domingo, abril 20, 2025

#TOLERÂNCIA112 - SER TOLERANTE SIGNIFICA RENUNCIAR À VERDADE?

 #TOLERÂNCIA112 - SER TOLERANTE SIGNIFICA RENUNCIAR À VERDADE?

Digamos que o texto de hoje é um texto pascal. Se a Verdade é questionável, pela mesma razão a Tolerância também deve ser constantemente questionada. Encontrei o texto na Net. Hoje. Foi escrito pelo padre jesuíta Michel Souchon sj (1929-2020), em 2019. Ele veio a falecer no ano seguinte, vítima da covid-19.

"— Será que a tolerância significa necessariamente cair no relativismo que diz que tudo é igual? Para os cristãos, a verdade não é algo imutável que se transmite aos outros, mas uma viagem na companhia de Cristo.

Como é que podemos salvar a ideia de que existe uma coisa chamada verdade e, ao mesmo tempo, continuar a promover a Tolerância? Talvez questionando a forma como pensamos sobre a verdade. Porque há uma forma de olhar para a verdade que é semelhante à idolatria! É o que acontece quando a verdade é tornada sagrada, um objecto intemporal e inquestionável. No passado, a Igreja Católica encorajou esta concepção rígida da verdade. Durante muito tempo, opôs os direitos da Verdade aos direitos do Homem e identificou qualquer opinião contrária à sua como contrária à Verdade. Basta recordar o exemplo de Bossuet, que defendia a verdade da Igreja Católica e denunciava a Tolerância como veneno…

No entanto, podemos acreditar que a verdade é uma só e sermos tolerantes. E porquê? Porque qualquer expressão da verdade é limitada. «A própria verdade que reivindico, reivindico-a numa expressão ainda imperfeita», sublinha o teólogo católico Claude Geffré.

— A verdade é um trabalho em curso

Para os cristãos, a verdade é um caminho para seguir as pegadas de Jesus que é «o caminho, a verdade e a vida». Os cristãos não acreditam em verdades, acreditam numa pessoa, Jesus Cristo. A fé não é a adesão a verdades, por maiores, sublimes ou subtis que sejam. É um acto de confiança num Deus que revela o seu amor e a sua fidelidade nos acontecimentos da História. A verdade do cristianismo está na pessoa de Jesus, uma figura enigmática, ainda por decifrar e descobrir.

E esta descoberta nunca está completa. No seu discurso depois da Última Ceia, Jesus disse que nos enviaria o Espírito: «Ele recordar-vos-á tudo o que vos tenho dito», “Ele conduzir-vos-á a toda a verdade” (João 14,26 e 16,13). Assim, os discípulos, tal como os cristãos de hoje, ainda não estão a nadar na verdade!

Assim, a abertura às diferenças não é um luxo, nem um perigoso declive para o relativismo. Aceitar as diferenças, esperar algo do trabalho conjunto, é Tolerância no sentido mais forte. «Não dêem lugar a partidarismos nem a vanglórias, mas, com humildade, cada um considere os outros superiores a si próprio», diz Paulo (Epístola aos Filipenses, cap. 2, v. 3). É trabalhando em conjunto que encontramos as formas mais adequadas de exprimir a verdade. Por outras palavras, a Tolerância e a verdade são amigas e não inimigas!"(1)

É mais um texto-gatilho para a formação extensiva da Tolerância.

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(1) Traduzido com a versão gratuita do tradutor - DeepL.com

sábado, abril 19, 2025

#TOLERÂNCIA111 - PANCADARIA EM FUTEBOL JUVENIL

 #TOLERÂNCIA111 - PANCADARIA EM FUTEBOL JUVENIL

A educação está a falhar. A Intolerância tem de ser total, tem de ser firme. Pelo que leio na notícia, os dirigentes do clube galego chegaram-se bem àquele ponto de confluência entre a Educação, a Tolerância (não reagiram com raiva, nem despeito), a Intolerância (desporto é saúde, competição convívio e aprendizagem social), a Firmeza e o Respeito pela Ética Desportiva.

Limito-me a transcrever a notícia do jornal Record. Os vídeos que o jornal junta ao texto da notícia são elucidativas acerca dos comportamentos lamentáveis ocorridos. Há uma notícia complementar do Jornal de Notícias, mas a do Record basta.

