tudo… Depois não houve dinheiro para ir buscar outra vez o cordão e a corrente “ao prego”. Acabámos por comprar outro cordão para a avó, foi a tia Rosinda que pagou, foi a Hélia, a filha, vossa prima, que ficou depois com ele quando a avó Rosa morreu. Só conseguimos ir buscar outra vez a máquina de costura.
Quando saímos de Rio de Moinhos para Abrantes, a minha mãe costumava dizer que tinha lá deixado os dentes. Ela queria dizer que tinham lá deixado tudo, o Tejo tinha-lhes levado tudo.
Era… tínhamos de saltar pelas janelas para ir às compras… a casa em que a gente morava era grande, chegámos a acolher lá cinco famílias por causa das cheias… a cheia chegava quase à casa da Milú, a vossa prima, que os vossos pais conhecem, já fica lá para a parte de cima de Rio de Moinhos. Havia umas poucas de ribeiras que faziam a junção…
Quando o Tejo começava a subir nós íamos pôr-nos à janela a ver até onde é que ele chegava. Os homens punham pedras a ver o que o Tejo subia… quando chegava à nossa casa, como já vos disse, tínhamos de saltar pela janela para o barco para ir ao pão, cá para cima, ao pé da casa da Milú… as oliveiras ficavam todas tapadas…
Quando o Tejo descia, ficavam umas poças de água e nas poças de água ficava, sabem o quê?, ficava sável, íamos ao sável, o tio David e eu, eu não apanhava, era o tio David que apanhava, eu segurava o cesto… Uma vez, nós tínhamos uma marrã com crias e ele foi salvá-las da água. Nós ficámos todas com muito medo porque ele não sabia nadar, mas ele enquanto não salvou a bicha e as crias não descansou, tivemos mesmo muito medo.
Às vezes o Tejo subia e descia, eles não gostavam quando o Tejo descia muito depressa, era sinal de que ele ia subir outra vez.
A nossa casa ainda lá está, é na rua principal, a chegar ao largo… era uma casa que o avô Branco tinha alugado… agora é cor-de-rosa, mas no nosso tempo era amarela.
Olhem, agora na televisão estão a falar do rei D. Carlos… o meu avô David, pai da minha mãe, ia muitas vezes à caça com o rei D. Carlos, ali numa quinta perto dos Casais, chamada Anadia… o meu avô era uma espécie de couteiro… ele era muito educado, era uma pessoa que sabia muito… (e a avó deixou-se dormir…)
Avó Lourdes,
Hospital da Horta, 29 de Dezembro de 2009
domingo, dezembro 27, 2009
Cadeia de poemas de Natal - 11, para a Arrábida do Miguel Guerreiro
Deixei o seguinte agradecimento no blogue do Miguel Guerreiro, no dia 19:
Obrigado, Miguel, pelos teus votos!
Também desejo para ti um Natal muito feliz, com muita alegria, muito aconchego da família, uns docinhos e algumas prendinhas.
E enquanto outros discutem se o Natal é do Pai Natal ou do Menino Jesus, deixo-te aqui um lindo poema que Sebastião da Gama, teu conterrâneo, escreveu, em que, no fundo, ele diz que é mais importante aconchegar os meninos do que apenas festejar os meninos:
PRESÉPIO
Nuzinho sobre as palhas,
nuzinho - e em Dezembro!
Que pintores tão cruéis,
Menino, te pintaram!
O calor do seu corpo,
pra que o quer a tua Mãe?
Tão cruéis os pintores!
(Tão injustos contigo,
Obrigado, Miguel, pelos teus votos!
Também desejo para ti um Natal muito feliz, com muita alegria, muito aconchego da família, uns docinhos e algumas prendinhas.
E enquanto outros discutem se o Natal é do Pai Natal ou do Menino Jesus, deixo-te aqui um lindo poema que Sebastião da Gama, teu conterrâneo, escreveu, em que, no fundo, ele diz que é mais importante aconchegar os meninos do que apenas festejar os meninos:
PRESÉPIO
Nuzinho sobre as palhas,
nuzinho - e em Dezembro!
Que pintores tão cruéis,
Menino, te pintaram!
O calor do seu corpo,
pra que o quer a tua Mãe?
Tão cruéis os pintores!
(Tão injustos contigo,
Senhora!)
Só a vaca e a mula
com o seu bafo te aquecem...
- Quem as pôs na pintura?
Só a vaca e a mula
com o seu bafo te aquecem...
