sexta-feira, março 07, 2008

Se amanhã o repórter me perguntasse... 2

Se amanhã o repórter me perguntasse o que é que eu penso do que o dr. José Miguel Júdice disse muito recentemente, ainda esta semana, num dos canais da televisão portuguesa, num debate com o dr. António Barreto, a propósito das manifestações de professores, que têm acontecido por estes dias um pouco por todo o País [Lembro que o que ele disse foi isto mais ou menos assim: (...) Que Deus livre os meus netos de cairem nas mãos de alguns desses professores, que eu vi nessas manifestações (...)], eu responder-lhe-ia assim:
Tem toda a razão, dr. Júdice! Que Deus livre os seus netos e também os filhos e os netos de todos nós desses professores!...
E digo mais: tenho a certeza que o dr. Júdice concordaria comigo se eu continuasse assim: Que Deus livre também os seus netos, os filhos e netos de todos nós, e os nossos pais, e os nossos irmãos, e os nossos amigos, e os nossos vizinhos de alguns advogados, psicólogos, políticos e outros profissionais que aparecem também nas televisões e nos jornais!... Às tantas, teremos também de ver o que pode passar com os nossos telhados de vidro...

Se amanhã o repórter me perguntasse... 1

Se amanhã, durante a Manifestação dos Professores, um repórter da televisão ou dos jornais me perguntasse o que é que eu estava ali a fazer, porque é que eu protestava ali com os meus outros colegas todos, eu responderia qualquer coisa do género:
Sabe, senhor jornalista, vamos até pensar que a Senhora Ministra, a dr.ª Maria de Lurdes Rodrigues está de boa fé, assim como toda a sua equipa de trabalho. Vamos pensar que todos eles acreditam sinceramente que os professores são profissionais também de boa fé, fundamentalmente competentes, briosos e motivados. E ainda que os documentos, as leis e as decisões que a equipa ministerial tem produzido são todos produções notáveis, de grande rigor científico e pedagógico.
Pois bem, senhor jornalista, mesmo considerando tudo isto assim desta maneira, vem-me à cabeça a imagem de alguém que, quaisquer que fossem as razões, se encontrasse num estado de saúde debilitada, necessitando de um alimentação reequilibradora e fortificadora. Assim, alguém que dessa pessoa cuidasse, esforçar-se-ia por lhe preparar um energético pequeno-almoço, um almoço rico e variado, um lanche adequado e finalizasse com um jantar tranquilizador.
Só que, na ânsia, de rapidamente recuperar a pessoa fragilizada, o cuidador ansioso, apressava os tempos de digestão e avançava com o almoço logo a seguir ao pequeno-almoço; de enfiada, o lanche, logo a seguir ao almoço; e, ainda antes do arroto dos bebés que tanto consola as mães, enfiava o jantar pela boca do ser inicialmente tão fragilizado... só que agora tão empanturrado com os cuidados solícitos assim tão atropelados.
Não será que verdadeiramente possam entender que, independentemente da justeza das suas intenções [as da equipa ministerial], quiçá seja assim que hoje em dia se vive nas escolas, com a catadupa de leis e regulamentos sobre o estatuto do aluno, o diploma das carreiras dos professores, o modelo de gestão das escolas, etc.?

sábado, dezembro 22, 2007

Até sempre, querido pai!

