domingo, abril 22, 2012

Um dia na Terra

One Day on Earth
Fui hoje à estreia no Diário de Notícias.
Tem muito que se lhe diga, mas vale a pena ver. Recomendo.
Atendendo aos objetivos, a extensão do filme não ajuda os ritmos qoe, por exemplo, as escolas impõem. Mas a gente nas escolas se desenrascará!
Vá, vamos a ver!

sábado, abril 07, 2012

No Sábado de Aleluia, a Páscoa de Agostinho da Silva


Quando fui, há uma semana atrás, à Biblioteca Municipal da Horta requisitar o “In Memoriam” de Antero de Quental, a solícita funcionária porfiou a procurá-lo mas não o encontrou. Desejosa de me ajudar, trouxe-me o “In Memoriam” de Agostinho da Silva. “Obrigado, não é este que eu quero, mas tenho muito interesse em levá-lo.” Que engraçado! Logo quando tinha acabado de pôr a atenção nas atas do Encontro em São Jorge sobre Agostinho da Silva! E trouxe mesmo o livro para casa!
Hoje, finalmente, dei-lhe um pouco de séria atenção. Li as contribuições de Pedro Agostinho da Silva, Maria Gabriela Agostinho da Silva Rodrigues, seus filhos; do meu querido colega e amigo Inácio Fiadeiro; de António José Saraiva, autor que leio com olhos de filho-coruja, tudo o que ele escreve é, para mim, antecipadamente notável; e calhou – pura coincidência, abrir na página do testemunho de José Hermano Saraiva, irmão do meu “pai-corujado”, ou “mãe-corujada”.
Por atravessarmos a época cultural-religiosa que atravessamos – a celebração da Páscoa – chamou-me a atenção que o filho Pedro fizesse questão de associar a “partida” (como ele se refere ao falecimento de seu pai) de Agostinho da Silva ao Domingo de Páscoa, em 3 de abril de 1994. “(…) do Restelo de onde os Navegadores partiram, detendo-se no dia seguinte, brevemente, na Igreja de Santa Maria de Belém, Mosteiro dos Jerónimos.”
Confesso que não sei se as coisas se passaram assim por vontade expressa de Agostinho da Silva, ou se porque os vivos lhe quiseram dedicar, em presença, um derradeiro simbolismo.
Fico com curiosidade em saber um pouco melhor porque aconteceram assim as coisas na partida de Agostinho da Silva – aliás, preciso de saber muito mais de muitas mais coisas de Agostinho da Silva – já que, noutra contribuição do In Memoriam, a do jornalista António de Sousa, é feita aparentemente (o texto está escrito entre aspas) a seguinte citação do Professor Agostinho da Silva, que nos mostra uma certa maneira de estar do autor acerca dos Descobrimentos Portugueses (quer dizer, não são de franca ou orgulhosa glorificação): [o feito extraordinário das Descobertas] “Sim, prejudicaram Portugal porque passou a ser fácil enriquecer: Bastava ir pilhar. Toda a gente que não queria fazer nenhum esforço de trabalho, resolveu mudar de vida e lançar-se a essa aventura dos descobrimentos, essa empresa estatal dos descobrimentos, e isso levou aqueles que ficam em Portugal a viver daquilo que colhíamos lá fora, portanto a não tomar aqui nenhuma iniciativa”.
Quando calhei no depoimento de José Hermano Saraiva, lá estava a Páscoa outra vez! Num texto de 3 linhas, hiper-sóbrio, denunciando, no meu entender, o simples esforço de “cumprir um dever”, o mais conhecido divulgador da História de Portugal, anos a fio, na televisão portuguesa, insinua um mistério, um simbolismo religioso que, creio, Agostinho da Silva nunca encomendaria: “Se Agostinho da Silva pudesse comentar a sua morte, diria que esta ocorreu num Domingo de Páscoa, o dia da Ressurreição. Quando um pensador morre, a morte passa a ser ilusória. Ficam as sementes do pensamento.” Pergunto-me se noutro dia qualquer do ano não ficariam, do pensador, as sementes do pensamento. O misticismo – o dia da Ressurreição - que José Hermano Saraiva associa à morte do homenageado é o misticismo que o Professor Agostinho da Silva professava?...  Será que alguma vez Agostinho da Silva se tomou como um “eleito”, predestinado a alguma especial missão de condução dos homens, ressuscitando ao terceiro dia, como o Cristo celebrado há tantos séculos? E como “cola” este misticismo com o que cheguei a ver em alguns dos programas do Professor José Hermano Saraiva, em que me parecia ver uma pedagogia paciente para quebrar mitos e “ledos enganos” que distorcem a perceção, ou melhor, que alimentam uma certa perceção de nós próprios, os Portugueses, e da nossa História?a 