Título: "Equipa espanhola desiste de torneio de jovens no Porto devido a constantes cenas de pancadaria"

Subtítulo: Orillamar SD não esteve envolvido em nenhuma das confusões, mas decidiu tomar medidas

Os espanhóis do Orillamar SD, um clube da Galiza, decidiram este sábado retirar-se do Porto

Internacional Cup, um torneio de camadas jovens que se realizou nos últimos três dias na Invicta, com presença de jovens dos Sub-10 aos Sub-19. Em causa, segundo justificação apresentada pelo seu diretor desportivo, estão as constantes cenas de pancadaria que se foram observando durante e no final das diversas partidas, algumas delas partilhadas nas redes sociais (como pode ver abaixo dois exemplos). O Orillamar não terá estado envolvido em nenhum desses casos, mas os seus dirigentes entenderam que era a decisão certa a ser tomada.

"A coisa já estava muito tensa e não queríamos, de modo algum, estar envolvidos em nenhum tipo de história. Não viemos aqui para isso. Porque isto depois é quase como se fosse um efeito de contágio", explicou Iván García, diretor do clube que se apresentou na Invicta com cinco equipas.

Dessas cinco equipas, três ainda tinham partidas por disputar quando os responsáveis tomaram essa decisão - uma delas jogava pelo 5.º posto. "Não estávamos aqui para andar à pancada com ninguém, nem queremos este clima de tensão. Tendo em conta a situação que estava a produzir-se, não íamos colocar em risco nenhum miúdo. Mesmo que tivesse sido na final, teríamos tomado a mesma decisão, pois entendemos que isto não tem espaço no futebol. Os rapazes vão aprender mais connosco pela decisão que tomámos de abandonar, porque sabem que não estamos de acordo com estes comportamentos", acrescentou o mesmo responsável, em declarações prestadas ao portal DxT Campeón.

O Porto Internacional Cup decorreu entre quinta-feira e este sábado, tendo sido disputado em 4 espaços distintos: no Estádio do FC Foz, Estádio Universitário do Porto, Campo Municipal do Outeiro e Parque Desportivo de Ramalde.

La Voz de Galicia: "El Orillamar se retira de un torneo en Portugal tras varias batallas campales en otros partidos. Los coruñeses, que nada tuvieron que ver en los altercados, adoptaron esta medida en señal de protesta y para evitar algún posible conato."(1)

Nota: a imagem foi criada pelo Gemini.

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(1) https://www.record.pt/multimedia/videos/detalhe/as-cenas-de-pancadaria-em-torneio-de-jovens-no-porto-que-levaram-equipa-espanhola-a-desistir?ref=HP_1BucketDestaquesPrincipais

sexta-feira, abril 18, 2025

#TOLERÂNCIA110 - DESEJAR E NÃO REALIZAR. HAJA TOLERÂNCIA.

 #TOLERÂNCIA110 - DESEJAR E NÃO REALIZAR. HAJA TOLERÂNCIA.

O sonho comanda a vida, não é?, e tentamos que a vida seja preenchida com a realização de desejos. Desejos de realização pessoal, profissionais, de sucessos desportivos ou artísticos; amorosos e de reconhecimento pessoal; sociais e políticos.

Entretanto, há momentos em que, por mais que nos esforcemos, sonhos e desejos há que parecem inalcançáveis — angustiamo-nos na dúvida e na incerteza, redobramos a ânsia de não os perder. Ou então tomamos consciência de que são mesmo inalcançáveis. Nestes instantes, a tolerância não é apenas uma virtude, mas um acto de apaziguamento emocional.

Tolerar não significa desistir, e a consciência de desistir, por princípio, provoca danos na auto-estima de

cada um de nós. Desistir é, antes, reconhecer que existem influências e determinantes que estão fora ou para além do nosso controlo. Quando um objectivo, ou sonho, ou desejo não se concretiza, a frustração pode ser amarga, desalentadora, mas a Tolerância age como um antídoto, ensinando-nos a conviver com as vicissitudes da vida, que, o mais das delas, cegas aos desejo individual, seja de quem seja, parecem ter imperial desprezo pela nossa pessoa. Mas não, é tudo construção das nossas mentes egocentradas.

Talvez ajude o crescimento da Tolerância a dinâmica pessoal duma espécie de diálogo íntimo. Podemos perguntar-nos: «O que este desejo diz de mim?»; e depois «O que é que a não realização deste desejo diz de mim?»; ou ainda «O que me custa especialmente na frustração deste desejo?» Pode ser, após o desalento e a frustração, em resultado da aceitação tolerante do desenlace que se queria evitar a todo o custo, desperte em nós um sinal de coragem, de ambição saudável, ou, no mínimo, o que já seria um resultado muito bom, um alerta para repensar caminhos.