Um dia, ao sair da escola, ia eu a caminho de casa, um aluno meu – que muito me estima, e que eu muito estimo – gritou-me, do outro lado da rua: - Setor, não tem vergonha?... Um professor a andar à pobre?... a ir a pé para casa?...
Sorri para ele, acenei-lhe e gritei-lhe um comentário qualquer, de circunstância.
Mais recentemente, ao sair de casa, à pobre, a caminho da escola, uma vizinha dos meus pais chamou-me e parámos a falar um com o outro. Curiosamente, paráramos ali mesmo à porta da casa deles.
- Os seus pais, Fernando?... Como está o seu pai?...
Respondi-lhe o que eu me habituara já a responder, todos os dias, tentando, apesar de tudo, dizer qualquer coisa que não soasse a cassete repetida e, no mínimo, respeitasse a atenção que assim as pessoas dispensavam sentidamente aos meus pais. – Está fraquinho – dizia-lhes eu – mas está a tentar aguentar-se. Está junto à filha, que não o larga. Assim está bem.
Mal sabia eu que, mesmo que incipientemente, estava já a seguir o exemplo do nosso pai, como comprova o comentário que a nossa vizinha logo de seguida me fez. Disse assim a senhora: O seu pai faz-nos falta, sentimos a falta dele. Quando o víamos, ele tinha sempre qualquer coisa para dizer, não era só os bons-dias, não era só cumprimentar as pessoas. E o que dizia tinha a-propósito. Sabia-nos bem. Agora sentimos a sua falta aqui no bairro.
Isto teve para mim tal significado que, imediatamente depois de me afastar da senhora, peguei no caderno de apontamentos que sempre me acompanha e registei aquelas palavras sinceras, claras e nostálgicas. Não queria esquecê-las, nem deturpá-las.
Quando retomei o caminho para a escola, pude tomar claramente consciência de alguns valores que sempre pautaram a vida do nosso pai, desfiando, naquele rotineiro caminho de todos os dias de aulas, lembrança atrás de lembrança, todas aquelas que tiveram tempo de me ocorrerem ao pensamento: acima de todos esses valores, tinhas, querido pai, o valor da família, o valor da vizinhança e da cordialidade social, bem patentes no comentário muito sentido daquela nossa vizinha.
Andar à pobre… pois é…
Outra lição que tu nos deixas, a lição da profunda riqueza humana de quem anda a pé: a riqueza do encontro.
Quero, cada vez mais, andar na vida como tu andavas, pai, a pé, ou à pobre, tanto faz, a espalhar cordialidade e bem-estar à minha volta, como tu sempre fizeste.
Descansa agora na paz que mereces. Confia que continuaremos a seguir os teus exemplos e as tuas lições de vida.
Perdoa-nos os nossos desencontros e desentendimentos. Perdoa-nos as vezes que te deixámos triste connosco. Sabemos que sempre tiveste muito orgulho nos teus filhos. Sabes que podes continuar a ter.
O Natal é a festa da família. Tu fazias da família a tua ocupação e a tua preocupação durante o ano todo. E na família estavam também os teus vizinhos e os teus amigos.
Todos nós estamos muito gratos pelo grande Natal que sempre nos deste.
Bem-hajas! Obrigado, pai querido!
Gostamos muito de ti!
Até sempre!...

domingo, dezembro 09, 2007

No simbolismo das saudações, África 1 - União Europeia 0



Olhava quase distraidamente a televisão, que transmitia, ontem de manhã, a chegada dos governantes à abertura da Cimeira União Europeia - África, até que qualquer coisa insidiosamente parecia querer tomar conta da minha atenção e da minha análise.


Finalmente percebi o que era. Ligava-se ao que foi o tema principal da maioria das minhas aulas na semana passada: a comemoração do Dia Internacional dos Direitos Humanos, no próximo dia 10. Falei aos meus alunos em diversidade cultural e, entre outras coisas, falámos sobre o que poderão ser os traços distintivos entre as etnias, as culturas, as sociedades. Por exemplo, a forma de saudação.


E o que ontem acabei por consciencializar ao assistir à chegada de presidentes, primeiros-ministros e outras individualidades foi a constatação que as saudações mais expressivas, mais calorosas, foram de líderes africanos. A mão direita que, depois de cada aceno, é docemente encostada ao coração [Esta sequência não é a mesma coisa que, por exemplo, os americanos e franceses fazem, em saudação aos símbolos nacionais, a bandeira ou o hino. Neste caso, é uma espécie de "continência civil"]; ou que, depois do mesmo aceno, se cola num abraço à mão esquerda, erguidas ambas à altura do rosto ou acima da cabeça. Tanto numa como na outra maneira, os olhos de quem saúda se mantêm fixos nas pessoas saudadas. Estes tipos de saudação são muito mais envolventes.


Sei que as boas e as más impressões que nos marcam têm valor absorvente, quer dizer, se as impressões são boas, buscamos o que as confirme. Se são más, fazemos o mesmo. Regressei da Tanzânia impressionado com a afectividade social que vi em muita gente, grandes e pequenos.


Sei que o que vi agora na passadeira vermelha por onde passaram tantos líderes políticos confirmam o que, se calhar, queria ver... Pois bem, vou continuar a olhar, tentando fazê-lo com isenção.


Para já, faço questão de que, no futuro, os meus cumprimentos a distância tenham a expressividade dos que vi em pessoas que têm África no sangue e em África lideram os destinos de tanta gente.

