domingo, novembro 06, 2011

O Homem Que Caminha


Sem a firmeza do teu andar, passo a passo, a fragilidade do teu ser voltará a ficar mais exposta.
É esta a alegoria que leio nesta obra de Alberto Giacometti.

Tinham de ser os bancos suíços a tirar partido partido da força da poderosa sucessão de imagens do Homem Que Caminha, solitariamente, fotografado em diferentes perspetivas! A isto eu chamo perversão! É esta perversão ligada ao dinheiro, ao poder e à ambição desmedida que trouxe as sociedades desenvolvidas ao estado a que chegaram e a que não conseguem dar a volta... para desgraça de todos, os da geração atual e das gerações que se seguirão.
Ícone da arte moderna, o Homem Que Caminha de Giacometti deverá manter-se como um desafio constante para cada um de nós. Eu penso assim.

domingo, outubro 30, 2011

É um simples jogo. Mas eles estão concentradíssimos.

De Moçambique, em jeito de mensagem de parabéns, recebi hoje este lindíssimo texto. Foi o João Figueiredo que mo mandou. Ele próprio é o autor do texto.
"São jovens. Não devem ter mais de vinte e poucos anos e são magros.
Têm cabelo curto e vestem roupas sujas. Estão sentados no chão e consigo observar os seus pés calejados.
À sua frente passam carros numa estrada de alcatrão cheia de buracos e com areia e vidros partidos amontoados junto à berma do passeio. Atrás deles, crianças semi-despidas brincam na pouca areia que existe numa praia com muito lixo.
Perto deles, ao alcance de um braço estendido, estão dois trapos com alguns artigos de madeira expostos. Rostos moçambicanos, porta-chaves, pulseiras, fios, anéis, carros, enfim… de tudo um pouco. Mas não há clientes.
Não sei se já conseguiram vender qualquer coisa hoje. Mas isso também não parece ser importante.
Estão concentrados noutra coisa. Estão frente a frente. Não querem saber dos brancos. Não estão preocupados se amanhã vai chover. Agora, tudo o que interessa é o jogo.
Sobre um pedaço de esferovite que já foi a tampa de uma caixa para transporte de peixe, consigo distinguir algumas linhas. É um xadrez improvisado.
O branco não é branco. É um branco sujo. Tão sujo, que quase parece castanho. É um branco gasto pelo tempo e colorido pela pobreza e falta de condições de vida.
O preto não é preto. É escuro. Talvez tenha sido pintado de preto. Mas já não é. É escuro.
Sobre o tabuleiro de esferovite há damas. Mas também não são damas. São tampas de garrafas de coca-cola. Então? Como é que estes vendedores, que agora são jogadores, conseguem perceber quais são as suas peças? É fácil! Umas estão voltadas para cima e as outras para baixo. É simples, não é?
É um simples jogo. Mas eles estão concentradíssimos. Nada parece ser mais importante. Nem mesmo os clientes. Para eles tudo o que interessa são as tampas de coca-cola. Tudo o que interessa é o jogo. Pelo menos, por agora.
E a crise? Onde é que está a crise?
Em todo o lado. A todo o momento. Mas aqui não se sente.
Desde que vá havendo tampas de garrafas de coca-cola haverá jogo…haverá vida."


segunda-feira, outubro 24, 2011

Falar claro, claro! Na escola e em todo o lado.

Que bom ouvir esta pequena palestra em português!
Muito interessante, muito clara, à atenção de professores, de alunos e da cidadania de todos nós!
Sandra, um grande abraço para o senhor Domingos!



Para chegar ao sítio na Internet da Sandra clicar aqui.

sábado, outubro 22, 2011

O habitante 7 mil milhões está a chegar

O mundo, com a aprovação oficial das Nações Unidas, prepara-se para receber o habitante sete mil milhões (7 000 000 000) do planeta Terra.
Às tantas, hei de estar eu a fazer saltar a rolha da garrafa de espumante para celebrar o meu aniversário e os meus vizinhos hão de pensar que estou a celebrar a chegada deste habitante tão especial. É que as Nações Unidas preveem que ele nasça ali bem pertinho do meu dia de anos: faço anos a 30 de Outubro e a previsão oficial é para 31.
Um contador sofisticado vem atualizando os números, segundo a segundo.
As Nações Unidas estão empenhadas em que muita gente, gente de todo o mundo, participe na celebração da chegada da nova unidade de milhar de milhões.
A razão não é para menos: o desafio é enorme, à escala mundial. Se cada nascimento de uma nova criança deve ser sempre motivo de celebração alegre e partilhada, as atuais condições políticas, ambientais e de consumo dos recursos disponíveis na Terra deixam-nos apreensivos quanto às possibilidades de vida, agora e já no futuro próximo, de tanta gente igual a nós nas alegrias, nos sofrimentos; nos direitos e nos deveres.
As Nações Unidas lançam-nos alertas e propostas.
Na Língua Portuguesa, parece que Cabo Verde vai à frente, será um exemplo para os outros países falantes da nossa Língua.
De que estamos à espera?...

