segunda-feira, fevereiro 15, 2016

A malta do Leste, têm todos a mania...

Domingo, quatro e meia da tarde, tudo muito tranquilo no ginásio.
Deixo a passadeira, o treino de marcha correu lindamente. Passo pelo conjunto de aparelhos onde vou fazer o breve exercício dos músculos dorsais, os aparelhos estão todos livres - que maravilha! Posso ir beber água descansadamente, tenho tempo, daqui a pouco estarão ainda livres; mesmo que dois ou três deles fiquem ocupados, não há problema, sobrará o outro para mim.
E foi mesmo assim - pois claro, é mesmo domingo!, quanto volto, continuam todos livres. Vou para o meu preferido, regulo a carga. Componho bem a postura, sopro três ou quatro baforadas lentas, controladas; estou pronto, começar!...

Um... dois... três...
Olho em frente, fixo a atenção em dois rapazes que saíam de um aparelho lá longe e se dirigem para a zona onde eu estava.
Quatro... cinco...
Não deixo de olhar para eles, o contraste é grande: um deles é muito alto, certamente a chegar ao metro e noventa, o outro parece um pouco mais baixo do que eu, quer dizer, terá menos de um metro e setenta. E vêm mesmo na minha direcção! São claramente de algum país do leste. O mais alto tem os olhos azuis acinzentados de todos eles bem fixados em mim; também não desvio dele os meus, homessa! Que venha, o que quer ele?!...
Cinc..., não, é quantos é que vou?... O gajo já me fez perder a conta... Seis... sete...
Estão agora parados bem à minha frente, menos de um metro nos separa. O matulão olha-me, parece que quer que eu perceba que me diz: "Olhe, amigo, demora muito ou faz serão? Está a perceber que a gente quer ir para esse aparelho, não está?... Isso não é para si, olhe bem p'ra nós... Já viu quem é devia estar aí?"
Olha-me de alto a baixo, não sei se me mede, se me desafia - se calhar, as duas coisas.
Costumo parar o exercício aos 12 movimentos; pois hoje vou até aos 24!
Nove... dez... onze...
O gajo vem mesmo para cima de mim! Já não há disfarce nem engano possível!
Doze... treze... catorze...
- "Senhor - diz ele. É mesmo do Leste, com aquele sotaque! - não é assim, não faça assim..." e exemplifica ali à minha frente, chega a tocar-me nas mãos tentando corrigir-me.
Perco novamente a conta, e duvido: será que, afinal, o gajo não é um bruto provocador? Sorrio educadamente a agradecer-lhe. Verifico, pela expressão dele, que não estarei a fazer como me sugeriu. Não é uma expressão de crítica ou desdém; até parece mesmo de alguma preocupação. Adiante...
Sentam-se os dois ali nos dois aparelhos à minha frente, sem ninguém a ocupá-los, parecem bancos de jardim; olham-me como se eu estivesse num palco a actuar! E os pavões do Leste a apreciar!... Olha para o que eu havia de estar guardado!... Ai, é?!...
Doze!... Treze!... Catorze!...
E fui até aos vinte e quatro; se calhar, pensavam que me intimidavam!... Saio do aparelho, mas deixo-me ficar ali à frente, como que nem-para-mim-nem-para-eles. Eles permanecem tranquilamente a conversar um com o outro. Afasto-me um pouquinho, mas só mesmo um pouquinho! Depois mais um pouquinho... Agora já estou claramente afastado do aparelho. Até que estranho que eles não avancem para o aparelho. É que não avançam mesmo!... De tal forma que me volto para eles e faço-lhes sinal de que podem usar o cobiçado aparelho. O há pouco meu inesperado "monitor" levanta-se e pergunta-me: "O senhor não vai usar mais?... Podemos usar?..." Respondi-lhe que sim. Olhou-me com delicadeza e sorriu um "Obrigado!" que me pareceu muito bem-educado. Fiz o meu papel, fui simpático como convinha; até já começava a pensar que o rapaz seria um correcto e cordial parceiro de ginásio; mas parecia que queria que o rapazinho me desse ainda mais alguma prova nesse sentido.
Como quem não quer a coisa, fui pôr-me a alguma distância, num aparelho em que poderia observar os rapazes; o "monitor" estava irrepreensivelmente equipado, com cinturão de musculação e tudo!
Pois, nem era daqueles brutamontes com os músculos inchados um a um; tinha mais a configuração atlética de um esguio nadador de competição.
Reparei que procurava instruir o seu amigo, tal como fizera comigo - e como o fazia com muito cuidado; agora, ao vê-los, percebi o que ele tinha querido dizer-me e corrigir-me... No fundo, eram dois miúdos, pelitos de barba mal semeada; mas gajos com cultura de partilha de um espaço comum, em que todos podem ser reconhecidos como iguais, e em que quem sabe mais pode ajudar quem sabe menos.
Agora estava o "meu" monitor a fazer exercícios no "nosso" aparelho. Dirigi-me a ele, olhos nos olhos. À medida que me aproximava, reparava que a expressão do rosto do rapaz se contraía num meio de dúvida, meio de apreensão. Pareceu-me até que susteve a respiração, à espera; ele sabia que eu lhe ia dizer alguma coisa.
Esperei que ele acabasse o exercício, nós os dois sempre olhos nos olhos. Assim que acabou, pus-lhe a mão esquerda sobre o ombro, e dei-lhe uma palmada cordial.
- "Venho agradecer-lhe o cuidado que teve comigo há pouco..."
O rapaz parecia não perceber; o outro, o mais baixinho, parecia uma estátua a olhar-nos.
- "Naquele bocadinho em que veio corrigir os meus movimentos, tentou ajudar-me mais do que os monitores do ginásio, todos juntos, tentaram ajudar-me durante este ano todo em que já cá ando."
Eu falava devagar, não fosse a compreensão dele da língua portuguesa o impedir de entender tudo o que eu lhe estava a dizer.
- Obrigado! Foi muito simpático da sua parte. - disse-lhe ainda, a estender-lhe a mão para um aperto.
O rapaz sorriu, finalmente. Respondeu ao meu cumprimento e comentou:
- Ah, não foi nada; e o senhor tem razão, estes monitores não ajudam ninguém, só se andarem atrás de algumas raparigas é que vão ao pé delas ajudá-las..."
Rimo-nos os dois. Dei-lhe outra palmada amiga nas costas e afastei-me. Percebi que o amigo lhe foi logo perguntar o que tinha sido a nossa conversa.
Por mim, a caminho da sauna, eu pensava que tinha de contar esta aos meus alunos - os preconceitos, os estereótipos, os juízos apressados, estão sempre no nosso caminho, estamos sempre a tropeçar neles. O que eu pensei destes rapazes, e a lição que eles me deram!

quinta-feira, fevereiro 04, 2016

Mais uma acha para a fogueira dos trabalhos de casa

Vem este apontamento a propósito de um texto publicado na Internet em jeito de apontamento de blogue.
O título: Divulgação: Carta aberta ao dr. Eduardo Sá
A autora: Lúcia Teixeira

