segunda-feira, agosto 18, 2025

#TOLERÂNCIA232 - COMO A TOLERÂNCIA NO BRIDGE PODE INSPIRAR A PAZ GLOBAL

 #TOLERÂNCIA232 - COMO A TOLERÂNCIA NO BRIDGE PODE INSPIRAR A PAZ GLOBAL

Não sei jogar bridge, mas se calhar está na altura de aprender...

Hoje tive a prova de que, mesmo que disso não tenha consciência, estou em estado de alerta permanente, pronto a encontrar a Tolerância em todo o lado: folheava a edição do Público de hoje, já a chegar às últimas páginas, as dedicadas ao lazer, ao entretenimento e aos jogos, esbarrei na Tolerância do bridge, onde dizia assim: "Resposta: Passe - Abertura mínima e sem tolerância para paus, o passe é a voz mais sensata."

Fui logo ao DeepSeek e pedi-lhe que me explicasse o conceito de Tolerância no bridge; e depois perguntei-lhe que analogia esse conceito podia ter com o relacionamento entre as sociedades ou os países do Mundo.

O 'chatbot' começou por me dar uma "Definição Avançada de Tolerância": «Tolerância ('holding power') é a capacidade de um par: a) manter controle num naipe por mais voltas sem perder imediatamente, mesmo sem as cartas mais altas. b) atrasar o estabelecimento do naipe adversário, ganhando tempo para executar outras acções (como cortes ou desenvolvimento de trunfos).»

E por que razão isso é importante?

O 'chatbot' responde-me: «No bridge, tempo é recurso. Se o jogador pode "segurar" um naipe por uma

ou duas voltas extras, pode: a) forçar o adversário a gastar trunfos antes do necessário. b) desenvolver seus próprios naipes vencedores. c) evitar que o oponente execute o seu plano.»

A seguir diz-me que há 3 tipos de Tolerância (e exemplifica, o que me permito agora não o fazer): a) tolerância por Cartas Intermediárias. b) tolerância por Distribuição (Comprimento). c) tolerância por Honras Divididas.

Depois diz, em jeito de conclusão, que a Tolerância é um dos conceitos mais subtis e poderosos no bridge, pois permite que o jogador faça a gestão do tempo do jogo a seu favor. Dominá-la exige: a) reconhecer combinações de cartas que oferecem resistência. b) saber quando segurar ou jogar honras. c) usar o tempo ganho para executar o seu plano.

Pedi finalmente ao DeepSeek um texto -síntese do que me foi dizendo antes, centrado na analogia com as questões geopolíticas mundiais. O 'chatbot' escreveu-me assim:

A) Tolerância como forma de "Resistir à Pressão" (Evitar Conflitos): no bridge, segurar uma carta intermédia (como o 10 de espadas) em vez de jogar uma honra (rei de espadas) impede que o adversário domine o jogo de imediato.

    A - Analogia Geopolítica: os países podem usar diplomacia contida em vez de reagir de forma agressiva a provocações. Exemplo: durante a Guerra Fria, os EUA e a URSS evitavam confrontos directos, recorrendo a dissuasão estratégica (tal como no bridge, onde segurar cartas mantém o equilíbrio).

    B) Tolerância como forma de "Ganhar Tempo para Soluções": no bridge, manter tolerância num naipe permite resolver problemas noutras áreas (como, por exemplo, estabelecer trunfos).

      B - Analogia Geopolítica: países em crise podem adiar conflitos imediatos para se focarem no desenvolvimento económico ou em alianças. Exemplo: a União Europeia surgiu após a Segunda Grande Guerra como um projecto de cooperação gradual, em que rivais históricos (França e Alemanha) ganharam tempo para reconstruir relações.

      C) Tolerância como forma de obter "Equilíbrio de Poder" (Nenhum Domina Sozinho): no bridge, se um jogador tem ás, rei e dama de espadas, domina o naipe. Mas se as honras estão divididas (ás de espadas com um parceiro, rei de espadas com outro), há mais equilíbrio.

        C - Analogia Geopolítica: um mundo multipolar (EUA, China, Rússia, UE) é mais estável do que um mundo unipolar, pois obriga à negociação. Exemplo: A ONU (apesar das falhas) tenta distribuir influência através do Conselho de Segurança, impedindo que uma única potência decida tudo.

        D) Tolerância como produzir "Confiança entre Parceiros": no bridge, os parceiros devem confiar que um segura um naipe enquanto o outro ataca noutro sítio.

          D - Analogia Geopolítica: alianças (como a NATO) dependem de cooperação tácita: um país lidera numa crise, outros dão apoio. Exemplo: na crise ucraniana, a UE impôs sanções, enquanto os EUA forneceram armas – cada um "segurando" uma parte do conflito.

          E) Tolerância como forma de "Evitar Acções Prematuras": no bridge, jogar uma honra demasiado cedo pode entregar o controlo ao adversário.

            E - Analogia Geopolítica: diplomacia discreta (como negociações secretas entre Irão e EUA) evita humilhações públicas e mantém portas abertas para acordos futuros. Exemplo: o Acordo de Paris sobre o clima só foi possível porque os países adiaram exigências radicais e aceitaram compromissos graduais.

            F) Quando a Tolerância Falha (Lições para Crises Reais): por vezes, no bridge, não há tolerância e é preciso cortar o naipe adversário com trunfos.

              F - Analogia Geopolítica: quando a diplomacia falha, sanções económicas ou intervenções limitadas (como no Kosovo em 1999) podem ser o "trunfo" para evitar desastres maiores. Risco: se mal calculado, pode levar a escaladas descontroladas (ex.: Guerra do Iraque em 2003).

              Conclusão: a tolerância no bridge ensina que por vezes é melhor conter, observar e negociar do que reagir impulsivamente. No mundo real, isto significa: a) evitar escaladas perigosas (como ameaças nucleares). b) fortalecer instituições multilaterais (ONU, UE). c) dar prioridade ao desenvolvimento económico em detrimento dos conflitos ideológicos.

              Metáfora Final: se os líderes mundiais jogassem mais bridge, talvez o mundo fosse menos volátil, inseguro e perigoso.

              Eu já tenho em carteira estratégias de dinâmica de grupo com cartas, mas ainda não tinha nenhuma a contar com o bridge. Vai passar a estar. Olhem para mim a escrever um dia destes, o texto "A Pedagogia do Bridge, um excelente trunfo da Tolerância".