sexta-feira, abril 06, 2012

Eça sobre Antero: "Um Génio que era um Santo"

Estou no Faial. Tempo invernoso no mar. Em terra, olhos habituados procuram baleias... Nada, nem uma mesmo! Volto do Peter para casa - "Fico de prevenção, se aparecer baleia e forem ao mar, liguem-me, ponho-me logo aqui." Oportunidade criada, oportunidade aproveitada: sentei-me à mesa para ler o extraordinário texto de Eça de Queirós sobre o seu amigo Antero de Quental, açoriano de São Miguel. É verdade, que texto!...
Luís de Magalhães foi o pólo centralizador da contribuição de muitos amigos para o "In Memoriam" que tantos quiseram dedicar a Antero. Magalhães quase desespera com a demora de Eça na entrega do texto. Mas, quando o lemos, percebemos claramente as razões, a espera dos mentores e editores da obra valeu bem a pena!
Com o título "Um Génio que era um Santo", Eça realça em Antero a arte de saber escutar; e afirma em período de uma só oração, para lhe dar melhor destaque: "A grande obra de Anthero, na verdade, foi a sua conversação." Explicita que a arte de Antero não é "só d'escutar, mas de ajudar o pensamento dos outros a surgir dos embaraços da expressão pêrra, a lançar o seu pequenino brilho: - e assim muitos affirmavam que, conversando com Anthero, se sentiam inesperadamente mais inventivos, mais intelligentes... A intelligencia era a d'elle, que, como o generoso sol, feito d'oiro candente, tudo doira em redor."

terça-feira, abril 03, 2012

"Há nos confins da Ibéria um povo que nem se governa nem se deixa governar." lê-se na Casa Manuel de Arriaga, na Horta

Guardamos, enquanto povo(s), na(s) nossa(s) memória(s) coletiva(s), imagens e afirmações sobre nós próprios a que nos acomodamos narcisicamente ou com que nos flagelamos masoquisticamente. São balas que disparamos enquanto se ouvem os ecos de verdades acontecidas ou "verdades" inventadas, tantas vezes tornadas mitos; e tanto as verdades como as "verdades" moldam - porque a traduzem fielmente ou porque parecem aconchegá-la na perfeição - a nossa personalidade coletiva, se é que esta "entidade", porventura existe (pela minha parte, acredito que existe; acredito na existência dessa coisa a que, por exemplo, Talcott Parsons chamou personalidade de base).
Hoje, quando procurava absorver tudo o que a espantosa exposição que a Casa Manuel de Arriaga, na Horta, tem para mostrar aos seus visitantes, reencontrei, entre as coisas que a exposição revela, duas dessas tiradas, que guardei como testemunham as fotografias que aqui junto.
A primeira é, hoje em dia, como que um dos arquétipos que formam a identidade, a individualidade e a idiossincrasia dos portugueses enquanto povo. É um quase-arquétipo quer quer fazer-nos crer que estas coisas têm a ver com os genes, certamente, mas também com o chão que pisamos e que nos alimenta; e também com o Sol que nos ilumina e aquece; finalmente, tem ainda a ver com com os horizontes geográficos -  dum lado, a secura de Castela e, do outro, a lonjura do mar.
"Há nos confins da Ibéria um povo que nem se governa nem se deixa governar." afirmou (terá afirmado) Júlio César.
Se o tema dos arquétipos me atraiu por formação académica, a segunda afirmação atraiu-me a atenção pela minha própria identificação ao nome do seu autor e à escola a que me dedico na minha profissão de todos os dias: a escola Eça de Queirós. Diz ele na citação que alguém quis destacar na projeção de slides que, num dos cantos da Casa-Museu,  homenageia e consagra Manuel de Arriaga:
"Que fazer? Que esperar? Portugal tem atravessado crises igualmente más: - mas nelas nunca nos faltaram nem homens de valor e carácter, nem dinheiro ou crédito. Hoje crédito não temos, dinheiro também não - pelo menos o Estado não tem: - e homens não os há, ou os raros que há são postos na sombra pela política. De sorte que esta crise me parece a pior - e sem cura."

