quinta-feira, fevereiro 04, 2016

Mais uma acha para a fogueira dos trabalhos de casa

Vem este apontamento a propósito de um texto publicado na Internet em jeito de apontamento de blogue.
O título: Divulgação: Carta aberta ao dr. Eduardo Sá
A autora: Lúcia Teixeira

"Não posso sair. Tenho de ajudar o meu pai a fazer os meus trabalhos de casa."
Para lá dos "considerandos" e doas finalmentes", o texto versa os recorrentes temas educativos, ou escolares, dos trabalhos de casa e dos exames.
Agora vou trazer mais uma acha para a fogueira dos trabalhos de casa; depois, noutro apontamento, a acha dos exames. Ciente, evidentemente, de que a fogueira nunca deixará de arder.
Saúdo a Lúcia pela publicação do texto; e pela polémica que conseguir estimular.
A velha questão: sim ou não aos trabalhos de casa?
Esclareço que, enquanto professor, e como se diz no vulgar linguajar das coisas de escola, sou daqueles que passo trabalhos de casa aos alunos (de propósito, não digo se o faço sempre, regularmente, às vezes, ou poucas vezes).
Parece-me que, em geral, a questão não é formulada da forma mais conveniente; mas também não é, evidentemente, uma falsa questão.
Comecemos por aqui:
Qual é o pai ou mãe que não gosta de ver o seu filho, a sua filha, em casa, dedicando-se autonomamente, voluntariosamente, gostosamente, concentradamente, a estudar? Estudar autonomanente não pode ser interpretado (perversamente, ou psicanaliticamente, ou sanchopançamente) como uma maneira de auto-imposição de trabalhos de casa? Sejam os pais professores ou não; psicólogos ou não; outras coisas ou não...
Dito isto, parece-me que a discussão entre os adeptos dos trabalhos de casa e os adeptos dos não-trabalhos de casa é uma discussão ente adeptos da mesma visão dos assuntos da escola e da educação. Quer parecer-me que enformam os opostos adeptos da mesma visão do mundo, da escola e do lar.
Psicologicamente ou sociologicamente falando, é uma visão redutoramente estereotipada; filosoficamente, é uma visão estereotipada descarteana. É a visão do OU ou OU: ou casa, ou escola; ou escola, ou casa.
- Isto é mesmo complicado! Posso fazer um intervalo e ver um bocadinho de televisão?
- Vá lá, pai!... Ou queres ser o culpado das minhas más notas... como de costume...
Vamos lá a ver: será que acreditamos mesmo que para as crianças o aprender é para a escola, tipo emprego das 9 da manhã às 5 da tarde, e que o brincar e os mimos é para casa depois do emprego, perdão!, depois da escola? Será que no sentir e no pensar das crianças há mesmo essa descontinuidade mental, social, direi mesmo, civilizacional? Às 9 da manhã, eu, criança, esqueço os afectos da família; às 5 da tarde, eu, criança, aceno "adeus, escola, até amanhã!"
Estabelecer esta distinção, ou dicotomia, ou oposição, é esquecer - se não mesmo ignorar - a natureza do pensamento e das motivações naturais da criança. Os "especialistas" que esquecem ou ignoram são incompetentes, quer dizer, mas que especialistas da treta! Tanto Piaget que se estuda! Tanto Erikson que se estuda! Tanto Vygotsky que se estuda! Tantos outros autores que se estudam! Pelos vistos, para não serem adequadamente assimilados como Piaget nos mostrou há muito tempo que tem de ser a informação para se transformar em conhecimento e sabedoria.
Cuide-se a sério dos afectos, cuide-se a sério das naturais  e espontâneas motivações das crianças para aprender, que logo se verá que a questão dos trabalhos de casa deixa de ser um terreno de lutas desnecessárias, improdutivas... que estragam os afectos e as aprendizagens!
A sábia cultura popular há muito que nos avisa que o óptimo é inimigo do bom; e todos nós sabemos - até quem manda trabalhos para casa sabe isso - que trabalhos de casa a mais são desaconselháveis e ineficazes.
Resumindo e concluindo: não estou do lado dos que defendem que não deve haver trabalhos de casa, que os trabalhos de casa invadem o espaço das boas relações familiares. Vou continuar a passar trabalhos de casa, tentando ser sábio, ou ponderado; ou as duas coisas, a fazê-lo.
Lúcia, repito o que já disse noutro lado: gostei muito de ler o seu tão saudavelmente provocador, ou polémico, ou denunciador, ou "desabafador"texto! Beijinhos!

2 comentários:

Psikus disse...

Um texto que nos dá que pensar...
Seis horas semanais de TPC diminuem risco de más notas
[http://www.dn.pt/sociedade/interior/seis-horas-semanais-de-tpc-diminuem-risco-de-mas-notas-5025248.html]
(...) Os alunos que gastam seis horas por semana a fazer trabalhos de casa reduzem em 70% as hipóteses de obterem fracos resultados escolares, revela um estudo da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE). (...)

Psikus disse...

A sabedoria e o bom senso das crianças falam mais alto
O que pode estar mesmo em causa quando "oficialmente", em conselhos pedagógicos, se determina que não há trabalhos de casa. Mais outra lição dos miúdos.
A decisão de pôr fim aos célebres TPC foi adoptada pelo Conselho Pedagógico, que optou por aplicar esta medida a todos os ciclos de escolaridade e não apenas, numa fase experimental, ao 1.º ciclo, como proposto inicialmente pela direcção. Luís e Ana estão no 6.º ano e torcem o nariz a esta decisão. “Acho que deviam continuar a existir alguns trabalhos para casa”, defende o rapaz. “Os trabalhos para casa ajudam a estudar e a ver se percebemos ou não o que foi dado nas aulas”, corrobora a rapariga. Mas ambos afirmam que, mesmo sem TPC, continuam a estudar em casa.
https://www.publico.pt/sociedade/noticia/os-tpc-ja-passaram-a-historia-no-agrupamento-de-escolas-de-carcavelos-1722934