              #tolerância#tolerance#Tolerancia#tolérance#tolleranza#toleranz#tolerantie#宽容#寛容#관용#सहिष्णुता , #סובלנות#हष्णत#Ανοχή#Hoşgörü#tolerans#toleranță#толерантность#التس

              domingo, agosto 17, 2025

              #TOLERÂNCIA231 - OS ANIMAIS NÃO SÃO INTOLERANTES

               #TOLERÂNCIA231 - OS ANIMAIS NÃO SÃO INTOLERANTES

              Os pensamentos de hoje cruzaram uma notícia de jornal com o comportamentos de 2 cães, pai e filho, que se deram bem, com razoável até há 15 dias atrás. Agora, o confronto entre eles é radical: mal se vêem, atacam-se um ao outro. Já falei deles aqui, há poucos dias. Todos cá em casa temos a noção de que, se os deixarmos entregues ao confronto um com o outro, a coisa vai acabar mal para um dos lados, talvez mesmo para os dois. São animais de estimação, com o que de bom e de mal isso tem, amanhã um deles vai mudar de morada (sem sair da família). Esta rivalidade não é "desumana": rivalidade, disputa pela liderança é uma condição inerente à vida, coesão e defesa do grupo animal.

              Por sua vez, a notícia é a seguinte, assinada por Maria João Guimarães, na edição do Público de hoje: «O chefe da secreta militar em funções a 7 de Outubro, Aharon Haliva, afirmou que o grande número de palestinianos mortos na Faixa de Gaza era "necessário", numa série de gravações a que o Canal 12 da televisão teve acesso.

              »Segundo a imprensa israelita, nas gravações, Haliva disse que "deveriam morrer 50 palestinianos" por
              cada vítima israelita do ataque do Hamas de 7 de Outubro de 2023.

              »No ataque a uma série de comunidades perto da Faixa de Gaza e a um festival de música, o Hamas matou mais de 1200 pessoas e levou 251 reféns, dos quais 50 estão ainda na Faixa de Gaza, estimando-se que 20 deles ainda vivos.

              »A guerra que Israel levou a cabo na Faixa de Gaza fez já mais de 61 mil mortos.

              »"Não há escolha, eles precisam de uma Nakba [Catástrofe] de vez em quando para sentir as consequências", declarou Haliva, referindo-se à saída de centenas de milhares de palestinianos das suas terras por volta da altura da criação do Estado de Israel, em1948.

              »Não era claro o contexto das gravações, feitas "ao longo dos últimos meses", segundo o canal de televisão.

              »A dada altura, Haliva refere-se "ao facto de haver 50 mil mortos em Gaza" como "necessário e exigido
              para gerações futuras", e não "como vingança".»

              O tom de desumanidade e sobranceria imperialista desperta-me afectos de repulsa, raiva e ódio.

              A atalhar a reflexão que noutras circunstâncias faria doutra maneira, perguntei a dois ou três 'chatbots': «O que se sabe sobre as raízes biológicas e animais da Intolerância? Responde em português de Portugal.»

              As respostas que os 'chatbots' me dera, levaram em consideração variáveis biológicas, neurológicas, hormonais, sociais, psicológicas, antropológicas, filosóficas, culturais, étnicas... A afirmação de que mais gostei foi a seguinte: «Diferenças Fundamentais: A intolerância humana é frequentemente simbólica (baseada em ideologia, religião, nacionalismo) e não apenas biológica. Animais não formam sistemas de ódio institucionalizado.»

              A seguir, fiz-lhes esta pergunta: «Quais são as fontes desta afirmação? "A intolerância humana é frequentemente simbólica (baseada em ideologia, religião, nacionalismo) e não apenas biológica. Animais não formam sistemas de ódio institucionalizado."»

              Sinceramente, nenhuma das respostas a esta pergunta me satisfez plenamente, todos eles me trouxeram conhecimentos básicos de autores seminais como Konrad Lorenz, Henri Tajfel, Sigmund Freud, Robert Wright, Robert Sapolsky, etc. Conhece-os a todos, é preciso ir bem além deles — evidentemente, com

              eles, não contra eles, mas temos de ir bem além deles.

              As ideologias, as religiões e os nacionalismos são construções mentais das sociedades humanas. Há poucos dias, duas ou três jornadas atrás, eu aqui falei de quanto os credos religiosos que tomam os preceitos do Velho Testamento (por isso também da Tora) são radicais e intolerantes.

              Aos meus alunos, durante muitos anos, eu falei-lhes do que Jane Goodall nos dizia no documentário que a Nacional Geographic lhe dedicou nos anos da década de 1980: que um dos principais grupos de chimpanzés estudados por ela se clivou em dois e que um deles, o mais forte, só descansou quando eliminou todos os elementos do grupo que se tornou rival. Anos depois, a própria Jane Goodall veio a reconhecer que a sua acção, que alterou as condições naturais de disponibilidade de alimentos, foi parte essencial nesse comportamento aniquilador dos nossos principais parentes evolutivos. Mais uma vez, onde o Homem criou uma interferência, mesmo que com boa-fé, o desequilíbrio irrompeu e provocou danos.

              É verdade: o ser humano odeia, não tolera, exclui e elimina iguais como mais nenhuma outra espécie animal o faz. A nossa sede de poder, desejo de domínio, intensidade de raiva e ódio, tornam-se insaciáveis.

              A maneira como os actuais dirigentes políticos e militares de Israel exercem o poder e destilam o ódio, pois é, pensávamos que depois dos nazis alemães, dos estalinistas russos, dos radicais cambojanos de Pol Pot, dos extremistas muçulmanos, dos Ku Klux Klan norte-americanos, etc., as sociedades "civilizadas" mostrariam ao mundo como as instituições democráticas expressariam assertivamente, convincentemente, a vitória da Tolerância sobre a Intolerância, do Respeito sobre a Exploração Pessoal, da Coexistência sobre a Exclusão e a Eliminação.

              Não sei se alguma vez a Educação das crianças e dos jovens vencerá a Política dos adultos. O que me parece é que a Educação não pode nunca deixar de tentar fazer o seu melhor. Deixem os professores trabalhar. Às tantas, Governos haverá que achem que, "pensando bem", é melhor não se dar condições de trabalho aos professores: ainda arriscam a que os professores consigam mesmo fazer das crianças e dos jovens bons cidadãos.