Entretanto, para quem tiver curiosidade, aconselho uma olhadela à morada virtual da casa-museu:


Agostinho da Silva, a cultura, a educação e... a matemática

Na edição do ano passado da Semana do Mar da Horta, na ilha do Faial, comprei um pequeno livrinho, editado pelo FaiAlentejo, em 2006. Trata-se da publicação das atas do III.º CICLO AGOSTINIANO AÇORES, dedicado ao tema da Cidadania e Ambiente no Pensamento de Agostinho da Silva.
Só agora encontrei ocasião de ler este pequeno livro, e parece-me oportuno, agora que se volta a falar em reforma curricular do ensino primário e secundário, destacar duas ou três coisas da comunicação de Mário Cabral, "A 'Cidade de Deus' em Santo Agostinho de Portugal:

  1. A forte defesa, por vezes ingénua, do "bom selvagem", em contraponto com o mundo contemporâneo ocidental, nunca atinge, porém, o ponto de cegar o autor no que respeita à esperança depositada na revolução tecnológica que, no seu entender, funcionará como uma espécie de redenção da queda em que se encontra a Humanidade, espécie de círculo que se fecha e rosto que se encontra depois de se ter perdido.
  2. [como nota de rodapé, para explicar o que é o "bom selvagem"] TP II, "Educação em Portugal", 89-151, 92: "Acreditando, pois, que o homem nasce bom, o que significa para mim que nasce irmão do mundo, não seu dono e destruidor [...]".
  3. "[...] o professor deve sempre aparecer ao seu discípulo como uma pessoa de cultura perfeita; por cultura perfeita entenderemos tudo o que pode contribuir para lhe dar uma base moral inabalável, sem subserviências nem compromissos".
  4. "É esta a minha noção de cultura: tornar melhor a vida das pessoas. Começar pela alimentação, pelo vestuário, pela saúde, pelo ensino".
  5. Não se poderá jamais falar de cultura enquanto houver opressores e oprimidos. Agostinho da Silva é deveras sensível à condição infantil, mais até do que à feminina, escandalizando-se com o modo como a escola perverte a natureza do "bom selvagem", orientando-o para aquilo que chama ser civilizado. Cf. TP II, "Educação de Portugal", 89-151, 108.
  6. TEF II, "Pensamento em Farmácia de Província", 310: "[...] já que matemática é apenas uma parte do pensar e talvez o sonhar lhe seja muito maior".
(aversão integral do texto pode ser encontrada aqui:  http://www.jornaldepoesia.jor.br/A%20CIDADE%20DE%20DEUS.pdf)

domingo, fevereiro 26, 2012

O Professor Daniel Sampaio, a aprendizagem construtiva dos alunos, as aulas e os professores.