sábado, outubro 08, 2011

A viagem a Ermua e o Professor Aníbal Pinto de Castro

Passa das 3 da tarde. Estou em trânsito, de Lisboa a Coimbra. Estou na Nazaré, no papel de chauffeur.
Acontece que, por momentos, sou chauffeur dispensado das suas obrigações. Quem me requisitou ao seu serviço está agora numa reunião de médicos.
Tentei tirar partido da liberdade que a dispensa me proporcionou: fui ao mercado tradicional da terra à procura dos velhos bolos de feira. Encontrei alguns, mas ao domingo -diz-me quase com pena de mim o senhor Joaquim, pegando numa pequenina broa e oferecendo-ma, como que para me consolar- é que há os que eu gostaria de mandar para a minha mãe. A minha "patroa" de hoje, a minha irmã, volta amanhã muito cedinho para o Faial, a horas que não nos permite tirar partido de amanhã ser precisamente domingo, o tal dia da semana que é o único que tem os bolos em forma de bonecas. Voltarei eu cá em breve, noutro domingo. Antes que chegue o Natal, para que a senhora idosa que está no Faial sinta que o Menino Jesus pensou mesmo nela.
Depois do mercado fui para a marginal, à procura de mesa para almoçar. Ainda era cedo, mas os sentidos traziam já os aromas tentadores dos peixes a grelhar. A esplanada a que me sentei praticamente obrigou-me a optar por uma salada de polvo; grelhados, ainda não, as brasas estavam atrasadas, que eu os desculpasse. O sentido do paladar reclamava sabores de maresia mais fresca; o estômago puxava avidamente para o excesso da gula. Preteri um e outro a favor do conforto pachorrento e resguardado do corpo; e a favor da vontade imperial da visão. Pronto, daquele lugar eu não me mudaria, que viesse a salada. O sentido da visão, portanto, esse, sim, empanturrou-se como pode. Seguramente escolhi a mesa com a panorâmica mais próxima, mais viva e mais completa do mar da Nazaré, ali em frente, e do Sítio, lá em cima, sobre o lado direito. Depois de quase cansar os sentidos a ver e a ouvir o mar, tirei algumas fotografias.
A seguir, já na praça da baixa nazarena, aproveitei a modernidade da pública rede wireless, peguei no pequeno computador portátil, e pus-me a deitar mais lenha na fogueira do Comenius que ainda arde intensamente, agora que está passada uma semana completa sobre a empresa escolar partilhada de Ermua, no País Basco.
Daqui a três horas estarei, já sem patroa, só com irmã, em Coimbra a lembrar, junto de outros, o falecimento de um dos mais importantes vultos dos estudos literários das universidades portuguesas: o professor Aníbal Pinto de Castro. Tive o privilégio de ser seu primo, amigo e confidente. Um dia ele, a tentar demover-me de fazer o meu doutoramento em Psicologia, perguntou-me porquê, se, afinal, havia tanta coisa verdadeiramente bonita e interessante para fazer nas escolas com os alunos; e que já havia muita gente com canudos grandes. Ri-me, sem me deixar convencer por ele. E disse-lho.
Tenho a certeza de que daqui a pouco, quando o ato religioso na igreja da Rainha Santa Isabel nos convidar ao recolhimento, eu vou falar ao meu primo Aníbal na viagem a Ermua, o que lá aconteceu, e sei que ele vai aprovar a minha participação nesta ação, que moveu um número razoável de alunos e professores de vários países da Europa.
Já agora, que acabo de escrever duas ou três palavras com uma grafia que até há pouco tempo era diferente, deixem-me dizer que o professor Aníbal Pinto de Castro, o seu ponto de vista sobre este assunto, foi determinante para que não adiasse hesitantemente ou contrariadamente a minha adesão ao acordo ortográfico que tanta polémica tem mantido. E se cuidadoso procuro ser no trato da língua que foi mãe dele e é também minha mãe (é a outra mãe que tenho, a da matriz cultural, não a biológica de que falei ainda há pouco), a alguns gigantes devo o exemplo de tal cuidado; ele, o meu primo Aníbal, é - foi-no sempre! -, seguramente, um dos mais poderosos de todos esses gigantes! Qual Colosso de Rodes, à beira do qual, desde muito pequeno, sempre me senti protegido, ele sempre fez projetar a luz que me levou, encantado e entusiasmado, para Alexandria, à procura de outras luzes.