Aceitar que certas metas escapam às nossas mãos não é fraqueza, mas maturidade. A história humana está repleta de exemplos: artistas cujas obras só foram valorizadas após a morte, cientistas rejeitados enquanto estavam vivos, amores que se perderam no vai e vem das estações. Todos eles carregaram o peso do "não", mas muitos encontraram, na Tolerância ao inesperado, ou melhor, ao desenlace indesejado, a força para seguir.

Há aqui qualquer coisa da exortação essencial da logoterapia de Viktor Frankl: o empenho pessoal em novos objectivos, de preferência, que sirvam as comunidades humanas.

A Tolerância aos desejos não realizados também nos humaniza. Bem pensada, permite-nos, em espelho, tomarmos consciência da vulnerabilidade do Outro, pois certamente todos carregam frustrações silenciosas que se vão acumulando ao longo da vida. Quando somos capazes de olhar os nossos vazios, as nossas incompletudes, tornamo-nos mais compassivos — connosco mesmos e com os outros. Afinal, e talvez influenciado pela circunstância do lugar em que neste momento me encontro, ninguém é uma ilha de sucessos; somos arquipélagos de tentativas, algumas afundadas, outras ainda à deriva. E em todas as ilhas encontramos realizações, fracassos e insuficiências.

Por fim, essa Tolerância é um convite à reinvenção (voltamos a Viktor Frankl). O que não floresceu num terreno pode brotar noutro, se lá lançarmos outra semente, e de formas que nem imaginávamos.

No fim, tolerar não é desistir de sonhar, mas sonhar com os olhos abertos — enxergando, na paisagem do real, possibilidades que a obsessão ansiosa ou angustiante não permitia ver. E é nesse equilíbrio que descobrimos a verdadeira liberdade: a de seguir em frente, leves, mesmo carregando o que não pôde ser.

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quinta-feira, abril 17, 2025

#TOLERÂNCIA109 - DESCANSAR NO AMBIENTE DA PÁSCOA

 #TOLERÂNCIA109 - DESCANSAR NO AMBIENTE DA PÁSCOA

Há pouco "tropecei" na conversa, publicada há uma semana, de Eric Schmidt, à volta da convergência entre a Inteligência Artificial e a Biotecnologia.(1) O senhor é um dos famosíssimos da Goggle, do Gmail e do Goggle Maps, entre outras coisas; e talvez mesmo o mais famoso de todos.

O que ele vai discorrendo, tentando fazê-lo de forma clara, chega a ser arrepiante. No mínimo, é fascinante, se acreditarmos que, dentro de nós, dentro de todos nós, o lobo bom vencer o lobo mau. Entre outras coisas, quase como quem não quer a coisa, ele diz que se espera que dentro de 6 anos a ASI (Super-Inteligência Artificial) será maior que a soma de toda a Inteligência Humana.

Bem, os desenvolvimentos da Inteligência Artificial tão depressa não nos darão descanso. Como,

entretanto, estou em período de descanso, graças à Época Pascal, guardo para depois a ruminação, dura e resistente, desta conversa, e preguiçosamente (na assumida determinação pessoal de aprender o que possa acerca dos desenvolvimentos da Inteligência Artificial na óptica do utilizador — utilizador inteligente e informado) faço aos chatbots este pedido (inspirando-me titubeantemente num dos exemplos que ele dá):

« Páscoa e Tolerância. Cria-me frases originais que associem a Páscoa à Tolerância.»

Aqui está a resposta, bem pronta (do DeepSeek), é uma espécie de 10 Mandamentos (fiz uns acertos, qual revisor de escrita):

Primeiro: "Assim como a Páscoa renova a esperança, a Tolerância renova os laços que nos tornam humanos: respeito, diálogo e amor ao próximo."

Segundo: "Na partilha do ovo de Páscoa, lembramos que a vida é feita de diferentes sabores – e é na Tolerância que encontramos a doçura da convivência."

Terceiro: "A Ressurreição simboliza recomeços; a Tolerância, a coragem de recomeçar juntos, mesmo nas diferenças que nos dão cor."

Quarto: "Páscoa é luz que vence a escuridão; Tolerância é a chama que ilumina caminhos diversos rumo à mesma paz."

Quinto: "O coelho traz ovos de múltiplas cores; a Tolerância ensina-nos que cada cor tem seu valor na teia da Humanidade."

Sexto: "Celebrar a Páscoa é honrar a vida que se renova; praticar a Tolerância é honrar as vidas que, diversas, merecem igual reverência."