Professor Daniel Sampaio,
Espero que não tenha dito exatamente assim a afirmação que lhe é atribuída pela jornalista Clara Soares no artigo "Um avô, dois netos, um livro", da edição n. 990 da Visão (p. 89): "É preciso ajudar os alunos a construir a aprendizagem e não pô-los sentados durante 90 minutos a ouvir o professor."
Tenho a opinião de o que os leitores precisam de pessoas, especialistas, consagradas na Comunicação Social, como é o caso do Professor Daniel Sampaio, é que o seu génio as ponha a dizer coisas bem para além, com muito mais valor, do que o que está contido naquela afirmação.
A dicotomia, radical, subjacente à forma "É preciso... e não...", convenhamos, é de utilidade e de eficácia muito duvidosas. Se, na verdade, queremos ajudar os alunos, os pais e os professores nessa coisa hipercomplexa e hiperdeterminada que é, hoje em dia, a gestão do direito de todos à educação, ao ensino e à aprendizagem; e se, de facto queremos dizer-lhes alguma coisa interessante e útil, que congregue a compreensão e o esforço de todos eles (já que os - eternos! - problemas com os decisores políticos são o que todos nós sabemos), tal dicotomia é - pelo menos, parece-me - absolutamente infrutífera, quiçá mesmo, pouco inteligente e contraproducente.
Concordará comigo que, no mínimo, a afirmação deveria ter sido formulada de maneira aberta e realmente viável, por exemplo, da seguinte maneira: "É preciso ajudar os alunos a construir a aprendizagem, para além de (ou, não basta) pô-los sentados durante 90 (ou 60... ou 45... ou 50... ou...) minutos a ouvir o professor."(1)
Professor Daniel Sampaio, é ou não é preciso pôr os alunos a ouvir os professores?... (2) Sim, concordo, está a ver, esta pergunta tem também o radicalismo que eu critico na sua.
É mesmo, as palavras às vezes são mesmo complicadas!... A gente tem mesmo de ter cuidado com as palavras que diz. Então no seu caso, que sabemos que muito gente o ouve e o lê. Não devemos bastar-nos a querer dizer coisas só porque produzem um determinado efeito, ou impacto, na comunicação social ou nos grupos alvo que temos em mente.
Entretanto, terei todo o prazer em conhecer as experiências pedagógicas que o senhor Professor conhece e que sustentam a afirmação, repito, que a jornalista lhe atribui.

(1) E isto é praticamente estar a dizer que os alunos que constroem a aprendizagem não o conseguem fazer nas aulas em que ouvem os professores, o que não é, de todo, verdade! Nem Piaget foi alguma vez tão radical, mesmo quando disse que "tudo o que se ensina à criança é um obstáculo à sua capacidade de descobrir e inventar!" Basta que não tomemos ensinar como sinónimo de ouvir, por exemplo.
(2) Tanto que o senhor Professor diz que os pais devem ouvir os filhos!... E o contrário, não?...

terça-feira, fevereiro 21, 2012

Tempo de Quaresma. Ainda o Chefe Jaime.

Hoje de manhã, pelas razões que deixo a descoberto no que a seguir vou escrever, vi-me na Igreja Paroquial dos Olivais a perguntar pelo meu antigo aluno Bruno, que presentemente é o senhor padre guardador dessa igreja.
Quando cheguei a casa e fui deixar um apontamento no Facebook, curiosamente, encontrei, no meu mural, uma mensagem do senhor padre Bruno Machado. A mensagem, pública, anunciava que tinham acabado de chegar da Terra Santa.
Deixei o seguinte comentário à mensagem do senhor padre, no espaço próprio para o fazer:
Saí há pouco da igreja paroquial dos Olivais. Na Horta, no Faial, um grande amigo meu recebia o adeus cristão na sua igreja de sempre. Impossibilitado de estar junto dos seus familiares e amigos, procurei a igreja que tanto tem, aqui, em Lisboa, a ver comigo e com esse amigo. A igreja estava fechada, mas um mistério daqueles que nos recolhem fraternalmente nos braços abriu-me as portas da igreja e pude juntar-me, no coração e no pensamento, àqueles de quem eu queria muito hoje estar junto. Perguntei por ti, meu querido aluno, perguntei por si, sr. Pe Bruno Miguel Machado. Disseram-me que estavam de volta da Terra Santa. Deixei-(te)lhe um abraço muito grato e fraterno. Peço-lhe agora, senhor padre, que repita os meus mais sinceros agradecimentos à senhora paroquiana que, plena de boa fé, me deu a bênção do bocadinho precioso de recolhimento de que tanto necessitei esta manhã!