Outra conferência, outra oportunidade... na Tanzânia

Tentei dar o máximo de atenção possível ao desenvolvimento do Encontro entre os líderes da Comunidade Europeia e os líderes do Continente Africano, que se juntaram em Lisboa neste fim-de-semana.
Procurei, quase avidamente, tudo o que pudesse assinalar a presença e a participação da delegação da Tanzânia. E pesquisei na Net alguns ecos que os jornais da Tanzânia pudessem estar a fazer do Encontro de Lisboa, especialmente aqueles jornais que eu pude ler quando lá estive, e em que trabalham jornalistas com quem já contactei depois de voltar a Lisboa.
Foi assim que fui levado a ler a seguinte notícia, que apreciei (África não está mesmo parada!...) e que aqui deixo transcrita, com a intenção de que seja um pouco mais divulgada:


Another conference, another opportunity
2007-12-08 10:06:40 By Editor

Tanzania is set to play host to the Fifth African Population Conference, due to open at the Arusha International Conference Centre and run for a full five days. It is jointly organised by the Tanzanian Government, specifically the Planning, Economy and Empowerment ministry, and the Union of African Population Studies (UAPS). The multidisciplinary forum is expected to bring together a wide variety of stakeholders, among them scientists, policy makers and development partners, who will be deliberating on the development challenges posed by population growth. Delegates are also expected to exchange ideas and experience that could help them approach the challenges embedded in the continent�s development plans and strategies better equipped and therefore more knowledgeable and with enhanced confidence. Knowing as we very well do the monumental problems that are the lot of most of Africa as an entity and most of the individual countries that make up the continent, we wholeheartedly welcome the convening of the Arusha conference. We see it as an auspicious occasion that has come at a most opportune moment. Deliberations at the forum, to be opened by Zanzibar President Amani Abeid Karume and closed by Zanzibar Chief Minister Shamsi Vuai Nahodha, are scheduled to revolve around the theme: ``Emerging Issues on Population and Development in Africa``. This suggests that delegates will spend part of their time brainstorming on the proverbial vicious circle where population growth is seen as the villain causing poverty in the world and world poverty is therefore viewed as a direct consequence of population growth. Of course, humankind has since discovered that things are much more complicated than that. That is why the Arusha conference will delve into the causes and consequences of population growth with a very open mind and a high degree of keenness. Delegates will have a lot on their menu, discussing issues like the impact of migration and urbanisation on development as well as maternal health and child survival and development. They will also deliberate on issues like transitions in health patterns, sexual behaviour and sexuality, and the link between schooling and employment. There will be various other hugely pertinent items on the forum`s agenda. Happily, these will include how to tame the impact of the scourge of HIV/Aids for the good of this generation and posterity and ensuring that population does not eat deeply enough into the environment to put sustainable development at risk. The conference will have the advantage of benefiting from the dignified presence of a rich mix of development experts who will be contributing to the deliberations at the AICC. And it promises to be a wonderful opportunity with the delegates having great company able to translate itself into the innovative approaches we need to achieve our development goals, including the much-touted MDGs. By definition, the Government has excellent knowledge of the causes of the social, economic and other problems our people are faced with. It should use next week�s conference, which it is co-organising, to reflect on how best to solve those problems.
SOURCE: Guardian

sábado, outubro 13, 2007

Educação e Orgulho

A M. teve hoje um problema sério na escola.
O manejo aparentemente muito inépto da professora de um momento de estudo e de resultado escolar subsequente menos feliz produziu na menina uma ferida no seu orgulho pessoal e na sua relação honesta com a aprendizagem escolar de consequências ainda desconhecidas.
As nossas crianças merecem professores com sólida formação pedagógica. E todos os professores devem ter uma sólida formação pedagógica. Os verdes anos da profissão docente não deverão nunca servir de desculpa para não ter essa formação. Isso sim, deverão ser motivo de redobrado cuidado em a adquirir, de tão fundamental que ela é.
Sobretudo para esses professores de verdes anos, permito-me saltar por cima de copyrights e deixar aqui os versos de alguém que se sentiu feliz em escrevê-los e a interpretação de alguém que num dado momento da sua vida se viu neles espelhada: Whitney Houston .