Sétimo: "Na mesa da Páscoa, cabem pães, peixes e doces; no coração tolerante, cabem histórias, crenças e afectos únicos."

Oitavo: "A Páscoa lembra que até da pedra fechada brota luz; a Tolerância lembra que até do desconhecido nasce compreensão."

Nono: "Como o girassol que busca o Sol, a Páscoa inspira renovação; como o vento que abraça todas as direcções, a Tolerância inspira conexão."

Décimo: "A Ressurreição fala de transformação; a Tolerância, de transformar medos em pontes – para que todos possam cruzar a mesma esperança."

Noutro chatbot (ChatGPT), que me perguntou «Queres que siga numa linha mais religiosa, mais poética ou mais voltada para educação ou cidadania? Posso adaptar conforme o estilo ou objetivo que tenhas em mente.», e ao qual respondi que queria mais voltado para a a Educação e a Cidadania, as sugestões foram estas:

Primeira: "A Páscoa é tempo de renovar também a forma como educamos: com mais empatia, diálogo e respeito pelas diferenças."

Segunda: "Educar para a cidadania é ensinar que, tal como na Páscoa, a verdadeira transformação começa no coração e se reflecte em gestos de Tolerância."

Terceira: "Na escola e na vida, que a mensagem da Páscoa nos ensine que construir um mundo melhor passa pela aceitação do outro."

Quarta: "Páscoa e cidadania caminham juntas quando escolhemos a escuta, o respeito e a cooperação como caminhos para o bem comum."

Quinta: "A educação é ponte para a paz, e a Páscoa relembra que essa paz só floresce onde há Tolerância."

Sexta: "Ser cidadão é também saber conviver; que a Páscoa nos eduque para uma convivência mais justa, mais humana, mais solidária."

Sétima: "Neste tempo pascal, que a escola seja espaço de renascimento de valores: onde a Tolerância seja semente e a Cidadania, colheita."

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(1) https://youtu.be/L5jhEYofpaQ?si=MNzI7j7wWxageu9e

quarta-feira, abril 16, 2025

#TOLERÂNCIA108 - A TOLERÂNCIA À MUDANÇA, NA PRIMEIRA PESSOA

 #TOLERÂNCIA108 - A TOLERÂNCIA À MUDANÇA, NA PRIMEIRA PESSOA

«Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, / muda-se o ser, muda-se a confiança; / todo o mundo é

composto de mudança, / tomando sempre novas qualidades.»

Estou à beira de mudanças, digamos, formais, da minha vida. Tem a ver com a aproximação da reforma, está a acabar o tempo das minhas obrigações profissionais. Os psicólogos, naturalmente, classificam esta fase da vida como uma fase crítica, desafiante, da vida pessoal, os autores de inspiração eriksoniana dizem tratar-se duma crise psicossocial do desenvolvimento individual.

Quando, primeiramente, acabei o ensino secundário, em Junho de 1975; e depois, quando acabei a licenciatura em Psicologia, em Novembro de 1981, tinha na cabeça o desenho total, claro, do que iria ser a minha vida até à idade da reforma.

Numa espécie de parêntesis, direi que chego ao tempo de actividade profissional, objectivamente, como se tivesse reprovado 2 anos, sem nunca ter reprovado! Como fiz o percurso escolar, após a 4.ª classe, no ensino técnico, tive de fazer, entre a conclusão do Curso Geral de Comércio e o Curso Complementar de Contabilidade e Administração, a Secção Preparatória (no ano lectivo logo a seguir, acabaram com esse ano escolar, que se reduzia à frequência de 3 disciplinas; Português, Matemática e Físico-Química). Isso aconteceu no ano lectivo 1972/73. Depois, no ano lectivo de 1975/76, em resultado das mudanças turbulentas trazidas pelo 25 de Abril, tive de fazer o Serviço Cívico.

Aos 19/20 anos, e a seguir, aos 26 anos, esses anos "perdidos" não me afectavam, até porque o que fiz no ano lectivo do Serviço Cívico foi absolutamente determinante para o rumo que tomei na vida. Agora, que o fim das obrigações profissionais chega, tomo consciência de que esses anos "perdidos" me afectam bastante nas condições remuneratórias e assistenciais da reforma.

Ao longo de todos estes anos, de 1976 a 2025, tudo o que podia estar determinado desapareceu e tudo o que podia ter mudado mudou, mas mesmo tudo!

Voltando aos versos de Camões e ao que eles nos avisam, direi que não sou, quase de certeza, o primeiro a dizer que nem toda mudança é positiva, e nem toda resistência é irracional.