"Não posso sair. Tenho de ajudar o meu pai a fazer os meus trabalhos de casa."
Para lá dos "considerandos" e doas finalmentes", o texto versa os recorrentes temas educativos, ou escolares, dos trabalhos de casa e dos exames.
Agora vou trazer mais uma acha para a fogueira dos trabalhos de casa; depois, noutro apontamento, a acha dos exames. Ciente, evidentemente, de que a fogueira nunca deixará de arder.
Saúdo a Lúcia pela publicação do texto; e pela polémica que conseguir estimular.
A velha questão: sim ou não aos trabalhos de casa?
Esclareço que, enquanto professor, e como se diz no vulgar linguajar das coisas de escola, sou daqueles que passo trabalhos de casa aos alunos (de propósito, não digo se o faço sempre, regularmente, às vezes, ou poucas vezes).
Parece-me que, em geral, a questão não é formulada da forma mais conveniente; mas também não é, evidentemente, uma falsa questão.
Comecemos por aqui:
Qual é o pai ou mãe que não gosta de ver o seu filho, a sua filha, em casa, dedicando-se autonomamente, voluntariosamente, gostosamente, concentradamente, a estudar? Estudar autonomanente não pode ser interpretado (perversamente, ou psicanaliticamente, ou sanchopançamente) como uma maneira de auto-imposição de trabalhos de casa? Sejam os pais professores ou não; psicólogos ou não; outras coisas ou não...
Dito isto, parece-me que a discussão entre os adeptos dos trabalhos de casa e os adeptos dos não-trabalhos de casa é uma discussão ente adeptos da mesma visão dos assuntos da escola e da educação. Quer parecer-me que enformam os opostos adeptos da mesma visão do mundo, da escola e do lar.
Psicologicamente ou sociologicamente falando, é uma visão redutoramente estereotipada; filosoficamente, é uma visão estereotipada descarteana. É a visão do OU ou OU: ou casa, ou escola; ou escola, ou casa.
- Isto é mesmo complicado! Posso fazer um intervalo e ver um bocadinho de televisão?
- Vá lá, pai!... Ou queres ser o culpado das minhas más notas... como de costume...
Vamos lá a ver: será que acreditamos mesmo que para as crianças o aprender é para a escola, tipo emprego das 9 da manhã às 5 da tarde, e que o brincar e os mimos é para casa depois do emprego, perdão!, depois da escola? Será que no sentir e no pensar das crianças há mesmo essa descontinuidade mental, social, direi mesmo, civilizacional? Às 9 da manhã, eu, criança, esqueço os afectos da família; às 5 da tarde, eu, criança, aceno "adeus, escola, até amanhã!"
Estabelecer esta distinção, ou dicotomia, ou oposição, é esquecer - se não mesmo ignorar - a natureza do pensamento e das motivações naturais da criança. Os "especialistas" que esquecem ou ignoram são incompetentes, quer dizer, mas que especialistas da treta! Tanto Piaget que se estuda! Tanto Erikson que se estuda! Tanto Vygotsky que se estuda! Tantos outros autores que se estudam! Pelos vistos, para não serem adequadamente assimilados como Piaget nos mostrou há muito tempo que tem de ser a informação para se transformar em conhecimento e sabedoria.
Cuide-se a sério dos afectos, cuide-se a sério das naturais  e espontâneas motivações das crianças para aprender, que logo se verá que a questão dos trabalhos de casa deixa de ser um terreno de lutas desnecessárias, improdutivas... que estragam os afectos e as aprendizagens!
A sábia cultura popular há muito que nos avisa que o óptimo é inimigo do bom; e todos nós sabemos - até quem manda trabalhos para casa sabe isso - que trabalhos de casa a mais são desaconselháveis e ineficazes.
Resumindo e concluindo: não estou do lado dos que defendem que não deve haver trabalhos de casa, que os trabalhos de casa invadem o espaço das boas relações familiares. Vou continuar a passar trabalhos de casa, tentando ser sábio, ou ponderado; ou as duas coisas, a fazê-lo.
Lúcia, repito o que já disse noutro lado: gostei muito de ler o seu tão saudavelmente provocador, ou polémico, ou denunciador, ou "desabafador"texto! Beijinhos!

quarta-feira, fevereiro 03, 2016

As bonecas de Anne Frank e os lobos do neto do velho índio

"Plagio" um jovem imigrante brasileiro que conheci há alguns anos (solteiro) em Lisboa, de quem me tornei muito amigo; que voltou para a sua terra (casado, com uma jovem da mesma nacionalidade) e constituiu uma família maravilhosa:
- "Juro por Deus que é verdade o que lhe estou dizendo, é do fundo do coração!"
O que eu "estou dizendo" é que assim que acabei de ler o "Sobrevivi ao Holocausto", de Nanette Konig, fui ler o "Os Sete Últimos Meses de Anne Frank", de Willy Lindwer; a seguir, publiquei dois apontamentos sobre o livro de Nanette Konig noutro dos meus blogues; e agora estou a ler o "No rasto de Anne Frank", de Ernst Schnabel.
No segundo apontamento que escrevi sobre o "Sobrevivi ao Holocausto", de Nanette Konig, reproduzi (tenho-o feito tantas vezes!...) a sábia história do velho índio e do seu neto, que aqui deixo outra vez:
Em uma noite, um velho índio falava ao seu neto sobre a luta que acontece dentro das pessoas. Disse ele: – Há uma luta entre dois lobos que vivem dentro de todos nós - um deles é bom; o outro é bom. O neto pensou nessa luta e perguntou ao avô: – Qual é o lobo que vence a luta, avô? O velho índio respondeu ao neto: – Vence o que lobo que tu alimentares...
Curiosamente, no livro de Schnabel, acabei de ler o seguinte, que considero notável, e que nos chama a atenção para a universalidade de qualquer coisa muito profunda, muito humana, e que, na verdade, está no âmago das preocupações e da luta de Nanette Konig: a educação dos sentimentos bons que povoam a condição humana, e o domínio dos sentimentos maus que também são parte da nossa natureza mais genuína.
Transcrevo integralmente o trecho do livro, que mostra um muito interessante exemplo dessa educação que todos os educadores - pais, professores, líderes sociais e líderes políticos - têm de ser capazes de fazer:
«E aqui começa uma outra história bem singular:
             Kati contou-me, e Gertrud depois confirmou, que a família Frank não se compunha só de quatro pessoas. Havia ainda dois companheiros de casa, companheiros invisíveis, mas familiares a toda a gente. Ninguém já se lembra de quem os descobriu primeiro no quarto das crianças. O sr. Frank não está bem certo de não ter sido ele próprio. Mas seja como for, não há dúvida de que existiam e mesmo as avós e os amigos da casa eram capazes de o jurar.
            Essas estranhas criaturas já lá estavam quando nasceu Anne, de modo que ela conheceu-as desde cedo e aprendeu a contar com a sua presença, aliás impossível de ignorar. Tratava-se de dois duendes femininos de idade variável, mas de qualidades invariáveis. Ambos se chamavam Paula. As pessoas da casa distinguiam as duas Paulas porque chamavam a uma Boa e a outra Má. que eram criaturas invisíveis, eu já disse, mas apesar disso criaram-se juntas com a Margot, e quando apareceu a Anne, recomeçaram e criaram-se com a Anne. A sua maneira de agir era inteiramente diferente. Paula, a Boa, nunca deixava ficar nada no prato, enquanto Paula, a Má, passava o tempo a brincar com a colher e a amuar se a comida não era aseu gosto. Só Paula, a Má, podia ter a ideia de arrancar as pernas às moscas. Era mesmo o que ela mais gostava. A Boa, em contrapartida, era meiga e bem comportada e nem sequer era capaz de puxar pelos cabelos da irmã, como por vezes, faziam as outras raparigas.
           