The greatest love of all
I believe the children are our are future
Teach them well and let them lead the way
Show them all the beauty they possess inside
Give them a sense of pride to make it easier
Let the children’s laughter remind us how we used to be
Everybody searching for a hero
People need someone to look up to
I never found anyone to fulfill my needs
A lonely place to be
So I learned to depend on me
I decided long ago, never to walk in anyone’s shadows
If I fail, if I succeed
At least I live as I believe
No matter what they take from me
They cant take away my dignity
Because the greatest love of all
Is happening to me
I found the greatest love of all
Inside of me
The greatest love of all
Is easy to achieve
Learning to love yourself
It is the greatest love of all
I believe the children are our future
Teach them well and let them lead the way
Show them all the beauty they possess inside
Give them a sense of pride to make it easier
Let the children’s laughter remind us how we used to be
I decided long ago, never to walk in anyone’s shadows
If I fail, if I succeed
At least I live as I believe
No matter what they take from me
They cant take away my dignity
Because the greatest love of all
Is happening to me
I found the greatest love of all
Inside of me
The greatest love of all
Is easy to achieve
Learning to love yourself
It is the greatest love of all
And if by chance, that special place
That you’ve been dreaming of
Leads you to a lonely place
Find your strength in love
(Words and music by Michael Masser and Linda Creed)

quinta-feira, outubro 11, 2007

Tanzanian fellowship is really nice...


Como já disse algures, estive de férias na Tanzânia, na segunda quinzena do mês de Agosto. Num dos dias, numa longa viagem de autocarro entre Dar es Salaam e Arusha, uma simpática passageira teve a amabilidade de me emprestar o seu jornal. Tive assim ocasião para ler o artigo delicioso que a seguir transcrevo, tal qual me foi enviado pelo seu autor, a quem pedi autorização para o publicar. Prontamente o senhor jornalista acedeu, gesto que quero publicamente agradecer entusiasticamente.
O artigo é delicioso!... Diz muito, na minha opinião, a todos aqueles que, de uma forma ou de outra, se ocupam com a educação intercultural e a multiculturalidade.
E não me alongo mais.
Leiam… Disfrutem!...

Brevemente aqui deixarei uma tradução portuguesa do artigo, também autorizada pelo autor.

The Guardian on Sunday,
(Published by The Guardian Limited)
Dar es Salaam,
Tanzania.

02.09.2007

My Friend Kukuru Kakara with Wilson Kaigarula

Tanzanian fellowship is really nice…

One prize-winning behavior of Tanzanians is that we don’t bother about tribes. We are Tanzanians first and foremost, and last and “behind-most”. And we shall remain thus till the end of the world. Amen.

Being born on the shores of lakes, the slopes of mountains, in valleys and the middle of forests represents geographical blessings and accidents over which no-one is too excited about or weeps over.

After murdering and burying tribal feelings, many of our children and grand children are ethnic half-castes, the surnames of their fathers being only incidental.

Names merely serve the purpose of distinguishing one person from another, in the same way as a donkey I distinguished from a horse, a baboon from a monkey and a leopard from a cheetah.

A Ruvuma man desperate to conquer bachelorhood and embrace “marriedhood” walks for nearly one million kilometres. He is sighted, with eyes as sharp as those of a healthy, middle-aged cat, and yet he doesn’t see any beautiful and well-mannered woman along the way.

He pretends to be blind and recovers the sight he had not lost in the first place, after reaching Musoma and sees a woman in respect of whom, like Jim Reeves, he would have declared:” My heart is in Rosario”.

Children born by that couple are neither Wangoni nor Wakurya and not even Wawa (Wangoni-Wakurya) but Tanzanians.

Likewise, a Mount Kilimanjaro slopes woman wanders around blindly for two yars and eventually re-surfaces as a sighted daughter of Eve on the shores of Lake Rukwa.

She opens her eyes just in time not to fall into and swim half-way across the lake. She could have ended up as a lunch-time delicacy for a friendly half-fish, half-animal called crocodile.

Ten minutes after opening her eyes, she sees a half-handsome, half-ugly man who stabs her heart like musician Marijani Rajabu`s “kuki moyoni”.

She marries him after digging deep into his family history and establishing that it is 100 per cent pure, by not only not practicing witchcraft, but not even knowing that it exists.

A child manufactured by such a couple is neither a Mpare nor a Mfipa but a pure Tanzanian.

But Tanzanian men and women are not just husband and wife hunters but social mixers as well.

Kukuru Kakara and I socialize in bars with people from various parts of Tanzania, but where our Kaigarula-ness, Kakara-ness, Massawe-ness, ole-ness, and all other “nesses” don’t matter.