P.S. 1 - Enquanto escrevia este apontamento, fui notificado por mensagem de telemóvel: a dispensa de chauffer termina às 16h30. A essa hora, viatura pronta para seguir viagem. A doutora terá terminado a sua reunião aqui neste hotel da Pederneira, sobranceiro ao mar e à povoação da Nazaré, pelo lado sul.
P.S. 2 (acrescentado hoje, dia 9 de outubro, em razão do acrescentamento da fotografia na sala da Confraria da Rainha Santa Isabel) - Agradeço muito vivamente, do fundo do coração, ao "Cajo", a gentileza (como diria o primo Aníbal, a pachorra de nos aturar!) de, no meio da azáfama profissional em que estava quase afundado, tirar a fotografia em que os dois irmãos puderam ficar juntos do primo de que guardam ternas, saudosas e exemplares lembranças.

quarta-feira, outubro 05, 2011

Dia Internacional do Professor, 2011

Na edição desta ano do Dia Internacional do Professor, proponho a leitura dos seguintes textos:

O primeiro é de um jovem do Canadá, de 15 anos de idade, lido no Dia Internacional do Professor, em 2002, nas Nações Unidas:
"What we need are good teachers who can get you to question yourself and what you know about the world, and who build communities in schools. Good teachers are what we need" (Nikki Sanchez-Hood, 15yrs, Canada)
(http://portal.unesco.org/education/en/ev.php-URL_ID=5217&URL_DO=DO_TOPIC&URL_SECTION=201.html)


O segundo tem a chancela do mestre Agostinho da Silva, que tive ainda a felicidade de conhecer pessoalmente e de o visitar em sua casa:
O Professor como Mestre
Não me basta o professor honesto e cumpridor dos seus deveres; a sua norma é burocrática e vejo-o como pouco mais fazendo do que exercer a sua profissão; estou pronto a conceder-lhe todas as qualidades, uma relativa inteligência e aquele saber que lhe assegura superioridade ante a classe; acho-o digno dos louvores oficiais e das atenções das pessoas mais sérias; creio mesmo que tal distinção foi expressamente criada para ele e seus pares. De resto, é sempre possível a comparação com tipos inferiores de humanidade; e ante eles o professor exemplar aparece cheio de mérito. Simplesmente, notaremos que o ser mestre não é de modo algum um emprego e que a sua actividade se não pode aferir pelos métodos correntes; ganhar a vida é no professor um acréscimo e não o alvo; e o que importa, no seu juízo final, não é a ideia que fazem dele os homens do tempo; o que verdadeiramente há-de pesar na balança é a pedra que lançou para os alicerces do futuro.
A sua contribuição terá sido mínima se o não moveu a tomar o caminho de mestre um imenso amor da humanidade e a clara inteligência dos destinos a que o espírito o chama; errou o que se fez professor e desconfia dos homens, se defende deles, evita ir ao seu encontro de coração aberto, paga falta com falta e se mantém na moral da luta; esse jamais tornará melhores os seus alunos; poderão ser excelentes as palavras que profere; mas o moço que o escuta vai rindo por dentro porque só o exemplo o abala. Outros há que fazem da marcha do homem sobre a Terra uma estranha concepção; vêem-no girando perpetuamente nos batidos caminhos; e, julgando o mundo por si, não descobrem em volta mais que uma eterna condenação à maldade, à cegueira e à miséria; bem no fundo da alma nenhuma luz que os alumie e solicite; porque não acreditam em progresso nenhuma vontade de melhorar; são os que troçam daquilo a que chamam «a pedagogia moderna»; são os que se riem de certos loucos que pensam o contrário.
Ora o mestre não se fez para rir; é de facto um mestre aquele de que os outros se riem, aquele de que troçam todos os prudentes e todos os bem estabelecidos; pertence-lhe ser extravagante, defender os ideais absurdos, acreditar num futuro de generosidade e de justiça, despojar-se ele próprio de comodidades e de bens, viver incerta vida, ser junto dos irmãos homens e da irmã Natureza inteligência e piedade; a ninguém terá rancor, saberá compreender todas as cóleras e todos os desprezos, pagará o mal com o bem, num esforço obstinado para que o ódio desapareça do mundo; não verá no aluno um inimigo natural, mas o mais belo dom que lhe poderiam conceder; perante ele e os outros nenhum desejo de domínio; o mestre é o homem que não manda; aconselha e canaliza, apazigua e abranda; não é a palavra que incendeia, é a palavra que faz renascer o canto alegre do pastor depois da tempestade; não o interessa vencer, nem ficar em boa posição; tornar alguém melhor — eis todo o seu programa; para si mesmo, a dádiva contínua, a humildade e o amor do próximo. (Agostinho da Silva, in 'Considerações')