Em resumo: os Frank tinham o seu "Struwwelpeter" particular, e as duas Paulas eram companheiras úteis. Da relação que há entre a acção e a recompensa não se aprendia, no entanto, nada com elas. Eram como eram, a Boa boa, a Má má, e representavam o Bem e o Mal, tais como existem na vida. Não havia quem as louvasse ou repreendesse pelos seus feitos. Neste particular procedia-se de modo diferente do livro de Struwwelpeter. As duas Paulas não queriam ser exemplos, mas apenas possibilidades entre as quais se podia escolher. 
            Comiam à mesa com a família e eram aceites com serenidade. Margot sabia, desde sempre, qual das duas lhe convinha, mas a Anne custava-lhe escolher. Sentia a mesma simpatia pelas duas amigas singulares. Não que lhe fosse difícil decidir-se, mas o que lhe era difícil era manter a decisão e, assim, guardava durante muito tempo fidelidade às duas. Caminhava entre elas, por caminhos um tanto aos ziguezagues. Já se vê, por vezes agarrada a uma, por vezes a outra, e pouco a pouco, sem que ela o percebesse, as duas Paulas transformaram-se nas duas Annes, nesta Anne e naquela, e é "Kitty" quem, mais tarde, saberá, através das muitas cartas do diário, quanto custa mostrar um só coração quando se possuem dois.
            Anne nunca se esqueceu inteiramente das duas companheiras. Nos papéis que se encontraram junto do diário, apontou em 22 de Dezembro de 1943:
            "Antigamente, quando eu era ainda pequena, o Pim falava-me muitas vezes da Paula, a má. Contava-me várias histórias dela e nunca me cansei de as ouvir. Agora quando estou junto dele, de noite..."
             ... Tratava-se daquelas noites angustiosas do penúltimo Inverno da guerra, quando os aviões sobrevoavam Amsterdão e o velho anexo na Prinsengracht estremecia com o barulho das bombas...
             "... agora ele tornara a falar-me, por vezes, da Paula e a última história que me contou, transcrevi-a..."
            Segue-se uma história de várias páginas. Mas não se fala nela de uma Paula má, mas apenas de uma má rapariga da idade de Anne. O Bem e o Mal uniram-se numa pessoazinha muito viva e bem visível, agora.
            Há guerra nesta história, uma outra guerra, já se vê, mas também Paula vive coisas difíceis e tem de fugir, pois caiu nas mãos dos Russos. Há passagens fantásticas nesta história que parece ser verdadeira, mas outras são, no entanto, tão simplórias que se adivinha a invenção. É uma história da guerra de 1914-18, e Otto Frank contou-a a Anne. Deve conter tanta verdade como qualquer outra história improvisada.
            Tudo acaba em bem: Paula consegue fugir e regressar a casa dos pais, em Frankfort. Mas antes disso há um momento em que ela, abandonada na Rússia, suspira:
            "Gente estranha, os Russos. Deixam-me entregue ao meu destino, numa terra estranha. Os Alemães, isso sei eu, agiriam de outra maneira, num caso destes..."
             E Anne acrescentou, em 1943, entre parentesis, este suspiro:
            "Ao ler isto deve considerar-se que Paula era uma rapariga alemã..."»
(in  No Rasto de Anne Frank, de Ernst Schnabel, Livros do Brasil, 2003, pp. 23-26)
 

sábado, janeiro 02, 2016

Medos ancestrais à tona. A propósito dos refugiados sírios.

«Uma criança, um professor, um livro e uma caneta podem mudar o mundo.»
Atenas, Grécia, Dezembro de 2015. Enquanto houver crianças assim - e é da sua
natureza serem assim, haverá sempre esperança; haverá sempre motivos que nos
 galvanizem e façam querer estar na linha da frente da solidariedade e comunhão.
Esta é a célebre frase de uma adolescente paquistanesa, já ouvida no grande palco das Nações Unidas. Adolescente Malala, candidata a prestigiantes Prémios da Paz; e vencedora, mesmo que não em todas as candidaturas.

Malala é a razão de um livro, escrito em jeito de bandeira na luta pela Liberdade e pelo direito à Educação.
«A todas as meninas que enfrentam injustiças e que foram silenciadas. Juntas seremos ouvidas.»,
É assim, com esta dedicatória que Malala, e quem dela recolhe as memórias, abrem o livro.
O seu nascimento foi um acontecimento decepcionante - porque nasceu uma menina.
"Quando nasci, os habitantes da nossa aldeia exprimiram o seu pesar à minha mãe e ninguém deu os parabéns ao meu pai." (p. 23)
As meninas são acontecimentos natalícios não desejados na cultura de origem da Malala.
Até onde estará Malala disposta a ir... Até onde conseguirá ela ir?... Até onde permitirão que ela vá?...
Quem rodeia Malala?... O que quer quem a rodeia?... Quem a educa?... Quem a apoia?... Quem a seduz?... Quem quer tirar proveito dela?...
Que poder tem, de facto, uma criança? E um professor? E um livro? E uma caneta?
Há encanto no que Malala - ou alguém por ela - diz da sua família, dos antepassados que fazem a história e a identidade do Povo a que pertence e de que se orgulha.
O livro de Malala foi trazido a público em Outubro de 2013 (já o Papa Francisco tinha estado em Lampedusa, provavelmente enquanto o livro ainda se ultimava).
Que boa fé povoava a mente de quem escreveu o parágrafo que a seguir transcrevo?
Os nossos antepassados chegaram ao Vale de Swat no século XVI, vindos de Cabul, onde tinham ajudado um imperador da dinastia timúrida a reconquistar o trono após a sua própria tribo o ter deposto. O imperador recompensou-os com posições imdo autor portantes na corte e no exército, mas os seus amigos e familiares avisaram‑no de que os Yousafzai estavam a tornar-se tão poderosos, que o iriam destronar. Por isso, certa noite, convidou todos os chefes para um banquete e lançou os seus homens sobre os Yousafzai, enquanto estes estavam a comer. Foram massacrados cerca de seiscentos chefes. Apenas dois escaparam e fugiram para Peshawar juntamente com os homens da sua tribo. Após algum tempo, foram visitar algumas tribos no Vale de Swat para granjear o seu apoio de modo a conseguirem regressar ao Afeganistão. Porém, ficaram tão cativados pela beleza de Swat, que decidiram, em vez disso, ficar aqui e forçaram as outras tribos a sair. Os Yousafzai dividiram toda a terra entre os membros masculinos da tribo. (p. 32)
Em Lampedusa, em Lesbos, em Paris, em Atenas, que estado de consciência povoaria a mente do autor se (re)escrevesse o parágrafo agora, com tantas portas de medo que se têm fechado por tanta e oficial Europa (sim, oficial, que a Europa dos cidadãos não é exactamente a mesma)?
Não confirma o parágrafo o temor que tanto agitam em tanta comunicação social? Que razões assitem hoje a todos os temerosos?
Que podem o professor, o livro e a caneta fazer à criança para que o Futuro seja outro, diferente do que foi a "vitória" da experiência de refugido do orgulhoso Povo de Malala?
De que maneira são os Povos capazes de olharem as gestas e as epopeias das suas Histórias - por exemplo, de Marítimas Descobertas e Escravaturas massivas atravessando gloriosos mares - à luz dos ideais de Liberdade, Igualdade e Fraternidade que continuamos a tanto tentar que iluminem e guiem as relações entre os Povos; e mesmo dentro de cada Povo?
Malala, ela própria, será menina capaz de olhar, ousadamente, de outra maneira, as fascinantes histórias ouvidas aconchegada aos joelhos de seu pai e avós?
Tão importantes são os professores! O pai de Malala é professor.
Será que a História nos mostra que é impossível ser de outra maneira, que a competição entre as Culturas vencerá sempre sobre a cooperação? Será que podemos fazer a História de outra maneira?
Como canta o Tim dos Rio Grande:
"Mestre-escola diga lá se for capaz / P'ra que lado é que me viro, p'ra que lado?"