Recently, we were at Upara Bar – so-named because the proprietor lost all his hair due to unavoidable circumstances which are too sensitive to disclose.

We were joined by a chap called Tony, a jovial stranger whom we gladly welcomed. We never bothered to establish his surname because doing so would have violated Tanzanian fellowship.

Tony dwelt on what he called spiritualism, saying he was alarmed by the trend of young people engaging in unholy things like drug abuse, prostitution and robberies.

He speculated that that this was because most people had ignored religious worship.

Before he gave us details of a new church whose construction he was the project chairman, his mobile phone rang.

Tony referred the person at the other end as God, and then proceeded to threaten him with death:
“Mungu wangu Godi n`takutoa roho. Usifanye mcheso na khela yangu, aisee…”

Translation, but minus God, because no-one can communicate with God on a phone: “I will kill you; don’t play monkey tricks with my money…”

He then moved a considerable distance away, apparently to prevent us from hearing what he would tell “God” next.

He didn’t return, and we continued to enjoy ourselves; or, rather, to enjoy the beer and the half-lies and half-truths we were exchanging free of charge.

Half an hour later, four police detectives politely asked us to accompany them to the police station to answer a few questions about a fellow called Tony, a notorious car thief who was reportedly in our company about half an hour previously.

We were released, but told that should the need arise, we would be summoned to help the police in their investigations.

Tanzanian fellowship is sweet, very sweet indeed! Long live Tanzanian-ness!

Wilson Kaigarula is the Associate Editor, The Guardian on Sunday.
wkaigarula@yahoo.com. 0713-450-633

Afinal, Deus não conhece tudo...

Às vezes, pegamos quase (é que completamente nunca é…) inadvertidamente num livro e folheamo-lo também quase automaticamente. E acabamos por ver o que antes não vimos… ou melhor, vimos mas não ligámos.
Foi o que me aconteceu hoje, com a seguinte passagem, se calhar, porque estamos outra vez ainda no início do ano escolar e mais uma vez insisto com os meus alunos para que escrevam. Aliás, já este ano, também, procurei que o enredo do pequeno Peter com o escritor Barrie, ficcionado no filme “À procura da Terra do Nunca”, lhes servisse de incentivo para isso, para escrever.
Eis então a passagem, extraída da abertura do livro de Bill Bryson, Breve História de Quase Tudo (A Short History of Nearly Everything), publicado em português em 2004 pela Quetzal Editores:
“O físico Leo Szilard anunciou certa vez ao seu amigo Hans Bethe a sua intenção de começar a escrever um diário.
- Não tenho qualquer interesse em publicá-lo. Vou apenas registar os factos para informação de Deus.
- Não te parece que Deus já sabe quais são os factos? – respondeu Bethe.
- Sim – disse Szilard, e prosseguiu: Ele conhece os factos, o que Ele não conhece é esta versão dos factos (Hans Christian von Baeyer, Taming the Atom)”


The physicist Leo Szilard once announced to his friend Hans Bethe that he was thinking of keeping a diary: “I don’t intend to publish. I am merely going to record the facts for the information of God.”
“Don’t you think God knows the facts?” Bethe asked.
“Yes,” said Szilard. “He knows the facts, but He does not know this version of the facts.”


Ora aqui está uma razão muito interessante para escrevermos até o que nos parece que outros já escreveram!...

domingo, agosto 12, 2007

Uma perplexidade... outra vez a Comunicação Social

Hoje, quando, mais uma vez, eu regressava de Abrantes, ouvi repetidamente o anúncio, em mais do que um posto da rádio, que a mãe da pequena Madeleine, numa entrevista à Lux (penso que não me estou a enganar no nome da revista), "confessou" que não tinha morto a filha... Estranho... confessa-se (ou não) os crimes que se cometem, não os que não se cometem, não é?... O que é que, na verdade, está aqui em causa?... A mãe falou mesmo assim, ou o jornalista pôs o pé mais além do que lhe permitia o chinelo?...
Que ficamos à mercê da falta de clareza e de rigor informativo (jornalístico?...), lá isso ficamos...

domingo, julho 29, 2007

Fim do banco, com a licença (que espero concedida) do Bruno Nogueira

O texto-poema que o Bruno Nogueira escreveu há pouco tempo num dos seus blogues parece-me de tal forma (tristemente) bonito e com tal impacto afectivo na maioria das pessoas, que, pela primeira vez, repito aqui o que deixei escrito já noutro blogue.
E se o deixei lá pela maneira como ele seguramente vai marcar a minha pessoa, aqui, destina-se apenas a espalhar um pouco mais o valor educativo que contém e que deveria ser explorado em qualquer área de formação das ciências humanas.