              Vem-me à cabeça a quadra de António Aleixo: «Vós que lá, do vosso império / Prometeis um mundo novo / Calai-vos que pode o povo / Querer um mundo novo, a sério!» É milenar a recomendação aos Políticos que (des)governam os Povos "Panem et circenses" [Pão e circo, frase tradicionalmente atribuída ao poeta romano Juvenal]. Junte-se a isso a agitação do papão do medo dos outros que estão prontos para virem explorar-nos a casa e levar-nos tudo o que temos.

              William Golding, na ficção de "O Deus das Moscas" mostra-se pessimista em relação: a organização democrática do búzio soçobra perante a avidez de poder do líder e dos que ele arregimentou à volta dele. Mais do que revelar-nos a natureza humana, em que o Mal vence o Bem, Golding está a avisar-nos: cuidem da Educação das Crianças, cuidem da Educação dos jovens, se não querem que o Mal vença o Bem.

              Repito: há quem queira que a Educação não seja poderosa, não seja eficaz, não dê frutos.

              #tolerância#tolerance#Tolerancia#tolérance#tolleranza#toleranz#tolerantie#宽容#寛容#관용#सहिष्णुता , #סובלנות#हष्णत#Ανοχή#Hoşgörü#tolerans#toleranță#толерантность#التس 

              sábado, agosto 16, 2025

              #TOLERÂNCIA230 - ACUSAR OU DENUNCIAR TOLERANTE OU INTOLERANTEMENTE

               #TOLERÂNCIA230 - ACUSAR OU DENUNCIAR TOLERANTE OU INTOLERANTEMENTE

              Que nas redes sociais as pessoas soltem as línguas e soltem as emoções, já tenho jeito de muito treino de passar ao largo. Agora, que nos meios de comunicação social, idóneos, jornalistas também idóneos soltem línguas e emoções em prosas ou falas de, digamos, contundência negativa, isso já me pede outra reflexão e cuidado, pois são os protagonistas da experiência social alargada que tendo a propor aos meus alunos — quantos deles, todos os anos, se sentem motivados pela formação e carreira em Jornalismo! —como profissionais sociais da Comunicação que devem respeitar, dar atenção e ouvir.

              Hoje, mais uma vez, um dos mais consagrados jornalistas da nossa praça — ele é jornais diários, ele é semanários, ele é canais de televisão, ele é livros... O asco que tem aos professores é também conhecido e de longa data — vem de prosa bem rija e contundente zurzir, pimba-pimba-pimba, como ele gosta tanto de fazer.

              O jeito ruidoso do jornalista — não digo o nome dele porque não quero dar-lhe a mais pequenina ponta de publicidade — põe-me a pensar o que é acusar ou denunciar na Comunicação Social com tolerância

              ou com intolerância...

              Em jeito — sim, também tenho os meus jeitos — de pensamento crista da onda do mar dolente do calor das férias de Agosto — ondas baixinhas, baixinhas, baixinhas — direi que quando se acusa ou denuncia com tolerância, o foco está na acção errada, não na pessoa. O objectivo é buscar justiça e corrigir o problema, não humilhar ou ferir o outro.

              Pôr o foco na acção é dizer que a denúncia é posta no acto (por exemplo, "fulano cometeu uma fraude"), e não sobre o carácter da pessoa ("fulano é uma pessoa horrível e desonesta"), as acções diferenciam-se pelo motivo, pela forma e pelo objectivo. A tolerância, nesse contexto, não significa conivência com um erro ou crime, mas sim a capacidade de agir com respeito e equilíbrio, mesmo diante de algo que se discorda. Já a intolerância manifesta-se de maneira agressiva e preconceituosa.

              A intolerância, por outro lado, transforma a acusação ou a denúncia numa forma de agressão. O foco muda-se do acto para o indivíduo, parece que busca a desqualificação da pessoa ou da entidade, a destruição da reputação ou a punição esmagadora. Focar na pessoa: é atacar o indivíduo (a pessoa ou a entidade) com base em preconceitos (por exemplo, "fulano fez isso porque é da religião X" ou "porque pertence ao grupo Y").

              Pode-se dizer que, no fundo, a diferença fundamental entre a acusação/denúncia tolerante e intolerante está na motivação: o que pretende o jornalista? A acusação/denúncia com tolerância é um acto de responsabilidade cívica, que visa a justiça e a protecção da sociedade. Já a acusação/denúncia carregada de intolerância é um acto provavelmente de vingança, de preconceito, procura de protagonismo social; e que tem como efeito o dano pessoal, a disseminação do ódio e o afastamento do diálogo que aproxima, produz reparação, congrega, faz avançar no sentido da melhoria da situação e da da promoção do bem-estar pessoal de todos.

              Há aqui razão para a Educação se ocupar? Sim, no meu entender há. É mesmo uma necessidade cada vez mais pressionante, não lhe podemos virar as costas nas salas de aula, nos grupos de jovens, nos clubes desportivos e em todos os demais lugares que juntem adultos — de todas as idades!

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              #TOLERÂNCIA229 - OBSERVAR, É PRECISO CONTINUAR A TENTAR

               #TOLERÂNCIA229 - OBSERVAR, É PRECISO CONTINUAR A TENTAR

              A revista da edição desta semana do semanário Expresso traz uma reportagem com o título "Observar
              a democracia", e apresenta-o assim: "Em Outubro de 2024, a UE colocou quase 200 observadores eleitorais em Moçambique, concluindo que a eleição do novo Presidente da República foi pouco transparente. Mas, indiferentes às denúncias, os vencedores tomaram posse. Afinal, para que servem os observadores? Falámos com quatro portugueses que já deram várias voltas ao mundo." O texto é do jornalista Licínio Lima.

              Alguns parágrafos chamam a atenção para o tanto que há a fazer no Mundo, esse lugar de vida que há cerca de 150 anos anda a tentar que a bandeira dos Direitos Humanos seja respeitada por todas as pessoas do mundo:

              «Ou seja, a questão badalada por Madalena [Contreras Passos] em 2005 — "Não sei o que é que estou aqui a fazer" — voltou a soar em 2024. O amigo sacerdote explicara então, segundo nos contou a observadora, o sentido do sorriso: "Sem o olhar dos observadores internacionais, a falta de transparência seria embrulhada num tenebroso manto de silêncio."»