sábado, setembro 12, 2015

OS SERES HUMANOS E AS FRONTEIRAS RADICAIS DE MIA COUTO

OS SERES HUMANOS E AS FRONTEIRAS RADICAIS DE MIA COUTO

«Encheram a terra de fronteiras, carregaram o céu de bandeiras, mas só há duas nações – a dos vivos e dos mortos.»


3 documentos extraordinários! Para apreciar aos bocadinhos - sobretudo, ao lado de outros (os pais, os filhos, os alunos, os colegas, os amigos, os estranhos, os diferentes...). Ver, com olhos de ver: corte no filme, não corte em cada testemunho individual! A seguir, a seguir é falar, discutir, discutir, discutir.
O primeiro vídeo está aqui.


SUGESTÃO: não procure convencer ninguém! oiça e diga o que pensa. Diga amavelmente "Fica na tua que eu fico na minha...", mas oiça, não interrompa, e diga o que pensa.
Driven by these questions, filmmaker and artist Yann Arthus-Bertrand spent three years collecting real-life stories from 2,000 women and men in 60 countries. Working with a dedicated team of translators, journalists and cameramen, Yann captures deeply personal and emotional accounts of topics that unite us all; struggles with poverty, war, homophobia, and the future of our planet mixed with moments of love and happiness. 

sexta-feira, julho 24, 2015

Ser ou não ser - acreditar nisso ou não

Há muitos anos que digo isto aos meus alunos:
Always remember that you are absolutely unique, just like everyone else.
(Lembra-te sempre que és absolutamente único, tal como toda a gente.)
Eles olham para mim e parecem perguntar-se: «Outra deste taradinho... Onde quer ele chegar com isto?...»
Quando assim os "endoutrino", estou normalmente a falar da inteligência e do que pode ser a riqueza de pensamento de cada um deles; até para ver se se esforçam um pouco mais nos estudos. E se uns preguiçam sempre, com estas ou com outras, outros há que- não obstante a boa fé - desconfiam da verdade da minha crença, e que estou apenas a passar-lhes a mão pelo pelo, a ver se se aplicam um pouco mais nas aulas.
Bem posso eu invocar a célebre antropóloga Margarete Mead, muitas vezes apontada como a autora desta afirmação; ou de outro autor conceituado -,  pois sim, a desconfiança não abranda.
E eu que cada vez mais acredito nas diferenças individuais e no potencial inteligente e emocional de cada um!... Mesmo que a generalidade dos líderes mundiais e dos seus agentes publicitários se sofistiquem, qual Admirável Mundo Novo, nos esforços da nossa formatação, tipo "Todos diferentes?... Mas a gente põe-nos cada vez mais iguais."

segunda-feira, julho 20, 2015

Leonore Goldschmidt e o magistério de professor

"I have greatly enjoyed the cooperation and friendship of my pupils. I have learned that, in the end, nothing remains as satisfying as the love of those who come after us."
(Apreciei sempre muito a colaboração e a amizade dos meus alunos. Aprendi que, no final, nada fica de tão satisfatório quanto o apreço daqueles que nos seguem.)
Leonore Goldschmidt é uma heroína, que se libertou das leis da morte, com todo o mérito, em resultado de um esforço pessoal notável, numa das épocas histórias mais perigosas para os seres humanos, em que a arbitrariedade de dispor da vida e da morte reinava injustamente no seu país - a Alemanha, a partir da ascensão de Hitler ao poder - paradoxalmente, numa cultura que faz subir ao nível do sagrado o respeito pela Lei e pela Ordem. E os altamente inteligentes correligionários de Hitler puseram todas as suas capacidades ao serviço dos Valores contrários aos que nas sociedades humanas, desde sempre, alimentaram os princípios da Lei e da Ordem; e fizeram-no (ou melhor, começaram por fazê-lo) de uma forma altamente "sofisticada": precisamente através da Lei e da Ordem! Terá sido por questões de pueril pudor? Por viciada cegueira cultural?
As imagens eternizaram-na como "A professora que desafiou Hitler" (The teacher who defied Hitler).

sexta-feira, julho 17, 2015

SOMOS ESCRAVOS DAS NOSSAS ILUSÕES

"Há uma coisa que é ainda pior que ter um mau pensamento. É ter um pensamento acabado, todo feito.Charles Péguy, Note conjointe sur M. Descartes et la philosopie cartésienne, 1914.

Il y a quelque chose de pire que d'avoir une mauvaise pensée. C'est d'avoir une pensée toute faite.

Seria esta uma excelente citação para o meu habitual apontamento de fim-de-semana, noutro dos meus blogues, mas, pronto, outras coisas haverá para o que se avizinha.
É uma afirmação que casa muito bem com a afirmação que o velho deputado grego, de 93 anos, Manolis Glezos, lembrou a Schulz há dias, na despedida de Bruxelas: «Temo o homem de um só livro.»
Casa também muito bem com o outro pensamento de Aldous Huxley, de 1932: "A ditadura perfeita terá as aparências da democracia, uma prisão sem muros na qual os prisioneiros não sonharão sequer com a fuga. Um sistema de escravatura onde, graças ao consumo e ao divertimento, os escravos terão amor à sua escravidão."
E ainda, na minha opinião, a afirmação casa muito bem com a lista que a seguir exponho, juntando-a às listas que aqui trouxe nos dois últimos apontamentos deste blogue, fazendo jus à máxima popular que diz não há duas sem três. Neste caso, portanto, três listas.
Quanto a esta, tão depressa quanto me seja possível, vou traduzi-la para português.
O seu autor chamou-lhe...


1. THE ILLUSION OF LAW, ORDER AND AUTHORITY
For so many of us, following the law is considered a moral obligation, and many of us gladly do so even the ough corruption, scandal, and wickedness repeatedly demonstrate that the law is plenty flexible for those who have the muscle to bend it. Police brutality and police criminality is rampant in the US, the courts favor the wealthy, and we can longer even lead our lives privately thanks to the intrusion of state surveillance. And all the while the illegal and immoral Orwellian permanent war rages on in the background of life, murdering and destroying whole nations and cultures.

