quarta-feira, dezembro 23, 2009

Cadeia de poemas de Natal - 9, dos Açores ao Brasil

Cheguei ao Faial, já estou mesmo na Horta.
Assim que cheguei a casa, larguei a bagagem, abracei a minha mãe e tentei ir direitinho ao cemitério, junto à campa do meu pai. Só que chovia bastante.
Abriguei-me na Biblioteca Municipal, e fui passar os olhos pelas estantes. Lá descobri as "101 Noites de Natal, uma antologia literária".
À página 34 fui buscar o "Soneto de Natal", de Machado de Assis, que aqui reproduzo, dedicando-o a todos os brasileiros que conheço, e a todos os brasileiros que de vez em quando visitam este blogue.

Um homem, — era aquela noite amiga,

Noite cristã, berço do Nazareno, —

Ao relembrar os dias de pequeno,

E a viva dança, e a lépida cantiga,


Quis transportar ao verso doce e ameno

As sensações da sua idade antiga,

Naquela mesma velha noite amiga,

Noite cristã, berço do Nazareno.


Escolheu o soneto . . . A folha branca

Pede-lhe a inspiração; mas, frouxa e manca,

A pena não acode ao gesto seu.


E, em vão lutando contra o metro adverso

Só lhe saiu este pequeno verso:

"Mudaria o Natal ou mudei eu?"



Cadeia de poemas de Natal - 8, na Língua Espanhola

A Olga, minha querida colega e amiga do PLURALIA, é argentina. Vive há muitos anos em Madrid. Mandou-me estes versos do poeta chileno Pablo Neruda:

Pero incansablemente crece el árbol
y muere el árbol y a la vida acude
otro germen y todo continúa.
Y no es la adversidad lo que separa
los seres, sino
el crecimiento,
nunca ha muerto una flor: sigue naciendo.
Pablo Neruda
Com os mejores deseos y cariño do Alberto, da Olga e da Cande

Olá Miguel! Um grande abraço!

Voltei ao café do aeroporto onde conheci, por acaso, o Miguel Guerreiro.
Na fila estavam três pessoas à minha frente. Olhei para trás, o Miguel e a mãe não estavam ali. Aliás, não estava ninguém atrás de mim.
Voltei-me outra vez para a frente. A moça que estava a receber os pré-pagamentos, três vezes eu a vi receber dinheiro e entregar trocos e talões; duas vezes a vi saudar os clientes com brevíssimos bons-dias. Nunca a vi olhar qualquer um dos passageiros.
Eu estava bem-disposto. Vinham-me à memória as lembranças daquele dia com o Miguel, os seus pais e o João Marrana. E da manhã seguinte, inesperadamente outra vez ao pé deles, no hotel na Terceira.
Quando chegou a minha vez de fazer o pedido, já de porta-moedas na mão disse para a menina: "Bom dia e bom Natal". A menina interrompeu o gesto automático que iniciava com o indicador da mão direita apontado ao teclado da máquina registadora, olhou para mim, fixou-me, sorriu, devolveu-me os bons-dias e retribuiu-me os votos.
Depois de me dar o café que pedi, tal como pedi no dia do Miguel, voltou a olhar-me, voltou a sorrir-me e desejou-me boa viagem.
- Vês, Miguel, como é fácil fazer bem às pessoas? Um grande abraço! Falamos um dia destes.

domingo, dezembro 20, 2009

Cadeia de poemas de Natal - 7, KALANDA, da Grécia

Dos meus queridos amigos George Detras, Sissi e Giannos, de Kalamata (Grécia), companheiros do PLURALIA, recebi, num e-mail, informações preciosas sobre a celebração tradicional do Natal na Grécia, que transcrevo para aqui, agora:
"No dia 24 de Dezembro, a véspera de Natal, as crianças gregas cantam canções de Natal chamadas “Kalanda”. Este termo provém do termo latino Calendae [donde resulta o “calendário”], que designa os primeiros dias do mês de Janeiro, os quais eram celebrados no tempo do império bizantino com grande pompa. Assim, as crianças gregas vão de casa em casa e os habitantes oferecem-lhe guloseimas, frutos secos ou bolos secos que, hoje em dia, são substituídos quase sempre por dinheiro. As crianças acompanham os seus cantos com um triângulo metálico [trigone, termo latino], que percutem com a ajuda de uma vareta, também ela metálica." São, afinal, os nossos tradicionais ferrinhos.
KALANTA = Chant de Noël
Καλήν εσπέραν άρχοντες - Good afternoon lords
κι αν είναι ορισμός σας - and if it's your command
Χριστού την θείαν γέννησιν - the holy birth of Christ
να πω στ' αρχοντικό σας - may I say in your house
Χριστός γεννάται σήμερον - Christ is born today
εν Βηθλεέμ τη πόλει - in the city of Bethlehem
οι ουρανοί αγάλλονται - the skies get serene
χαίρει η κτίσις όλη - the entire firmament rejoices