Procurei ser tolerante com todas as mudanças, profissionalmente, se elas favoreciam alguns e chegavam a desfavor de outros, eu estive sempre do lado dos desfavorecidos. Tudo sempre procurei tolerar e adaptar-me, mais do que tolerar e aceitar. Sim há coisas que eu continuo a sentir que nunca aceitei.

Reconheço que estou a tentar chegar os fim do meu magistério de professor sem, como se costuma dizer, sem amargos de boca, sem ressentimentos, dominando o sentimento de ter sido injustiçado. Mais que nunca, penso em tantos milhares de portugueses que se sentirão como eu agora tento não sentir.

Tenho consciência de que vou ter de me confrontar, com o olhar da memória, com vários nós que se formaram e nunca se desataram na minha condição de professor do ensino público — a que me dediquei com o ideal de Abril. Sei que, na minha mundividência e na minha condição de cidadão do mundo, de que não abdico de manter activa, há coisas, há ocorrências que nunca aceitarei. Terei de pedir à Tolerância que me ajude a viver com elas, há muito que quero ainda fazer, talvez nem 100 anos de vida cheguem para fazer o que ainda quero, e que não se resumem a pura fruição pessoal, mas mantêm a opção e a coerência do meu caminho: estar e fazer com os outros, dando primazia ao comunitário, ao colectivo em detrimento do pessoal e individual. Doutra maneira teria de reconhecer que andei toda a vida enganado e por agora tenho a certeza de que não.

Se alguma dúvida tivesse, a leitura integral do trabalho dum aluno, que fiz hoje de manhã, seria o suficiente para ter a certeza de valeu a pena o que fiz desde que, logo no início do ano de 1982, me entreguei à profissão para que me preparei na Faculdade: a prática profissional da Psicologia, em que sempre preferi a vertente da Educação relativamente à vertente de Consulta Psicológica individual.

Neste trabalho está uma capacidade realizadora tremenda do aluno, carregada duma profunda motivação pela tarefa; mas está também tudo aquilo que eu sempre quis que fosse a visão dum aluno em relação ao que é a riqueza do conhecimento psicológico e a disciplina do espírito de exploração científica determinada e sistemática.

Jane Goodall, a notável primatóloga que tenho o privilégio de conhecer pessoalmente e de com ela ter conversado, e que está presente nas minhas aulas há praticamente 30 anos, continua a viajar por todo o mundo — não obstante a idade, com muita frequência. Com ela leva sempre, desde que um dia lho ofereceram, um pequeno macaquinho de peluche. A mim fica-me a apetecer levar, vá para onde vá, o trabalho escolar que hoje li, feito por um aluno meu.

Quando a intolerância espreitar, a tentar despoletar dentro de mim sentimentos negativos ou tóxicos, se necessário vou à releitura do trabalho buscar a força da Tolerância apaziguadora e que liberta as energias para o que de bom a Vida tem por todo o lado.

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terça-feira, abril 15, 2025

#TOLERÂNCIA107 - A EMPATIA ESTÁ DOENTE?

 #TOLERÂNCIA107 - A EMPATIA ESTÁ DOENTE?

A ocorrência-gatilho do texto de hoje é a afirmação que anda por aí a circular em todo o lado atribuída a Hannah Harendt: "The death of human empathy is one of the earliest and most telling signs of a culture about to fall into barbarism." Dizem que a escreveu no livro "As Origens do Totalitarismo". Não, não é verdade. A filósofa não a escreveu, nem neste (tenho duas versões pdf e não aparece em nenhuma delas), nem em nenhum dos seus outros livros.

A afirmação cruzou-se com títulos que aqui e ali encontrei nas notícias online de hoje. A primeira reacção de que tomo consciência é a de que «Sim senhor, a empatia está doente, a empatia está em crise.» Ora, se a empatia está em crise, a Tolerância também está — a Tolerância que aqui interessa é a que eu quis ontem (#TOLERÂNCIA106) deixar associada ao Professor Agostinho da Silva, a Tolerância activa.

Pesquisei na Net e nem os chatbots que costumo utilizar, aos quais eu pedi que se espremessem na procura da autoria daquela frase, conseguiram encontrar o autor. Bem, o que é certo é que a afirmação nos deixa a pensar... Por isso, resolvi trazer para aqui uma primeira informação, sistemática, acerca da empatia. O pequeno texto, que reproduzo integralmente, é da revista francesa "Sciences Humaines", publicada no dia 25 de Julho de 2013:

«Embora a capacidade de compreender as alegrias e as tristezas sentidas pelos outros seja tão antiga como as montanhas, a empatia é um termo surpreendentemente recente. A palavra alemã einfühlung data de 1873. A palavra inglesa empathy surgiu em 1909 e a francesa empathie apenas por volta de 1960.