A terceira proposta de leitura vem do meu grande mestre e amigo João dos Santos:
[Renúncia ao educador perfeito]
A minha formação como homem e a minha carreira como profissional, devo-a tanto às interferências positivas dos meus educadores e mestres, como, sobretudo, aos erros educativos que eles cometeram para comigo. Aprendi por intuição e experiência na vida que as atitudes erradas são tão válidas em educação como as atitudes corretas. O educador em que me tornei renunciou há muito à crença mágica do educador perfeito, como o profissional que sou renunciou a esconder a ignorância com a erudição. Aprecio, portanto, os homens mais por aquilo que são (para o meu sentir) do que por aquilo que dizem.
Texto não revisto pelo autor(João dos Santos, in "Ensinaram-me a ler o mundo à minha volta", Assírio € Alvim, p. 306)



domingo, setembro 18, 2011

Ano novo, vida nova. Outra vez, na escola.

"Ano novo, vida nova"
Se eu disser aos meus citadinos alunos que nos pomos a jeito de caminhos difíceis se quisermos sol na eira e chuva no nabal, estou em crer que muitos deles não entenderão imediatamente a expressão popular.
Mas a expressão sobre o ano novo e a vida nova certamente todos os alunos de todos os professores, citadinos ou não, entenderão. Por exemplo, se olharmos uma das mais recentes formas de comunicação inventada algures no mundo, o Facebook, na Internet, os murais dos utilizadores jovens estão, precisamente hoje e nos últimos dias, cheios de mensagens de entusiasmo pela chegada do novo ano escolar, do regresso à escola, do regresso às aulas, da confirmação da entrada no curso superior almejado, etc. Mesmo que se tenha imediatamente consciência de que nem tudo será fácil, pelo contrário: as dificuldades dos alunos, as dificuldades nas escolas não param de crescer!
Os alunos a quem já apresentei, na primeira aula do curso de Psicologia deste novo ano letivo, a Psicologia, tal como ela acontece na nossa vida do dia a dia, entenderão a razão porque escolhi o poema de Eugénio de Andrade sobre as amoras para corporizar uma pequena mensagem de saudação para eles, desejando-lhes um bom ano de trabalho escolar e que, no final, lá para junho de 2012, lhe traga os sucessos que eles agora sonham vir a ter.

As amoras
O meu país sabe a amoras bravas no verão.
Ninguém ignora que não é grande,
nem inteligente, nem elegante o meu país,
mas tem esta voz doce
de quem acorda cedo para cantar nas silvas.
Raramente falei do meu país, talvez nem goste dele,
mas quando um amigo me traz amoras bravas
os seus muros parecem-me brancos,
reparo que também no meu país o céu é azul.