- Quem as pôs na pintura?
sexta-feira, dezembro 25, 2009
2009, o meu conto de Natal
25 de Dezembro. Vêm duas senhoras ao quarto para lavar a minha mãe e arranjarem-lhe a cama. Aproveito para ir tomar um café. Talvez o bar da entrada do hospital esteja aberto. Mas é Natal… talvez não esteja…Sim, estava aberto. O lugar que parecia naturalmente destinado a mim era ali, naquele espaço de balcão entre dois sujeitos, qualquer um deles mais alto do que eu. O da minha esquerda, nitidamente mais velho. O da minha direita, nitidamente mais novo. Ambos vestiam aparentando ser pessoas “remediadas”, como ainda há bem pouco se costumava dizer.
O homem mais novo, o da minha direita, queria pão, perguntou à senhora do lado de lá do balcão se tinha pão. Sim, tinha, mas não era de hoje. O senhor hesitou, se não era de hoje… Parecia que vinha buscar pão para o almoço do dia de Natal, para a mulher e os filhos, queria uns sete ou dez, mas assim, de ontem…
O homem mais velho, à minha esquerda, disse que o pão de véspera era pão bom. O outro concordou, sim, o pão do dia anterior às vezes até sabia melhor que o do dia. Parecia que queria matar dois coelhos de uma só cajadada: ser simpático para com o outro senhor e convencer-se a si próprio de que o pão da véspera era bom.
Sim, ia levar o pão. Se a senhora tivesse, olhe, ele até levava doze. Ai tinha?... Então eram mesmo doze.
Enquanto a senhora foi lá dentro ensacar o pão e eu bebia o meu café, o sujeito da minha esquerda, como que para ocupar o vazio de silêncio que parecia querer cair ali no meio de nós os três, lembrou que no tempo dele – e eu imaginei-o nesta altura a pensar nos seus netos – o pão era de mais dias, era mesmo de muitos mais dias, até o pão com bolor se comia todo.
Aquecia-se água, deixava-se ferver um pouco o pão nessa água e o bolor “ia-se todo naquela água”. Depois arrefecia e comia-se. Por isso achava engraçado que hoje em dia as pessoas achassem que o pão da véspera já não prestava.
O sujeito à minha direita quedou-se a pensar. E eu quedei-me a vê-lo pensar. Voltei-me para o “meu avô” e ele agora olhava para lá da parede em frente dele, perdido no longínquo mar das memórias... Até que desabafou: “Dizem que é ó tempo volta p’ra trás, não é?... Ainda bem que não…”
O “meu pai” pegou no saco com as doze carcaças, perguntou quanto devia e pagou.
Eu tinha decidido demorar o meu café para não perder bocadinho que fosse daquele diálogo. Pela minha visão periférica, apercebia-me dos movimentos de cabeça de um e de outro, ora a olharem-se um ao outro, ora a olharem em frente, só com a parede do fundo à frente deles.
Mas agora que o sujeito do pão se ia embora olhei-o directamente. Por cima do meu olhar, sem que do meu olhar se apercebesse, ele olhou o “avô” seu interlocutor, fez-lhe um aceno e desejou-lhe boas-festas. O outro esboçou vagamente um sorriso e voltou a envolver-se com as suas memórias, as memórias do que foram duros natais, natais de tantos dias, dos tais tantos dias do ano que, assim, com o pão bolorento, nos demonstram que, afinal, o natal não é sempre que um homem quiser.
Atrás de mim, a minha mãe agora dorme. Já há algum tempo, no ecrã que mostra a informação que os fios que caem sobre ela recolhem, os números que se actualizam constantemente mantêm-se na cor verde e não apitam mais no amarelo, nem no vermelho. As apitadelas dos números vermelhos punham enfermeiros e enfermeiras a entrarem no quarto correndo. Os gráficos sinusoidais são menos claros para mim, mas parecem-me agora, sem dúvida, mais harmoniosos entre si.
Não sei se alguma vez ela comeu pão com bolor fervido, ainda um dia lho perguntarei. Mas lembro-me, por exemplo, das histórias da sardinha - uma só - repartida com um dos irmãos. E outras histórias.
Como escreve David Mourão-Ferreira, um dia haverá um primeiro Natal que será feito para sempre sem ela.
Consola-me a inquebrantável certeza que, se a lei natural da saúde e das gerações o permitir, até que esse venha, nenhum ela passará sem a presença aconchegadora de um dos filhos. Se calhar, colhe o que semeou. O que pôde semear.
Fernando Pinto, Horta (Faial) 25 de Dezembro de 2009
quinta-feira, dezembro 24, 2009
Cadeia de poemas de Natal - 10, para o Alentejo do Zé Geadas
Escrevi assim no blogue do Zé, em resposta aos seus votos natalícios:
Obrigado, Zé, pelos teus votos.
Aqui te deixo, como se de um abraço grande se tratasse, para ti, teus pais, mano e avós, um poema de Natal, que colhi ontem na linda Biblioteca Municipal da Horta, para onde corri a proteger-me da valente chuva.
Diz que o Natal é de todos, em todo o lado. É em Dezembro, mas pode ser em todo o ano. O que é verdade.