«A empatia entrou no domínio da psicologia no século XX. Foi utilizada primeiro por Freud e depois

pelo filósofo Husserl, o pai da fenomenologia. Nos Estados Unidos, todo o movimento intersubjectivista apoderou-se dela para a tornar a pedra angular da relação terapêutica. A empatia é também um pilar da Abordagem Centrada na Pessoa (ACP), teorizada por Carl Rogers (1902-1987): o terapeuta é capaz de compreender uma situação não a partir do seu próprio quadro de referência, mas a partir do quadro de referência do paciente. [A teoria e o modelo clínico de Carl Rogers toca a essência da questão da escuta de qualidade de que falei na #TOLERÂNCIA105]

«A neurociência lançou uma luz surpreendente sobre a nossa compreensão da empatia. Segundo Jacques Hochmann, autor de uma copiosa Histoire de l'empathie: "A descoberta dos neurónios-espelho pela equipa de Giaccomo Rizzolati - no córtex pré-motor do macaco, que são activados quando o animal executa uma acção (pegar num pedaço de comida, por exemplo) e quando observa o experimentador a executar a mesma acção - forneceu a primeira demonstração de ressonância motora entre um cérebro e outro. No ser humano, estudos demonstraram fenómenos semelhantes, como quando as zonas do córtex pré-motor (que programam as unidades musculares envolvidas num gesto) que são activadas ao ver uma acção realizada por outra pessoa são precisamente as responsáveis pela acção em si".

«Outros estudos parecem confirmar que a empatia não é apenas um fenómeno de ressonância emocional: várias regiões frontais, límbicas e parietais, que desempenham um papel de interface entre a emoção e a cognição, parecem estar envolvidas.» (Traduzido com a versão gratuita do tradutor - DeepL.com?)

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segunda-feira, abril 14, 2025

#TOLERÂNCIA106 - DA FALSA TOLERÂNCIA À TOLERÂNCIA ACTIVA

 #TOLERÂNCIA106 - DA FALSA TOLERÂNCIA À TOLERÂNCIA ACTIVA

É o desafio de Agostinho da Silva neste seu pequenino texto. Encontrei-o no livro "Considerações e Outros Textos", publicado pela Assírio & Alvim, em 1989 (2.ª edição). pp. 60-61. Quanto diálogo, quanta reflexão, quanta partilha o texto pode estimular! Está cheio de sugestões: oposições, dilemas; corajosas e solidárias decisões.

TOLERÂNCIA

Já será grande a tua obra se tiveres conseguido levar a tolerância ao espírito dos que vivem em volta;

tolerância que não seja feita de indiferença, da cinzenta igualdade que o mundo apresenta aos olhos que não vêem e às mãos que não agem; tolerância que, afirmando o que pensa, ainda nas horas mais perigosas, se coíba de eliminar o adversário e tenha sempre presente a diferença das almas e dos hábitos; dar-lhe-ão, se quiserem, o tom da ironia, para si próprios, para os outros; mas não hão-de cair no cepticismo e no cómodo sorriso superior; quando chegar o proceder, saberão o gôsto da energia e das firmes atitudes. Mais a hão-de ter como vencedores do que como vencidos; a tolerância em face do que esmaga não anda longe do temor; então, antes os quero violentos que covardes.

Mas tu mesmo, Marcos, com que direito és tolerante? Acaso te julgas possuïdor da verdade? Em que trono te sentaram para que assim olhes de cima o resto dos humanos e todo o mundo em redor? Por que tão cedo te separas de compreender e de amar? Tens a pena do rico para o pobre, dás-lhe a esmola de lhe não fazer mal; baixaste a suportar o que é divino como tu; e queres que te vejamos superior porque já te não deixas irritar por gestos ou palavras dos irmãos. Mais alto te pretendo e mais humilde; à tolerância que envergonha substitui o cálido interêsse pedagógico, o gôsto fraternal de aprender e de guiar; não levantes barreiras, mas abate-as; se consideras pior o caminho dos outros vai junto dêles, aconselha-os e guia-os; não os deixes errar só porque os dominarias, se quisesses; transforma em forte, viva chama o que a pouco e pouco se dirige a não ser mais que um gelado desdém.