The social order is not what it seems, for it is entirely predicated on conformity, obedience and acquiescence which are enforced by fear of violence. History teaches us again and again that the law is just as often as not used as an instrument of oppression, social control and plunder, and any so-called authority in this regard is false, hypocritical, and unjust.

When the law itself does not follow the law, there is no law, there is no order, and there is no justice. The pomp and trappings of authority are merely a concealment of the truth that the current world order is predicated on control, not consent.

2. THE ILLUSION OF PROSPERITY AND HAPPINESS
Adorning oneself in expensive clothes and trinkets, and amassing collections of material possessions that would be the envy of any 19th century monarch has become a substitute for genuine prosperity. Maintaining the illusion of prosperity, though, is critical to our economy as it is, because its foundation is built on consumption, fraud, credit and debt. The banking system itself has been engineered from the top down to create unlimited wealth for some while taxing the eternity out of the rest of us.

True prosperity is a vibrant environment and an abundance of health, happiness, love, and relationships. As more people come to perceive material goods as the form of self-identification in this culture, we slip farther and farther away from the experience of true prosperity.

3. THE ILLUSION OF CHOICE AND FREEDOM
Read between the lines and look at the fine print, we are not free, not by any intelligent standard. Freedom is about having choice, yet in today’s world, choice has come to mean a selection between available options, always from within the confines of a corrupt legal and taxation system and within the boundaries of culturally accepted and enforced norms.

Just look no further than the phony institution of modern democracy to find a shining example of false choices appearing real. Two entrenched, corrupt, archaic political parties are paraded as the pride and hope of the nation, yet third party and independent voices are intentionally blocked, ridiculed and plowed under.

The illusion of choice and freedom is a powerful oppressor because it fools us into accepting chains and short leashes as though they were the hallmarks of liberty.

Multiple choice is different than freedom, it is easy servitude.

4. THE ILLUSION OF TRUTH
Truth has become a touchy subject in our culture, and we’ve been programmed to believe that ‘the‘ truth comes from the demigods of media, celebrity, and government. If the TV declares something to be true, then we are heretics to believe otherwise.

In order to maintain order, the powers that be depend our acquiescence to their version of the truth. While independent thinkers and journalists continually blow holes in the official versions of reality, the illusion of truth is so very powerful that it takes a serious personal upheaval to shun the cognitive dissonance needed to function in a society that openly chases false realities.

5. THE ILLUSION OF TIME
They say that time is money, but this is a lie. Time is your life. Your life is an ever-evolving manifestation of the now. Looking beyond the five sense world, where we have been trained to move in accordance with the clock and the calendar, we find that the spirit is eternal, and that the each individual soul is part of this eternity.

The big deception here is the reinforcement of the idea that the present moment is of little to no value, that the past is something we cannot undo or ever forget, and that the future is intrinsically more important than both the past and the present. This carries our attention away from what it actually happening right now and directs it toward the future. Once completely focused on what is to come rather than what is, we are easy prey to advertisers and fear-pimps who muddy our vision of the future with every possible worry and concern imaginable.

We are happiest when life doesn’t box us in, when spontaneity and randomness gives us the chance to find out more about ourselves. Forfeiting the present moment in order to fantasize about the future is a trap. The immense, timeless moments of spiritual joy that are found in quiet meditation are proof that time is a construct of the mind of humankind, and not necessarily mandatory for the human experience.

If time is money, then life can be measured in dollars. When dollars are worth less, so is life. This is total deception, because life is, in truth, absolutely priceless.

6. THE ILLUSION OF SEPARATENESS
On a strategic level, the tactic of divide and conquer is standard operating procedure for authoritarians and invading armies, but the illusion of separateness runs even deeper than this.

We are programmed to believe that as individuals we are in competition with everyone and everything around us, including our neighbors and even mother nature. Us vs. them to the extreme. This flatly denies the truth that life on this planet is infinitely inter-connected. Without clean air, clean water, healthy soil, and a vibrant global sense of community we cannot survive here.

While the illusion of separateness comforts us by gratifying the ego and and offering a sense of control, in reality it only serves to enslave and isolate us.

CONCLUSION
The grand illusions mentioned here have been staged before us as a campaign to encourage blind acquiescence to the machinations of the matrix. In an attempt to dis-empower us, they demand our conformity and obedience, but we must not forget that all of this is merely an elaborate sales pitch. They can’t sell what we don’t care to buy.

quinta-feira, julho 16, 2015

Capitalismo, Imperialismo e a Loucura Cega das Teorias dos Jogos

À boleia do texto de Francisco Louça, publicado na edição do Público de hoje,
transcrevo para aqui a citação de Charles Péguy que serve de mote ao texto de Louçã, e junto-lhe outra citação de Péguy.
Curiosamente, ou absurdamente, ou significativamente, Péguy morreu nos campos de batalha da 1.ª Grande Guerra, precisamente despoletada, em última instância, pelo imperialismo alemão da altura.
Passaram 100 anos... A História repete-se?... O idealismo de Péguy é, de alguma forma, encarnado hoje por Tsipras ou Varoufakis?...

Em “L’ Argent” (1913), Péguy escreve:

“Conhecemos, tivemos contacto com um mundo (desde crianças), em que um homem condenado à pobreza estava pelo menos seguro na pobreza. Era uma espécie de contrato não-dito entre o homem e o destino e, antes do início dos tempos modernos, o destino nunca renegou este contrato. Estava entendido que os que se tivessem perdido na extravagância, no capricho, os que jogassem, os que quisessem escapar da pobreza, arriscavam tudo. Como jogavam, podiam perder. Mas os que não jogavam não podiam perder. Não poderiam suspeitar que viria um tempo, que já aí estava – e isto, precisamente, são os tempos modernos – em que os que não jogam perdem sempre, mesmo com mais certeza do que os que jogam.”
«Nous avons connu, nous avons touché un monde, (enfants nous en avons participé), où un homme qui se bornait dans la pauvreté était au moins garanti dans la pauvreté. C'était une sorte de contrat sourd entre l'homme et le sort, et à ce contrat le sort n'avait jamais manqué avant l'inauguration des temps modernes. Il était entendu que celui qui faisait de la fantaisie, de l'arbitraire, que celui qui introduisait un jeu, que celui qui voulait s'évader de la pauvreté risquait tout. Puisqu'il introduisait le jeu, il pouvait perdre. Mais celui qui ne jouait pas ne pouvait pas perdre. Ils ne pouvaient pas soupçonner qu'un temps venait, et qu'il était déjà là, et c'est précisément le temps moderne, où celui qui ne jouerait pas perdrait tout le temps, et encore plus sûrement que celui qui joue.»