              «Madalena Contreras de Passos garante que, no terreno, os observadores falam de democracia, de
              direitos humanos e de valores, tais como os da participação, da solidariedade, da tolerância. “Valores

              que consideramos universais”, frisou. É nisto que acredita verdadeiramente. É o que a motiva, desde
              a primeira missão na Bósnia, em 1996.»

              «"Isto é viciante”, admite. Em 2003 inscreveu-se no Ministério dos Negócios Estrangeiros, via Instituto Camões, para integrar as missões da UE. [...] Madalena, 57 anos, licenciada em Relações Internacionais, com mestrado em Ciência Política, professora de dança (flamenco), poliglota, solteira e sem filhos, passava praticamente apenas três meses por ano em casa a descansar. “Notei que os colegas, sobretudo os que iam integrados no 'core team', envelheciam muito rápido”, observa.»

              «Uma última pergunta: Valeu a pena? “Claro que sim. Senti-me com mundo em mim.” E quanto a
              resultados? “Tínhamos a perfeita noção de que em certos países seria de todo impossível impedir práticas fraudulentas. Por exemplo, em São Tomé e Príncipe, como se combate aquilo que eles chamam de
              ‘dar o banho’? [Os dirigentes partidários oferecerem dinheiro em troca dos votos.] Faz parte.”
              Os observadores cumprem a sua missão. Fazem relatórios que o mundo pode ler e tirar as devidas ilações. A
              sua perspectiva sobre a “inutilidade” dos observadores é clara: “Ter ou não ter observadores não é a
              mesma coisa. Os relatórios podem ser ignorados, mas a verdade é revelada.”
              »

              «“É importante estar para perceber a cultura”, sublinha Carlos Guímaro, lembrando que em Moçambique, por exemplo, nunca se diz “ainda não”… Se perguntam; “Já foste votar?” A resposta será: “Ainda” — significando “ainda não”. “Um observador tem de saber ler com todos os sentidos”, salientou. Carlos Guímaro e Pedro Teixeira, que estiveram presentes nas últimas eleições em Moçambique, partilham a convicção de que suas ações são como sementes lançadas à terra, com o potencial de crescer e de dar bons frutos. Madalena, por sua vez, acredita firmemente que, entre sorrisos e lágrimas, a verdade que sustenta os direitos humanos sempre prevalecerá. Martim Freire, que dedicou a vida a desenterrar silêncios hostis à liberdade, reitera o seu compromisso: mesmo de bicicleta, continuará a lutar incansavelmente para que os valores da democracia, por todo o lado, dêem à razão a sua própria voz.»

              Do ponto de vista da Tolerância, o que se pode concluir a partir destes excertos ou de toda a reportagem? Na minha opinião, que a Tolerância pede muitas vezes pede persistência e força para resistir; capacidade para saber perder, serenidade no contacto com a mentira, perceber o que é para tratar agora e o que pode ser deixado para depois; e o que, não obstante toda a largueza da Tolerância, nunca deve tolerado.

              São mais algumas pistas para os trabalhos da Educação para a Tolerância. Estou a lembrar-me de alguns jogos... Jogos longos, que durem muito, com derrotas pelo meio, mas que a hipótese de ganhar no fim se mantenha duradouramente... Até jogo de cartas, à mesa... Observar os adversários, perceber-lhes o 'bluff' nos olhos, nos gestos e nas palavras...

              #tolerância#tolerance#Tolerancia#tolérance#tolleranza#toleranz#tolerantie#宽容#寛容#관용#सहिष्णुता , #סובלנות#हष्णत#Ανοχή#Hoşgörü#tolerans#toleranță#толерантность#التس 

              quinta-feira, agosto 14, 2025

              #TOLERÂNCIA228 - TOLERÂNCIA E MANSIDÃO

               #TOLERÂNCIA228 - TOLERÂNCIA E MANSIDÃO

              Quando se fala em mansidão, na Cultura Ocidental é quase automático vir ao pensamento as ovelhas e o Sermão da Montanha e a bem-aventurança afirmada por Jesus em que são "Bem-aventurados os mansos, porque possuirão a terra."

              Hoje apeteceu-me chegar aos autores italianos, bem-aventurado seria eu se soubesse a razão porque assim me apeteceu. Uma vaga busca na Net levou-me a Norberto Bobbio (1909-2004), que me foi apresentado como um dos mais importantes filósofos, juristas e historiadores italianos do século XX. Foi Professor de Filosofia do Direito e de Filosofia Política na Universidade de Turim, e destacou-se por uma visão liberal-socialista, a pela defesa da democracia e dos direitos humanos.

              Fui procurá-lo e encontrei um pequeno texto em que ele relaciona a Tolerância (tolleranza) com a Mansidão (mitezza). A minha primeira reacção à defesa da Mansidão, reconheci-o imediatamente, foi de repulsa, mas não deixei de tentar conhecer um pouco melhor o pensamento do autor italiano.

              Talvez movido pela proverbial preguiça mental das férias estivais e do calor, puxei pelos 'chatbots' e juntei alguma informação a partir de 2 ou 3 textos originais em italiano. Mesmo que preguiçosamente, foram mais de três horas agarrado aos textos e às pesquisas na Net!

              Fixou-me o interesse no autor o facto de os seus textos ajudarem numa coisa que eu gosto muito: a discriminação ou diferenciação conceptual. Ao fim das tais 3 horas (mais de 3 horas...), sintetizo as o pensamento conceptual de Norberto Bobbio assim, num universo de virtudes:

              1) A mansidão é uma virtude social e activa, distinta da passividade da mansuetude, que só se manifesta na relação com o outro. É oposta à arrogância, prepotência e vontade de dominar, recusando a lógica da competição e do poder.

              2) N. Bobbio distingue “virtudes fortes” (coragem, audácia) das “virtudes fracas” (humildade, simplicidade, mansidão), igualmente nobres, mas sem vínculo ao poder político.

              3) O manso “deixa o outro ser o que é” sem exigir reciprocidade, actuando por convicção e não por fraqueza. (Ele vai depois dizer que é precisamente aqui que a Mansidão se distingue da Tolerância, porque, na sua perspectiva, a Tolerância reclama sempre reciprocidade)

              4) A mansidão difere de remissividade, cedência, humildade ou modéstia, embora possa coexistir com elas. E complementa-se com a simplicidade (clareza, ausência de duplicidade) e a compaixão.

