terça-feira, setembro 29, 2026

O ABSURDO DA ATENÇÃO E DA ERRADA EDUCAÇÃO

O ABSURDO DA ATENÇÃO E DA ERRADA EDUCAÇÃO

O autor que a seguir cito diz que a capacidade de se concentrar em profundidade é a supercompetência do século XXI.

Não o nego, não o desminto, não o contrario; ao invés, concordo com ele quanto à superimportância da concentração e da atenção.

Por que razões falo eu em «absurdo» e «errada»?

Qualquer mãe ou pai razoavelmente dedicada/o aos filhos bebés observa facilmente a notável capacidade de concentração e atenção com que os bebés nascem.

Por outro lado, todo o saber acumulado pela investigação psicológica e educacional tem já, no mínimo, 200 anos de evidências que confirmam aquilo que os progenitores podem, repito, facilmente observar.

Por isso, quando agora se dá tanta importância à concentração e à atenção — repito: ainda bem! —, que a Educação saiba mesmo o que fazer. E o que há a fazer tem a simplicidade do relato anedótico do Ovo de Colombo: basta ir atrás da natureza curiosa, atenta, reflexiva da criança!

Repare-se: qual é a origem etimológica da palavra «pedagogo»? Eis a resposta:

«A palavra vem do grego παιδαγωγός (paidagōgós), composta por paîs, paidós (“criança, rapaz”) e agōgós (“o que conduz, guia”), do verbo ágein (“conduzir, levar”). À letra, o pedagogo é, portanto, “aquele que conduz a criança”.

O sentido original era muito concreto e bastante mais humilde do que o actual. Na Grécia antiga, o paidagōgós não era o professor: era geralmente um escravo encarregado de acompanhar o rapaz de casa até à escola, levar-lhe os objectos, vigiar-lhe o comportamento na rua e zelar pelas boas maneiras. Quem ensinava era o didáskalos (o mestre das letras) ou o paidotríbēs (o mestre de ginástica). O pedagogo era, por assim dizer, o guardião do caminho, não o dono do saber.» (ANTHROPIC – Claude Opus 5.5 [em linha]. Resposta à pergunta «Qual é a etimologia de pedagogo?». [Consult. 29 Set. 2026]. Disponível em: https://claude.ai)

Foi há 50 anos que comecei a ter contacto com os velhos pedagogos europeus que assim se constituíam como mestres dos seus alunos e de quem o meu mestre João dos Santos tanto gostava de falar.

Sejamos todos pedagogos, sigamos atrás da criança, ou ao lado dela, mas não à frente. Ela não precisa de treinar a atenção; precisa, sim, de não a perder nem de ser desviada dela... pelos pais, pelos educadores e pelos professores!

Na escola, quantas crianças são acusadas de não prestarem atenção ou de estarem distraídas! Pois é: começam logo desde pequeninas a ser (des)educadas no estímulo e treino do processo cognitivo da atenção!

Num comentário reproduzirei o texto na íntegra; por agora, destaco apenas o essencial sobre esta questão:

Raphaël Zaffran (professor da Universidade de Genève): «A minha tese é que a capacidade de se concentrar em profundidade está prestes a tornar-se, se não for já o caso, a supercompetência do século XXI.»

P.: O que quer dizer com isso?

Raphaël Zaffran: «Que a capacidade de se concentrar e de dominar a sua atenção constitui uma metacompetência, a qual sustenta um grande número de outras aptidões. Dito de outro modo, a capacidade de se concentrar em profundidade é uma condição indispensável para a aprendizagem, a criatividade, a deliberação democrática, bem como para encontrar soluções para problemas complexos.»

3 comentários:

  1. ENTREVISTA INTEGRAL:

    «A atenção será a supercompetência do século XXI»

    A UNIGE propõe, a partir de 2026, uma microcertificação de dois dias sobre as competências atencionais em meio profissional.

    A tirania das notificações, a solicitação permanente das redes sociais, o apelo irresistível da extensão de nós mesmos em que se tornou o telefone portátil fragmentam a nossa atenção e diminuem a nossa capacidade de concentração. Toda a gente é capaz de o experimentar, quotidianamente. Os cientistas medem as consequências em termos de declínio da leitura, de degradação do sono, de aumento da angústia e de sobrecarga cognitiva. Os profissionais dos sectores privado e público inquietam-se com isso. Quanto à Universidade de Genebra, apodera-se do assunto para fazer o que sabe fazer de melhor: uma formação. Mais precisamente, o Centro para a Formação Contínua e a Distância (CFCD) propõe em Janeiro de 2026 uma microcertificação (ler a caixa abaixo) de dois dias sobre as «Competências atencionais em meio profissional», sob a direcção académica de David Sander, professor e vice-decano da Faculdade de Psicologia e das Ciências da Educação (FPSE). Dois sextas-feiras serão assim dedicadas à compreensão dos mecanismos da atenção e às estratégias que permitem reforçar a concentração. Explicações de Raphaël Zaffran, director-adjunto do CFCD e codirector da formação em questão com Carole Guedj, mestre-assistente no Centro de Imagem Biomédica (Faculdade de Medicina) e Eva Pool, professora-assistente na FPSE e no Centro Interfaculdades em Ciências Afectivas (CISA).

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    1. LeJournal de l’UNIGE: O que vos motivou a pôr em marcha esta microcertificação sobre as competências atencionais?