Εν τω σπηλαίω τίκτεται - in the cave is born
εν φάτνη των αλόγων - in the stable of the horses
ο βασιλεύς των ουρανών - the king of the skies
και ποιητής των όλων - and creator of everything

GREGO

Kalîn espéran árchontes,
an eínai orismós sas,
Christoú tîn theían Génnîsin
na pô st' archontikó sas.
Christós yennátai sîmeron
en Bîthleém tî pólei.
Oi ouranoí agállontai
chaírei î ktîsis ólî.

En tô spîlaíô tíktetai
en phátnî tôn alógôn
o Vasileús tôn ouranôn
kai Poiîtîs tôn ólôn.




FRANCÊS

Bonne soirée maîtres
et si ce sont vos ordres
que j’annonce la naissance
de Jésus à votre château.

Jésus est né aujourd’hui
dans la ville de Bethléem.
Le ciel exulte
et toute la nature se réjouit

Dans la grotte, il vient à la vie.
Dans l’écurie des chevaux,
le roi des cieux
et le poètes de tous

ESPANHOL

Buenas tardes, noble gente,
Si quieren
El santo nacimiento de Cristo
Podré cantar en su casa.
Cristo ha nacido hoy
En el pueblo de Belén,
Los cielos se regocijan,
Toda la naturaleza es feliz.

En una cueva nació
En un pesebre para caballos,
El Rey de todo el universo,
El Creador de cada cosa.


sábado, dezembro 19, 2009

Cadeia de poemas de Natal - 6, PETIT PAPA NOËL

Este apontamento é dedicado aos meus alunos do 10.º AS, na sequência da aula com que fechámos as aulas do primeiros período, para agora irmos celebrar o Natal com os nossos familiares e os nossos amigos.
Foi uma aula muito espontânea, muito bonita, em que visitámos o Natal de vários países, até de alguns que estranhámos que festejassem o Natal ("Com aquela Língua?...", "As senhoras estão lindas, mas... vestidas com sari?... Não sabia que cantavam o Natal!...")
A meio da aula, o meu mano Acúrcio entrou pela sala dentro e brindou-nos com o lindo poema de Natal que faz parte da nossa cadeia de poemas de Natal (o de David Mourão-Ferreira). Que foi lido em voz alta para todos.
Junto agora os versos da linda canção de Natal francesa, cantada na língua oficial do projecto em que a nossa Escola participou durante três anos, o PLURALIA, e cujo espírito de trabalho, confraternização e amizade continua bem vivo (clicando no título do apontamento, vai-se ao Youtube ouvir a canção, numa interpretação ligeira, muito bonita; e que tem a ver com as nossas aulas, os meus alunos perceberão porquê).

Petit papa Noël

C'est la belle nuit de Noël,

La neige étend son manteau blanc,

Et les yeux levés vers le ciel,

à genoux, les petits enfants,

Avant de fermer les paupières,

Font une dernière prière.

Petit papa Noël

Quand tu descendras du ciel,

Avec des jouets par milliers,

N'oublie pas mon petit soulier.

Mais avant de partir,

Il faudra bien te couvrir,

Dehors tu vas avoir si froid,

C'est un peu à cause de moi.

Il me tarde tant que le jour se lève

Pour voir si tu m'as apporté,

Tous les beaux joujoux que je vois en rêve

Et que je t'ai commandés.

Petit papa Noël

Quand tu descendras du ciel,

Avec des jouets par milliers,

N'oublie pas mon petit soulier.

Le marchand de sable est passé

Les enfants vont faire dodo

Et tu vas pouvoir commencer

Avec ta hotte sur le dos

Au son des cloches des églises

Ta distribution de surprises

Petit papa Noël

Quand tu descendras du ciel,

Avec des jouets par milliers,

N'oublie pas mon petit soulier.

Si tu dois t'arrêter

Sur les toits du monde entier

Tout ça avant demain matin,

Mets-toi vite, vite en chemin.