              5) A mansidão é a virtude mais “impolítica”, incompatível com a luta pelo poder definida por Maquiavel ou Schmitt. Funciona como antídoto contra a violência, inclusive a ameaça nuclear e o terrorismo do século XX.

              6) A mansidão representa uma escolha ética e “metafísica”, imaginando uma sociedade governada pela gentileza e não pela força. Identifica-se com a não-violência e com a esperança de um mundo sem vencedores nem vencidos.

              7) Focando um pouco mais profundamente a diferença entre a Mansidão e a Tolerância, o autor italiano diz que a Mansidão é a "atitude activa e social de não-violência, que “deixa o outro ser o que é” sem exigir reciprocidade" e a Tolerância é o "respeito activo por ideias, práticas ou modos de vida diferentes, desde que não prejudiquem direitos fundamentais. O manso é naturalmente tolerante, mas a sua acção não depende de reciprocidade. Tolerância é recíproca por definição; a mansidão não exige que o outro retribua.

              No texto "Elogio da Mansidão", Norberto Bobbio escreve assim a certa altura: «Como toda a virtude se define melhor tendo presente o vício contrário, o contrário de mansidão, no sentido em que se diz ‘pena mansa’, é severidade, rigor — pelo que ‘mansidão’, nesta acepção, pode também ser traduzida por ‘indulgência’. E não é certamente este o significado que adoptei nesta minha apologia.» Diz que a Tolerância é um contrato e dura enquanto dura o contrato, a Mansidão é uma dádiva e não limite de prestabilidade.

              Sim, são interessantes propostas de reflexão. Estaremos sempre necessitados de alargar os nossos pensamentos à volta da Tolerância e de outros conceitos, tanto afins como opostos. Guardo esta estação na lista das estações a revisitar.

              #tolerância#tolerance#Tolerancia#tolérance#tolleranza#toleranz#tolerantie#宽容#寛容#관용#सहिष्णुता , #סובלנות#हष्णत#Ανοχή#Hoşgörü#tolerans#toleranță#толерантность#التس

              quarta-feira, agosto 13, 2025

              #TOLERÂNCIA227 - A TOLERÂNCIA E A PEDAGOGIA DO CONFRONTO

               #TOLERÂNCIA227 - A TOLERÂNCIA E A PEDAGOGIA DO CONFRONTO

              A Sábado de hoje traz um artigo que é uma entrevista a um colega meu, Jaime Ferreira da Silva, em que o título geral é "Consome menos energia comprar uma explicação cozinhada", e a última pergunta da entrevista é precisamente sobre a Tolerância. O subtítulo da entrevista diz que "O psicólogo considera que a melhor estratégia contra o radicalismo é a negociação. E dá formações de parentalidade, a pais, porque acredita que a tolerância se começa a ensinar em casa."

              Em toda a entrevista, apenas a última pergunta se foca na tolerância: «Como é que ensinamos a
              tolerância aos mais novos?»

              A resposta é assim: «A educação começa em casa, mas muitas casas tornaram-se uma espécie de hotéis de charme, em que cada pessoa tem o seu quarto, os seus equipamentos electrónicos. Muitas famílias perderam o hábito de tomar a refeição juntos ou fazem-no a olhar para a televisão. Perde-se o treino de socialização que consiste em olhar para o outro e aprender a ler as suas reações — isso é fundamental.»

              Leio, releio a resposta, tento entendê-la.

              Temos de ser capazes de ir bem mais longe do que isto, tanto os psicólogos como os professores e educadores. A pergunta é clara, a resposta não é. Tem uma ideia central que não entendo («muitas casas tornaram-se uma espécie de hotéis de charme»).

              A afirmação acerca da refeição em família… será que é mesmo assim?, será que ainda é assim?, será que pais e filhos vêem ainda as mesmas coisas na televisão?, não será que a presença dos telemóveis e

              pequenos ecrãs à mesa é um problema mais actual? Neste ponto, já há alguns anos o Professor Daniel Sampaio, num dos seus mais recentes livros avançou uma proposta, digamos, radical: a hora do jantar é uma hora sem telemóveis e sem ecrãs — para todos os membros da família. Se não estão todos os membros da família, a regra mantém-se para quem está, mesmo que sejam só os filhos; ou só os pais.

              Poderão apontar-me: mas então não é uma coisa mais ou menos assim que é implicitamente deduzível naquilo que diz o seu colega? Até admitirei que sim, mas então pergunto: e que tem isso a ver com Tolerância? Inclusivamente, poderíamos dizer que a regra, a proibição de uso do uso de telemóveis à mesa, é marca de intolerância, não de educação da Tolerância.

              O treino de socialização é olhar e aprender a ver… Não, não concordo. Para mim, o treino de socialização é relacionar-se, interagir, comunicar, falar; falar e ouvir — ouvir com atenção! “A conversar é que a gente se entende”. “Da discussão nasce a luz”. "Bem dizer e bem ouvir é a arte de conversar". "A palavra é de prata e o silêncio é de ouro". "Quem tem boca vai a Roma". "Quando um não quer, dois não discutem". "Quem muito fala pouco acerta".

              Outra vez: estiquemos tanto quanto pudermos os significados da frase do meu colega Jaime. Muito bem. Onde está a educação da Tolerância? Como se faz a educação da Tolerância?

              Parece-me que a educação da Tolerância, nestes ambientes de família, à hora do jantar, está essencialmente no confronto: confronto de pontos de vista entre pais e filhos; entre irmãos, que sejam sabiamente arbitrados pelos pais; a propósito de coisas que, inclusivamente, se possam estar a ver nessa altura na televisão, cabendo aos pais o papel de ajudar os filhos a entenderem os confrontos que a Comunicação Social lhes traz para dentro de casa à hora do jantar, os pais ajudam os filhos a entenderem o mundo, as suas oposições, os seus radicalismos, as possibilidades de diálogo e de negociação de conflitos. Aceitar aqui… ceder ali… comprometer-se mais além… trocar… mostrar que por vezes há limites que não podem ser ultrapassados… como se pode garantir a consistência de limites justos…

              E deixo, por agora, de fora as tradicionais questões de quem põe a mesa, quem a levanta, quem lava a louça; e as coisas que se comem à refeição: só o que cada um gosta?, tolera-se que desta ou daquela vez o filho não coma a sopa ou o peixe?... Repito, deixo desta vez de fora estas questões.