(a grafia respeita a ortografia original de Agostinho da Silva)

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domingo, abril 13, 2025

#TOLERÂNCIA105 - O PODER MÁGICO DO SABER OUVIR

 #TOLERÂNCIA105 - O PODER MÁGICO DO SABER OUVIR

O texto de hoje vem na mesma linha de pensamento e acção do texto de ontem (#TOLERÂNCIA104). Inclusivamente, as datas de publicação são próximas. O artigo científico de hoje teve a sua primeira publicação online em Novembro de 2016, o "Listen like a Dog" foi apareceu também em 2016.

Ao contrário do texto-livro de Jeff Lazarus (que é um texto mais intuitivo, construído na base da

experiência pessoal do autor), o texto "I Am Aware of My Inconsistencies but Can Tolerate Them: The Effect of High Quality Listening on Speakers’ Attitude Ambivalence" (Estou consciente das minhas inconsistências, mas consigo tolerá-las: o efeito da escuta de alta qualidade na atitude ambivalente dos falantes), de Guy Itzchakov, Avraham N. Kluger e Dotan R. Castro, é um clássico artigo científico publicado numa revista de especialidade, neste caso, o Personality and Social Psychology Bulletin.

Os autores partiram da hipótese de que uma escuta de alta qualidade diminui a ansiedade social dos falantes, o que, por sua vez, reduz o processamento defensivo que os falantes põem, conscientemente ou inconscientemente, em marcha para fugir à ansiedade e ao mal-estar pessoal..

Essencialmente, os procedimentos experimentais dos autores permitiram concluir o que o longo título do artigo deixa adivinhar: a simples prática de ouvir com empatia e sem julgamento o falar de alguém que, ali à nossa frente, sabendo que está a ser escutado, nos fala do que lhe aprouver, pode transformar significativamente a forma como essa pessoa expressa e processa as suas atitudes, promovendo uma maior aceitação das suas próprias contradições, facilita uma comunicação mais autêntica e menos polarizada de si para si mesma.

Estão em jogo na pessoa dois tipos de ambivalência, a ambivalência cognitiva (em que a pessoa tem consciência das inconsistências nas próprias atitude) e a ambivalência afetiva (caracterizada pelo desconforto emocional produzido por essas inconsistências). A escuta de alta qualidade não elimina as inconsistências e as contradições, mas transforma a relação do sujeito falante com elas, equilibrando o autoconhecimento e com a paz emocional.

Mais do que nos esgotarmos na busca da perfeição ou de nos martirizarmos com as nossas imperfeições, temos de aprender a ser tolerantes com as nossas insuficiências, inconsistências e contradições. Certamente desejamos, em geral, amanhã estarmos melhor do que hoje.

O busílis da questão, no fundo, está naquilo que lá atrás disse porque, na verdade, não é o que parece: foi quando disse «a simples prática". É que a prática não é mesmo nada simples.

Entretanto, o que é animador é o poder afirmar-se, com toda a segurança e confiança, que a bom escuta, a escuta de alta qualidade, como dizem os autores da investigação, é treinável, pode ser aprendida por todos: os pais, os professores, os educadores sociais, os médicos, os enfermeiros, os psicólogos, os mediadores, os técnicos de serviço social, os trabalhadores que fazem atendimento público; e quem mais aqui eu pudesse ainda juntar.

É mais uma vez, à Pedagogia e à Educação que, na condição de lhes serem dadas as adequadas oportunidades e recursos, se põe o desafio de levar a cabo a formação e a aprendizagem tão necessárias a todos.

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sábado, abril 12, 2025

#TOLERÂNCIA104 - OS CÃES SÃO TOLERANTES COM O SER HUMANO?

 #TOLERÂNCIA104 - OS CÃES SÃO TOLERANTES COM O SER HUMANO?

Estive há bocadinho a brincar com 4 cães: a mãe, o pai, dois filhos, já cresciditos (os manos deles, 4, já foram dados, foram dados a gente boa). Não foi sentir uma pontinha de esforço que fosse para que a pergunta me viesse à consciência: Os cães são tolerantes com o ser humano?

A primeira resposta é, muito obviamente, «Claro que sim!»

Konrad Lorenz, o fundador da Etologia há cerca de 100 anos, na Áustria, gostava muito de cães. Em pequeno, os pais deixaram-no ter todo o tipo de animais no jardim da estranha mansão em que viviam, que o pai mandou construir quando os avultados honorários recebidos duma jovem paciente americana, filha dum grande empresário de carnes enlatadas, lhe permitiram fazê-lo. O menino Konrad podia ter todos os animais que quisesse, excepto cães. Só depois de se tornar homem crescido é que o menino pode dar espaço à sua grande paixão.