Et quand tu seras sur ton beau nuage,

Viens d'abord sur notre maison

Je n'ai pas été tous les jours bien sage,

Mais j'en demande pardon.

Petit papa Noël

Quand tu descendras du ciel,

Avec des jouets par milliers,

N'oublie pas mon petit soulier,

Petit papa Noël.

paroles : Raymond Vinci

musique : Henri Martinet

Cadeia de poemas de Natal - 5, este tem letra dos Açores

Outro elo da cadeia, outro elo da Manuela


NATAL CHIQUE

Percorro o dia, que esmorece
Nas ruas cheias de rumor;
Minha alma vã desaparece
Na muita pressa e pouco amor.

Hoje é Natal. Comprei um anjo,
Dos que anunciam no jornal;
Mas houve um etéreo desarranjo
E o efeito em casa saiu mal.

Valeu-me um príncipe esfarrapado
A quem dão coroas no meio disto,
Um moço doente, desanimado…
Só esse pobre me pareceu Cristo.

Vitorino Nemésio

quinta-feira, dezembro 17, 2009

Cadeia de poemas de Natal - 4

Hoje trago para aqui um poema de Natal de Miguel Torga.
Por três razões:
  • porque é um poema de Natal
  • porque adoro os escritos de Miguel Torga
  • porque acho delicioso (sem ironia, acreditem!) o comentário que encontrei no blogue de onde tirei o poema. Andava "preguiçosamente" à procura de uma versão já escrita (para não ter de escrevê-la eu por inteiro), encontrei-a num outro blogue, mas mal publicada, e depois apareceu-me bem escrita neste blogue. Sinceramente, acho o comentário delicioso, pela ingenuidade (verdadeiramente natalícia) e pela atenção e estímulo afectuosos da autora Teresa para com o seu escritor ( penso que ela pensa que é o João Carvalho Fernandes)!

HISTÓRIA ANTIGA - MIGUEL TORGA

Era uma vez, lá na Judeia, um rei.
Feio bicho, de resto:
Uma cara de burro sem cabresto
E duas grandes tranças.
A gente olhava, reparava, e via
Que naquela figura não havia
Olhos de quem gosta de crianças.

E, na verdade, assim acontecia.
Porque um dia,
O malvado,
Só por ter o poder de quem é rei
Por não ter coração,
Sem mais nem menos,
Mandou matar quantos eram pequenos
Nas cidades e aldeias da Nação.

Mas,
Por acaso ou milagre, aconteceu
Que, num burrinho pela areia fora,
Fugiu
Daquelas mãos de sangue um pequenito
Que o vivo sol da vida acarinhou;
E bastou
Esse palmo de sonho
Para encher este mundo de alegria;
Para crescer, ser Deus;
E meter no inferno o tal das tranças,
Só porque ele não gostava de crianças.

Miguel Torga

(no blogue http://fumacas.weblog.com.pt/arquivo/380002.html)

O comentário é o seguinte, que depois, a seguir, reproduzo com a pontuação correcta:

"nao sei o que dizer desta historia mas acho um bocado esagerada de mais veja se a melhora boa sorte"

"Não sei o que dizer desta história, mas acho um bocado exagerada demais. Veja se a melhora. Boa sorte!"


quarta-feira, dezembro 16, 2009

A cadeia fez-se: o Natal da Eduarda

Foto: mdlr o4o4 - ramagem de abeto (Abies spp.)

NATAL À BEIRA DO RIO
É o braço do abeto a bater na vidraça!
É o ponteiro pequeno a caminho da meta!
Cala-te, vento velho! É o Natal que passa,
a trazer-me da água a infância ressurrecta.

Da casa onde nasci via-se perto o rio.
Tão novos os meus Pais, tão novos no passado!
E o Menino nascia a bordo de um navio
que ficava, no cais, à noite iluminado...
.
Ó noite de Natal, que travo a maresia!
Depois fui não sei quem que se perdeu na terra.
E quanto mais na terra a terra me envolvia
mais da terra fazia o norte de quem erra.
.
Vem tu, Poesia, vem, agora conduzir-me
à beira desse cais onde Jesus nascia...
Serei dos que afinal, errando em terra firme,
precisam de Jesus, de Mar, ou de Poesia!
.
David Mourão-Ferreira, Cancioneiro de Natal (1971)

terça-feira, dezembro 15, 2009

NATAL DE QUEM? pergunta a Manuela

A minha colega e amiga Manuela mandou-me o seguinte poema, dizendo, no fim do seu e-mail:

"O meu mais belo poema de Natal.