Entretanto, aproveitei para trazer comigo um exemplar da edição do jornal Voz da Verdade (n.º 4019, de 19 de fevereiro de 2012). Gostei muito de ler o editorial! O seu autor é  D. Nuno Brás.
O conteúdo do texto tem a ver com o que tantas vezes falo nas aulas de Psicologia (Espero que o senhor padre Bruno Miguel Machado seja ainda capaz de o testemunhar...); e tem a ver com o modo de ser do meu grande e, a partir de agora, saudoso amigo Jaime Alexandre - o Chefe Jaime -, afinal, a razão de coração que me levou hoje à igreja paroquial dos Olivais.
Com a licença de quem o possa permitir, reproduzo aqui, na íntegra, esse texto, tão claro, tão cordialmente cristão, sobre o tempo da Quaresma:
Confesso que a Quaresma nem sempre foi para mim um tempo litúrgico simpático. Pelo contrário: foi muitas vezes suportado como o tempo de tomar consciência do pecado, da fraqueza de não o conseguir ultrapassar, de fazer parte de uma humanidade bem longe das glórias que se atribui a si mesma.
Hoje, acredito que o problema não se encontra, obviamente, na Quaresma, mas no modo de a viver. Para um egoísta empedernido, a Quaresma é, de facto, difícil de viver. Para aquele que olha para si, é difícil compreender o convite a dar mais tempo à oração (a dar mais tempo ao Outro que é Deus), à caridade que nos ensina a amar o outro nosso irmão não com o nosso amor mas com o amor de Deus, e ao jejum que nos obriga a privarmo-nos de tantos pequenos prazeres e nos convida a perceber que não somos o nosso fim último.
Mais que qualquer outro tempo litúrgico, a Quaresma convida-nos a dar atenção ao outro que se encontra ao nosso lado: precisamente, aquele outro de que nada sabemos de seguro, de quem, eventualmente e sem qualquer razão, imaginamos que sofra ou que se alegre, que tenha uma boa vida descansada e egoísta ou que, vergado pelo peso de uma história de dor, nem sequer consiga esboçar um sorriso.
A Quaresma convida-nos a ir para além daquilo que imaginamos, das segundas ou terceiras intenções que atribuímos a gestos, atitudes e palavras dos outros – tantas vezes criadoras de mal-estar – para ir ao encontro do outro real. A Quaresma convida-nos a conhecer a realidade do outro, como ele efectivamente é; o que ele na realidade pensa; aquilo de que, verdadeiramente, necessita. Convida-nos, afinal, a sairmos de nós, da nossa concha, do nosso mundo cheio de muros, de classificações, de preconceitos, de sonhos e imaginações, para termos a ousadia de nos expormos, como somos e com as nossas dificuldades, mas igualmente com tudo aquilo que Deus faz (ou pode fazer) em nós e através de nós.
Pouco importa a “simpatia” da Quaresma. O facto é que ela nos ajuda, em cada ano que passa, a crescer na fé, na esperança e na caridade. Sem os “exercícios quaresmais”, como o nosso coração seria bem mais duro e empedernido!


sábado, fevereiro 18, 2012

A sedução da Vida

Acho que é isto que constantemente me seduz:
  • o fascínio dos caminhos...
  • a dimensão dos obstáculos...
  • a agrestia da natureza, telúrica, humana...
  • a beleza do mundo...
  • o nascer do sol, todos os dias...
  • o desafio partilhado...
  • a vitória em equipa...