Eugénio de Andrade, O outro nome da Terra


Os meus alunos deste ano já sabem que as minhas amoras não são bravias, das silvas dos muros, as minhas, por uma bênção maravilhosa que me calhou, um dia, em sorte, são de uma amoreira que foi mágica e que, mesmo que já desaparecida, vai, muito em breve, poder renovar-se na oportunidade de trazer mais bênçãos e magia. Os protagonistas da história de há 30 anos assim se comprometeram e contam já com o companheirismo e a solidariedade de quem os conhece e lhes tem amizade.
O poema de Eugénio de Andrade denuncia sentimentos e ideias de descrença e de apoucamento, mas não deixa de alertar para que todos nós percebamos que, mesmo sem querer, as coisas que nos acontecem na vida têm o condão de poderem transformar-se no sentido do que dá alegria, dá prazer, e nos realiza a todos como pessoas.
É esse testemunho pessoal  que agora quero deixar aqui, quase em jeito de carta aberta, aos novos alunos da minha nova vida, que acaba de começar.
Queridos alunos, força no vosso entusiasmo! Força, agora que estamos a lançar a semente à terra! Que o tempo das colheitas, lá para quando o calor do próximo verão voltar, confirme a sabedoria que fomos capazes de manter durante o tempo do amadurecimento do que agora estamos a plantar. É preciso saber esperar, não é?... Também já falámos que o tempo de amadurecimento do fruto não é um tempo de descanso para o plantador, é precisamente na entrega pessoal ao tempo de amadurecimento do fruto que se joga a essência da sabedoria do plantador, quer dizer, do aluno.
Contem comigo ao vosso lado, sobretudo nos tempos em que os muros não forem brancos e o céu não vos mostre a cor azul. Vá, arrisquem a acreditar!...


quinta-feira, setembro 01, 2011

As insinuações vagas do discurso do senhor ministro da Educação

Assim que o ministro da Educação, o dr. Nuno Crato, tomou posse, aqui neste blogue dei pública conta da minha disponibilidade para alinhar com ele na (r)evolução do ensino.
Por isso, depois, já disse isto e aquilo. Não é verdade que da discussão nasce a luz?
E o que me apetece dizer agora?... Apetece-me dizer que depois que publicou o seu "Eduquês" (que li com muito interesse, até mesmo com algum entusiasmo), o senhor ministro da Educação parece que fixou fixado nalguns fantasmas mentais, que o perseguem em todo o lado. Não sei se ele tem pessoas concretas na cabeça, fantasmas, isso tem, seguramente, que parecem vir duma coisa vaga, que são as suas Ciências da Educação. O discurso público do senhor ministro começa a a encher-se de afirmações que, no meu entender, veem eivadas de alusões perigosas, enganadoras e - como gostariam de dizer muitos dos nossos políticos - sem substância.
É verdade, começo a pasmar que tenhamos chegado aos tempos a que chegámos para ouvir o ministro da Educação de Portugal a dizer que a escola não é para passar de ano, a escola é para aprender!... Como dá esta bota com esta perdigota? A escola não foi sempre para aprender? Aprender não se certifica com as passagens de ano? Vamos "oficializar" a desconfiança sobre a aprendizagem dos alunos, quanto mais passarem de ano, maior deverá ser a desconfiança?
O senhor ministro da Educação vai (31 de agosto de 2011) à universidade de verão do PSD e diz, no meio de risos irónicos, que  está bem, isso de desenvolver o espírito crítico é importante e, logo a seguir, praticamente põe isso como sinónimo de "passar de ano sem saber".
Depois diz que estudar é importante para ganhar mais dinheiro. Penso que já oiço isso desde que minimamente me conheço como pessoa, há 50 anos. As transformações sociais, culturais e civilizacionais, das últimas dezenas de anos, em todo o mundo, foram capazes de parir essa ideia?... Só isso?... Ou mesmo que não seja só isso, é isso o mais importante?... Numa época em que o mundo agonia como agonia precisamente por causa daqueles que querem ganhar dinheiro, muito dinheiro?
Dr. Nuno Crato, tem todo o direito de pensar o que quiser sobre quaisquer teorias que queiram largar postas de pescada sobre como deve ser a educação nas escolas. Como ministro da educação, para além desse direito, tem, como mais ninguém no País, a responsabilidade de tomar decisões sobre a maneira de fazer a educação das crianças e dos jovens desse mesmo País.
Em pequeno, quantas vezes na escola e fora da escola me falaram do velho "ler, escrever e contar" de Salazar. Era isso que bastaria na "sagrada oficina das almas" que formava "os bons meninos".
Deixo-lhe uma pergunta, senhor ministro Nuno Crato:
Na sua ideia (ideia de ministro, claro!), como pensa que se compatibilizam a necessidade de preparar os jovens para um mundo de trabalho em que a mudança é a constante; a tão apregoa capacidade de empreendedorismo; a menorização que o senhor faz do desenvolvimento do espírito crítico; e a bandeira que agita, cheio de alma, em que o senhor diz, muito vagamente, que a escola é para aprender; no fundo, aprender o quê?...