Foi assim que eu escrevi no outro blogue:

Ao domingo de manhã, alguns dos meus amigos, conhecidos ou familiares deixam-se ficar na cama, a acabar os sonos insuficientes da semana de trabalho; outros, com a devoção que manda cuidar da mente através do corpo, vão correr para o parque ou para a praia; outros ainda, levados por outra devoção, vão à missa.
Eu vou quase sempre, ao domingo de manhã, a Abrantes, ver a minha madrinha, velhinha de 84 anos, ao Lar de Idosos.

Sempre que saio do pé dela, trago a imagem da sua lucidez triste e repetidamente me interrogo sobre o que verdadeiramente sente e pensa. Um dia cruzei-me à saída do Lar com o Padre Narciso, velho de carnes secas, mas enérgico e sorridente, que, quando me deu aulas de Canto Coral há quase 40 anos, já não era novo. Disse-me ele, sobre a minha madrinha: "Tenho muita admiração por ela, ela sofre muito em silêncio."
Quando estou à beira dela - Deolinda é o seu nome - faço-lhe festinhas nas mãos e no cabelo, componho-lhe, tanto quanto posso (Ela sempre foi muito vaidosa!...), a roupa agora demasiadamente larga, e espalho-lhe no rosto, com muito cuidado, um creme hidratante. E falo-lhe da família. Às vezes, do Tejo e da cidade.
Hoje, já no regresso a Lisboa, tive a felicidade de ouvir Pedro Rolo Duarte, no seu habitual programa radiofónico sobre a Blogosfera, recitar um texto que ajudou a apaziguar as interrogações que trago sempre que regresso, aos domingos, de Abrantes para Lisboa.
É esse texto que quero deixar a todos já aqui:



Fim do banco
A idade vai comendo a vida.
Vai ratando o futuro, e nós (eles) a verem.
Acorda-se com um dia a menos, e adormece-se com um dia a mais.
O calendário vai-nos mudando o corpo.
Vai-nos empurrando as costas, para a queda ser pequena.
Os velhos sabem de cor o chão.
Como quem sabe que está quase a chegar lá.
Desde que perdi a minha avó, que ganhei o respeito por quem mora no terceiro andar da idade.
Perde-se para ganhar.
E assim foi.
Emociona-me.
Que vida inteira pode ser sentada sozinha, num banco de jardim?
Com a idade, nunca escolhem o meio, sempre o fim do banco.
Em crianças, ter-se-iam sentado na outra ponta?
E deixam-se estar.
Respiram como podem.
Os olhos já não procuram nada.
Já viram tudo.
Vão guardando o passado em rugas, para libertar a cabeça.
Em que pensam?
Na morte?
Os velhos não vivem. Deixam-se viver.
Os filhos já têm a vida deles, não os querem.
Têm de ir viajar e fazer compras para o jantar.
"O pai tem estado bem? Então vá, um beijinho."
Picaram o ponto, e para eles está feito.
Os novos choram com o corpo todo, gritam e fazem caras de quem sofre.
Os velhos choram só com os olhos, que o resto não se vê.
E assim o fazem, no fim do telefonema.
Ninguém os quer com as doenças cheias de idade.
As mãos da idade cheiram a tudo, com as veias cansadas de mostrar o sangue a toda a gente.
As pernas vão perdendo caminho.
Os braços deixam de abraçar.
O coração começa a falhar, já bateu demais mesmo para quem amou pouco.
Vai-se esquecendo de bater.
E uma noite, sem avisar, desaprende.
Desliga os olhos e atira o corpo para o fim.

Ocupam agora o banco todo.
Do principio ao fim, todo ele é corpo.
E os filhos, cansados de telefonar, resmungam.
Morreram oitenta e dois anos, e nem mais um dia.
A cidade não pára, o mundo não interrompe, nada.
Os filhos enterram vinte anos, e guardam os outros sessenta e dois.
Os últimos vinte davam trabalho e de pouco valiam.
Não têm vagar para os guardar.
Mas de hoje em diante, esses vinte vão acordá-los todos os dias.
Até se deitarem sozinhos no banco que os vai deitar.

posted by Bruno Nogueira @ Segunda-feira, Junho 11, 2007
http://corpodormente.blogspot.com/