sábado, dezembro 31, 2011

Ainda a entrada em 2012 - A SIMPLICIDADE DA AMIZADE


Minha querida Sandra,
Está por fazer o estudo sociológico que mostre quantas vezes os desejos intensamente formulados à entrada de cada novo ano se transformaram em realizações concretas que mudaram ou marcaram a vida das pessoas no sentido antecipado nesses votos. Queres que eu te diga qual é a minha ideia? Nunca! É isso, nunca!
Por isso, e se tomasse para mim o sentir, muito cético, muito descrente, de um dos personagens escritores de Fernando Pessoa, eu diria que a passagem de ano não é nada mais do que um divertimento. Um divertimento que, tal qual como o Natal, está fortemente marcado por seduções para gastarmos dinheiro.
As diferenças com o Natal são basicamente duas: a primeira é que, enquanto no Natal somos levados a gastar dinheiro com os outros, na Passagem de Ano, gastamos o dinheiro connosco próprios. A outra diferença é que o Natal pede recolhimento em família e o Ano Novo pede expansão para a “molhada”.
Pela minha parte, sou um fervoroso defensor da festa do Natal. Sabes que mais, neste ano, o ano em que a “Crise”, a crise que económica (e política… e moral…) nos tocou como há muitos anos não acontecia – provavelmente, desde que me dou conta de estar vivo, a crise mais injusta de todas -, as prendas que pus nos sapatinhos dos meus familiares e amigos nunca custaram tão pouco dinheiro, coisa curiosa!, se há coisa que poderá perdurar por muitas gerações futuras da nossa família são precisamente essas prendas!
Quanto à festa de Ano Novo, é verdade, quando tinha a tua idade, e durante alguns anos depois, entusiasmei-me e aprumei-me para as festas de Passagem de Ano. E diverti-me muito com elas, claro!
Por isso, Sandra, te digo: diverte-te! Entusiasma-te com o momento de cair o Ano Velho e entrar triunfalmente o Ano Novo! Mas não ponhas na ilusão dos votos que agora formulas uma intensidade que depois se arrisque a trazer (não será mais correto dizer: renovar?) desapontamentos da mesma medida.
Se a algum de nós os dois cabe pegar no papel do Velho do Restelo, naturalmente é a mim, não a ti. Aqui estou, por isso, a cumprir-me.
Pela consideração e carinho que tu me mereces; pela ilusão genuína e sincera que é natural que tenhas da vida; e porque muito repeti a curta troca de palavras que o meu Mestre João dos Santos tantas vezes repetiu aos seus alunos, em que ele se interrogava se um projeto em que punha muita ambição não seria uma utopia, e a sua amiga Violante lhe respondeu: “Utopia?... Pois que seja, se é uma utopia, é precisamente por aí que é o caminho!...”; portanto, querida Sandra, por isto tudo, vou alinhar contigo e vou sinceramente formular dois votos para 2012.
O primeiro, vou deduzi-lo de um conto tradicional africano.
Diz assim o conto, que tem o título “A simplicidade da amizade”:
“Dois amigos viviam em duas aldeias distantes uma da outra. Uma noite veio uma grande tempestade e não havia luar. Mas um dos amigos levantou-se e sentiu vontade de ir visitar o outro. Pôs-se a caminho, embora tivesse medo que um raio lhe caísse em cima ou o fantasma da noite o viesse comer. Não parou enquanto não chegou junto da cabana do amigo. Estava todo molhado, como se tivesse caído a um rio, mas levou para a cabana lenha seca e enxuta. Entrou e acendeu uma fogueira. Depois começou a cozer arroz para oferecer ao amigo, que entretanto tinha acordado.
O amigo, ao vê-lo junto da fogueira, perguntou-lhe:
- Porque é que vieste de noite, com este temporal?
- Porque senti desejo de estar junto de ti. Será que o temporal te pediu licença para vir?"
Ora, o primeiro desejo que formulo para 2012 é precisamente este: que tenhamos – e sejamo-lo nós também – amigos que se cheguem a nós, mesmo durante a tempestade.
Quanto ao segundo desejo, faço-o a partir da notícia que ouvi hoje de manhã no telejornal. Já ontem à noite a tinha ouvido também. Faço votos que em 2012 nasçam mais bebés que em 2011, que foi, desde que há registos sistemáticos, um dos dois anos com mais baixo número de nascimentos.
Mil beijinhos, Sandra! Tenho a certeza de que nos encontraremos, não obstante as tempestades!
(Esta carta segue praticamente sem ser revista, eventualmente ainda a corrigirei num ou outro ponto, é preciso é que não perca oportunidade. Tenho de ir para a cozinha tratar de fazer uns miminhos para esta noite… é menos por ser a passagem de ano, é mais porque o meu sobrinho açoriano mais velho nasceu precisamente na noite de passagem de ano, ainda cheirava a fogo de artifício. Que renovação maior se pode querer quando se passa de um ano para o outro?)