              Pronto, são achegas que deixo para uma discussão sempre necessário e nunca acabada. Agora tenho de ir para a porta 10, vou apanhar o avião.

              #tolerância#tolerance#Tolerancia#tolérance#tolleranza#toleranz#tolerantie#宽容#寛容#관용#सहिष्णुता , #סובלנות#हष्णत#Ανοχή#Hoşgörü#tolerans#toleranță#толерантность#التس 

              terça-feira, agosto 12, 2025

              #TOLERÂNCIA226 - À PROCURA DAS RAÍZES DA INTOLERÂNCIA

               #TOLERÂNCIA226 - À PROCURA DAS RAÍZES DA INTOLERÂNCIA

              Norman G. Finkelstein (nasceu em 1953) é filho de sobreviventes do gueto de Varsóvia e dos campos de concentração nazis. Considerado 'Persona non grata' em Israel desde 2008, foi também demitido da Universidade DePaul por pressões de lobbies judaicos. É historiador.

              São muitos os jornalistas que o procuram para entrevistas, e o que reproduzo a seguir pode ser encontrado, evidentemente, com pequenas variantes, em outras entrevistas: «Netanyahu é um representante fiel da sociedade israelita. Não é que ele seja uma excrescência — essa palavra requintada para uma espécie de crescimento artificial. Ele não é uma excrescência. O facto é que ele é

              o primeiro-ministro há mais tempo no cargo em Israel, e há uma razão muito boa para isso: é porque ele é insuportável, presunçoso, um supremacista judeu — e isso reflecte 95% da sociedade israelita.»(1)

              As quase derradeiras imagens do monumental trabalho SHOAH, de Claude Lanzmann (de 1985, 544 impressionantes minutos!!!) vieram-me à cabeça... Fui ao Velho Testamento (em coisas que partilha com a Torá dos judeus), que já foi invocado por Netanyahu. Lá encontramos escrito no Livro do Êxodo (7:1-6): «Quando o Senhor teu Deus te introduzir na terra que vais tomar posse e tiver expulsado diante de ti muitas nações: os hititas, os girgaseus, os amorreus, os perizeus, os heveus, os cananeus e os jebuseus, sete nações mais numerosas e mais poderosas do que tu, quando o Senhor teu Deus as tiver entregue nas tuas mãos e as tiveres derrotado, votá-las-ás ao extermínio; não farás com elas aliança nem lhes mostrarás misericórdia. Não te aparentarás com elas, não darás as tuas filhas aos seus filhos nem tomarás as suas filhas para os teus filhos, pois eles desviariam os teus filhos de Me seguirem, para os fazerem servir a deuses estranhos, e a ira do Senhor se acenderia contra vós e depressa vos destruiria. Mas assim procedereis com eles: derrubareis os seus altares, quebrareis as suas estelas, cortareis os seus postes sagrados e queimareis no fogo os seus ídolos. Porque tu és um povo consagrado ao Senhor teu Deus; o Senhor teu Deus te escolheu para seres o seu povo próprio, entre todos os povos que há sobre a terra.»

              A terra de «que vais tomar posse» é tradicionalmente a região de Canaã, que, na Antiguidade, correspondia aproximadamente à área onde hoje se situam o Estado de Israel, os Territórios Palestinos (Cisjordânia e Faixa de Gaza), parte do Líbano, o oeste da Jordânia e o sul da Síria. Era considerada a "terra prometida" por Deus aos descendentes de Abraão, um local de grande fertilidade.

              Tomado à letra, o radicalismo de Iaweh é total, é absolutamente intolerante: aos que O adoram exige submissão total; aos outros, o castigo é implacável.

              Norman G. Finkelstein e outros (por exemplo, velhos prisioneiros dos campos de concentração nazis) opõem-se a este tipo de radicalismo. Radicalismo que vale por si mesmo e que serve outros interesses e propósitos — políticos, económicos, militares, etc.

              Estes valores (eu tive a tentação de chamar-lhes "valores") estão em total oposição aos valores democráticos e aos do entendimento respeitoso e justo entre os Povos e as Nações de que a ONU tenta ser o garante desde a sua criação após a 2.ª Grande Guerra.

              Como se combate tão ignominiosa intolerância? Mais importante, na minha viagem peregrina, é perguntar: como se aprende a combater tão ignominiosa intolerância? A pergunta vale tanto para os cidadãos de todo o mundo como para os 95% da sociedade israelita de que fala Norman G. Finkelstein.

              A evolução histórica do Velho para o Novo Testamento pode ser uma fonte de inspiração, tanto para crentes como para não-crentes. Os exemplos históricos e culturais dos credos religiosos não-monoteístas são também de muito útil inspiração.

              #tolerância#tolerance#Tolerancia#tolérance#tolleranza#toleranz#tolerantie#宽容#寛容#관용#सहिष्णुता , #סובלנות#हष्णत#Ανοχή#Hoşgörü#tolerans#toleranță#толерантность#التس

              (1) https://www.instagram.com/reel/DHJM_01C4Mq/

              segunda-feira, agosto 11, 2025

              #TOLERÂNCIA225 - FRANZ KAFKA E A TOLERÂNCIA

               #TOLERÂNCIA225 - FRANZ KAFKA E A TOLERÂNCIA

              Ontem "tropecei" na edição «conforme a edição crítica» de "Todos os Contos" de Franz Kafka, editada e reeditada em português (pela Livros do Brasil) em 2023. Hoje folheei-a, e fui depois à Net tentar saber mais alguma coisa acerca da edição do livro.

              Avançando quase sem cuidar do caminho, enredei-me em edições em português, alemão, inglês e francês. Tentei chegar a escritos originais (alemão) e compará-los com traduções nas outras três línguas. O Google quase sempre resvalou para a "Carta ao Pai", que Kafka escreveu em Novembro de 1919, já depois de feitos os 36 anos. Quanto às traduções que comparei, pois, lá me veio à cabeça o clássico "Traduzir é trair". Mas, que fico claro: bendigo o precioso trabalho dos tradutores competentes e cultos!

              Começava assim a carta:

              «Querido Pai,
              Perguntaste-me há pouco tempo porque é que eu continuo a ter medo de ti. Como de costume, não fui capaz de te dar qualquer resposta, em parte por causa desse mesmo medo, em parte porque, se quisesse explicar as razões, haveria demasiados detalhes relevantes para conseguir articulá-los de forma coerente ao falar. E, mesmo tentando responder-te aqui por escrito, ficará sempre muito incompleto, porque, mesmo na escrita, o medo e as suas consequências continuam a interferir quando estou perante ti, e porque a extensão do material vai muito além da minha memória e compreensão.»