Under Creative Commons License:Attribution Non-Commercial No Derivatives)

No mesmo texto, diz Péguy:
"Pela primeira vez na história do mundo, as forças espirituais foram reprimidas todas juntas não pelos poderes materiais, mas por um único poder material que é o poder do dinheiro . E para ser justo, deve-se mesmo dizer: Pela primeira vez na história do mundo todas as forças espirituais juntas, e no mesmo movimento; e todos as outras forças materiais juntas, e no mesmo movimento, que é o mesmo, foram reprimidas por uma única força material que é o poder do dinheiro. Pela primeira vez na história do mundo todas as forças espirituais juntas, e todas as outras forças materiais juntas, e num único movimento, e no mesmo movimento, foram afastadas da face da terra. E como uma imensa linha, essas forças foram afastadas em toda a linha. E pela primeira vez na história do mundo o dinheiro manda sem limites e sem medida. Pela primeira vez na história do mundo o dinheiro é o único face a face com o espírito."
«Pour la première fois dans l’’histoire du monde, les puissances spirituelles ont été toutes ensemble refoulées non point par les puissances matérielles mais par une seule puissance matérielle qui est la puissance de l’’argent. Et pour être juste, il faut même dire : Pour la première fois dans l’’histoire du monde toutes les puissances spirituelles ensemble et du même mouvement et toutes les autres puissances matérielles ensemble et d’un même mouvement qui est le même ont été refoulées par une seule puissance matérielle qui est la puissance de l’argent. Pour la première fois dans l’’histoire du monde toutes les puissances spirituelles ensemble et toutes les autres puissances matérielles ensemble et d’’un seul mouvement et d’’un même mouvement ont reculé sur la face de la terre. Et comme une immense ligne elles ont reculé sur toute la ligne. Et pour la première fois dans l’’histoire du monde l’’argent est maître sans limitation ni mesure. Pour la première fois dans l’’histoire du monde l’’argent est seul en face de l’’esprit.»

quarta-feira, julho 15, 2015

Depois da manipulação mediática, as falácias da argumentação lógica com que tentam dar-nos a volta...

Como diz o autor da página da Net onde fui buscar esta tradução: "Leia, entenda e não as use."
E eu acrescentarei: "E aprenda a não se deixar levar por elas!"

https://yourlogicalfallacyis.com/
(Clicar na imagem para aumentar)
1. Espantalho
Você desvirtuou um argumento para torná-lo mais fácil de atacar.
Ao exagerar, desvirtuar ou simplesmente inventar um argumento de alguém, fica bem mais fácil apresentar a sua posição como razoável ou válida. Este tipo de desonestidade não apenas prejudica o discurso racional, como também prejudica a própria posição de alguém que o usa, por colocar em questão a sua credibilidade – se você está disposto a desvirtuar negativamente o argumento do seu oponente, será que você também não desvirtuaria os seus positivamente?

Exemplo: Depois de Felipe dizer que o governo deveria investir mais em saúde e educação, Jader respondeu dizendo estar surpreso que Felipe odeie tanto o Brasil, a ponto de querer deixar o nosso país completamente indefeso, sem verba militar.

2. Causa Falsa
Você supôs que uma relação real ou percebida entre duas coisas significa que uma é a causa da outra.
Uma variação dessa falácia é a "cum hoc ergo propter hoc" (com isto, logo por causa disto), na qual alguém supõe que, pelo fato de duas coisas estarem acontecendo juntas, uma é a causa da outra. Este erro consiste em ignorar a possibilidade de que possa haver uma causa em comum para ambas, ou, como mostrado no exemplo abaixo, que as duas coisas em questão não tenham absolutamente nenhuma relação de causa, e a sua aparente conexão é só uma coincidência.
Outra variação comum é a falácia "post hoc ergo propter hoc" (depois disto, logo por causa disto), na qual uma relação causal é presumida porque uma coisa acontece antes de outra coisa, logo, a segunda coisa só pode ter sido causada pela primeira.

Exemplo: Apontando para um gráfico metido a besta, Rogério mostra como as temperaturas têm aumentado nos últimos séculos, ao mesmo tempo em que o número de piratas têm caído; sendo assim, obviamente, os piratas é que ajudavam a resfriar as águas, e o aquecimento global é uma farsa.

3. Apelo à emoção
Você tentou manipular uma resposta emocional no lugar de um argumento válido ou convincente.
Apelos à emoção são relacionados a medo, inveja, ódio, pena, orgulho, entre outros.
É importante dizer que às vezes um argumento logicamente coerente pode inspirar emoção, ou ter um aspecto emocional, mas o problema e a falácia acontecem quando a emoção é usada no lugar de um argumento lógico. Ou, para tornar menos claro o fato de que não existe nenhuma relação racional e convincente para justificar a posição de alguém.
Excepto os sociopatas, todos são afectados pela emoção, por isso apelos à emoção são uma tática de argumentação muito comum e eficiente. Mas eles são falhos e desonestos, com tendência a deixar o oponente de alguém justificadamente emocional.

Exemplo: Lucas não queria comer o seu prato de cérebro de ovelha com fígado picado, mas seu pai o lembrou de todas as crianças famintas de algum país de terceiro mundo que não tinham a sorte de ter qualquer tipo de comida.

4. A falácia da falácia
Supor que uma afirmação está necessariamente errada só porque ela não foi bem construída ou porque uma falácia foi cometida.
Há poucas coisas mais frustrantes do que ver alguém argumentar de maneira fraca alguma posição. Na maioria dos casos um debate é vencido pelo melhor debatedor, e não necessariamente pela pessoa com a posição mais correta. Se formos ser honestos e racionais, temos que ter em mente que só porque alguém cometeu um erro na sua defesa do argumento, isso não necessariamente significa que o argumento em si esteja errado.

Exemplo: Percebendo que Amanda cometeu uma falácia ao defender que devemos comer alimentos saudáveis porque eles são populares, Alice resolveu ignorar a posição de Amanda por completo e comer Whopper Duplo com Queijo no Burger King todos os dias.

5. Ladeira Escorregadia
Você faz parecer que o fato de permitirmos que aconteça A fará com que aconteça Z, e por isso não podemos permitir A.
O problema com essa linha de raciocínio é que ela evita que se lide com a questão real, jogando a atenção em hipóteses extremas. Como não se apresenta nenhuma prova de que tais hipóteses extremas realmente ocorrerão, esta falácia toma a forma de um apelo à emoção do medo.

Exemplo 1: Armando afirma que, se permitirmos casamentos entre pessoas do mesmo sexo, logo veremos pessoas se casando com seus pais, seus carros e seus macacos Bonobo de estimação.

Exemplo 2: a explicação feita após o terceiro subtítulo - "O voto divergente do ministro Ricardo Lewandowski e a ladeira escorregadia" - deste texto sobre aborto. Vale a leitura.

6. Ad hominem
Você ataca o carácter ou traços pessoais do seu oponente em vez de refutar o argumento dele.
Ataques ad hominem podem assumir a forma de golpes pessoais e directos contra alguém, ou mais subtilmente jogar dúvida no seu carácter ou atributos pessoais. O resultado desejado de um ataque ad hominem é prejudicar o oponente de alguém sem precisar de fato se engajar no argumento dele ou apresentar um próprio.

Exemplo: Depois de Salma apresentar de maneira eloquente e convincente uma possível reforma do sistema de cobrança do condomínio, Samuel pergunta aos presentes se eles deveriam mesmo acreditar em qualquer coisa dita por uma mulher que não é casada, já foi presa e, pra ser sincero, tem um cheiro meio estranho.