A chegada do ano 2012

Em jeito de diálogo entre mim e a minha querida aluna Sandra Vozone, no Facebook, a escrever na água, no seu sentido quase mais literal.

SANDRA VOZONE:

Boas entradas minha gente! Espero que todos aqueles que estiverem aqui marcados entrem em 2012 com o pé direito e que ao longo do novo ano tenham tudo aquilo que desejam, até mesmo dinheiro que sei que vai ser difícil. Como não tenho tempo para agradecer um a um por fazerem parte da minha vida, agradeço em conjunto... OBRIGADA ao todos por me aturarem durante este ano nada fácil para mim. Obrigada aos amigos de longa data, obrigada ao novos amigos, obrigada também aos que deixaram de ser, todos contribuíram para o meu crescimento contínuo! Obrigada aos professores mencionados! Obrigada pelos sorrisos, pelos momentos, por tudo! :D ♥
Peço desculpa se falta alguém mas não tenho boa memória!


FERNANDO PINTO
Ôi, @Sandra Vozone! Que volta é que a gente há de dar a isto?... Provavelmente, com a mesma sinceridade que nos desejas tudo de bom para 2012, desejaste também para 2011... Os votos para o ano novo são - quantas vezes? - votos de ilusão. Quantas vezes são verdadeiramente votos de confiança? Ainda por cima, para azar nosso, a passagem de ano é puramente arbitrária, nem sequer está ligada a nenhum momento de renovação natural ou biológica. Por mim, alinharia numa festa de renovação de confiança numa data entre o Entrudo e a Páscoa. E nem estou a ser nada criativo com isso! Basta olhar para a história dos homens e dos seus rituais.
É por isso que, muito sinceramente, minha querida Sandra, aceita o que a seguir escrevo como uma contribuição pessoal ao voto que formulas. Acabei de receber um email que traz uma citação de um(a) autor(a), Stacia Tauscher [ainda não sei bem quem é este(a) autor(a)]r, que diz assim: "We worry about what a child will become tomorrow, yet we forget that he is someone today". No fundo, é como dizer: não nos comprometamos demasiadamente com as ilusões do futuro; isso sim, apreciemos e consolidemos as relações do presente. Assim, verdadeiramente, estaremos a construir o futuro.
Grande beijinho, Sandra, espero ver-te em breve. Estou a contar contigo para a minha Bolsa de Voluntários, que já está em marcha na nossa escola. ♥

SANDRA VOZONE

Professor Fernando Pinto, sempre tão sábio nas suas palavras. Não posso deixar de concordar com o que diz, claro, é tudo verdade mas eu sou (e não confesso com o maior orgulho) daquelas pessoas em que os votos de ilusão, como diz, lhe parece o melhor e mais sincero para dizer nestas alturas. Quanto à Bolsa de Voluntários, assim espero fazer parte desse seu projecto que deve ser muito enriquecedor a todos os níveis. ♥
Sempre tão perfeccionista professor! (:


FERNANDO PINTO
‎Sandra Vozone, quando criei o blogue que acompanhou a nossa viagem a Estrasburgo, o lema que juntei foi este: "Para ser grande, sê inteiro: nada / Teu exagera ou exclui. / Sê todo em cada coisa. / Põe quanto és / No mínimo que fazes. / Assim em cada lago a lua toda / Brilha, porque alta vive." (Odes de Ricardo Reis. Fernando Pessoa). Como poderia eu fazer de outro modo, sem correr o risco de tornar ocas as palavras que escrevo? Não sei se sou perfecionista; isso sim, tento acrescentar algo que valha a pena, mas certamente nem sempre o consigo.