      Raphaël Zaffran: A fragmentação da atenção, que se acentuou com a chegada recente e massiva da inteligência artificial (IA) generativa, é um desafio importante para o domínio da formação contínua. Na sequência de um artigo que dediquei ao desafio da concentração na era da economia da atenção, fomos solicitados por vários actores do tecido económico e social genebrino. Inquietos com a erosão da atenção no seio das suas equipas, confirmaram-nos que esta problemática constituía uma preocupação crescente. Porque a atenção comporta uma dimensão cognitiva evidente, associei-me a Carole Guedj, que é neurocientista especializada nos processos atencionais. Juntos, levámos a cabo acções de sensibilização em escolas, administrações públicas e empresas, que confirmaram a necessidade de formação sobre este tema. A minha tese é que a capacidade de se concentrar em profundidade está prestes a tornar-se, se não for já o caso, a supercompetência do século XXI.

      P.: O que quer dizer com isso?

      R.: Que a capacidade de se concentrar e de dominar a sua atenção constitui uma metacompetência, a qual suporta um grande número de outras aptidões. Dito de outro modo, a capacidade de se concentrar em profundidade é uma condição indispensável para a aprendizagem, a criatividade, a deliberação democrática, bem como para encontrar soluções para problemas complexos.

      P.: Estima que esta supercompetência esteja ameaçada?

      R.: Sim. Desde o advento do smartphone, que reúne num só aparelho inumeráveis funcionalidades e que já não sai do nosso bolso, estamos contactáveis em permanência. Para as empresas comerciais, é uma pechincha: dispõem de um acesso directo aos utilizadores e utilizadoras e podem captar a sua atenção através de notificações com fins mercantis. É o que se chama a economia da atenção. Claro que não somos todos iguais perante este fenómeno, mas o resultado é que estamos sem cessar distraídos por estas solicitações que acentuam a sobrecarga cognitiva, afectam a saúde mental e pesam sobre o mundo do trabalho. Observam-se aliás já, em certas selecções de pessoal, testes explícitos da capacidade de concentração. E, a longo prazo, poder-se-ia ver desenhar-se uma forma de segregação no mercado de trabalho entre aqueles que conseguem focalizar a sua atenção e aqueles que custam a fazê-lo. Daí a minha hipótese de que a concentração é a competência-chave deste século.

      P.: A IA generativa acentua as coisas?

      R.: Poderemos delegar um número crescente de tarefas e de competências técnicas às diferentes inteligências artificiais. Mas existe um risco real de delegar também as nossas tarefas cognitivas, nomeadamente o esforço de concentração. Uma competência que se exerce menos tende a atrofiar-se e torna-se mais difícil de mobilizar. É importante, por conseguinte, preservar e desenvolver competências robustas e transversais, como o espírito crítico, a capacidade de adaptação, a literacia digital (ou seja, o facto de saber interagir com uma IA, de redigir prompts...) e, como é evidente, a concentração. Sentimos um interesse, misturado com inquietação, pela questão da atenção. É por isso que imaginámos esta microcertificação, que será dada a partir de Janeiro de 2026.

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    2. P.: O que é que ela propõe?

      R.: Adquirir conhecimentos e ferramentas que permitam medir e treinar as competências atencionais, essencialmente em meio profissional. Numa primeira parte, explicamos os mecanismos neuronais e cognitivos da atenção e desconstruímos a ilusão de que se podem realizar várias tarefas ao mesmo tempo (multitasking). Abordamos a crise atencional global e os seus desafios económicos e analisamos a maneira como as plataformas e os seus algoritmos captam a nossa atenção. Concebidos por especialistas, nomeadamente neurocientistas, estes sistemas exploram e monetizam os nossos comportamentos e os nossos hábitos de navegação. Tomar consciência de que, quando somos apanhados por fluxos de vídeos, não fazemos pleno uso do nosso livre-arbítrio, mas estamos cativos de um algoritmo, constitui já um clique precioso. Em seguida, durante uma semana, os participantes e participantes identificam no quotidiano as distracções a que estão expostos no trabalho e registam-nas num «caderno de distracções» especialmente concebido para a microcertificação. No segundo dia, analisamos colectivamente essas observações e introduzimos ferramentas de organização do tempo e de priorização das tarefas. Abordamos também o impacto das emoções suscitadas por certos conteúdos na qualidade da atenção. Por fim, e é essa a mensagem-chave da nossa microcertificação, mostramos que a concentração se treina: o declínio da capacidade atencional não é uma fatalidade.

      P.: Como se pode treinar a concentração?

      R.: Para além das ferramentas e das estratégias que pomos à disposição, estudos muito sérios indicam que a meditação e a respiração em plena consciência, por exemplo, além de reduzirem o stress e a ansiedade, podem melhorar a capacidade de concentração. Por outro lado, como exponho num artigo recente, a leitura é simultaneamente uma das vítimas da crise atencional e um meio de a superar. Constata-se, com efeito, um recuo da leitura profunda e da leitura por prazer. Lemos muito no ecrã, mas frequentemente em diagonal e por fragmentos. Ora, não é a mesma coisa do que mergulhar num livro, num romance, num ensaio, que exigem uma atenção sustentada. Vários estudos indicam, aliás, que a leitura no ecrã favorece um tratamento mais superficial e uma memorização mais fraca do que no papel. Num ambiente cada vez mais complexo, mediatizado pelos algoritmos e pela IA, onde a informação abunda enquanto a atenção se torna rara, estou convencido de que a leitura profunda se torna um bem comum a preservar.

      https://www.unige.ch/lejournal/vie-unige/automne-2025/microcertification-attention/

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