7. Tu quoque (você também)
Você evitar ter que se engajar em críticas virando as próprias críticas contra o acusador – você responde críticas com críticas.
Esta falácia, cuja tradução do latim é literalmente “você também”, é geralmente empregada como um mecanismo de defesa, por tirar a atenção do acusado ter que se defender e mudar o foco para o acusador.
A implicação é que, se o oponente de alguém também faz aquilo de que acusa o outro, ele é um hipócrita. Independente da veracidade da contra-acusação, o fato é que esta é efetivamente uma tática para evitar ter que reconhecer e responder a uma acusação contida em um argumento – ao devolver ao acusador, o acusado não precisa responder à acusação.

Exemplo 1: Nicole identificou que Ana cometeu uma falácia lógica, mas, em vez de rectificar o seu argumento, Ana acusou Nicole de ter cometido uma falácia anteriormente no debate.

Exemplo 2: O político Aníbal Zé das Couves foi acusado pelo seu oponente de ter desviado dinheiro público na construção de um hospital. Aníbal não responde a acusação directamente e devolve insinuando que seu oponente também já aprovou licitações irregulares em seu mandato.

8. Incredulidade pessoal
Você considera algo difícil de entender, ou não sabe como funciona, por isso você dá a entender que não seja verdade.
Assuntos complexos como evolução biológica através de seleção natural exigem alguma medida de entendimento sobre como elas funcionam antes que alguém possa entendê-los adequadamente; esta falácia é geralmente usada no lugar desse entendimento.

Exemplo: Henrique desenhou um peixe e um humano em um papel e, com desdém efusivo, perguntou a Ricardo se ele realmente pensava que nós somos babacas o bastante para acreditar que um peixe acabou evoluindo até a forma humana através de, sei lá, um monte de coisas aleatórias acontecendo com o passar dos tempos.

9. Alegação especial
Você altera as regras ou abre uma excepção quando sua afirmação é exposta como falsa.
Humanos são criaturas engraçadas, com uma aversão boba a estarem errados.
Em vez de aproveitar os benefícios de poder mudar de ideia graças a um novo entendimento, muitos inventarão modos de se agarrar a velhas crenças. Uma das maneiras mais comuns que as pessoas fazem isso é pós-racionalizar um motivo explicando o porque aquilo no qual elas acreditavam ser verdade deve continuar sendo verdade.
É geralmente bem fácil encontrar um motivo para acreditar em algo que nos favorece, e é necessária uma boa dose de integridade e honestidade genuína consigo mesmo para examinar nossas próprias crenças e motivações sem cair na armadilha da auto-justificação.

Exemplo: Eduardo afirma ser vidente, mas quando as suas “habilidades” foram testadas em condições científicas apropriadas, elas magicamente desapareceram. Ele explicou, então, que elas só funcionam para quem tem fé nelas.

10. Pergunta carregada
Você faz uma pergunta que tem uma afirmação embutida, de modo que ela não pode ser respondida sem uma certa admissão de culpa.
Falácias desse tipo são particularmente eficientes em descarrilar discussões racionais, graças à sua natureza inflamatória – o receptor da pergunta carregada é compelido a se justificar e pode parecer abalado ou na defensiva. Esta falácia não apenas é um apelo à emoção, mas também reformata a discussão de forma enganosa.

Exemplo: Graça e Helena estavam interessadas no mesmo homem. Um dia, enquanto ele estava sentado próximo suficiente a elas para ouvir, Graça pergunta em tom de acusação: “como anda a sua reabilitação das drogas, Helena?”

11. Ónus da prova
Você espera que outra pessoa prove que você está errado, em vez de você mesmo provar que está certo.
O ônus (obrigação) da prova está sempre com quem faz uma afirmação, nunca com quem refuta a afirmação. A impossibilidade, ou falta de intenção, de provar errada uma afirmação não a torna válida, nem dá a ela nenhuma credibilidade.
No entanto, é importante estabelecer que nunca podemos ter certeza de qualquer coisa, portanto devemos valorizar cada afirmação de acordo com as provas disponíveis. Tirar a importância de um argumento só porque ele apresenta um fato que não foi provado sem sombra de dúvidas também é um argumento falacioso.

Exemplo: Beltrano declara que uma chaleira está, nesse exacto momento, orbitando o Sol entre a Terra e Marte e que, como ninguém pode provar que ele está errado, a sua afirmação é verdadeira.

12. Ambiguidade
Você usa duplo sentido ou linguagem ambígua para apresentar a sua verdade de modo enganoso.
Políticos frequentemente são culpados de usar ambiguidade em seus discursos, para depois, se forem questionados, poderem dizer que não estavam tecnicamente mentindo. Isso é qualificado como uma falácia, pois é intrinsecamente enganoso.
Exemplo: Em um julgamento, o advogado concorda que o crime foi desumano. Logo, tenta convencer o júri de que o seu cliente não é humano por ter cometido tal crime, e não deve ser julgado como um humano normal.

13. Falácia do apostador
Você diz que “sequências” acontecem em fenómenos estatisticamente independentes, como rolagem de dados ou números que caem em uma roleta.
Esta falácia de aceitação comum é provavelmente o motivo da criação da grande e luminosa cidade no meio de um deserto americano chamada Las Vegas.
Apesar da probabilidade geral de uma grande sequência do resultado desejado ser realmente baixa, cada lance do dado é, em si mesmo, inteiramente independente do anterior. Apesar de haver uma chance baixíssima de um cara-ou-coroa dar cara 20 vezes seguidas, a chance de dar cara em cada uma das vezes é e sempre será de 50%, independente de todos os lances anteriores ou futuros.

Exemplo: Uma roleta deu número vermelho seis vezes em sequência, então Gregório teve quase certeza que o próximo número seria preto. Sofrendo uma forma econômica de seleção natural, ele logo foi separado de suas economias.

14. Ad populum
Você apela para a popularidade de um fato, no sentido de que muitas pessoas fazem/concordam com aquilo, como uma tentativa de validação dele.
A falha nesse argumento é que a popularidade de uma ideia não tem absolutamente nenhuma relação com a sua validade. Se houvesse, a Terra teria se feito plana por muitos séculos, pelo simples fato de que todos acreditavam que ela era assim.

Exemplo: Luciano, bêbado, apontou um dedo para Jão e perguntou como é que tantas pessoas acreditam em duendes se eles são só uma superstição antiga e boba. Jão, por sua vez, já havia tomado mais Guinness do que deveria e afirmou que já que tantas pessoas acreditam, a probabilidade de duendes de fato existirem é grande.

15. Apelo à autoridade
Você usa a sua posição como figura ou instituição de autoridade no lugar de um argumento válido. (A popular "carteirada".)
É importante mencionar que, no que diz respeito a esta falácia, as autoridades de cada campo podem muito bem ter argumentos válidos, e que não se deve desconsiderar a experiência e expertise do outro.
Para formar um argumento, no entanto, deve-se defender seus próprios méritos, ou seja, deve-se saber por que a pessoa em posição de autoridade tem aquela posição. No entanto, é claro, é perfeitamente possível que a opinião de uma pessoa ou instituição de autoridade esteja errada; assim sendo, a autoridade de que tal pessoa ou instituição goza não tem nenhuma relação intrínseca com a veracidade e validade das suas colocações.