sábado, agosto 27, 2011

No Kilimanjaro, há 4 anos, atingi, muito provavelmente, o zénite da minha vida

Por uma miríade de razões, pessoais e familiares, presentes, passadas e futuras, no dia 27 de Agosto de 2007 atingi, no topo do Kilimanjaro, no Uhuru Peak (o Pico da Liberdade), o zénite da minha vida.
De certa maneira, cheguei ao ponto intermédio entre a juventude e a velhice de que fala o poeta de língua swahili, Shaaban Robert, no seguinte poema, que traduzi livremente. Para já, uma diferença me separa dos sentimentos do poeta: não sinto, nem de perto nem de longe, que a vida me tenha deixado preso na dimensão miserável da vida. Por isso, escreveria assim o penúltimo verso do poema:
esta vida pode bem ser uma coisa linda, mesmo que não consigas isto, podes conseguir aquilo.
Mas se me puser na pele da generalidade dos tanzanianos que conheci, e do nível de vida que lhes calhou em sorte, compreendo perfeitamente que o poeta assim sinta. Por isso mais valorizo a maneira extraordinariamente afável como todos me trataram, em que a alegria e a cordialidade parecem condição genética dominante partilhada por todos.


Uzee
Ujamu kitu kitamu tena ni azizi sana
Maungoni mwangu humu nilikuwa nao jana
Kwa wingi katika damu tahamaki leo sina
Nasikitika hadumu rafiki yangu ujana.


Kichwa kimejaa mvi kinywani meno hamna.
Nikenda kama mlevi miguu nguvu haina,
Kumbe ujana ni hivi ukenda hauji tena.
Nasikitika hadumu rafiki yangu ujana.


Jua langu limekuchwa na nyota niliziona.
Ukinitazama kichwa nywele nyeusi hakina,
Kama zilizofikchwa zikang'olewa mashina.
Nasikitika hadumu rafiki yangu ujana.


Natatizika kauli midomo najitafuna.
Nimekusanya adili walakini hali sina,
Dunia kitu bahili hiki una kile huna.
Nasikitika rafiki yangu ujana.


OLD AGE
Youth is a sweet thing, and it is so dear to us, here in my limbs
I too had it only yesterday, with plenty of blood, though today
no longer. Alas, it does not last, my good friend youth!

My hair is all grey, in my mouth there are no longer teeth,
I walk like a drunkard, my legs have no longer strength,
Now I see it, youth is like that, it goes and does not come back.
Alas, it does not last, my good friend youth!

My sun has set, and I can see the stars, when you look at
my head, you see no black hairs, as if they had been
wiped away, or pulled out roots and all
Alas, it does not last, my good friend youth!

I get confused in my words, I keep chewing on them,
I have collected wisdom, but my health is no good,
this life is a miserly thing, you get this but you don't get that.
Alas, it does not last, my good friend youth!

VELHICE
A juventude é uma coisa doce, tão querida para nós, senti-la nos membros
Eu também a tive em tempos, bem abundante de sangue, mas hoje
não a tenho mais. Infelizmente, não dura sempre, a boa e amiga juventude!

O meu cabelo tornou-se todo cinza, na minha boca não há já dentes,
Ando como um bêbado, as minhas pernas já não se aguentam firmes,
Agora vejo como as coisas são, a juventude é assim, vai e não volta.
Infelizmente, não dura sempre, a boa e amiga juventude!

O meu Sol se pôs, posso ver as estrelas, quando olhas para
a minha cabeça, não descobres cabelos negros, como se tivessem sido
eliminados, ou arrancados, com raiz e tudo.
Infelizmente, não dura sempre, a boa e amiga juventude!

Confundo-me com as palavras, mastigo-as continuamente,
Colecionei sabedoria, mas a minha saúde não é boa,
esta vida é uma coisa miserável, consegues isto, mas não consegues aquilo.
Infelizmente, não dura sempre, a boa e amiga juventude!

domingo, agosto 21, 2011

"Aula" aberta ao Pedro Luís Fonseca Matos


«Negros, asiáticos, brancos, somos todos parte da mesma comunidade. Por que temos de nos matar uns aos outros? Se querem perder o vosso filho, força. Senão, acalmem-se e vão para casa»

sol.sapo.pt
No meio dos distúrbios de Birmingham um homem apressa-se a socorrer as vítimas de um atropelamento, para descobrir que uma das três pessoas atropeladas é nada mais nada menos que o seu próprio filho.