              Dizem-me as fontes que a carta nunca chegou ao pai, Hermann Kafka... E que o próprio Kafka não terá tido intenção de a publicar. Publicou-a, já depois de Kafka morrer, o seu amigo Max Brod, a quem

              Franz Kafka, aos 5 anos
              Kafka chegou a deixar escrito o pedido para, caso ele, Kafka, morresse, «os diários, manuscritos, cartas, dele ou de outros, desenhos, etc., e que estivessem na estante de livros, no guarda-fatos (sic), na secretária, em casa, no escritório ou em qualquer outro sítio, fossem destruídos na íntegra sem serem lidos, tal como todos os escritos ou desenhos que ele — Max Brod — ou outras pessoas tivessem em seu poder.», coisa que o amigo, de todo, não fez.

              O primeiro parágrafo da carta de Kafka ao pai é um excelente exemplo do que tantas vezes recomendo a pessoas ansiosas, tomadas por medos e bloqueadas nos seus pensamentos: que escrevam. Mesmo que não saibam bem o quê, mesmo que custe, é uma boa maneira de avançar numa conversa difícil com alguém, tantas vezes consigo próprio, não apenas com algum Outro.

              Na edição mais completa dos Contos a que consegui acesso (uma edição inglesa de 1971-1983, logo, ainda longe da edição crítica de "Todos os Contos" de 1996), a palavra Tolerância (ou variantes da família da palavra) surge 14 vezes. Tomo nota para um dia as explorar com atenção.

              Na "Carta ao Pai", Kafka fala da Tolerância 3 vezes.

              A primeira tem a ver com a irmã mais nova, de quem ele, ao que parece, gostava muito, até porque a considerava forte, ao contrário de si próprio, que se via como fraco: «E não terias tu certamente tido a autoridade para fazer algo de muito bom com esta empresa (assumindo que te terias conseguido obrigar a fazê-lo) oferecendo encorajamento e conselhos e vigiando-a, talvez até apenas tolerando-a?» Parece que Kafka, aqui, sugere que mesmo a mera tolerância, a aceitação passiva dos seus caminhos [Repito, está a referir-se à irmã. Bem, no fundo, à irmã e a ele próprio, digo eu], teria sido suficiente para fazer uma diferença positiva, em contraste com a sua aparente desaprovação. A frase sugere a falta de apoio do pai, mesmo a nível mínimo.

              A segunda mostra como a Tolerância não chega, pode mesmo ser enganadora: «Por exemplo, a minha escolha de profissão. Certamente que me deste total liberdade nesse aspecto, à tua maneira magnânima e, a este respeito, até tolerante. Embora, ao fazê-lo, estivesses também a seguir a forma como a classe média judaica geralmente trata os seus filhos, que era o padrão que tinhas — ou, pelo menos, estavas a seguir os seus juízos de valor. Em última análise, isso também foi afectado por um dos teus equívocos em relação à minha personalidade.» Quer dizer, a "Tolerância" do pai não vinha de uma compreensão profunda ou aceitação das suas escolhas, mas sim de uma adesão a um padrão social estabelecido.

              Finalmente, a terceira será a mais contundente de todas: Kafka ousa pôr-se no lugar do pai, e fá-lo de forma bastante desafiante: «De qualquer modo, devo dizer que acharia um filho [como ele, Franz] tão calado, embotado, seco e obcecado [com o seu mundo de livros e escrita] bastante intolerável e, se mais nada fosse possível, quase de certeza fugiria dele, emigraria, tal como tu nunca tiveste a intenção de fazer até eu tencionar casar.» Kafka admite que a sua personalidade, tal como ele a percebe de si para si próprio, seria insuportável para alguém como o pai. Ele admite a sua própria dificuldade de ser amado ou aceite pelo pai, mas fá-lo de uma forma que também critica o pai pela sua intolerância. Ou seja, pai incapaz de ser tolerante coma filha e com o filho.

              Pois é, entre ontem e hoje, sem que me desse conta dos passos com que lá cheguei, a certa altura vejo-me embrulhado num, deixem-me brincar, num autêntico "processos kafkiano" entre leituras, traduções e edições de Kafka. Porquê? Porque quis espreitar-lhes a Tolerância nos interstícios.

              Tenha-me ou não saído bem deste labirinto, fico a pensar na maneira como a Tolerância e a Intolerância é vivida explicitamente ou surdamente na relação entre pais e filhos... Na maneira como os desejos dos pais, por mais meritórios que sejam, os tornam a eles, os pais, em educadores intolerantes, que se tornam incapazes de ver as idiossincrasias, as motivações, as individualidades e as personalidades dos filhos.

              O desafio para a Educação: identificar, tão cedo quanto possível, os sinais de intolerância (sobretudo a mascarada, a sub-reptícia, velada e inconsciente) dos pais em relação aos filhos; e como evitá-la e preveni-la; e como modificá-la. Estou, naturalmente, a falar da intolerância que abafa, cerceia, o pleno desenvolvimento pessoal, saudável, das crianças e dos jovens.

              #tolerância#tolerance#Tolerancia#tolérance#tolleranza#toleranz#tolerantie#宽容#寛容#관용#सहिष्णुता , #סובלנות#हष्णत#Ανοχή#Hoşgörü#tolerans#toleranță#толерантность#التس

              domingo, agosto 10, 2025

              #TOLERÂNCIA224 - A TOLERÂNCIA É A VIRTUDE DEMOCRÁTICA POR EXCELÊNCIA

               #TOLERÂNCIA224 - A TOLERÂNCIA É A VIRTUDE DEMOCRÁTICA POR EXCELÊNCIA

              «A tolerância é a virtude democrática por excelência.» Quem escreve assim é Victoria Camps, Professora catedrática de Ética da Universidade Autónoma de Barcelona, à data de Junho de 1991 (que

              é a data do n.º 83 da revista Documentacion Social, revista de estudios sociales y de sociologia aplicada, de Madrid), no artigo "Los contenidos de la ética civil".

              Bem, com o temos visto especialmente nos últimos tempos, e admitindo que Victoria Camps é competente a ensinar, a generalidade dos líderes políticos (e afins) do Mundo, nem dos dirigentes desportivos, não foi aluna desta professora catedrática.