Exemplo 1: Impossibilitado de defender a sua posição de que a teoria evolutiva "não é real", Roberto diz que ele conhece pessoalmente um cientista que também questiona a Evolução e cita uma de suas famosas falas.

Exemplo 2: Um professor de matemática se vê questionado de maneira insistente por um aluno especialmente chato. Lá pelas tantas, irritado após cometer um deslize em sua fala, o professor argumenta que tem mestrado pós-doutorado e isso é mais do que suficiente para o aluno confiar nele.

16. Composição/Divisão
Você implica que uma parte de algo deve ser aplicada a todas, ou outras, partes daquilo.
Muitas vezes, quando algo é verdadeiro em parte, isso também se aplica ao todo, mas é crucial saber se existe evidência de que este é mesmo o caso.
Já que observamos consistência nas coisas, o nosso pensamento pode se tornar enviesado de modo que presumimos consistência e padrões onde eles não existem.

Exemplo: Daniel era uma criança precoce com uma predilecção por pensamento lógico. Ele sabia que átomos são invisíveis, então logo concluiu que ele, por ser feito de átomos, também era invisível. Nunca foi vitorioso em uma partida de esconde-esconde.

17. Nenhum escocês de verdade...

Você faz o que pode ser chamado de apelo à pureza como forma de rejeitar críticas relevantes ou falhas no seu argumento.
Nesta forma de argumentação falha, a crença de alguém é tornada infalsificável porque, independente de quão convincente seja a evidência apresentada, a pessoa simplesmente move a situação de modo que a evidência supostamente não se aplique a um suposto "verdadeiro" exemplo. Esse tipo de pós-racionalização é um modo de evitar críticas válidas ao argumento de alguém.

Exemplo: Angus declara que escoceses não colocam açúcar no mingau, ao que Lachlan aponta que ele é um escocês e põe açúcar no mingau. Furioso, como um "escocês de verdade", Angus berra que nenhum escocês de verdade põe açúcar no seu mingau.


18. Genética
Você julga algo como bom ou ruim tendo por base a sua origem.
Esta falácia evita o argumento ao levar o foco às origens de algo ou alguém. É similar à falácia ad hominem no sentido de que ela usa percepções negativas já existentes para fazer com que o argumento de alguém pareça ruim, sem de fato dissecar a falta de mérito do argumento em si.

Exemplo: Acusado no Jornal Nacional de corrupção e aceitação de propina, o senador disse que devemos ter muito cuidado com o que ouvimos na mídia, já que todos sabemos como ela pode não ser confiável.

19. Preto-ou-branco
Você apresenta dois estados alternativos como sendo as únicas possibilidades, quando de fato existem outras.
Também conhecida como falso dilema, esta tática aparenta estar formando um argumento lógico, mas sob análise mais cuidadosa fica evidente que há mais possibilidades além das duas apresentadas.
O pensamento binário da falácia preto-ou-branco não leva em conta as múltiplas variáveis, condições e contextos em que existiriam mais do que as duas possibilidades apresentadas. Ele molda o argumento de forma enganosa e obscurece o debate racional e honesto.

Exemplo: Ao discursar sobre o seu plano para fundamentalmente prejudicar os direitos do cidadão, o Líder Supremo falou ao povo que ou eles estão do lado dos direitos do cidadão ou contra os direitos.

20. Tornando a questão supostamente óbvia
Você apresenta um argumento circular no qual a conclusão foi incluída na premissa.
Este argumento logicamente incoerente geralmente surge em situações onde as pessoas têm crenças bastante enraizadas, e por isso consideradas verdades absolutas em suas mentes. Racionalizações circulares são ruins principalmente porque não são muito boas.

Exemplo 1: A Palavra do Grande Zorbo é perfeita e infalível. Nós sabemos disso porque diz aqui no Grande e Infalível Livro das Melhores e Mais Infalíveis Coisas do Zorbo Que São Definitivamente Verdadeiras e Não Devem Nunca Serem Questionadas.

Exemplo 2: O plano estratégico de marketing é o melhor possível, foi assinado pelo Diretor Bam-bam-bam.

21. Apelo à natureza
Você argumenta que só porque algo é "natural", aquilo é válido, justificado, inevitável ou ideal.
Só porque algo é natural, não significa que é bom. Assassinato, por exemplo, é bem natural, e mesmo assim a maioria de nós concorda que não é lá uma coisa muito legal de você sair fazendo por aí. A sua "naturalidade" não constitui nenhum tipo de justificativa.

Exemplo: O curandeiro chegou ao vilarejo com a sua carroça cheia de remédios completamente naturais, incluindo garrafas de água pura muito especial. Ele disse que é natural as pessoas terem cuidado e desconfiarem de remédios "artificiais", como antibióticos.

22. Anedótica
Você usa uma experiência pessoal ou um exemplo isolado em vez de um argumento sólido ou prova convincente.
Geralmente é bem mais fácil para as pessoas simplesmente acreditarem no testemunho de alguém do que entender dados complexos e variações dentro de um continuum.
Medidas quantitativas científicas são quase sempre mais precisas do que percepções e experiências pessoais, mas a nossa inclinação é acreditar naquilo que nos é tangível, e/ou na palavra de alguém em quem confiamos, em vez de em uma realidade estatística mais "abstracta".

Exemplo: José disse que o seu avô fumava, tipo, 30 cigarros por dia e viveu até os 97 anos -- então não acredite nessas meta análises que você lê sobre estudos metodicamente correctos provando relações causais entre cigarros e expectativa de vida.

23. O atirador do Texas
Você escolhe muito bem um padrão ou grupo específico de dados que sirva para provar o seu argumento sem ser representativo do todo.
Esta falácia de "falsa causa" ganha seu nome partindo do exemplo de um atirador disparando aleatoriamente contra a parede de um galpão, e, na sequência, pintando um alvo ao redor da área com o maior número de buracos, fazendo parecer que ele tem óptima pontaria.
Grupos específicos de dados como esse aparecem naturalmente, e de maneira imprevisível, mas não necessariamente indicam que há uma relação causal.

Exemplo: Os fabricantes do bebida gaseificada Cocaçúcar apontam pesquisas que mostram que, dos cinco países onde a Cocaçúcar é mais vendida, três estão na lista dos dez países mais saudáveis do mundo, logo, Cocaçúcar é saudável.

24. Meio-termo
Você declara que uma posição central entre duas extremas deve ser a verdadeira.
Em muitos casos, a verdade realmente se encontra entre dois pontos extremos, mas isso pode enviesar nosso pensamento: às vezes uma coisa simplesmente não é verdadeira, e um meio termo dela também não é verdadeiro. O meio do caminho entre uma verdade e uma mentira continua sendo uma mentira.

Exemplo: Mariana disse que a vacinação causou autismo em algumas crianças, mas o seu estudado amigo Calebe disse que essa afirmação já foi derrubada como falsa, com provas. Uma amiga em comum, a Alice, ofereceu um meio-termo: talvez as vacinas causem um pouco de autismo, mas não muito.