13/8 às 9:54 · Privacidade: ·  ·  · 

    • Pedro Luis Fonseca Matos atençao sr professor desde os tempos das cavernas k os homens se matam uns aos outros está na genetica nada se pode fazer contra isso
      14/8 às 8:49 · 

    • Fernando Pinto 
      ‎Pedro Luis Fonseca Matos, meu caro Pedro, felizmente, pode-se dizer, a própria genética contém dentro de si os mecanismos e os processos que conduzem ao melhoramento das espécies. Mas passando ao lado da questão da genética da agressividade: achas que este homem contrariou a genética?... Outra pergunta, mais direta: achas que ele não devia ter dito o que disse? Deve, a sua reação, ser para nós exemplo de alguma coisa? Um abraço, Pedro! ♥

      14/8 às 9:19 · 

Tantas aulas que os professores dão, tantas aulas que ficam por dar!
Às vezes pergunto-me se são mais as aulas que dou, ou as que imagino dar. Adiante. Se vou por aqui, se vou por este fio de conversa, corro o risco de ter o personagem do Ricardo Araújo Pereira a dizer-me acutilantemente: “Ele fala, fala, fala, mas não diz nada!...”
Ora vamos lá então a ver se digo qualquer coisa de jeito, no fundo, pensando que adoraria abordar este assunto, exatamente a partir da forma como surgiu no Facebook, numa das minhas aulas de Psicologia. Numa sala de aula, a gente tem mais tempo, podemos juntar mais esta ou aquele cereja à conversa, à explicação.
Vamos a isto!
É verdade, Pedro, desde o tempo das cavernas que os homens se matam uns aos outros.
É verdade, Pedro, isso está na genética.
Não é verdade, Pedro, que não se pode fazer nada contra isso. Não quero deixar de te dizer isto porque as coisas em que acreditamos, como eu costumo dizer nas aulas (nem é porque simplesmente o queira dizer, é porque o programa de Psicologia me obriga a dizer isso; e ainda bem que me obriga a fazê-lo, a mim e aos outros professores da disciplina),  influenciam a formação das nossas atitudes e das nossas opiniões; e aquelas e estas determinam os nossos comportamentos. Portanto, se a gente acredita que "não há nada a fazer", tem tendência a formar opiniões e a tomar decisões num sentido. Se, pelo contrário, a gente acredita  que "pode-se fazer alguma coisa", forma outras opiniões e toma outras decisões.
É verdade, Pedro, é legítimo acreditares na origem genética da agressividade humana (a que mata), os estudos sobre o desenvolvimento do cérebro humano mostram que a organização do nosso cérebro põe na base da sua própria evolução, nos primeiros grupos de células nervosas que o compõem, a força da agressividade. Corresponde à era, na história do desenvolvimento da espécie humana, da lei do mais forte. Quem é mais forte, manda; quem manda, mata se e quando quiser. E pode-se acrescentar, mata friamente.
Isto que acabo de te dizer, Pedro, tem a ver com uma teoria que começou por ser "apenas" muito sedutora no estudo da evolução do cérebro e dos comportamentos dos animais, especialmente do Homem, e que agora, para além da sedução, vem acumulando evidência científica. É a teoria do cérebro triuno de Paul MacLean. Hoje em dia é fácil encontrar na Internet sítios de divulgação desta teoria, que não é muito complicada. É a teoria do cérebro triuno que vai continuar a inspirar o que a seguir vou escrever; e que daqui a pouco associarei a um dos meus autores de eleição, como a generalidade dos meus alunos sabem, o austríaco pai da Etologia, Konrad Lorenz.
Continuando, a evolução do nosso cérebro é marcada pelo surgimento de uma segunda camada de massa cerebral (repara, Pedro, vem pôr-se por cima, digamos, do cérebro "original", mas não o elimina ou modifica), camada essa que traz a novidade da experiência afetiva e emocional que ajuda à regulação dos comportamentos. Esta nova camada, partilhamo-la essencialmente com os outros mamíferos. Uma das novidades da experiência emocional é a preocupação com o Outro, não apenas o Outro que é igual a mim, mas também o que é diferente (as outras espécies, sejam elas mais humanas, sejam elas mais animais). Ora bem, um dos efeitos do advento da experiência afetiva e emocional acontece precisamente sobre a fria força agressiva, competindo com ela e inibindo-a; regulando-a.