Não é Konrad Lorenz, que muito admiro, que vou agora invocar. Vou só trazer para aqui um ou dois pequenos pensamentos, leves, dum autor que também gosta muito de cães: Jeff Lazarus.

Jeff Lazarus escreveu Dogtology (não sei se está traduzido em português...) e "O Poder de Saber Ouvir como um Cão".

Deste livro, publicado em português em 2017, extraio dois pensamentos, como disse antes, levezinhos:

o primeiro (é a epígrafe do 2.º capítulo, "Seja verdadeiro consigo mesmo: torne-se 'low-tech'): «Uma

razão para um cão poder ser um grande consolo quando nos sentimos deprimidos é porque não tenta descobrir o motivo» (autor desconhecido)

Sim, tolerar é aceitar com serenidade o sofrimento do Outro, sem sermos logo tentados em aliviar, abafar ou distrair. Sim, a Vida traz a todos momentos e motivos de sofrimento. Temos de ser capazes de estar ali ao lado, mostrar que não nos afligimos com ele nem fugimos dele, e esperar o tempo que for preciso, ele vai passar.

o segundo (6.º capítulo, "O poder da pausa", subcapítulo "A importância do silêncio"): «Posso dizer, honestamente, que só me tornei um melhor comunicador quando comecei a tolerar o silêncio e me senti capacitado por ele. Hoje sei que o silêncio é tão fundamental para a comunicação como para a música.»

Ah!... Quanto, nos dias que correm, nos custa o silêncio. Em nossas casas e na rua: são cada vez em maior número as pessoas, mais novas e mais velhas, com quem nos cruzamos e que vão fechadas sobre si-mesmas, de auriculares, de todos os tipos, nos ouvidos.

Em rigor, não temos aqui apenas um mote para uma conversa com pais, educadores, profissionais dos cuidados médicos, de serviço social; e juízes e profissionais da Política. Em rigor, são dois.

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sexta-feira, abril 11, 2025

#TOLERÂNCIA103 - MANIFESTO 'SOLARPUNK'

 #TOLERÂNCIA103 - MANIFESTO 'SOLARPUNK'

A edição de Abril da revista "SUPER interessante" traz um artigo razoavelmente desenvolvido,

classificado como "ficção científica positiva" e com o título "SOLARPUNK, como aprendemos a amar o futuro". O autor do artigo chama-se Daniel Méndez e é apresentado como jornalista.

O artigo começa por dizer que "Este movimento pode salvar o futuro. Não pretende imaginar, quer atuar. Nos seus cenários recriados, o esforço tecnológico já não está centrado no crescimento económico, mas na criação de tecnologias eficazes para resolver os problemas causados pelas alterações climáticas. Uma visão positiva, reflexiva e ecológica do amanhã."

A certa altura, a gente lê: O MOVIMENTO NASCE ONLINE E ENCONTRA O SEU MEIO NATURAL DE PARTILHA DE IDEIAS E PROJETOS, com uma forte componente DIY, o do it yourself (faz tu mesmo).
A pegada digital do conceito permite-nos traçar algo como uma arqueologia do mesmo nas suas várias facetas. Há uma referência precoce a ele num site político chamado República das Abelhas, cujo
autor propõe, já em 2008, um conceito então novo: «solarpunk», que ele opõe ao género de fantasia conhecido como «steampunk». Imagina um mundo alternativo onde o vapor e outras tecnologias da era
vitoriana não foram substituídas pelo petróleo. «O “solarpunk”», diz o seu autor anónimo, «também
combina tecnologia nova e antiga, mas as suas ideias não precisam de ser imaginárias. E eu espero um dia viver num mundo «solarpunk». Seriam precisos seis anos para que um primeiro esboço de manifesto,
ou as Notas para Um Manifesto, como lhe chama o seu autor, Adam Flynn, fosse publicado noutro site. É uma proposta para um futuro pós-hierárquico e pós-capitalista. Isso é bom."

Num texto de caixa, dentro do texto principal, o autor apresenta alguns pontos do "Manifesto Solarpunk". É o ponto 12: "O «solarpunk» é a ideia de a humanidade alcançar uma evolução social que
abraça não apenas a mera tolerância, mas uma compaixão e aceitação mais completas."

Palavra de Fernando Pinto: vou, um dia destes, investigar melhor este movimento.

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