Vamos transmitir aos mais novos o que celebra o Natal, ainda estamos a tempo!!!"

Obrigado, Manuela! Vamos a isso!

NATAL DE QUEM?

Mulheres atarefadas

Tratam do bacalhau,

Do peru, das rabanadas.

- Não esqueças o colorau,

O azeite e o bolo-rei!

- Está bem, eu sei!

- E as garrafas de vinho?

- Já vão a caminho!

- Oh mãe, estou pr'a ver

Que prendas vou ter.

Que prendas terei?

- Não sei, não sei...

Num qualquer lado,

Esquecido, abandonado,

O Deus-Menino

Murmura baixinho:

- Então e Eu,

Toda a gente Me esqueceu?

Senta-se a família

À volta da mesa.

Não há sinal da cruz,

Nem oração ou reza.

Tilintam copos e talheres.

Crianças, homens e mulheres

Em eufórico ambiente.

Lá fora tão frio,

Cá dentro tão quente!

Algures esquecido,

Ouve-se Jesus dorido:

- Então e Eu,

Toda a gente Me esqueceu?

Rasgam-se embrulhos,

Admiram-se as prendas,

Aumentam os barulhos

Com mais oferendas.

Amontoam-se sacos e papeis

Sem regras nem leis.

E Cristo Menino

A fazer beicinho:

- Então e Eu,

Toda a gente Me esqueceu?

O sono está a chegar.

Tantos restos por mesa e chão!

Cada um vai transportar

Bem-estar no coração.

A noite vai terminar

E o Menino, quase a chorar:

- Então e Eu,

Toda a gente Me esqueceu?

Foi a festa do Meu Natal

E, do princípio ao fim,

Quem se lembrou de Mim?

Não tive tecto nem afecto!

Em tudo, tudo, eu medito

E pergunto no fechar da luz:

- Foi este o Natal de Jesus?!!!

(João Coelho dos Santos

in Lágrima do Mar - 1996)


quarta-feira, dezembro 09, 2009

Mensagem de Natal 2009

Há pouco fui chamado a resolver um problema delicado. A pessoa com quem falei estava tensa, grave, muito preocupada. Quando a conversa acabou, estava já tranquila. Olhou-me, estendeu-me a mão, sorriu-me e desejou-me um bom Natal.
Nesse momento tomei consciência de que a festa grande desta época do ano acabava de voltar.
- O que é o Natal?... é a pergunta que vai e volta, todos os anos, mais ou menos por esta altura. E todas as vezes a gente tenta dar uma resposta nova, diferente.
- O Natal é sentirmo-nos em casa, à volta de memórias, do convívio e de sonhos, pensei eu.
Nos mais pequenos há mais sonhos do que memórias, nos mais velhos há mais memórias do que sonhos. O convívio de todos é o convívio possível, em que se fazem votos para que o possível seja igual ao desejo. O desejo é sempre cheio de paixão e de amor.
Tantas vezes que os sonhos dos mais pequenos são a alegria dos mais velhos e as memórias dos mais velhos fazem as delícias dos mais pequenos!...
Não sou nada original a dizer que escrevi esta (pretensiosa) mensagem de Natal “aos ombros de dois gigantes”: Fernando Pessoa e Eugénio de Andrade.
Fernando Pessoa escreveu “A minha pátria é a minha língua”.
Eugénio de Andrade, por seu lado, escreveu o poema que a seguir transcrevo:
O sal da língua
Escuta, escuta: tenho ainda
uma coisa a dizer.
Não é importante, eu sei, não vai
salvar o mundo, não mudará
a vida de ninguém - mas quem
é hoje capaz de salvar o mundo
ou apenas mudar o sentido
da vida de alguém?
Escuta-me, não te demoro.
É coisa pouca, como a chuvinha
que vem vindo devagar.
São três, quatro palavras, pouco
mais. Palavras que te quero confiar,
para que não se extinga o seu lume,
o seu lume breve.
Palavras que muito amei,
que talvez ame ainda.
Elas são a casa, o sal da língua.
Nas palavras cabem os sonhos, cabem as memórias e cabe o convívio. Cabem o entendimento e a tolerância.
E os votos de Feliz Natal!
Até p’ró ano!
Um xi-coração grande, grande, grande, do
Fernando Pinto