Como vês, Pedro, o próprio organismo humano, a própria evolução da nossa espécie, faz surgir dentro de si, diretamente a partir da sua condição biológica, a reação ao determinismo da agressividade, quer dizer, o organismo, ele próprio, encarrega-se de “fazer qualquer coisa contra isso”, sendo isso “os homens matarem-se uns aos outros”, inteiramente presos da condição genética de que falas.
Konrad Lorenz, partindo de uma outra perspetiva do estudo do comportamento humano, diz que, no fundo, as civilizações são as tentativas de resposta e reação dos grupos humanos ao determinismo da agressividade e do predomínio da lei do mais forte. Para isso, progressivamente, os grupos humanos organizaram rituais sociais e culturais que regulam as relações dos indivíduos nos grupos. Quando nós falamos nos rituais de passagem da adolescência, ora aí estão alguns exemplos daquilo que Konrad Lorenz fala. Não vou avançar por aqui (numa sala de aula certamente o faria, mas aqui, na Net, para já, tornaria a leitura deste texto fastidiosa), vou apenas dizer que, nos últimos anos da sua vida - Lorenz morreu em 1989 -, ele observava com telúrica tristeza o desmoronamento, o desaparecimento destes rituais, com o progressivo e imperial predomínio, nas sociedades humanas, dos valores economicistas e das motivações consumistas, cada vez mais egoístas e individualizadas.
Mas falta ainda uma camada no cérebro de MacLean. É a camada que corresponde, fisiologicamente, em linhas gerais, ao córtex cerebral, que é o “véu” que cobre todo o cérebro. Nesta última camada veio instalar-se a inteligência, a capacidade de pensar e de discernir; o sentido estético; e a sabedoria.
É o conjunto destas capacidades que nos permite, por exemplo, depois de termos visto esta madrugada a equipa de futebol portuguesa perder com a seleção do Brasil, na final do campeonato mundial de sub-20, dizermos: “Parabéns ao Brasil!”, quando estamos cheios de pena (cérebro emocional, a segunda camada de cérebro) de não termos visto os nossos jogadores ganharem o jogo; ou quando estamos cheios de raiva (cérebro agressivo, a primeira camada de cérebro) por aqueles “fedelhos” da equipa adversária terem vencido os nossos jogadores, os jogadores da nossa equipa.
Ao lado da tristeza (e / ou da raiva) de não vermos a equipa portuguesa ganhar a final de futebol, temos qualquer coisa que nos diz se o jogo foi bom ou não; que nos diz se o resultado é justo ou não; que nos diz se o jogo foi bonito ou não. Tudo isto são apreciações e julgamentos produzidos a partir da nossa última camada de cérebro.
Konrad Lorenz dizia: “Aparentemente, tanto a beleza do mundo cultural como a beleza do mundo natural são essenciais para manter o Homem espiritualmente são”. Quer dizer, a espécie humana tem "critérios de satisfação" que não são apenas de vencer ou ser vencido, de dominar ou não dominar o Outro.
Já agora, não te esqueças, Pedro: no fundo o jogo de futebol é exemplo de uma organização ritual de comportamentos humanos onde, com a presença de um árbitro, grupos “rivais” lutam, competem por uma coisa de que uns se aproprim à custa dos outros (a vitória, os pontos), mas sempre procurando regular a agressividade! É o tal “fair play”, entre os jogadores e os clubes.
Estás a ver, Pedro, porque é que a reação do pai que encontrou o seu filho morto pode ser considerado um hino ao fascinante desenvolvimento do cérebro e da espécie humana? Seguramente ele sentiu raiva; seguramente ele quis vingar a morte do filho (primeira camada do cérebro); seguramente ele sofreu o maior sofrimento do mundo que é a perda, fora de tempo, de um filho (segunda camada do cérebro); mas teve, na hora, a sabedoria para perceber o que estava em causa e o que poderiam ser as trágicas consequências para tantos iguais a ele, para tantos iguais ao filho querido e amado (terceira camada do cérebro).
Pedro, tens razão em tudo o que dizes, mas – por favor! – nunca mais digas que não há nada a fazer. Somos o raio de um bicho que tem deus e o diabo no corpo! Sejamos sempre capazes de fazer jus ao maravilhoso desenvolvimento humano, ao nosso desenvolvimento enquanto espécie (magnífica, fascinante... diabólica)!
Um grande abraço, Pedro, de muito amizade e carinho!