              Eis aqui o parágrafo completo:

              «A tolerância é a virtude democrática por excelência. Tolerância em relação a tudo aquilo que não tem de ser comum. A distinção entre o público e o privado, entre o universalizável e o que não o é nem deve ser, não é uma distinção estática e fixada de uma vez por todas. Pelo contrário, convém ir deslocando as fronteiras à medida que o tempo avança e descobrimos o que os éticos contemporâneos entendem como a diferença entre a justiça — que deve ser universal e a felicidade que não deve submeter-se a normas universais. Cada um tem o dever de aceitar os princípios éticos da justiça, mas, para além ou aquém desses princípios, cada um é livre de optar pela forma de vida que mais lhe aprouver. Tentar converter num modelo universal e obrigatório para todos um tipo de pessoa, de família, uma religião ou uma ideologia política é ser intolerante. A democracia pressupõe pluralidade de pontos de vista, os quais merecem conviver desde que essa convivência não obstrua o objectivo comum da justiça. Perante isto, em contrapartida, perante tudo o que é injusto ou negação da própria democracia, há que mostrar-se intolerante. Em poucas palavras, não se deve confundir a tolerância com o 'vale tudo' ou com a indiferença.»

              #tolerância#tolerance#Tolerancia#tolérance#tolleranza#toleranz#tolerantie#宽容#寛容#관용#सहिष्णुता , #סובלנות#हष्णत#Ανοχή#Hoşgörü#tolerans#toleranță#толерантность#التس

              sábado, agosto 09, 2025

              #TOLERÂNCIA223 - A DESUMANIZAÇÃO AO SERVIÇO DA TOLERÂNCIA AO HORROR

               #TOLERÂNCIA223 - A DESUMANIZAÇÃO AO SERVIÇO DA TOLERÂNCIA AO HORROR

              Foi assim que as camadas mais cultas da sociedade alemã ao tempo de Hitler justificaram, toleraram, aceitaram o extermínio dos judeus: desumanizaram-nos, baixaram-nos ao nível duma espécie não humana, infra-humana (como mostra muito extensivamente Laurence Rees no livro "Auschwitz, Os Nazis e a Solução Final", 2005).

              Stephen Kapos é um judeu que sobreviveu ao Holocausto, em 1944 tinha 7 anos. Há pouco mais de 1 ano, num depoimento muito sereno, mas também muito claro e assertivo, ele denunciou as atrocidades do Governo Israelita de Netanyahu, e estabeleceu paralelos entre a máquina de propaganda e acção do Governo Israelita com a máquina de propaganda e acção de Hitler: «Essa desumanização permite que a população de Israel tolere o que está a acontecer.»

              Transcrevo os primeiros minutos do depoimento de Stephen Kapos (Youtube, 07/05/2024)(1):

              «Digo-o como sobrevivente do Holocausto: o genocídio em Gaza não está a acontecer em meu nome, nem em nosso nome. A forma como o governo israelita está a usar a memória do Holocausto para justificar o que está a fazer aos gazeus é um insulto completo à memória do Holocausto e uma atrocidade.

              »Quando vi o embaixador israelita nas Nações Unidas a colocar uma estrela amarela… Fiquei enojado. Alguém que, como eu e toda a minha família, teve de usar uma estrela amarela sente-se

              insultado com isso.

              »O que distingue o Holocausto dos judeus é a sua escala industrial e os métodos industriais aplicados. E o que tem acontecido em Gaza é semelhante nesse aspecto: a escala dos bombardeamentos, o seu carácter indiscriminado, a total indiferença face ao facto de crianças e mulheres serem a maioria das vítimas — tudo isto equivale a um genocídio em escala industrial.

              »A forma como o povo palestiniano é retratado como sem valor, quase animal, pelas descrições de alguns líderes… Essa desumanização permite que a população de Israel tolere o que está a acontecer.

              »O tratamento dado aos palestinianos detidos, obrigados a despir-se e a ser exibidos em fila, é parte da humilhação no Ocidente. A forma como os postos de controlo estão organizados, como são forçados a esperar horas sem razão para ir à escola ou ao trabalho… Tudo isto equivale a uma humilhação semelhante à que nós vivemos.

              »A determinação e a consistência com que estão a destruir Gaza por completo são muito semelhantes à crueldade e à determinação dos regimes fascistas. Algumas das acções do Estado nazi — a desumanização, os assassinatos em massa deliberadamente cruéis — se se repetem, não vejo razão para não traçar o paralelo. Pode ser útil, para compreender o que está a acontecer, estabelecer essa comparação. Não deveria haver qualquer tabu em relação a isso.

              »Acho particularmente doloroso ver as crianças, porque lembro-me de que, depois da guerra, brincávamos nos escombros, como elas fazem agora. Mas, sobretudo, as suas perdas… perder pais e irmãos de repente…

              »Havia um rapaz no mesmo lar de acolhimento onde eu estive. Ele viajava num eléctrico com os pais, mas foi para a frente, para observar o motorista a manipular as alavancas. Na paragem seguinte, um grupo das Arrow Cross [milícia fascista húngara] entrou, pediu documentos, identificou os pais como judeus e prendeu-os imediatamente. O filho, separado na frente, deixou-os enfrentar uma decisão horrível: chamá-lo e condená-lo também, ou deixá-lo escapar por estar distraído. Optaram pelo silêncio. Foram retirados do eléctrico e enviados para Auschwitz. Nunca se despediram do filho. Pereceram lá. Foi o fim daquela família. Conseguem imaginar o estado psicológico daquele rapaz, que de repente se viu sozinho, sem sequer um adeus?

              »E este tipo de separação, esta sensação de impotência total perante os acontecimentos, esta destruição de famílias… é algo que se repete agora em Gaza.»

              Um ano depois (29/05/2025), o judeu sobrevivente do Holocausto mantém a denúncia, numa longa entrevista ao "Bad Hasbara - The World's Most Moral Podcast"(2)

              #tolerância#tolerance#Tolerancia#tolérance#tolleranza#toleranz#tolerantie#宽容#寛容#관용#सहिष्णुता , #סובלנות#हष्णत#Ανοχή#Hoşgörü#tolerans#toleranță#толерантность#التس

              (1) https://www.youtube.com/watch?v=AxLtxX7kPcU

              (2) https://www.youtube.com/watch?v=th67N9gEHes