Obrigado, Zé, pelos teus votos.
Aqui te deixo, como se de um abraço grande se tratasse, para ti, teus pais, mano e avós, um poema de Natal, que colhi ontem na linda Biblioteca Municipal da Horta, para onde corri a proteger-me da valente chuva.
Diz que o Natal é de todos, em todo o lado. É em Dezembro, mas pode ser em todo o ano. O que é verdade.
Natal, e não Dezembro
..........................
Entremos, apressados, friorentos,
numa gruta, no bojo de um navio,
num presépio, num prédio, num presídio,
no prédio que amanhã for demolido...
Entremos, inseguros, mas entremos.
Entremos, e depressa , em qualquer sítio,
porque esta noite chama-se Dezembro,
porque sofremos, porque temos frio.
..........................
Entremos, dois a dois: somos duzentos,
duzentos mil, doze milhões de nada.
Procuremos o rastro de uma casa,
a cave, a gruta, o sulco de uma nave...
Entremos despojados , mas entremos.
Das mãos dadas talvez o fogo nasça,
talvez seja Natal e não Dezembro,
talvez universal a consoada.
David Mourão-Ferreira (Cancioneiro de Natal.1960-1987)
quarta-feira, dezembro 23, 2009
Cadeia de poemas de Natal - 9, dos Açores ao Brasil
Cheguei ao Faial, já estou mesmo na Horta.
Assim que cheguei a casa, larguei a bagagem, abracei a minha mãe e tentei ir direitinho ao cemitério, junto à campa do meu pai. Só que chovia bastante.
Abriguei-me na Biblioteca Municipal, e fui passar os olhos pelas estantes. Lá descobri as "101 Noites de Natal, uma antologia literária".
À página 34 fui buscar o "Soneto de Natal", de Machado de Assis, que aqui reproduzo, dedicando-o a todos os brasileiros que conheço, e a todos os brasileiros que de vez em quando visitam este blogue.
Um homem, — era aquela noite amiga,
Noite cristã, berço do Nazareno, —
Ao relembrar os dias de pequeno,
E a viva dança, e a lépida cantiga,
Quis transportar ao verso doce e ameno
As sensações da sua idade antiga,
Naquela mesma velha noite amiga,
Noite cristã, berço do Nazareno.
Escolheu o soneto . . . A folha branca
Pede-lhe a inspiração; mas, frouxa e manca,
A pena não acode ao gesto seu.
E, em vão lutando contra o metro adverso
Só lhe saiu este pequeno verso:
"Mudaria o Natal ou mudei eu?"
Cadeia de poemas de Natal - 8, na Língua Espanhola

A Olga, minha querida colega e amiga do PLURALIA, é argentina. Vive há muitos anos em Madrid. Mandou-me estes versos do poeta chileno Pablo Neruda:
Pero incansablemente crece el árbol
y muere el árbol y a la vida acude
otro germen y todo continúa.
Y no es la adversidad lo que separa
los seres, sino
el crecimiento,
nunca ha muerto una flor: sigue naciendo.
Pablo Neruda
Pero incansablemente crece el árbol
y muere el árbol y a la vida acude
otro germen y todo continúa.
Y no es la adversidad lo que separa
los seres, sino
el crecimiento,
nunca ha muerto una flor: sigue naciendo.
Pablo Neruda
Com os mejores deseos y cariño do Alberto, da Olga e da Cande
Olá Miguel! Um grande abraço!
Voltei ao café do aeroporto onde conheci, por acaso, o Miguel Guerreiro.
Na fila estavam três pessoas à minha frente. Olhei para trás, o Miguel e a mãe não estavam ali. Aliás, não estava ninguém atrás de mim.
Voltei-me outra vez para a frente. A moça que estava a receber os pré-pagamentos, três vezes eu a vi receber dinheiro e entregar trocos e talões; duas vezes a vi saudar os clientes com brevíssimos bons-dias. Nunca a vi olhar qualquer um dos passageiros.
Eu estava bem-disposto. Vinham-me à memória as lembranças daquele dia com o Miguel, os seus pais e o João Marrana. E da manhã seguinte, inesperadamente outra vez ao pé deles, no hotel na Terceira.
Quando chegou a minha vez de fazer o pedido, já de porta-moedas na mão disse para a menina: "Bom dia e bom Natal". A menina interrompeu o gesto automático que iniciava com o indicador da mão direita apontado ao teclado da máquina registadora, olhou para mim, fixou-me, sorriu, devolveu-me os bons-dias e retribuiu-me os votos.
Depois de me dar o café que pedi, tal como pedi no dia do Miguel, voltou a olhar-me, voltou a sorrir-me e desejou-me boa viagem.
- Vês, Miguel, como é fácil fazer bem às pessoas? Um grande abraço! Falamos um dia destes.
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